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História O Sol da Floresta - Um conto de Era Outra Vez - Capítulo 2


Escrita por: e Temperana


Notas do Autor


Olááá Galerinha linda,

Bem, caso não tenha ficado claro, esse conto é uma parceria com as meninas do IMM. Cada uma teve que escrever sobre uma das princesas da Disney. Como eu e a @Temperana temos conta aqui no spirit, resolvemos publicar o nossos aqui. Caso vcs tenham interesse em ler os outros, deixarei o link nas notas finais.

IMPORTANTE:
- Teremos cenas de violência
- Eu tinha que colocar Férias/Viagem na história
- Tinha que ser do gênero Sobrenatural, o que eu não estou muito acostumada a escrever...
- E meio que nos tempo mais atuais. Nossa história se passará em 1989 e 1943

Espero que gostem!

Capítulo 2 - O Sol da Floresta


Fanfic / Fanfiction O Sol da Floresta - Um conto de Era Outra Vez - Capítulo 2 - O Sol da Floresta

As rodas do carro moviam-se com lentidão pela estrada de terra. Seu pai sempre fora teimoso, nunca querendo pegar caminhos usuais, achava uma bela aventura conhecer atalhos antes esquecidos. Charles, achava isso uma perda de tempo, além de ser perigoso.

Mas, o seu velho estava feliz e, depois de tudo que passaram, precisavam dessa mudança de ares. O senhor Weber era o próprio alemão, loiro, com uma calvice rala no topo da cabeça, seu peso já não estava o ideal e há 3 anos cultivava um bigode robusto que chamava atenção, pois estava saindo de moda. Seus olhos eram azuis como o céu e ele sorria com seus dentes trincados em um belo charuto fedido.

Puxara os olhos do pai, mas seu cabelo era castanho como o de sua falecida mãe. Quanto mais crescia, menos as lembranças dela ficavam claras em sua memória, agradecia as fotografias que fazia-o lembrar de sua fisionomia, mesmo que estática. Poucas eram as fitas gravadas dela ainda com vida. Quando mais novo, gostava de ligá-las, só para ver os poucos segundos dela sorrindo para a câmera e a risada alta de seu pai ao fundo

Weber estava vibrando em alegria, contando tudo para o filho de  como esse evento iria mudar uma nação. E era verdade. Nunca antes, algo separou famílias de um dia para o outro. Mas, enfim, o muro iria cair. Pelo menos era o que seu pai ouvira no rádio aquela manhã. E lá estavam eles dois viajando, sem o menor planejamento, para ver esse marco histórico.

Charles estava com o mapa aberto, tentando entender o emaranhado de linhas e passando da melhor forma que conseguia, a direção correta. Mas era um desafio, já que seu pai escolhera um atalho que não constava no papel.

Weber começou a cantarolar uma cantiga antiga e cheia de impurezas, sua música favorita de viagem. Logo deu tapinhas na perna o filho para acompanhá-lo, ambos cantando em plenos pulmões pela estrada tranquila.

Riam juntos das estrofes mal formuladas e de baixo calão. Cada um intercalando as frases, se distraindo com caminho, quando um cervo pulou e cruzou a estrada em tamanha velocidade que Weber pisou no freio, tentando não atropelar o animal, ouviram um barulho alto. O carro saiu pela estrada de terra e entrou no mato, Charles gritava, enquanto seu pai segurava o volante com firmeza.

Enfim, o veículo parou e ambos se olharam, respirando forte. Seu pai o puxou para um abraço apertado, tremendo. Abriram a porta, para ver o estrago, olharam em volta e nenhum sinal do animal, fugiu pelo bosque sem vestígio, mas sabiam que estava ferido pelo sangue na lateral do carro.

Seu pai abriu a caçamba, do Apollo cinza, e parecia tudo em ordem. Olharam os pneus, tudo certo, havia sido só um susto e o coitado da animal desapareceu. Sem ter  o que fazer, seu pai virou a ignição e o carro ligou. Deu a ré para voltar a estrada, mas perceberam que a suspensão não estava boa, a viagem que antes estava lenta, piorou o ritmo.

Depois de alguns longos minutos de viagem, encontraram uma vila de beira de estrada, com poucas coisas: uma igreja, casas pequenas, uma escola, um mecânico, posto de gasolina e uma hospedaria. Já era tarde e sabiam que não daria para continuar com o carro naquele estado. Seu pai parou na frente do mecânico, uma mulher saiu da loja de madeira, seu cabelo era curto e loiro escuro, usava calças largas e uma boina. Limpava as mãos em um pano sujo de graxa, deveria ter os seus quarenta anos. Deu um tapinha na lateral do carro, seu pai abriu a janela e ela se apoiou para conseguir falar com eles.

— Tarde! — os cumprimentou.

— Boa tarde. Tivemos um acidente na estrada com um cervo, acabei entrando no mato e acho que algo aconteceu com a suspensão.

— Precisarei dar uma olhadinha. Saiam do carro, por favor.

Ela colocou-o em uma espécie de elevador, suspendendo o automóvel para poder ver a parte de baixo. Após alguma checagens a mecânica veio com o veredicto. 

— A bandeja da suspensão foi comprometida. Teremos que trocar a peça.

— Isso será rápido?

— Seria, se tivesse essa peça específica aqui. Vou ter que ir até Landsberg, logo pela manhã. A essa hora, quando chegar lá, já estarão fechados. — comentou olhando o relógio.

— Jura? 

—  Infelizmente… Aconselho vocês dormirem por aqui. Tem uma hospedaria logo ali. — Apontou para uma construção a frente.

