História O segredo do Kazekage - Capítulo 9


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Categorias Naruto
Personagens Gaara do Deserto (Sabaku no Gaara), Shinki, TenTen Mitsashi
Tags Gaara, Mistério, Naruto, Shinki, Tenten
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Palavras 4.837
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Luta, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Notaram que agora temos capinha no capítulo?
Créditos a xHasashi pelo presentinho. Obrigada pelos mimos minha Rainha <3
Minha gratidão também por todo o apoio e carinho com a fic, sem os quais talvez ela nunca tivesse renascido.
Te amo, amiga <3

Capítulo 9 - Prova


Fanfic / Fanfiction O segredo do Kazekage - Capítulo 9 - Prova

"Como pode você ver dentro dos meus olhos, como se fossem portas abertas?
Levando-o até meu interior
Onde eu me tornei tão entorpecida?
Sem uma alma, meu espírito está dormindo em algum lugar frio
Até que você o encontre lá e o leve de volta pra casa" (Bring Me To Life - Evanescence)  

 

Tenten

— Gaara! 

Eu quase gritava no meio da rua, enquanto andava praticamente correndo atrás dele pelas calçadas.

Shinki recebeu alta no início da manhã, íamos para casa e ele caminhava como se quisesse expressar toda sua raiva com os pés.

E até ali, nenhuma palavra ou sinal vindo dele no sentido de cumprir a única recompensa que lhe cobrei. Me contar em que diabos estava metido. 

— Não pode me deixar no escuro! É meio tarde para não querer me envolver nisso, não acha? Já estou envolvida! Me contar é o mínimo que pode fazer. — Eu insistia.

— Não vou ficar me repetindo. Quanto menos souber, melhor pra você. E eu não te pedi ajuda, não me jogue isso na cara. Se envolveu porque quis, não devia ter feito isso.

Ele rebateu num tom rude e irritado, bem distante do seu habitual.

Nitidamente desestabilizado e nervoso. Não me lembrava de já tê-lo visto assim depois daquele maldito exame chunnin.

Logo que o Hokage e o Raikage nos deixaram e ficamos sozinhos, Gaara desmontou de um jeito que chegou a me assustar. Descobri naquele instante que ele não usava apenas uma armadura de areia, mas também uma para se manter naquela postura toda que ostentava usualmente.

Não importou o quanto eu e Shinki tenhamos insistido para ele falar, Gaara não disse uma palavra, apesar de parecer lhe ser um esforço enorme, se controlar e não gritar de uma vez a verdade.

Confesso que achei bonito, sua tamanha dificuldade em mentir. Afinal, é muito raro encontrar pessoas com uma honestidade tão pura. Especialmente em cargos políticos tão altos como o que ocupava.  

Por fim, entendemos que precisava implodir seus sentimentos primeiro. Para ser sincera, Shinki foi quem entendeu e me explicou. O deixei em paz por aquele instante, levei o Shinki para cama a pedido do mesmo e o distraí respondendo todas suas curiosidades sobre as diferenças entre Konoha e Sunagakure, até que ele acabou dormindo novamente.

Quando olhei para o lado, Gaara também dormia. Jamais havia visto alguém dormir tão pesado em toda minha vida e convivi com Lee e Gai-Sensei, boa parte dela. Cheguei a achar que estava morto e levantei correndo para ver se respirava, apenas para me sentir uma idiota ao perceber o que fiz.

Só estava exausto, era óbvio. Podia passar todo o seu tempo agindo como uma máquina ou um super-herói, mas ainda era só um homem que viajou três dias com uma criança no colo do deserto até ali; com um psicológico em ruínas e tendo que carregar o peso de uma das grandes nações nas costas.

Se bem me lembrava, desde que chegou, Gaara mal havia conseguido tomar um copo d'água com tranquilidade. Não era de se admirar que com tanta pressão, seu corpo tivesse forçado um desligamento. Provavelmente era isso ou ter um infarto. 

Passei a noite pensando que daria tudo para saber o que realmente se passava dentro de sua cabeça. Por que parecia haver uma tristeza pessoal tão grande no meio daquilo tudo?

E ainda me recusava a acreditar que fazia intencionalmente o que suspeitavam. Tinha de haver uma boa justificativa. Quem planeja um golpe tão grande quanto o especulado, não sofreria tanto por isso.

Quem em sã consciência daria um passo para trás dessa magnitude, depois de ter dado tantos pra frente? 

