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História O Segredo do Príncipe Hendery - Capítulo 24


Escrita por: ImNinahChan

Notas do Autor


Oi,

O capítulo ficou grande, desculpa por isso, mas é que simplesmente não senti que dava pra cortar. Então, leia com calma porque é uma montanha russa de emoções.

Ah, estamos em contagem regressiva, faltam só mais dois capítulos.

Boa leitura!

Capítulo 24 - Seu aliado incrivelmente suportável, meu epílogo decente


parte XXIV

Seu aliado incrivelmente suportável, meu epílogo decente





Para Lucas, ficar dias preso naquele porão fê-lo recordar-se de seu período na guerra. Quase sucumbiu ao trauma, mas Chittaphon tornou tudo mais suportável.


Quando seu peito apertava, as lágrimas se acumulavam e os músculos tensionavam, era o estrangeiro quem descansava a cabeça em seu ombro e mesmo sem poder dizer nada, transmitia-o a calmaria de milhares de palavras de conforto. 

No entanto, a boa relação entre os dois prisioneiros não foi tão agradável assim no começo. 

No primeiro dia que dividiram aquele porão, por exemplo, no mesmo momento que tiveram os braços e a boca desamarrados e os capangas os deixaram a sós para comerem a única refeição do dia, Ten logo tratou de rolar para perto do Major e questioná-lo sobre o que diabos ele estava fazendo ali.

— Eu que fazia parte da ajuda — Lucas respondeu, devorando aquele pedaço de pão. 

— Ah, então a ajuda ainda vai chegar? — Ten possuía esperança em seu tom.

O Wong comprimiu os lábios, evitou retribuir o contato visual.

— Na verdade… — hesitou um pouco para explicar que: — eu era a ajuda.

Chittaphon teve que se segurar para não soltar um grito de frustração. Encheu a boca de pão e bebeu a caneca de água em silêncio, a expressão em seu rosto não era nada simpática. 

Então, além de ser capturado pelos vilões, perder a única prova que os bonzinhos possuíam, Lucas era o incumbido de ajudá-lo a escapar? Meu Deus… De quem foi essa ideia de jerico? 

Eventualmente, Ten chegou até a aceitar que morreria ali, naquela sujeira, ao lado de um tremendo paspalho. Porém, o que ele não soube foi que a sorte chegou a passar por sua porta. Não bateu, mas passou pertinho. 

Sem a carta do Marquês, as buscas que eram efetuadas na província e arredores não poderiam ir a fundo nas propriedades dos conspiradores pois, bem, não havia nenhuma evidência que os colocaria no vermelho. Todavia, com o desaparecimento do Major, o próprio exército entrou em contato com Dong Sicheng para fazê-lo uma visita e indagá-lo sobre o paradeiro. 

Sicheng aceitou, claro, não poderia rejeitar tal solicitação. Foi por pouco que nossos prisioneiros não foram encontrados naquele dia. Um dos oficiais que vieram até a mansão chegou a passar por cima do acesso ao porão, cuja entrada ficava escondida embaixo de um tapete sob uma estante de livros. 

Com o passar dos dias, ao descobrir sobre o casório que dar-se-ia em breve, Chittaphon percebeu que havia uma luz no fim do túnel. E, pasme, Lucas gradativamente deixou de ser um paspalho e se tornou incrivelmente suportável.

Começou com um pedido de desculpas. Assim:

— Eu queria me desculpar — disse Lucas, sem encarar o parceiro de confinamento.

Ten o espiou de rabo de olho, mordendo o pão.

— É que eu deveria ter levado a carta até o Parlamento para solicitar ajuda, mas — suspirou — não consegui. Então, desculpe. Foi meu erro, peço desculpas. 

A falta de uma réplica, seja positiva ou negativa, fez o Major remoer-se internamente. Por que Ten só ficava mastigando quando poderia ter dito alguma maldita coisa? Argh, era agonizante!

— Sabe… — Chittaphon pronunciou-se, por fim, após engolir. — Está tudo bem. Isso poderia ter acontecido. — Sorriu, mínimo, sem mostrar os dentes.

