1. Spirit Fanfics >
  2. O último ômega >
  3. Park

História O último ômega - Capítulo 15


Escrita por:


Notas do Autor


Oi clã.
Isso não é um treinamento, estamos de volta, mais fortes e melhores que nunca.
Antes de vocês lerem, eu gostaria de me retratar, vocês não têm nada a ver com as merdas da minha vida, porém sinto uma obrigação moral de explicar porque passei meses sem postar. Não entrarei em detalhes, óbvio, até porque vocês entram aqui para ler fanfic e não desabafos. Para o resumo da ópera: Eu fiquei doente, tive um bloqueio criativo, perdi uma pessoa importante da minha vida, meu celular estragou e quando eu comprei outro não foi possível recuperar os capítulos já escritos. Foi merda atrás de merda. Não havia a menor possibilidade de escrever uma única palavra. Felizmente eu recebi algumas mensagens muitos legais de algumas leitoras que me mostraram que estava tudo bem, que essas coisas acontecem e eu não deveria me sentir culpada. Eu me senti verdadeiramente culpada, mesmo que fossem coisas que estavam fora do meu controle. Eu agradeço por cada uma de vocês que me mandaram mensagens, mas especialmente para a @MariGab, muito obrigada por ter sido uma das melhores amigas que eu já ganhei. Esse capítulo aqui simplesmente não existiria sem o seu suporte. ❤️

Peço desculpas adiantadas por qualquer erro ortográfico ou de edição, eu estava tão ansiosa para postar esse capítulo que não editei devidamente. E até quando eu edito deixo passar alguns erros. Então, sinto muito...

Vamos lá ? Eu converso mais um pouquinho com vocês nas notas finais.

ESPERO QUE ESTEJAM TODAS(os)- se possível for- EM CASA, COM AS MÃOS LAVADAS E BEBENDO MUITA ÁGUA.

Capítulo 15 - Park


 

 

 

  Os uivos provindos do interior da floresta a léguas de distância do palácio da rosas rastejavam através do vento frio e ecoavam como um grito agudo dentro dos meus tímpanos. Aquele som. Os uivos rasgando as gargantas dos lobos. Intensos, afiados, uníssonos, eram a transfiguração da dor dos betas de Kim Taehyung e do próprio. O sofrimento da minha alcateia.

 

  Meu coração vibrou dentro da minha caixa torácica e meu estômago revirou dolorosamente, a medida que minha mente fora bombardeada por memórias de Lia. 

 

Os raios áureos do sol refletidos nos olhos de uma lindo, estranho e raro tom de chamas azuladas, as garras brancas como leite postas para fora e as presas expostas ao saltar sobre mim, prendendo-me contra o chão coberto de neve, suas patas dianteiras pressionadas na pelagem do meu peito. A loba de pelos cor de madeira escura debruçara a cabeça bem próxima a minha, deixando seu focinho vermelho tocar o meu. O ar gélido ao meu redor fora preenchido por seu aroma de jasmim. A surpreendi ao pôr a língua áspera para fora e lamber sua face, de baixo para cima. Marcando seus pelos macios com a umidade do músculo. A beta agitou-se e utilizei de seu segundo de distração para a empurrar com a cabeça e retomar a frente da corrida através da trilha próxima ao riacho.

 

 Lembranças da manhã que corremos juntos na floresta negra de Seul. Por que as memórias dela estavam tão vívidas em minha mente? Como se eu estivesse vivendo-as naquele momento e por que não paravam de fluir ? 

 

A face de Lia estava coberta por pó de arroz, seus lábios tingidos de carmesim, rente aos seus cílios uma linha negra delineava suas têmporas, suas bochechas magras falsamente ruborizadas de rouge rosa. Os fios cor de madeira escura de seu cabelo espesso, estavam presos no alto de sua cabeça por kanzashis de pérolas, destacando deste modo seu rosto pequeno. O quimono uchikake escorria adornado todo o corpo da beta até tocar as sandálias estilo geta entorno de seus pés, atado em um laço perfeito às suas costas o obi em tom de azul escuro contrastava o vermelho vibrante da seda da veste tradicional para cerimônias e rituais. Lia estava devidamente preparada para a cerimônia de juramento de Jung Hoseok. A garota assemelha-se a uma perfeita donzela coreana, mas a semelhança com uma donzela era somente em sua aparência. Os olhos redondos eram atrevidos. Seu sorriso malicioso, revelado parcialmente atrás do hashi que ela prendia entre os dentes retos e curtos, indicava sua confiança em si mesma. A acidez de sua voz rouca ao fazer exclamações descaradas e que atraía a atenção de todos ao redor da mesa apenas comprovaram que a lady Hangul tinha a personalidade de uma guerreira, não de uma donzela.

 

   Senti meu estômago revirar-se em um nó e apertei as mãos sobre a boca por alguns instantes, esperando que a sensação de náusea extrema aliviasse. Os uivos não cessavam. E ouvi-los davam-me a estranheza de estar doente e de estar faltando algo. Ou eu estivesse precisando estar em algo, talvez almejando algo. Eu não sabia organizar com coerência aquela agonizante sensação. Estava queimando em minha mente. Deixando-me ensandecido. Misturado a isso as cenas do poucos momentos que eu tivera ao lado de Lia cruzavam meus pensamentos sem cessar. Enfiei  os dedos entre os fios do meu cabelo com brutalidade. 

 

 O que estava acontecendo comigo ?

 

 

— Por que o príncipe lobo está uivando deste modo ? — A voz cética da rainha Hasret chamou rapidamente minha atenção. Fiquei contente pelo segundo de distração.  — A menos de cinco minutos atrás sua alteza sequer expressou reação ao receber a notícia do falecimento de sua majestade real Kim Kwan.

 

— Taehyung estava reagindo como o príncipe herdeiro, mas agora quem está dominando seu ser é o alfa, não duvide que foi a coisa mais dolorosa que o príncipe lobo fizera, esses poucos minutos que sua majestade diz que o príncipe lobo não expressou reação, o alfa dentro dele estava o violentando da forma mais brutal, louco para expor sua dor. Taehyung é forte. Resistiu por tempo demais, porque aqueles poucos minutos, para sua alteza, foram como uma eternidade no sétimo inferno. — Takashi explicou com gentileza e calmaria, possuía verdadeira condescendência em suas palavras e em seus olhos habitados por lágrimas. — O primeiro beta que um alfa perde...É... Eu passei três dias dentro de uma floresta, quando perdi um beta pela primeira vez, dilacerando tudo o que via a minha frente e isso não retirou nem um milímetro da minha raiva ou da dor que havia dentro do meu ser. Consegue compreender o que isto quer dizer sua majestade?

 

— Eu não consigo. — Jisang respondeu, arrastando o olhar para o beta ao seu lado. — Não sou capaz de imaginar a dor. Eu não sei se suportaria.

 

   Hwanwoong levantou um dos braços e apertou a mão no ombro de seu alfa, confortando-o, enquanto murmurava :

 

 

— Todos eles estão sofrendo. Ouçam como os betas estão uivando e olhem para o lobo príncipe.

 

    Os olhares curiosos rumaram-se a mim, com as costas pressionadas contra a parede fria da coluna de suporte ornamentada do salão, tentando obter apoio para minhas pernas bambas e com a cabeça entre as mãos. Meu corpo inteiro tremia com espasmos longos e doloridos. 

 

 

—  Pelos deuses, Jung-kook, o que está acontecendo contigo ? — O rei norte-coreano atravessou a distância que nos separava com poucas passadas. Suas mãos circularam minha cintura, ajudando-me a ter um ponto de equilíbrio em seus braços. — Jung-kook, diga-me. — exigiu, com urgência.

 

— Não sei. — confidenciei, ao elevar os olhos para a face preocupada do rei.

 

— O que estás sentindo ?

 

— Sinto que estou sufocando, que algo está sendo drenado de dentro de mim. — ouvi minha própria voz rouca e indignada fluir por trás da minha respiração exausta, trazendo a questão que pesou o ar do salão : — E deuses, por que isto está acontecendo ? A minutos atrás não estava sentindo nada além de tristeza, agora sinto que posso enlouquecer a qualquer instante.

 

— Porque seu alfa está sofrendo, sua alcateia toda está em plena dor, seus instintos estão compactuando com o sofrimento de seus irmãos. Uma alcateia funciona como um organismo vivo, dividido em partes e funcionalidade diversas, contudo como é o mesmo organismo, o que afeta um, afeta a todos.— O monarca japonês foi outra vez o responsável em fazer a explicação gentilmente. — Tudo é partilhado, felicidade, tristeza, desespero. Até a dor. Flui de lobo para lobo e, é ampliado um para os outros dentro de sua alcateia. Quando eles saíram correndo porta a fora, você deveria ter ido junto deles. Será mais fácil para ti ficar com sua alcateia. Menos doloroso. 

 

— Mas, eu... e-u não sou, oficialmente da alcateia de Taehyun-g. — gaguejei fraquinho. — Não tenho a marca da promessa, pois não fiz a cerimônia do aceite. 