Ele com certeza, estava preso em alguma coisa muito difícil e eu o ajudaria, mesmo me custasse tudo. 

Ainda que eu não considerasse ter muita coisa para perder.

Esse dia terminou comigo pedindo algumas cobertas às enfermeiras de plantão, colocando uma sobre o Shinki, outra sobre o Gaara e me envolvendo na última.

Me sentei no chão aos pés dele. Gastei uns minutos apreciando sua aparência e questionando como alguém podia parecer tão bonito, mesmo dormindo caído meio de lado e com o cabelo todo bagunçado. Sem conhecimento prévio é difícil acreditar que tal homem, tão jovem, possuía poder para destruir uma aldeia inteira.

Morri de vontade de brincar com aquele cabelo tão peculiar, mas me controlei com medo de acordá-lo. Me contentei em contemplar comportada até também sucumbir ao cansaço e adormecer com a cabeça e os braços apoiados em suas pernas.

Quando acordei na manhã seguinte, estava ajeitada e coberta confortavelmente na cama, sem fazer a mínima ideia de como fui parar ali, mas sabendo que devia fazer muito tempo desde meu deslocamento, já que não sentia nenhuma dor nas costas. O oposto esperado a quem planeja passar a noite toda no chão.

Shinki me chamou todo contente, anunciando que já podíamos ir embora. Gaara assinava os papeis da alta quando o alcancei e com um péssimo humor. Me deu um bom dia seco como o deserto e então chegamos ao ponto inicial: nós dois quase correndo pelas calçadas, rumo à minha casa.

Shinki estava em seu colo de maneira a ficar de frente pra mim e me dirigia uma expressão de “sinto muito", comovida e tensa. 

“Não adianta, ele não vai escutar ninguém agora”

Ele me sussurrou, fazendo bico e eu quase o roubei do colo do pai pra apertá-lo.

“Ah vai sim! Me ganhe uns minutos”

Pedi ainda nos comunicando por uma versão própria de leitura labial.

Ele pareceu hesitar e sei que era errado pedir para passar por cima do pai, mas era justamente para ajudá-lo. Era um bom motivo.

“Não disse que confiava em mim?”

O menino se ajeitou no colo do pai até poder encará-lo, segurando seu rosto. O fez parar de caminhar para lhe dar atenção. Shinki o olhava como se estivesse prestes a fazer o anúncio mais urgente do mundo.

— Eu ‘tô com fome.

Sua criatividade devia estar acabando se esse foi o melhor que conseguiu pensar. Mas só me restava lhe dar cobertura.

— Não contem comigo para cozinhar, sou uma catástrofe.

— Está bem. 

Gaara revirou os olhos e suspirou vencido, colocando a criança no chão. Tirou a carteira do bolso e pôs uma nota tão alta na mão dele, que fiquei estarrecida. Não consegui evitar de pensar na quantidade de horas que eu teria de trabalhar, para conseguir o mesmo valor que aquele garotinho recebia sem se dar conta do significado.

— Está vendo aquela loja? — Começou a explicar o apontando a direção. — Vá até lá e compre o que quiser. Traga algo para nós também, não volte com troco. Estarei te vendo daqui, pode ir tranquilo.

Não tinha a menor emoção em sua voz, apesar de claramente ter tentado forjá-la. Era assustador e triste. 

Shinki abriu um sorriso enorme e assentiu como um shinobi que recebe uma missão. Não consegui me controlar em rir, ao ver uma criança tão pequena fazendo isso e em seguida ele saiu correndo na direção da loja.

Gaara chamou sua atenção o mandando "andar direito" e então se dirigiu a mim, mas ainda sem tirar os olhos dele.

— Parabéns, conseguiu afastá-lo, tem quase toda minha atenção agora. Deve ter uns quinze minutos, mais ou menos, antes dele voltar. Mas eu não os gastaria tentando me convencer, se fosse você. Não vou te dizer nada.

— Ah, pare com isso! 

Exclamei enfática e me pus a sua frente. Mãos na cintura.

Ele insistia em se recusar a me olhar, então puxei seu rosto o forçando a fazê-lo.

— Ele está bem, relaxa. Ninguém encostaria nele aqui em Konoha.