Lucas retribuiu o sorriso, da mesma forma.

Logo, mais um passo foi dado quando o estrangeiro compartilhou seu plano de fuga.

— Nós vamos fugir no dia do casamento — cochichou para o Wong, o qual estava mais interessado em quantas migalhas comeria naquele momento e quantas deixaria para mais tarde. — Ouvi o Visconde dizendo que vai ter um desfile pela cidade, é nossa oportunidade perfeita! Quando retornarem para nos amarrar de novo, depois de comermos, vamos avançar e fugir, compreendeu?

— Uhum.

— Acha que consegue fazer?

— Hm?

— Avançar nos caras.

— Que caras?

— Major, o senhor está prestando atenção?

— Estou.

— Então, o que eu disse?

Lucas parou de mastigar, ponderou por alguns segundos. 

— Tsc, estou falando para as paredes! — Ten resmungou, irritadiço.

— Não, é que… — o Wong pausou, encontrando dificuldade para justificar-se. 

Tenha um pouco de paciência com ele, não o entenda mal, caro leitor, nosso militar pode até parecer somente um frouxo qualquer, mas existem camadas mais profundas em sua história. 

— É o quê, Major? 

Lucas abaixou a cabeça, seus dedos partiram o pedaço de pão em partes menores.

— Um deles está armado.

— E?

— E… eu acho que pode ser perigoso.

— Mas o senhor não foi treinado para esse tipo de situação? 

— Fui, mas… 

O Wong quis muito continuar, deixar bem claro o que se passava em sua cabeça para evitar um mal-entendido, porém, por mais simples que parecesse verbalizar o motivo, não conseguiu dizer nada. 

As lágrimas falaram por si, os músculos tensos também. A dor no peito era intensa de tamanha forma que foi complicado respirar. Suas pernas, embora pressionadas uma contra a outra devido à corda, tremiam como dois bambus finos. 

Fechou os olhos, mesmo sem notar, aprisionou o ar nos pulmões. Não era a primeira vez que seu corpo reagia daquela forma, mas foi ali que experimentou algo inédito.

Comovido pela cena que presenciava, Chittaphon ficou lado a lado com o Major e, simplesmente, deitou sua cabeça no ombro dele. 

Se perguntassem a Lucas qual foi a sensação de interagir com o estrangeiro de tal maneira, não saberia ao certo descrever. Quando tinha episódios parecidos, as pessoas costumavam repetir aquelas famigeradas palavras como “Tudo vai ficar bem”, “Não se preocupe”, e não é isso que uma pessoa em sofrimento deseja ouvir, para ser honesta. 

Alguém com coração quebrado não quer ouvir, quer ser sentido. Já é bastante que essa pessoa cobre a si mesma por progresso, que, às vezes, rebaixe-se ainda mais. Portanto, foi exatamente isso que Chittaphon tinha em mente ao se aproximar. Só permaneceu assim, sem conversar, somente sentindo.

Lucas observou o outro. Do ângulo em que estava, pôde acompanhar a maneira serena que o rapaz inspirava e expirava, como o torso subia e descia. Aos poucos, foi capaz de igualar sua respiração à dele. Acalmou-se, enfim.

Nessa ocasião, Ten não questionou a razão pela qual o Major estava sofrendo, visto que também possuía seus próprios traumas, compreendia que não seria uma tarefa fácil abrir-se para um desconhecido. 

No dia seguinte, naqueles mesmos minutos que tinham de “liberdade” para comerem, partiu do próprio Wong a iniciativa de conversar sobre o assunto.

— Eu aprecio muito o que fez por mim ontem.

Chittaphon deu um breve sorriso.

— Eu sei que pareci um grande covarde, mas… — Lucas esforçou-se para prosseguir, porém atrapalhou-se com as palavras.

— Não precisa me contar se não se sentir confortável para tanto, senhor.

— Essa é a questão. Encontro-me no conflito de preferir não me expor e desejar muito fazer isso, pelo menos uma vez. — Correu as mãos pelos cabelos, encarou o vazio do porão à sua frente. A iluminação no local não era das melhores, o que só colaborou para reforçar a atmosfera melancólica. — Eu lutei numa guerra, sabia? Muita gente sabe disso, mas o que elas não sabem é o que eu vivi lá.

