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História O segredo do Kazekage - Capítulo 27


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Notas do Autor


Hoje eu não tenho muito a dizer, além do de sempre: perdão pela demora e espero que acalente vocês por algum tempo.

Boa leitura o/

Capítulo 27 - Verdades ocultas na madrugada


Fanfic / Fanfiction O segredo do Kazekage - Capítulo 27 - Verdades ocultas na madrugada

"Quando o silêncio não é tranquilo
E parece que está ficando difícil de respirar
Eu sei que você sente como se estivesse morrendo
Mas eu prometo que vou levar o mundo a seus pés
E mover montanhas

(...)

Eu vou me levantar sem medo, eu vou me levantar
E eu vou fazer isso mil vezes
Por você" (Rise Up - Andra Day)

 

Kankuro

Convencer Shijima a aceitar o tratamento não foi a pior parte. O pior foi vê-la enfrentando as consequências. E o medo de que não desse certo, pelo contrário… de que eu tivesse estragado tudo de vez.  

O mais difícil foi caminhar para lá e para cá o dia todo, com as costas retas e a cabeça erguida, sorrindo para as pessoas e fingindo que estava muito seguro sobre tudo. Que não estava apavorado. 

Mesmo com todo o meu esforço e todo o meu conhecimento, mesmo com o acréscimo das habilidades médicas da matriarca Houki — sim, por incrível que pareça, ela foi a maior incentivadora e forneceu todos os materiais de que precisei — aquilo foi uma jogada arriscada. 

Mas eu não podia vendê-la a Shijima dessa forma. E tampouco podia viver em paz sem ter tentado nada. Que ela insistisse sobre viver bem com a desesperança, me recusava a acreditar que alguém devesse existir dessa forma. 

Sobretudo a minha cunhada. A mãe dos meus sobrinhos. 

Minha família. 

Nós — e com isso quero dizer todos os cinco que sabiam — nos revezamos para vigiar, acompanhar e auxiliá-la com os efeitos colaterais. Foi um longo dia.

Aparentemente, no meio disso tudo, ela e Tenten se acertaram ao estilo de Konoha. Ou seja: mesmo um simples diálogo acaba com todos os envolvidos arrasados no final. 

Quando entrei no quarto, Tenten estava exausta e desgastada, porém se recusando a trocar de turno. Com certeza conheceu o doujutsu de Shijima. Tive que pegá-la no colo e arrancar dali, até estar confortavelmente segura em sua nova cama de hóspedes.  

Eu ainda tinha uma segunda missão: o Shinki. Não queria que visse a mãe daquele jeito, ela também não ia querer. Pelo menos não no primeiro e pior dia de pós-terapia. 

Quando eu não estava com Shijima, nem com os outros, trocando relatórios, estava vigiando Shinki e fazendo de tudo para mantê-lo distraído. Foi mesmo um ótimo dia para ele aceitar brincar com as outras crianças. Foi muito bom vê-lo podendo ser um garotinho normal, só para variar. 

O deixei brincar até tarde, até que a última mãe e o último pai tivessem reclamado seus filhos para o jantar. Nessa hora ele perguntou pelos pais. Me fiz de rogado, disse muito rápido que estavam ocupados trabalhando e dei um enfoque enorme no fato de não passarmos mais tanto tempo juntos como antes. Deu certo. Ele jantou comigo no quarto e pegou rápido no sono de tão cansado. 

Se é que podia chamar aquilo de quarto. Na verdade, se tratava de uma cama de solteiro dessas dobráveis, “de armar”, quase escondida no canto do cômodo que parecia pequeno com a enorme bancada de trabalho, cheia de itens das mais variadas finalidades e os armários fechados a cadeado com os mais perigosos. Era mais um laboratório oculto do que um quarto. 

Shijima ofereceu algo mais confortável, é claro, um quarto decente em outra ala e um laboratório, mas recusei. Seria inútil e um desperdício de recurso, eu passaria a maior parte do tempo ali mesmo. E no fim, não diferenciava muito dos meus aposentos em Suna. Gaara sempre comentava como não acreditava que qualquer ser humano pudesse pensar direito no meio do que ele chamava de zona. 

É que eu prefiro manter por perto — o mais perto possível — tudo o que considero importante. Minhas marionetes por exemplo. Isso acaba dando ao cômodo uma aparência entulhada. Gaara não, ele é mais minimalista nesse sentido.

Shinki se remexeu na cama dobrável. O garoto tem o sono tão perturbado quanto o pai, especialmente em momentos onde as coisas não vão bem num plano geral. 

Pensar no meu irmão me trouxe certa tristeza. E distração. Acabei furando o dedo com a agulha que manipulava. 

Minha última missão do dia era consertar as bonecas feridas no ponto em que a brincadeira se tornou uma aspiração a treinamentos shinobi. Shinki prometeu as amiguinhas que eu o faria e elas o deixaram destruir tudo, sorrindo. Ele nem se deu ao trabalho de perguntar antes. Aparentemente eu sou um sinônimo de hospital de bonecos ou algo assim. 

É claro que desisti de dizer às pessoas que entre uma marionete de batalha e uma boneca de pano ou plástico, tem uma larga diferença. Mais claro ainda que eu não contei sobre ter estragado a maior parte das bonecas da Temari na infância, antes de construir minha primeira marionete.

A maioria dos titereiros de Suna ganha sua primeira marionete de seus mentores, pais ou avôs. Não tive esse privilégio. Acho que meu pai sequer saberia fazer uma e se soubesse, ele nunca teria tanto tempo livre. Chiyo-Baa-Sama apesar de ser minha referência, se recusou a me treinar. E como já dizia o ditado: se quer bem feito, faça você mesmo. 

Também fui eu que fiz o primeiro leque da Temari. 

Me levantei e ajeitei Shinki nas cobertas. Não importava o quão frio fosse a noite, ele sempre acabava chutando elas para longe de si. Me peguei parado, observando o menino, divagando. Shinki poderia ser muito mais privilegiado do que eu fui. Mas as coisas tendem a se repetir de forma cruel em nossa família. 

Quem diria que Gaara acabaria caindo justamente na posição em que agora estava?

Mais uma vez meus pensamentos me levavam para o nome dele. E mais uma vez isso me dava um aperto sombrio no peito. 

Talvez eu o devesse esperar no corredor. Longe do Shinki, porém não demais. 

