História O Visconde Que Me Amava - Capítulo 8


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Categorias Sou Luna
Personagens Benício, Delfina, Emília, Gaston, Jazmin, Juliana, Luna Valente, Miguel, Monica, Nico, Nina, Ramiro, Simón, Yam
Tags Drama, Romance
Visualizações 3
Palavras 5.108
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Famí­lia, Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - I'm walking on sunshine


Fanfic / Fanfiction O Visconde Que Me Amava - Capítulo 8 - I'm walking on sunshine

Esta autora, infelizmente, foi incapaz de determinar todos os detalhes, mas houve uma considerável movimentação na última quinta-feira próximo ao The Serpentine, em Hyde Park, envolvendo o visconde Bridgerton, o Sr. Thomás Berbrooke, as duas Srtas. Sanchéz e um cachorro sem nome de raça indeterminada.

Esta autora não foi testemunha, mas todos os relatos parecem indicar que o cão sem nome saiu vitorioso.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY FORNOW, 25 DE ABRIL DE 1814

Yam voltou à sala de estar e ficou imprensada com Mary no vão da porta quando as duas tentaram passar ao mesmo tempo. Newton estava sentado alegremente no meio da sala, em cima do tapete azul e branco, sorrindo para o visconde.

– Acho que ele gosta do senhor – observou Mary em um tom um pouco acusador.

– Ele também gosta da senhora – falou Yam. – O problema é que a senhora não gosta dele.

– Eu gostaria mais se ele não tentasse me abordar sempre que passo pelo corredor.

– Pensei que a senhorita tivesse dito que a Sra. Sanchéz e o cachorro não se davam bem – interrompeu o lorde Bridgerton.

– E não se dão – respondeu Yam. – Bem, se dão. Bem, não se dão e se dão.

– Isso esclareceu tudo – murmurou ele.

Yam ignorou a ironia.

– Newton adora Mary – explicou ela –, mas Mary não adora Newton.

– Eu o adoraria um pouco mais – atalhou Mary – se ele me adorasse um pouco menos.

– Sendo assim – continuou Yam, determinada –, o pobre Newton considera Mary uma espécie de desafio. Por isso, quando ele a vê... – Ela deu de ombros, desanimada. – Bem, temo que ele simplesmente a adore mais.

Como se fosse sua deixa, o cão avistou Mary e correu para ela.

– Yam! – exclamou a mais velha.

Yam se adiantou no exato momento em que Newton se erguia nas patas traseiras e plantava as dianteiras um pouco acima dos joelhos de Mary.

– Newton, senta! – ralhou ela. – Cachorro mau, cachorro mau.

O cão obedeceu com um pequeno ganido.

– Yam – disse Mary com objetividade –, esse cão tem que sair para passear. Agora.

– Eu estava planejando fazer isso quando o visconde chegou – respondeu Yam, fazendo um gesto para Ramiro, do outro lado do aposento.

Realmente, era impressionante o número de coisas pelas quais ela podia culpar aquele homem insuportável, se estivesse decidida a isso.

– Ah! – gritou Mary. – Perdoe-me, milorde. Que falta de educação a minha não cumprimentá-lo.

– Não há problema – disse ele devagar. – A senhora estava um pouco ocupada quando entrou aqui.

– Sim – retrucou Mary. – Foi esse cão feroz... Ah, mas onde está minha educação? Posso lhe oferecer um chá? Algo para comer? É muita gentileza sua vir nos visitar.

– Não. Obrigado. Eu estava desfrutando da companhia revigorante de sua filha enquanto aguardo a chegada da Srta. Chiara.

– Ah, claro – disse Mary. – Chiara saiu com o Sr. Berbrooke, creio. Não é verdade, Yam?

Yam assentiu com frieza, sem saber ao certo se gostava de ser chamada de “revigorante”.

– O senhor conhece o Sr. Berbrooke, lorde Bridgerton? – indagou Mary.

– Ah, sim – respondeu ele com uma reticência que Yam considerou um pouco surpreendente.