— Queria viajar mais algumas horas! Daqui até Berlim são seis horas de viagem…

— Sinto muito, mas não posso deixá-los ir. É perigoso, ainda mais nessa estrada. Prometo que vou pegar a peça pela manhã, vocês poderão continuar viagem antes do almoço.

— Fazer o que… Obrigado, senhora…

— Zimmer… Norma Zimmer...

— Klaus Weber, esse é o meu filho Charles. Vejo a senhora amanhã.

— Pode deixar, cuidarei desse rapazinho aqui com carinho. — falou dando tapinhas na lataria.

Entregaram a chave para a mulher e encaminharam-se para a hospedaria. Ela era uma típica construção alemã, sua estrutura era um pouco torta, com um telhado em madeira, mas parecia aconchegante. Abriram a porta larga e uma moça, que deveria ter entre seus dezesseis, dezessete anos os atendeu com um belo sorriso no rosto. Olhou para Charles e mexeu no cabelo loiro, o garoto correspondeu ao sorriso e, assim que os papeis foram assinados, ela lhes entregou a chave do quarto.

Ajudou seu pai a carregar as malas para o andar de cima, agradeceu por serem leves. O cômodo era confortável, com duas camas de solteiro, havia uma televisão e um frigobar com apenas água no interior. A vista da janela dava para o bosque.

Seu pai foi tomar um banho e o garoto ficou pensando na atendente do andar de baixo, regulavam na idade e ela pareceu notá-lo com outros olhos. 

— Pai…

— Sim! —  gritou debaixo do chuveiro.

— Vou dar uma volta, ok?

— Tá… Mas não demore! Quero jantar às 8 horas!

— Tá bom!

O moreno saiu fechando a porta e desceu as escadas, a garota continuava em seu posto enrolando uma das mechas no dedo indicador. Ela lhe olhou pelo canto de olho e um sorriso torto apareceu em seus lábios. Ele se encostou no balcão, pegando um panfleto sobre a cidade.

— Eu não confiaria em nada que está escrito aí… — comentou a menina.

— Propaganda enganosa?

— Totalmente, isso aqui é o fim do mundo, nada de interessante acontece nessa cidade, não mais, pelo menos...

— Como assim?

A menina mexeu os ombros. 

— Na última guerra isso aqui foi um porto seguro para as pessoas que fugiam do campo de extermínio. Reza a lenda que os espíritos dos mortos protegiam quem conseguia fugir e matavam os nazistas que andavam por essas terras… Mas hoje, só tem camponeses e beberrões…

Ele riu de sua fala.

— Charles Weber — estendeu a mão para a garota que a apertou.

— Mia Zimmer…

— Zimmer? Mesmo sobrenome da mecânica.

Viu os olhos castanho-esverdeados se arregalarem em surpresa.

— Minha mãe… — respondeu dando de ombros. —  Graças a Deus, não tive que trabalhar lá com ela, meu irmão que a ajuda com a loja. Por isso estou aqui, mas espero ir para Berlim, assim que fizer 18 anos.

— Também quero ir estudar lá. Ainda mais agora…

— Acha que vão realmente derrubar o muro?

Ele levantou os braços e se apoiou melhor no batente.

— Eu e meu velho estávamos indo para lá. A família dele ficou do outro lado.

— Sinto muito. — ela tocou em sua mão de leve.

— Está tudo bem. — disse apertando a sua palma. — Já que não posso confiar no panfleto, gostaria de me mostrar a cidade?

Viu nos olhos da menina um brilho e novamente o sorriso de canto surgiu em sua face.

— Saio em quinze.

Charles sorriu para a garota.

— Vou ficar te esperando no restaurante.

Ela apenas lhe lançou um sorriso e Charles apertou a sua mão de leve soltando em seguida, indo em direção ao restaurante/bar da hospedaria. Lá tinham mesas com toalhas quadriculadas, um pequeno palco de madeira e um balcão largo com uma estante cheia de bebidas. Ele sentou em um dos bancos e foi atendido por um homem mais velho, seu cabelo castanho escuro com alguns fios grisalhos  e olhos de mesma cor lhe encararam, tinha um cavanhaque no queixo.

— O que vai querer, garoto? — perguntou.

— Uma Coca, por favor.

O barman tirou a latinha do freezer e entregou junto a um copo com gelo. Ficou assistindo uma partida de futebol em uma pequena televisão que estava no bar, quando sentiu a mão dela em seu ombro. Pagou o refrigerante e os dois saíram da hospedaria.

Mia lhe mostrou tudo da cidade, de forma até didática, não foi uma caminhada longa era uma vila pequena. Conversavam banalidades, ela lhe contava como era a sua vida ali e como sonhava em morar em uma cidade grande. Ele tinha quase o mesmo sonho, então a conversa transcorreu tranquila. 

O sol começou a querer descer no céu. Charles percebeu que Mia parou ao seu lado com um semblante pensativo, a encarou, estranhando, pois tinha sido bem tagarela durante todo o percurso.

— Que foi?

— Tem mais um lugar que quero te mostrar.

— Então vamos…

— Vai soar meio estranho, mas é no meio da floresta…

Viu ele arregalar os olhos, com um semblante confuso.

— Vai me sequestrar, Mia?

— Sequestrar não, porque você estaria indo de bom grado. Mas, esquartejar e dar o seu coração como sacrifício para os espíritos da floresta, talvez… — ela riu no final, lhe dando um leve tapinha no ombro. Pegou a sua mão e foi em direção ao bosque.