Ainda não havíamos podido conversar sobre tudo desde que chegamos. Aproveitar o horário da manhã em que eu bem sabia ser uma hora cheia para ele, se tratando de burocracia, para empurrar o tratamento para Shijima, foi no mínimo estratégico. No entanto, não é como se eu pretendesse ocultar isso dele para sempre. 

Não era como se eu acreditasse que poderíamos seguir o resto de nossas vidas sem conversar sobre esse assunto. 

Sobre o fato de que omiti e ajudei outras pessoas a omitirem informações tão importantes dele.

A essa altura ele com certeza já sabia de mais essa manobra. Se o conhecia um mínimo, depois de ter deixado alguma coisa passar, Gaara estaria no dobro de seus alertas. 

Eu não me arrependia das decisões que tomei e podia explicar meus embasamentos para isso, porém nem queria. Não adianta discutir sobre o que não se pode voltar atrás. Mas não conseguia deixar de me preocupar com como ele reagiria. E a demora dele em aparecer para mim, no mínimo corroborava essa preocupação. 

Demorei tanto tempo para conquistar algo que pudesse chamar de amizade com meu irmão, seu respeito e uma relação familiar digna; pensar na possibilidade de perder isso era muito triste. 

No entanto, se ele quisesse parar de falar comigo ou tentar me matar como tanto prometeu quando era criança, tudo bem. Se eu não podia dizer que me arrependia do que fiz, só me restava aceitar sua decisão.  

Acabei ficando ali dentro mesmo. Voltei para a bancada de trabalho, terminei aquela boneca. Estava partindo para uma outra que havia perdido o braço, quando ecoaram três batidas na porta. 

Inconscientemente prendi a respiração enquanto dizia para seja lá quem fosse, que podia entrar. 

“Tomara que não seja a Karin…” 

Gaara entrou vagaroso e com sua habitual economia de gestos. Notei que ele fitou Shinki com o canto dos olhos e então fechou a porta de um jeito silencioso que apenas um pai ou uma mãe faria tão perfeitamente. 

Não disse nada, sequer olhou para mim. Passou direto e se sentou atrás da cama, num canto escuro do quarto, à sombra de um dos armários onde se qualquer um entrasse no quarto naquele instante, não o veria a primeira olhada. 

Conhecendo o estilo dele, se quisesse me matar, teria feito isso antes de passar da soleira da porta. Gaara só enrola se julgar que precisa por estratégia ou se estiver fora de si num nível passional onde quer que sua vítima sofra. Ele não tem mais doze anos. 

Não tão silencioso quanto ele, saí de onde estava e me abaixei sobre os calcanhares ao seu lado. Encontrei meu irmão sentado no chão com o rosto apoiado nos joelhos. As pernas envoltas num abraço que as trazia para perto do corpo. 

— Cara, você ‘tá bem? 

Pus uma mão sobre seu ombro e a ponta dos meus dedos resvalaram em uma parte de sua pele que a roupa não cobria — isso porque ele estava vestindo algo mais casual, calça e casaco sem gola, só, ambos pretos. Levei um susto e envolvi as duas mãos em seu pescoço: muito quente para um horário tão frio, apesar de não estarmos em Suna ou em pontos mais críticos do deserto. 

Ele virou o rosto para mim, ainda se apoiando nos joelhos. Os cabelos lhe cobriram quase os olhos. 

— Você não está bem. — Decretei. 

— Estou cansado. — Foi tudo o que ele disse. 

Comecei uma ladainha sobre estarmos numa tribo especializada em medicina e onde os hospitais funcionavam vinte e quatro horas. Ressaltei o fato de que não faziam nem três dias de que ele havia flertado com a morte pela última vez. Ele rebateu apenas um “tomei um antitérmico, vai passar”. 

— Foi criado por um médico, casou com uma médica e se automedica. Parabéns, ‘tá sabendo legal. — Babei ironia. 

Talvez minha reação tenha sido um pouco desmedida. Mas é o meu irmão caçula, há de se compreender que eu acredite que ele não sabe cuidar de si mesmo.  

No fundo, eu sabia que ele não estava doente nem nada do tipo. A verdade é que ao longo da vida, Gaara ficou doente poucas vezes e nunca algo muito grave. 

Vê-lo no hospital por muito tempo ou precisando de grandes intervenções, sempre significa que se excedeu em batalha, morreu e ressuscitou ou chegou perto disso. O que acontece mais com ele do que qualquer pessoa consideraria normal, mesmo no mundo ninja, também há de se ressaltar. 

Contudo, febre era algo comum para ele. Acontecia mais quando ainda era um jinchuuriki. A princípio pensávamos que tinha a ver com o esforço de controlar o Shukaku, por isso esperamos que não tornasse a ocorrer depois da extração. 

Mas Gaara estava com febre no funeral da vovó Chiyo. Assim como na noite anterior a viagem para a reunião dos cinco Kages no País do Ferro e até uns cinco minutos antes daquele discurso improvisado que acabou fazendo para a Aliança Shinobi. 

Eu poderia continuar citando uma série de outras ocasiões, onde subitamente, sem nenhum motivo clínico, isso aconteceu. A febre mais alta que já vi meu irmão ter — ele mal conseguia abrir os olhos pela dor de cabeça — foi na véspera de seu casamento. 

É mais fácil resumir: Gaara tem febre emocional.  

Não era de se admirar que ele estivesse perturbado a esse ponto, considerando tudo o que vinha acontecendo e o acréscimo das novas informações. 

Se Temari estivesse ali, eu não ficaria tão preocupado. Ela sabia manejá‐lo bem nesse aspecto. Inclusive, jurava que várias vezes havia conseguido fazer a febre passar com placebo.

Mas ela não estava e devíamos parar de contar e lamentar sobre isso. Nossa irmã seguiu com sua vida, ela estava feliz, então não importava a distância que se construiu. 

Ok Gaara, somos só eu e você. E vamos dar um jeito em mais isso. A gente sempre dá… 

— Eu só vim te agradecer. — Ele disparou de repente, quebrando o silêncio que eu mal percebi estar fazendo.

A verdade é que eu devia estar com uma horrível cara tensa de quem procura o que dizer, sem achar nada. 