“Como a minha família, de geração em geração, forma militares competentes, tive que, naturalmente, contra meu desejo de fazer medicina, me tornar um também... ou tentar. O meu pai teve um papel importante nisso, foi ele quem me preparou desde pequeno, estabelecendo uma rotina parecida com a que viveu em seu próprio período de treinamento. Então, quando o rei se prontificou a mandar reforços para nosso vizinho, o reino de Sicília, e abriu novas inscrições, ele achou que meu alistamento para o conflito seria a melhor forma de eu aprender. Naquela época, eu tinha quinze anos.

“Eles me deram uma arma, me disseram como meus inimigos se pareciam e me jogaram no campo. Todos os dias, eu ia e vinha de um abrigo para outro, de uma barricada para a outra, trazia as notícias, mantimentos. E, a cada passo que eu dava naquele chão cheio de erupções, de sangue, restos, perguntava-me se teria a chance de dar mais um ou se uma bala acertaria minha cabeça; se meu fim se daria em cinco segundos ou cinco minutos; se teria tempo de retornar para casa e jantar com a minha família; se experimentaria do privilégio de envelhecer ao lado de alguém”, encostou a cabeça na parede atrás de si. “Felizmente, eu sobrevivi para tentar viver qualquer um desses cenários, mas muitos dos homens que estavam lá comigo não.”

“Numa manhã, logo bem cedinho, enquanto eu atravessava o campo, vi um soldado caído às margens de um riacho, desarmado. Ele não vestia as mesmas cores que eu, era um inimigo, porém foi impossível ignorar seu chamado. A perna parecia lesionada e o braço esquerdo também não estava nada bem, mas sem uma gota de sangue. Mesmo com toda a dor, o que mais o preocupava era estar daquele jeito, exposto aos adversários. Temia que alguém do meu lado o encontrasse e o torturasse. De alguma forma, sua situação precária poderia ser ainda pior. 

“Lhe garanti que não faria nada, omitiria sua localização, mas ele não se deu por satisfeito só com isso. Então, pediu que eu desse um basta em sua agonia. Ali, eu me identifiquei com meu inimigo. Assim como eu me remoía no aguardo do meu fim, ele passava pela mesma coisa, sentia a mesma coisa. Porém eu não queria morrer, não naquele cemitério a céu aberto, e por não querer, repeti várias vezes que não o faria. 

“Mas ele continuou pedindo, pedindo, pedindo…”, uma lágrima rolou pelo rosto do Major, as vistas ficaram turvas. “Até que, num certo momento, sem acreditar no que eu estava fazendo, saquei a arma do coldre e o matei. Um tiro. Um único tiro. Eu nunca quis ser aquele com o dedo no gatilho, eu queria ser aquele que salva, mas...”, embora estivesse conseguindo expressar-se, quase não foi capaz de completar: “Eu matei um homem, Ten”. A voz saiu entrecortada, dolorosa de se ouvir. Lucas arquejou, mordeu os lábios com força, tentava conter mais uma explosão de sentimentos.

Chittaphon tocou o ombro do Wong, apertou suavemente, num afago.

— Desculpe-me — lamuriou o Major. — Eu acho que não consigo fazer o que o senhor deseja, porque… — soluçou, exasperado  — não estou pronto… não conseguirei assistir outra pessoa morrer. 

“Eu sou um covarde, eu sei. Temo que seja o homem mais covarde que já conheceu, sinto muito por isso. Eu, simplesmente, não consigo, da mesma forma que, por mais que quisesse apoiar o Príncipe, calei-me quando os opositores me convocaram; da mesma forma que estou me calando agora. Sou um covarde, é isto.”

Ten repousou a palma de sua mão na nuca de Lucas, pressionou o local de leve, sorrindo, como se quisesse repreendê-lo por ter dito tal bobagem.

