História O Sol e os seus Jungkook's - Capítulo 5


Escrita por:

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Flex, Jikook, Jimin!bottom, Jimin!tops, Jkjmcornos, Jungkook!tops, Jungkookbottom!, Kookmin, Namjin, Ódio, Taegi, Traição, Vhope, Yoonseok
Visualizações 57
Palavras 5.460
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishoujo, Comédia, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


quero deixar EXPLÍCITO aqui logo no começo para não ter gente me criticando: o Jimin só está querendo ser amigo do Jungkook. entendam que os dois passaram o mesmo sofrimento juntos, e os pedaços mínimos de convivência juntos, machucam o Jimin mas ao mesmo tempo são bons para poder superar. por enquanto ele quer se aproximar e ajuda.

digo isso para não acharem que estou indo rápido demais pq eu já sou insegura com a minha escrita, se me tornar insegura com o meu próprio enredo será péssimo. é isso, tentei deixar de forma clara ao longo desse capítulo isso.

Boa leitura!

Capítulo 5 - 04. entre posters e discos de vinil


Quando era ainda um pré adolescente, eu e minha família tinhamos costume de subir no maior vale da cidade, e sentar perto do canto do relevo, com um rádio velho na grama e uma câmera fotográfica na mão. Às vezes a gente se deitava e apreciava as luzes dos variados prédios se chocando contra as estrelas do manto escuro, somente apreciando. E às vezes eu enxergava toda aquela vastidão de lares, e examinava outra metade do mundo. Era divertido.

A minha mãe costumava levar torta de limão e suco de maracujá numa pequena cesta, e naquela época eu odiava ambas as frutas. Na verdade, eu ainda odeio. Sempre preferi manga ou uva, e suco de laranja era o meu favorito, apesar de não tomar ele faz anos. Porque mesmo que seja doloroso pra mim ficar sem progenitores, e sentir uma raiva constante deles, beber suco de maracujá e comer torta de limão eram as únicas formas de me sentir ligado a eles. Fingindo ser um amante eterno das duas coisas, quando na verdade só sentia ânsia e enjoo. Mas mantive segredo, porque era vergonhoso.

Mostrar as suas fraquezas aos outros é vergonhoso. Eu sempre aprendi isso.

Na primeira vez que me descobri gay foi aos catorze anos. Os meus amigos ficavam bebendo e alguns até fumando com uma idade tão pequena ainda, porém a gente se passava por galera santa e inteligente na escola. Outros andavam com facas na sola do sapato, já outros consumiam drogas de uma maneira tão promíscua quanto o resto. E eu? Eu sempre fora o rapaz do canto, esquisito que preferia andar de bicicleta e sonhar com o céu ao invés de poluir o organismo e relaxar. O típico bunda seca.

Mas em meio a uma explosão de inseguranças, um garoto do outro canto enxergou algo em mim. Não humilhação ou pena. Compreensão. É, isso aí. Ao invés de se enturmar com os seus amigos e zoar qualquer coisa que se movesse, ele chegou perto de mim com os seus cabelos vermelhos coloridos e se sentou a meu lado. Me oferecendo um pacote de leite e biscoito, e um dos sorrisos mais bonitos que eu já tivera presenciado em toda a minha vida.

" ―  Uhm... é natural ou você pintou?  ― perguntei me encolhendo mais contra a árvore, examinando de relance os fios ruivos balançarem em conjunto do vento.

O garoto arqueou uma sobrancelha em confusão, e me encolhi denovo com medo de ele me achar intrometido e me zoar também.

― Ah, você está falando dos meus cabelos?!  ― gargalhou.  ― São naturais sim, mas eu não gosto muito. Prefiro o simples, sabe?  Cabelo preto, castanho ou loiro... Como o seu!  ― sorriu novamente.

― Mas ele é bonitinho... ― senti o arder das minhas bochechas se alastrando por todo o resto do meu corpo, fazendo com que a fervência se espalhasse em qualquer pedaço de pele minha. E então cobri meus dedos com o sweater grosso que usava, pela insegurança que tinha deles.

O ruivinho reparou, e prontamente segurou nas minhas mãos rechonchudas examinando os anéis simples que colocava ali.

Porque está as escondendo?

Fingi uma falsa tosse, puxando o meu pulso dos seus dedos longos e veiudos demais para a sua idade, aproveitando para colocar o canudinho do leite na minha boca, e engolir.