— ‘Tá tentando me punir com psicologia reversa? ‘Tá me agradecendo por ter te sacaneado pra ver se eu admito e me desculpo? Se for, podemos pular essa parte...

— Não foi isso o que aconteceu. — Gaara rebateu. A voz cheia de cansaço, ele nem abriu os olhos para falar. 

Sussurrávamos, obviamente por causa do Shinki. 

— Não está bravo? Nem um pouco? Nem com a Shijima? 

— Tudo bem… — Ele começou como quem diz “eu vou desenhar pra você”, num tom apressado e mecânico — Sim, ela se afastou, se arriscou, se envolveu num conflito que desencadeou uma série de eventos problemáticos em cascata e me escondeu as informações mais importantes possíveis. E você a ajudou nisso. Talvez ela nem tivesse conseguido ir tão longe sem você. Mas quem é realmente responsável por tudo isso? 

— ‘Peraí cara, calma. Que merda está tentando dizer?

— Engraçado você ter se metido nisso, se não entende…  

Ele sacudiu a cabeça numa negativa e crispou os lábios num quase sorriso. Sem a menor alegria.   

— Vocês fizeram tudo isso nas minhas costas, porque não confiaram em mim o suficiente. E a culpa não é de vocês, é minha. Esse era o meu papel, era o mínimo. Eu devia ter sido uma figura que inspirasse confiança, em todos os sentidos que essa história traz. Então isso quer dizer que falhei em todos eles, com todos vocês. Falhei como Kazekage, como marido, como amigo… Como irmão e como pai. A Tenten mal se aproximou e eu já falhei com ela também. Eu sinto muito por isso. E eu te agradeço por ter sido mais sensato e mais corajoso do que eu. Você fez a coisa certa, obrigado por ter feito. Não acredito que me tornei igual ao papai, no final.

Suspirei todo o ar que involuntariamente fiquei segurando enquanto ele falava. Senti meus músculos darem uma leve reclamada de tão tenso. Eu odiava vê-lo daquele jeito, muito mais do que odiava vê-lo furioso. Ter agido como vilão por tanto tempo e o caminho que trilhou para se redimir, tornaram Gaara muito autocrítico. 

Talvez eu preferisse que ele tivesse entrado ali tentando me matar.

Quem diria que um dia uma coisa dessas passaria pela minha cabeça. Meu próprio irmão foi meu primeiro e maior temor durante toda a minha infância e até um pedaço da adolescência. Mas olhando para ele naquele instante, daquela forma, parecia tão ridículo o ter considerado assim. 

Então ele entendeu sozinho no final. 

É irmãozinho, crescer dói. E crescer com tanto poder e tanta responsabilidade dói mais ainda. Quando erramos enquanto crianças a culpa não é só nossa, mas quando erramos quando adultos… 

O empurrei um pouco para o lado e ele se deixou arrastar sem objeções até a parede onde apoiou um ombro e a cabeça. Me encaixei sentado ali também. Ambos acomodados naquele deprimente canto escuro, passamos alguns minutos sem dizer nada. 

— No melhor cenário possível, se hoje eu tivesse resolvido tudo, se tivesse desmontado o esquema do Azumi, ele estivesse morto e a Aliança estabilizada, eu ainda não conseguiria deitar tranquilo a noite. 

— É a Shijima, não é? Eu sei, é difícil digerir.

Ficou um silêncio estranho por uns segundos. Pesado. Desses que criam um nó na garganta com as todas as palavras que deixa implícito.

— Não é justo, Kankuro...

Sua voz embargou e ele pausou mais um instante. Retomou melhor. Falsamente melhor.

— Shijima nunca teve facilidades na vida, nunca realizou um grande sonho. Tudo o que faz desde que nasceu é lutar para sobreviver engolindo injustiças. Passados como o nosso não descansam facilmente, afinal. Eu só queria que esses meses, sendo os últimos ou não, tivessem alguma glória além de dor e mais luta, para ela. Eu sempre só quis que ela fosse feliz...

Ele esfregou a mão rápido no rosto, como se fosse possível disfarçar. 

Eu devia ter imaginado que esse era o seu sentimento. E confesso, fiquei muito feliz em ouvi-lo dizer "sendo os últimos ou não". Significava que ele também não conseguia matar por completo o desejo de uma reviravolta. 

Soltei uma mão pesada sobre seu ombro e o fiz me olhar.

— Ah vamos, Gaara, Kami mora nos detalhes, todo mundo já ouviu esse ditado. Se mais nada der errado no caminho, ainda temos pelo menos dezoito semanas antes do parto. Shinki comentou que quer fazer uma lista, mas Shijima não quis acrescentar nada. Eu gosto dessa ideia. Está casado com ela há cinco anos, tem que saber do que ela gosta, aonde quer chegar, essas coisas. Lhe daremos essa felicidade nesses dias, mesmo que em pequenas doses. É isso que uma família faz. 

Gaara me estendeu um pequeno sorriso ladino, apesar de todo o restante da expressão permanecer triste.

— É mais fácil listar do que Shijima não gosta, do que pequenas coisas com as quais ela realmente se importe. Quero dizer, ela gosta de iogurte de morango e doces com essa textura, mas isso não é uma lista, é um pequeno item. 

Não pude deixar de rir e me perguntar se ele também já ouvira a tal história do iogurte e da colher de plástico que Karin contou mais cedo. 

Nem de imaginar quão gore eram as conversas nostálgicas desses dois sobre a primeira fase da juventude. 

— Ok, então me diga os grandes anseios dela e tentamos dissecar isso numa lista. 

— Ah Kankuro… — Ele esfregou a mão na testa. Estava suando, o antitérmico começava seu trabalho — Todo esse tempo se sacrificando para ajudá-la na surdina e não entendeu? 

— Quando se trata da família, eu só ajudo, não faço perguntas que não fariam diferença. Honestamente? Foi a experiência com você que me ensinou isso. 

Mesmo na penumbra, achei tê-lo percebido ficar sem graça. Ele me pediu um copo d'água, me levantei questionando como se sentia. Apenas recebi um sacudir de mão e um menear de cabeça. Um "deixa disso"

Voltei com a água e um pano úmido, enquanto ele bebia, me pus a limpar o suor de seu rosto e pescoço. Inclinei sua cabeça apoiada na cama e deixei a toalha sobre sua testa, na esperança de que ajudasse a baixar a febre. 

