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História O Vampiro de Trieste - Capítulo 53


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Capítulo 53 - Bom demais pra ser verdade - parte 1


Fanfic / Fanfiction O Vampiro de Trieste - Capítulo 53 - Bom demais pra ser verdade - parte 1

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I

Já estava vendo que teria pouca flexibilidade, pensou vendo o plano para o assalto à aduana. Os demais já estavam com o frete preparado para esvaziar o depósito, a sua parte seria simples, segundo eles, só dar um jeito nas câmeras, possíveis seguranças na parte administrativa, e alterar o sistema de apreensões, para que não tivessem condições de saber quanto de coisas tinha desaparecido do depósito. 

De fato, como isso não tinha ido parar na imprensa, não tinham backup do que exatamente deveriam procurar, e isso lhes daria tempo suficiente para resolver tudo. Mas, esperavam como que ela em 15 minutos depois de ter bloqueado as câmeras conseguisse dar conta de alterar os registros, lidar com possíveis turnos de alguma segurança no administrativo, e ainda controlar se tinha qualquer registro em papel do que estavam re-roubando?

Não sabia, mas tinha saído de casa apressada com o que poderia de equipamento eletrônico, esperando que bastasse, sem saber exatamente que sistema encontraria. No pior dos casos, teria que criar uma pane geral no sistema elétrico das docas, o que chamaria bastante a atenção, e era desaconselhado por Constantina. Se a mercadoria fosse bloqueada antes do destino, teria um pagamento zero. Não tinha interesse nisso, exatamente, mas de fato, por todo esse transtorno, era bem vindo.

Jean-Pierre a olhou de cima a baixo e não teve tempo de pedir onde ela ia e nem porque estava juntando o equipamento. Depois que chegou no carro, ergueu o estofado do banco traseiro e conferiu o que poderia ser útil para entrar naquele lugar, além de estar com uma roupa escura e que lhe permitisse se mexer e não ser notada, com o que podia contar se tivesse que atirar em alguém. E esperava que não, porque isso seria cagar com a ideia de fazer isso “sem serem notados”.

Sabia que Jean-Pierre a viu fazendo isso pela janelinha lateral, o carro estava estacionado do lado da casa praticamente, enfurnado entre pedras e vasos de flores. Saiu dali com a certeza de que não seria seguida por ninguém, era somente uma moradora. Mas seu trajeto pela cidade seria registrado pelas câmeras da segurança normal de ruas e trânsito. 

Não é como se o governo não soubesse onde você estava a cada segundo da sua vida. Se podia dizer que a ideia de “privacy” era uma mentira. Exatamente por ter que consentir com algumas coisas ou negar, significava que tudo aquilo que não era negado, em teoria, poderiam vigiar até que você se desse conta de que era assim. 

 

Eram prisioneiros do sistema, e nem mesmo tinham se dado conta disso. Todos eram controlados, tudo era vigiado. Esse é um mundo de escravos sem via para fugir. E isso é assustador.

 

Esse era o pensamento de Aleksander quando começou a entender como funcionavam as coisas aqui nesse século. Sentia isso ecoando no fundo da sua mente. Tinha razão, mas se o dissesse há algum tempo, ela o refutaria com qualquer argumento certinho do mundo moderno e não lhe daria atenção. De certa maneira, eram cegos para muita coisa nesses tempos modernos, mas agora entendia melhor os motivos. Se não conhecia nada diferente para comparar, como poderia reclamar de algo? Como poderia achar que aquilo não deveria ser normal?

Era melhor que não se perdesse nesses pensamentos. Parou o carro dentro de uma garagem pública e pagou o estorquímetro pela noite inteira. Era próximo de uma danceteria, que parecia estar aberta, mas na verdade tinha qualquer outra coisa dentro, em uma metragem de telhado que parecia gigante, e uma real capacidade de pessoas minúscula. Girando ali para uma porta lateral, se podia ver o que tinha no restante do prédio fechado. Não era uma discoteca, nem parecia um galpão velho com coisas de um ex-proprietário abandonadas. 

- Boa noite - disse um rapazinho sorrindo ao vê-la, loiro e magro, que lhe parecia familiar, com um sotaque russo pesado - Eu sou Dmitri, esperava uma cara conhecida hoje, mas não imaginava a senhora.

