História O som que nos une - Capítulo 1


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Categorias Boku no Hero Academia (My Hero Academia)
Personagens Dabi, Tomura Shigaraki
Tags Deathfic, Shigadabi, Soulmate, Tragedia
Visualizações 38
Palavras 6.807
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), LGBT, Luta, Mistério, Slash, Survival, Terror e Horror, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Hello, hello

Eu estou muito empolgada com essa história e espero que vocês gostem tanto quanto chorem!

Plot doado pelo wptumblr do Facebook.

Capítulo 1 - Único - Nosso romance é uma tragédia


Fanfic / Fanfiction O som que nos une - Capítulo 1 - Único - Nosso romance é uma tragédia

Quando abriu os olhos novamente, Toya sabia que não estava em casa. O pior de tudo era que não controlava o próprio corpo, estava totalmente indefeso num lugar totalmente desconhecido perto de ter um ataque de pânico.

Não conseguia ver quase nada, mas conseguia identificar que era um espaço pequeno, quase como um quarto. Estava se abraçando, com os joelhos encostado no peito e os braços os guardando ali. Estava esperando algo? Alguém? O que? Embaixo de si tinha algo molhado, poderia até se enganar imaginando ser água, mas o cheiro não escondia.

Sangue.

Estava coberto de sangue.

Só que o escuro logo foi interrompido, já que um homem que também nunca vira na vida entrava no cubículo trazendo consigo luz. Doeu, mas logo se acostumou. Se tratava de alguém baixo, muito baixo para um adulto, com óculos grandes fundo de garrafa, um bigode que Toya achou patético e um sorriso pequeno.

Em outras condições, poderia até mesmo se passar por um sorriso gentil, mas aqueles olhos não enganavam ninguém. Aquele homem era perigoso e cruel. Sentiu que poderia surtar ali mesmo, mas nem mesmo ao pânico seu corpo obedecia. E com pavor viu a mão do outro se estender.

Sua mão se estendeu junto e a segurou.

“Muito bom, Tenko-kun. Nós estamos indo para casa.”

...

Toya não tinha muita ideia de quando isso realmente tenha começado. Desde que se entende por gente ele tinha sonhos com uma garoto de sua idade — ou julgava ter — e a escuridão que o cercava. Então, desde cedo, entendeu que por maior que fossem seus problemas, ele não tinha uma vida tão ruim assim.

Mesmo com o pai… complicado que tinha, mesmo com as surras que chamava de “treinamento que o manteria vivo”, mesmo com os problemas psicológicos causados pela exposição à violência doméstica, Toya entendia que as coisas podiam ficar piores. Muito piores.

Os sonhos mostram com uma clareza quase não suportava os tubos cheios de um líquido que não identificava e as crianças dentro. Mostrava as celas de vidro e o reflexo da pessoa que “dividia os olhos”.

Era pequeno, menor do que deveria ser, os olhos num vermelho não natural, o rosto cheio de cicatrizes, cabelos negros. Só que o que mais marcou era o vazio que aqueles olhos transmitiam.

Seja quem for a pessoa do outro lado — provavelmente Tenko —, mesmo que ela estivesse respirando, não fazia a menor ideia do que era estar viva.

E mesmo que nesse momento Toya só tivesse dez anos, ele conseguia entender: aquilo não poderia ser fruto de sua imaginação. Era detalhado demais, triste demais, realista demais. Então, quatro horas da manhã, saiu do seu quarto agradecendo que hoje era um dia de missão de Enji Todoroki — o homem que se recusava a chamar de pai — e se aconchegou lentamente na cama de casal onde sua mãe estava.

Tentou ignorar os roxos que apareciam com mais facilidade no tecido mais leve que ela usava para dormir, não é como se ele também não estivesse assim, não é como se ele quisesse se lembrar o ódio que se sentia no momento. Ele tinha uma missão, descobrir quem era o garoto que invadia seus sonhos.

Então, sob o cafuné de sua mãe e seus olhos gentis e atentos contou tudo que viu e sentiu. Ela algumas vezes tremia levemente, mas julgou ser porque seu relatos não eram o dos mais… humanitários. E, depois daquilo tudo, ele não esperava aquela pergunta.

“Mas então, Toya… Você consegue ouvir uma música?” 

A voz dela estava séria, então não achou que tinha ignorado todo o relato, mas mesmo assim não entendeu nada. Por isso a única escolha que tinha era responder sua mãe e entender onde ela queria chegar. “Sim, baixinho tem uma música. O que é estranho, ela é lenta. Não se encaixa no que vejo.”

Rei respirou fundo. Aquilo não era nada bom. Não queria que seu filho sofresse daquela forma, mas aparentemente não tinha escolha. Talvez sua família realmente fosse amaldiçoada.

“Filho, já ouviu falar sobre soulmates?”

Questionou ainda com as mãos nos fios vermelhos tentando controlar o choro. Por que ele tinha que estar ligado com alguém que conhecia o pior lado da humanidade? Sabia porque seu marido estava tendo mais trabalho nos últimos anos, sabia porque ele parecia mais enlouquecido quando voltada de cada missão. Tentar caçar aqueles monstros transformava ele em outro.

Ninguém conseguia sair inteiro se entrasse naquele abismo.

“Almas gêmeas? Não.” Respondeu tentando esconder a frustração de sua mãe o estar respondendo suas perguntas com outras perguntas.

