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História O Verde Em Teus Olhos - Capítulo 26


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Capítulo 26 - Zerando


Fanfic / Fanfiction O Verde Em Teus Olhos - Capítulo 26 - Zerando

- Ei, moça – Chamou uma mulher ao longe.

Andressa olhou de relance evitando dar qualquer atenção a desconhecidos e continuou a tragar o seu cigarro observando no celular a notícia do incêndio que houvera no Museu Nacional.

Como em todas as tardes após o término com Leandra, Andressa fazia uma caminhada até o centro da cidade, então parava próximo da estação rodoviária e ficava alguns minutos ali, olhando a movimentação nas ruas.

Naquele dia, a tarde era fria e chuvosa, as roupas dela úmidas por ter estado um bom tempo sob aquele clima e a sensação de frio somente veio a aumentar, fato que ela ignorou com mais uma tragada:

- Oi! - Cutucou a mulher em seu ombro fazendo Andressa soltar uma exclamação de susto, já que a mente dela permanecia em outro lugar àquela altura – Desculpa, não queria lhe assustar.

- Posso te ajudar em alguma coisa? – Andressa foi direta ainda sem olhar para a desconhecida.

- Me ajudar? – A mulher repetiu sorrindo – Olha... Você não se chama Andressa? Você já estudou na escola Péricles Nogueira Machado?

Andressa absorveu as perguntas por alguns instantes e só então pousou os olhos sobre o olhar da mulher que a encarava de forma faceira e curiosa, jogou o resto do cigarro no chão e pisoteou-o, sentindo algo familiar naquele rosto, algo que para ela foi estranho sentir:

- Sim – Respondeu a contragosto, odiando dar qualquer informação de si mesma – Sim para ambas as perguntas, por quê?

- Você não deve estar me reconhecendo, poxa... Faz o que? 25 anos, talvez mais que não nos vimos – O sorriso da mulher se alargou – Você mudou muito, está muito bonita Andressa, só lhe reconheci porque os seus olhos continuam os mesmos – E então sussurrou envergonhada – Nunca esqueci o seu olhar.

- Sei – Andressa desdenhou ainda sem entender aonde aquela mulher queria chegar com aquilo – Olha, tudo bem, prazer em revê-la, mas agora preciso ir.

Já ia se afastando quando a mulher a segurou:

- Será que eu lhe dizendo o meu nome você se lembraria de mim? – Esperou que Andressa se virasse novamente pra ela antes de prosseguir – Estela.

- Estela? – Tentou buscar por alguma lembrança, mas nada lhe veio.

- Sim – Confirmou soltando-lhe.

- Estela é um nome comum, já conheci algumas por ai.

- Mas duvido que algumas dessas “Estelas” que você conheceu tenham dormido na sua cama quando você tinha entre dez ou onze anos – Provocou – Ainda não consegue lembrar?

Andressa procurou algum vestígio em sua mente que lhe mostrasse o fato mencionado, sim... Ela se lembrava de uma menina magra de cabelos longos que um dia brigou com a mãe por ter de deixar a escola e os amigos e se mudar pra outra cidade, assim sem muita alternativa pediu abrigo em sua casa e d. Maria com relutância deixou, não sem antes avisar aos pais da menina.

Ela lembrou que naquela noite a sua amiga de escola pegou uma roupa sua emprestada para dormir e se aconchegou ao seu lado na cama, no inicio deitaram afastadas, mas com o adiantar das horas as duas meninas, ainda inocentes, se abraçaram e adormeceram assim:

- Sim, agora consigo perceber alguns traços em seu rosto em comum com aquela menina – Deu-se por vencida.

- Que bom! – Estela não se conteve e abraçou Andressa, dando-lhe um beijo na face – Eu sofri tanto quando sai daquela escola.

- Imagino que tenha mesmo, você adorava aquele lugar.

- Não era o lugar que eu adorava, era a companhia – Corrigiu-a enquanto olhava o comercio local – Você teria alguns minutos pra conversarmos?

- Eu preciso ir, desculpa – Andressa tentou se afastar.

- Dez minutos, não mais do que isso – Estela insistiu – Vamos até aquela lanchonete ali, tomamos um suco enquanto conversamos e depois te deixo em paz.

