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História O Verão Que Mudou Minha Vida (adaptação N.U) - Capítulo 10


Escrita por:


Notas do Autor


Oieeee
Esse é para recompensar voces pelos capítulos anteriores serem pequenos.
Espero que gostem!

Capítulo 10 - Capítulo 10


     

 

     — Any, você já ligou para o seu pai? — perguntou minha mãe. 

     — Não. 

     — Acho que você deveria ligar para ele e conversar com ele sobre o seu verão.- Revirei os olhos. 

     — Duvido que ele esteja preocupado com isso.  

     — Mesmo assim.    

     — Você mandou Bailey ligar para ele? — argumentei.  

     — Não mandei, não — disse ela, sem se alterar. — Seu pai e Bailey vão passar duas semanas juntos procurando faculdades. Mas você só vai revê-lo no final do verão. 

   Por que ela sempre tinha que ser tão sensata? Tudo era assim com ela. Minha mãe era a única pessoa que eu conhecia que era capaz de ter um divórcio sensato. 

  Minha mãe se levantou e me entregou o telefone. 

 — Ligue para o seu pai — disse ela, saindo da sala. Sempre saía da sala quando eu ligava para o meu pai, como se estivesse querendo me dar privacidade. Como se houvesse segredos que eu precisasse contar ao meu pai que não pudesse contar na frente dela. 

 Não telefonei. Recoloquei o fone no gancho. Ele é que devia me telefonar. Não eu. Ele era o pai, eu era a filha. E, além disso, a casa de verão não era lugar para pais. Nem para o meu pai nem para o Sr. Beauchamp. Certamente eles podiam ir lá nos visitar, mas não era o lugar deles. Não pertenciam àquele lugar. Não tanto quanto nós, as mães e os filhos, pertencíamos. 

 

           (   )

 

         9 Anos
 

         Estávamos jogando cartas na varanda, e minha mãe e Úrsula estavam bebendo margaritas e jogando seu próprio jogo de cartas. O sol estava começando a se pôr, e logo as mães iriam ter que entrar, cozinhar milho verde e preparar cachorros-quentes. Mas ainda não. Primeiro, elas precisavam terminar o jogo de cartas. 

        — Priscila, porque você chama minha mãe de Mady, quando todas as outras pessoas a chamam de Úrsula? — indagou Noah. Ele e meu irmão eram uma dupla, e estavam perdendo. Noah se entediava quando jogava cartas e vivia procurando algo mais interessante para fazer, e sobre o que conversar. 

       — Porque o nome de solteira dela é Mady — explicou minha mãe, apagando um cigarro. Elas só fumavam quando estavam juntas, portanto era uma ocasião especial. Minha mãe dizia que fumar com Úrsula a fazia sentir-se jovem de novo. Eu dizia que isso iria encurtar sua vida, mas ela desconsiderava minhas preocupações, e me chamava de pessimista. 

      — O que é nome de solteira? —indagou Noah. Meu irmão deu um tapinha no leque de cartas que Noah estava segurando, para que ele se concentrasse no jogo de novo, mas ele o ignorou. 

       — É o nome de uma mulher antes de ela se casar, bobão — disse Josh. 

       — Não o chame de bobão, Joshua — disse Úrsula, automaticamente, organizando suas cartas. 

       — Mas por que ela teve que mudar de nome? — perguntou noah.  

       — Ela não precisa. Eu não mudei , Meu nome é Priscila Rolim Soares, o mesmo desde o dia em que nasci. Legal, né? 

       Minha mãe gostava de se sentir superior a Úrsula por não ter mudado o nome. 

       — Afinal de contas, por que a mulher deveria mudar seu nome por causa de um homem? 

         -Não deveria. 

       — Priscila, por favor, cale a boca — disse Úrsula, jogando algumas cartas na mesa. — bati. 

        Minha mãe suspirou e baixou o jogo também. 

        — Não quero jogar mais jogar buraco. Vamos jogar outra coisa. Vamos jogar paciência com as crianças. 

        — Que má perdedora — disse Úrsula. 

       — Mamãe, não estamos jogando paciência. Estamos jogando copas, e você não pode jogar porque sempre tenta roubar — falei. Josh era meu parceiro, e eu tinha certeza absoluta de que íamos vencer. Tinha escolhido ele de propósito. Josh era bom em vencer. Ele nadava mais rápido, era o melhor em bodyboarding e sempre, sempre ganhava no baralho. 

        Úrsula bateu palmas e riu. 

        — Pri, essa menina é igualzinha a você.

        Minha mãe respondeu: 

       — Não, Any é bem filha do pai. — Aí elas se entreolharam daquele jeito secreto que me fazia sentir vontade de dizer: "O que foi, o que foi?" Mas eu sabia que a minha mãe jamais me contaria. Ela guardava segredos, sempre foi assim. E eu pensei que realmente me pareço com meu pai: tinha seus olhos, com os cantos meio puxados para cima, uma versão menor e feminina do seu nariz, seu queixo saliente. Só tinha as mãos da minha mãe. 