Continuei como se brigasse com uma criança, ou um amigo muito mais íntimo do que ele de fato era, ao mesmo tempo em que me esforçava como se tentasse atingir algo muito maior do que eu:

— Não perca seu tempo tentando ser rude comigo para me afastar. Não sei se isso funciona com a sua esposa ou com as outras pessoas ao seu redor, mas comigo não vai. Ambos sabemos que pode ser qualquer coisa, menos ingrato. Não tente me convencer de que não reconhece o tamanho do que acabei de fazer. O Raikage ia comer sua cabeça no jantar se eu não fizesse nada, não finja que não sabe o quanto precisa da ajuda que quero dar. Não pode arriscar perder quando tem uma criança que te venera desse jeito, dependendo de você. E se por acaso o problema de me deixar te ajudar é porque me subestima, se lembre de que lutei e sobrevivi à mesma guerra que você. Nada pode ser pior que aquilo. Então corta essa de "é perigoso", porque sei disso e já assumi o risco. Aceita. Sou a melhor chance que tem.

Jamais até aquele momento, eu o havia encarado tão profundamente. 

Por sorte, as ruas ainda estavam muito vazias por conta do horário e da tal festa com o Daimyo, que causou uma falta enorme de pessoal e fez os que ficaram terem de pegar mais missões ou trabalhos internos na aldeia para compensar.

É claro que eu não disse tudo isso berrando, mas qualquer risco de piorar a situação não era algo que gostaria de arriscar. 

Ele me encarava de volta com a mesma intensidade. Fiquei feliz em ver através disso, que seus olhos chegaram a marejar por um instante, antes que piscasse algumas vezes para desvanecer esse fato.

Também pude notá-lo com nitidez, segurar um pouco a respiração e relaxar ligeiramente a postura defensiva e rígida que assumia até então. 

Eu já esperava que não fosse ser tão fácil e o entendia. Também seria muito receosa sobre tudo, se tivesse vivido uma história como a dele. 

O deixei verbalizar sua pergunta clássica. Acho que aquelas deviam ser às palavras que ele mais pronunciava na vida. 

— Por que? Por que está fazendo isso? Se entende a proporção do que está se metendo, por que vai se arriscar mesmo assim? 

Dei um suspiro longo antes de começar. Não era uma resposta simples, nem curta. Ele se ajeitou colocando as mãos os bolsos e apoiando as costas e o pé direito na parede da casa atrás de si. Eu tinha toda sua atenção.

— Porque sinto que essa é a coisa certa a fazer. Porque eu acredito em você e não consigo te imaginar fazendo algo de tão errado, quanto o que estão insinuando. Sei que jamais trairia a aliança que ajudou a criar. Sobretudo, você jamais trairia à Folha. Porque eu te admiro muito. Admiro sua história e o que se tornou apesar dela. Mas principalmente, por causa de uma coisa que a Temari me falou um dia desses. 

Ele franziu a expressão em confusão ao ouvir o nome da irmã.

— Não tenho estado bem como faço parecer, desde que perdemos o Neji, admito. 

Revirei os olhos ao dizer, imaginando se ele fazia alguma ideia do quanto me significava, eu enfim verbalizar isso para alguém.

— A honra e sorriso dele ao morrer me fez questionar se eu teria sentido o mesmo em seu lugar. Eu morreria plena, se tivesse partido também naquele dia? Neji tinha certeza do porquê morria e estava feliz por isso. Vencemos a guerra e eu nunca mais soube o que fazer. Eu não tenho nada tão grande quanto ele tinha, para me fazer valorizar a vida. O vazio que ele deixou me forçou a ver todos os outros espaços em branco da minha vida, espaços que eu nem sabia estarem desocupados. Desde então é difícil arrastar cada dia. É difícil levantar da cama, sair de casa, fazer coisas simples. Tudo parece tão cansativo, tão vazio. Venho cumprindo as missões no automático, na verdade eu passei a fazer tudo desse jeito. Temari notou isso, eu acho. Um dia me disse uma frase sua. "Viver sem um propósito é o mesmo que estar morto". Eu pensei muito sobre isso e está certo. O que eu preciso é de um propósito, algo que faça minha existência ter valor. Você conseguiu seu propósito e isso te salvou, não foi? Se tornou um dos homens mais prestigiados e necessários do mundo ninja. Te salvar é o mesmo que salvar todas as pessoas que dependem de você. A estabilidade do mundo ninja iria pelo ralo se tivessem que eleger um novo Kazekage agora, alguém em quem a aliança não confiasse, nem conhecesse, Suna nunca prosperou tanto. E acima disso, somos amigos, não somos? Eu sou uma Kunoichi da Folha, salvar um amigo é definitivamente algo pelo qual eu não me importaria de dar minha vida. Não pode se negar a me dar isso, não justo você.