 

— Pode não possuir a marca do príncipe lobo em seu pulso, mas tem o chamado em seu coração. A cerimônia é justamente o que dissera Jung-kook, uma oficialização e confirmação, de algo que já existe, uma forma de deixar aquilo visível a todos. — O rei lobo esclareceu complacente, inspirando profundamente o ar frio enquanto apertava os dedos cuidadosamente na carne envolta do meu quadril. — Seus instintos devem estar pedindo ao seu sistema para que você se transmute e junte-se a sua alcateia na floresta, entretanto você não pode fazê-lo por estar grávido e seu subconsciente deve estar controlando isto. Certamente a uma batalha dentro de você. Sinto muito por isso sobrinho.

 

— Você quer que o levemos para seu aposento ? — A rainha norte-coreana conjecturou. — Que o tragamos um chá ? Chamemos um médico ? Qualquer coisa que alivia-te deste sofrimento.

 

— Não, eu quero o Taehyung...— declarei ao afastar-me dos braços de Jisang. — Eu apenas desejo esperar por Taehyung. — reformulei minha última sentença, para que fosse tão constrangedora. Apesar que eu de fato somente querer o Taehyung. Aquela era a verdade.

 

— Onde você irá querido ? — Hasret indagou, tentando alcançar-me com uma das mãos, porém eu desviei de seu toque.

 

— Para a entrada no palácio, ar frio e fresco irá ajudar-me. — contei-lhe, dando as costas para todos a pessoas do salão.— E irei aguardar o príncipe lobo retornar.

 

— Jungkook... — Jisang começou a protestar, seguindo-me e agarrando meu cotovelo esquerdo para me imobilizar.

 

— Eu desejo ir sozinho.— praguejei entre os dentes. Uma sensação de raiva, percorreu meu estômago ao não ser prontamente atendido pelo monarca.

 

— Quer ficar sozinho neste estado? — A indignação brilhou friamente nos olhos do lobo rei. — Não permitirei.

 

— Por favor. — Soltei o ar entre os lábios e fechei as têmporas com força, tentando com o ato segurar as lágrimas que umedeceram meus olhos. — Deixe-me ir. Eu suplico. Por favor, tio. 

 

    O monarca escorregou a mão por meu braço ao som da última palavra, libertando-me. Era a primeira vez que eu chamava-o de tio. Infelizmente fora unicamente com a intenção de manipulá-lo a favor da minha vontade. Senti-me sujo por tal coisa. Contudo, outra parte de mim não importou-se por simplesmente querer sair dali o mais rápido possível.

 

    Cada passo mais próximo a entrada do castelo, fazia com que as gotas de suor e o ritmo das batidas do meu coração aumentassem vertiginosamente. O gosto do bile estava preso na minha garganta. Contrai a testa, uma dor de cabeça ameaçava afogar meus pensamentos com pontadas quentes.

 

  Apertei uma das mãos no pé da minha barriga e pela primeira vez temi que todo aquele descontrole físico afetasse as minhas crias. Interrompi a caminhada e pressionei outra vez as costas contra a parede. Senti-me satisfeito em não ter nenhum guarda monitorando aquele corredor. 

 

   Abri a boca, buscando por ar. Inspirei e expirei profundamente algumas vezes. Tomando golfadas longas de ar. Tentei limpar minha mente mente e retirar a face de Lia das minhas memórias.

 

  Eu irei aguardar o regresso de Taehyung e dos betas. Simplesmente. Ordenei internamente. 

 

   Passei as língua por meus lábios ressecados e em seguida sussurrei :

 

 

— Estamos bem, certo pequenas crias ?  — Ressalvei uma das mãos por todo o meu abdômen, sentindo a pele quente. Não recebi nenhuma espécie de cutucão como réplica. — Sim, estamos bem. Vocês estão confortáveis e quentinhos, possivelmente dormindo.

 

 

   Os dois guardas em frente às pesadas e gigantescas portas de madeira fizeram uma reverência ao por os olhares sobre mim. Eu não queria despertar interesse sobre meu estado, desejava ter uma passagem rápida, livre de questionamentos e discreta, por isso forcei um sorriso nos meus lábios e ofereci uma rápida saudação. Os homens ponderaram alguns instantes antes de fechar as portas atrás das minhas costas.

 

   Minha intenção era sentar-me na escadaria de pedras polidas que antecediam a entrada do palácio, entretanto meu olhar esbarrou em uma cena que poderia estar ilustrando as páginas de algum livro infantil : A silhueta escura do cavalheiro e seu cavalo contra o brilho da estrelas e as rosas vermelhas ao seu redor. A falta de uma boa iluminação não permitia que eu contemplasse a face do homem, mas não era de fato necessário eu sabia tratar-se de Sor Yoongi paralisado no centro do jardim. 

 

   Andei sorrateiramente ao seu encontro, a aproximação fez com que eu pudesse observar seus olhos intensos e afiados que estavam contactados atentamente as sombras escuras onde a floresta arrastava-se atrás do castelo. O guerreiro aparentava estar mergulhado em si próprio, absorto em seus pensamentos.

 

 

 — Eu os conheço a sete anos e nunca os ouvi uivando desta forma. — O cavalheiro proferiu. A quietude fora do castelo era tão intensa, que quando a voz do homem ressoou cheguei a cambalear para o lado. Tamanho o meu susto. Eu estava sentindo-me pego no flagra, como se estivesse cometendo algo indevido. — Eles estão sofrendo como nunca antes.

 

   Hesitei por alguns segundos, meu olhar correndo entre o equino comendo lentamente a grama coberta de neve e seu dono. Era nítido que Min Yoongi estava preparado para partir.

 

 

— Por favor Sor Yoongi, não diga-me que pretende ir encontrar-se com o lorde Park. — questionei sucinto. A hipótese fervilhava em minha mente e eu temia estar correto.— Não irá abandonar o Taehyung, certo ? Você sabe que ele precisará de ti.

 

— Está era de fato minha intenção, mas então o filhote passou correndo por mim e logo após seus uivos iniciaram. Ele está em pleno desespero. O mundo dele está desabando, ele está perdendo todas as estruturas. Contudo, o Jimin pode estar passando pelo mesmo. Precisando de mim tanto quanto o filhote. Estou dividido entre ir e ficar. 

 

— Yoongi, Jimin está...

 

— Está o que ? — O mais velho gritou em plenos pulmões pausando minha sentença. Fiquei surpreso com a alteração repentina nele. Yoongi era contido, cauteloso, absolutamente discreto. O termo "ilegível" caía-lhe bem. Não era possível deduzir suas vontades e pensamentos através de suas expressões, ele as mantinha quase todo o tempo inalteráveis. Não alterava também seu tom de voz ou mesmo suas expressões corporais. Na falta da minha réplica, o cavalheiro prosseguiu : — Cuidado com suas palavras e insinuações. É do Jimin que irá falar, do Jimin, porra. Do meu Jimin. O garoto que é gentil, dócil e bondoso. Bondoso, verdadeiramente bondoso. Ele tem um coração bom. Um coração tão bom. Eu não sei como o filhote pode suspeitar dele desta maneira, sem ao menos o dar o benefício da dúvida.. Não há prova alguma, somente suspeitas. Diga-me qual o grande crime cometido por Jimin ? Ele deixou o reino da Coreia do Sul, acompanhados de alguns outros nobres de elite, portanto isto não configura um crime. Não é a Coreia do Sul uma nação que defende o direito da liberdade ? De ir e vir ? Transitar como se quer ? —Seu peito subiu bruscamente, á procura do oxigênio. Sua calmaria inabalável havia caído por terra.

 

Sor Yoongi...

 

— Sim, estou ciente que a algumas coincidências e que Jimin está relacionado a elas. Entretanto, não podem simplesmente acusá-lo deste modo, sem ao menos investigá-lo, interrogá-lo, no mínimo o dar uma chance de falar por si só. Não agirem segundo o que é pertinente aos seus únicos e mesquinhos interesses, sem um fundamento concreto. Mas é isto que esses malditos nobres fazem; agem como se tudo não passasse de um jogo político e quando a uma peça que pode ser descartada, para que eles prossigam com esse seu teatro de pantaneiros, acusam-nos. Não passamos de palhaços tristes, domados e manipulados.

 

Sor Yoongi...

 

— Sete infernos, Jimin tem o direito de defender-se e explicar porque fez o que fez. Não sabemos suas intenções. Não se declara uma guerra porque nobres debandaram para outra nação, isso seria tirania, covardia ou não sei lá que outros caralhos séria. E eu não posso apenas cruzar os braços e ouví-los tecer comentários tendenciosos a respeito do catéter dele. Puta merda. Diga-me Jungkook você permitiria que cometessem tal injustiça com o filhote ? Não o daria a chance de explicar-se ? Conhecer as razões dele ? — Ao ouvir essa indagações uma sensação de agonia encheu o meu coração em súbito.