       Então aquele momento passou e Úrsula sorriu para mim, dizendo: 

       — Você tem toda a razão, Any. Sua mãe rouba no jogo. Ela sempre roubou jogando copas. Quem rouba não prospera crianças.

      Úrsula sempre nos chamava de crianças, mas o engraçado é que não me incomodava. Normalmente me incomodaria. Mas o modo como ela dizia isso não era ruim, como se fôssemos umas criancinhas bobocas. Em vez disso, parecia que ainda tínhamos a vida toda pela frente. 

 

  (   )

 

O Sr. Beauchamp aparecia de vez em quando durante o verão, num fim de semana ocasional e sempre na primeira semana de agosto. Era banqueiro, e escapar do trabalho por um tempo maior era, segundo ele, simplesmente impossível. E de qualquer maneira era muito melhor quando ele não estava por perto, quando ficávamos só nós. Quando ele vinha à cidade, o que não era frequente, eu procurava me comportar melhor. Todos tentavam. Quero dizer, com exceção da Úrsula e da minha mãe, é claro. O engraçado era que minha mãe conhecia o Sr. Beauchamp há tanto tempo quanto Úrsula, pois os três tinham estudado na mesma faculdade, que era uma instituição pequena. 

        Úrsula sempre me dizia para chamar o Sr. Beauchamp de "Ron", mas jamais consegui fazer isso. Sr. Beauchamp era o que me parecia mais adequado, e portanto era assim que o chamava, e era assim que Bailey o chamava também. O que alguma coisa nele fazia as pessoas o chamarem assim, e não só as crianças. Acho que ele preferia assim. 

Ele chegava na hora do jantar na noite de sexta, e nós esperávamos por ele. Úrsula preparava seu drinque preferido, para estar pronto quando ele chegasse, bourbon com gengibre. Minha mãe a provocava por esperar por ele, mas ela não se incomodava. Minha mãe também provocava o Sr. Beauchamp, aliás. Ele também a provocava. Talvez provocar não fosse a palavra certa. Era mais uma implicância. Eles implicavam muito um com o outro, mas também sorriam. Era engraçado: minha mãe e meu pai raramente brigavam, mas também nunca sorriam. 

Acho que o Sr. Beauchamp era bonitão, para um pai. Ele era mais bonito que meu pai, com certeza, mas também mais frívolo do que ele. Eu não sei se ele era tão bonito quanto Úrsula, mas podia ser que eu pensasse assim porque a amava mais do que amava quase qualquer outra pessoa, e quem poderia se comparar a alguém assim?  Às Vezes é como se as pessoas fossem um milhão de vezes mais belas na nossa cabeça, como se as víssemos através de uma lente especial. Mas, por outro lado, se é assim que as vemos, talvez seja assim que elas realmente são. É tipo aquela história da árvore caindo na floresta sem ninguém por perto para ouvi-la e tal. 

 (    )

           O Sr. Beauchamp sempre nos dava uma nota de vinte dólares sempre que íamos a qualquer lugar. Josh era quem cuidava disso. 

          — Para o sorvete — dizia ele. — Comprem algum doce.

        Algum doce. Sempre algum doce. Josh o adorava. Seu pai era seu herói. E foi durante muito tempo. Mais tempo do que para a maioria das pessoas. Acho que meu pai parou de ser meu herói quando o vi com uma de suas alunas de PhD depois que ele e minha mãe se separaram. Ela nem era bonita. 

Seria fácil culpar meu pai por tudo, pelo divórcio, pelo apartamento novo. Mas se eu culpava alguém, esse alguém era minha mãe. Por que era tão calma, tão plácida? Pelo menos meu pai chorou. Pelo menos ele sofreu. Minha mãe não disse nada, não revelou nada. Nossa família se desintegrou e ela só continuou vivendo. Não estava certo. 

Quando voltamos da praia naquele verão, meu pai já tinha se mudado e levado suas coisas: as primeiras edições dos livros do Hemingway, seu tabuleiro de xadrez, seus CDs do Billy Joel, Claude. Claude era o gato dele, e pertencia ao meu pai de uma forma que não pertencia a ninguém mais. Era justo ele ficar com Claude. Mesmo assim, fiquei triste. De certa forma Claude ter ido embora era quase pior do que meu pai ter ido embora, porque a maneira como Claude vivia em nossa casa era tão permanente, habitando todos os cantos... Era como se fosse o dono do lugar. 

Meu pai me levou para almoçar no Applebee's e me disse, pedindo desculpas: 

    — Desculpe eu ter levado Claude. Sente saudade dele? — Ele passou a maior parte do almoço com a barba, que estava deixando crescer, suja de molho. Detestei aquilo. A barba era irritante; o almoço era irritante. 