— O senhor, Major, é o homem mais corajoso que eu conheci em toda a minha vida — disse. — E acredite, eu já conheci muitos homens.

Lucas balançou a cabeça brevemente, negativo.

— Não há necessidade de tentar me dizer o contrário.

— Está de gozação, não está? — Cruzou os braços em frente à barriga. — Mesmo sem saber a qual nível de risco estaria se expondo, o senhor aceitou sua missão de tentar salvar-me, um completo estranho. Além disso, conseguiu ser forte o suficiente para se abrir comigo. 

— Não me acha mesmo um inútil?

— O senhor é incrivelmente suportável.

O Wong esfregou os olhos, dispersando a umidade no rosto. Sorriu.

— Sabe — Chittaphon continuou —, eu nunca matei ninguém, não sei o quão cruel é a sensação, mas já vi alguém morrer. 

Houve um breve período de silêncio no porão. Ten encarava o pedaço de pão jogado no chão sujo, calado. Em sua mente, entretanto, as memórias que reteve ao lado de um certo alguém eram gritantes. Sentiu falta de ter aquele papel envelhecido pelo tempo em mãos, de poder olhar para o desenho e recordar-se de cada detalhe do homem ilustrado nos rabiscos — John.

— O nome dele era John — revelou. — Johnny.

— Ele era um amigo muito próximo?

Só pela maneira com que assistiu o estrangeiro derramar-se, aos prantos, fugindo do contato visual, Lucas compreendeu que a relação da qual estavam falando era muito mais profunda do que acreditava, do que questionou. 

Retraiu o corpo, abraçou os joelhos. Havia uma pessoa chorando ao seu lado e ele não sabia ao certo como confortá-la. Optou por retribuir o gesto que recebeu: deitou a cabeça sobre o ombro alheio.

Chittaphon virou o rosto na direção do Major no mesmo instante, um pouco surpreso, um pouco comovido. 

— Eu conheci um homem na guerra — dizia Lucas, baixinho — que gostava de outros homens. 

Ten riu. O Wong estava tentando, era bonito de se ver.

— E ele sobreviveu? — perguntou.

— Ah, sim — a resposta veio num tom mais alto. — Ele disse que sobreviveria porque a única coisa pela qual lutaria era o amor do homem que estimava.

Quanto mais a data do casório real se aproximava, mais o cérebro de Chittaphon trabalhava. Tinha medo de Lucas sofrer um episódio quando fossem fugir, repassava seu plano mentalmente com frequência. Nada podia dar errado. Nada.

A ideia era simples: assim que os dois capangas do Marquês retornassem para amarrar os prisioneiros após o momento de comerem, Ten iria avançar naquele que estivesse armado enquanto o Major deteria o outro. Consequentemente, pelos ruídos que causariam, uma certa pessoa seria atraída para o porão — alguém que você, leitor, já conhece a fama de libertino.

Liu YangYang, o Visconde, possuía inúmeras propriedades em seu nome por todo o reino, porém, durante aquele período até a cerimônia do Príncipe com a Baronesa, ele optou por ficar grande parte do seu tempo na mansão de Dong Sicheng. 

Feito uma peça a mais no tabuleiro, uma cópia reserva, sentia-se jogado para escanteio. Essa sensação, entretanto, não era nada recente. Na verdade, sempre julgou que seus amigos o menosprezavam. 

Vamos considerar aquele flagrante na Biblioteca da província, por exemplo, foi notável para a Baronesa como o Duque e o filho do banqueiro se divertiam ao encurralar YangYang com perguntas sobre as obras shakespearianas favoritas dele só para que parecesse menos culto aos olhos dela. E a gota d’água deu-se no porão em que nossos prisioneiros estavam, no dia em que Lucas foi deixado lá, quando Sicheng revelou que teve uma conversa secreta com Kun na qual discutiram a respeito do papel de Dejun no esquema para destronar o Príncipe. “Sem mim?”, o Liu questionou e tudo que recebeu de volta foi um “Mais tarde lhe conto”. Para piorar, o Dong não contou.