 

— Não sei, possivelmente não. Não se a lógica estivesse evidentemente indicando que o Taehyung era o culpado e se um amigo  precisasse de mim...— Cessei minhas palavras. As perspectivas dentro da minha mente eram convergentes. Seguir a mentira pelo fatores do fatídico “bem maior” ou seguir a minha verdade ? “Não interessa quantos objetivos ou obrigações se tem, ninguém irá vencer uma luta contra o próprio coração, ele sempre dirá o que é certo. Não cometa os mesmos erros que eu príncipe, não deixe responsabilidades, deveres e obrigações ficar acima de seus sentimentos. A maneiras de conciliar as coisas. Então não comece a mentir para si mesmo. Ouça seu próprio coração." O Conselho do príncipe lobo iluminou meus pensamentos como uma estrela guia. — Eu não consigo contar essa mentira. Eu iria Yoongi, eu iria atrás dele para ouvi-lo, entendê-lo, defendê-lo se preciso fosse. Eu não importar-me-ia com o fato de Taehyung ter partido o meu coração em dois, porque até ferido continua batendo por ele. Então a verdade é que eu correria para o príncipe lobo, porque meu próprio coração não ficaria em paz até fazê-lo. Eu posso vir a arrepender-me do que direi-te agora, entretanto, ainda assim direi: Vá Yoongi. Você precisa das suas próprias respostas. Ver com os seus próprios olhos. É o amor da sua existência que está na linha de frente desse jogo. Apenas seja cuidadoso e lembre-se que aquele á quem você chama de filhote confia em ti com a própria alma, portanto, não faça nada que possa quebrar essa confiança. E não preocupe-se eu irei cuidar do seu filhote. Até que você retorne, serei a pessoa que será forte por ele. Prometo-te. Vá agora enquanto todos estão confusos é incertos quanto ao futuro. Partir do momento que as decisões começarem a serem tomadas, tentarão lhe prender aqui.

 

    A respiração pesada de Yoongi inflou seu peitoral. Uma reação física que demonstrava alívio. O mais velho estava de fato fora de si, não contendo as reações naturais de seu corpo como teria feito facilmente antes.

 

 

— Você pode fazer-me um favor e entregar algumas palavras em meu nome ao filhote? 

 

— Quantas quiser.

 

— Diga-o que se as suposições dele estiverem corretas e Jimin estiver traindo-o, eu serei o primeiro soldado de seu exército. — O protetor do príncipe lobo levou a mão esquerda para trás, apertando o punhal de uma de suas Beulwungus. — Minha espada será dele. Lutarei cada batalha em nome da dinastia Kim. Está é uma promessa.

 

— Eu acho que você não deveria prometer tal coisa. Está prometendo vir a lutar contra homem que têm o seu coração. — O adverti, tentando não sobrecarregar o peso da minha voz.

 

 — Se Jimin estiver tentando usurpar o trono sul-coreano, associando-se aos chineses e levando milhares de homens inocentes para um campo de batalha em nome dessa causa egoísta, ele terá perdido meu coração, pois será um completo desconhecido para mim. O Jimin que eu amo jamais seria capaz de algo assim. — O cavalheiro fitou-me diretamente nos olhos. Seus olhos brilhavam com uma ameaça controlada. — Entregue minha promessa ao filhote. 

 

— Entregarei.

 

  O cavalheiro montou o majestoso cavalo branco, apoiando-se na sela com destreza. Antes de partir chamou por mim :

 

 

— Jungkook ? 

 

— Sim ?

 

— Muito obrigado.

 

Retruquei com um pequeno sorriso no canto dos lábios. Era a única coisa que eu podia fazer.

 

— Vá, Sor Yoongi, Vá.

 

 

    Min Yoongi saiu a galopes velozes, cruzando o jardim rumo ao portão da área leste. Eu observei-o até que estivesse longe demais para ser capturado por meu olhar.

 

 

— Não diga-me que aquele era o Yoongi oppa e por todos os deuses não diga-me que você o deixou partir em encontro do Jimin oppa. — A voz de Jae encheu meus ouvidos e fez-me virar para ela, como eu a beta estava envolvida em seu roupão, a diferença era que sua peça vestuária estava rasgada em algumas partes e coberta de lama, grama e musgos em outras. Tinham gravetos e folhas presos nos fios de seu cabelo liso e arranhões frascos sobre sua pele de cor-de-porcelana.

 

— O que aconteceu contigo dongsaeng ? 

 

— Eu tentei segui-los através da floresta, nossa alcateia quero dizer, eu senti essa urgência, como se eu estivesse sendo sufocada em chamas. Eu desconheço melhor metáfora. E essas memórias de Lia, ficam permeando os meu pensamentos. Pelos deuses, está enlouquecendo-me. Eu pensei que ficar perto deles pudesse aliviar, porém o Hobi oppa e a Jiso unnie começaram a rosnar para mim e fizeram-me recuar para fora da floresta. — praguejou, seu queixo tremia sem parar. A lady Kim estava esforçando-se para não chorar. Não estava obtendo resultando as lágrimas finas passaram a descer em suas bochechas vermelhas. — Percebe, eles podem dizer todo o tempo que sou tão loba quantas eles, mas não agem como suas falsas palavras.

 

— Você não entendeu Jae, eles a fizeram recuar justamente porque a tratam como uma igual. Você não vira o Taehyung, vira ?

 

— Não. — resmungou.

 

— Isto porque ele escondeu-se de ti para que você não visse a forma lupina dele, possivelmente o príncipe lobo ordenou que Hoseok e Jiso lhe afugentassem para minimizar os riscos. — expliquei-lhe. —Betas e ômegas somente podem ver a forma física do seu alfa pela primeira vez na cerimônia do aceite, não é?! Taehyung não negligenciaria algo de tamanha importância sob nenhuma circunstância. Nem mesmo em uma tão ruim quanto a que está passado agora.

 

— Isso é estupidez. — A beta cruzou os braços energeticamente. — Eu não tenho genes lupinos, porque fazer-me passar sozinha por esse sofrimento em nome de algo que jamais irá acontecer.

 

— Taehyung acredita que seus genes lupinos irão despertar. — contrapus.

 

— O Tae oppa também acreditava que nossa alcateia permaneceria unida até o fim de nossas existências. A Lia unie está morta. Que as muralhas do palácio das safiras sempre manteriam nosso inimigos afastados. Hoje elas nem existem mais. Devemos prosseguir acreditando em todas as crenças do nosso alfa ? — Vi algo além da fúria e ceticismo no olhar de Jae. Algo que fez lágrimas tomarem seus olhos com mais vigor.

 

— Devemos acreditar em alguma coisa.

 

— Acreditemos em coisas plausíveis, então. — esbravejou, por trás dos dentes e girando sua cabeça para lado, arrastando seu olhar para longe do meu.

 

— Jae, se você não possuísse genes lupinos e se eles não estivessem despertando gradativamente você não estaria sentindo-se assim. — Espalmei a minha mão contra o meu tórax ao falar : — Eu sinto-me da mesma forma. Sufocando dentro do meu próprio corpo.  Em chamas. Ansioso por algo que desconheço. Sentido um chamado que parece vir através das memórias de Lia. Compartilhamos a mesma angústia. Você é realmente tão loba quanto eu.

 

— Estais sentindo-se desse modo ? — questionou, incrédula.

 

— Estou. Todos nós estamos. — Contei a lady Kim o que o rei Takashi explicou-me. A beta ouviu tudo silenciosamente, absorvendo cada palavra. Eu vi através de seu semblante uma curiosidade confusa, vagarosamente superando sua raiva.

 

 

— Pelo primeiro grande lobo. — exclamou extasiada.

 

— Talvez a coisa que você deva acreditar é em si mesma dongsaeng e em mim. Eu estou aqui. Você não passará por isso sozinha. — estiquei o braço, oferecendo-lhe a mão. — Venha, vamos sentarmo-nos. Eles irão demorar a retornar.

 

 Avancei para a entrada do palácio da rosas, sentando-me no primeiro degrau da escadaria com Jae ao meu lado. Apertei o roupão contra o meu corpo, numa falha tentativa de aquecer-me. Vi a garota tentar fazer o mesmo, então passei um dos meus braços por seu quadril e outro acima dos ombros, puxando-a para um abraço. A beta não ofereceu resistência alguma, encostando a cabeça no meu peito confortavelmente e apertando os braços na minha cintura.

 

 

— Você não respondeu-me Kook oppa.

 

— O que ?

 

— Aquele era o Yoongi oppa ?

 

— Sim.

 

— Ele partiu para o império chinês? 

 

— Sim.

 

  A lady Kim desferiu um tapa em umas das minhas coxas. O ardor espalhou-se por minha pele. Eu não esperava que dedos delicados como os delas pudessem carregar tamanha força.

 

 

— Por que fez isso dongsaeng? 

 

— Porque és um tolo.

 

— Por que ?

 

— Você enviou de bandeja para Jimin oppa o melhor soldado que ele poderia ter, e fez o Tae oppa perder o dele.

 

— O Sor Yoongi não irá lutar pelo lorde Park. — protestei. 