Após uma afirmação de cabeça de Andressa, as duas foram para a lanchonete e se sentaram em uma das mesas, logo sendo atendidas por um rapaz.

Andressa pediu cerveja enquanto Estela um suco de laranja, esperaram silenciosas pelas bebidas e assim que o rapaz as deixou sozinhas novamente, Estela começou a falar sobre a sua vida, a família dela tinha se mudado para o Paraná e lá construíram uma boa casa onde ela morou até o ano anterior, ela decidiu voltar pra São Paulo após receber uma excelente oferta de emprego, se instalou num bairro bom próximo de onde vivia na infância. Lugar este que lhe trouxera memórias que por anos havia enterrado em algum lugar na sua mente.

Andressa a escutava atentamente e ora falava algo ora apenas gesticulava como que mostrando entender o que lhe era dito:

- E você nunca casou? - Por fim perguntou a Estela que lhe sorriu afetado.

- Não encontrei ainda a pessoa certa para isso e pelo jeito, acho que vou acabar solteira mesmo.

- Não pense assim Estela, há tantos homens pelo mundo que você irá conhecer, basta dar uma oportunidade! – Respondeu.

- Sim – Estela riu debochada daquela afirmação, mas deixou a frase que estava em sua cabeça morrer.

- O que foi? Falei alguma besteira? – Andressa pareceu incerta sobre aquilo.

- Não... Não Andressa, você não falou nenhuma besteira – Após terminar o suco continuou – E você? Algum relacionamento? Casou? Tem filhos?

- Ahn... – Não soube o que dizer, suspirou contrariada e prendeu logo em seguida o ar por alguns instantes – Não, nunca quis me casar e muito menos em ter filhos, odiaria uma criaturinha com a minha cara andando perdida por este mundo.

A resposta de Andressa tirou uma nova gargalhada de Estela que por alguns momentos a estudou em silencio, algo não parecia certo, talvez uma informação faltando:

- Bem, eu acho isso uma pena, pois você está linda Andressa e um filho seu seria tão ou mais bonito que você.

- Não precisa me bajular – Brincou.

- Não estou bajulando, só dizendo uma verdade.

As duas passaram mais que dez minutos naquela mesa, pediram e beberam mais de suas bebidas e quando deram em si a lua já havia tomado conta do céu e as nuvens voaram para outra direção:

- Caramba! – Espantou-se Andressa após olhar o celular – Preciso mesmo ir – Disse se levantando.

- Se você não se importar eu te levo, estou de carro – Estela ofereceu também se levantando.

- Não precisa, eu vou caminhando, gosto de andar por ai.

Elas se despediram e cada uma seguiu caminhos diferentes.

 

...

 

Certa noite Andressa estava caminhando pelo bairro com algumas sacolas de compras nas mãos quando ouviu a buzina de um carro, ela olhou desconfiada, contudo a desconfiança passou assim que viu Estela por detrás do volante, sorriu de forma amigável e após muita insistência da parte da amiga aceitou uma carona até a sua casa.

Quando estacionou em frente ao portão da casa de Andressa, Estela saiu do veiculo e a ajudou com as sacolas, adentrando na casa e reconhecendo o ambiente, muitas coisas haviam sido mudadas, os móveis, o quintal entre tantas mais...

Encontrou-se com d. Maria que também não a reconheceu até que lhe contasse sobre aquele dia em que dormira ali e as duas seguiram num bate papo descontraído enquanto Andressa guardava as compras no armário:

-... E eu tive que voltar pra cá, a única coisa que me prendia no Paraná, a minha mãe, já havia falecido – Concluiu.

- Eu sinto muito por isso – D. Maria lamentou.

- Não d. Maria, está tudo bem, ainda mais agora que tive a oportunidade de rever a Andressa, nossa amizade na época não foi duradora, mas eu nunca me esqueci da generosidade que vocês tiveram comigo.

- Aquilo não foi nada minha filha – A senhora tentou minimizar o seu gesto – Aceita um café?

- Se não for incomodá-la, eu aceito – Disse sorrindo.

Estela a cada dia que passava se mostrava mais presente e mais real, Andressa não entendia como ela podia viver sozinha, era uma mulher gentil e muito bonita, lhe atraia como há muitos anos não acontecia e estando tão perto de si era sufocante não poder aproveitar daquele corpo definido.