- Senhorita, se quiser, pelo amor de deus - disse ela respondendo em russo, parecia que era uma dificuldade para ele falar em italiano, e meteu-se dentro da caminhonete escura jogando sua mochila de tranqueiras nos bancos da cabine estendida atrás de si - Não sei quem estava esperando, mas hoje terá que se virar com a minha ajuda. Me chamo Karolina. 

- Eu achei que não a veria de novo, depois que Aleksander disse à Dra. Constantina de não procurá-lo mais. - resmungou ele um tanto incomodado enquanto preparava-se para dar a partida, vendo o celular que confirmava a partida dos demais participantes no horário previsto. - eu digo… Você parecia ser…

- Diga… - disse ela rindo enquanto carregava mais pentes reserva para deixar à disposição das mãos e o acompanhava com os olhos a manobrar o carro - Pensava que eu era “normal” e nunca me envolveria com esse tipo de negócio. Certo?

- Sim - disse ele suspirando - Aleksander era uma ótima pessoa para quem é jovem aqui, você vê que só tem gente mais velha ao redor... E ele tinha senso de humor, diferente daqueles caras… Disse apontando para fora enquanto saíam, e dois homens mais velhos fechavam o velho portão de metal da parte traseira do galpão.

- Ter senso de humor sabendo que o seu trabalho é essencialmente assassinar gente, é um pouco doentio. - resmungou Karolina pensando consigo mesma que não era diferente do que provavelmente lhe aconteceria se continuasse a se envolver em situações assim. Se metendo nisso por conta e risco, isso não era mais legítima defesa, de forma alguma, era só assassinato, não tinha outro nome, era crime - Mas, isso existe. Não vou pedir porque você está nessa, só, tente sair disso vivo se quiser ter uma vida normal um dia. 

- Eu estive sempre nesse meio, isso é o normal pra mim. - disse ele tranquilo, guiando por caminhos que ela achava francamente que a largura daquele carro não deveria passar, mas estava indo muito bem para ruelas estreitas e escuras - Se eu saísse do negócio da família, o que acha que eu saberia fazer de “normal”? Vi isso desde pequeno.

- Eu nunca pensei que estaria tendo uma conversa dessas, ou me metendo nesse tipo de coisas - resmungou ela para si mesma - mas tudo é possível. Creia-me, não existe o que uma pessoa não possa aprender a lidar nessa vida. Isso é parte de ser humano, eu acho.

- Não se preocupe se realmente é novata como diz, “técnica” - disse ele sinalizando com a testa o equipamento que ela trazia consigo - eu estarei ali para te ajudar na parte da vigilância. Os outros é que vão fazer a parte difícil quando dermos o ok.

- Obrigado - disse ela assegurando-se de estar bem armada, mas com o silenciador a disposição - Espero que não precisemos de nada drástico do nosso lado.

- Constantina te disse que isso seria discreto? - perguntou ele vendo a afirmativa se formando no rosto dela - Olha, eu tenho certeza que lá embaixo na doca vai dar merda, temos que bloquear o sistema onde for possível e escapar antes de sermos pegos. Essa é a minha opinião. Esse tipo de operação nem mesmo deveria ser feita, deveriamos só importar mais dessa merda e enviar ao cliente e voilà. Mas, veja onde estamos…

- Constantina disse que o outro carregamento não pode ir desfalcado para o Brasil. Disse Karolina sem dar muita importância à informação, enquanto via os arredores e decidia por onde era mais seguro entrar.

- Bobagem - disse ele bufando - estamos colocando o nosso pescoço a prêmio para não “desfalcar” um carregamento que vai para um bando de criminosos de baixo escalão em qualquer buraco do tráfico de drogas. O que importa pra eles realmente se falta qualquer coisa no suprimento? Eles têm gente de sobra para substituir as baixas.

O nosso pescoço a prêmio… Expressão maldita, pensava ela. A sua percepção não lhe dava muitas boas opções como ponto de entrada, tudo tinha câmeras ali. Mas tinha provavelmente uma opção mais louca, se quisesse realmente evitar que a operação se tornasse, como disse Dmitri, uma panacéia caótica com perseguição e prisões ou mortes no caminho.

- Espere - disse ela sinalizando para que ele continuasse dirigindo - vamos mudar um pouco as coisas. 

- Não temos tempo para mudar muito as coisas, desculpe, mas dependemos dos outros. Disse ele resmungando e virando para girar o quarteirão, e isso já pareceria suspeito.