 

— És ainda mais tolo do que penso se acredita mesmo nisto. Uma conversa de travesseiro e Jimin oppa manipula Yoongi oppa a exercer todas os  seus  desejos. — A mais jovem apertava os olhos de uma forma sonolenta e falava lentamente: — O Jimin oppa é uma fonte gravitacional para o Yoongi oppa, ele pode tentar negar a si isto, contudo está claro para todos essa verdade. Não a promessa que fará Yoongi oppa ficar longe do Jimin oppa.

 

 Senti uma sensação de culpa conjunta ao pontada de nervosismo fluir em minhas veias. Eu não deveria ter apoiado Sor Yoongi ir de encontro com Park Jimin ? E se eu tivesse o influenciado a adentrar de bom grado no covil das cobras ? Qual será a reação de Taehyung ao descobrir que seu protetor partiu sob meu auxílio ?

 

  O meu cérebro confuso lutou com esses paradoxos sem sucesso por um longo tempo. Tempo demais, pois quando abri os lábios para falar com Jae outra vez notei que ela adormecera ao aguardar a réplica.

 

 

  Deixei minha testa cair sobre o topo da cabeça da mais jovem, apertando os lábios para não gritar de frustração. Nunca pensei que em algum momento da minha existência eu fosse sentir saudades de viver no mosteiro, entretanto agora eu tinha este desejo. Uma vida monótona, baseada em aulas após aulas, com apenas mestres, monges e órfãos cujo quais odiavam-me de companhia, com regras e punições constantemente sendo impostas parecia-me mais fácil de lidar do que a bagunça em que eu encontrava-me. Tendo as piores expectativas quanto ao futuro; viver minhas prováveis últimas luas em meio a uma guerra, encarar a morte de frente na data marcada, a lua em que crias nascerem, e não ter a mínima ideia do que estava reservado ao futuro do alfa que eu amava. O mesmo que quebrou meu coração em dois e tirou minha existência de órbita, pois tudo na minha vida parecia estar quebrado, incompleto, bagunçado.

 

 E ainda não saber se no mínimo Kim Taehyung estaria presente no futuro de nossos filhotes, para criá-los, amá-los e protegê-los. A morte poderia estar próxima para o príncipe lobo também, somente os deuses sabiam que fins levariam essa guerra. Pensar no príncipe lobo perdendo a existência fora mais agonizante que pensar em mim mesmo fazendo-o. Enviei essa possibilidade para o canto mais escuro da minha mente, para que eu não caísse no completo desespero.

 

  Fiquei feliz em ver o amanhecer finalmente encher o céu com um rubor suave e com lentidão passar a aquecer de forma mínima o ar frio. A felicidade no entanto desapareceu ao ver as horas arrastarem-se dentro do dia e a minha alcatéia não retornar para o palácio das rosas. Eu não escutava mais os uivos. Não ouvir o som não aliviou-me em nada. Em algum momento o cansaço pesou nas minhas pálpebras e eu acabei cedendo a um sono leve. Não sei dizer por quanto tempo dormi.

 

 

— Sua alteza e senhorita está na hora de acordar. —  A voz aveludada ordenou. — Lobo príncipe desperte,  precisa alimentar a ti e aos seus filhotes.

 

  Abri os olhos devagar, resistindo a vontade de voltar a dormir. Takashi Nakamura estava sentado do meu lado do degrau. Instintivamente recuei um pouco, arrastando Jae inconsciente comigo, afastando-nos do alfa. O mais velho sorriu tristemente ao ver o ato. Ele estava trajando um quimono multicolorido, de certo providenciado para que o rei dos lobos brancos se sentisse mais confortável do que ficaria em vestes tipicamente coreanas. Seu cabelo longo estava presos no alto de sua cabeça por presilhas brilhantes. Os adornos também eram comuns a cultura nipônica.

 

 

— Estais faminto ? — O mais velho ergueu a tigela de porcelana em suas mãos. — Eu trouxe para ti castanhas e frutas secas. Espero que seja de vosso agrado. Eu não sabia que a lady Kim estava em sua companhia, mas creio que esta quantidade é suficiente para saciar a fome de ambos.

 

Concordei imediatamente. Balançando a cabeça para cima.

 

— Muito obrigado. — agradeci pegando o objeto de suas mãos e apoiando-o nas coxas. Eu queria espreguiçar-me, contudo Jae totalmente aninhada a mim, praticamente fazendo-me de cama não possibilitava isso. Eu não queria acordá-la e trazê-la para a realidade. Algumas horas de sono a mais fariam bem a mente dela.

 

 

  Comecei a comer as tâmaras secas devagar, pretendo as frutas entre os dentes a cada mordida vagarosa, na intenção de manter minha boca cheia. A presença do monarca japonês era intimidadora. Eu não sabia como iniciar uma interação com o alfa.

 

— Se Sor Yoongi não está aguardando a alcateia do príncipe lobo retornar junto a você e a lady Kim, e suponho que também não esteja na companhia do próprio na floresta, então devo concluir que o cavalheiro partiu atrás do lorde Park. Jisang e eu esperávamos por isso. Min Yoongi é um homem jovem com um coração apaixonado. — Embora eu estivesse de seu lado, senti que o mais velho estava a falar mais consigo do que comigo de fato. — O cavalheiro partiria. O resta-nos saber de qual lado ele ficará. 

 

— Sor Yoongi ficará do lado de Kim Taehyung. — afirmei com veemência.

 

— Não afirme algo em nome de outra pessoa, Jung-Kook, pessoas e palavras estão sujeitas a transição das luas. Aprenda isto enquanto jovem. Afirme coisas unicamente em seu nome.

 

Engoli em seco. Eu estava de súbito envergonhado. Eu não podia realmente afirmar nada em nome de outra pessoa.

 

— Sua alteza tem razão. Eu espero que Sor Yoongi escolha o lado de Yoongi.

 

— Eu também espero. Sor Yoongi tem um valor inestimável, seria uma pena não tê-lo ao nosso lado. O cavalheiro é o melhor guerreiro da última década. — Um pequeno sorriso moldou os cantos da boca de Takashi. — O protetor de meu sobrinho é quase tão bom quanto seu pai fora.

 

— Você o conheceu ?

 

— Jeon Jongkyu fora um dos meus melhores amigos, Jung-Kook. — O rei dos lobos brancos apoiou os braços acima dos joelhos e mergulhou o olhar contra o meu. — Hoje estou sentando ao lado do filho dele, que também é meu sobrinho, e que da existência eu nunca soube. A vida é cheia de estranhezas peculiares, porém penso que isso que a faz interessante. Bom, mtemo que sua alteza não queria ouvir os devaneios de um velho alfa. 

 

— Eu não importo-me.

 

O monarca sorriu mais abertamente, relevando as covinhas em suas bochechas marcadas e os dentes amarelados. 

 

— Sabe Jongkyu costumava dizer “Você deve estar disposto a proteger as coisas às quais dá valor, acima de si mesmo, acima do ouro, acima da lágrimas.” Por toda a vida acreditei que a coisa que Jongkyu mais dava valor era o reino da Coreia do Norte, por isto nunca entendi porque ele ficou preso no cerco das mil luas. Jamais compreendi. Jamais. Não fazia o menor sentido. Jongkyu era um alfa sem igual, se de fato quisesse teria encontrado uma maneira de fugir. Tenho certeza. — O alfa levou uma das mãos ao meu rosto. Tive de conter a vontade de afastar-me do toque áspero de sua pele. — Contudo, agora, vendo os olhos de obsidiana de Solar brilhando lindamente em sua face, como brilhavam no de minha irmã vejo que Jongkyu encontrou no fim da existência a coisa a qual ele protegeu acima de qualquer outra. 

 

— Espero que tenha valido a pena. — sussurrei. O no centro da minha garganta fez com que eu perdesse a capacidade de  usar um timbre mais forte de voz.

 

— Sua alteza está aqui, é a prova que valeu a pena. — Takashi escorreu os dedos entre os fios do meu cabelo. — Jung-Kook... —  O monarca não prosseguiu, o som das portas sendo aberta roubaram sua atenção. Hwanwoong passou por elas e seu olhar veio de imediato a nós.

 

— Aí está você. — O lorde Yeo expressou-se com um sorriso. Um grande sorriso. Suas feições ganharam leveza no ato. Seu olhar fixou-se em Jae adormecida com a cabeça no meu colo, e eu soube graças a isso que aquele sorriso não era destinado a mim. 

 

O rei dos lobos brancos ficou de pé e anunciou:

 

— Pedirei aos criados para preparem vestes para a alcateia do príncipe lobo e irem colocá-las no início da na floresta e depois encontrei Jisang, nós temos muito o que discutir. 

 

— Oh, certamente. — concordei. Senti-me um pouco frustrado, eu estava curioso a respeito da próxima sentença do alfa. Gostaria que não tivéssemos sido interrompidos. 

 

— Rei dos lobos brancos. — O beta de Jisang inclinou-se solenemente quando o mais velho passou por ele.

 

— Sua majestade ? — Chamei-o. Ele virou-se no meu rumo e meneou com a cabeça em sinal de positivo. Incentivando-me a prosseguir : — Em outro momento sua majestade poderia contar-me mais estórias sobre eles, Solar e Jongkyu ?