Andressa tinha que tirar tais pensamentos da cabeça, era insano pensar naquilo, Estela parecia apenas buscar uma amizade e nada além, mas porque algo nela demonstrava o contrário? Às vezes era um gesto, um olhar, o sorriso nos lábios rosados, às vezes uma frase solta de duplo significado, seria somente uma impressão em sua mente distorcendo o que realmente existia?

 

...

 

Mais algumas semanas passaram quando o telefone de Andressa tocou, era a amiga lhe convidando para ir a sua casa, a voz de Estela não tinha nenhum traço brincalhão como o de costume. Andressa tentou negar o pedido, mas acabou indo.

Tomou um banho e se arrumou, caminhou por dez minutos antes de apertar a campainha, quando Estela surgiu na porta estava vestida com um short curto e uma camiseta larga, acenou para que a outra entrasse.

A casa de Estela esbanjava simplicidade, as paredes pintadas em um tom azul claro e os poucos móveis de madeira de cor mogno:

- Desculpa ter te ligado tão tarde – Foi dizendo – Mas acho que precisamos conversar.

- Claro – O coração de Andressa pulava descontrolado, inseguro sobre tudo aquilo – O que aconteceu?

- Vou ser direta contigo Andressa – Estela a encarou de forma profunda roubando o fôlego da outra – Você... Você aconteceu!

- Não lhe entendi, como assim eu aconteci? – “Estou surtando ou Estela parece estar se declarando pra mim?” pensou.

- Você sim – Respondeu se aproximando – Eu não entendo como ou quando surgiu isso – Pegou a mão de Andressa e a pousou sobre o peito – Eu gosto de você, ainda não percebeu? Eu não queria que isso acontecesse... Você é uma amiga querida, mas eu me apaixonei por você!

- Eu não sei o que dizer... – Andressa sussurrou sem ter certeza sobre nada.

- Diz o que sente?

Contudo Andressa ficou muda, a voz não saiu e involuntariamente umedeceu os lábios ressecados com a língua.

Aquele simples gesto fez com que Estela se aproximasse ainda mais colando o seu corpo ao dela e num impulso cego as duas se beijaram lentamente...

 

...

 

Pernambuco, 14 de Maio de 2.023

 

Andressa desceu da moto, sentiu a pele ferver por baixo da jaqueta de couro preta, mas decidiu mantê-la no corpo como se fosse uma armadura, ela retirou apenas o capacete e deu uma boa olhada ao redor atenta a cada movimento, não tinha certeza se alguém ali a reconheceria, afinal havia se passado mais de vinte anos que pisara naquela terra e se naquele momento retornava era porque tinha um bom motivo para fazê-lo, independente de sua vontade, ela precisava estar ali.

Olhou a dimensão do prédio e viu o grande S no letreiro, sim... Andressa havia chegado ao seu destino, o hospital Santa Joana.

Ela caminhou pesarosa evitando esbarrar em qualquer um que cruzasse o seu caminho, odiava hospitais, ainda mais depois que passou dias após dias ao lado de sua mãe em um quarto sem vida e sem cores. O cheiro forte como o éter e alguns outros produtos utilizados veio a sua memória e a assombrou como um presságio.

Pensou em desistir de tudo aquilo e voltar para a sua solidão, a vida havia se tornado um fardo que até naquele instante ela conseguiu suportar, porém era tarde demais e ela sabia que não poderia adiar mais do que já havia feito, era hora de encarar o passado.

Após jogar a mochila pesada nas costas e entrar pela porta automática, o frescor do ar condicionado atingiu a sua face, Andressa respirou fundo juntando forças e pedindo em silencio por uma coragem que há muito esquecera, seguiu até a recepção onde uma mulher jovem e maquiada observou com desdém desde as suas roupas pretas sujas de poeira até o seu cabelo curto molhado e bagunçado devido as condições da viagem:

- Boa tarde! – Andressa cumprimentou automaticamente.

- Boa tarde! – Respondeu a mulher com um forte sotaque – A senhora precisa de ajuda?

- Não necessariamente – Sorriu sem nenhum humor – Preciso de uma informação.

- Ah sim – Respondeu voltando a atenção a tela do computador – Qual informação a senhora necessita?