“Na nossa geração isso está se tornando um pouco mais raro, mas não impossível.  É algo difícil de explicar com palavras, mas em tese, são duas pessoas ligadas pela alma. Ligadas por amor. Quando essas pessoas nascem, uma melodia nascem com elas. Original, secreta. Somente você dois podem ouvir.” Explicou sentindo um aperto no coração. Não podia deixar que Toya se metesse naquilo, mas sabia que estava além de seu controle. Nem em seus piores pesadelos se imaginava naquela situação.

“Então, tudo aquilo que eu vejo… é o que ele vive?” Perguntou com um fio na garganta. Aquilo era muito cruel.

Rei não respondeu. Não conseguia. Mesmo que Toya tivesse vendo, ele não tinha ideia do que realmente era aquela situação. Doutor Fujima era um monstro que criava monstros, destruia tudo que aparecia no caminho.

“Eu… eu vou salvá-lo, mãe!” Decidiu firme para desespero da mais velha. “Eu vou descobrir a verdade e o tirar de lá! Eu devo ser capaz, não devo?”

O peito de Rei doeu de uma forma que não sabia que era capaz. Seu menino, apesar de tudo, era muito gentil. Puro. E isso seria sua condenação. O abraçou chorando, mas não pelo motivo que ele achava. Chorava porque sabia que o caminho de Toya já tinha sido decidido para um final triste e cruel.

Mas não podia falar isso.

Talvez até mesmo tivesse uma chance.

Talvez o ‘universo’ que escolheu Toya para ficar com esse garoto os ajudassem a serem felizes juntos. Por isso…

“Claro que sim, meu filho.” mentiu.

Já não entrava mais em pânico quando estava naquela situação, entendia que não era o próprio corpo. Na verdade, sua sanidade mental pedia para ele fechar os olhos, mas ele se recusava. Tinha que conseguir tirar o máximo de informações dali, tentar saber o máximo possível para descobrir onde o outro estava.

Por isso nesse momento já tinha algumas informações. Como por exemplo, Tenko não era próximo de ninguém além de outro menino mais novo. Não sabia o nome dele — descobriu que era difícil alguns deles terem nomes —, mas não era difícil de o reconhecer na multidão: tinha cabelos verdes e sardas no rosto. Seria muito fofo se não fossem as cicatrizes que também o cobriam: mais no braço como podia perceber.

Diferente de Tenko ele conseguia ter emoções e depois de um tempo entendeu que se teria alguma chance se salvar sua alma gêmea, seria por causa desse garoto. Era o único que tentava trazer um pouco de humanidade que seja a Tenko.

Sua voz era gentil e o sorriso também. Não conseguia entender como alguém como ele conseguia se manter assim.

Só que não era assim que ele estava hoje.

Primeiro, tinha algo muito diferente. Em nenhuma hipótese alguém além do 'baixinho estranho' — como sua mente nomeou o doutor — abria a cela de vidro. Lá estava ele, suado, desesperado.

“Shiga! Nós precisamos nos esconder, agora!” A voz estava tão urgente como o dono, mas a apatia de Shigaraki ainda o fazia se mover da mesma forma como antes. Apareceram outros que dificilmente via, como um menino de cabelos pretos e olhos vermelhos, uma garota de bochechas fofas, e outra ruiva com olhos azuis. Todos eles tinham sinais de maus tratos e uma coisa em comum: seguiam o verdinho como se fosse o líder.

“Izun’, o que está acontecendo?” Ouviu alguém perguntar para sua felicidade, já que tudo que gostaria é entender porque esse local estava agitado essa hora da madrugada. Era hora que estava dormindo, no caso.

Izun mordeu o beiço. Ele tinha a resposta, mas avaliava se deveria contar ou não. Olhou em volta.

“É melhor vocês não saberem. Eu não deveria saber isso.” Hesitou em concordar respirando forte. Era de longe o que mais apresentava emoções, mas também foi o único que nunca viu coberto de sangue por matar alguém.

“Izun!” Dessa vez reconhecer a voz porque o menino de cabelo preto literalmente parou o outro. Aquilo realmente não deveria estar acontecendo.

“A polícia descobriu esse laboratório.” O esverdeado explicou. “Se fosse o investigador Toshinori que estivesse aqui eu não estaria assim, na verdade iria sem dúvidas nos tirar daqui. Mas quem foi enviado foi o investigador Todoroki. Enji Todoroki. Eu não vou deixar que encontrem vocês, não sobrevivemos ao inferno para nos matarem como cachorros de rua.”

Naquela noite descobriu algumas coisas importantes.

- O menino “Izun” era feroz. E ele não foi criado ali, já tinha uma ideia do que era o mundo do lado de fora.

- Infelizmente sua melhor chance de achar sua alma gêmea era por seu pai.

Depois daquele dia algumas coisas mudaram. Toya tinha um interesse diferente nos treinamentos com seu pai — se o surpreendeu, não falou nada —, sua mãe o encarava menos e sua ligação tinha ficado mais forte.

Como que estava distante da mãe — não entendia o porque (nem fora dito a ele), mas no momento ela estava sensível demais para forçar alguma coisa — ele começou a procurar informações sobre sua ligação na internet. Não que pudesse ser muito confiável, mas ainda era o único acesso a informações que tinha.