   — Não — disse, mal tirando os olhos da minha sopa. — Ele é seu mesmo.

      Então meu pai ficou com o Claude, e minha mãe, comigo e com Bailey. Deu certo para todos. Nós costumávamos visitar nosso pai na maioria dos fins de semana. Ficávamos ele no seu novo apartamento que cheirava a mofo, mesmo ele acendendo incensos. 

 Eu detestava incenso, assim como minha mãe. Me fazia espirrar. Acho que poder acender todo o incenso quisesse fazia meu pai se sentir mais independente no seu novo apê, como ele o chamava. "Andou acendendo incenso aqui?", eu perguntava. Será que já tinha se esquecido da minha alergia? 

Sentindo-se culpado, meu pai admitia que sim, que tinha acendido incenso, mas não acenderia mais. Mas continuava acendendo. Acendia quando eu não estava por perto, na janela, mas mesmo assim eu sentia o cheiro. 

Era um apartamento de dois quartos; ele dormia no quarto maior e eu no outro, em uma caminha de solteiro com lençóis cor-de-rosa. Meu irmão dormia no sofá-cama, do que, aliás, eu sentia inveja, porque ele podia ficar assistindo tevê até mais tarde. Meu quarto só tinha a cama e uma cômoda branca que eu mal usava. Só uma gaveta tinha roupas dentro. O resto estava vazio. Havia uma estante também, com livros que o meu pai tinha comprado para mim. Meu pai vivia me comprando livros. Torcia para que eu me tornasse uma intelectual como ele, alguém que amava palavras, amava ler. Eu gostava de ler, mas não da forma como ele queria. Não para ser uma erudita. Gostava de romances, não de não ficção. E detestava aqueles lençóis ásperos cor-de- rosa. Se ele tivesse pedido minha opinião, eu escolheria amarelo, não rosa. 

Mas ele se esforçava. Do seu jeito, mas se esforçava. Comprou um piano de segunda mão e arranjou um jeito de encaixá-lo na sala de jantar, só para mim. Para eu poder praticar mesmo quando ia visitá-lo, foi o que disse. Só que eu quase nunca fazia isso, porque o piano estava desafinado e eu nunca tive coragem de dizer isso a ele. 

E era por esse motivo também que eu vivia esperando pelo verão. Significava que eu não teria que ficar no apartamentozinho triste do meu pai. Não que eu não gostasse de visitá-lo; eu gostava, sentia muita saudade dele. Mas o apartamento era deprimente. Desejava poder vê-lo lá em casa, na nossa verdadeira casa. Desejava que tudo fosse como antes. E como minha mãe ficava conosco durante a maior parte do verão, ele levava nos levava para viajar quando voltávamos. Em geral para a Flórida, para visitar nossa avó. Nós a chamávamos de Ganna. Era uma viagem deprimente também; Ganna passava o tempo todo tentando convencer meu pai a voltar com minha mãe, que ela adorava. 

— Tem falado com Priscila ultimamente?—perguntava, mesmo bem depois do divórcio. 

Eu detestava ouvi-la importunando meu pai; ele não tinha controle nenhum sobre aquilo. Era humilhante, porque minha mãe é que tinha rompido com ele. Tinha sido ela quem tinha dado entrada no divórcio, tinha tratado de tudo. Eu tinha certeza disso. Meu pai ficaria perfeitamente satisfeito vivendo como sempre, morando na nossa casa azul com Claude e todos os seus livros. Meu pai me disse uma vez que Winston Churchill havia afirmado que a Rússia era uma charada, envolta em mistério, dentro de um enigma. De acordo com meu pai, Churchill estava falando da minha mãe. Isso foi antes do divórcio, e ele disse aquilo com um pouco de amargura, e um pouco de respeito. Porque, mesmo quando a odiava, ele a admirava. 

Acho que ele teria passado a vida inteira ao lado dela, tentando desvendar o mistério. Ele adorava solucionar charadas, o tipo de pessoa que adora teoremas, teorias. X sempre tinha que ser igual a alguma coisa. Não podia ser apenas X. 

Para mim, minha mãe não era tão misteriosa. Ela era minha mãe. Sempre racional, sempre segura de si. Para mim, ela era tão misteriosa quanto um copo d'água. Ela sabia o que queria e o que não queria. E não queria estar casada com meu pai. Não sei se minha mãe deixou de amá-lo ou se nunca sentiu nada por ele. 

Enquanto estávamos na casa da minha avó, minha mãe fazia uma das suas viagens. Ia para lugares distantes, como a Hungria ou o Alasca. Sempre ia sozinha. Tirava fotos, mas eu nunca pedi para vê-las, e ela nunca perguntou se eu queria. 

 

 


Notas Finais


Foi isso. Até amanhã!
Bjs 😘😘😘


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