 

— Eu adoraria fazê-lo.

 

Hwanwoong sentou-se ao meu lado na escadaria depois que Takashi adentrou o palácio.

 

— Você deveria levar a lady Kim para o aposento, ela terá fortes dores se continuar a dormir nesta posição. —  O maxilar do beta fez pressão em sua boca. Seu rosto ficou duro e irritado. — Veja, os ombros dela estão curvados demais. Estais machucando-a. Permita-me levá-la para o aposento.

 

— Não. Jae quer ver o retorno de Taehyung, Hoseok e Jiso tanto quanto eu. Ela precisa disso mais do que de uma cama confortável.

 

O conselheiro-mor suspirou em concordância.

 

— Onde a lady Kim estava ? — perguntou, o olhar persistia em permanecer fixo no rosto de Jae. — Por que suas vestes estão sujas e rasgadas ?

 

— Jae tentou acompanhar nossa alcateia na floresta.

 

— A lady Kim é corajosa, não é ? — Um sorriso desenhou-se nos lábios de Hwanwoong e seus olhos iluminaram-se ante a hipótese.

 

— Eu não a conheço bem, contudo acredito que sim. Jae é corajosa. Certamente... — Minhas palavras cessaram de abrupto. A brisa gélida trouxe o aroma de sândalo para dentro dos meus pulmões. A sensação de segurança e pertencimento fora imediata. Levantei os olhos, procurando por Taehyung. O alfa ainda estava na entrada no jardim, com Hoseok ao seu lado. O beta carregava Jiso nos braços. 

 

— Jae, desperte, Jae. — Chamei a garota instantaneamente.

 

— Fique quietinho. — A lady Kim resmungou abraçando minha cintura com mais força. 

 

— Jae. — Eu sacolejei seus ombros finos suavemente. — Taehyung, Hoseok e Jiso retornaram. Sinta o aroma deles no ar.

 

 Jae afastou-se farejando o ar e pulou de pé. A beta não  hesitou um momento antes de sair correndo rumo a alcateia. 

 

— Deixarei vocês a sós. — Hwanwoong proferiu ao ficar de pé. O beta estendeu a mão e ajudou-me a levantar.

 

— Agradeço-te Hwan hyung.

 

Segui o caminho anteriormente feito pela beta, tentando conter a vontade de correr também. Invejei a maneira como Jae jogou-se nos braços do príncipe lobo e de como ele parecia preparado para acolhê-la da forma mais confortável possível. 

 

— Não é preciso dizer nada dongsaeng, eu sei. — Taehyung murmurou com a voz abafada, ao beijar os fios no alto do cabelo da garota. — Eu sei, eu sei. E eu também sinto muito.

 

   Ambos os lobos ficaram embolados em um abraço apertando, com a lady Kim chorando histericamente contra o peito de seu alfa, que tentava acalma-la com palavras e toques gentis.

 

   Hoseok e eu observamos a cena com os olhos marejados. Eu desviei o olhar por um instante e ele recaiu para a beta adormecida nos braços do lorde Jung.

 

— O que aconteceu com Jiso ? — conjecturei, preocupado.

 

— Jiso desmaiou de exaustão. Ela não está habituada a sua forma lupina ainda, mas forçou-se a permanecer com a transmutação para acompanhar-nos. Irá precisar de muitas horas para recuperar-se. — explicou-me. — Irei levá-la para o aposento. Eu também preciso dormir, não suporto mais que alguns minutos desperto. Sinto que não a força alguma no meu sistema.

 

— Vá com eles Jae, por sua face posso ver que não descansou apropriadamente. —  O príncipe lobo afastou-se, entretanto não retirou as mãos dos contornos do rosto da mais jovem, enxugando as lágrimas dela com as pontas dos polegares. — Eu também preciso dormir. Não resistirei muito mais ao cansaço. Nós conversaremos durante a ceia. A menos que você precise muito de mim Jae. Posso ficar contigo, se precisar com urgência.

 

— Você precisa dormir Tae, mais que qualquer um aqui. Venha Jae dongsaeng, eu lhe deixo em seu aposento e lhe faço companhia até que adormeça.— Hoseok virou-se para seu soberano, ele movimentava-se facilmente, como se Jiso adormecida em seus braços não pesasse mais que algumas penas. — Ao pôr ao sol ? — questionou.

 

— Ao pôr do sol. 

 

— O que acontecerá ao pôr do sol ? — Jae indagou quando fungava e limpava seu nariz escorrendo com o dorso da mão. Fiquei aliviado que ela tenha o feito primeiro. Eu estava curioso a respeito também.

 

— O concílio de guerra que o Tae irá convocar. Eu lhe explico no caminho de nossos aposentos dongsaeng. —  O comandante da guarda real voltou sua concentração outra vez para o alfa. — Após deixar as garotas em seus respectivos aposentos, pedirei para o capitão Yong fazer as convocações. Se precisar de mim, mande-me despertar. Venha Jae.

 

   Os três betas afastaram-se seguido a trilha do centro do jardim.

 

— Concílio de guerra ?

 

   Taehyung não respondeu-me, ao invés disse puxou-me para um abraço. Seus braços me apertaram contra o seu corpo com força e suas mãos posicionaram-se em minhas costas tão tensas que senti como se fossem adagas afiadas penetrando meu roupão. O alfa escondeu o rosto na curvatura do meu pescoço e eu senti as lágrimas quentes e silenciosas escorrer na minha pele. Eu não soube como reagir, minhas mãos estavam incertas. Nunca cogitei assistir uma vertente tão frágil, insegura e amedrontada de Kim Taehyung relevar-se.

 

— Eu nem mesmo sou capaz chorar por meu pai, minha tia, tão pouco por meu pequeno Suk. — murmurou baixinho, como se estivesse contando-me um segredo que lhe causava extrema vergonha e remorso. — A dor de perder minha beta está ocupando todo o espaço. Minha mente, meu corpo, meu coração.

 

 Peguei seu rosto entre as mãos e o fiz olhar para mim. Suas orbes estavam irradiando em um tom suave de dourado, como orvalho de um início de manhã de verão. Assustou-me não ver o ouro intenso que seus olhos costumavam ter, porém tentei não transparecer isso. Eu precisava manter-me firme e confiante, por ele. Por nós.

 

 

— Vamos começar com a recuperação do corpo. Para aliviar a dor que está sentindo é precisa repousar. — Uni sua mão a minha. — Acompanhe-me.

 

  Nós entramos no meu aposento e eu fechei a porta atrás de nós. Taehyung retirou os sapatos que usava com calcanhares e ao parar em frente a cama, começou a puxar a camiseta espessa e negra de lã, com amarrações no quadril e clavículas. Seus dedos pareciam estar vacilantes, pois ele não estava conseguindo desfazer os nós e somente fora capaz de erguer a peça na altura de seu umbigo bonito.

 

— Permita-me ajudá-lo. — pedi avançando em sua direção, cortando o espaço que nos separava. O mais velho soltou os braços nas laterais do corpo. Desfiz os nós rapidamente. — Levante os braços. —  Ele obedeceu sem ponderar. Puxei a camiseta sobre seu pescoço e braços fortes, largando-a no chão logo após.

 

— Obrigado. — proferiu simplista. 

 

—Sente fome ? Gostaria que eu pedisse para os servos lhe trazerem algo ? Um chá, talvez ?

 

— Não.

 

— Gostaria que eu lhe preparasse um banho em águas quentes ? 

 

— Não. Eu preciso dormir. É minha necessidade primordial.

 

— Sendo assim deitei-se, pois hoje sou quem irá cobri-lo para dormir, filhotinho. — Em outras épocas o príncipe lobo teria sorrido da minha tentativa de piada, mas com suas perdas recentes eu sabia que tais expressões não surgiriam com facilidade em seu rosto. — Posso cobri-lo ?

 

— Por favor.

 

   O alfa subiu na cama e arrastou um dos travesseiros de penas para abaixo de sua cabeça, peguei a coberta de peles e o cobri até o seus ombros.

 

— Fecharei as persianas para que a luz não incomode-te.

 

— Certo. —  disse monossilábico. —  Príncipe ?

 

— Hum ? — murmurei alto, enquanto fechava as portas duplas da sacada, escondendo parte da luz do sol. Depois cruzei as dobraduras das cortinas.

 

— Por favor desperte-me duas horas antes do pôr do sol. Eu não posso desperdiçar mais tempo, não mais do que já desperdicei.

 

   Eu não concordava que fosse um desperdício de tempo o que o mais velho fizera, porém não era o momento oportuno para fazer esse tipo de comentário. Sujeitei-me a  concordar :

 

— Está bem.

 

Depois que o quarto encontrou-se totalmente oculto da luz do dia, o alfa pediu :

 

— Deite-se comigo, por favor, preciso de ti.

 

  Retirei meus sapatos e o roupão, mergulhando sob os lençóis ao seu lado. Taehyung girou o corpo e passou um dos braços na minha cintura, trazendo-me para mais perto de si. Não resisti a vontade de pousar a cabeça em seu peito. Ao levantar a cabeça para olhar para sua face, o vi com os olhos já fechados.

