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História O universo que habita em nós - Capítulo 13


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Notas do Autor


Obrigada por acompanharem até aqui! Tenham uma boa leitura!

Capítulo 13 - Você se lembrará de mim quando eu partir?


Quanto eu tinha dez anos, minha professora da quinta série nos pediu para fazer uma redação sobre como nos imaginávamos daqui quarenta anos. 

Eu nunca consegui fazer aquela redação. Passei a semana inteira pensando e pensando. Mas meu cérebro simplesmente ficava totalmente branco quando eu tentava me imaginar aos cinquenta anos. 

Acho que, mesmo naquela época, ele já estava tentando me dizer: “quem disse que eu vou te deixar viver até os cinquenta anos?”

Dezembro

Eu passei em todas as sete matérias com notas boas, já que tinha me dedicado somente à faculdade naquele período. Quando abriu o edital para monitoria, vi que o professor de Contemporânea I estava entre na lista. Como eu sabia que seria a única a me arriscar a ser monitora dele, resolvi me inscrever. 

— Pibic e monitoria com o demônio. — Suigetsu ficou boquiaberto quando soube. — Fazer o quê né? Já é um treinamento pra quando você estiver no inferno daqui uns tempos. 

Eu fiz os exames novamente, para checar se tinha um novo tumor. 

Na segunda semana do mês, nos mudamos para a casa nova. Sasuke resolveu inaugurar tudo com uma pizza gigante de 32 fatias e muita pepsi. 

Na terceira semana, a mãe dele já estava pronta para se mudar, e nós decidimos ajudá-la. 

Quando vi o casarão amarelo no fim da estrada, fiquei imensamente feliz por estar de volta. 

— Ainda tá viva! — Itachi correu para me abraçar quando saímos do carro. — Ah, oi Sasuke. 

— Também senti saudade. — Sasuke retrucou. 

— Eu sempre quis ter uma menina como a Sakura, mas a única coisa que ganhei foram essas duas antas. — a mãe de Sasuke disse para Tsunade, meia hora mais tarde, quando estávamos todos comendo na cozinha.

— Poxa, mãe. — Itachi fingiu estar ofendido. — Tanto tempo sem me ver e é isso que a senhora fala?

— Você está vencendo um câncer por acaso? — ela respondeu categórica. — Desculpa, meu filho, mas você sempre foi um chorão. 

— Ei, eu sou muito forte sim. 

— Você não tem culhão nem pra enfrentar um gripe. — Naruto se meteu.  — Fica lá no quarto, choramingando pra Tsunade fazer os remédios dela. 

— Ei, Naruto. — chamei a atenção dele. — Você topa ser meu companheiro de festa no ano que vem?

— Como assim? — ele se animou logo. 

— Eu nunca fui para Parintins ver o festival dos bois. Vocês topam ir comigo no ano que vem?

Eu não podia morrer antes de ver aquela festa. Não depois de ter ido até ali, visto quão lindo e maravilhoso e perfeito e encantador era o meu próprio estado. Eu queria conhecer tudo que ele tinha a oferecer antes de morrer. 

— Com toda certeza do mundo! Quero te ver chorar quando o Garantido ganhar no ano que vem. — Naruto anunciou e ele e os outros meninos se animaram logo para a viagem no próximo ano.

Era muito bom estar de volta. 

Sasuke estava triste, embora não demonstrasse. Seria difícil ficar sem a mãe. Tentei ser o mais compreensiva possível, embora não conhecesse essa sensação. Nunca fui apegada em nenhum dos meus pais, então ficar sem eles não me baqueou tanto.  

No fim da tarde, enquanto estávamos nos balançando no pneu, alguns jacarés passaram nadando devagar embaixo de nós, seguindo a correnteza rio abaixo. 

— Novo tumor à vista. — falei enquanto observava dois filhotinhos dando o máximo que podiam para nadar ao lado da mãe, já que ela era muito maior e não precisava se esforçar tanto para ser rápida. Mas eles queriam acompanhá-la. 

— Mesmo lugar? — Sasuke perguntou. Não olhei pra ele. Não queria ver sua expressão preocupada. 

— É, mesmo lugar. Mas é pequeno, não vai fazer muito estrago por enquanto. O médico quer esperar um pouco. Caso ele aumente, a gente volta com a radioterapia. Ou talvez quimioterapia, dessa vez.

Olhei pra ele. Estava olhando pra baixo, observando os bichos nadando abaixo de nós. Talvez nem notassem que estávamos ali. 