As árvores eram altas e imponentes, pouca vegetação rasteira e conseguia ver vários arbustos floridos ou com frutas. Era agradável e a companhia da menina também era, ela lhe contava histórias da sua infância brincando por ali e das peças que seu irmão adorava pregar nela.

— Estamos chegando, é logo ali!

Mia apontou para algumas rochas cinzas que eram cobertas de folhagens. Havia um vinco entre elas, por onde os dois passaram. Chegaram a uma clareira extensa e bem iluminada. Mas, o que mais lhe chamava a atenção era a uma construção rochosa, muito alta, seu telhado de ardósia brilhava com os raios do sol, algumas roseiras tentavam subir por entre as pedras largas e várias flores rodeavam a construção, que era  linda, como se estivesse lá há anos, parecia até que um pintor a havia pintado ali. 

Riu do olhar de Charles, totalmente perdido perante a surpresa. 

— Limpa a baba, garoto!

— Como que isso está aqui? Escondido desse jeito?

— Não sei… Mas todos da vila sabem da existência da torre, mas ninguém realmente descobriu como ela veio parar aqui. Nem sabemos como entrar nela. — ela disse chegando mais perto, apoiando a mão em seu peito. — Só sabemos que ela está aqui há muito tempo...

Charles tocou a sua cintura e a puxou para ele, encostando seus lábios nos dela. O beijo começou calmo, se conhecendo, a menina o abraçou pelo pescoço e afundou uma das mãos em seu cabelo castanho, trazendo-o mais para perto. Não demorou muito para intensificarem o carinho. Charles passeava com as mãos nas costas dela, enquanto sentia as unhas lhe arranharem a nuca. Foi quando algo os fez travarem.

Uma leve canção chegou aos ouvidos dos dois. Chales quebrou o beijo e encarou os olhos de Mia, eles ficavam quase verdes no sol. Viu que as sobrancelhas claras se juntavam em confusão, assim como ele.

— Você está ouvindo isso?

— Estou…

Ela pegou sua mão e começou a encaminhar-se em direção a melodia. Era uma voz feminina, bonita e cantarolava uma cantiga quase infantil. Começaram a adentrar em uma área mais fechada, a voz ficando mais alta a cada passada. Charles, afastou uma planta, quando sentiu um líquido em sua mão, olhou para a palma e viu o sangue fresco. Travou Mia  e mostrou-lhe o vermelho vivo, percebeu que a menina ficou assustada, olharam em volta e o sangue estava espalhado, fazendo uma trilha. Perseguiram em silêncio, a cada passo a voz ficava mais alta. 

Um brilho dourado intenso começou a surgir por entre as folhagens, Charles começou a espremer os olhos, tentando enxergar com tamanha claridade, parecia como se o próprio sol estivesse no meio do bosque. Chegaram e viram uma figura brilhante, parecia ser algo fora desse mundo, espremia os olhos e colocavam a mão sobre eles para tentar ver algo além da luz. O garoto percebeu um cervo deitado sob ela, como se esse ser estivesse lhe sugando a vida, o animal estava estático, com os olhos negros fixos nos azuis do menino. Mia encolheu-se ao seu lado, ele a abraçou vendo aqueles raios do sol como ondas indo em direção ao animal, pareciam tecidos com vida própria, os fios, não conseguia discernir.

A figura brilhante se mexeu e Mia soltou um grito de susto, a viram virar a cabeça em direção dos dois e o brilho ficou ainda mais intenso, forçando-os a fechar os olhos e virar o rosto. Em um segundo, a luz que tanto os incomodou, desapareceu como se nunca tivesse existido. E cervo permanecia lá, no meio do bosque, deitado.

Charles sentia seu coração batendo forte contra o peito, Mia, tremia em seus braços. Ele olhava em volta tentando encontrar a figura de luz, mas nada estava à vista, tinha desaparecido. Soltou a menina e andou cautelosamente até o animal que continuava deitado, via que a sua volta tinha uma poça de sangue fresco. Mas ele respirava profundamente e não tinha nenhuma ferida aparente. Quando o menino chegou mais perto, os olhos escuros o encararam. Sentia Mia atrás dele, ela olhava para todos os lados e  quase colava seu corpo no de Charles, tremendo de medo. O  moreno estendeu a mão para o cervo, querendo tocá-lo. Quando sentiu a sua  pelagem áspera, o animal levantou e saiu pulando pelo bosque, arrancando gritos de ambos que se abraçaram apavorados. Charles tentava acalmar a garota que tremia inteira.

— O que foi aquilo? — perguntou ela.

— Eu não faço a menor ideia, melhor voltarmos para a vila antes que o sol se ponha por completo.

Ela concordou e o guiou de volta a pequena cidade, foram em silêncio pelo caminho, cada um preso em seus próprios pensamentos. Quando finalmente viram a vila, a menina virou para ele e disse: 

— Não vamos comentar com ninguém sobre o que aconteceu. Cidade pequena adora se assustar por qualquer coisa.  Mas, eu preciso de uma bebida. Se quiser, pode vir comigo.

— Claro…

— Claro, para quê?

— Para os dois.

— Ok, vem comigo.

A loira andou até uma das casas da vila, mandou ele ficar esperando na calçada enquanto entrava na residência. Voltando, momentos depois, com duas latas de cerveja. O céu já estava escuro com a lua cheia brilhante.

— Belo encontro esse nosso, não? — Mia comentou, rindo pelo nariz.

— Tenho certeza que nenhum dos dois irá esquecer. Por um lado é bom…

— Bom?

— Assim você não me esquece tão cedo.

— Idiota.

Ele apenas riu. Bebendo sua cerveja.

— Sua mãe não vai se importar que você pegou as bebidas dela?