- Pare - disse ela no meio da outra quadra, de comércios fechados, e um pouco desolada pela falta de gente circulando e pouca luz. - Isso não será um problema, mas uma solução… Disse esfregando as mãos e pegando sua mochila. 

- O que pensa em fazer? Disse ele puxando o capuz para sair do carro com ela sem serem vistos pela vigilância de vídeo privada ao redor. 

- Escute com atenção o que eu vou dizer - começou ela abrindo um armário de conexão de linhas telefônicas, e arrebentando a parte inferior, para chegar ao fundo de outros fios que ele desconhecia que estavam ali, iniciando um procedimento que ele não entendia bulhufas - Ali dentro tem 5 pessoas fazendo a segurança do administrativo, uma atrás da recepção, se preparando para pegar café, uma atenta perto da terceira janela onde a luz falha, outra subindo as escadas para o segundo andar. No segundo andar tem uma pessoa dentro da sala de comando das câmeras dormindo, um na sala da vice-direção trabalhando até depois do horário, desarmado, e um outro da segurança circulando o corredor. Ela descrevia isso para ele enquanto fazia uma sequência de conexões com as velhas câmeras eliminando a presença deles e dos demais carros nas vias adjacentes, metendo imagens repetidas por todo o seu percurso. 

- E o que você está fazendo agora exatamente para saber disso? Pediu ele sem saber se podia confiar na informação que ela passava, não parecia algo que descobriria controlando a internet do prédio, nem mesmo as lâmpadas lhe dariam essa informação. 

- Agora, eu estava eliminando a nossa presença nas ruas da cidade. Ninguém saiu da garagem hoje. E se sairmos daqui no horário certo, não seremos notados até sair da cidade. - explicou ela recolhendo as coisas e sinalizando para deixar o carro ali. - Agora, vamos ter que fazer o mesmo com a conexão interna do prédio. Você sabe o que fazer com as pessoas no caminho?

- Geralmente se estivesse com Aleksander eu simplesmente tinha que recolher os corpos e me livrar deles onde fosse impossível localizar - comentou ele sem saber o que ela queria dizer com a pergunta - hoje, penso que deveremos fazer o mesmo, inclusive matá-los, salvo se você quiser fazer isso, Tec. 

Tinha ganhado um apelido idiota de um que não entendia nada de informática e nem de engenharia. Suspirou pensando no que poderia dizer.

- Passaremos por eles sem que percebam que estamos ali dentro - disse ela sinalizando por ajuda para escalar o muro que dava para a parte de trás do prédio, sem luzes, com um pátio de fumantes isolado da via. - Eu vou fazer as câmeras entrarem em looping em toda estrutura, e nós vamos passar despercebidos e acessar a rede pelo computador da direção aduaneira para consumir com a nossa mercadoria. 

- Você realmente acha que vamos poder passar por cinco pessoas sem sermos vistos ou escutados, - começava ele ajudando-a a abrir uma janela sem muito ruído nos fundos - entrar e sair, assim, tranquilamente, dentro de um tempo razoável? Se um deles nos vir, teremos que consumir com todos.

- Você pode confiar em mim, ou da próxima vez o deixo levar um tiro daquele que está tomando o café. Sussurrou ela enquanto seguiam abrindo um feixe pela porta de divisória de escritório, e ele via que realmente havia um servindo-se de café, exatamente como ela disse.

- Eu te sigo. Disse ele fechando a boca.

 

Depois de escaparem silenciosamente dali, com o coração na garganta para que não escutassem os ruídos dos seus passos, estavam rindo como duas crianças no carro, seguindo para fora da cidade. E ela concedeu-se a faculdade de dirigir, enquanto Dmitri abria uma garrafa de bebida escondida embaixo do banco para comemorar a coisa mais estranha que tinha feito na vida.

- Nunca pensei que poderia fazer uma operação dessas sem ser visto, ou sem tomar um tiro. - Dizia ligando o ar condicionado e tirando a malha cinza rato puída. Da camiseta de mangas curtas ela podia ver as margens de qualquer tatuagem a que não podia dar atenção enquanto dirigia, e marcas de cortes e tiros. - Você saber exatamente o que estava acontecendo ali dentro era estranho, isso é fato. Você é estranha como Aleksander.