O garoto que eu passava a denominar na minha cabeça como sem-nome, me encarava atentamente, e parecia satisfeito ao notar a maneira como as minhas unhas retiravam os biscoitos de forma desajeitada. Não queria que nenhum pedaço de pele a mais fosse mostrado. Mas ele parecia se sentir bem ao saber que eu estava comendo.

Não mate tartarugas, Park. notando o meu olhar confuso, ele apontou pro canudo dentro dos meus lábios cheios. Não use isso, faz com que tartarugas morram.

Porque mo deu então? perguntei desconfiado. Ou ele era pirado ou tinha veneno ali.

Deu de ombros.

Era suposto você guardar o canudo no bolso, e beber sem ele.

Minha mãe sempre me disse que beber de pacotinhos sem o canudo, é o mesmo que beber mijo de rato. Eu não quero beber mijo de rato. resmunguei, resolvendo deixar de lato o leite e me focar somente nos biscoitos de frutos silvestres. Era estranho pois eu amava chocolate mas os meus biscoitos favoritos eram de frutas.

Hm, sua mãe mentiu. sorriu pequeno.

Foi então que me lembrara de algo, ele tinha dito 'Park'. Como ele saberia o meu nome? Eu era o esquisitão da bicicleta.

Como sabe o meu nome? perguntei, lhe lançando um olhar direto de desconfiança. O avermelhado somente ergueu os braços no ar, como uma rendição e se aproximou cada vez mais de mim, até que os nossos narizes se roçassem.

E foi então que eu senti as primeiras batidas frenéticas do meu coração se espalharem. Não era pela adrenalina, não era pela bicicleta tampouco por correria. Era algo, outra coisa, que eu ainda não tinha identificado.

Você é fofo.

Mas- soltei um gritinho estridente diante da cena que se prolongou após isso.

Ele tinha beijado a minha...bochecha?

Se antes sentia calor então agora estava o próprio inferno. O meu corpo parecia chamas do diabo, mas eu juraria que tinha feito juramentos fiéis a Jesus.

Definitivamente, fofo.

Então o sem-nome de cabelos vermelhinhos se levantou e foi em direção aos seus amigos descolados e idiotas do outro canto.

Hey, Jimin! gritou, não o suficientemente alto para que todo o seu grupinho escutasse. Se lembre de mim como Jay.

Depois disso eu fiquei sentado no mesmo lugar, sem entender absolutamente nada do que tinha acontecido. Poderia ser bobão da minha parte tremer tanto por um selar na bochecha, contando que os meninos que eram da minha classe colocavam as mãos em lugares íntimos das outras meninas na sala de limpeza da escola. Mas era isso, Jay, o garoto sem-nome agora tinha um nome, e beijou a minha bochecha.

Só não esperava nunca mais voltar a vê-lo, tampouco descobrir que gostava de garotos por ele. Não eram garotos comuns na verdade. Era ele. É, minha primeira paixonite foi o dono de cabelos vermelhos chamativos que me entregara um pacotinho de leite e bolachas de fruta.

Legal."

.

Caramba eu estava muito atrasado.

E quando um Jimin diz a palavra muito, então significa que somente está exagerando. Ele ainda tinha trinta minutos até se encontrar com o garoto moreno envergonhadinho, e que ficava até à última hora da noite esperando um ônibus. Mas continuava atrasado, porque nem tomado banho ele tinha tomado ainda.

Estava fudido, era isso.

― Oh, você acordou pirralho? tabom, as pessoas precisavam urgentemente de parar de o assustar. De verdade, a quantidade de sustos que ele tinha levado só ontem do Taehyung foram um total inferno, e recebe-los agora de Jihyun era como se estivesse preso num filme de terror barato.

Puff.

Oi tia, conseguiu carregar a sacola do mercado ontem? ― a questionei, tentando ignorar o papel amarelo que ela tinha na mão, e a vassoura enorme que possuía na outra. Sem contar com o olhar fulminante sobre mim.

Ih, arrepiante. Parecia uma freira.

― Não, não cheguei.

― Puxa...― fingi um tom falso de preocupação, retirando uma calça jeans e uma blusa branca qualquer, juntamente de uma box simples na cor preta. ― Comprou muita coisa?

