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História O Urso - Capítulo 2


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Notas do Autor


Perdoem os erros de escrita e tudo mais, são tempos difíceis. Pretendo fazer capítulos bem grandes, pra compensar a possível falta de conteúdo. Espero que gostem.

Capítulo 2 - Primavera


"É primavera, já?", o urso pensou, respirando fundo.

O ar dentro da sua caverna era denso. Frio. Pesado. Um ar que tinha sido respirado por seis meses, de novo e de novo. Um ar que trazia o musgo e a madeira recém-descongelada, que fedia a folhas, molhadas pelo degelo.

"É primavera já." Ele tentou se levantar. "Finalmente a primavera."

A primavera indicava o final da hibernação, o final do sono lento e congelado que todos os anos durava meses e meses. Agora o mundo voltava à vida e, com ele, o urso.

Seus músculos estavam rígidos, congelados pelo sono longo, pesados pelo acúmulo de gordura. Suas garras arranharam a terra úmida e a pedra abaixo dela, exercitando juntas e articulações tensas.

"Fome. Sede. Tenho que sair," ele pensou, dando alguns passos para fora. O dia mal havia nascido. Mas a natureza não espera ninguém. Nem reis.

Sua memória ia voltando, conforme ele rondava seu território. As coisas pareciam diferentes, sua floresta estava mais viva. Ele conseguia ouvir animais se esgueirando pelo mato, com certeza alertas aos seus movimentos. "Ótimo," ele fungou, "ainda sou o rei."


Alguns passos à frente, uma árvore espessa e velha se erguia, velhas marcas de garras escondidas sob camadas finas de plantas em seu tronco. O urso ergueu-se sobre as patas traseiras, três metros acima do chão, rasgando a casca dura sob suas garras.

O frio ainda impregnava o solo e o ar, sua respiração fazia nuvens de vapor em frente ao seu focinho. Sua garganta começava a sentir o peso de meses e meses sem água. "O rio, eu lembro aonde ele fica. Vou até lá."

Descendo a colina à frente de sua caverna, um riacho se estendia e serpenteava por entre o mato verde e preto. Não haviam peixes ali, disso no urso sabia, mas a água era sempre fresca e sempre abundante. As presas já haviam aprendido a não ficar perto do riacho por muito tempo, não, isso era uma péssima ideia. O riacho era do urso, e só dele.

Há tempos não havia nenhum outro predador nessa floresta, pelo menos não em nenhum lugar próximo ao urso. Ele sabia disso, pois os predadores haviam morrido sob suas patas e entre seus dentes. Ele não se lembrava mais de quantos haviam sido, quantas mortes havia causado, mas ele sabia que eram muitas. Alguns ossos ainda dormiam por entre as raízes das árvores, ele os deixara ali.

O último dos predadores que havia tentado destroná-lo fora um urso menor, um dos seus. "Não, não um dos meus," ele roncou, "os meus nunca seriam fracos."

A água era fria, quase congelada ainda, mas servia bem ao corpo semiconsciente e à mente que cedia aos devaneios da nova lucidez. Levaria pouco tempo até que o urso voltasse ao seu estado natural, mas isso sempre acontecia. Enquanto isso, sua mente ainda estava sujeita aos fantasmas antigos.

Os anos passados sob a reclusão da floresta o tinham servido bem, até certo ponto. As poucas vezes em que tinha disputado seu trono com outros dentes e com outras garras, ele sempre saíra vitorioso. Como não sairia? Ele era o maior. Ele era o mais forte. E ele era o único.

Sua mente já não era mais como antes, nem seus sentidos tão afiados quanto suas garras já foram. Ele ainda era o maior. Ainda o mais forte. Mas por quanto tempo? Até quando sua coroa seria sua e somente sua? Até quando sua floresta, seu trono de grama e madeira e sangue e ossos, seria seu?

Irritado, ele balançou sua cabeça, tentando afastar seus monstros.