- Não… Eu sou muito mais normal que ele, creia-me. Resmungou ela enquanto passava pelo acostamento pisando fundo no acelerador e atravessando pro fora da pista para escapar do controle de velocidade que lhe fotografaria a placa, mesmo que estivessem com uma placa fria.

- Diabos, como pode fazer isso dirigindo e não nos matar? Disse ele sentindo-se sacudir e ser jogado de um lado a outro, ela parecia pior que a maior parte deles mesmos, não era normal para alguém que nunca teve que fugir da polícia.

- Minha avó era motorista de ambulância. Disse ela sorrindo e vendo que ele não parecia acreditar.

- Que desculpa idiota. Verdade. - Disse ele bebendo um pouco mais, já se sentia tranquilo de não ter a corda no pescoço, e relaxava no banco do passageiro como há muito não fazia - Não podia inventar uma melhor? Parece que era toda certinha até ontem desse jeito. Ou era?

- É a verdade. - disse ela rindo, o rapaz era engraçado no final das contas, não era embrutecido como outros que tinha visto, poderia se passar por qualquer um - Mas, realmente, não é como se eu trabalhasse com vocês há tanto tempo. Colaborei pouco com Constantina até agora.

- Você é externa então? - disse ele ajeitando-se no banco - Não está dentro do negócio? Digo…

- Eu só atendo chamados de Constantina enquanto me interessar - disse ela vendo que ele se preocupava se não tinha falado demais - Aquilo que eu escutar que não é negócio meu, morre aqui.

- Pensei que teríamos mais algum trabalho divertido nos próximos dias - disse ele desanimado - mas continua sendo o mesmo de sempre. 

- Em teoria, sim, continua tudo igual pra vocês - disse ela virando uma outra estrada para evitar ser parada por uma patrulha de polícia rodoviária, estavam perto de uma zona urbana - A próxima coisa que vou fazer será um pouco complicada, e fora do território.

- Mais alguma mágica de computadores para a Dra? Resmungou ele não esperando uma resposta, era provável, essa aí era certinha demais para se envolver em coisas perigosas. 

- Vou explodir uma casa. Disse ela vendo que o outro parecia um pouco surpreso.

- Como assim? Disse ele bebendo um pouco mais, e percebendo que a garrafa estava quase vazia.

- Preciso eliminar algumas pessoas, o lugar é propício a uma acidental explosão de gás. É mais discreto que meter uma bala na cabeça de cada um na casa. Mas creio que esse trabalho terei que fazer sozinha. Já pensei em como é possível, mas não sei se terei tudo que preciso à mão. Disse ela explicando-se um pouco.

- Eliminação de provas - resmungou ele - acho que sei do que se trata. Se precisar de ajuda, me ligue. Disse ele metendo o próprio número no celular dela enquanto a via dirigindo-se para o ponto de parada. 

- Sob pena de dividir o pagamento em dois… Resmungou ela, e ele riu, claro que ela não chamaria, estava ali pelo dinheiro no final das contas. 

Ela sabia que eles se moviam pelo bom pagamento, senão, que sentido teria essa vida? Não pensava que existissem muitos viciados em adrenalina para aceitarem isso se tivessem outra opção, eram poucos, francamente. Era bom que continuassem pensando que ela estava ali pelo mesmo motivo. Mas, realmente, era para melhorar a sua capacidade de sair viva de situações perigosas. Podia não ser o ideal, mas preferia isso que a sugestão de Sasha. Falar com Bonny seria suicídio, tinha dito a ela que deveria apagar a sua memória quantas vezes fosse necessário. E ela o faria.

Parou o carro. Seu celular chamava vibrando. Jean-Pierre? O que queria a essa hora?

- Hey, onde você está? - pedia ele, mas tinha qualquer coisa estranha na voz - me diga que está me ouvindo? Estou no viva voz aqui e…

- Sasha… - resmungou ela pensando no que quer que poderia ter acontecido para ligar àquela hora - Não te escuto. Eu estou no meio do nada na Croácia agora, o que houve?

- Bonny… Resmungou ele. 

Era tarde demais, pensou ela. Tinha falado demais. Bonny saberia que ela tinha recuperado qualquer parte das suas memórias, e saberia que ela estava fazendo coisas por conta própria. 

- Merda, estava bom demais pra ser verdade... Resmungou ela na sua língua desligando o telefone e dando a partida no carro de novo. Tinha que sumir imediatamente. 

Bonny iria apagá-la de novo.

 



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