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História O Violinista no Jardim - Capítulo 5


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Capítulo 5 - 5. Quem Matou Per Yngve Ohlin?


Fanfic / Fanfiction O Violinista no Jardim - Capítulo 5 - 5. Quem Matou Per Yngve Ohlin?

Assim que escuta o chamado de Øystein, a menina franze o cenho e fala algo em norueguês. A boca suja de farelos do biscoito. Per não olha muito para ela, ainda sentia-se intimidado em conhecer tantas pessoas ao mesmo tempo. 

― Por que ele é estrangeiro duh – disse Øystein, apontando para Per. 

A garota iria comer o biscoito, mas com o aviso do rapaz, ela para a mão no meio do caminho e sua boca permanece aberta. Per sente seu olhar e ergue a cabeça. 

Com os olhos arregalados, nem a falta de luz na cozinha foi capaz de esconder o brilho dos olhos dela. Tão azuis. 

O que mais chama a atenção de Per, porém, é a quantidade de sardas em sua pele branca. 

Os três se sentam à mesa enquanto Lúthien ainda permanece com os olhos arregalados. Tinha esquecido do biscoito, que está em sua mão. Ela o segura com certa força. 

Ao lado dela, dois garotos bem parecidos, talvez gêmeos, comem biscoitos, alheios ao que ocorre; tinham, no máximo, dez anos. 

― Achei que era o Kjetil – diz a garota, sorrindo.

― Ele não é o Kjetil, é o nosso… novo vocalista. – diz Øystein. 

Jørn come alguns biscoitos enquanto esconde uma risada. 

― Então é estrangeiro? – questiona. Seus olhos ainda arregalados na direção de Per. ― De onde vem? 

― Suécia. – Do inferno, pensa.

Apenas a garota e Per não comem. Ela tem um olhar tão pressionador e fixo nele, que o garoto sente-se perdendo o fôlego. 

― Eu também! – disse, animada. Ela quase pula da cadeira, com afobação. Desta vez, ela fala em sueco ― Veja, meninos. Ele também é sueco. 

Os irmãos gêmeos olham-no com curiosidade. 

― Sério? – diz Per, com um sorriso involuntário. É um verdadeiro alívio conhecer uma conterrânea. 

― Em inglês, por favor. – pede Jørn. 

A garota se recompõe e dá uma mordida no biscoito. 

― Poxa, qual o seu nome? 

― Per… e-e o seu? – gagueja. 

― Me chamo Lúthien – sorri ― Eu nasci em Estocolmo, e você? 

Per prepara-se para respondê-la, mas Øystein fala antes:

― Sempre pensei que fosse grega 

― Nei. Minha mãe é grega, não eu. 

Grega. A garota é grega. 

Per sempre ouvia histórias sobre a Grécia. Sobre a mitologia, lugares históricos e sobre os guerreiros espartanos. Também ouvia que as mulheres de lá são morenas e exuberantes. Talvez Lúthien fosse uma exceção. 

Um barulho na porta os fazem olhar para a entrada da cozinha. De lá, entra uma mulher alta. A pele bronzeada e o cabelo negro. Ela fala algumas palavras em norueguês e Lúthien e os gêmeos assentem. A mulher sorria gentilmente para eles. 

A menina levanta-se, assim como as crianças. Eles saem da cozinha.

Segundos depois, Lúthien abre a porta com força, fazendo barulho. Ela corre para a mesa e pega todos os biscoitos que podia. Fez tudo com rapidez e ignorância, assustando-os. 

Ela anda em passos rápidos para a saída da cozinha, mas vira-se e dá um sorriso infantil. O vestido azul com estampa de sóis e planetas se movimenta em seu corpo esguio. 

― Tem mais no forno – das mãos cheias de biscoitos cai um ― obrigada. – acrescenta. Seu olhar parece ser direcionado para Per, assim como seu agradecimento. 

― Filhinhos da mamãe – comenta Øystein, com uma careta de nojo. Levanta-se e pega os biscoitos do forno.

― Quem é aquela mulher?  – diz Per, curioso.

― A mãe deles  – disse Jørn 

Os três ficam na cozinha por mais algum tempo, até Øystein chamar para o porão da casa. 

No instante em que saíam da cozinha ouvem notas de violão e vozes caricatas. O som vem da sala de estar. Os três se encostam na parede para ver o que ocorria. 

― La Cucaracha, la Cucaracha, ya no puede caminar, porque no tienne, porque le falta las dos patitas de atrás – Lúthien toca o violão e canta juntamente com os gêmeos, enquanto todos na sala riam. Assim como os garotos que observam. 