Quando terminei era difícil sustentar o olhar em sua direção. Minha boca estava seca como em poucas ocasiões estivera. Eu não era de falar tanto. Por falta de oportunidade e de alguém que me inspirasse confiança para isso. Sabia que sempre podia falar com Lee e Gai-Sensei, mas costumava temer demais por suas reações, sempre muito esfuziantes pro meu gosto.

A expressão dele para mim, fazia parecer que eu o havia dado um tapa. Estava boquiaberto, com certeza esperava qualquer coisa, menos que eu fosse ser tão sincera e fazer um discurso enorme como aquele.

Sabia que se queria convencê-lo a ser honesto comigo, tinha que dar o primeiro passo. Mas em grande parte, fiz porque sentia vontade de fazer. Queria dar aquele passo em sua direção, pois sua figura me atraía a aproximação.

Gaara era o tipo de pessoa que inspirava segurança, mesmo que eu não me sentisse exatamente indefesa. Quanto mais ele se fechava, mais queria estar perto.     

Ele passou a mão nos cabelos, os bagunçando um pouco mais e reparei que tinha mania de fazer isso quando ficava nervoso.

Será que ele não tinha nenhuma mania que não fosse assim tão... charmosa?  

— Isso é tão errado. — Ele disse sacudindo a cabeça numa negativa.

— O que?

— Ser convencido sempre pela mesma história.

— Então vai parar de me afastar? — Disparei sem conseguir conter a ansiedade. 

— Vou. 

Respondeu erguendo as mãos num gesto clássico de rendição. Mas continuava parecendo descontente e contrariado com a ideia.

— Me desculpe ter sido rude com você. É que não serei capaz de me perdoar, caso também se prejudique por causa disso. — Completou fugindo o olhar do meu rosto. 

— Ah, não pense assim...

Tentei animá-lo e ergui seu queixo com a ponta dos dedos.

— Tem uma defesa absoluta, não tem? É só eu ficar por perto. Principalmente quando chegarmos em Suna e a sua esposa tentar me matar. — Disse e forcei o riso.

Por mais óbvio que fosse, só me dei conta verdadeiramente disso no momento em que pronunciei. Confesso que meu coração falhou uma batida inteira. 

— Minha defesa só funciona em campo de batalha. Fora dele, todos que se aproximam de mim, acabam se destruindo de alguma forma.

Ele desabafou me deixando ver um pouco do quanto aquilo o angustiava. Me contive para não o envolver num abraço.

Porém ele não se manteve na melancolia muito tempo.

— E quanto a minha esposa, está salvando o pescoço dela, lhe devia no mínimo ser grata. Mas tem razão, duvido muito que isso aconteça. — Então foi ele quem forçou um breve riso sem humor.  

— Quer saber, eu soube desde o primeiro minuto que não havia feito nada de errado.  Ela fez, não é? A está protegendo. O que ela vez.

— Não agora. Aqui não.

Me contentei, pois pelo menos não foi uma recusa completa em contar. Para que já tinha esperado tanto, eu podia lidar com mais esse pequeno adiamento. Só até em casa e não estávamos longe.  

Então ele mudou a expressão subitamente. Levou a mão a testa quase se dando um tapa e resmungou:

— Será que não poderemos ter um só segundo de paz? 

— O que houve? — Questionei sem entender. 

— A Mizukage e o Hokage. Estão vindo nessa direção. Sinto o chakra deles, reconheceria em qualquer lugar. A última coisa que eu queria depois daquela cena toda no hospital, era encontrar com eles. — Gaara lamentou. 

— Falando em cena, senti que Kakashi não acreditou muito em nós. — Relembrei.

— Tenho certeza que não acreditou e agora provavelmente vamos saber a opinião da Mei. — Ele devolveu, claramente chateado. 

O movimento na rua começava a aumentar e isso me deu uma ideia audaciosa. 

Audaciosa demais. Mas era boa. 

— Então eu acho que devíamos...

Travei.

Era quase impossível completar aquela frase sem ficar sem ar e morrer um pouco por dentro, pela vergonha. Sentia meu rosto corado e quente. 