Sabe, o estoque de tortas de limão e suco de maracujá terminou, e só voltam a restaurar dentro de uma semana. ― ela começou, fazendo aquela típica expressão de "ah, tem mais mocinho, calma ae"

Mas deixando o humor de lado, se ficaria uma semana sem torta e sem suco, então isso era sinônimo de tristeza para mim.

Significava que passaria uma semana sem qualquer conexão com os meus pais.

Caramba, poderia parecer idiotice mas eu ainda me importava com eles, mesmo sabendo que a minha mãe ou o meu pai não davam a mínima. Porque eles tiveram perdido o filho no momento em que ele se assumira gay pela segunda vez. Sem contar que eles também odiavam a minha tia por me manter seguro junto dela, me amando por ser quem eu sou de verdade.

E sim, ficar sem essas duas coisas já tinha acontecido uma vez, e não foi tão ruim aguentar isso. Eu consegui sobreviver uma semana sem meus doces e sem minhas bebidas, sem telefonemas, e sem arrependimentos por partes alheias. Mas para ser sincero? Duvidaria muito conseguir me aguentar hoje em dia.

Parecia que quanto mais crescia mais complicado as coisas se tornavam. Talvez porque quando se é criança, as preocupações são menores.

Consigo esperar. ― respondi, a observando acenar com a cabeça. Jihyun não sabia o verdadeiro significado daquilo, mas era melhor desse jeito no meu ponto de vista.

― É, eu sei. O que eu não sei é o porquê de você não ter estado em casa quando cheguei. ― deu de ombros novamente e eu sabia que o seu nível de deboche estava esgotando, e o putómetro dela iria explodir a qualquer milésimo de segundo. ― Então eu caminhei em direção à cozinha, achando que, você sabe, talvez tenha se deitado mais cedo...― continuou o drama. ― Foi quando ia guardar os tomates na geladeira que encontrei isso aqui. ― se aproximou rapidamente de meu rosto e praticamente colara o papel amarelo na ponta do meu nariz. ― Sinceramente eu sou uma piada pra você?

Bum, explodiu.

Claro que não, tia.

― Então leia o que você escreveu e me explique detalhadamente porque caramba você foi na ESQUINA numa hora tardia dessas da noite?

― Porque...― suspirei. ― Precisava apanhar um ar. ―  foi tudo o que eu consegui pensar no momento. Os seus cabelos laranjas foram presos num coque pelas suas mãos enrugadas, e ela suspirou insatisfeita com minha resposta.

― Uau, então você não sai de casa por uma semana inteirinha, nem pra ir me ajudar no mercado com o carvão, mas ontem saiu numa esquina, porque precisou pegar um ar? ―  se exasperou e eu esbugalhei os olhos pela maneira rápida que ela estava falando. ― Jimin, eu já te falei que aquela esquina é proibida para pessoas como eu e você. Tem ladrões!

Gargalhei lentamente.

― Jihyun eu não fui nessa esquina. Fui naquela do outro lado da rua, perto da parada de ônibus.

O coque que ela fizera estava se desfazendo aos poucos pelo jeito inexperiente que ela tinha com o cabelo, o que a fez suspirar tanto de alívio quando de irritação. Ela nunca soubera fazer nem um simples amarro.

― Oh...― murmurou. ― Poderia ter sido mais específico no texto! E a partir de hoje você vai fazer as compras tudinho sozinho. ― reclamou mais uma vez, afastando a vassoura da minha bunda, que nem reparei estar por perto de mim.

― A senhora ia realmente me bater com a vassoura?

― Credo Ji, não use esse termo, parece que está me denominando como uma velha violenta. Eram uns tapinhas leves...― resmungou pela última vez naquele momento, e eu a notei segurar uma frase na garganta pelo jeito como engolira em seco.

Meus pais. Quando eles tinham me machucado.

Jihyun queria me falar que não era igual a eles. Eu sabia.

Por isso, ela somente sorriu curto na minha direção e afagou os meus cabelos loiros, esfregando os dedos pálidos nele.

― Me desculpe, Tia. ― murmurei, me referindo ao meu estado emocional dos últimos dias.

― Tudo bem, eu entendo. ―  pausou. ― Se lembra como eu fiquei, quando cheguei do hospital? ― a senti tremelicar sob o meu cabelo.

― Quando você descobriu que não podia ter filhos?