Como seu pai tinha um trabalho muito secreto no governo, era como se sua família não existisse. Não tinha “documentos” muito menos interação com e exterior. Fantasmas dentro da própria sociedade. Todas as pessoas que conhecia era especificamente seus pais, seus irmãos — Fuyumi, Natsuo e Shouto — e as pessoas que uma vez ou outra apareciam para os treinar/estudar. Sem laços pessoais — ordens estritas de Enji e ele não quer saber o que aconteceu com a senhora professora que quebrou isso quando eram menores —, mas pelo menos não eram violentos quanto o patriarca.

Enfim, foco na pesquisa.

O óbvio foi evidenciado: quanto mais se sabe da ligação, mais forte fica. No nível que estava, provavelmente Tenko sabia sobre ele — e provavelmente quem contou sobre os soulmates foi o tal de ‘Izun’ — e que a cada sonho que descobriam algo relevante sobre o outro, as almas ficavam ainda mais conectadas. Outro sinal era a música. Primeiramente só conseguia ouvir em sonhos e tinha dificuldades de lembrar. Era como se estivesse ali na sua mente, mas bloqueada nos momentos que tivesse consciência. Mas não demorou muito para acordar pensando nela. Eram raríssimas as vezes que não fosse a primeira coisa a se pensar quando o dia começava. E, quando menos pôde perceber, ela se tornou algo que o mantém calmo.

Nos dias que era muito difícil controlar sua raiva depois de todos os abusos — as vezes que ficava roxo ou sangrava e não se tratava só dos treinamentos —, ou quando tinha que esconder sua mãe em algum lugar e aguentar a fúria de seu pai pela frustração — e passar alguns dias impossibilitado de se mover porque aquele homem não sabia o que eram limites —, não era raro o encostar em um canto pensando na melodia. Fuyumi, a pessoa mais carinhosa que teve o prazer de conhecer, quase sempre poderia o encontrar no canto casa cantarolando baixinho. Os joelhos contra o peito, os braços em volta buscando algum calor que não tinha chance de encontrar sozinho. Toya naquelas horas parecia tanto uma criança machucada que as vezes ela pensa sobre em como tudo estava sendo destruído por um único homem. Olhando para os fios vermelhos que escondiam o rosto chorando ela entendeu que Enji não o deixou crescer. Não deixou nenhum deles, na verdade. Por isso ela toda vez o esperava. Quieta. Silenciosa. Sabia que uma hora ou outra ele pegaria no sono e seria sua vez de agir, o levando para cama confortavelmente o cobrindo com lençol.

Indo sonhar com o outro alguém que seria capaz de mostrar o que se era viver em família de verdade o trazia paz. Esperança.

Iludidos.

Do outro lado, Shigaraki tinha menos noção ainda do que seria o “mundo”. Sociedade, moral, ética? Se tivesse estudo, poderia até mesmo dizer que eram questões filosóficas que tinha preguiça de aprender. Mas não fora essa “formação” que recebeu. Tudo era muito simples, limitado, muito controlado. A única coisa que poderia resumir sua existência era “experimento 022” — como era mais conhecido aliás. “Shigaraki” mesmo foi um termo inventado por Izuku — esse que tinha um nome mesmo porque chegou mais tarde que os outros.

Falando nele, Izuku o intrigava. Nunca o viu coberto de sangue e ele tinha a reação engraçada de fechar os olhos quando o acompanhava em missões. O que tem de tão assustador com órgãos que saem dos corpos depois de cortados? É o que acontece quando se rasga a pele. E Fujima precisa disso para poder evoluir em seus aperfeiçoamentos. Essa era a questão, não?

Forçar a evolução humana?

Jurava que ouviu isso em algum momento.

E mesmo tão estranho, com um tratamento tão diferente, Fujima parecia gostar dele. Não tinha uma força impressionante, ou músculos ou nada físico que chamasse atenção. Era somente um baixinho que passaria despercebido se não fossem aqueles olhos. Verdes. Expressivos. Izuku tinha um brilho no olhar maior que Fujima, maior que qualquer um dos pirralhos irritantes que tinha conhecido. 

Isso o intrigou o suficiente para querer saber mais daquele estranho. A partir disso, entendeu o que Fujima apreciava tanto nele — o desgraçado era inteligente.

Muito inteligente.

Um dia Izuku em mais um de seus longos monólogos — ou murmúrios, ele nunca sabia diferenciar um do outro — acabou contando que foi assim que parou lá. No dia que estava para se consultar com o doutor — que para a sociedade era somente um pediatra — ele infelizmente tinha levado seu caderno com suas análises anatômicas. Ele sempre teve uma curiosidade sobre como o corpo humano funciona e sua mãe sempre o incentivou, sabiam que ele tinha um entendimento muito maior que deveria para a idade. Resultado? Agora ele estava ali para proteger a pessoa mais importante da sua vida que felizmente nunca desistiu de procurá-lo.

Shigaraki as vezes gostaria de saber o que era uma mãe.

Tinha alguma noção quando sonhava com a mulher de cabelos brancos que fazia uma coisa estranha na sua cabeça que o dava vontade de dormir. Izuku disse que era cafuné, carinho. Estranho. Mas os sentimentos que a sua tal… soulmate? Foi assim que chamaram. Enfim, os sentimentos que ele parecia ter eram muito complicados. Não tinha. Não era capaz de entender.