"Eu sou o monstro," ele afirmou. "Eu, e só eu. Nada aqui pode me ameaçar, nenhum desses pequenos dentes pode me furar, e nenhum desses rugidos baixos vão me fazer correr." Como se tentasse provar isso, ele arqueou sua cabeça e rugiu. Rugiu o mais alto e mais forte rugido já ouvido por aqueles lados. Rugiu não só para seus "inimigos", não só para os pássaros e suas asas a bater-bater, não só para os vermes e rastejantes que mal sujaram seus dentes. Rugiu para si, rugiu também para seu próprio descontentamento e para seu próprio ódio. Rugiu para provar a si mesmo quem era o rei. Rugiu até não ter mais ar.

"Maldição," ele se pôs a andar, "não há nada aqui que possa me ouvir, que possa me responder." O ódio subia em si mais uma vez, como um bando de corvos negros, tornando o céu tão negro quanto suas asas. Fúria sem sentido e ódio sem alvo eram grandes partes de seus dias, ele se lembrava.

O urso partiu uma árvore, naquela manhã. Não por precisar, mas nem por acidente. Ele fugiu e bateu com suas patas e empurrou até o tronco velho e imponente ceder. E cedeu. Tudo cedia à sua raiva. Tudo quebrava debaixo de suas patas. Tudo morria. Menos ele. Não, não ele. Ele era eterno.

-*-*-*-

Era tarde já, o sol começava a esquentar seu couro e a secar o orvalho e as plantas começava a amolecer. Sua fome já havia chegado ao limite, mas sua raiva havia custado caro. Todos os pequenos animais e vermes e pássaros fugiram há muito, graças às árvores quebradas e aos rugidos ensurdecedores. Hoje o urso teria de se satisfazer com frutas e plantas, além do que sobrara de gordura acumulada no sono longo e fundo. 

"Maldito seja, ódio. Me privas de minha paz, e agora me privas de minha comida." Ele rosnou enquanto arrancava arbustos cheios de frutas vermelhas e roxas e pequenas e grandes. "Maldito seja, urso. Não podes nem se controlar, mereces a isolação e a fome."

Algumas horas mais tarde, após andar e beber e andar e comer, o urso sentiu algo estranho no ar. Cheiro de suor. Cheiro de pelos molhados. Cheiro de presa. O sol começava a perder brilho,  e a floresta aos poucos mergulhava em um verde escuro e frio. Ele sabia que isso era bom. Sabia que assim os pequenos animais e presas não o veriam chegando.

Seguiu o cheiro de presa até um pequeno vale, andando e andando para longe de sua toca. As árvores ficavam menores e mais finas ali, e ele sabia que isso significava que estava longe. Longe o suficiente para encontrar animais que não estariam alertas...

O urso esperava um animal pequeno, com sorte um filhote de animal grande. Ele esperava uma presa fácil, esperava uma refeição rasa. Ele não esperava um animal grande adulto, com chifres e cascos e pelos molhados, descansando sob uma árvore em forma de espinho.

Sua presa não o via, e o urso precisava agir antes que ela o farejasse. Encostando-se o máximo possível ao chão, ele andou. E andou. E andou. Cada vez mais perto, ele podia sentir o gostem da respiração do animal de chifres e cascos. Sentindo sua raiva tomar conta de si, como sempre sentia, deixou-se levar pelo impulso quente e vermelho como fogo-maldito. Pulou e rugiu, dentes e garras em direção à presa.

Ele já havia feito isso antes. Já havia matado centenas, talvez milhares de animais grandes, animais pequenos, vermes e predadores. Ele sabia o que fazer.

Seus dentes se fecharam contra o pescoço, segurando com toda a força o animal e prendendo-o contra o chão, seu peso servindo a seu favor. Um puxão, foi só o que precisou para o pescoço quebrar. O animal de chifres e cascos estremeceu, ficando mole e morto embaixo do urso. Seus ossos cederam. Tudo cedia à sua raiva. Tudo morria. Menos ele. Ele era eterno.


Notas Finais


Bom, por enquanto é só isso mesmo. Se tiverem algo a comentar, sintam-se à vontade e lembrem-se: paz.


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