- Estou procurando uma amiga, me disseram que ela deu entrada neste hospital a dois dias atrás.

- Qual é o nome da paciente?

- Ela se chama Camila...

- Andressa? – Alguém a chamou ao longe, fazendo todos que estavam no salão, inclusive ela mesma parar de falar e olhar pra trás.

Marina acompanhada por um homem moreno e um garoto de não mais do que dez anos caminharam em sua direção.

Após um breve abraço entre ambas as mulheres, Marina conversou com a atendente e pegou uma identificação, se despediu do marido e do filho e pediu que Andressa a acompanhasse para o interior do prédio, elas chegaram até um corredor quase vazio e de repente Marina parou em frente a uma janela:

- Não sei se a minha irmã aprovaria isso, eu ter te ligado e contado do acidente, mas acho que ela iria gostar de ter um rosto amigo aqui conosco – Marina encarava a janela com lágrimas nos olhos – Eu sei que vocês já nem se falavam mais com tanta freqüência como quando éramos bem jovens, mas isso não importa agora, você não acha? – Vendo que Andressa permaneceu quieta continuou – Ela te machucou, não foi? – Então encarou Andressa esperando uma resposta que não veio.

- Como ela esta? – Andressa perguntou enquanto tocava o vidro observando uma figura toda machucada, deitada sobre o leito e ligada com diversos fios em aparelhos e tubos.

- Ela esta em coma, talvez acorde, talvez não... Ah Andressa, os médicos pouco falam e quando eles dizem algo, nós pouco entendemos – Suspirou – Ela quase morreu na ambulância, depois na cirurgia... Existe um grande risco dela não sobreviver – Lamentou - Eu torço para que a Camila consiga acordar e voltar a sua rotina, mas...

- Você não acredita em milagres? – Andressa ironizou.

- Talvez eles existam, afinal... Você está aqui! – Brincou com um pouco de humor – Falando sério Andressa, não sei se acredito com tudo isso acontecendo.

- Entendo – Andressa desviou os olhos de Camila e encarou Marina – Como isso aconteceu?

- Foi um acidente, algo horrível, ela estava voltando pra casa, dirigindo como fez inúmeras vezes e do nada outro carro invadiu a pista em alta velocidade, houve uma colisão, Camila teria voado pelo vidro se não fosse pelo cinto de segurança, já o homem que estava no outro carro morreu antes mesmo que pudesse ser socorrido, pelo que os policiais que atenderam a ocorrência me contaram, ele teve um enfarte enquanto dirigia e perdeu o controle.

- Lamentável isso.

- Andressa, depois que nossa mãe faleceu, Camila é como a minha segunda mãe, é muito doloroso vê-la assim – Hesitou – Eu sei que talvez esteja pedindo demais pra você, mas eu realmente queria que você ficasse aqui, ao menos até ela melhorar e perceber que não está sozinha.

Andressa engoliu em seco, apesar de querer sair correndo dali se deixou ficar, uma mistura de vários sentimentos novos e velhos lhe atormentando a mente, olhar o rosto machucado e não poder ver a doçura nos olhos da amiga deixavam-na nauseada.

Tudo estava frio e Andressa sentiu que com o tempo as coisas só piorariam.

 

Pernambuco, 17 de Maio de 2.023

 

Depois de um banho frio no hotel, Andressa ficou alguns minutos se encarando no espelho em silencio, os pensamentos lhe bombardeavam de informações desnecessárias e a garganta continuava seca pedindo por qualquer liquido que contivesse álcool, todavia ela não bebeu nada, arrumou os seus poucos pertences em dentro da mochila, pegou o celular e o capacete que estavam pousados sobre a cama e por fim trancou o quarto, fez o check in na recepção e após pagar a conta no cartão de crédito se dirigiu até o estacionamento onde  subiu na moto e dirigiu até o cemitério do Pacheco.

Os três irmãos de Camila acompanhados por seus pares e filhos estavam parados na entrada de onde se conseguia ver a pista que subia num pequeno morro e os túmulos cercados por um muro branco e baixo, o portão enorme de ferro e o céu tão azul quanto no primeiro dia em que esteve em Pernambuco.