 

— Príncipe ?

 

— Sim ?

 

— O Sor Yoongi fora de encontro ao lorde Park. — Mordi os lábios, em uma pausa, mas percebi que era melhor dizer aquilo de uma única vez: — Eu o influenciei a ir. Pareceu-me o certo. 

 

— Não culpo-te. Eu imaginei que Yoongi o faria por si só.

 

— Sor Yoongi pode estar correndo perigo, pode escolher o lado do lorde Park, pode...

 

— Eu estou ciente de todas as hipóteses que você irá fazer.

 

— Não lhe incomoda ? — indaguei. Sua impassibilidade era inesperada.

 

— Agora nada mais me incomoda além da dor e da exaustão. — O alfa acomodou-se de modo mais confortável, deixando parte do corpo entrelaçar-se no meu. Sua voz não passava de um sussurro lento e suas pálpebras permaneciam fechadas. — Talvez incomode-me quando eu estiver lúcido.

 

— Desculpe-me. Eu irei lhe deixar dormir.

 

— Agradeço-te.

 

  Fiquei quieto por alguns segundos, unicamente meus dedos moviam-se, traçando círculos imaginários nos músculos duros na barriga do outro. Eu estava lutando com as palavras na ponta da minha língua, tentando as manter dentro da minha boca, entretanto algo estava incomodando-me em demasia e tive de cortar o silêncio:

 

— Príncipe?

 

— Sim ? — murmurou baixinho, escondendo o rosto entre meu pescoço e ombros.

 

— Yoongi lhe fez uma promessa. Ele disse para lhe entregar essas palavras: ”diga- o que se as suposições dele estiverem corretas e Jimin estiver traindo-o, eu serei o primeiro soldado de seu exército. Minha espada será dele. Lutarei cada batalha em nome da dinastia Kim. Está é uma promessa.” — contei-lhe e aprovei a deixa para confidenciar: — Eu fiz uma promessa a Sor Yoongi também.

 

— Qual ?

 

— Eu serei a pessoa que será forte por você. — aproximei meus lábios de sua orelha e proclamei usando uma entonação suave e baixa : — E eu serei, serei forte por ti. Eu irei cuidar de você, prometo-te.

 

  Taehyung afastou o rosto e abriu os olhos. Seu olhar encontrou o meu. Seus olhos haviam enfim retornado para o tom castanho escuro, porém não pareciam menos belos por isso, pois eu via as chamas no fundo deles, procurando por uma doce rendição.

 

 

— Sou eu quem tenho que cuidar de ti. —O príncipe lobo apertou a boca na minha testa, selando o local delicadamente. — De ti e de nossos filhotes. 

 

   Fora impossível conter o sorriso nos meus lábios e meu olhar de fixar-se no rosto do alfa. Sob a penumbra do quarto, eu via os traços perfeitos de seu rosto imersos as sombras. Ele era estonteante de qualquer modo, na luz ou na escuridão. Permiti que as pontas dos meus dígitos passearem por suas bochechas macias.

 

Será que meu coração faria o papel de agir como se nunca tivesse sido quebrado para que a vida pudesse escrever um novo capítulo para mim e Kim Taehyung ? Porque, talvez, e apenas talvez, nosso conto não estivesse no fim. Aquela poderia ser uma pausa dramática na nossa estória. Uma lacuna para aprendizagem. Um simples hiatos.

 

 

                           ✥✥✥

 

 

 

   Lobos, eu conclui, enquanto ouvia a voz plácida, limpa e forte de Kim Taehyung reverberar entre as paredes da sala de reunião, foram escolhidos por humanos para governá-los, não porque supostamente eram a prova viva da existência do deuses, tampouco porque tinham habilidades sobre humanas propícias para a guerra, essencialmente, lobos, eram capazes de fazer uma coisa que homens comuns jamais seriam. Ignorar a própria dor. Um líder, um alfa forte e digno, levanta-se e fica de pé para sua alcateia e seu povo mesmo que tenha sido atacado da forma mais violento, como ter seu próprio coração dilacerado com a morte de alguém que se ama profundamente. Prova disto, era o príncipe lobo, liderando um concílio de guerra menos de duas luas após receber a notícia de que seu pai, sua tia e uma de suas betas terem sido carbonizados em um incêndio. Seu castelo estavam em ruínas e seu meio-irmão era um desertor, e possivelmente um traidor da coroa.

 

     Apenas, parecendo algo natural, fácil e simples, Taehyung partiu para as ações, pois estava tentando ser o porto seguro para todos os que estavam desabando, mantendo-se firme e forte, a base que suportaria tudo, para que nada mais ruísse e ninguém mais se ferisse, pois é dever de um líder garantir a segurança e bem estar de de seus súditos. Mas ele estava caindo também, partido em pedaços, por dentro, seus olhos estavam gritando no silêncio. Eu podia ver perfeitamente a dor oscilando em suas orbes que costumavam irradiar um brilho dourado intenso, como duas moedas de ouro polidas à luz do sol, no entanto agora voltaram a conter uma cor singular e delicado de orvalho dourado.

 

 As bordas das mesas estavam cheias, por todos os convocados. Sendo eles; Jisang, Hasret, Hwanwoong, Dongju, Takashi, todos os anciãos, conselheiros e comandantes militares norte-coreanos. Até a pequena Jae e o príncipe lupino estavam ali. E com exceção de Jiso, os betas de Taehyung também estavam presentes.

 

— Park Jimin possui presas ? — A voz do lobo rei ressoou amarga e carregada de exaspero, cortando as palavras do alfa mais jovem que anteriormente estava a contar a história de seu meio-irmão. — E os olhos rosados ? Nunca ouvi dizer de algo semelhante.

 

— É raro, contudo, de fato possível. — O rei Takashi retrucou, repuxando as pontas da manga do quimono de modo distraído. — A poucos casos registrados, todos de bastardos e em cada um desses em questão houveram complicações na sucessão de suas dinastias, por tentativas de subversão do trono. Não duvido que isto que levou o rei Korain a obrigar Kwan a manter a origem do lorde Park às escondidas e depois o próprio o fez por consciência pessoal. Um bastardo real sempre é perigoso para a coroa. Um bastardo real com provas físicas que possui sangue lupino, é um barril de pólvora, pronto para explodir a qualquer segundo. E, as provas físicas; os olhos com cores lupinas e às pressas, certamente, ajudaram seu meio-irmão a corromper os grandes lordes sul-coreanos e todos os outros nobres de elite que partiram para o império da china consigo. O lorde Park possui sangue lupino e, é o primogênito. Se fossemos ser literais, a coroa, por direito, pertenceria a ele. Porém, o lorde Park não nasceu de um casamento real, não fora preparado para ser um reinante e principalmente não é um lobo. Não tem direitos concretos, mas, obviamente, sente-se, ainda deste modo adequado para requerer o trono do reino da Coreia do Sul. Como minha primogênita, Yumi, possui sangue lupino, o meu sangue, mas é humana, como sua mãe fora. E verdadeiramente ela tem todos os requisitos para obter o trono japonês, veio de um casamento real, é a primogênita e foi preparada para tal. Entretanto não tem qualquer vocação para a liderança, não para a boa liderança, Yumi sempre demonstrou traços de tirania, egoísmo e ganância extrema. Como seu avô. Eu não sei para onde ela guiaria nossa nação e não posso arriscar que meu povo seja sucateado por outro reinando de fascismo. Por isso a idéia de nomear Taehyung meu sucessor sempre fora tão tentadora para mim, ele é meu sobrinho, carrega o sangue dos Nakamura e acima de tudo isto é um alfa. Sem dúvidas seria um melhor regente que minha primogênita. Eu nunca escondi essa minha convicção, e todas as vezes que a discussão surgia, Yumi ficava ensandecida de raiva, dizendo que eu colocava um sobrinho acima da minha própria filha. Unir Taehyung e Yumi em matrimônio sempre pareceu a solução ideal, porque acreditávamos que não houvesse outro ômega no mundo de qualquer forma. A alternativa, contudo, não agradava-a. Yumi queria poder absoluto, a possibilidade de ser a rainha consorte de Taehyung era intragável para si. E nitidamente minha primogênita encontrou uma maneira de atingir o que sempre almejou. Está claro como o dia que Yumi está aliada a Park Jimin. A indagação que está dominando meus pensamentos, no entanto, é : O que eles estão oferecendo aos seus seguidores ? O que eles tem que não podemos dar aos que debandaram ? 

 

— Genes humanos. — Taehyung proferiu lentamente, entretanto a voz rouca bombardeando todos os tímpanos ali.

 

  Meu olhar fora atraído outra vez para o mais velho, em pé na ponta extrema da mesa de aproximadamente de dez metros cujo a superfície relevava o mapa detalhadamente e em alto relevo de toda a Ásia oriental. Suas mãos estavam cravadas na borda do móvel, seu tronco curvado ligeiramente para frente, de forma que os músculos magros em seu braços ficassem flexionados atrás das sedas. Sua postura corporal apenas evidenciava mais a tensão emanado de si.