Ele era quebrado?

“Você está pensando muito hoje.” Os olhos verdes pareciam divertidos. Cruzou as sobrancelhas. Izuku sempre sabia quando estava pensando no outro garoto.

“Você tem o poder de ler mentes, não me engana mais.” Ele riu. Ele. Riu.

“Você é mais expressivo do que pensa. Faz uma cara engraçada quando está pensando no seu soulmate, algo distante.” Respondeu a dúvida não feita.

“Você é bom demais com isso.” Encarou seu braço que o mesmo estava costurando. Como Tajima não conseguiu o transformar num assassino, o transformou num médico. Era mais útil ali mesmo e por isso era a pessoa com quem mais tinha contato.

“E você se machuca demais.” Tentou esconder a careta de dor, mas foi impossível. Ele tinha feito aquilo doer de propósito, outro aviso. Ele o conhecia bem demais. “O quer que esteja passando na sua cabeça, eu peço que confie em mim.”

Izuku estava aprontando alguma coisa, ele podia sentir. No seu peito algo acontecia que não conseguia entender.

“Preocupação.” Shigaraki ainda acredita que ele pode ler mentes. “Eu disse antes, confie em mim.”

A porta abriu.

Fujima apareceu.

O clima ficou tenso, mas o menor saiu sem falar nada.

“Eu tenho uma missão para você, 22.” Óbvio que tinha, quando não? “Não demore muito ai. E a partir de amanhã você terá outro médico.”

Shigaraki não gostou do que ouviu.

Mas nada se comparou com a inquietação que foi sua noite. Estranho. Diferente da sua rotina, as noites do garoto do outro lado era bem calmas, geralmente envolvendo a mulher de cabelos brancos, ou três crianças que era parecidas demais para seu gosto. Elas ficavam lendo quase a noite todas, uma sentada do lado da outra, dividindo a mesma luz para enxergar os livros. Não entendia porque aqueles momentos pareciam tão importantes para eles, mas até mesmo Shigaraki se sentia bem quando sonhava com isso, então tentava não pensar muito nisso.

Só que aquela noite tinha alguma coisa errada.

A única menina mais nova estava chorando no seu colo e o garoto mais novo parecia muito estressado. Sentia o próprio corpo — que não era o seu — tremer e entendeu que até mesmo Toya estava no próprio limite. Além do que pôde perceber, eles não estavam em casa. Aquele cheiro não mentia, muito menos as paredes brancas demais para seu próprio gosto. Eles estavam no hospital. Em algum momento seu soulmate resolveu levantar a cabeça, então conseguiu enxergar a mensagem junto com a luz vermelha: sala de emergência.

Depois de um tempo um médico passou pela porta chamando atenção de todos os três que se levantaram de supetão. Não chegaram a perguntar, pois não era necessária a fala para o outro entender como os outros estavam preocupados.

“Ele não perdeu a visão ou teve consequências mais graves. O atendimento rápido foi crucial na situação, mas mesmo assim vai ficar com uma cicatriz na área atingida. Não tenho como recuperar isso.”

Toya mordeu o beiço nervoso. Aquilo seria mais do que uma marca no rosto, era uma marca no psicológico de seu irmão mais novo. E não podia fazer nada.

Tudo culpa daquele maldito.

“E ela?”

A menina teve coragem de perguntar, mas muito baixinho. Shigaraki ainda estava confuso com tudo aquilo, mas reparou nos detalhes. Os ombros tensos, a respiração levemente mais forte e o olhar quebrado. O médico não queria dar aquela informações as crianças, ou não queria estar naquela situação. De qualquer forma, depois de um suspiro, ele abaixou os ombros como se admitisse para si mesmo que não tinha como fugir daquilo — ou como se tivesse fugido por tempo demais.

“Vai receber tratamento psicológico constante, ficará sendo vigiada até conseguirmos recuperar um pouco de estabilidade. Ou seja, até lá, não sairá daqui do hospital.” Sua voz estava amarga e o desespero dos outros eram evidentes.

Iriam ficar sozinhos com Enji?

“Sobre a guarda de vocês, depois de todo estresse que Todoroki causou comprovados pelos laudos de hoje, vocês serão cuidados por outras pessoas. Como tem toda a questão dos documentos de vocês que estão protegidos pelo governo, será um pouco complicado. Serão momentos de mudanças na vida de vocês, mas serão mudanças para melhor…”

Assim os três irmãos esperavam.

Shigaraki acordou confuso e olhou para o relógio. Era quase a hora de sua missão. Tinha que eliminar alguém para afetar outro. Shorahiko. Nunca tinha ouvido esse nome na vida, então não era de um agente.

Se realmente foi melhor, ele não sabia dizer. Os próximos meses foram de muita dor de cabeça tanto para os mais velhos que tinham que decidir sobre os mais novos, quanto para os mais novos que tinham que acompanhar tudo com uma maturidade que a idade não permitia. Além do mais, eles tinham que se adaptar aos “cuidadores” até todos serem capazes de se emancipar.

Não era fácil.

O problema maior era Shouto. Pequeno demais para aquela dor de cabeça, maior afetado e o que menos falava. Só que não conseguia esconder o choro baixinho quando ia dormir. Ele sentia falta da mãe e um ódio incabível do pai.

