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História O Vampiro de Trieste - Capítulo 55


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Capítulo 55 - Bom demais pra ser verdade - parte 3


Fanfic / Fanfiction O Vampiro de Trieste - Capítulo 55 - Bom demais pra ser verdade - parte 3

III

Estava intocada no quarto já há dois dias, tinha se localizado, e aquele lugar era tão infinitesimalmente desconhecido da humanidade que servia ficar por ali com nomes falsos por qualquer jornada. As pessoas tinham um tipo parecido com o de Dmitri, não é que destoasse tanto um rapaz magro, um pouco mais alto que a média, de cabelos loiros curtos e um nariz com um ângulo diagonal acentuado no meio de tantas outras pessoas de perfil europeu continental. 

Não era como se estivessem em uma região tropical onde um loiro alto falando com sotaque seria necessariamente estrangeiro, ninguém ali ostentava um belo bronzeado, todos ali misturavam dialeto ou línguas estrangeiras, era uma cidade de passagem para transporte de cargas. Conveniente, a quantidade de motoristas estrangeiros fazia o comércio local ao menos de itens básicos para o viajante ser habituado, assim como a vizinhança, a gente estranha.

- Desculpe… Eu volto depois… - disse a camareira surpresa de ter ela dentro do quarto no horário da limpeza - Desculpe o transtorno.

- Espere - disse ela entediada de estar ali auto isolada - Pode fazer o seu trabalho tranquila, se perder tempo agora vai mais tarde para casa, certo? Disse gentilmente gesticulando para que a mulher entrasse. Não era muito mais que uma trintona quase quarentona, muito bem alinhada no uniforme, com os cabelos presos no alto e um pouco de pressa no olhar, que tentava disfarçar com gentileza.

- Sim, mas não é um incômodo? Disse ela sofrivelmente em inglês ainda.

- Não, entre com suas tranqueiras. Estou entediada. - disse Karolina insistindo, e vendo-a entrar discretamente com a cestinha de produtos de limpeza e paninhos - A propósito, posso tentar falar na sua língua? Pediu, vendo-a sofrer para responder. Podia identificar como se comunicar com ela, dentro da sua cabeça, instintivamente tinha ao menos o mínimo de informação que lhe permitia falar. Aleksander tinha tanta coisa dentro da cabeça dele que acabou lhe passando um monte de informação que reputava inútil, naquela noite.

- Sim, tentamos trabalhar falando em inglês para não sermos descorteses com os clientes - disse ela iniciando a tirar o pó, um pouco desajeitada com a presença de Karolina ali - É deselegante falar em uma língua que os outros no ambiente não entendem, se tem a possibilidade de evitar isso.

- Deselegante? É um modo de dizer “falta de educação”, - disse ela rindo. De fato, sempre detestou pessoas ao seu redor falando em outras línguas que não entendia um diabo, não as que não sabiam, mas especialmente as que sabiam e poderiam falar uma língua que ela conhecia, porque não tinha nem mesmo como imaginar se estavam falando mal dela. problemas idiotas na faculdade, agora nem mesmo sabia quando poderia retornar lá para pegar o maldito diploma. - Não se preocupe se nesses dias estamos aqui dentro, não é como se tivéssemos a genial ideia de fazer turismo aqui, é só uma passagem rápida.

- Estamos tão habituados a chegar e não ter os clientes no quarto quando abrimos a porta que é um pouco estranho isso. Todos saem cedo para fazer passeios e fotos, e chegam tarde, geralmente. Comentou ela e Karolina via que tinha uma marca de aliança na mão dela, mas o anel não estava ali. Uma conversa trivial, pensou.

- Você é casada, certo? Disse apontando discretamente a mão onde faltava o anel.

- Espero ainda ser. - disse ela suspirando - Mas, existem momentos em que não sabemos. Depois de tanto tempo juntos, qualidades e defeitos sendo valorizados ou tolerados, chegar ao ponto de estar assim, em dúvida sobre o dia de amanhã.

- Você nunca mais vai me ver de novo - disse Karolina - Se quiser falar aquilo que vier em mente, sente-se e fale. Não é como se tivesse um desastre nuclear para limpar aqui. A mulher relaxou, parecia estar angustiada, com algo preso na garganta. E ninguém parecia disposto a escutar, ou era confiável para escutar esse lamento.

- Depois tantos anos, eu pensei que quando tivéssemos nosso filho as coisas melhorariam… Mas, no fim, parece que só eu me preocupo com o futuro da nossa família. 