— Passei minha infância inteira desejando que meu pai morresse. — ele falou, ainda sem conseguir me olhar. Daquele jeito sério, calmo. Passivo como um budista. Como sempre. — Toda manhã, quando ele saía de casa, eu rezava em silêncio pra ele tomar um tiro bem na cabeça e nunca mais voltar. 

O último jacaré passou abaixo de nós. Devagar, tranquilo, seguindo o grupo. 

Eu sabia onde ele queria chegar. Lei da ação e reação. 

— Não é sua culpa eu estar morrendo. 

— Sei que não. Mas o karma fez eu me apaixonar por alguém que vai morrer justamente do mesmo mal que desejei para outra pessoa. 

Ele finalmente me encarou. Os olhos brilhavam pelas lágrimas não derramadas. 

Desencaixei minhas pernas das dele e me deixei cair para trás. Mergulhei de costas na água escura, onde apenas dez segundos antes, um jacaré de três metros estivera nadando. 

Imersa na água fria, de olhos fechados, escutei perfeitamente a voz do meu médico, me dizendo que nunca mais seria normal. Que sempre haveria um novo tumor, e que sempre precisaríamos tratá-lo. 

— Quanto tempo? — perguntei serenamente.

As possibilidades eram muitas. Talvez um dia, surgiria um tumor que não fosse afetado pela radioterapia, nem quimioterapia, e que talvez nem pudesse ser removido por cirurgia. Talvez fossem surgindo vários tumores que pudessem desaparecer, mas que o tratamento aos poucos ia me matar. Talvez eu tivesse uma convulsão — efeito colateral de quem tem um problema no cérebro, coisa normal — e não chegasse a tempo no hospital. 

— Sendo bem realista? — meu médico pensou um pouco antes de responder. — Sinceramente, você pode morrer amanhã. Pode morrer no ano que vem. É impossível saber. Mas de uma coisa eu tenho certeza: você com certeza não chega aos cinquenta anos. 

Quando voltei a superfície, Sasuke me olhava apavorado. Talvez com medo de que os jacarés voltassem com a movimentação repentina na água. Mas eles não voltaram. Foi como se soubessem. 

— Eu te amo. — falei enquanto as nuvens do céu lá em cima se moviam devagar, naquele fim de tarde ensolarado. 

Sasuke ficou me olhando. 

Podíamos escutar as vozes dos meninos ao longe, enquanto recolhiam os restos de uma árvore caída ali perto. 

— Não me deixe sozinho. — ele pediu baixinho. — Por favor. Por favor. Não vou aguentar ficar parado enquanto você vai embora aos poucos. 

— Sinto muito. — fiquei ali boiando na água enquanto observava as copas verdes das árvores acima de nós. — Sinto muito mesmo. 

Não havia nada que ele pudesse fazer. Só podia assistir. 

Às vezes, eu queria muito que ele fosse embora. Não queria que ele me assistisse enquanto eu morria em silêncio, sem nem notar que já estava indo embora.

Mas ele nunca ia. Ele nunca se afastava. Muito pelo contrário. 

Ele ficaria até o último minuto. Seguraria minha mão até o último segundo antes do caixão ser abaixado. 

Moleque idiota e teimoso. 

A mãe dele tinha razão. Sempre foi idiota e teimoso. 

Final de dezembro

Era estranho voltar para casa e ter alguém me esperando. Meu irmão. Minha melhor amiga. Meu namorado. Era estranho não ser só mais eu e meu gato. 

Mas acabei me acostumando. 

Sasuke sempre levantava primeiro que todo mundo e deixava o café pronto. Meditava duas horas seguidas no quarto. Tenten saía para trabalhar. Nashiro dormia até tarde, já que eram férias. Eu levantava às oito, pegava uma caneca e colocava café, e aí ia escrever. 

No Natal, fomos para a casa dos familiares de Sasuke, onde eu era mais do que bem-vinda. Os primos dele, que eram todos pequenos ainda, gostavam mais de mim do que dele, aliás. Talvez fosse o cabelo colorido, ou porque eu fosse tão fã de animações quanto eles, então podíamos ficar horas conversando sobre desenhos animados. 

O primo dele tocou Noite Feliz em seu teclado. O prodígio musical da família. 

Suas primas me mostraram os primeiros celulares, que ganharam em seus aniversários de doze e onze anos. Fui a pessoa que ganhou mais presentes quando deu meia-noite.

Passamos o ano novo no meu barco. Meu pai me ensinou a dirigir. Era muito fácil do que dirigir um carro, a propósito. Convenci a mim mesma de que passearia todo fim de semana com ele. 