— Não são dela. Te falei que tenho um irmão, ele é mais velho. A geladeira está lotada, nem vai perceber, nunca percebe.

— Legal…

Ao contrário do início do passeio, as palavras estavam mais difíceis de serem pronunciadas. Cada um ainda muito abalado pela visão que tiveram no bosque.

— O que vimos na floresta, Charles? — sua voz saiu num sussurro.

— Eu não faço a menor ideia, achei que estivesse matando o cervo, tipo um vampiro, sabe? — falou abraçando-a pelos ombros e trazendo-a mais para perto. Queria dar um consolo para a menina.

— Eu também, mas não… Ele estava bem, sem nenhuma ferida no corpo. Quando saiu pulando, não parecia que tivesse nenhum arranhão! Mas e aquele sangue todo em volta? Não faz sentido!

— Muito estranho… Não sei te responder, nunca vi nada parecido.

— Será que vimos um anjo?

Os dois se olharam e riram, sem conseguir definir em palavras o que era aquele ser.

— Tenho que ir jantar com o meu pai.  — comentou ele amassando a lata com o pé e jogando no lixo.

— Hm… Ok… 

Ela se desvencilhou de seus braços e olhou para a latinha, dando de ombros.

— Você gostaria de ir jantar conosco? — perguntou sem graça, passando a mão direita pelo cabelo bagunçado.

— Já quer me apresentar a sua família? Já  fiz todo esse efeito sobre você? — levantou uma sobrancelha e sorriu marota para ele.

Viu o menino ficar sem graça, olhando para os lados. Ele bagunçou o cabelo e tentou falar algo, mas gaguejava.

— Eu… Bem…

— Pelo jeito vimos o cupido hoje. — disse ela brincando e lhe dando um selinho. — Adoraria fazer companhia a vocês.

— Sério?

— Sério. Vamos… Ele está na hospedaria?

Charles concordou e os dois andaram de mãos dadas até o local de trabalho da menina. Seu pai já estava na recepção, lendo o jornal do dia, olhou-os assim que passaram pela porta, levantando a sobrancelha para o filho, que apenas revirou os olhos. Charles apresentou Mia para Weber, que lhe abriu um belo sorriso e começou a puxar assunto com a garota. Ela, que era extrovertida, conquistou o senhor logo.

Viu, nos olhos claros de seu pai, um sinal de aprovação para o filho. Charles rolou os olhos mais uma vez e se virou para Mia.

— Qual seria o melhor local para comer aqui?

— Honestamente?

— Sim, como uma bela anfitriã, pode nos indicar um restaurante.

— Aqui mesmo. Como te falei, na vila não tem muitos lugares. A comida aqui é gostosa e o preço justo. Mas, se quiserem, poderemos ir a outro lugar, tem outros restaurantes mais ao centro, mas não é nada de mais.

— Acho que podemos ficar na hospedaria mesmo, vi algumas pessoas entrando no restaurante, enquanto os esperava, o local já está cheio. 

— O Spätzle é uma delícia e o Kassler é super bem temperado, dona Evelise é um baita de uma cozinheira. Recomendo qualquer um deles, mas tem outras coisas no cardápio e hoje é dia das histórias.

— Dia das histórias?

— Sim… Ele conta histórias para crianças e mais tarde para adultos. Podemos pedir de qualquer tipo, sempre será algo empolgante.

— Então está decidido, comeremos por aqui mesmo. — Senhor Weber juntou as mãos em uma palma e se virou seguindo o cheiro da comida.

Os três sentaram em um das mesas de toalha quadriculada, pediram as bebidas e alguns salsichões de entrada. Conversavam animados, Weber contou que nasceu em Berlim e, um dia, por ser o irmão mais velho, ajudou o seu pai com a sua avó, na parte ocidental da cidade. A senhora estava muito doente e os filhos revezavam os cuidados com ela. Quando tentaram retornar para casa, para a sua mãe e irmãos, eles já estavam presos na parte oriental. Nunca mais soube da sua família, estava esperançoso para que enfim pudesse ver seus irmãos caçulas e, quem sabe, a sua mãe.

Mia se solidarizou pelo homem mais velho, tecendo comentários animadores. Quando foram interrompidos por palmas e o barman subiu no palco. O homem se sentou na poltrona, com uma garrafa de água ao seu lado. Mia assoviou para ele, que lhe acenou simpático.

— O que vão querer ouvir hoje?

— História de dragões! — Pediu um menino de uns 6 anos. Um grupo de crianças fazia uma meia-lua na frente do palco, esperando por ele, com os olhinhos vibrando em alegria.

E, assim, ele começou. O silêncio tomou conta da hospedaria. A voz do homem era imponente e ele fazia gestos amplos para melhor expressar o que queria. Charles sussurrou no ouvido da menina.

— Não sabia que era o barman o contador de histórias.

Ela lhe olhou travessa.

— Barman? Ele é só o dono da hospedaria, meu patrãozinho.

— Sério?

— Sim.

A noite correu tranquila, riram da barriga doer, ficaram nervosos em certa partes. A comida chegou e era muito bem servida e o gosto maravilhoso. Senhor Weber agradeceu a indicação da menina.. O barman bateu as palmas e bebeu um belo gole de água.

— Hora das crianças dormirem! — falou sendo seguidos por muxoxos baixos. — Sabem as regras, pequeninos! Já são nove horas, é a vez dos adultos!