Alguns parentes, amigos que ela havia feito no decorrer dos anos, alguns homens com quem ela já tivera relações mais intimas, o cemitério não estava cheio de pessoas, contudo a morte de Camila de certa maneira fizera um alvoroço naquele grupo de desconhecidos.

Wagner também se encontrava ali no meio das pessoas, consigo os dois filhos do casal, ela podia jurar que Nayara era a versão idêntica de uma Camila mais jovem, uma menina ainda inocente.

Andressa estava seca e se via invisível perante aos demais.

Estacionou a moto, tirou o capacete e colocou óculos escuros para que ninguém pudesse ver os seus olhos, manteve a mochila nas costas e andou até a entrada do cemitério, cumprimentou a família de Camila e esperou por mais de uma hora até que o caixão fosse sepultado.

Por um breve instante acreditou que aquilo fosse uma pegadinha e a amiga iria se levantar da cova e matar metade dos presentes de susto, Andressa sorriu timidamente com tal cena e voltou a sua seriedade costumeira ao ver que estava acabando.

Acendeu um cigarro e então começou a se distanciar, procurou refugio em um túmulo mais afastado e lá permaneceu até que todos fossem embora.

O sol lhe castigava, o vento que soprava não era o suficiente para apaziguar o calor insuportável, ela tirou a jaqueta e deixou a pele respirar, as suas tatuagens à mostra, devido o uso de sua regata preta, molhadas de suor, Andressa voltou ao túmulo de Camila ainda sem nenhuma inscrição e se ajoelhou diante dele encarando a terra recém mexida, nada disse, sua face permaneceu neutra não esboçando qualquer sentimento:

- Poderia fazer um discurso agora? – Perguntou mesmo sabendo que não teria resposta alguma – Não vou fazer isso – Sorriu – Só posso te dizer adeus, essa é a última vez que piso aqui – Se levantou – Descanse em paz Camila! – Se virou e partiu.

 

 

São Paulo, 24 de Agosto de 2.023

 

Passei por tantas coisas pra chegar até aqui e descobrir que tudo poderia ter sido diferente, não precisava ter sofrido ou chorado, não precisava ter sangrado tanto ou me reprimido para novos sentimentos.

Eu estive presente e sabia que poderia ter falado, mas eu me calei, fui testemunha ocular de minha própria história e não o personagem principal, o que se torna lastimável, porém devo finalizar esse contexto com algo de valor, fiz tantas tolices que uma a mais ou a menos não faria tanta diferença.

A liberdade é uma droga e o livre arbítrio uma falsa sensação?

Já não sei se ainda quero amar outra vez e não entendo o porquê de precisar disso, foram tantos anos caminhando sozinha nesta estrada cheia de ilusões.

Recordo-me perfeitamente das vezes que tentei me suicidar e não tenho orgulho disso ou compaixão de mim mesma, apenas sobrevivi...

Deveria rasgar cada pagina do meu maldito diário, só não o faço com a esperança de que em qualquer dia alguém leia tudo e tente desvendar a pessoa que fui ou fingi ser.

Entendo a dificuldade em começar outra vez, mas eu já tinha que ter aprendido isso, eu deixei que todos se fossem porque sem mim eles ficariam bem e de certa maneira eles ficaram.

Acompanhei de longe Vitor amadurecer e se casar novamente com uma mulher que pareceu aos meus olhos uma boa pessoa, eu notei que ela trata muito bem a filha dele. Vitor finalmente descobriu o que é ser feliz?Não sei dizer ao certo.

Escutei de alguém que Leandra também se casou e que construiu uma vida melhor ao lado do seu novo amor, um amor pra vida inteira? Não tenho certeza. Eu só pude lhe dar uma singela recordação, um amor só para se lembrar.

Henrique continua solteiro, teve vários casos e nunca passou disso, chegamos a conversar um dia desses sobre o passado, ele como sempre cheio de galanteios, talvez procurando com isso reviver um flashback, mas ambos sabíamos que não existia sentimento ou sequer desejo.

Quanto a Estela... Espero que um dia ela me perdoe!

Estou outra vez me sentindo sozinha, mas desta vez estou realmente só, eu observo a minha casa, observo as minhas coisas, bens materiais que ficaram para algum parente quando eu me for deste mundo, nunca quis ter filhos e passar para eles a minha maldição de ser infeliz.