— O propósito da Shijima é e sempre foi a liberdade. — Gaara finalmente respondeu. 

— Liberdade, hum… — pensei alto e me apoderei do fim da água que ele não quis — É um conceito muito abrangente, difícil dissecar isso. 

— Fica pior. — Ele me olhou de canto de olho e ao encontrar minha expressão confusa, ponderou — O que é liberdade para você?

Nem precisei pensar muito.

— Não ter sido obrigado a assumir o seu cargo.

Ele engoliu uma risadinha.

— De nada. O caso é que para Shijima, liberdade significa poder.

— É… Faz sentido. É bem o perfil de alguém que deu a mão ao Orochimaru. Ainda que ela fosse uma criança, não dá pra imaginar aquele sociopata oferecendo doces para conquistar confiança. 

“Shiiiu”, Gaara fez de repente, levando o indicador aos próprios lábios. 

Shinki ficou agitado na cama e murmurava alguma coisa. Nada muito compreensível, mas parecia a língua nativa da tribo Houki. As luminárias da minha bancada de trabalho piscaram e senti os pelos do braço arrepiarem. 

Tendo convivido boa parte da vida com meu pai e quase todo o resto com Gaara, não precisei perguntar qual era o problema. 

Gaara se levantou, tomou o garoto nos braços e se sentou na cama com ele acomodado no colo. Me pus também de pé e ajeitei as cobertas sobre os dois. 

— Ele reagiu bem quando contamos, mesmo assim é muita coisa. Ele é só uma criança… — Meu irmão comentou; a voz lavada de uma tristeza que ambos conhecíamos melhor do que ninguém. 

Seus dedos corriam pelos cabelos do Shinki de forma devota. Sua testa possuía um franzir preocupado além da tatuagem. Aposto que ele também tentava imaginar o que Shinki estaria sonhando. 

— Quer que eu chame o Neji? 

Gaara apenas ergueu o rosto para mim, mas de um jeito que quase rosnava “é o meu filho”. 

— É que você não está muito bem e foi o Neji quem resolveu da última vez… — Tentei remendar. 

— Ele não está no nível daquela noite e eu estou bem o suficiente para lidar com isso sozinho. Não podemos nos acostumar a pedir tudo para o Neji, no final somos nós quem teremos de treinar o Shinki para se controlar sozinho. Neji não estará aqui para sempre. 

Me sentei na ponta da cama com um suspiro resignado. Gaara tirou do pescoço um cordão que eu não o tinha notado usando, por estar debaixo do casaco. Eu também conhecia bem objeto. Havia pertencido ao papai. 

Ele fechou os olhos e o desfez até que não passasse de pó de ouro em sua mão. Uma leve expressão de dor tomou seu rosto. O pó de ouro se dissipou numa brisa e se uniu ao Shinki como se puxado por um ímã.

Se espalhou e impregnou no menino que parecia ter brincado com um pote de glitter. Ele se acalmou instantaneamente.  

No início, bem no início da nossa infância, eu era encantado pelo magnetismo do Gaara. Nos raros momentos em que nosso pai se distraía e podíamos nos esbarrar no terraço, passavam-se horas comigo pedindo para que ele moldasse uma série de coisas com a areia e ele jamais me dizia não. 

Agora, adultos, eu tornava a admitir achar os jutsus do meu irmão caçula incríveis. Gaara tinha uma elegância inegável em seu estilo. E era fácil admirá-lo uma vez que enfim tínhamos orgulho um do outro. 

Eu gostaria que ele usasse mais o Estilo Ímã do papai, porém sabia o quanto ele não gostava. Compreensível, eu também não gostaria se esse jutsu sempre tivesse sido usado para me atingir. 

— O que houve com seu braço, cara? Já é a segunda vez que te pergunto… 

Foi a vez dele de suspirar resignado. 

— Quando fiz o corte para ressuscitar o Neji, danifiquei demais os nervos. Shizune recomendou uma cirurgia e algum tempo de fisioterapia. Estou esperando Shijima se estabilizar o suficiente para criar uma solução mais rápida. 

— Por que acha que ela confrontaria o prognóstico da aprendiz da Tsunade? 

— Precisamente por ser a aprendiz de alguém bem menos cauteloso. 

Não gostei da ideia. A mera menção da existência do Orochimaru me era um incômodo. Por mais disfuncional que tenha sido, sobretudo para o Gaara, ou por mais erros que tenha cometido, o Quarto Kazekage era o meu pai. Perdoar o Orochimaru por tê-lo tirado de nós, não estava ao meu alcance. 

Nada no qual sua referência pudesse estar envolvida me soava bem. Nada.  

Mas preferi não entrar nesse âmbito, não nessa noite. 

— Gaara, se quer tanto ser diferente do nosso pai, devia seguir seu coração. Foi apenas isso o que ele não fez. No fim, acho que não o faltava amor, faltava a coragem de priorizar isso estando com tanto peso nas mãos. O mesmo que você tem agora. Seja mais ousado e não tente bancar o herói solitário. Não precisa enfrentar tudo sozinho, já estamos todos envolvidos nisso. Confie em nós, confie em si mesmo. Conhece a Shijima muito bem, sabe o que ela quer e o que disso você pode dar. Do jeito torto dela, de quem conheceu o pior da vida tanto quanto nós, ela te priorizou por muito tempo e para falar a verdade, ainda sinto parte dela fazendo isso. É a sua vez de retornar o favor. Sei que sabe de todas essas coisas e elas são parte do motivo pelo qual está tão abalado, mas só quero dizer que não precisa se estrangular, você já tem todas as respostas, só não está se ouvindo. Faz muito isso aliás, devia se analisar melhor. Você é o mocinho agora, cara. Esse arquétipo sempre ganha nesses enredos épicos

Ele sorriu sincero, contendo uma risada. Gaara passou a sorrir mais conforme o passar dos anos, porém ainda era algo que se podia chamar de raro. Por isso mesmo era ótimo vê-lo fazendo. 

— Você assiste filmes demais… — Ele começou num desdém fingido — E está meio certo. Não que seja tão fácil, quanto fez parecer, mas tem razão. Eu sei o que posso fazer pela Shijima. 

E quando achei que isso o faria relaxar por hora, ele abaixou a cabeça.