– Não estou segura se deveria ter deixado Chiara sair para passear com ele. Esses cabriolés são bastante difíceis de guiar, não são?

– Creio que o Sr. Berbrooke tenha mão firme com os cavalos – retrucou Ramiro.

– Ah, que bom – falou Mary, soltando um suspiro aliviado. – O senhor decerto me acalmou.

Newton soltou um latido apenas para lembrar a todos de sua presença.

– É melhor que eu vá pegar a coleira dele para passear – decretou Yam, apressada. Não tinha dúvida de que um pouco de ar fresco lhe cairia bem. E também seria bom enfim escapar da companhia diabólica do visconde. – Se o senhor me der licença...

– Mas espere, Yam! – gritou Mary. – Você não pode deixar o lorde Bridgerton aqui comigo. Tenho certeza de que vou matá-lo de tédio.

Yam deu meia-volta devagar, temendo o que Mary diria em seguida.

– A senhora nunca me entediaria, Sra. Sanchéz – retrucou o visconde, como o libertino jovial que era.

– Ah, entediaria sim – garantiu ela. – O senhor nunca precisou conversar comigo por uma hora. Que é o tempo que Chiara levará para retornar.

Yam fitou a madrasta, boquiaberta com o choque. Que diabo Mary pensava que estava fazendo?

– Por que o senhor não vai com Yam levar Newton para um passeio? – sugeriu ela.

– Ah, mas eu nunca pediria a lorde Bridgerton que me acompanhasse numa tarefa doméstica – atalhou Yam bem rápido. – Seria mais do que falta de educação, afinal, ele é um convidado muito estimado.

– Não seja tola – disse Mary, antes que Ramiro pudesse falar metade de uma palavra. – Sem dúvida ele não considera isso uma tarefa doméstica. Considera, milorde?

– Claro que não – murmurou ele, parecendo muito sincero.

No entanto, o que mais ele poderia ter dito?

– Pronto. Isso resolve tudo – retrucou Mary, parecendo muito satisfeita consigo mesma. – E quem sabe? O senhor pode esbarrar em Chiara no caminho. Não seria conveniente?

– Com certeza – falou Yam em voz baixa.

Seria ótimo livrar-se do visconde, mas a última coisa que queria era lançar Chiara em suas garras. A irmã ainda era muito jovem e muito impressionável. E se ela não conseguisse resistir ao sorriso dele? Ou à sua lábia?

Até Yam era obrigada a admitir que lorde Bridgerton transpirava um charme considerável, e ela nem gostava dele! Chiara, com sua natureza menos desconfiada, sem dúvida ficaria encantada.

Ela virou-se para ele.

– O senhor não deve se sentir obrigado a me acompanhar, milorde.

– Eu ficaria encantado – respondeu ele com um sorriso malicioso, e Yam teve a nítida impressão de que ele estava concordando em ir só para contrariá-la. – Além disso – continuou –, como sua mãe disse, podemos encontrar Chiara. Não seria uma coincidência deliciosa?

– Deliciosa – respondeu Yam sem emoção. – Simplesmente deliciosa.

– Excelente – atalhou Mary, batendo palmas com alegria. – Eu vi a guia da coleira de Newton na mesinha do saguão. Espere um instante que vou pegá-la para você.

Ramiro observou Mary sair, então se virou para Yam e disse:

– Isso foi muito bem-feito.

– Não diga – murmurou ela.

– A senhorita acha – disse ele baixinho, inclinando-se na direção dela – que o arranjo que ela está armando se destina a Chiara ou à senhorita?

– A mim? – resmungou Yam. – O senhor só pode estar brincando.

Ramiro passou a mão no queixo, pensativo, fitando a porta pela qual Mary acabara de sair.

– Não tenho certeza – refletiu ele –, mas...

Calou-se ao ouvir os passos de Mary aproximando-se.

– Aqui está – falou ela, estendendo a guia para Yam.