Após a apresentação deles, os garotos descem para o porão, onde há prateleiras cheias de livros e duas poltronas. O lugar é limpo e claro, bem diferente dos porões de filmes de terror. 

Os três permanecem no porão, conversando sobre música e planos futuros para a banda. Euronymous mostra a fita que recebeu de um provável novo baterista para a banda. 

Per está acostumado aos discursos sonhadores e completamente nojentos de pessoas que fazem uma banda. Muitas vezes, seus objetivos principais são “dar umas transadas”. Claro, num mundo de sexo, drogas e rock n roll é quase que uma unanimidade jovens fedendo a leite materno e a mijo almejarem mulheres e noitadas. 

Øystein põe a fita do provável baterista – que se chama Jan – para tocar. 

― O que disse para ele? – diz Jørn, enquanto ouvia as linhas de Bateria. 

― Então – diz, enquanto olha um livro na prateleira ― eu disse que ele está dentro. 

Os dois olham curiosos para Per, que não entende muito bem.

― A banda é de vocês. Quem tem que decidir não sou eu. 

Øystein sorri.

― Hum, sabe seu lugar na banda. Gostei – diz enquanto tira a fita do aparelho ― Mas, diga-me, gostou da música? 

― Vocês disseram que estão há meses procurando um baterista – comenta ― Este está bom, não? 

Euronymous iria responder, mas sua mãe o chama na hora, falando algo em norueguês. 

― Só um instante, rapazes. – diz e sai do porão. 

Jørn espreguiça-se e deita-se sobre o sofá, enquanto Per levanta-se da poltrona marrom em que estava sentado e anda entre as prateleiras. Como o lugar fora tomado por um silêncio constrangedor, ele disfarça seu desconforto observando os livros e fingindo estar interessado. 

Porém, vários livros chamaram-lhe a atenção. Muitos são sobre comunismo e nazismo. Havia uma estante apenas com os livros de Stalin, Lenin e Mao Tsé-Tung. 

Ele pega um exemplar de O Diário de Anne Frank. Na capa, há escrito “ Bitch” com um marcador vermelho. Ao lado do exemplar, há o Mein Kampf. 

― Impressionado com o gosto do Aarseth? – diz Jørn, repentinamente. 

Per vira-se para o norueguês e guarda o livro na prateleira. 

― Tenho que admitir – sorri e volta a sentar-se na poltrona. 

― Ele tem algumas ideias comunistas – divaga ― Acho que já leu todos os livros sobre Stalin. 

O sueco olha para as prateleiras e duvida muito se há algum livro de ficção. 

― Então, ele acredita na Revolução do proletariado – disse, divertido. 

― Não, ele acredita na manipulação em massa para instaurar uma ditadura sanguinária – ri ― Era nazista, mas creio que ele achou que o nazismo é modinha. 

Per ri. Não gosta e também não entende de política.

― Deve estar mal por conta da União Soviética – comenta.

― Nem comente isto com ele se não quiser ouvir horas de um discurso sobre como os Estados Unidos são filhos da puta e o capitalismo é tóxico. 

Alguns minutos se passam e Øystein volta para o porão com uma bandeja cheia de biscoitos. Os três comeram e conversaram mais sobre Jan Axel Blomberg entrar na banda e outras coisas. 

A noite já caíra quando Per e Jørn voltavam para casa. E seus pais já haviam chegado em casa. Rut, mãe de Jørn fizera uma sopa para o jantar. 

***

Seus olhos estavam tão arregalados que ele podia sentir como se eles estivessem quase saindo. Os ventos que sopravam e a água que caía. Per tremia de tanto frio.

Soubera que havia perdido a voz quando quis gritar, mas nada saía. O desespero o consumia, os pulmões queimavam e ele começava a perder os sentidos. 

Porém, antes de cair no grande abismo escuro, ele ouvira a melodia repugnante do violino. 

O Violinista o perseguia. 

― Pelle! Acorda – Jørn o chama. Suas mãos ásperas seguram as bochechas magras do sueco ― É só um pesadelo. 

Per abre os olhos com dificuldade. Pânico e horror transparecem nos olhos azuis. Por alguns momentos esquece o jeito de respirar. Abria a boca e puxava todo o ar possível, mas se engasgava com facilidade. 

Stubberud arregala os olhos e corre para o criado-mudo. 

― Você tem asma? – por conta do desespero, suas palavras saem rapidamente e de difícil compreensão. 

― N… não. – consegue dizer, com muita dificuldade. 

O barulho vindo da porta fez os dois desviarem o olhar. Rut entra no cômodo. Ainda veste uma camisola e tinha olheiras escuras.