Nunca imaginei que os dias acabariam assim... Iguais!

Estou afogando as minhas dores e cutucando as cicatrizes em busca de uma absolvição divina para os meus pecados e foram tantos que perdi a conta em algum espaço do tempo.

No fundo eu sei por que reflito a finco tudo isso, eu observo a luz entrando pela janela e iluminando o meu escritório cheio de livros antigos e empoeirado, uma luz que não apenas queima, mas que também me aquece e que alimenta esta sede, os meus muitos anos de vida... Ainda tenho tantas aventuras pela frente, porém continuo estagnada.

A estrada é infinita e eu sei que posso ir além do meu limite e quem sabe no final dela, se houver um final, eu não encontraria o que tanto procurei nesses anos todos.

Então penso no fim, posso viver infinitas vezes o momento que dei adeus a minha mãe, do caixão sendo abaixado e desaparecendo em baixo da terra e do concreto, o tumulo dela enfeitado de flores mortas, ainda tenho em mente o momento em que ela suspirou pela ultima vez.

Estou mais parecida fisicamente com ela agora, não sei se são as rugas ou o cabelo grisalho, talvez as mãos... Eu observava as nossas mãos antigamente e notava certas diferenças que hoje não existem mais.

Sinto saudades do toque dela acariciando o meu rosto e de suas broncas quando não gostava de algo que eu fazia, ou de quando me chamava porque estava atrasada para o trabalho e de como cozinhava, minha mãe era uma péssima cozinheira, porém a saudade de sua comida se faz outra vez presente, ela não gostava de ir para o fogão.

Não contenho o riso ao recordar de cada xingamento, mas ela fazia a minha comida porque estava cuidando de mim, ela me dava sermões porque queria eu progredisse e me aconselhava porque não queria o meu sofrimento, hoje eu consigo entender cada um de seus gestos e intimamente a agradeço por isso.

Eu também consigo enxergar o rosto dela sorrindo quando fecho os meus olhos e isso me ilumina um pouco, até mais que o sol lá fora.

Quanto a Camila, todas as vezes que as palavras morreram em nossos lábios nos fazendo retroceder em nossas decisões, eu tive medo de dizer que a amava e quando eu disse não foi de forma direta, nunca soube de verdade se ela tinha conhecimento sobre os meus sentimentos como também nunca soube se ela algum dia sentiu o mesmo, ela fez a vida dela e me colocou no papel de melhor amiga e eu o desempenhei com bom grado, porque eu entendia que acima de meu amor existia a gratidão e a dor da ilusão que carreguei nos ombros com uma força forçada que foi se diluindo, a presença de Leandra e depois de Estela foi fundamental para isso porque eu não precisava fingir o tempo todo.

Não posso medir os meus sentimentos por elas, foram histórias diferentes e em épocas diferentes e para cada uma delas, eu fui uma parte de mim, nunca consegui ser uma pessoa completa.

Estou tremula, sinto o suor frio escorrendo pelo meu rosto e vejo a garrafa de uísque quase acabada, sei que tenho bebido demais ultimamente, sei que tudo que venho fazendo é inútil, nada vai aplacar o vazio, estou me consumindo no vicio do álcool enquanto me atormento com as noites de insônia.

Logo mais outra dessas noites virá, mas me sinto tão cansada...

A doença esta me corroendo por dentro, eu consigo sentir os meus órgãos lutando para continuar funcionando, porém eu desisti de lutar.

No fundo sou uma egoísta como qualquer pessoa, no fundo só posso e consigo enxergar as minhas tormentas, há uma violência em meus pensamentos que sufoca qualquer positividade, entrei num túnel que poderia sair, só que eu decidi ficar. Eu quero este sofrimento? Não, eu o mereço!

Não importa mais, nada mais importa...

 

Andressa terminou a carta e a colocou num envelope endereçando-a ao irmão mais novo, em seguida ergueu a Taurus calibre. 38 que comprou de um homem que traficava num dos bairros mais violentos da cidade e a engatilhou, sentiu o ferro pesando em sua mão e por um instante se assustou por não tremer, preenchida por uma paz até então desconhecida, ela se viu entorpecida, não somente pela bebida que estava consumindo ou pelos pensamentos que não se calavam em sua mente, era algo bastante superior.