Não sabia o que fazer.

Estava discutindo com um monte de engravatados sobre a gravidade de serem “inseridos” na sociedade depois de tanto tempo. Para as pessoas que estavam caçando Enji — não especificamente ele, mas todos que estavam ligados a ‘certo caso’ — isso era um prato cheio. Não seria nem mesmo a primeira vez que ameaçavam/matavam pessoas não ligadas diretamente para dar um aviso aos investigadores. Tinham que escolher os riscos com cuidado.

Mas tinha pensado numa solução até um quanto… viável.

Ele queria seguir os passos de seu pai — porque lá estava seu objetivo de vida até então — então não seria inteligente ser “revelado” ao mundo. Como teria bastante tempo para ser treinado antes de entrar em campo — de preferência quando seu pai não estivesse mais —, ele poderia ser a guarda de seus irmãos. 

O elemento surpresa.

Isso foi conversado com Aizawa, depois com Nezu e por fim passou por Toshinori. A real era que eles não tinham argumentos para realmente impedir de que Toya fizesse aquilo, mas eles estavam tentando que o jovem aprendesse como era ter uma vida fora de todo controle de Enji, mas também tinham que admitir para si mesmo que era tarde demais.

Concordaram com um porém: Toshinori seria o adulto responsável por eles.

Não teve como recusar.

Então os meses seguiram na adaptação ao novo integrante da casa no qual Toya tinha quase certeza — por mais que o outro dissesse que não — que ele tinha se formado em psicologia, pois o bem que fez ao Shouto, Natsuo e Fuyumi era inexplicável. Ou talvez seja porque eles finalmente tiveram o pai que mereciam: o que acordava cedo para fazer o lanche que levariam para a escola, que sorria ao ajeitar a roupa na hora de sair, o que era interessado em saber como era o dia a dia deles, o que incentivava sobre o futuro e os ajudava a crescer.

Eles tinham o cafuné que perderam de Rei.

Não é como se fosse a solução de todos os problemas, mas era definitivamente uma boa perspectiva. E quando Shouto apareceu com um desenho dele mesmo no futuro com um uniforme de bombeiro, ou pediu para que alguns amigos da escola para almoçarem lá, ele quase chorou de felicidade. E isso foi o pequeno passo que precisava, depois Natsuo admitiu que tinha se apaixonado por programação e começou a conversar sobre uma escola especializada nisso com Yagi — quando começou a chamá-lo pelo primeiro nome mesmo? — e depois apareceu Fuyumi dizendo sobre seu desejo em ser médica e que até estava estudando por conta própria antes. De acordo com o psiquiatra, Rei estava respondendo bem ao tratamento, mas ainda era perigoso sair. Contudo, ainda era uma evolução.

Cada um estava levemente seguindo em frente.

Até que aquela noite chegou e assim como a tragédia de sua mãe que derramou água fervente no rosto de seu filho mais novo mudou sua vida, sabia que aquela tragédia mudaria a vida de Shigaraki.

Talvez aquilo tudo com Yagi tenha sido somente uma calmaria antes da tempestade. 

Ele admitia para si mesmo que já viu muitas coisas cruéis naqueles sonhos, tanto de violência contra Tenko ou do mesmo, já que era a máquina assassina quase perfeita. Não estava sonhando muito com ele nesse tempo depois que se afastou de sua família, mas infelizmente testemunhou o assassinato do senhor que morreu como um aviso a quem quer que estivesse perturbando o doutor.

Mas nem mesmo o assassinato de um idoso o preparou para aquilo.

Shigaraki não estava sozinho. As crianças que tinham sido vistas da última vez estavam lá, todas olhando para o mesmo cadáver incrédulas do que estava acontecendo. Toya também estava.

O corpo estava pendurado pelo pescoço numa corda, mas tinha certeza que ele não tinha morrido daquela forma. Tudo que não teve direito era a uma morte rápida. Conseguia identificar a falta das unhas, as queimaduras no tórax, o sangue que lhe escapou do ouvido e marcas de chicote — ou algo pior — em todo os braços e a perna. O motivo da morte — provavelmente — era o rasgo que se iniciava no início do peito e descia por toda a barriga, quase passando pela mesma. O mais assustador não era tudo aquilo, aquelas crianças foram criadas para serem armas, então seriam capazes de fazer aquilo em alguém. Não. O complicado era que conheciam aquele cadáver.

Conheciam aqueles cabelos verdes e sardas nas bochechas.

Provavelmente foi um aviso para as outras crianças. Não tinha muita certeza do que era, mas nas conversas com Shigaraki sabia que ele estava metido em algo perigoso. Mas não tinha suspeitado que era algo que pudesse deixar o doutor tão furioso.

E, para sua maior confusão sobre tudo aquilo, Tenko ainda sussurrou:

“Toshinori…”

Pela primeira vez em sua vida, ao acordar, Toya vomitou.

Não demorou muito para que pessoas invadissem seu quarto preocupadas. Mesmo sendo de madrugada, o loiro e sua irmã apareceram desesperados para o ajudar. Estranhou, eles tinham sono leve, mas não tinha feito barulho o suficiente para acordá-los, né?

Descobriu mais tarde que gritou enquanto dormia.

Algumas coisas mudaram na vida de Shigaraki depois daquele dia. Suas doses aumentaram e parecia que seu corpo aguentava melhor que antes. Não entendeu que na verdade sua mente que resistia menos.