— Ah vá, como você é dramático, põe quilos de dificuldade a mais em tudo, que Inferno… 

Até mesmo os irmãos mais velhos mais comprometidos precisam perder a paciência em alguns momentos. Fui para o seu lado e me deitei na ponta da cama. Ele fez a gentileza de se espremer um pouco, reajeitar Shinki nos braços e jogar parte das cobertas para mim. 

— Se agora está pensando na Tenten, cancela. Esse é o clássico conflito dos romances que podia ser resolvido com um diálogo. Pelo que eu entendi, a Shijima já até fez parte desse serviço para você, veja que privilégio. Só não enrola muito, vai lá, pede desculpas, se explica e promete que não vai mais torturar ninguém na frente dela, nem agir como um babaca, se puder evitar. 

Ele tornou a dar um riso curto, mas dessa vez sem divertimento algum.

— Vê mesmo um futuro onde possamos desenvolver isso? 

— Não precisa casar de novo e pelo amor de Kami, não me dê mais nenhum sobrinho. Em breve teremos trens e podia tirar mais dias de folga, ela também… Shinobis não deviam ser aqueles que desafiam o impossível? Quero dizer, você trouxe o Neji de volta à vida plena e acha difícil ficar com alguém que gosta e está se esforçando por você, apesar de todo esse cenário? O que são três dias de viagem e uma tensão diplomática para quem tem a vida inteira? Quisera Neji e Shijima terem uma oportunidade dessas.

Gaara respirou fundo, endireitou a postura e estalou os dedos. Entendi que devia me calar. Ele estava pensando, ponderando tudo o que ouviu. Não se pode dar muito sermão ao Gaara de uma vez só, ele processa aos poucos. Provavelmente levaria o raciocínio até o dia seguinte e até lá terá traçado todas as variáveis possíveis. 

Não importa o quão envolvido com algo ele esteja, a criação quebrou algo em sua mente que desisti de esperar algum conserto. Ele nunca deixaria de pensar e sentir o mundo como um general de guerra. 

Me contentei com o fato dele já ter entrado ali numa linha de posicionamento melhor do que eu tinha imaginado. Ter me ouvido dizer tudo aquilo foi um grande bônus. 

Engraçado quando se tem tanta intimidade com alguém que ninguém precisa decretar o fim da conversa para senti-la. E não se ergue um clima desconfortável. Pelo contrário, estávamos muito bem, apertados naquela cama ridícula. 

Pelo menos estávamos juntos. Como a família que sempre deveríamos ter sido.

— Devia tentar dormir, está tarde. Seu dia não será menos cheio amanhã do que foi hoje e precisa se recompor. Não adianta só tomar um remédio, precisa colaborar com seu corpo. 

— Eu sei, eu sei… 

Me segurei para não rir alto porque era mais hilário do que o suportável, alguém tão austero como Gaara, agindo como um caçula de saco cheio da superproteção — que no fundo ele adora, todo mundo sabe.

Com um único movimento de dedo, estiquei uma linha de chakra que apagou as luzes das luminárias. Dei boa noite, mas ele não respondeu. Então perguntei no que estava pensando para estar tão distraído — torcendo muito para que não voltasse nos assuntos já debatidos. 

Abri um sorrisinho mesmo sabendo que a escuridão o manteria oculto, quando ele disse:

— Matsuri… Espero que esteja mais tranquila, agora que finalmente está onde queria. 

Matsuri

Num dos corredores do prédio principal da Tribo Houki, me despedi do meu Sensei com muita pressa. 

O amo com toda a minha gratidão e todo o meu respeito. Gaara-Sama é a família que me escolheu quando eu pensei nunca mais ser possível me sentir parte de algo assim. Porém, a verdade é que quis antecipar essa despedida o dia inteiro. 

Entendo seus motivos para ter me segurado. Fazia muito tempo que eu não prestava serviço para Sunagakure e essa é a bandeira a qual respondo. Venho agindo como uma péssima aluna, principalmente sendo sua única aprendiz em todos esses anos. Venho passando um péssimo exemplo de insubordinação e pipocam rumores entre o corpo ninja de toda a aldeia, sobre ele passar a mão na minha cabeça numa espécie de nepotismo.

Era preciso mostrar serviço ao seu lado, ainda que não estivéssemos em Sunagakure — o que honestamente não fazia diferença, fofoca ultrapassa quilômetros se precisar. E ficaria registrado na documentação do dia, é claro. 

Mas no fundo, eu bem sabia que ele precisava mesmo de mim era para manter a sanidade perto da matriarca do clã Houki. 

Essa mulher é especialista em sugar a paciência e boa vontade de qualquer um. Mesmo jurando que adora seu genro.

Mas essa compreensão racional não conversava de acordo com meu coração. Meus sentimentos ganharam a discussão o dia inteiro e a desgraça do tempo pareceu se arrastar, quando tudo o que eu queria era estar com a Shijima. 

Gaara-Sama precisou ser muito firme comigo para me impedir de entrar no quarto do Kankuro junto com ele e esganá-lo até que ficasse azul. Como assim ele a convenceu em fazer um tratamento arriscado sem falar conosco? Como assim ele sequer teve a cortesia de nos chamar para estar lá? 

Todo esse tempo monitorando cada suspiro diferente que ela desse e em algo de tamanha proporção, eu não estava lá. Demoraria uns mil anos até que eu o perdoasse por isso. E ele ainda nos faz sermos avisados por aquela bruxa velha! 

Eu podia jurar que ela sentiu o cheiro do nosso desespero e redobrou seus esforços para nos enterrar em burocracia administrativa. 

Gaara deu seu melhor. Ele me disse todas as frases de consolo e calmaria possíveis. No fundo eu também sabia que ele estava dizendo para si mesmo tanto quanto para mim. 

Eu caminhava tão rápido pelos corredores que meu chakra se agitava e corria para se concentrar nos pés. Até que uma silhueta vinda da direção que eu pretendia alcançar, me fez desacelerar. 

Senti me descer pela garganta o gosto amargo da constatação: não importa o quanto um dia esteja ruim, ele sempre pode piorar. 

— Que sorte! — Disse a safada ao me enxergar — Eu estava indo trocar de turno com o Neji, mas você deve preferir fazer isso. 

O tom de malícia no fim da frase só me deixou mais puta da vida. 

— O que está fazendo aqui, Karin? 