Enquanto Sasuke, meu pai e alguns de nossos amigos estavam tomando vinho e jogavam cartas, Nashiro e eu nos deitamos no teto e ficamos encarando o céu escuro, enquanto esperávamos a virada. O barco balançava levemente já que a água estava tranquila. 

Nashiro suspirou antes de começar a falar. 

— O papai vai embora depois de amanhã. Vamos ser só você e eu por um tempo. 

— Surpreendente. — respondi sem entusiasmo algum.

Não é como se eu não esperasse por isso. Meu pai ficou aqueles meses todos cuidando de mim, cuidando do meu irmão. Lidando com um câncer. Lidando com seus sentimentos. Lidando com os nossos sentimentos. 

Estava mais que na hora dele sumir de novo. Ir fazer um mochilão na Índia ou coisa assim. Ele tinha que voltar a ser ele mesmo, afinal. Voltar com seus hábitos exóticos.

Ele tinha que ficar sozinho consigo mesmo novamente. Parar de pensar em nós. Não pensar em nada. Ficar sozinho com a natureza. 

Era isso que ele era. Um cara que desaparecia por meses e voltava como se nada tivesse acontecido. 

Ele precisava disso assim como todos nós. Sumir. Recuperar suas forças. Recarregar suas energias. 

— É difícil pra ele. — Nashiro continuou. — Não deve ser fácil acordar todo dia sabendo que vai enterrar os próprios filhos. Não dizem que essa é a pior coisa que pode acontecer na vida dos pais? 

Não precisei encarar Nashiro para saber do que ele falava. 

A estimativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos. 

Na pior das hipóteses, talvez Nashiro morresse antes de mim. 

Ficamos ali, encarando estrelas que já estavam mortas há muito tempo, afinal, aquelas luzes brancas no céu escuro eram apenas reflexos de estrelas que já haviam explodido há milhares de anos atrás, e que suas luzes continuavam viajando pela galáxia. 

À meia noite, todos nós comemoramos enquanto observávamos os fogos de artifício que coloriram o céu. As praias urbanas lá perto estavam lotadas e faziam barulho. Mesmo distantes, podíamos escutar a gritaria e a música. 

— Feliz ano novo! — abracei todo mundo que estava ali, e quando parei em frente ao meu pai, observei-o de perfil.

Quieto, segurando uma taça de vinho enquanto observava tranquilamente os fogos no céu.

E pela primeira vez em dezenove anos, eu o abracei. 

— Feliz ano novo, pai. 

Janeiro

Diários. Eu voltei a escrever diários. 

Desde janeiro daquele ano até os dias atuais, para que eu não esquecesse absolutamente nada. O tratamento iria deixar minha cabeça pior com o passar do tempo, então eu precisava me apegar a qualquer recurso que me fizesse ficar sã. 

Às vezes, eu me concentrava apenas nas minhas fanfics, entrando naqueles universos únicos onde meu câncer não existia. Onde eu não existia. Era apenas a escritora. 

Eu era boa nisso. Em criar universos. Universos diferentes do meu universo. 

Certa vez, conheci uma bruxa que morava num casarão amarelo no fim de uma estrada de terra. Ela me ensinou muitas coisas. Entre elas, disse que existia um universo dentro de cada pessoa. E que os universos sempre entravam em contato com outros universos, quando pessoas se relacionavam com outras pessoas. 

Não só relações físicas. Emocionais. Virtuais. 

Todo dia, universos inteiros eram criados. Universos se expandiam. Universos explodiam e morriam. E meu universo explodiria e acabaria a qualquer momento. 

Eu criava universos em formas de estórias, de fanfics. Eu os compartilhava com outras pessoas. Alguns deles paravam de crescer quando eu marcava a opção de “história finalizada”, e eles não morriam. Ficariam lá para sempre. Mesmo que um dia fossem excluídos, existiriam na memória das pessoas que os leram por muito tempo. 

E graças a isso, uma parte minha viveria no universo de outras pessoas, em suas memórias, e talvez em seus corações. 

Quando eu explodisse, talvez essas pessoas não notassem de imediato. Talvez apenas se perguntassem o porquê de eu ter parado de atualizar e postar novas estórias. Talvez fossem nas minhas redes sociais perguntar se estava tudo bem, e os mais positivos tentariam se convencer de que estava tudo bem, que eu apenas deixara aquele mundo ficcional de lado e estava me dedicando a outras coisas. 