― É.

― Lembro... ― esse dia tinha sido tão horrível que Jihyun nunca mais parou de ter pesadelos com crianças. Antigamente ela chorava no meio do sono, hoje em dia, ela preferia guardar a tristeza para ela mesma. E eu nunca tivera visto um livro com tanto pó em toda a minha vida, quanto o manual de "Como criar um filho" estava naquela mesa escondida.

O silêncio reinou os restantes dos minutos no meu quarto, onde o branco monótono das paredes pareciam trazer dor ao invés de paz. Não reparei quando Jihyun me deu um beijo leve na testa e saíra me deixando sozinho.

Balancei a cabeça lentamente, e tratei de afastar qualquer sentimento que pudesse ter senão relacionado a Jungkook. E caminhei em direção ao banheiro, tirei as minhas roupas de dormir, e entrei no chuveiro.

Sentindo a água e as minhas inseguranças escorrendo até ao ralo, onde eu desejava que lá permanecessem para sempre.

.

O jeans enforcava a minha pele naquele momento, e o vento leve distorcia os meus fios loiros naquela tarde de pouco sol. Me encontrava cinco minutos mais cedo naquela cafeteria, esperando um garoto na qual depositara toda a minha fé e metade de mim, aparecer. Aparecer com os fones brancos de ouvido e as músicas chatas do seu celular.

Estava esperando ele aparecer com o ciclo cromático todo junto novamente. Seria a terceira vez que eu enxergaria as cores nítidas e com emoção.

Mesmo que eu tenha conseguido sair de casa pela segunda vez após uma semana de puro cansaço, eu realmente tinha parado de prestar atenção a qualquer tipo de coisa comum. As cores eram umas delas. Eu sabia que estava conseguindo olhar o rosa das bochechas da senhora sentada atrás de mim, enquanto conversava com um homem de meia idade. Eu sabia que o logotipo da cafeteria era marrom igualzinho a maior parte da decoração daquele local. Mas parecia tudo tão desgastante, com tons desfocados e não vivos. Excepto com Jungkook. Jungkook aparecia em qualquer parte do meu caminho e beirava uma aura que me faria presenciar tudo nítidamente. Como quando você se descobre míope pela primeira vez. 

E céus eu me sentia péssimo por isso. Tinha acabado de sair de um relacionamento que possivelmente tinha sido metade uma farsa estupenda, e simplesmente descrevia um cara que nem conhecia de uma forma explicitamente romântica. Mas juro que não é isso, jamais namoraria denovo.

Só que Jeon era Jeon. Ele me fazia bem ao mesmo tempo que quebrava o meu psicológico e espremia o meu coração. Queria ser amigo dele mas também gostaria de me afastar. O meu peito apertava ao saber que toda vez que o observasse recordaria de Sungwoo.

Mas afirmar que estaria usando JK para me fazer esquecer seria cruel demais. Acho que o fato de precisar tanto da sua companhia era porque o entendia. Entendia o que estaria passando e o que tinha passado nessa semana. Um inferno entende? 

Quero ultrapassar isso, junto com ele.

Por isso balancei a cabeça e senti um aperto acelerado e incomum no meu peito assim que o tilintar da porta se fez presente. E então ele estava lá, porém nos seus cabelos herdavam longas ondinhas fazendo com que parecesse a coisa mais fofinha do mundo. Observei o seu corpo se virar milésimas vezes à procura de minha pessoa, e antes que pensasse que eu tinha chegado atrasado eu gritei o seu nome, pouco me importando com o volume de minha voz.

― Jungkook, aqui! 

Ele sorriu e suspirou, limpando os longos dedos na sua calça preta com uma pequena correntinha no bolso, o que eu achei estiloso demais, e corou um pouco assim que se sentara na minha frente.

― Oi, denovo. ― murmurou, enquanto eu enrolava as minhas mãos nas mangas do meu sweater. Felizmente ele não reparou.

― É, parece que a gente está se vendo demais nos últimos dias. ― corei minimamente, e logo depois ele mostrou os seus dentes de coelhinho.

― Uhm, sim... ― respondeu coçando a nuca tímido. ― Como você está? Não tive tempo de conversar direito ontem.

Coloquei uma expressão séria no rosto, ao escutar a frase mais ouvida durante esse tempo. Não de muita gente, mas de Taehyung, de Yoongi e de Ji.