Apesar da animosidade, não era como se eu estivesse surpresa. Em outras palavras, eu já sabia que ela estava na tribo. 

Em dado momento ao longo do dia, meu Sensei comentou sentir um chakra diferente que lembrava o do Naruto. Não precisamos de mais para entender de quem se tratava, não é como se existissem centenas de Uzumakis por aí. Sobretudo, segundo Gaara, Naruto não seria tão sutil numa tentativa de camuflagem por tanto tempo, ainda mais assim, a vista de todos, como se fossemos otários.    

Ou como quem não tem nada a perder mesmo. 

Por mim eu teria saído correndo e a devolvido para a custódia de Konoha no chute, no minuto em que ele disse. Entretanto, Gaara-Sama ponderou que Shijima sempre falou de Karin como uma espécie de melhor amiga. Devíamos deixá-la dar o primeiro passo em lidar com isso. 

E foi justamente esse o argumento da safada.

— Não entendo qual é o seu problema comigo. Sua senhora me considera uma amiga, porque não faz o mesmo? Afinal, eu nunca te fiz mal algum. 

Inspirei profundamente todo o ar que consegui. Fechei os olhos um segundo, deixei o chakra se espalhar e encher meu plexo solar. Soltei devagar como a fumaça de um cigarro. Ergui os braços para um gesticular calmo. 

Pois ela queria cordialidade e explicação, não é? 

Justo. Nada mais justo. 

Minha mãe sempre dizia para usar as palavras se pudesse escolher. Isso antes de ser brutalmente assassinada, é claro. 

Pois vamos lá. 

— Bom, Karin, é o seguinte: Eu não gosto de você, não sinto verdade em você, acho você, sim, incoerente, você está onde te convém, em todos os seus jeitos, falas, andados, posicionamentos e etecetera. Acho você uma falsa, acho você extremamente sem educação, extremamente grossa com as pessoas e extremamente soberba. Ah! E depois de tudo o que já aconteceu no mundo ninja, você ainda trabalha para o Orochimaru. Não é estranho que eu pense que se está aqui agora, tem a ver com ele. E nem que ele seja a última criatura do mundo que eu quero ver perto de quem você chamou de minha senhora. Eu não confio em você. Acho que é só isso mesmo, espero que tenha ficado bem claro e bem explicado. 

E passei reto por ela achando uma pena que tenha desviado, porque eu adoraria um motivo para derrubá-la. 

— Preciso ir, você não é minha prioridade. — Completei enquanto caminhava, dessa vez muito calma, sem correr. — E cancela essa história de troca de turno. Eu assumo daqui, não preciso disso. 

Ouvi a risada dela seguida da exclamação:

— Devia ser espertinha assim e usar essa sua desenvoltura com a língua pra buscar seu prêmio e sair da friendzone!

Preferi nem me virar para ela, melhor não desviar do meu caminho. 

Mas não resisti em lhe mostrar o dedo do meio. 

Fui ouvindo sua risada até virar na curva das escadas para o próximo andar. 

Não bati na porta porque pelo que entendi era óbvio que Shijima não poderia atender. Porém não esperava encontrá-lo vazio. 

Agucei minha atenção antes de me desesperar. A porta do banheiro estava entreaberta e a luz dali acessa. Me precipitei para lá afoita; a encontrei sentada no chão. 

Os olhos vendados, os negros cabelos soltos lhe cobrindo quase toda a frente do corpo, a cabeça inclinada para o lado num ângulo assustador, como se não possuísse força o suficiente para sustentá-la. 

O que era provável ser verdade. Shijima puxava o ar com pouca força num espaço muito grande entre as incursões. Tremia. 

— Senhora? O que aconteceu? Que está fazendo aí?

Corri até ela e passei um de seus braços ao redor dos meus ombros. Ela apoiou a cabeça em meu colo e deu um sorriso de canto. 

— Pensei que tivesse perdido meu anjo da guarda, agora que não estamos mais em campo…  

Havia um resquício de seu sarcasmo habitual no tom fraco de sua voz, mas algo em mim quis acreditar que de alguma forma, eu a fazia se sentir em casa. 

A explicação que recebi — sob certa insistência — era tão típica dela que me fez sentir estúpida por ter perguntado. De Shijima você sempre pode esperar que ela opte por se machucar tentando enfrentar um limite do que se preserve e fique sem conhecê-lo. Ela só não quis chamar Karin de volta para ajudá-la a chegar até ali, uma vez que esta tinha acabado de sair. 

— Está tudo bem, colocarei a senhora de volta na cama. 

Não segui com meu intento, pois a senti tentar resistir.

— Existe alguma coisa, qualquer coisa, que eu possa fazer para me chamar apenas pelo meu nome? 

Deixei escapar um riso curto, porém não disse nada. 

Eu não podia dizer que o motivo pelo qual eu a chamava assim, era porque reservava a ocasião de lhe dizer seu nome puro, livre de pronomes de tratamento rebuscados ou formalidades distantes, para o dia em que finalmente a dissesse como me sentia a seu respeito. 

Não era o momento de dizer isso. Ainda. 

Nem de pensar se ela poderia corresponder. 

Quando a peguei nos braços e me pus de pé, ela deu uma risadinha. 

— Não devia gastar sua força em vão, devia me deixar aqui. Eu vou precisar voltar mais vezes…   

Ela disse de forma tão infeliz e cansada, que me despedaçou o coração.

— Não treinei taijutsu à toa, não se preocupe. Eu te carrego de volta quantas vezes precisar. 

A pus no colchão devagar, com o cuidado de quem manipula algo frágil. Ainda que essa palavra passasse muito longe de representá-la. Me virei um segundo para pegar os cobertores no pé da cama e a ouvi comentar, como se pensasse alto. 

— Eu sei que é um momento horrível, mas vai ficar tudo bem, seu tio não faria nada que te prejudicasse, ele gosta muito de você… 

Quando tornei a olhá-la, Shijima havia deixado uma mão repousar sobre o próprio abdômen. 

Cheguei a me forçar numa sequência de piscadas, precisava ter certeza de não estar alucinando. 

Não, não estava. Aquilo aconteceu de fato. 

— Isso é… Fantástico! Chegamos nesse ponto?

— Não é nada demais, não comece uma cena por isso. — Ela me rebateu tentando retomar sua postura de distância. 