Só agora Charles percebeu a quantidade de crianças que estavam no salão. Muitas vieram para a hospedaria só para ouvi-lo. Todas levantaram e saíram cabisbaixas pelo salão. Mia, percebendo seu espanto, comentou:

— É uma tradição da cidade. Desde que me entendo por gente, o patrão conta histórias. Quando você faz dezesseis ele lhe deixa ficar para a próxima hora. Odiava ter que sair, quando era mais nova. Eu, e meus amigos, ficávamos ouvindo pela janela.

— O que vão querer ouvir hoje? — A voz do senhor conquistou o salão

Mia levantou a mão, mais rápido que qualquer outra pessoa.

— Mia? — respondeu dando um sorriso para ela.

— Quero que conte sobre os espíritos da floresta na guerra! — quando as palavras saíram de sua boca, percebeu os olhos de todos pregados em si. Ainda era um certo tabu falar da guerra.

— Certeza? 

— Sim senhor. De preferência sobre a torre escondida.

Isso fez o barman ficar em silêncio um tempo. Fechou os olhos e respirou fundo jogando o corpo no encosto da poltrona que estava sentado. Ele virou para um garçom e falou:

— Tom, me busque uma cerveja, por favor.

O atendente franzino  foi até o bar e encheu uma caneca com o líquido dourado, com o perfeito equilíbrio  da espuma, entregou para o chefe que deu três belas goladas. O homem sentou-se mais confortável encarando seu público, o silêncio no cômodo começou a ficar intenso, podendo ouvir a respiração dos espectadores. Limpou a garganta e começou a narrar a sua história.

Era começo de uma noite sem estrelas, o ano era 1943 e a guerra estava em seu ápice. O medo da morte perante uma parte de nossa população se estendia por léguas. Ninguém poderia confiar em ninguém. Infelizmente, para o nosso pequeno protagonista, não havia mais esperanças. 

Ele se encontrava no campo de concentração de Dachau, não por ser judeu, mas por ter sido filho de pais que enfrentaram o governo, ambos foram exterminados meses após serem capturados, deixando-o sozinho. Olhava o seu braço tatuado com o seu nome: F-2010, era assim que o chamavam, seu nome verdadeiro fora esquecido por todos e ele o guardava como o seu maior segredo, como se assim ainda pudesse, quem sabe, voltar a usá-lo.

Estava com fome, conseguia sentir os ossos contra a pele. Seus companheiros estavam na mesma situação, alguns até piores, com feridas abertas e fedidas.  Olhava para as suas unhas sujas, tentando tirar a sujeira por debaixo. Estava imundo.

Dachau foi o primeiro campo a ser construído, em uma usina de pólvora, basicamente para conter políticos, doentes e criminosos. Então, tudo ali parecia cinza demais, pele, cabelos, unhas, até os pijamas listrados que usavam, que deveriam ser em um tom mais azulado, lá era cinza. Como se as partículas de pólvora impregnassem em qualquer coisa, querendo tirar qualquer resquício de vida. 

Ali, também havia uma câmara de gás, que fora usada pouquíssimas vezes, ninguém sabia o real motivo. Mas, todos ali agradeciam por esse fato. O que lhes restavam era esperar. Mas as suas esperanças já  tinham se esgotado, sem forças para continuar.

Joseph entrou no bloco com os olhos esbugalhados e tremendo. Seu cabelo ralo e duro estava espetado para cima e andava de um lado para o outro passando a mão no rosto, sujando-o de pólvora. Vagner tentou acalmá-lo, sentando em um dos beliches, suas pernas batiam no chão em desespero.

— O que aconteceu, Joseph?

Os olhos esbugalhados do homem, encararam o outro, que lhe apertou o ombro.

— Seremos transferidos amanhã para Auschwitz. Acabei de escutar dois guardas comentando.

A notícia caiu como um baque para todos da ala. Mesmo já estando em um campo, sem a menor perspectiva de melhora, pelo menos não era a temida Auschwitz. 

— Temos que fugir. — um dos homens clamou. — seremos mortos amanhã! Eles não vão nos transferir e sim nos matar! Se tentarmos em bando, alguns podem conseguir viver!

— Mas irão atirar na gente! Não podemos correr esse risco!

— Qual a parte de vão nos matar amanhã de qualquer jeito você não entendeu? Melhor alguns viverem do que todos morrerem!

Não demorou muito para que um grupo de homens aceitassem a fuga, muitos morreriam, sabiam disso. Começaram a quebrar os beliches de madeira para ter alguma espécie de arma. O barulho chamou a atenção de alguns guardas que apareceram nas portas com as armas apontadas. Assim que entraram no recinto os homens atacaram e o som dos tiros e os gemidos dos homens atingidos chegaram ao ouvido do garoto.

Vendo a porta aberta, não pensou, correu por ela sendo acompanhado pelos outros. A sirene do campo soou alta e a marcha dos nazistas fazia o seu coração pulsar forte contra o peito. Mas, em sua cabeça, havia apenas um objetivo: encontrar a cerca de arame farpado e fugir por ela.

Seus passos rápidos cortavam o campo em uma trilha sonora de tiros e corpos caindo. Não queria pensar, apenas sair dali.

Pressionou os olhos, conseguindo enxergar  a cerca, faltava pouco, seu coração bombeava o sangue para as suas pernas. Segurou com força o taco de madeira, os gritos de seus companheiros a sua volta o fez gritar junto. Começou a desferir golpes com o bastão nos arames, tentando abrir um buraco para passar. Três homens o ajudaram e conseguiram fazer uma passagem estreita.

O garoto se agachou e passou pelo buraco, assim como outros dois, na vez do terceiro, viu a bala lhe estourar os miolos e ele cair nos arames, lhe rasgando a pele. O menino soltou um grito de pavor e foi puxado pelos mais velhos para correr em direção a floresta.