Ela conteve o ar e começou a chorar, não existia tristeza em suas lágrimas, quando soltou uma respiração, Andressa fungou e limpou o nariz com as costas da sua mão, encarou a arma na outra mão e a aproximou de sua têmpora, a hora de dizer adeus havia chegado e em fim lembrou-se de que não havia mais ninguém para se despedir, sem demora atirou.

Um único e preciso tiro, a arma caiu no tapete num baque surdo, a cabeça pendeu para o lado inclinando parte do corpo sem o derrubar, a boca aberta sem puxar mais o oxigênio, do buraco criado no crânio o sangue começou a jorrar molhando o cabelo, tingindo tudo de vermelho.

Uma pequena ave que estava pousada em sua janela foi o único espectador daquele show, testemunhando aqueles instantes, indiferente do que realmente acontecia e em seguida alçou vôo assustado com o disparo...

 

Fim.

 

...

 

- E então? – Raquel remexeu pela vigésima vez em sua cadeira – Terminou?

- Sim – Fernanda fechou o livro e o devolveu a namorada.

- O que foi? – Algo no rosto de Fernanda não lhe agradou – Não gostou?

- Gostei amor, é uma história interessante.

- Mas...

- Mas você poderia ter dado outro final a ela, você matou as duas personagens principais do seu livro, ficou mórbido.

- Eu sei.

- Vou te dizer uma coisa Raquel, quando comecei a ler o seu livro eu pensei que você estava escrevendo as suas memórias, coisas que você tinha vivido com outra mulher, porém agora não tenho tanta certeza assim.

- É mesmo? – Raquel sorriu divertida – Por que você mudou de opinião?

- Algumas partes da vida da personagem não se parecem em nada com a sua e essa frieza com que ela trata algumas pessoas... Agora no ultimo capitulo quando a paixão da vida dela morre, mesmo depois de ela ter encontrado alguém bacana, aliás... Você se inspirou na nossa história, não foi? – Sorriu – Mesmo assim, não sei, a sua personagem age na maior parte do tempo de forma indiferente a tudo e a todos, exceto com a Camila.

- Sim, a minha personagem acabou se tornando uma pessoa fria, quanto ao final, achei interessante reproduzir uma parte de nossa história, mas não se preocupe porque deixei o melhor da nossa relação apenas entre quatro paredes – Raquel não conteve um sorriso ao proferir as ultimas palavras.

- Bem – Fernanda apontou para o livro – Você pensa em publicá-lo?

- Não.

- Não? – Hesitou – Raquel, porque você fica escrevendo tantas histórias se nunca tem a intenção de publicar nenhuma delas? – Quis saber.

- Eu não sei Fernanda, acho que tenho medo de publicar algo meu, você sabe que não sou uma escritora!

- Você pensa que não é – Fernanda se levantou e sentou no colo da namorada a abraçando e roubando-lhe um beijo – Acho que você deveria pensar melhor sobre isso, algumas pessoas poderiam gostar de suas histórias.

- Você gosta? – Insinuou.

- Sim.

- Gosta do que escrevo – Raquel começou a acariciá-la – Ou de mim? – Sorriu novamente.

- Gosto de tudo em você amor – Disse roubando-lhe um beijo – Você me salvou de mim, não lembra? Você não me deixou desistir quando eu tive medo de viver, você me deu um motivo para continuar a seguir em frente.

- Você é quem me livrou de tantas inseguranças e indecisões... Não se lembra?

- Eu te amo Raquel – Fernanda sussurrou se levantando e estendo a mão para a namorada.

- Eu também te amo.

Raquel deixou-se levar pela mulher amada até o outro cômodo, independente de Fernanda não ter certeza de que eram realmente as suas memórias naquele livro, isso pouco importava para as duas mulheres. O amor de Fernanda a libertou da sua escuridão e da sua amargura e esse mesmo amor fez com que cada machucado no coração de Raquel fosse por fim cicatrizado.


Notas Finais


Bom... É isso pessoal, a história de Andressa termina aqui, mas em breve entrarei com um novo livro, ainda estou trabalhando nisto. Agradeço a todos que chegaram até este capítulo comigo.


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