 

 

— Genes humanos ? — Hoseok indagou. A confusão e a surpresa mesclado-se em seu semblante.

 

— Yumi e Jimin, tal qual, por exemplo; a rainha Hasret, são sangue puros. Humanos com sangue lupino. Primogênitos. Com eles, nossas nações teriam futuros certos e simples. Contudo, não aplica-se somente a isto, a simplesmente da reprodução humana quero dizer, é a questão da humanidade em si. Nem todos os súditos agradam-se de ter como soberanos seres que viram animais, que são guiados por instintos tão primitivos como cios e marcas. Quantas rebeliões ao longos de toda história e em tantos países diferentes, não aconteceram porque algum grupo de humanos rebelaram-se contra os lobos soberanos de sua nação ? Inúmeras delas. — A angústia atormentava sua face, enquanto o alfa explicava sua hipótese. — E por outro lado, há humanos que vem em nós, nos lobos, a única forma possível de liderança. A grande parte deles, para a nossa sorte. Por isso tais rebeliões sempre foram contidas, embora prosseguissem a acontecer esporadicamente. Pensem nessa possibilidade: Se você coloca dois humanos, que porém, possuem sangue lupino e conseguem provar isto, como Jimin é capaz, digam-me, eles não são a chave perfeita para domar os que querem ser regidos por lobos a passarem a aceitar humanos como governantes de modo gradativo ?

 

— Jimin oppa é um meio termo.— Jae atirou exasperada. — Tendo características lupinas e no entanto sendo humano ele pode agradar ambos os lados. Ser o fio condutor no processo de mudança.

 

— Então nós podemos presumir que logo que eles assumirem publicamente suas intenções, ganharão mais apoiadores ? — Um dos anciãos conjecturou com uma nota amarga em sua entonação alta. — Será uma guerra dos apoiadores dos lobos contra os apoiadores dos humanos ?

 

— Possivelmente. — O rei Jisang murmurou, seu olhar estava caído sobre um ponto fixo do mapa. — Contudo, não podemos permitir chegar a isto. Nenhum de nossos reinos suportaria outra guerra como a segunda guerra asiática.

 

— E como evitaremos tal coisa ? — Os lábios de Hwanwoong esticaram-se de forma tensa sobre sua boca quando o beta fez sua inquisição permeada de indignação.

 

— Levando a guerra para o território chinês. — Os olhos do príncipe lobo lampejaram perigosamente e um sorriso sádico ergueu seus lábios. — E fazendo isso rápido, muito rápido.

 

— Explique-se príncipe lobo. — Zhōu exigiu inclinando-se para frente. Evidentemente ansioso.

 

— Veja ao longo da história, os chineses sempre vieram para o nosso território, as guerras sempre foram travadas nas nossas terras, enquanto o reino chinês mantinha-se intacto, prosperado e expandido a ponto de virar um império. Eles perdem vidas, é claro que perdem, mas as nossas perdas sempre são demasiadamente piores. Nossos aldeões, animais e até campos de arroz ficam devastados. E precisamos nos levantar das cinzas. Todas as vezes. Se formos travar batalhas, faremos isso no império deles dessa vez. Os manteremos longe dos nossos povos. E iremos surpreendê-los, por isso temos que agir rápido. Iremos reunir todas as nossas forças militares. Coreia no sul, Coreia do Norte e Japão. E não somente as nossas,convocaremos todos os nossos aliados políticos : Taiwan, Tailândia, Macau, Turquia. Montaremos o maior exército já visto pelos chineses. Por sorte já estamos no melhor ponto estratégico. A Coreia do Norte faz fronteira direta com a China e usaremos a cidade de Dailian para nossa passagem. Podemos...

 

— Perdoe-me alfinha, o discurso estava inspirador... — O lobo rei retalhou o monólogo de Taehyung com acidez, disparado sua indignação. —...Entretanto receio que mesmo que todos os seus planos venham a se concretizar, se conseguirmos unir nossas forças militares e recrutar nossos aliados em uma velocidade descomunal, e antes que as notícias chegassem ao império chinês, ainda assim, seria uma estratégia falha, não sei se recorda-se, porém há uma muralha entre nós e os chineses. A maior muralha do globo. 

 

— Não esqueci-me desde detalhe.

 

— Não creio que seja possível chamar as muralhas da China de detalhe Tae oppa. — Jae disse elevando os olhos cor de mel ao seu alfa de face inexpressiva.

 

— Elas serão dongsaeng. — Prendi a respiração de ansiedade, ao observar Taehyung dar a volta com vagarosidade atrás das cadeiras a frente da mesa. — Porque iremos atraí-los para o lado de fora.

 

— Este alfinha está enlouquecendo. — Meu tio gritou ao ficar de pé, seu movimento brusco e repentino fez com que sua cadeira caísse para trás, ecoando com um pequeno estrondo na sala de reuniões. 

 

  Meu músculos endureceram, a surpresa rugia em sua mente enquanto eu tentava entender aquele último ato de Jisang.

 

 

— Acalme-se. — Harest pediu ao marido com delicadeza. — Por favor acalme-se meu amor.

 

—  Diga-me, como faremos tal coisa ? Pois desde que criaram aquelas muralhas, jamais a deixaram.  E o farão por que deseja ? — A perguntar foi imposta com um tom inocente, entretanto todos nós sentíamos às segundas intenções por trás dela, a armadilha na entoação suave e sorriso falsamente afável. — O quão especial achas que és alfinha ? 

 

— Perdoe a interrupção vossa majestade. — O soldado que cruzou o arco do salão capturando todas as atenções para si apressou-se em proferir ante a uma reverência cordial. — Mas tenho um comunicado urgente. O conselheiro-mor do reino sul-coreano pede autorização para adentrar este concílio.

 

  Kim Seokjin não aguardou a autorização oficial requerida, o beta já estava a cruzar a entrada do lugar com alguns guardas atrás de si.

 

— Não pude deixar de ouvi-lo Tae e espero que esse seu plano não envolva dinheiro ou um exército. — A voz macia e calma proclamou sarcasticamente. Minha respiração cessou por alguns segundos quando coloquei o olhar sob o beta, porque ele fora atraído de imediato para sua barriga redonda e pequena destacada atrás de seu chemise de renda branca. — Não com dinheiro e exército sul-coreano, melhor dizendo.

 

— Jin hyung. — Taehyung, correu, literalmente, rumo ao novo conselheiro-mor do reino da Coreia do sul.— O que fizestes vir até o palácio da Rosas ? O que está ocorrendo em nosso reino ?

 

— Os cofres reais estão falidos Tae, não a uma única moeda nas contas da coroa. Além dos investimentos reais, os dos nobres resistentes da corte, todos foram roubados. As pensões e recursos de emergências destinados a marinha e ao exército também. O fundo de emergência está vazio. E a tantos desvios e ações burocráticas com fundos falsos em nossos bancos que não sou capaz de contar, tão pouco explicar. — O beta soltou a pilha de papéis e pergaminhos entre suas mãos sobre a mesa, espalhando-os na superfície. — São os nossos matemáticos que estão organizando e estudando a situação, nossos contadores e banqueiros, nitidamente, não são confiáveis. A questão é que não há dinheiro para financiar a compra de uma única agulha, quem dirá para promover uma guerra. A coroa sul-coreana está falida. Eu não podia enviar informações dessa magnitude através de uma simples carta, eu mesmo vim ser o portador da desgraça. 

 

   O rosto do alfa pareceu desfigurar-se enquanto ele absorvia a informação e sua reação foi a pior possível.

 

— AQUELE DESGRAÇADO. — O rosnado do príncipe lobo superou o som de seu soco contra a parede atrás de si. E o alfa não parou em apenas um golpe, prosseguiu atacando a parede como se estivesse materializando a face do meio-irmão na mesma. A rachadura cedeu na estrutura no mármore negro e as gotas de sangue dos nós de seus dedos marcaram sua pele. Ninguém, por um tempo que pareceu minutos inteiros, atreveu-se a mover-se, sequer respirar. Assistimos a cena estáticos. Assustados.  — PARK JIMIN SERÁ AMALDIÇOADO POR TODA A ETERNIDADE. EU IREI MANCHAR OS SONHOS DELE COM O MEU SANGUE.

 

  O choro de Jay quebrou o meu transe. A filhote estava encolhendo-se na poltrona, aterrorizada com os esbravejos do alfa sul-coreano. Dongju esticou os braços e pegou a beta no colo, murmurando “está tudo bem Jay-Jay”.

 

 Coloquei-me sobre os pés e andei até Taehyung, lenta e cuidadosamente envolvi minhas mãos em seus braços e comecei a puxá-los com suavidade para trás, enquanto murmurava :

 

— Está tudo bem príncipe, eu estou aqui. —  repeti. — Está tudo bem príncipe, estou aqui. Virei-se para mim, sim ?

 

— Eu sou um tolo, é minha culpa que estamos falidos agora. Eu sou o responsável por isso. Fora que eu pedi, não implorei, para o meu pai dar o cargo de mestres da moedas para Park Jimin. — Atirou as pesadas palavras ao girar os calcanhares, ficando de frente para mim. — Eu desejava que ele sentisse que eu importava-me com ele tanto quanto com minha alcateia. Ele era equivalente para mim. Essa droga de sentimentos e as merdas que eles trazem.