Por isso, reivindicando sua dignidade, YangYang exigiu que fosse ele o responsável por guardar a carta e cuidar dos prisioneiros — essa porque tinha suma importância, uma vez que era a única prova que os incriminaria, e estes pois, sendo honesto, gostava de descer e socar o rostinho debochado de Chittaphon Leechaiyapornkul. 

Na tão esperada quarta-feira, o dia do casamento, o Visconde, ao contrário de seus amigos, preferiu ficar na mansão do Marquês a comparecer à cerimônia. Aproveitaria para caçoar um pouco dos presos.

— Acabou a hora do lanchinho, dondocas.

Ten escutou os passos dos capangas descendo o pequeno jogo de degraus para o porão. Olhou para Lucas e acenou com a cabeça. Estavam prontos. Tudo dar-se-ia conforme o plano.

Bem… mais ou menos.

Em vez de caminhar até Chittaphon, o homem armado escolheu o Major para refazer os nós da corda. 

Nosso militar engoliu em seco, apreensivo com o pequeno desvio. Ten, no entanto, não deixou-se abalar. Quando o cara que o rodeava estava próximo o necessário, o estrangeiro acertou-lhe um primeiro golpe na boca do estômago, seguido por outro na nuca. 

A movimentação repentina compeliu Lucas a agir também. Avançou na direção do coldre, precisava roubar a arma. Sua luta contra o capanga, porém, foi mais difícil do que esperava. Visto que suas pernas ainda estavam amarradas, não possuía muitas artimanhas para derrotar uma pessoa com todos os membros livres e, acima de tudo, armada. Levou quatro bons socos no rosto, os olhos marejaram. A cabeça colidiu contra a parede, foi pressionada sobre a superfície gélida. 

Contudo, assim que conseguiu colocar o outro homem para dormir, apertando seu braço ao redor do pescoço alheio, Chittaphon apressou-se para se libertar das cordas em suas pernas e levantar-se para ajudar seu companheiro. 

Teve sucesso ao puxar a pistola do coldre, mas ela escorregou de sua mão ao ser jogado no chão, de súbito, pelo inimigo. A arma deslizou pelo chão, parou bem ao lado de Lucas.

O capanga ajoelhou-se entre o corpo de Ten, rodeou a garganta dele com as mãos, apertou. 

O Wong abriu e fechou as pálpebras algumas vezes, tonto. A pressão em sua cabeça ainda era grande, parte de si permanecia imobilizada. Mal era capaz de se mover, mas teve que reunir seu último bocado de força para salvar seu amigo.

O objeto de cano curto chamou sua atenção. 

Era cruel que justamente num momento tão crítico aquela arma foi parar ali, praticamente na palma da sua mão. Respirou fundo. Você consegue, Lucas, disse para si mesmo.

Pegou o revólver, apontou para o inimigo. O indicador envolveu o gatilho. Você consegue, Lucas… Por Chittaphon, você consegue… Tinha que atirar ou seu companheiro morreria asfixiado. Lucas cerrou os olhos.

Um estrondo ecoou pelo porão.

Ten arregalou os olhos, sentiu um líquido quente esparramar por sua camisa de tecido fino; sangue.

O Major encarou a arma em suas mãos, checou o número de balas dentro do tambor. Nenhum projétil havia sido disparado, restavam todas as cinco. 

— Abaixa a arma! — Liu YangYang descia as escadas, mirando seu revólver na direção do militar. 

Lucas obedeceu sem pensar duas vezes — mais porque o barulho do tiro o deixou desnorteado. Olhou para Chittaphon. Ele estava imóvel, pálpebras meio abertas. O homem sobre si também não se movia.

O coração do Wong disparou, uma queimação tomou conta de seu peito. Estava assistindo outro alguém morrer, vivendo aquele inferno todo de novo. 

Ajoelhou-se, deixou que suas lágrimas umedecessem o rosto. Era um grande frouxo, no fim das contas. Se tivesse atirado...

— Joga ela para cá! — o Visconde demandou, acenando com a cabeça para a arma do Major.

Sua ordem foi acatada novamente, o objeto deslizou pelo chão, parou aos seus pés. Sorriu. 