Tarde demais, não funcionou, não me faria desmanchar o sorriso. 

É que a princípio, Shijima não lidou muito bem com a questão. Até aquele presente momento, ela apresentava uma resistência enorme a tocar e ver o próprio corpo e absolutamente não falava com a filha. 

Falávamos sobre o bebê e seu futuro, mas sempre nesses termos, planejamentos. Ela queria ter certeza de ter preparado todo o possível para que sua menina tivesse a vida mais segura e diferente da sua possível, no entanto, agia como se nada mais fosse do que uma incubadora — apesar de odiar o conceito vindo de fora. Quase uma jinchuuriki.

Mas não era como se ela rejeitasse a criança. 

Era uma longa história… 

Para começar, eu praticamente tive que esfregar o diagnóstico na cara dela. Precisei de muita paciência e didática para ir levantando o assunto aos poucos, aproveitando toda a oportunidade possível para sugerir, começando da extrema sutileza até a ênfase exagerada. 

Não adiantava. Ela apenas me cortava ou me deixava falando sozinha. 

Acompanhei ao lado do meu irmão, todas as tentativas frustradas deles de terem um filho biológico. Acompanhei não só as perdas, a dor e o luto, como os começos. As descobertas, as esperanças. Em resumo, quero dizer que eu a conhecia o suficiente para notar seus sinais de alarme. 

Ela também se conhecia, evidentemente. Mas Shijima possui uma gravíssima cegueira seletiva. E se não me engano algum pensador já disse a grande verdade; não importa o quão geniais elas sejam, as pessoas não veem aquilo que não estão procurando. 

Chegamos ao ponto em que já fazia mais de uma semana que ela não conseguia segurar o café da manhã no estômago e por fim parou de tomá-lo. Eu simplesmente joguei meus frascos de perfume fora, a esperança de conseguir usá-los ao lado dela era inútil e já estava quase adquirindo a habilidade de prever quando ela teria uma queda de pressão. 

Digo isso só para ilustrar, a verdade é que nós duas queríamos que tivesse sido um começo tão simples. Os sintomas não eram mais preocupantes que o fato de estarmos em campo, no meio de uma missão auto imposta com potencial catastrófico. 

Nossa — tudo bem, dela. Mas se comprei, passou a ser minha também — investigação sobre as pontas soltas do trabalho nefasto do Orochimaru havia finalmente chegado no esquema do Azumi. 

De fato, um timing horrível. 

Um dia conseguimos marcar uma conversa com uma ex-cobaia que, aparentemente, havia se desvencilhado do Azumi e estava disposto a trocar informações por asilo e proteção. Podia ser mentira, e é claro que eu repeti isso milhares de vezes ao que ela só devolvia “tudo bem se for, ele não precisa falar por bem”. 

Entretanto, ela não estava tão segura quanto fazia parecer. Para minha surpresa a conversa corria muito bem e mesmo assim tinha algo em sua postura que não relaxava. 

Eu não sabia dizer se sua companhia também notava essa nuance de comportamento, eu a analisava e observava tão de perto, há tanto tempo que minha percepção sobre Shijima já não se podia julgar como um parâmetro geral. Nesta ocasião eu me encontrava afastada da conversa, em contenção, para não intimidar o informante. E eu definitivamente não esperava que ela o matasse, no meio de uma frase, apenas porque ele deu um passo à frente. 

Quando a alcancei, suas mãos sujas de sangue tremiam em contraste com o resto do corpo, muito estático. 

“Você está certa.” — Foi tudo o que ela me disse. 

Não precisei perguntar porque ela matou o cara. Era óbvio, pelo menos para mim. Não foi uma decisão racional, foi puro instinto. De alguma forma, todas as variáveis do assunto que pairavam e eu vinha fazendo questão de martelar em sua cabeça ao longo dos dias, se firmaram forte demais dentro dela para continuar a ignorar, justo naquele momento. 

E ela não pode se impedir de sentir tudo o que vinha acumulando, tampouco de extravasar. Os mais honestos sentimentos primários de Shijima sobre o assunto foram um puro e legítimo medo, unidos de uma tristeza sombria. 

Deixamos o corpo num lugar seguro onde sabíamos que eventualmente, Gaara o encontraria para destruí-lo. Ele vinha cobrindo nossos rastros às custas de um grande sofrimento pessoal, o que naquele instante era apenas mais um fator para fazê-la se sentir péssima. Shijima se manteve em absoluto silêncio o caminho todo e quando enfim chegamos aonde estávamos acampadas, ela me mandou arrumar tudo e achar outro lugar. 

Eu me ocupei com isso e ela sumiu de vista por quase dois dias inteiros. Não surtei porque encontrei um recado ou outro. Ela retornou com um teste já feito. Ele confirmava minha teoria. 

“Voltaremos para Sunagakure?” — Me lembro de ter perguntado, procurando evitar dizer as cruciais palavras “vai contar para ele?”.

“Por que eu lhe daria uma notícia inútil? Saber só o traria mais sofrimento. Não vai durar, como não duraram nenhuma das outras. Estou mais doente agora do que estava naquela época. E o que estamos fazendo aqui é importante. Eu estava pensando se dessa vez, não devia adiantar o processo...”

Sim, ela chegou a cogitar um aborto. Eu pontuei que estaria com ela não importava a decisão que tomasse, mas que a conhecia o suficiente para acreditar que não ficaria em paz se tirasse de si mesma a chance de saber se, por acaso, essa não teria um final diferente. 

O debate se estendeu para longo dos dias. Eu sempre assegurava que podíamos mapear o que foi feito das outras vezes e deu errado, acrescentar os novos conhecimentos que tínhamos, tentar algo ainda mais novo. Ela me questionava que tipo de futuro essa criança teria, porque devia fazer tanto esforço para obrigar mais um inocente a sofrer nesse mundo. 

Foi quando devolvi que estava disposta a aprender tudo o que ela me ensinasse e a seguir qualquer caminho que ela escolhesse. Foi quando me dispus a ser a guardiã da criança. Ainda que isso me afastasse da família que me escolheu em Sunagakure e que nunca mais pudesse atuar como kunoichi oficialmente. 