Ela disse palavras que Per não entendera, mas preocupação passou por seus olhos logo após Jørn respondê-la. 

― Oh, meu querido. Está assustado. – disse, após tocar seu ombro. 

Per se sente uma criança mimada. 

Logo sua respiração volta ao normal e a visão torna-se harmônica. Mas sentia as bochechas esquentarem. 

― Não se envergonhe. Está longe de casa, é normal ter pesadelos. – ela põe as duas mãos sobre suas bochechas. A pele tão fria. 

Àquela altura, sua pele adquirira uma cor avermelhada como se tivesse tomado banho de sol. 

Os dois olhavam-no com expectativa, mas Per simplesmente não sabia o quê ou como falar. Ele apenas engoliu em seco e assentiu para os dois. Quanta vergonha ele sentia!, olhava para o chão em busca de algum conforto e para esconder o rubor que cobria suas faces.

― Me desculpem… por ter feito barulho. – disse após alguns segundos de um constrangedor silêncio. 

― Não se importe – Rut o conforta com um sorriso compreensivo ― de qualquer maneira, temos que acordar cedo, não é, Jørn? – olha para o filho com uma expressão ameaçadora. 

― An… claro. Eu vou caçar. Quer vir? 

― Aceito – disse após respirar fundo. 

Rut sorri e avisa-os de que irá fazer um café antes deles partirem. 

Deviam ser mais ou menos nove horas da manhã quando ele acordara daquele pesadelo, pois o dia está claro. O sol lutando por seu espaço naquele inverno. 

Per fora deixado sozinho no quarto enquanto observava as ruas através da janela. A neve derretida sendo atingida pela luz, alguns pássaros se arriscando e árvores morrendo. 

Ele encosta sua cabeça no vidro e respira fundo. O pesadelo ainda assombrando-o, o desespero tão real. Poucas cenas ele lembra, porém. Apenas a melodia viva em sua mente e a imagem da Lua. Tão linda e brilhante. Por isso que Ela era considerada uma deusa para os povos antigos. 

― Quando está frio e quando está escuro, A Lua Congelante pode te obcecar – balbucia antes de correr para a sua mochila. Fica irritado com a bagunça que está, havia revistas, sacolas, roupas, mas nunca encontra o que queria. 

Quando finalmente encontra um bloco de papel e uma caneta, escreve suas palavras e fica agradecido por não tê-las esquecido. 

― Você não quer comer? – disse Jørn, entrando no quarto apenas com uma blusa de moletom e uma toalha enrolada nas pernas. 

― Sim, já estou indo. – Os dois descem e comem alguns bolinhos e bebem café. Per não queria comer muito e nem Stubberud. 

Após os dois terminarem de se arrumar, o norueguês pega um rifle e uma jaqueta de camuflagem. Per conhecia aquela arma, é uma Savage A17. Tão linda. 

― Custou muito? – disse, interessado na arma. Eles caminham em direção à floresta nos fundos da casa. A vegetação não é muito diversificada, a maioria são pinheiros e bétulas.

― Digamos que alguns meses de insistência – ri ― não é minha, e sim do meu pai. Ele não me deixava nem tocá-la, mas após algum tempo, cedeu. 

O sueco não pôde evitar a ponta de inveja. Seu pai nunca o deixaria usar a sua tão preciosa Calibre 38. 

Ele comparou-se um pouco com Jørn. O norueguês parecia, de certa forma, mais maduro, mais homem. Apesar de baixo, tinha mais presença. Sua postura firme, o jeito de falar, tudo nele é superior. 

Caminham pelo lugar com cuidado e dificuldade, a neve não está totalmente derretida. Apesar do sol, o frio ainda se fazia presente, fazendo com que Per se arrependesse de não ter pegado uma jaqueta mais grossa. 

Em certo trecho da trilha, Jørn senta-se num tronco podre caído e curva-se. Observa algo, que o sueco ainda não sabia. 

― Saudades de casa? – pergunta. 

Per o olha de soslaio e lembra do constrangimento que passou apenas há uma hora. 

― Não. 

Jørn resmunga algo em norueguês e volta à sua postura ereta. 

Minutos se passam e os dois continuam ali. A luz alaranjada entrando pelas frestas que as folhas das árvores faziam. É possível ver grama sob a camada de neve. 

O norueguês pega um isqueiro no bolso de sua jaqueta e Per repara no patche da bandeira nazista. Franze o cenho e pergunta:

― É nazista? 

Jørn tira um cigarro do maço na jaqueta e sorri levemente.

― An, não. – disse e acende um cigarro. 

Per ri um pouco, aponta para o patche e ergue uma das sobrancelhas. 