― Ah, melhorando. ― menti. ― E você?

Ele deu de ombros.

― Sabe quando tudo ao seu redor parece se tornar minúsculo e sem importância? ― assenti. ― É como se fosse isso. Nada está importando pra mim no momento a não ser a forma destroçada como me sinto. Não é legal ser corno. ― resmungou, chamando com o dedo a senhora das mesas.

― Engraçado você estar triste com isso mas falar tudo de forma calma e normal.

― É aquele ditado, né... ― murmurou. ― Pegue nos seus chifres e faça dele uma coroa.

Eu ri. Na verdade eu ri tanto que quase mijei na minha calça. Continuei, e continuei, não tendo nem tempo para respirar de forma correta, e só consegui parar quando senti a minha pele começar a formigar e a mulher se aproximando. E o Jungkook rindo também com aquela gargalhada esquisita dele.

Parecia uma mistura de gatinho com bebê.

― Boa tarde! ― a garota com um avental amarrado na cintura preto, exclamou. ― Vão querer o quê?

Jeon começou aos poucos se recuperando da vergonha de rir alto demais comigo num local público, e pareceu pensar um pouco sobre o que pedir. Então quando ele respondeu, eu notei um brilho feliz nos olhos escurinhos dele.

Cheesecake de morango, e suco de laranja!

Laranja. Suco.

Suco de laranja.

Quis me matar por não lembrar que existiam outros seres humanos que também ingeriam isso. Desde que me mudei de cidade as únicas pessoas com quem formava um contacto era Sungwoo, Jihyun, Yoongi e Taehyung. E todos eles bebiam sucos de maracujá ou de manga, nunca o meu favorito.

Acho que passei tanto tempo recluso na minha própria vida que esquecera como era a das pessoas ao meu redor. Que nem todas tinham gostos iguais aos meus ou dos meus amigos.

De esquisitão da bicicleta passei a me tornar no esquisitão da esquizitisse. Legal.

― E você senhor? ― a mulher com fios negros e olhos azulados questionou.

Tentei disfarçar o sorriso triste que queria se aposar da minha face e tratei de responder com um tom de voz sereno.

― Torta de limão.

― Não quer nada para beber? Um café por exemplo? ― perguntou mais uma vez. Neguei.

Quando ela deu longos passos se distanciando da nossa mesa, eu tratei de respirar fundo por cerca de um minuto, tentando me manter estável e com o foco presente acerca do principal assunto: o colar. Porém Jungkook não estava ajudando, me encarando a todo o momento como se algo errado estivesse acontecendo.

― Então... ― comecei, apertando de leve o pedaço de pano  sob meus dedos. ― Precisamos conversar sobre algo sério.

― Oh, então nós realmente vamos conversar? ― pisquei atordoado sem entender o seu comentário. Porque mais seria?

― Como assim, Jeon?

― Jurava que era uma tentativa de flerte. ― deu de ombros relaxado, e me engasguei com a própria saliva.

Quê?

― Está me oferecendo tortas e sucos, sendo que vai pagar depois. E ficou comigo ontem na parada de ônibus desfrutando de boa música comigo. Não é um flerte?

― Não! Estou somente sendo educado...?

Garoto louco.

― Estou só brincando, Jimin. Ambos sabemos que nenhum de nós está em bom estado emocional para sequer pensar em algo desse tipo. ― deu de ombros. ― Menos no quesito do pagamento. Você vai pagar meu suco e cheesecake.

Gargalhei.

― É justo. ― ninguém tinha reparado, mas a sacola branca que obviamente seria de Jungkook estava posta por entre as minhas pernas. As pontas do cartão tentando cortar o tecido da minha calça jeans. Então, enquanto esperávamos o nosso lanche, eu tirei discretamente a caixa de veludo de dentro do saco, e a coloquei sob a mesa com um suspiro nervoso.

― Eu queria conversar com você sobre isso. ― fui direto ao ponto, e lentamente aproximei o pequeno objeto de si. Não conseguia decifrar a sua expressão.

Era como se ele estivesse preso em algum tipo de bloqueio de emoções. Ou talvez estivesse gritando algo interno sem deixar transparecer tal. Mas algo era certo, Jeon não estava muito bem, o que me fez confirmar as não-muito suspeitas de que aquilo realmente fosse dele.