A imagem do homem morto não saia de suas pálpebras. Lágrimas de desespero escorriam pelos seus olhos. Ouvia que, além deles, outros conseguiram sair. Não sabia ao certo quantos, mas os passos amassando as folhagens chegavam a seus ouvidos. 

Tiros eram dados em sua direção e adrenalina corria por suas veias. Quanto mais entravam na floresta, maior era o seu desespero. Como iria viver ali? Ele seria pego, óbvio! Que ideia mais imbecil! Esse sentimento aumentou quando os primeiros latidos chegaram, os nazistas soltaram os cães atrás dos prisioneiros. Agora ele teria uma morte lenta e dolorosa. Em seus dezessete anos de vida, nunca imaginara que iria morrer sendo comida para os animais.

Seus pés estavam rasgados pelas pedras e espinho, parou para olhar em volta, vendo as lanternas ao longe, foi quando sentiu a dor. Fechou os olhos caindo no chão. Seus companheiros tentavam levantá-lo, mas o tiro que atravessara a sua perna esquerda o impedia de ter o equilíbrio necessário. Um deles fez pressão com uma das mãos sobre o ferimento, enquanto o outro, vendo a situação, fugiu deixando-os sozinhos.

— Vá! — exclamou o menino. — Não tenho mais esperanças! Vá!

O senhor magro lhe encarou e levantou, foi quando três balas o atingiram e ele caiu no chão, morto. O menino gritou, e chorou por aquele homem que nem sabia o nome, mas ele quis ajudá-lo. Ouvia os gritos dos outros, os tiros, os latidos. Olhou para o céu, pedindo a Deus para que ele lhe levasse logo, sem dor. Mas ele não lhe ouviu, não naquele momento.

— Aqui! Tem um deles aqui! — ouviu um grito de um dos guardas. 

Outros cinco homens chegaram e o olharam. 

— Peguem-no. Iremos fazer desses fujões exemplos para os outros.

O gelo lhe transcorreu a espinha, era a voz do general Alfred, maior dos carrascos, sabia que iria sofrer muito até ser levado pela morte. A perda de sangue lhe deixava zonzo. Os homens o carregaram, não se importando com o ferimento, ele gritou, quando um dos guardas lhe chutou a perna baleada. Foi quando o clima da noite mudou. A vegetação viva e forte começou a murchar.

Pareceu como se tivesse indo para uma outra dimensão. Tudo ficou frio e escuro, mesmo sendo noite de verão e a lua estava cheia, foi fincando cada vez mais fraco, perdendo os sentidos, algo lhe sugava as energias. Estava machucado, sabia disso, mas não a ponto de ter alucinações, uma figura feminina surgiu por entre as árvores. Ela era magra, sua pele muito branca brilhava em contraste com o breu em sua volta, seus olhos estavam negros, inclusive as escleras. Mas, o que mais lhe chamava a atenção eram seus longos cabelos negros. Cascatas dos fios flutuavam a sua volta, eram tão longos que não consegui ver o final. Ela os controlou e envolveu os guardas que o prendiam.

No momento que os fios tocaram nas peles dos homens eles gritaram, como se uma dor possuísse seus corpos. Um sorriso largo surgiu na face da menina, enquanto os homens tentavam sugar o ar. Pareceu que naquele momento que o tempo passou muito rápido e eles desfaleciam a sua frente, como se ela lhes tivesse tirado toda a água do corpo, seus olhos arregalados e brancos, não piscavam mais, agora sem vida.

Os fios negros os soltaram e seus corpos caíram no chão, virando pó. A relva e plantas da região estavam secas. O menino, deitado na terra, viu aqueles pés brancos começarem a vir em sua direção, chorava de dor e pânico tentando fugir daquele ser, mas estava muito fraco, sem forças para lutar. Ela chegou bem perto dele se ajoelhando a sua frente.

De repente, os olhos totalmente negros piscaram e as íris verdes brilhantes apareceram. Como tinta, o negro de seu cabelo escorreu pelos fios, transformando-os em loiro, ainda muito extensos. Ela tocou seu rosto com candura, olhando a ferida em sua perna. Começou a cantar uma cantiga suave, com uma voz limpa e pura.

Os fios, então loiros, começaram a brilhar, de uma forma tão intensa que parecia que o próprio sol emanasse de suas mechas. O menino fechou os olhos pela força da luz, enquanto a música se propagava no meio da floresta.

Brilha linda flor

Teu poder venceu

Traz de volta já

O que uma vez foi meu

 

Os fios dourados começaram a vir em sua direção. Ele, em pânico, tentou fugir, mas ela lhe tocou as mãos com delicadeza, balançando a cabeça em sinal negativo. As mechas douradas abraçaram sua perna machucada. Um calor gostoso lhe subiu pelos tornozelos até as coxas, não teve dor, era quase uma sensação anestésica.

Cura o que se feriu

Salva o que se perdeu

Traz de volta já

O que uma vez foi meu

Uma vez foi meu

Quando terminou, o brilho se apagou. Ele piscou algumas vezes se acostumando com a escuridão. Viu um belo sorriso no rosto da jovem. Ela soltou os fios e a única coisa que lhe lembrava do ferimento era o rasgo em sua calça e o sangue que manchara o tecido, mas a dor e o lanho desapareceram. Ele a olhou, ela lhe encarava com delicadeza. Sentiu a mão macia em sua face e a menina lhe deu um beijo na testa. Levantou e se virou para ir embora.

— Espera! — gritou ele, levantando uma das mãos.

A menina se virou, olhando o garoto 

— O que aconteceu aqui? O que é você?