Não tínhamos muito tempo e por fim percebi que nesses momentos, eu não era muito boa com as palavras. O jeito então, era partir para ação.

Pelo menos dessa forma eu podia fechar os olhos e não ver a loucura que fazia.

Avancei sobre ele, o puxei pelo pescoço com as duas mãos e o beijei. 

Não demorou nem um minuto e ele me afastou segurando em meus ombros. 

— Entendi, temos que dar uma prova melhor, entendi a sua ideia. — Se apressou em explicar.

“Se entendeu, por que está se recusando?”

Antes que eu pudesse reclamar, ele inverteu nossas posições e me puxou pra si, retomando o beijo.

Quando dei por mim, havia sido perfeitamente levada a bater as costas na parede. Uma de suas mãos envolveu e apertou minha nuca, a outra se espalmou ao lado do meu rosto, como que para servir de apoio, porque toda essa movimentação foi muito rápida e brusca.

Isso me surpreendeu. Ele estava tão hesitante sobre tudo até segundos antes, pra onde foi isso, de repente?

Não sei, não procurei, não quis saber. Apenas por um momento, me dei a licença de parar com tantas perguntas.  

Uma de suas mãos mudou de função e encontrou o caminho até minha cintura. Com uma firmeza delicada, se é que isso existe, apoiou meu corpo a se encostar ao dele de forma em que não existia um centímetro sequer de distância entre nós.

Era nítido que se esforçava para parecer real, mas eu sentia no fundo, o tempo todo, que me pedia uma espécie de “com licença”.

Senti que meu coração podia despencar do peito e ir parar no estômago quando me atinei que aquele era o primeiro beijo da minha vida. Esqueci que devia estar atuando

E não pude deixar de notar que ao contrário de mim, Gaara não parecia inexperiente no que fazia. Pensar em como alguém tão alheio a isso, como ele costumava ser, adquiriu tal aprendizado, era tão bizarro quanto o que fazíamos. 

Eu sabia que aquilo era errado em incontáveis formas, mas calei todo e qualquer questionamento, decidindo apenas me entregar ao instante que não se repetiria nunca mais. Não se tem um primeiro beijo duas vezes.

E poderia ser o primeiro e último, caso aquela missão desse muito errado. Dei de conseguir fazer isso com alguém que admirava tanto, independente do motivo.

Não estava planejando roubá-lo de sua família, só achei que merecia apreciar essa experiência, pois agora quando me defrontasse com a perspectiva da morte, havia um tópico a menos para pensar como não cumprido em minha existência.

Comecei fazendo para ajudá-lo e por fim, fazia muito mais por mim mesma.

Descobri que todos os livros de romance que li até ali estavam errados. Beijar não tinha nada a ver com “travar uma batalha árdua entre as línguas”. Pelo menos não beijar o Gaara.

Eu descreveria melhor, dizendo que era como dançar. Porque cada movimento de um completa o do outro. Deveria ter ficado completamente atrapalhado, considerando a minha falta de experiência, mas descobri também que assim como na dança, as vezes funciona se deixar alguém conduzir.

Notei meu corpo todo reagir, como se estivesse totalmente alerta. A adrenalina de missão alguma, jamais me fez sentir de tal forma.

Mesmo que não tivéssemos falado abertamente a respeito desse tipo de experiência, eu sabia, Gaara me entendia. Isso tornava aquilo especial. Eu tinha a impressão exata de que ele compreendia o valor que possuía pra mim.

Me permiti deixar minhas mãos o tocarem e apreciei aquele cabelo que tanto gostava. Ele me levava, num ritmo nem rápido, nem lento demais. Era firme, até nisso, passava uma segurança indescritível. Era impossível não confiar nele.

Começou subitamente, mas acabou com calma. Eu percebi que ele ia finalizar, quando desacelerou da forma mais carinhosa que alguém poderia fazer. Seu último ato foi morder e puxar um pouco meu lábio inferior e eu fiquei sem saber se o amaldiçoava ou abençoava, porque isso levou o último fio da minha estabilidade.

Abri os olhos a muito custo. Não queria ter de encarar a realidade, quando ainda estava mergulhada nos meus próprios pensamentos e sensações.

Eu queria tê-lo agradecido por aquele momento, apesar de ele achar que era eu quem o fez um favor. Queria ter dito o quanto ele era um ser humano incrível em tudo o que fazia e o quanto me foi importante receber justamente dele, umas das poucas pessoas que eu admirava dessa forma, essa memória que me acalentaria em minha solidão dali pra frente.