Decifrar o garoto era fácil demais. Não conseguir era estranho.

― Onde o encontrou? ― agora com a caixa aperta, ele apertava com força o fio bonito na sua palma. O nó de seus dedos se tornando brancos e as suas unhas curtas perfurando sua pele.

― Naquele dia quando a gente se esbarrou...ambos tinhamos a mesma sacola. ― expliquei. ― Eu acho que um de nós acabou trocando elas esse tempo todo sem saber. Provavelmente você tem a minha câmera assim como eu tinha seu colar.

― Ah, como eu sou burro! ― resmungou, ficando com o rosto vermelho, talvez de vergonha ou de raiva. Não estava sendo explícito o suficiente. ― Eu não abri ainda a sacola, eu só coloquei ela no fundo do armário por me sentir transtornado. Tomara que não tenha quebrado...

― Eu espero que não tenha quebrado mesmo, foi caro pra caralho! ― gritei repentinamente atraindo alguns olhares que pouco me importavam agora. Mas nossa, eu não estava mentindo.

Ele esbugalhou os olhos parecendo assustado.

― Calma, eu acho que ficou intacta... ― sorriu sem graça, coçando a nuca ao mesmo tempo. ― Posso te devolver ela ainda hoje. O meu prédio não é tão longe assim.

― Não seria estranho eu entrar no seu apartamento...? Contando que nos conhecemos com poucas horas.

― Sim, é. Mas mais estranho ainda é sermos cornos no mesmo dia, trocarmos sacolas de tantas pessoas juntas, e nos encontrarmos numa parada de ônibus compartilhando fones. Tudo já é confuso em si, Jimin. ― respondeu, cruzando os braços.

Os bolinhos e sucos estavam sendo depositados na mesa.

Porque não?

― Espero que dê tudo certo então. ― foi a única coisa que consegui pensar, antes de levar uma porção de torta na boca.

Saboreando o gosto de arrependimento e saudade de quem jurava me amar de verdade.

.

Não me sentia completamente confiante diante aquela decisão de entrar no apartamento de Jungkook, porém, agora que me encontrava de frente à sua porta, a decisão de querer voltar atrás me parecia ser impossível. Então, somente respirei fundo cerca de três vezes a mais que o normal, e escutei aos poucos o barulho do trinco se abrindo.

― Uhm... ― o moreno murmurou parecendo desconfortavel ao examinar os meus pés. ― Poderia...tirar os sapatos? ― coçou a nuca envergonhado.

Assenti juntamente de um curto sorriso, e o examinei remover os seus tênis brancos dos pés, sobrando somente suas meias coloridas de amarelo e vermelho. Segui os mesmos movimentos logo depois, até finalmente poder adentrar no seu lar e sentir o ar ficando cada vez mais escasso.

De certo modo eu fui relembrando de como era antigamente com Sungwoo. Ele sempre chegava cansado a casa por culpa do seu trabalho como fotógrafo, e se enroscava nos meus braços pedindo por carinho no sofá. Ele se tornava manhosinho e pedia toda hora por sorvete de menta e um filme de comédia. Quando isso não acontecia, ele somente dava um curto beijo na minha testa e ia na direção do quarto, enquanto esperaria por mim.

Eram bons tempos, mas tempos esses que eu nunca saberia se tinham sido verdadeiros ou falsos no final das contas.

― Marijuana!

Deixei os meus pensamentos aleatórios de lado e foquei no grito repentino de Jungkook. Foi só passado uns cinco segundos que notei algo peludo roçar nas minhas meias sem graça, e visualizar um fofo gato preto por entre elas.

― Onde você esteve sua desgraçada? ― Jeon continuou resmungando pro pequeno animal, que parecia não dar nenhum tipo de importância para o que ele falava. O moreno a pegou com os dedos longos e ossudos e levou o seu nariz até à ponta de suas orelhas negras, onde raspou lentamente como forma de carinho.

Só depois ele se deu conta de que eu ainda estava ali, encostado no batente da porta, somente examinando o amor que nutria por sua gata com nome de maconha.

― Ah...me desculpe por isso. Essa é a marijuana, marijuana esse é o Jimin. ― nos apresentou, dando um leve sorriso ao encarar os olhos esverdeados do animal. Logo após não era o verde que parecia fitar e sim os meus avelã. ― Quer pegar nela? ― perguntou.