— Sabe — YangYang prosseguiu —, teríamos que dar um fim em vocês de qualquer forma. Mas, pensando bem, até que vou sentir sua falta. 

Quando abaixou-se para recolher o revólver, seu corpo foi atingido por um chute certeiro. 

Cambaleou sobre os pés, perdeu o equilíbrio. A arma quase escapou de sua mão e, naquela confusão de não saber quem havia o acertado, o dedo pressionou o gatilho. 

O estrondo fez Lucas tapar os ouvidos. A bala, felizmente, não o feriu, porém, passou de raspão por seu ombro, arranhou a pele e se enterrou na parede atrás de si.

O senhor é fraco — a voz debochada soou ainda mais ácida —, além de vigor, falta precisão.

Era Chittaphon, com a roupa ensanguentada, mas o corpo intacto. O capanga, no entanto, não teve a mesma sorte.

Ten saltou sobre o Visconde, usava o máximo de força e técnica que possuía. Não era lá um leigo em artes marciais, tinha que admitir, contudo, em todas suas andanças, aprendeu uma coisinha aqui e outra ali. 

Naquela troca de golpes, quando perdeu o domínio, YangYang aproveitou sua fraqueza para girar seu braço e torcê-lo. A dor fê-lo gritar de imediato, pareceu ter ouvido seus ossos estalarem. 

Tropeçou nos próprios pés, caiu no chão. Por um momento, até cogitou desistir, ainda mais quando o Visconde tentou enforcar-lhe. No entanto, olhando para o estado em que Lucas estava, tremendo, frágil, no canto do porão, percebeu que não poderia morrer ali — não enquanto o Major ainda fosse precisar de sua ajuda. Quem mais deitaria a cabeça nos ombros dele? O ouviria? O consideraria incrivelmente suportável? 

Portanto, após algumas investidas, conseguiu colocar o nobre para dormir, prendendo o pescoço alheio ao redor de suas pernas. 

Tateou as mãos pelo corpo desacordado, vasculhou os bolsos. Já tinha escutado algumas conversas entre os capangas e os próprios opositores, então sabia onde encontrar aquilo que tanto procurava. Ao sentir o papel, não conteve um sorriso. Achou a carta.

— Lucas, vamos! — Levantou-se do chão, contente.

Pousando seu olhar sobre o Major, entretanto, seu semblante alegre perdeu intensidade. Lucas ainda chorava, respirando pesado.

Se aproximou, tocou o canto do rosto dele.

— Nós conseguimos — disse. — Nós estamos livres para partir.

O Wong arquejou.

— Eu pensei que você tivesse morrido… — murmurou. 

A falta de formalidade nas palavras surpreendeu levemente Chittaphon. Um sorriso fácil retornou à face.

— E deixar você aqui sozinho? — rebateu. — Jamais.

Um pouco antes de tudo isso, no intervalo de tempo que precedia o casamento, a Baronesa estava num dos quartos de vestir-se, pronta,  apenas aguardando pelo criado que a levaria até a carruagem. 

Na solidão daquelas quatro paredes, seu coração pesava no peito. Embora fosse atar seus nós com o homem que tanto estimava, a sensação era de que tinha se arrumado para o velório dele. E, de certa forma, não estava errada.

— Posso entrar? — Após um arranhar de garganta, ouviu essas duas palavras ecoarem pelo cômodo. 

Era Hendery.

— Temo que o noivo não deveria ver a noiva antes do casamento — ela respondeu. — Dá azar.

— Temo que já tenhamos azar demais. 

Riram.

— Eu só — ele adentrou o quarto, deu alguns passos curtos até sua garota. — queria te pedir um favor.

— Um favor?

— Isso — afirmou. — Eu vou partir para a coroação e, caso alguma coisa aconteça, quero que entregue essas cartas de despedida. — Deixou os papéis sobre a mesa mais próxima. — São para o Major, o Duque e Chittaphon.

— Eu entregarei, prometo.

— Obrigado.

O Príncipe deu as costas, começou a caminhar de volta para a saída. Todavia, parou de súbito. 