Mas não tive tempo de dizer nada. Voltei a mim num súbito, quando vi Kakashi e Mei pararem perto de nós.  

— Vocês têm noção de que estão no meio da rua e ainda não são nem sete da manhã!?

Nunca tinha visto Kakashi tão chocado, ele chegava a parecer pálido. Só não sei dizer se foi por finalmente acreditar em nós, ou por termos ido tão longe com isso. 

O Hokage olhava para os lados nervoso, procurando ver se alguém mais prestou atenção, se importando com isso mais do que nós. 

Ele repreendeu o Gaara que num momento muito raro, parecia descontraído. Ele estava rindo meio sem graça, de um jeito que quase me fez querer beijá-lo de novo. 

Creio que Gaara achou graça do mesmo motivo que eu. Kakashi nos repreendeu com um discurso tão protetor, que dava vontade de abraçá-lo, chama-lo de pai e pedir desculpas.

A parte de se desculpar, Gaara conseguiu fazer. Já eu não consegui dizer nada, ainda estava um pouco entorpecida.

— Ah, Hokage-Dono, pegue leve com eles. Não é só porque o mundo Shinobi nos fez perder a oportunidade de curtir nossa juventude com toda a imprudência que ela exige, que vamos tirar isso deles. Essas crianças lutaram uma guerra para trazer a paz, não os vamos impedir de apreciá-la. Afinal, pelo que eu entendi, esse deve ser um dos poucos momentos em que podem se tocar. Devia se sentir honrado por terem confiado na sua aldeia para se permitirem tal feito.

Mei discorreu sua defesa com seu típico sorriso amistoso e compreensivo. Se Kakashi pareceu meio paternal em sua reação, Mei o completou perfeitamente representando o lado materno, ao passar a mão em nossas cabeças.

Inclusive literalmente, porque ela bagunçou o cabelo inteiro do Gaara, antes de se aproximar de mim e segurar meu queixo dizendo:

— Você me enganou direitinho menina. É muito raro que algo me deixe tão surpresa quanto estou agora. Estou orgulhosa. Minha admiração pela senhorita aumentou bastante.

Quando começamos com essa história de atuação, ainda naquele quarto do hospital, Gaara parecia muito constrangido. Agora, era eu quem me sentia assim.

Kakashi bateu a mão na testa e sacudiu a cabeça negativamente, numa reprovação silenciosa ao incentivo de Mei. Então algo chamou minha atenção a terminei de aterrissar com toda a força na realidade.

— Shinki não está demorando demais?

Gaara se virou para a direção aonde ele tinha ido com a mesma expressão que eu. Culpa. Por um instante, realmente nos distraímos.

Mas por uma bela coincidência, ouvimos sua vozinha exclamar no mesmo instante:

— Estou aqui!

Olhamos todos para a direção do som no outro lado da rua e o vimos se aproximar com algumas sacolas penduradas no braço esquerdo e usando a mão direita para segurar o palito com os dangos que comia.

Caminhava com a maior calma do mundo, contrastando totalmente conosco que quase havíamos tido um ataque cardíaco.

Ao nos alcançar, Shinki ergueu o olhar a Gaara e comentou animado: 

— Pai! Eu encontrei a Besta Verde! Daquela história que o senhor contou.

Ele falava com os olhos brilhando, como se anunciasse ter encontrado uma criatura mítica de contos de fada.

Não pude evitar de sorrir, não só pela fofura da situação, mas porque finalmente Gai-Sensei havia encontrado alguém que o reconhecia como ele merecia.

Não que as pessoas não o respeitassem, óbvio que o faziam, em especial depois da Quarta Guerra, era só que ninguém jamais expressaria isso de uma forma tão pura, entusiasmada e sincera quanto uma criança. Para os adultos a personalidade dele e do Lee, sempre parecia um pouco estranha, para dizer o mínimo.

Kakashi chegou mais perto de nós, ainda com nítido receio de ser ouvido pelos transeuntes matinais e sentenciou entredentes, numa rigidez que chegou a me arrepiar.

— Nenhuma palavra sobre isso ao Gai. Não até tudo isso estar resolvido o que eu espero que seja logo. Isso é uma crise diplomática de alto nível, não posso deixá-lo interferir.

De fato, o estilo ninja de Gai-Sensei era altamente desaconselhado para diplomacia, não era difícil dar a fala de Kakashi, seu devido crédito.