No caso de Sasuke, eu sabia, bem lá no fundo, que quando meu universo explodisse, parte do universo dele explodiria junto. Ficaria destruído, escuro. Mas tenho certeza de que ele se recuperaria. Ele já tinha se recuperado de coisas bem piores. 

Nós nos conhecemos numa festa, enquanto tocava “Don’t you forget about me”, música tema do filme O clube dos cinco. Basicamente, a letra é um pedido.

Não se esqueça de mim… quando eu for embora. 

A música que tocava quando nos conhecemos. 

A música perfeita para nos definir. 

Toda noite, antes de dormir, Sasuke entra no meu quarto e fala baixinho perto do meu ouvido:

— Promete que vamos nos ver amanhã? 

— Prometo. — eu sempre sussurro de volta. 

E sempre que eu acordo, fico feliz por ainda estar viva. Por não ter tido uma convulsão durante a noite. 

Mas eu sei, e Sasuke também sabe, que um dia eu vou quebrar essa promessa. Um dia, não vou acordar. 

E sempre que ele entra no meu quarto de manhã, ele dá um sorriso muito mais brilhante que o sol. Ele sorri por ver que ainda não fui embora. 

É estranho dizer que tudo se tornou muito mais intenso?

Eu fico feliz por qualquer coisa. 

Fico feliz por todas as xícaras de café, por todos os banhos frios, pela chuva caindo lá fora. Pelos miados do meu gato, as risadas que dou quando minha melhor amiga conta sobre seu dia e até quando meu irmão fica feliz pelo sorvete de flocos que Sasuke traz quando volta do supermercado. 

Fico feliz quando meus amigos me marcam em memes, quando recebo comentários nas minhas fics e quando meus vizinhos gritam e comemoraram pela vitória de seu time de futebol. 

Toda manhã, tomo uma xícara de café numa das minhas queridas canecas de porcelana. Cada uma é maravilhosa.

Cada uma pode ser a última. 

Dezenove anos parece ser muito pouco. E eu espero fazer vinte logo. Espero chegar aos vinte. Aos vinte e um, vinte e dois, vinte e cinco, trinta, quarenta.

Quero ver meu irmão se formar e entrar na faculdade. Quero ver quando o paspalho do namorado da minha melhor amiga tomar vergonha na cara e pedi-la em casamento. Quero ver Sasuke conseguir seus dois diplomas das faculdades que faz. Quero ver meu gato fazer seu décimo aniversário, embora ele ainda não tenha nem metade disso. 

Quero meu próprio diploma e quero ter meus próprios alunos um dia. Quero visitar Tsunade, e Naruto, e Itachi, e Ino, e Temari. Em todas as minhas férias. Em todos os fins de semana. Sempre que puder. Quero sentir o cheiro de incenso, me balançar naquele pneu e boiar nas águas negras. 

Quero andar por aquela estrada de terra, em direção ao casarão amarelo, e ver o pôr-do-sol todos os dias. 

Quero que a Deusa me dê mais tempo. 

Eu quero segurar a mão de Sasuke todo dia, antes de dormir, e torcer para não partir durante a madrugada. 

É como a nossa música.

Será que ele vai chamar o meu nome… quando eu for embora?

Espero que sim. 

Enquanto isso, cada xícara de café continua sendo maravilhosa. 

Cada banho frio continua sendo perfeito. 

Cada risada continua sendo contagiante. 

Fico imensamente feliz por fazer parte do universo dele. Fico imensamente feliz por fazer parte do universo de cada pessoa que me conhece. Diretamente. Ou indiretamente. 

Eu crio estórias que fazem as pessoas rirem e chorarem. Estórias que às vezes são lidas só para sair do tédio. Mas são estórias que são lidas, e fico muito feliz por serem lidas. 

Graças a elas, faço parte do universo de dezenas de pessoas. Sou apenas uma parte pequena, uma parte que serve apenas para entreter de vez em quando. Mas ainda, sou uma parte. 

Uma bruxa sempre me diz que faço o sobrinho-neto dela feliz. E ela me ama por isso. E me ama por ser exatamente quem eu sou.

Ao sobrinho-neto dela, deixo apenas uma mensagem:

Não esqueça de mim. 


Notas Finais


Dedico esses treze capítulos, que contêm minhas memórias e pensamentos dos últimos meses, para a bruxa que mora no fim da estrada. Você me disse que minha história valia a pena de ser contada, tanto quanto qualquer outra. Muitas coisas não foram ditas, mas acho que o que foi dito foi suficiente para saberem quem eu sou. Obrigada pelo café e pelos biscoitos amanteigados, estavam maravilhosos, assim como todo o resto.


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