Quebrava mais.

Mas isso era o de menos. Primeiro que seu cabelo teve uma reação gritante às novas doses: tinha ficado completamente branco. Se Izuku estivesse aqui, diria que era uma reação causada pela necessidade de melanina para se recompor, tirada do cabelo (na tintura natural) para recuperar o corpo. Mas Izuku não estava ali. E pensar em Izuku o deixava estranho.

Inquieto.

Era um assunto que por incrível que pareça o deixava incomodado. Coçava o pescoço com um barulho irritado de sua garganta. Sangue não era estranho, muito menos um corpo aberto. Fazia isso com a maior facilidade do mundo, então porque vê-lo daquela forma o afetou tanto?

Arregalou os olhos e desviou de uma facada no meio da cara.

Ah é, estava em missão.

O homem parecia cansado, o que fazia sentido. Aparentemente descobriram que ele estava em missão e o enviaram quando seu oponente estava mais fraco. Típico.

“Você por um acaso é humano?” Ouviu o outro questionar.

Estava mais rápido, forte e levemente mais alto por causa das doses. Mas tinha mais dificuldade de se concentrar, às vezes o mundo parecia girar demais ou estar alto demais. Não foram poucos os momentos que foi enfurnado dentro do quarto do pânico porque não aguentava mais ouvir a tudo e todos naquela altura. Seu cérebro parecia que ia explodir dentro do próprio crânio.

“Cale a boca.” De novo tudo era muito confuso, muito borrado. Seu oponente era rápido demais e agora tinha dois ou três deles.

Grunhiu.

Sentia ódio demais.

Era ódio né? Aquilo que sentia desde quando vira Izuku pela última vez?

Não importava. O que importava era que seu ataque tinha que ser em larga escala. Com sua espada cortou o Tenya e seus clones ao meio o dando uma morte mais rápida que o doutor aceitaria. Ele não estava em posição de discordar.

Deixou o outro ali no chão — já que sua única capacidade no momento era sangrar até não poder mais — sem saber os últimos pensamentos daquele homem. Quando Tensei decidiu lutar pela liberdade das pessoas que não poderiam fazer isso sozinhas, não imaginou que seu fim seria tão vergonhoso. Achou que enfrentaria a morte com bravura. Mas não. Ele não queria morrer. Ele só queria ver o seu irmãozinho crescer.

‘Você já deveria ter terminado sua missão.’

A mensagem no celular era tão irritante quanto o dono. Em algum momento Shigaraki tinha se apegado a Fujima. A mão que o tirou daquela casa onde não tinha mais ninguém porque matou a todos. Se apegado aos olhos que os deu propósito. 

Mas agora, não.

Queria era mais que aquele homem queimasse até que toda a pele tivesse derretida.

‘E já fiz isso.’

Guardou o “velho de merda” para si mesmo e encarou o espelho. O rosto tinha envelhecido mais do que deveria, suas cicatrizes mais evidenciadas junto às olheiras e lábios rachados. Se Izuku estivesse ali, estaria dando uma bronca lembrando a importância de se manter em forma. Mas Izuku não estava ali. Ou estava. Não tinha certeza.

Algo de Izuku ainda estava ali.

Falando nisso, foi atrás de sua bolsa. Uma cortesia de Fujima para o acalmar: a mão do mais novo estava ali intacta para ele. Não sabia como fizeram para que ela não apodrecesse, mas depois de tantos anos de pesquisa e experimentos não deveria ser tão difícil assim. A colocou no ombro sentindo o efeito imediato quase que como uma das doses que recebia na veia: seus batimentos cardíacos foram desacelerando e o mundo foi ficando mais suportavelmente devagar.

Conseguia respirar.

'Consegui a informação que queria. A missão de eliminar Toshinori é sua.

Link: localização.'

Geralmente depois de uma missão dessas ele voltava para a base. Tirava o sangue. Esperava a "limpeza" da situação e voltava a ativa. Só que aquele definitivamente era uma situação especial. Era sua vingança.

Se não fosse o homem loiro, tudo estaria certo. Izuku estaria ao seu lado tagarelando até sua paciência sumir enquanto o remendava por ter se ferido demais. Só que não, eles tinham que entrar em contato desde o dia que tinha invadido um dos laboratórios, transformando o menor num traidor e receber aquele fim. Toshinori não era alguém que poderia existir.

Por isso nem fez questão de cobrir as pegadas do sangue do outro, seguiu até onde estaria a própria moto e seguiu faminto para a casa.

Alguém tinha invadido sua casa. Isso não deveria surpreender já que Nezu tinha avisado sobre algo como informações vazadas — descuido, não traição. Aparentemente o clima na agência está tenso já que tinha um dos novatos que só faltava arrancar a cabeça de seu pai. Aparentemente Toshinori era conhecido como o melhor e Enji como o segundo, então teve a brilhante ideia de tentar sabotar o loiro. Resultado: um informante morto e uma dor de cabeça gritante chamada Katsuki Bakugou.

Enfim, com a situação quase fora de controle lá — ele não queria saber o quão forte e perigoso era alguém mais novo que conseguiu bagunçar toda a organização —, criou-se uma abertura no sistema muito bem aproveitada pelo inimigo. Mas mesmo assim seu "plano" tinha dado certo, toda informação vazada — incluindo onde Yagi estava — não incluía sua existência. Para todos os fins, Enji teve três filhos.