Newton latiu, entusiasmado, e recuou pronto a se lançar sobre Mary – talvez para mostrar a ela todos os tipos de afeição desagradável –, mas Yam se abaixou e segurou a coleira dele com firmeza.

– Tome – emendou Mary bem rápido, entregando a guia a Ramiro. – Por que o senhor não dá isto a Yam? Eu preferiria não me aproximar tanto.

Newton latiu e lançou um olhar ansioso a Mary, que se afastou ainda mais.

– Você – falou Ramiro energicamente para o cão –, sente-se e fique quieto.

Para surpresa de Yam, Newton obedeceu, baixando o traseiro gordinho sobre o tapete com uma vivacidade quase cômica.

– Bom garoto – disse Ramiro, parecendo bastante satisfeito consigo mesmo. Estendeu a guia para Yam. – A senhorita fará as honras ou eu devo fazer?

– Vá em frente – respondeu ela. – O senhor parece ter afinidade com cães.

– Sem dúvida – retrucou ele, mantendo a voz baixa para que Mary não pudesse ouvir –, eles não são muito diferentes das mulheres. As duas raças ouvem com atenção cada palavra.

Yam pisou na mão dele que estava apoiada no chão enquanto ele prendia a guia à coleira de Newton.

– Ops – falou com afetação –, me desculpe.

– Sua sinceridade me comove – retrucou ele, voltando a ficar de pé. – Sinto até vontade de chorar.

Mary olhava de um para o outro, tentando acompanhar o que diziam. Não conseguia ouvir o diálogo, mas estava fascinada.

– Alguma coisa errada? – indagou.

– De forma alguma – respondeu Ramiro, ao mesmo tempo que Yam dizia um firme “não”.

– Ótimo – falou Mary bruscamente. – Então levarei vocês até a porta. – Ao ouvir o latido entusiasmado de Newton, acrescentou: – Ou talvez seja melhor não. Não quero me aproximar desse cão. Mas acenarei para vocês.

– O que eu faria sem a senhora para acenar para mim? – comentou Yam ao passar pela madrasta.

Mary sorriu com malícia.

– Não faço ideia, Yam. Não faço a menor ideia.

Isso deixou Yam nauseada e com uma vaga suspeita de que lorde Bridgerton poderia estar certo. Talvez Mary estivesse bancando a casamenteira com mais alguém além de Chiara dessa vez.

Era uma ideia terrível.

Deixando Mary no saguão, Yam e Ramiro passaram pela porta e seguiram para a Milner Street.

– Eu costumo ficar nas ruas menores e caminhar até a Brompton Road – explicou Yam, acreditando que talvez ele não estivesse familiarizado com aquela região da cidade –, então, sigo até o Hyde Park. Mas podemos ir direto pela Sloane Street, se o senhor preferir.

– Como a senhorita quiser – disse ele. – Seguirei suas instruções.

– Muito bem – retrucou Yam, marchando com determinação pela Milner Street na direção do Lenox Gardens.

Talvez, se ela mantivesse os olhos voltados para a frente e andasse rápido, ele não tivesse ânimo para conversar. As caminhadas diárias com Newton costumavam ser seu momento de reflexão pessoal, e ela não gostara de ter que levá-lo junto.

A estratégia funcionou muito bem por alguns minutos. Eles seguiram em silêncio durante todo o caminho até a esquina da Hans Crescent com a Brompton Road. Então, de repente, ele comentou:

– Meu irmão nos fez de bobos ontem à noite.

Ao ouvi-lo, ela parou.

– Como assim?

– Você sabe o que ele me disse antes de nos apresentar?

Yam tropeçou antes de balançar a cabeça, dizendo que não. Newton não havia parado e puxava a guia feito um louco.

– Que a senhorita não tinha nem palavras para me descrever.

– B-b-bem – gaguejou Yam – pensando bem, não deixa de ser verdade.

– Ele falou isso – acrescentou Ramiro – querendo dizer que a senhorita não tinha palavras para me descrever devido a seu arrebatamento por mim.