— O que aconteceu aqui foi justiça. Eu sou igual a você, tenho ossos, carne e sangue.

— Mas o seu cabelo! Ele… O cabelo!

Viu ela rir contida de sua confusão.

— Entendo que ele o assuste, mas fique tranquilo, não irei machucá-lo, você não merece.

— Qual o seu nome? — perguntou o menino para a figura que começava a entrar na mata.

— Qual o seu nome? — repetiu ela a pergunta.

— Eugene — apresentou-se. Queria, por algum motivo, que a menina soubesse como se chamava. Como seus pais o chamavam.

— Você precisa fugir, Eugene, mais deles virão. Tentarei segurá-los.

— Para onde posso ir? Sabe de algum lugar seguro?

Ela apontou para o cruzeiro do sul, desceu um braço em direção  leste.

— Ande para lá, durante 30 minutos, encontrará duas rochas cobertas por uma trepadeira, dentro dela haverá uma torre, lá você estará seguro. Espere até que esteja tranquilo para seguir.

— Mas qual é o seu nome?

A menina sorriu para ele, fazendo uma mesura e seguiu o seu caminho, embrenhando-se na mata. Ele tentou segui-la, mas não conseguiu, ela sumiu como em um passe de mágica. Olhou para as estrelas e andou para o caminho que ela o apontara.

O patrão, parou sua narração, olhando todos em volta. Voltou a apoiar no encosto da poltrona e terminou o restante da cerveja, que já  começava a esquentar. O salão estava em silêncio esperando o final da história, que não veio. Ele deu um leve pigarro e levantou-se.

— Por hoje é só! — falou juntando as mãos e descendo do palco. As palmas começaram e ele fez uma mesura para todos.

Charles olhou para Mia que estava branca. A menina da história tinha as mesmas características da que eles viram, a música, o brilho intenso, o cabelo longo. Além do cervo, que estava machucado e conseguiu voltar a andar como se nada tivesse acontecido.

O chefe conversou com um dos garçons e começou a ir em direção a porta. Charles pegou a mão de Mia e a puxou para a saída, ignorando o pai que o chamou. Seguiram o contador de histórias, ele andava até a parte de trás do estabelecimento, onde tinha uma baia com um majestoso cavalo branco.

— Senhor! — gritou o menino, fazendo-o virar para olhar os dois. O homem levantou uma sobrancelha, encarando o casal que corria em sua direção.

Ele fazia um carinho no focinho do animal que relinchava  inquieto, querendo ir para casa. Charles estranhou, nos dias atuais, quem andava a cavalo?

— Olá, no que posso ajudá-los? O que foi Mia? Está passando bem? Você está branca feito papel!

A garota encarava ele ainda atônita, sua boca mexeu algumas vezes sem proferir som algum. Charles, percebendo que ela não falaria nada, tomou a dianteira da conversa.

— Gostaríamos de saber o final da história, se não é pedir muito, senhor.

— Meu garoto, a história acabou. — falou, verificando se a sela estava bem presa.

— E o que o Eugene fez? Ele sobreviveu? Conseguiu fugir dos nazistas? E a menina? Quem era? Um anjo que o protegeu?

— Anjo? — ele riu. — Podemos dizer que ela foi um anjo para ele e um demônio para os outros, tudo é relativo nessa vida. Depende de que lado você está.

— Poderia nos contar um pouco mais sobre ela? — Mia pediu baixo.

— São histórias, garotos. Lendas… Vocês já estão grandinhos para ficar com isso na cabeça.

O casal jovem se encarou. Mia, se enchendo de coragem falou:

— Vimos ela na floresta essa tarde ou algo muito parecido, senhor! Era uma luz intensa em uma figura feminina que não conseguimos ver direito. Por favor, só precisamos saber um pouco mais. Acredite em nós!

— Isso é impossível, Mia.

— Não é senhor! — Charles disse. — Realmente a vimos. Ela estava cuidando de um cervo ferido. Tinha muito sangue em volta e quando ela sumiu o animal andou, como seu nada tivesse acontecido.

O homem ficou sério, encarando o casal. Ele apertou o osso do nariz, entre seus olhos e bufou baixinho.

— Essa parte da história não é para ser contada. Basicamente, o que vocês precisam saber é que essa menina da floresta, protegeu, durante anos, os prisioneiros do campo de Dachau. Eugene, a esperou na torre que ela lhe deu a direção. Esperou por dois dias mas, quem apareceu, foram os outros sobreviventes do campo que chegavam e se protegiam por ali. Todos muito assustados, mas nenhum estava ferido. Relatavam experiências com a menina, como a chamaram: O Sol da Floresta. O sol que lhes deu uma nova vida, uma nova perspectiva… Depois de alguns dias, sem ela aparecer, eles decidiram seguir o caminho e  fundaram esse pequeno vilarejo, escondido no meio da floresta. Isso, há 46 anos. Quando a guerra terminou, todos os sobreviventes foram ver a liberação dos que ficaram no campo, levando panelas com comidas. Nenhum deles viu ela novamente. E, como muitos não tinham aonde ir ou para quem voltar, ficaram por aqui mesmo.

— Nem o Eugene?

— Nem ele… Mas sua vida foi boa, querida. Ela é apenas uma protetora dos que mais precisam. Agora vão aproveitar a noite. Ela não fará mal a vocês, a não ser que maltratem alguém.

O casal murchou um pouco, mas não havia nada a ser feito, apenas aceitar. O animal relinchou novamente, querendo agilizar a viagem que teria que fazer. Se despediram, Charles apertou a mão do homem enquanto Mia o abraçou, ele a consolava, quando envolveu a menina, a manga de sua camisa subiu, revelando uma tatuagem borrada, mas Charles conseguiu vê-la por um instante. F-2010.