Por isso conseguiu confiar no loiro suficiente para esconder seus irmãos mais novos, obviamente eles tinham um plano de segurança para se o pior acontecesse. O problema que eles teriam que ficar brincando de gato e rato até chegar na cozinha onde tinha escondido a arma. Pelo menos servia de tempo para os outros saírem da casa e fugirem em segurança.

As luzes estavam apagadas — na verdade toda a casa desligou com a segurança — para dar uma pequena vantagem. Toya conhecia a casa e quem quer que estivesse ali, não. Só que no meio do caminho, sua cabeça deu meia volta. Estava andando devagar para não ser detectado, mas esse não era o caso de seu possível assassino.

Por um momento achou que a música vinha de sua cabeça, para o acalmar e conseguir focar na situação. Só que não demorou muito para perceber que na verdade o som vinha dele.

O invasor estava cantando sua música.

O invasor era Tenko.

Por mais que tivesse sido treinado para lidar com estresse, aquilo era demais, não era? Tinha acompanhado um pouco o estado mental do mesmo nos últimos sonhos — mesmo que mais raros — e tinha certeza que estava em estado crítico. Ou deixava ele ali e tinha a chance dele achar por onde sua família escapou, ou continuava o combinado e entrava num combate que sabia que só um deles poderia sair vivo.

Percebendo que o som se afastou — ainda tendo nenhuma noção de onde ele ou os outros estavam — olhou para a própria mão que estava tremendo. Naquele momento não tinha mais chances de agir como o futuro agente Todoroki, mas sim o Toya que sonhava em ver pessoalmente a pessoa que via quase toda noite. O garoto de dez anos no colo da mãe que tinha prometido o salvar.

Expirou fundo. Inspirou.

Ele não poderia fazer aquilo. Não podia ser tão impulsivo assim e deixar sua família com menos um. Não tinha o direito de fazer aquilo. Se escondeu mais ainda e olhou o celular. 22:45. Não era uma informação importante, mas sim a foto atrás de todos eles juntos. Tomou coragem para fazer o que devia e o guardou de novo, precisava passar por mais dois cômodos até chegar a sua arma e se focou em prestar a atenção em que lugar da casa ouvia aquele som. Ele cantarolava baixinho, mas era o suficiente para entregar sua localização.

Em algum momento pode ter um vislumbre de Tenko. Ele estava tão diferente do que se lembrava... Até mesmo o cabelo tinha mudado de cor. Não reconhecia como o garoto que tinha acompanhado a vida inteira. Mas ao mesmo tempo, não conseguia controlar seus próprios sentimentos ao entender que ele estava ali. Depois de todos esses anos estava vento Tenko com os próprios olhos.

Mas não poderia fazer isso. Não tinha esse direito, certo?

Chegou na cozinha.

Mas não tinha tempo para respirar, pois aparentemente não tinha sido silencioso assim. No momento que virou para trás apontando a arma, tinha a ponta da espada apontada para seu pescoço, assim como a pistola estava mirada na testa dele. Depois de anos se conhecendo através dos sonhos, seu primeiro encontro fora assim.

“Achei que tinha cabelos brancos.” Shigaraki estava com raiva. Não achou Toshinori e o garoto que estava na lista de filhos de Enji não era ele. Era parecido demais com as crianças que via à noite, mas nada disso importava.

“Tenko.” O nome saiu incerto. Assim como as batidas bombeando seu sangue, seu coração não sabia mais o que era um ritmo frequente e falhava vez ou outra.

A espada apertou e sua pele deu uma leve rompida. Não se importava com a gota de sangue que escorreu como deveria. Isso era preocupante.

“Como você sabe esse nome?” O incômodo voltou e não conseguiu conter a vontade de coçar o pescoço. Isso não é bom, a cada vez que o seu coração voltava a acelerar era mais uma perda de controle. Ele tinha que descobrir onde estava o loiro maldito e o único que poderia dar essa informação era o ruivo a sua frente. Ou seja, não podia fatiá-lo completamente como tinha vontade.

“É comigo que você sonha a noite.” Respondeu simplesmente vendo o rosto dele mudar para uma confusão até ficar incomodado de novo.

Os batimentos aceleraram de novo.

“Não importa. Me diga onde se escondeu o loiro e eu vou embora.” Toya percebeu que ele não citou sobre matá-lo e ficou mais aliviado. Só que isso não era o suficiente.

“Não posso.” Respondeu para a fúria do outro.

Não foi sua melhor ideia.

Antes que pudesse reagir, o pé de Shigaraki o acertou na barriga o fazendo voar contra a parede sentindo o gosto de ferro na boca, sangrando mais do que poderia acreditar. O doutor realmente tinha transformado o corpo dele em algo além da humanidade.

Cuspiu o sangue acumulado.

“Você não pode me impedir de achá-lo. Eu estou te dando a chance sobreviver. Não desperdice isso.” Shigaraki lembrava de como Izuku se referia a Toya.

Dizia que era a mesma ligação que o antigo amigo de infância tinha com ele. E que se tinha uma chance de descobrir o que era felicidade ou o que realmente era “viver”, essa chance era ao lado de seu soulmate. Era por memória a Izuku que ainda não o tinha mandado para o inferno. Era por sua curiosidade em entendê-lo que desejava viver ao lado do mesmo.