― E se ela me morder? ― eu nunca tinha tido algum animal em casa, pelo simples fato de não querer me apegar a eles. Porque morriam rápido, e eu sou um garoto sensível no que toca a assuntos desse tipo.

Não que estivesse afirmando que iria me apegar ao bicho de estimação de Jungkook, longe disso. De verdade nem saberia quando voltaria a encontrá-lo.

― Ela certamente costuma fazer isso, mas gostou de você. Confia nela.

Fora somente uma questão de tempo até sentir o pelo macio se encontrar com a minha pele fria. A gata ronronou nos meus braços enquanto eu tentava com todas as forças não a deixar cair no chão, e quando processei direito o que estava acontecendo, eu me encontrava sorrindo bobo por ela.

Fofa.

― Venha, o meu quarto é lá em cima. ― cocei a nuca, nervoso, enquanto Jeon dava os primeiros passos na direção do corredor.

Sinceramente, se me obrigassem a descrever como eu estava me sentindo no momento, eu não saberia responder. Porque não estava surpreso, mas ao mesmo tempo era como se não esperasse algo assim. Quer dizer, não sabia a idade de Jungkook nem se ele morava com os pais, mas certamente aquele quarto não parecia ser de um adulto.

O tamanho do cômodo era irrelevante naquele momento, porém não foram as paredes recheadas de um azul escuro que prenderam a minha atenção, e sim os inúmeros poster's de The Beatles e Elvis Presley na parede. Sem contar com a coleção de discos que possuía num canto bem distante de sua cama, onde tocava uma melodia no que me afirmava ser Hey Jude. 

Num disco de vinil.

 ― Desculpa a bagunça, eu não sou acostumado com visitas sem ser a de Namjoon.  ― ele afirmou, coçando a nuca mais uma vez. Percebi que ele fazia isso quando estava nervoso.

 ― Quem é Namjoon?  ― perguntei.

 ― Um artista pouco conhecido. E...meu melhor amigo.  ― respondeu, os seus olhos brilhando como se todo o orgulho do mundo estivesse martelando em seu peito.  ― Ele lançou uma mixtape recentemente, e colocou no spotify. Você deveria escutar, faz bem o seu tipo de som.  

 ― Porque diz isso? 

 ― Porque Mono é arte.

 ― Você disse isso da última vez acerca do Elvis.  ― relembrei de ontem.

"Nem todos são obrigados a apreciar arte."

― Namjoon colocou toda a sua alma e coração em pequenas letras. Com essas pequenas letras ele formou longas frases e grandes reflexões de vida. Com essas reflexões, ele produziu uma melodia. Com a melodia, fez a música. Você pode nunca conhecer Kim Namjoon, mas se escutar a sua mixtape, é como se o entendesse. Como se sentisse a sua dor. ― tudo pareceu ser tão sincero com suas palavras, que eu por um momento realmente quis conhecer aquele garoto. Então somente acenei leve com a cabeça, e prometi a mim mesmo naquela noite fazer uma pesquisa.

― Ah, aqui tem a sacola. ― corou um pouco, aproximando o pequeno pedaço de papelão dos meus dedos na qual eu depositava tanta insegurança. 

Eu o segurei, a minha mão tremendo ao saber que se, de fato a minha câmera estiver ali, eu iria relembrar de como falhara mais uma estúpida vez. De como, novamente, alguém se afastou do meu corpo, de mim mesmo. Poderia ser realmente idiota continuar sofrendo por um cara que talvez nunca tenha sequer se preocupado comigo, mas não ligava. Não ligava caso os outros não entendessem a minha dor. Porque era isso, não era? Ninguém entenderia nada do que eu sentisse, além de mim.

Foi quando senti o peso tombar o meus dedos para baixo. Quando abri o simples objeto branco, eu visualizei a caixa quadrada de dentro dele. As cores laranjas e azuis, com uma foto do modelo mais caro que a loja poderia oferecer. Era ela.

Nos segundos seguintes, eu realmente relembrei. Como quando você estava prestes a morrer nos filmes, e vê toda a sua vida passar diante dos seus olhos de uma vez só. Mas dessa vez era difrente, porque eu não estava falecendo por completo, e somente uma parte de mim.