A mulher despejou um monte de inseguranças, eram pobres, ela tinha finalmente conseguido um trabalho ali, depois de meses procurando; segundo ela o marido tinha se tornado difícil depois de uma depressão, quando uma fábrica fechou onde tinham um negócio antes, e tudo se fechava em copas. Lamentou-se de tudo, das tentativas de fazê-lo sentir-se melhor, de como era difícil convencer ele de que o falimento não era o final do mundo, ou da sua capacidade de fazer algo novo. 

Em pouco tempo tinha passado a recear dizer qualquer coisa porque poderia magoar seus sentimentos, recear dar um impulso a coisas normais da vida, porque até mesmo exigir um horário para comerem juntos era uma ofensa. Porque até mesmo sonhar com o futuro poderia ser uma ofensa, porque até os elogios eram entendidos mal. E no fim, quando a questionou sobre o sistema de saúde local, ela disse, além de não terem dinheiro para isso, se tivessem, um bronco do interior nunca admitiria uma doença emocional. E a vida se esfacelava assim, fácil. No dia a dia. 

- Já pensou no que você quer da sua vida? - disse Karolina pesando como diria isso - Sem pensar na felicidade da família, afinal, o que um não quer, dois não fazem.

- Não quero pensar assim, eu casei com uma pessoa que sei que está ali dentro - dizia a mulher ainda apegada a seu mundo - Imediatamente, eu lhe diria que o que quero é parar de ter receio de viver, de ser normal. De almejar as coisas. Queria poder não sentir como uma ameaça, cada vez que o ofendo, aquela expressão de que sempre se pode fazer o divórcio. Isso corrói todas as minhas convicções. 

- E se chegasse esse dia, o que você faria? 

- O que poderia fazer? Sozinha com nosso filho, e com as dívidas da empresa para dividir? Porque é só isso que temos para dividir. Dizia ela desesperançosa de pensar na mera possibilidade.

- Almejar coisas. Não ter receio.- começou Karolina pensando que seria terrível pensar em viver confinada dentro do seu próprio cérebro por receio de mover qualquer músculo por causa de outro - Isso é confiança. É dividir uma vida. Você já está vivendo sozinha, ou melhor, está vivendo a vida de duas pessoas.

- Não é como se as coisas fossem mudar de um dia para o outro só por perceber isso. Disse a mulher secando as lágrimas.

- Se conversar não funciona  - disse Karolina sabendo que a esperança era uma coisa volátil quando se dependia de mais de uma mente. Sabendo que qualquer palavra, se não estivesse cravada nas suas experiências de vida mais importantes, seria esquecida, e tudo voltaria a um ciclo vicioso - Recomece tudo. 

- Isso é um pouco radical… Dizia a outra chocada.

- Existem coisas nessa vida que devem passar por soluções radicais. Não é como se estivesse assassinando sua família ou seu marido. É só um reset, você não pode continuar para sempre vivendo uma vida de confinamento dentro de si mesma. - disse ela pensando que provavelmente era o pior conselho que poderia dar a uma pessoa que tinha uma vida certinha - Pare de carregar com você a culpa de não poder resolver tudo. Pare de carregar com você o medo. Duas vidas devem se adaptar para conviverem, tolerar coisas, e agirem por si mesmas, em diversos momentos. Você deve viver a sua vida, e deixar que ele viva a dele. Talvez, desistir de tentar, e assim não sufocá-lo, possa te trazer de volta aquilo que ficou esquecido. Até mesmo aquilo que você sufocou dentro de você precisa ser relembrado.

Depois de um pouco de psicologia barata, ela deixaria sua companhia temporária partir, Dmitri tinha voltado do bar com bandejas de algo comestível, e um envelope para ela.

- O que é isso? A conta de novo? Pediu Karolina vendo-o rir sinalizando com o queixo o que tinha escrito no envelope. 

Era do escritório de Constantina. Finalmente poderia se mover dali, pensou vendo a sua carteira mais magra. Tinha documentos como pediu, pelo menos servíveis por algum tempo, e tinha como comandar uma conta bancária de novo. Um pool que lhe permitiria depois jogar isso de volta na sua contabilidade pessoal sem grandes problemas.

- E agora, grande gênio, o que pensa em fazer? Ironizou Dmitri.

- Agora é hora de arrumar suas malas - disse ela gesticulando para o vazio, não tinham nada para levar dali, apenas o que ele pegou nos negócios locais discretamente - Vamos nos livrar do trabalho que Constantina enviou por último, e de lá tenho uma outra visita que gostaria de fazer.