Só que nada disso era mais importante do que matar Toshinori.

Um tiro foi disparado. Se perdeu de novo nos próprios pensamentos e sentimentos no meio da missão e novamente estava sangrando como consequência. Toya poderia ter acabado com aquilo, mas escolheu atirar na mão do outro que segurava a espada. Nesse exato momento ficou desarmado.

Porém mais instável.

“A única coisa que vai acontecer é que você será preso.” Conseguiu dizer fraco depois de se levantar mais lento do o normal. Mesmo todos esses anos sendo saco de pancadas de seu pai, ele nunca tinha recebido um golpe como aquele. Inacreditável.

Shigaraki riu.

“Isso não é realmente uma opção.”

O mundo estava muito alto de novo. Caso se esforçasse muito conseguia ouvir a voz de Izuku o alertando que ele estava morrendo. Que as doses o estavam destruindo completamente de dentro para fora. Mas sua voz agora não passa de mais uma alucinação que era obrigado a ver.

Mesmo com a espada no chão e com a mão sangrando o albino ainda era mais rápido, então com um chute quebrou os ossos da mão do outro que não tinha mais condições de segurar a pistola. Jogo empatado: os dois estavam desarmados. Só que os treinamentos não foram inúteis e mesmo um pouco tonto o ruivo acertou um soco bem encaixado bem no rosto de Shigaraki que quase caiu.

Os dois estavam tontos.

Nesses segundos que ganhou Toya confirmou os pensamentos de antes: daquele combate somente um sairia vivo. Ele também sabia que tinha que ser ele. Além do fato que a cada segundo ficava mais nítido como Shigaraki estava com os dias contados, ele tinha uma família para voltar, irmãos mais novos para cuidar, pessoas que sentiriam falta de si.

Não podia aceitar um amor criado por uma ligação que nem mesmo tinha explicação científica.

E também não podia ficar tanto tempo pensando, já que seu oponente se recuperou e avançou como um louco em cima de si. Bateu com as costas na parede, recebeu uma joelhada nas partes baixas e ainda teve o soco na cara muito bem devolvido. Ele sabia que as batalhas de Shigaraki eram bem violentas e brutas, já tinha visto algumas, mas estar contra era outra coisa. Caiu no chão quase sem enxergar direito, mas teve reflexo para rolar para o lado desviando de outro soco.

A dor de bater diretamente no chão o parou tempo o suficiente para que o ruivo conseguisse puxar o corpo do outro o fazendo cair de costas no chão. Acertou com o cotovelo na barriga alheia escutando um rosnado de dor. Conseguiu subir em cima dele e seu plano enforcá-lo até finalizar aquilo.

Mas ao ficar com os rostos frente a frente acabou se lembrando do antigo Tenko. O de cabelos pretos que ficava às vezes até altas horas conversando sobre amor com o melhor amigo de olhos verdes. O Tenko que morreu junto de Izuku. Sabia que não tinha escolha, que seja lá o que os ligava, seja lá o que almas gêmeas significasse, ela o tinha consumido. Ele amava os olhos vermelhos e sorrisos debochados.

Mas aquele barulho o trouxe de volta.

O fez ver o que havia de verdade naqueles olhos. Ódio. Vidros quebrados. Dor. Apoiou o próprio corpo nos dois braços sabendo que não teria força por muito tempo e nem que ele faria mais alguma coisa. Assim como si mesmo, Shigaraki parecia cansado.

Só que do nada ele colocou as mãos no ouvido como se tivesse algo ensurdecedor por ali e gritou como um animal.

Era isso.

Tenko não era mais um ser humano.

Ele tinha se apaixonado pelo garoto, mas essa escolha foi tirada dele há muito tempo. E o sangue que escorria de seu peito era o que informava que ele também não tinha mais nenhuma. Não tinha percebido que o outro tinha alcançado a arma que deixou caída antes do tiro. Foi empurrado para o lado pelo — agora — seu assassino que o olhou mais uma vez.

O romance deles era uma verdadeira tragédia.

Sorriu e fechou os olhos. Contra toda lógica, não estava frustrado que tudo tinha acabado ali. Mas ainda tinha forças para mais uma música. Tenko se surpreendeu e sentou ali o acompanhando na melodia que os unia. Cantaram até Toya fechar os olhos e parar de respirar.

Shigaraki naquele momento sentiu que o buraco que se formou quando viu Midoriya morto aumentou e nem sabia que existia mais espaço em si mesmo. Mesmo assim se levantou e seguiu em frente.

Seu tempo não era muito e tinha coisas a serem feitas.

Mais tarde Toshinori desbloquearia o celular e perceberia uma mensagem não lida.

Desculpe. Adeus.


Notas Finais


Eu esqueci o ia colocar aqui, mais informações adicionais por curiosidade:

- Inko entrou na organização de Toshinori e Endeavor procurando por Izuku.
- Katsuki também.
- BakuDeku são soulmates.
- Eles usavam a ligação para passar informações sobre o doutor.
- Shigaraki e o doutor foram mortos por Katsuki no futuro após a fic.
- O idoso morto é Gran Torino, usei o nome original.
- Endeavor merece a cadeia.

Boa noite e até a próxima, yey!


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