― Ah, isto? – disse, apontando para o bolso ― É apenas um patche que um amigo me deu. 

O sueco insiste. Sua cabeça balançando ainda em questionamento. Jørn revira os olhos.

― É apenas uma imagem – traga o cigarro, que começa a feder ― Necrobutcher é nazista; Jørn Stubberud, não. 

Ele estende um cigarro para Per, mas este nega com a cabeça. 

― Então… – começa Per. Ele senta-se ao lado do norueguês ― Øystein não é comunista, e sim Euronymous? 

― Não. Øystein realmente é comunista. – gargalha ― ele é louco para se tornar um governante de algum dos países de merda do leste europeu. 

Jørn traga seu cigarro três vezes antes de continuar:

― Ele é uma incógnita, sabe? – divaga ― o conheço desde a infância; frequentávamos a mesma igreja. Ora, não haja como se isso fosse bizarro!, todos nós já fomos alguma vez para igreja arrastados pelas mães ou avós. – disse assim que vê Per franzir o cenho ― Eu vi Øystein indo para aulas idiotas do teatro da escola, virar punk, nazista e agora comunista. 

Ri um pouco.

― Eu lembro o dia em que ele fez um discurso sobre fuzilamentos de burgueses. 

Per ri e imagina como seria a versão mais jovem de Øystein. Será se ele era menor? Seria tão baixo quanto um anão. 

― O que você caça por aqui? – disse Per, após minutos de silêncio. 

Jørn coça a cabeça e se cala por alguns momentos.

― Nada… bom, ás vezes eu pego alguns pássaros, mas é raro. 

***

― … enquanto eu tentava chegar naquela luz branca mais forte, ela meio que me dissolvia – dizia Per ― mas quando eu chegava lá, algo ocorreu e eu acabei voltando para o cemitério. E, então, fui ressucitado. 

Ele conta sobre a sua experiência de quase morte enquanto Øystein e Jørn o ouviam atentamente. O primeiro esboça um sorriso deslumbrado, e o outro, uma careta impressionada. 

― Então… você morreu de verdade, cara! – disse Jørn ― Mas você falou que foi assassinado. Como foi isso? 

Per ri fracamente e continua:

― Só falei isso para impressionar. Na verdade, eu sofri um acidente brincando de esqui e acabei rompendo o baço. – disse, olhando através da janela do carro. 

Eles chegam ao prédio em que se encontra o apartamento de ensaio da banda. 

― Bem-vindo ao nosso… an… santuário – disse Øystein, abrindo os braços. 

O apartamento tem um tamanho médio, com dois sofás, uma mesa, telefone, instrumentos novos e frigobar. Muitos papéis espalhados pelo chão, fazendo uma grande bagunça. 

― Essas são minhas tentativas de fazer uma letra boa para músicas. – disse Jørn, apontando para os papéis amassados. 

Em sua maioria, as letras tinham um teor mais sexual e mórbido. Stubberud havia escrito quase todas as letras do primeiro álbum da banda, e muitas músicas falavam sobre necrofilia, sexo com freiras, torturas etc. 

― Temos alguns materiais – disse Øystein ― mas você pode escrever algumas letras, elas são boas. 

Per abre a boca para responder, mas o telefone toca antes. 

Jørn atende-o e conversa no idioma norueguês. Tendo mais atenção, Per repara que o idioma não é tão diferente do sueco. Pensou em se esforçar mais para aprendê-lo e não se obrigar a sempre conversar em inglês. 

― Jan está lá em casa. Tinha me esquecido que o chamei. – disse Stubberud ― Vou lá buscá-lo e já volto. 

Ele se despede rapidamente e sai do apartamento, deixando apenas Aarseth e Per. 

Para a sorte e alívio do sueco, os dois conversam tranquilamente, sem silêncios constrangedores. Logo, Per e Øystein viram que tinham muito em comum. Tanto em ideias para a banda, quanto em gostos. 

― Acho que deveríamos fazer algo que choquem as pessoas nos concertos. Algo que seja repugnante. – disse Per. 

Algum tempo passa, e os dois estranham a demora de Jørn e Jan. Já fazia muito tempo. Assim, resolvem pegar um táxi. 

Chegando à casa de Stubberud, viram uma movimentação na vizinhança. Várias crianças jogam bola, mesmo que na neve. E junto delas, Jan e Jørn correm e brincam. Eles riem à toa e não conseguiam ficar de pé por muito tempo. 

Øystein sorri e cutuca o ombro de Per. 

― Estão drogados. – afirma. Sua voz sai um pouco alta enquanto chegavam perto do “time” de futebol. 

― Estamos! – disseram Jan e Jørn em uníssono. 







 



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