— Boa noite, garotos. — despediu, subindo no animal.

— Boa noite, Flynn. — Mia lhe deu um aceno com a mão. — Até amanhã!

— Até amanhã, garota, tenta não chegar atrasada como sempre.

— Eu não tenho culpa!

Flynn gargalhou e apertou a barriga de seu animal com os calcanhares, começando a trotar para casa. O casal ficou ali, no meio da rua, olhando a figura sumir nas sombras da noite. Ela abraçou Charles pela cintura, ficando na ponta dos pés para lhe dar um selinho. O menino ainda encarava o local que o homem sumiu.

— Qual o nome dele?

— Flynn.

— Certeza?

— Ele é o meu chefe, Charles! Eu sei o nome dele!

— Estranho…

— O que foi?

— Ele tem uma tatuagem no antebraço. F-2010. A mesma que Eugene tinha.

A menina o encarou intrigada, mas apenas deu de ombros.

— Deve ter sido uma licença poética dele. Quis colocar algo próprio na história, não deveríamos nos apegar a isso. 

— É, você tem razão. Vamos aproveitar o nosso tempo e esquecer o que aconteceu. Foi apenas uma experiência sobrenatural que tivemos. — ambos riram e ele a puxou para um beijo.

Os dois aproveitaram o final da noite, juntos. Charles e seu pai seguiram viagem na manhã seguinte, a senhora Zimmer fez um belo trabalho com o carro dos Weber. O muro foi realmente jogado abaixo, ele e seu pai reencontraram com seus dois tios, infelizmente sua avó já havia falecido, mas aquela semana nunca seria esquecida por Charles. Ele e Mia, ficaram trocando cartas e telefonemas durante um ano, até ambos ingressarem a universidade de Berlim. E, a pequena vila, continuava tranquila, no meio da floresta.

***

O balanço de Maximus era tranquilo. Ele nem precisava guiar o animal, o cavalo já sabia o caminho e ia a passos lentos. Entraram na floresta  e Flynn deu um longo suspiro, fechando os olhos, relembrando o seu passado. O rosto da menina nítido nas suas pálpebras. Sentiu o balanço parar e o relinchar do cavalo o fez abrir os olhos. Encarava a longa torre, abriu um sorriso e pulou do animal. Colocou dois dedos em seus lábios e um assovio alto ecoou por toda clareira.

Demorou um pouco, mas os longos cabelos loiros caíram como cascata da janela da torre. Ele pegou segurou os fios e subiu pela torre, com mais dificuldade devido à idade que tinha. Quando entrou no cômodo pequeno, mas aconchegante, foi atacado pelos braços dela, lhe abraçando a cintura. O senhor lhe deu um beijo na testa.

— Chegou mais cedo hoje, querido.

— A história foi intensa. Me fez sentir saudades suas, Rapunzel.

O sorriso surgiu nos lábios femininos. Ela não era mais uma garotinha, como se lembrava tão vividamente. Ele também não era aquele prisioneiro franzino. Mas a essência de nenhum deles mudou durante esses anos.

— Qual foi o tema de hoje? — perguntou sentando ao seu lado.

— Você.

Rapunzel arregalou os olhos claros, assustada.

— Como assim?

Ele deitou na cama, puxando-a para se acomodar em seus braços.

— Sei que aprontou hoje! Duas pessoas te viram. Me prometeu que só iria usar os seus poderes quando fosse realmente necessário, Loirinha.

Ela apoiou o queixo em seu peito, abrindo um sorriso matreiro para ele, voltando a ter a aura que tinha quando mais nova. 

— Mas foi necessário!

— Era um cervo, Rapuzel!

— Ele estava ferido, Eugene! Queria que o deixasse para morrer? Sabe que eu não consigo!

— É o ciclo da vida.

— O ferimento dele foi feito por homens. Veio até mim, não pude evitar!

— Tudo bem. Mas me prometa que não será pega!

— Nunca fui, não será agora. Estamos seguros, sabe disso. 

Ela fazia um carinho em seu peito.

— Por que não entrou pela passagem? Há muito tempo que não subia pela janela.

— Quis voltar a ser aquele menino. Apenas isso.

— Viu como foi bom relembrar? Mas me diga, eles gostaram de mim?

— Te adoraram. O salão nem piscava!

— Causo esses efeitos nas pessoas.

Eugene riu e a puxou para ele. Os dois dormiram e sonharam com a época que os uniu. Eugene não quis  ir com os outros prisioneiros, quando era mais novo. Ficou semanas acampado nos jardins da torre, esperando por ela. Comendo o que encontrava, frutas, sementes, mas era teimoso e sabia que um dia ela iria voltar. E, assim foi feito. Rapunzel, vendo a teimosia do menino, decidiu jogar os seus longos cabelos loiros e ele subiu e conversaram. Ela lhe contou a sua história e ele a dele. Se uniram como amigos e juntos, lutaram com os guardas. Conseguiram salvar vários prisioneiros de guerra. Depois que toda a era de terror acabou, viveram felizes, naquela torre, durante 46 anos e os próximos que viriam. 


Notas Finais


Eeeeee chegamos ao fim! Gostaram? Detestaram? Me deixe saber nos comentários, eles são muito importantes para mim.

Curiosidade que eu coloquei na história:

- F-2010; ano que o filme Enrolados saiu no cinema
- Dachau realmente existiu
- Landsberg am Lech é a cidade considerada da Rapunzel na Alemanha

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