Respirou fundo.

— Não lhe escrevi uma carta porque… — hesitou, ainda sem ter coragem de virar-se para encará-la.

Correu os dedos pelos cabelos, pousou as mãos na cintura. Desde aquela discussão, eles não tinham trocado uma palavra sequer. Ali, continuava sendo difícil comunicar-se com ela.

Girou sobre os calcanhares, olhou para a mulher naquele vestido de mangas bufantes.

— A senhorita está linda.

A Baronesa sorriu brevemente. Era notável que ele estava desconversando, mas apreciou o elogio.

— O senhor também não está de se jogar fora.

Ainda sem jeito, Sua Alteza Real caminhou até a porta mais uma vez. Os dedos estavam inquietos, dedilhando na lateral da calça. 

Precisava falar com ela. Iria.

— Chittaphon me disse uma vez que histórias boas são aquelas que oferecem de tudo — meneou a cabeça na direção dela —, inclusive momentos soturnos. Creio eu que estejamos apenas vivendo isto: um momento soturno, que, infelizmente, antecede nosso desfecho. Mas ainda temos a caneta em mãos, podemos finalizar satisfatoriamente. 

"O que estou tentando dizer é que sinto muito, não deveria ter jogado toda a culpa sobre ti. Perdoe-me".

A Baronesa levantou-se do estofado, ergueu a barra do vestido para que pudesse se aproximar de Hendery e trancar a porta atrás dele.

— Apesar do fim, nós merecemos um epílogo decente, não acha?

— Sim — ele concordou.

— Então, escute-me, querido.

Mais tarde, enquanto Chittaphon e Lucas travavam uma disputa para escaparem do porão, o Príncipe foi coroado. 

Estavam presentes na igreja para a ocasião somente as pessoas de extrema importância no reino ou indispensáveis para o rito; o corpo eclesiástico, as cabeças do Parlamento e o General Bridgerton, o qual era o responsável por governar naquele período de regência.

Assim que foi consagrado, Hendery reuniu os políticos numa sala qualquer e deu suas primeiras instruções. Embora houvesse eleições para cargos a cada cinco anos, cabia ao rei a prerrogativa do veto sobre as resoluções das câmaras legislativas, bem como a escolha de quem assumiria os cargos mais altos. Ou seja, no final do dia, seria de Hendery a última palavra. Portanto, ele não tardou a deixar bem claro quais eram seus planos de governo.

Os convidados para a cerimônia de casamento foram chegando aos poucos, preenchendo os bancos. Dong Sicheng estava lá, ao lado de sua mãe. Kun chegou com a família em seguida e logo apressou-se para encontrar o Marquês. 

— Kun — o Dong sorriu ao amigo —, você...

— Escute-me — o filho do banqueiro parecia aflito. Do bolso do colete, tirou um caderno com capa de couro, velho. Um diário —, eu descobri uma coisa.

A Baronesa chegou à igreja numa bela carruagem, adornada com ouro e magnólias rosas. Como seu pai não estava presente, foi o General quem a levou até o altar. 

Tocou as mãos de Hendery, que suavam, tremiam. Deu um leve sorriso para ele, mas não recebeu um de volta. 

O bispo deu início aos ritos, questionou se ela aceitaria o Rei como seu legítimo esposo e a resposta foi:

— Sim.

Naturalmente, virou-se para Sua Majestade, e fez a mesma pergunta. A réplica, porém, não veio.

— Parem esse casamento agora! — Dong Sicheng levantou-se repentinamente, articulando com o diário em mãos. 

As portas da igreja foram abertas, Lucas e Ten invadem o local.

A Baronesa comprimiu os lábios, aflita. O que estava acontecendo?

Foi nesse mesmo instante, enquanto todos os olhares repousavam sobre o Marquês e os dois, até então, desaparecidos, que o Duque ergueu-se do banco e apontou o revólver na direção do Rei. 

O indicador apertou o gatilho, o projétil foi disparado.

Uma bala, um tiro certeiro.

E é aqui, caro leitor, que Hendery morre.



Notas Finais


Obrigada por ler<3


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