 

— Não culpe-se por sua boa fé. Você não poderia prever isto.  —  proferi calmamente. Eu sabia que minha tentativa de tranquiliza-lo era falha. 

 

— Sobrinho, podemos resolver isso. 

 

— Resolver isto ? Como ? Como eu posso pedir que outras nações lutem em nome do meu reino e ainda financiem a guerra ? — Os olhos do alfa mais jovem arregalaram-se em sua careta cética. — Ou eu terei de arrancar dinheiro do meus súditos, aumentando os impostos e criando taxas absurdas ?

 

— Você não pode fazer isto, essa é justamente a manobra política que colocaria os aldeões imediatamente ao lado de Jimin. — Jae disse desgostosa.

 

— Não dúvido que fora com esta intenção que o lorde Park roubou os cofres reais. —  Sor Dongju comentou, o cavalheiro estava de pé, embalando a beta taiwanesa chorosa nos braços.

 

— Ou para contratar um exército de mercenários. — O lorde Jung completou o argumento do outro por trás dos dentes. 

 

— Vocês devem recrutar os homens saudáveis acima de dezoito anos para unir-se ao seu exército e usar todo o seu estoque de arsenal. — Jisang proclamou. Sua entonação carregava o subtom de uma ordem que deveria ser atendida de imediato.

 

— E deixar meu reino povoado por mulheres, crianças e anciões desprotegidos e sem recursos? Mandar para batalhas homens sem qualquer preparo militar ? Isso é patético. — Taehyung retrucou, atirando os braços para o ar e andando de um lado para o outro. — E gastar vidas como se elas não valessem menos que uma moeda de cobre suja. Eu preciso pensar a longo prazo e não apenas neste momento. 

 

 

— Poupe-me com o discurso humanista alfinha, em uma guerra é matar ou morrer. Kwan não lhe ensinou isso ?

 

— Nossa responsabilidade enquanto líderes é minimizar o número de vítimas, somos responsáveis pelas vidas de nossos súditos. Fora isso que o senhor meu pai ensinou-me. — O príncipe lobo contra argumentou.

 

— Seus súditos.

 

  A tensão aumentava e passava de pessoa para pessoa a mediana que aguardávamos a próxima fala de Taehyung.

 

— O que quer dizer lobo rei ?

 

— Quero dizer que terei de colocar o meu exército na linha de frente em uma guerra que não me concerne, mas porque vocês sul-coreanos estão sempre fodendo com tudo. Kwan não fora capaz de manter o pau dentro das calças e produziu um bastardo e nem tivera a competência de educar o filho sob os princípios corretos. — O lobo rei riu de modo frio, seco e irônico. A risadaria subiu alguns tons, transformado-se em uma gargalhada áspera.

 

 

Eu não compreendi como Taehyung moveu-se com tamanha rapidez, em um instante ele estava diante o extremo direito da mesa e no seguinte estava do outro lado do móvel, apertando a garganta de Jisang entre os pálidos dedos de uma mão, o encurralado contra a parede de mármore atrás de si. O lobo rei era um soldado treinado, que nunca abaixava a retaguarda e um alfa. Se ele estava sendo atacado daquela forma era porque o príncipe lobo estava usando uma força sobrenatural.

 

— Compreendo que estou sob o teto de seu palácio, nos territórios de seu reino e nos domínios de sua soberania, porém se atrever-se a ofender a memória de meu pai ou arrogante, tendenciosa e sarcasticamente chamar-me de alfinha mais uma única vez eu irei lembrá-lo que sou tão lobo quanto sua majestade.— O alfa mais jovem rosnou contra a face do outro, suas presas haviam surgindo e estavam a um centímetro de penetrar e causar um estrago irreversível na pele do monarca. Por um segundo, eu vi um rastro de medo faiscar nos olhos de Jisang, desapareceu tão rápido quanto veio.

 

— Arrisque-se. — O lobo rei rosnou também. Provocando-o intencionalmente. — Mostre-me quantos truques Kwan lhe ensinou alfin.. 

 

  Eu, Hoseok, Seokjin, Jae e Hwanwoong movemo-nos em direção aos alfas uma fração de segundo antes que o rei norte-coreano concluísse sua provocação, nos jogamos para frente na intenção de afastá-los, tentando evitar que aquela discussão se tornasse uma tragédia irreversível. O lorde Jung apertou a mão no ombro do rei norte-coreano, seu chanceler-real rosnou alto e ambos os betas passaram a trocar um olhar desafiador. Não era intencional, eram seus instintos obrigado-os a proteger seus respectivos alfas. A tensão pesou cada molécula de ar. 

 

 Entre todos os rosnados e olhares cortantes, Takashi fora o único a mover-se, o soberano japonês puxou o sobrinho para trás com um movimento solitário e brutal, forçado as mãos na base de sua cintura. Taehyung ameaçou a retornar, mas o alfa mais velho enfiou o corpo como um escudo na frente de Jisang. Hoseok soltou o ombro de meu tio, dando algumas passadas para trás.

 

— O que vocês pensam que estão fazendo ? Huh? Ambos estão agindo como filhotes. Temos uma guerra batendo em nossas portas e suas senhorias querem gastar vossas forças brigando entre si ? O quão estúpidos são ? Compreendo que estamos refém de nossos instintos, contudo sejam sensatos e tentem controlar seus alfas. Sentem-se. Todos vocês sentem-se.— Takashi empurrou o corpo do rei lobo contra a cadeira próxima de Harest quando não foi prontamente obedecido, após guiou de modo violento o mais jovem para seu assento no outro canto da mesa. A alcateia de Taehyung,  o lorde Yeo e eu voltamos silenciosamente para as nossas cadeiras. Jin permaneceu de pé, como estava anteriormente. Senti como se houvesse um fio de aço prendendo os olhares dos betas, pois eles não desviam-os. — Kim Taehyung e Jeon Jisang, precisamos resolver algumas questões sós. A todos os outros peço-lhes perdão. — O rei dos lobos brancos inclinou a cabeça de modo solene. — Declaro que este concílio está provisoriamente em suspensão. A algumas questões a serem esclarecidas... internamente. Possivelmente, retornaremos amanhã no romper da aurora. Avisaremos. Agradeço vossas presenças. Podem retiram-se, por favor. 

 

  Os presentes levantaram obediente e silenciosamente. Ninguém ousou a retrucar, ou questionar as ordens o rei japonês. Estava implícito nas entrelinhas que os três alfas precisavam entrar em comum acordo entre si, antes de liderarem um guerra em conjunto.

 

  Segui o fluxo de pessoas a deixar o salão, embora não antes de lançar um olhar solidário para Taehyung. Sua postura era a personificação da fúria. Meu coração pesou dentro da minha caixa torácica, quando seu olhar chocou com o meu no ar falei-lhe apenas com o mover dos lábios, sem a presença das palavras: “boa sorte”. Um quase esboço de sorriso surgiu como resposta a mim.

 

 Minha intenção era seguir rumo ao meu aposento, mas eu senti dedos finos apertarem fortemente o meu cotovelo e lábios grossos serem postos na base da minha orelha sussurrar:

 

— Sua alteza, acompanhe-me. 

 

— Por que Jin hy...?

 

O conselheiro-mor apertou a mão na minha boca, pausado-me.

 

— A verdadeira razão pela qual estou aqui é falar contigo, não fode com tudo, seja discreto.

 

   Do lado de fora do salão, Seokjin arrastou-me na direção contrária as pessoas no corredor.

 

—  O você você deseja comigo Jin hyung ? — indaguei sob a respiração, porém não obtive réplica. Insisti uma outra vez : — Diga-me hyung o que você deseja comigo ?

 

   O beta parou abruptamente, quando estávamos isolados em um ponto do longo corredor, ele empurrou meu corpo na parede e pronunciou com firmeza:

 

— Desejo que salve-nos da destruição.

 

O que? Eu ? Como eu faria tal coisa ?

 

— Aliando-se ao lorde Park. 

 

 

 

 

 


Notas Finais


Vocês recordam-se da árvore genealógica que eu disse que iria fazer ? Acontece que não é tão fácil quanto eu pensei que séria, mas eu estou me organizando para fazer. Em algum momento ela sai.

Irei pedir desculpas outra vez pela péssima edição desse capítulo é que eu estava mesmo muito ansiosa para postar. Irei voltar aqui e editá-lo nos próximos dias.


Playlists da fanfic :

Playlist Taekook : https://open.spotify.com/playlist/45kLjfPhJ6yzuxBLw0LfFd?si=rxuYA82lTOyEjnfLWbInrA

Playlist instrumental : https://open.spotify.com/playlist/19Ypac2WQmlHHFmQcZNeYV?si=ObgfeQBoQZesjRdd0V593A


Bora interagir ❤️😈
https://twitter.com/SayraSantos_?s=09 @SayraSantos_

Beijinhos, até o próximo.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...