Evidente que ela me questionou porque eu iria tão longe. Eu disse “porque meu Sensei me ensinou a usar minha força para proteger o que é certo.”, mas o que Gaara realmente disse quando me aceitou como aluna, num passado onde eu ainda tinha fobia de tocar numa arma, foi que “de todos os propósitos que pode ter uma arma, o único que deveria seguir é o de proteger aqueles que você ama”.

Então ela assumiu, como sempre, que tudo o que eu fazia era por ele. Por gratidão, amor fraterno e lealdade. Porque ele não poderia fazê-lo com os limites de sua posição e os que ela mesma impunha, mantendo-o a distância. E isso até podia ser verdade, mas não uma maior do que o fato de que eu fazia por ela

Porque ninguém mais faria e porque eu não poderia me impedir de lhe dar qualquer cuidado ao meu alcance. 

Eventualmente ela cedeu e decidiu levar adiante, porém, no fundo, ainda existia um grande temor daquilo terminar como as primeiras tentativas. Os primeiros três meses foram muito dolorosos de assistir, ela tentava com todas as forças não se envolver com esperanças e a cada semana que nada de terrível acontecia, a surpresa crescia abafada de temores. Shijima se levantou à noite para tentar chorar longe de mim, tantas vezes que parei de contar. Eu nunca resistia em estragar seus planos e ir abraçá-la. 

Mesmo depois de Kankuro e seus pais se envolverem na situação, ela acabou não abandonando essa postura de distanciamento.        

Por isso, nesse instante da noite alta, no presente daquele quarto, soou muito especial vê-la externar como de fato se sentia. 

Fui também para baixo das cobertas, me deitei ao seu lado, estiquei o braço num gesto automático e ela se esgueirou até repousar a cabeça sobre meu peito. Todo nosso tempo juntas em campo, felizmente trouxe esse costume. Eu já não sabia mais o que era dormir sem segurá-la. O hábito veio de todas as vezes em que tínhamos tão pouco espaço que era isso ou nada, ou de quando as noites eram tão frias no deserto que apenas os cobertores não davam conta. 

E do tanto que eu me esforçava para lhe parecer um ponto seguro. De todas as vezes que as batalhas lhe fizeram se deitar ferida e eu a acolhi até tudo passar. Eu também já não precisava mais perguntar se podia tocá-la. Ainda que eu fosse passar a noite longe ou de guarda, precisava dar um boa noite ao bebê para me sentir tranquila.

Minha filha. Gaara a chamou de minha filha… Isso tinha que parar de ecoar em minha mente. 

— Entendi o que quis dizer… — Me referi num ar risonho, ao seu comentário — Ela está agitada hoje.  

Shijima nada disse, mas o modo como sua respiração soava pesada me dizia estar incomodada. 

— Ainda não se sente segura de que vai ficar tudo bem com ela? 

— Vai ficar. — Pela primeira vez sua voz soava assertiva sobre isso, apesar de permeada de um extremo cansaço — Com ela, vai. Mas não ficará comigo. Eu vou morrer, Matsuri. Não serei a mãe dela… 

— Acha mesmo que o tratamento de hoje, não funcionará? 

— Não pode me comprar muito tempo. Acho que nenhum de vocês pensou que isso torna a despedida mais difícil. Para todas nós. 

— Evitar demonstrar não muda como a senhora já se sente. Se não há nada que possamos fazer para evitar, então não deveríamos sofrer por antecedência ou tentar manipular isso. Não tente tirar nada da sua filha ou do Shinki. Não os estará preservando assim, tampouco a si mesma. A avó dos seus filhos viu seu último bebê por menos de cinco minutos, mas o amou com tanta força nesse tempo que isso o protege até hoje. Acha que ele queria que fosse diferente?  

Mais uma vez, não obtive resposta verbal. Porém eu também gostava do seu silêncio, eu sabia interpretar a diferença entre todos os seus tipos de ausência de som. E aquele era um bom silêncio. Eu a senti sorrir pequeno sob a parte da minha pele que lhe abrigava.  

Me surpreendi com sua mão vasculhando meu pescoço. Precisei me alertar repetidas vezes de que aquele toque não significava para ela o mesmo que eu gostaria que representasse para mim. 

Gostaria de ter podido impedir minha pele de arrepiar.

— Cadê a sua bandana? — Ela questionou.

— Com o Kazekage. Fui suspensa até segunda ordem. — Respondi sem emoção. 

Desde que comecei a bater o pé para acompanhá-la, Gaara já havia me suspendido tantas vezes que estava começando a desacostumar do peso da bandana no pescoço. 

— Ele te fez trabalhar o dia inteiro para te suspender no final? Isso não é justo… 

Eu ri, mas ela falava muito sério. 

— Entende as consequências disso para sua carreira, não entende? Agora todo mundo já sabe, não estamos guardando mais nenhum segredo, devia aproveitar a oportunidade de repensar a posição que está tomando. Não precisa mais se prender ao que me prometeu, está tudo bem. É sua nova chance. 

— Uma nova chance de que? Tudo o que eu me importo está aqui, nas escolhas que já fiz. Só sairei do seu lado se realmente não me quiser e nem precisar mais de mim. — Respondi sem nem pensar. 

— Às vezes não entendo o que diz… Faz muito tempo que não sinto mais força nos seus antigos argumentos, Matsuri. Não está mais fazendo isso só pelo Gaara. Então por que está?

Sua voz foi perdendo o pouco volume e a força que tinham conforme ela dizia. O ritmo foi se quebrando e se tornando lento até desaparecer na interrogação. O peso de seu corpo se tornou maior sobre o meu e sua respiração mais profunda. 

Por um segundo me preocupei, mas felizmente aprendi ao menos o básico do ninjutsu médico que ela havia me ensinado. Apesar dos pesares, Shijima estava bem. Ela só havia encontrado seu limite, estava exausta e apagou. 

Por isso era seguro responder. 

Lhe dei um beijo na testa e ajeitei seus cabelos para longe do rosto. 

— Por que eu te amo…  


Notas Finais


Enquanto eu seguro a minha curiosidade para saber o que vocês acharam e como estão, deixo a divulgação de hoje que — pasmem — não é o meu Twitter kk

Hoje eu recomendo a fic de uma de vcs, meus anjos de leitores <3

Para quem quer mais GaaTen, vão com a @solggaleo, ela tem: https://www.spiritfanfiction.com/historia/ifly-i-fuckin-love-you-19861976

Beijos de luz, bom final de semana, se cuidem o/


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