― Ei, Jimin, você está bem? ― Jungkook perguntou, balançando de leve os meus ombros rigídos pela tensão. Fitando o castanho das minhas irís fixos num ponto distante.

― Obrigado por não ter quebrado ela. ― respondi, quando consegui afastar os pensamentos de tristeza que residiam no buraco do meu peito. 

Ele sorriu.

― Guarde isso. ― esticou na minha direção um minúsculo papel rosa, onde tinha escrito. Mono by RM.

― Hm, Jeon? ― o chamei, assistindo o seu nariz roçar no pequeno animal que estava até então, esquecido. 

― O quê? 

Talvez não fosse uma boa ideia.

― Me acompanha até à porta? ― ocultei a verdadeira pergunta que desejava fazer. Porque não queria parecer nenhum desesperado em sua relação. 

JK não respondeu, mas não era como se realmente fosse necessário, contando que em troca, me ofereceu uma curvatura de lábios para cima. E foi adorável, juntamente das suas ruguinhas de lado dos seus olhos. 

Fui caminhando com ele até à sala de estar, e calcei os meus sapatos sabendo que as minhas meias estariam sujas com qualquer resquício de pó que ficara no chão. Logo após abri a porta, e olhei Jungkook uma última vez naquela tarde.

― Nos vemos por aí. 

― Qual será a próxima parada do destino, uh? ― gargalhou.

Então eu saí. 

Determinado em escutar a dor de um outro homem.

.

As estrelas pareciam ter sumido naquela noite, igual todas as outras em que observava do lado de dentro da janela. O céu era somente um manto escuro, onde a única luz que se apossava dali era a da lua. Confesso que era cansativo. 

O travesseiro estava fofo sendo pressionado contra as minhas costas que pareciam doloridas diante do cansanço inecessante que estava possuíndo naquele momento. Desde que o dia começara, me sentia fisicamente e emocionalmente desgastado, como se os ocorridos de ontem estivessem se dissipando de todo o meu corpo, como névoa.

Escutei o som do meu notebook finalmente se ligando, e não perdi tempo em fechar o alerta de anti-vírus, e de uma nova atualização a ser necessária. Somente abri o meu spotify, loguei a minha conta, e coloquei o papel rosa de Jungkook bem do lado do meu teclado. Então, fui na pesquisa, e digitei com um frio repentino subindo na minha espinha:

Mono by RM.

No total eram sete músicas. Sete músicas com nomes diferentes, com histórias únicas e com etapas novas. Com reflexões úteis, com letras agradáveis, e com sentimentos distintos. 

Cliquei no modo aleatório, e segundos depois, uma voz calma seguida do barulho da chuva foi escutada por entre os meus fones de ouvido. Começando por ser algo tão melancólico, que era como se eu estivesse sentindo tudo o que ele gostaria de transmitir para as pessoas. Ou talvez fosse só um complexo desabafo sobre si mesmo exposto ao papel, e agora nos eletrónicos. 

"Me perguntando se estou indo bem, eu respondo que ainda sou refém da vida. Eu vivo, não porque não posso morrer, mas porque estou preso a algo."

Os meus braços tremeram lentamente à medida que a sua voz era projetada e acertava no meu peito. Como se todo o sofrimento que estivesse tendo consigo mesmo; a luta interna; fossem comigo. Eu sentia tudo, cada pedaço de palavra, eu o sentia. 

"Se eu pudesse beijar o mundo profundamente, eu me pergunto se alguém me receberia, e talvez abraçaria meu corpo cansado."

Escutei todas as músicas até sentir o pesar dos meus olhos. Reproduzi as melodias um milhão de vezes, até que eu colocasse um "chega" nisso, chega esse que nunca aconteceu. 

Naquela noite, eu senti que não estava só. Acreditei que realmente existiria alguém que compartilhasse os mesmos pensamentos que os meus, e me ajudasse ao mesmo tempo que ele. 

Foi quando adormeci com os fones de ouvido, e os ritmos perambulando nas minhas orelhas, que sonhei com Namjoon. Em como seria o seu rosto, em como ele mesmo seria pessoalmente.

 As respostas de quem eu era de verdade talvez estivessem com ele. E se o destino realmente queria jogar comigo, então oraria para que da próxima vez que me encontrasse com Jungkook, conhecesse RM juntamente.


Notas Finais


Até o próximo capítulo!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...