 

Quando partiram dali, depois de danificar a placa do carro alterando sua identificação para qualquer câmera urbana ou radar, adicionando formato às letras e números com fita adesiva preta, ela pensava que o tédio seria gigantesco. Tinham certamente algo a fazer em mente, mas todo o meio tempo entre preparar-se para isso, fugir de dar de cara com problemas que não tinham antes, e esperar pacientemente para o próximo passo, lhe daria muitas horas sem nem mesmo um livro para ler. Percebia que Dmitri não estava habituado a não ter o que fazer. ela ainda poderia se fechar em copas no computador, mas o que faria quando ele entrasse em parafuso?

- Estive pensando um pouco - disse ele e via uma expressão um pouco séria se formando em Karolina - Você disse que a mulher de Aleksander e a filha eram parte do que te persegue. Mas, eu achei que ele era qualquer coisa seu, naquela vez que a vi… E não me parece que ele tenha idade para ter uma criança de mais de 10 ou 12 anos, normalmente…

- Normalmente nada disso estaria acontecendo - resmungou ela pensando em como a vida parecia tranquila antes de ter se metido de cabeça em tudo isso, e não se arrependendo, apesar de ter medos dentro de si ainda sem resposta - Mas o fato é que ele tem uma mulher, e provavelmente antes de assassiná-lo ela vai vir atrás de mim, por puro sadismo. A filha dele é “adotiva”... Disse pensando se realmente de tudo que aconteceu na vida dele, não tinha realmente havido tempo para ter um filho, mas se recordava que Yunet estava morta, pela mão dos romanos, e depois de ele deixar a humanidade como ela conhecia, não sabia se isso era normalmente possível.

- Mas então vocês nunca tiveram mais que um relacionamento profissional? Disse Dmitri não esperando exatamente uma resposta, era mais uma questão de retórica dentro do seu próprio cérebro.

- Até pouco tempo atrás, se poderia colocar desse jeito - pensou Karolina consigo mesma que isso não era falso, mas também não era uma verdade universal, eles tinham uma ligação emocional, mesmo não declarada, de um pouco mais de tempo - Agora não tenho certeza.

- Esse “não tenho certeza” é o motivo pelo qual a mulher oficial dele quer a sua cabeça? Perguntou Dmitri vendo que ela parecia mais disposta a falar, principalmente agora que quem dirigia para um destino pré-definido no mapa era ele, e ela somente bebia. Se sentia bem menos enjoado assim, ela era louca dirigindo.

- Não - disse Karolina bebendo com calma, ainda pretendia estar consciente antes do próximo destino - Beatrice iria querer destruir a minha existência completamente de qualquer jeito, simplesmente porque significa qualquer coisa. Não entre no debate filosófico ou sentimental da coisa, Dmitri, serve só para te deixar louco. Apenas basta saber quem é o inimigo, e matá-lo antes que ele te mate, ou fugir desenfreadamente se ver que é algo mais forte que você. Pode ser que assim tenha uma chance no futuro de vencer isso.

- E porque, depois daquela ligação você simplesmente acelerou e tudo isso começou afinal? O que meia dúzia de palavras poderia ter de problema? Você não deu nenhuma informação em especial… Disse ele avaliando o que aconteceu com mais calma.

- Eu dei toda informação que não deveria. - disse Karolina cansada de esconder detalhes - A filha de Aleksander apagou uma parte da minha memória, propositalmente, e a pedido meu vai continuar fazendo isso. Ela tem como saber que eu recuperei isso exatamente porque eu chamei nosso amigo em comum de Sasha, e não pelo nome que comumente usa. As coisas mudaram, mas ela não vai mudar de posição tão fácil quanto ao que eu pedi antes, e se ela entendeu que o que eu estou fazendo é uma traição, vai mandar tudo que tem para me caçar.

- Posso não entender o contexto, - disse Dmitri - mas o resultado é obvio agora.

- Agora que você está sóbrio o suficiente para ligar os pontos do que eu digo sim - disse Karolina tomando mais um gole e sentindo que talvez fosse hora de parar, fechando a garrafa - Mas isso termina no ponto em que parece lógico para você. Quando começa a parecer teoria da conspiração ou alucinação, você vai reagir como?

-Minha cara, metade das coisas com que trabalhei pareciam teoria da conspiração - disse ele rindo consigo mesmo - Você aprende a lidar com informações estranhas e tolerar isso.

- Veremos. Resmungou ela olhando para a estrada à sua frente em dúvida. Estava melhor tendo ele como aliado que como inimigo, se Constantina o retivesse de volta e a deixasse à deriva depois daquele trabalho. Mas, era possível que ele saltasse fora de toda essa loucura, como qualquer ser humano normal faria, e isso atesta que de algum modo ela estava deixando de ser normal, ou sã da cabeça.

 



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