No fundo, ambos estávamos felizes de não precisar envolver mais ninguém em nossas mentiras.

Kakashi e Mei se despediram e enfim se afastaram. Um claramente atônito e preocupado, a outra radiante. Ainda não se podia dizer que convencemos o Hokage. Na verdade, depois de seu último alerta, tive quase certeza de que não.

Mas Kakashi nunca foi o centro do problema, então podíamos respirar mais aliviados.

Shinki nos chamou a atenção, indo até Gaara e puxando a cabaça.

— Posso carregar? — Perguntou virando o rostinho de lado, num olhar pidão irresistível.

— Shinki... — Gaara começou ignorando por um instante sua pergunta. — Onde está o seu amigo agora?

Meu coração falhou uma batida. A pergunta também me passou pela cabeça, mas eu não teria coragem de perguntar.

— Ele está um pouco chateado. Disse que está tentando entender, mas que é difícil. Se afastou pra não te machucar.

Shinki respondeu num tom sério-compreensivo, que caso alguém ouvisse de fora, jamais imaginaria que falava de um suposto fantasma.

— Ah...

Foi só o que Gaara disse, mas sua expressão se franziu como a de quem ouviu uma ofensa.

Achei graça de sua reação. Evitei me perguntar o porquê se interessou nisso, se parecia tão descrente do assunto antes.

— Pensando bem, leva você mesmo pai. — Shinki empurrou a cabaça para as mãos do pai. — Vai que ele volta, né.

— Pode levar... — Gaara devolveu numa irritação contida.

Se Shinki fez aquilo por estratégia, para produzir aquela reação e ganhar seu “sim”, foi uma jogada de mestre, pois deu muito certo.

Ele era pequeno demais para levá-la de lado na cintura, como Gaara passou a fazer depois de adulto. Então seu pai ajeitou o cinto de forma que ficasse em suas costas.

A referência daquilo foi tão forte, que cheguei a ficar emocionada e o filho nem era meu.

Queria que o Gaara do passado, pudesse ver aquilo e saber que tudo ficaria bem no futuro. E queria também que o pai dele os visse e entendesse que desperdiçou um ser humano incrível e a possibilidade de ter uma relação admirável como aquela.

Antes de dizer ao filho que estava tudo pronto, Gaara fingiu ter levado mais tempo com as fivelas e olhou discretamente pra mim de soslaio, pedindo meu sigilo cúmplice, enquanto retirava a areia da cabaça e a guardava consigo mesmo, na forma da famosa armadura.

Em segundos se tornou cada vez mais fina, até ficar imperceptível. Foi uma cena impressionante de se ver, digna de palmas. Um jutsu lindo, parecia mágica. 

Shinki largou as bolsas com as comidas que havia comprado nas mãos do pai e saiu correndo feliz a nossa frente. Saltitava como se tivesse ganhado um presente muito grandioso, não um jarro pesado e cheio de areia.

Não lembrava em nada que tinha acabado de sair do hospital.

Ele imitava os movimentos de luta do pai tão perfeitamente, que era impossível não sorrir mediante a visão. Quando chegou estava tão sério e ressabiado, que jamais imaginei vê-lo brincando desse jeito. No fim, ele só precisava pegar confiança.

Ajudei Gaara a se pôr de pé e nos apressamos para andar atrás da criança, antes que ele acabasse sumindo de vista.

Alguns passos à frente, antes de recaiu entre nós um silêncio tenso e constrangedor.

— Vou para o Inferno por isso, não é? Estou mentindo para os quatro Kages, sendo conivente em deixar uma criança se envolver nisso tudo e não quero nem me colocar no lugar da sua esposa. — Desabafei.

— Sua motivação é nobre, Kami te perdoará. Eu é que não tenho mais jeito. O demônio já construiu minha casa faz tempo.

Eu sabia que era errado, mas foi irresistível rir da maneira natural e indiferente com que ele falou.

— A pior parte do Inferno, é que mandei pra lá boa parte dos meus companheiros de condenação. Acho que eles não vão ficar muito felizes em me ver.       

E com esse clima tenso seguimos para casa arrastando o peso de nossos fantasmas pessoais e pecados, sabendo que relaxar era a última coisa que faríamos dali pra frente. 


Notas Finais


'Tá todo mundo, ok?
Preciso chamar a SAMU pra alguém ???


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