Ela não deveria ter sorrido, mas sorriu.

– Isso não é verdade.

Provavelmente o visconde também não deveria ter sorrido, mas Yam ficou feliz porque ele o fez.

– Eu não esperava que fosse – respondeu.

Viraram na Brompton Road em direção à Knightsbridge e ao Hyde Park, e Yam indagou:

– Por que ele faria uma coisa dessas?

Ramiro lançou-lhe um olhar de esguelha.

– A senhorita não tem um irmão, tem?

– Não, apenas Chiara, e não tenho dúvidas de que ela é mulher.

– Ele fez isso pelo simples prazer de me torturar – explicou Ramiro.

– Uma intenção nobre – comentou Yam em voz baixa.

– Eu ouvi isso.

– Pensei que ouviria – retrucou ela.

– E imagino que ele também queria torturá-la.

– A mim? Por quê? O que ele poderia ter contra mim?

– A senhorita pode tê-lo provocado ao denegrir seu amado irmão – sugeriu.

Ela levantou as sobrancelhas.

– Amado?

– Admirado, então? – arriscou ele.

Ela balançou a cabeça.

– Isso também não me convence.

Ramiro sorriu. A Srta. Sanchéz, apesar da mania irritante de controle, tinha uma inteligência admirável. Chegaram à Knightsbridge e ele segurou o braço dela ao atravessarem a rua para seguir por um atalho que conduzia à South Carriage Road, no Hyde Park. Newton, que era essencialmente um cão do campo, acelerou bastante o passo ao entrarem em um ambiente com mais árvores, embora fosse difícil imaginar o animal gordinho sendo veloz.

No entanto, Newton parecia muito alegre e não havia dúvidas de que estava interessado em cada flor, animal pequeno ou transeunte que cruzasse o caminho deles. O ar da primavera era seco, mas o sol estava quente e o céu apresentava um azul-claro surpreendente após tantos dias típicos de chuva em Londres. E, embora a mulher a seu lado não fosse aquela que ele tencionava desposar – nem acompanhar a lugar algum, na verdade –, Ramiro sentiu uma espécie de satisfação invadindo-o.

– Vamos atravessar para Rotten Row? – indagou ele.

– Hum? – respondeu ela, distraída.

Ela erguera o rosto na direção do sol e refestelava-se com seu calor. Por um instante desconcertante, Ramiro sentiu... alguma coisa.

Alguma coisa? Ele balançou a cabeça. Não era possível que fosse desejo. Não por aquela mulher.

– O senhor disse alguma coisa? – murmurou ela.

Ele pigarreou e respirou fundo, torcendo para que isso clareasse suas ideias. Em vez disso, sentiu apenas uma lufada intoxicante do perfume dela – uma combinação de lírios exóticos e sabonete.

– Você parece estar gostando do sol.

Ela sorriu e virou o rosto para ele com um olhar límpido.

– Sei que não foi isso que o senhor falou, mas, sim, estou. Tem chovido tanto nos últimos tempos...

– Pensei que as jovens não devessem pegar sol no rosto – provocou ele.

Ela deu de ombros e pareceu um pouco acanhada ao responder:

– E não devem. Quero dizer, não devemos. Mas é tão bom... – Ela deixou escapar um suspiro e seu rosto foi tomado por uma expressão tão ansiosa que Ramiro quase sentiu a dor dela. – Queria poder tirar meu chapéu – falou com tristeza.

Ramiro fez que sim com a cabeça, sentindo o mesmo em relação ao chapéu.

– Talvez você possa empurrá-lo um pouquinho para trás sem que as pessoas percebam – sugeriu ele.

– O senhor acha?

Todo o seu rosto se iluminou diante da perspectiva.

A essa visão, ele sentiu alguma coisa de novo.

– Sem dúvida – murmurou, estendendo a mão para ajustar-lhe a borda do chapéu. Tratava-se de uma daquelas criações bizarras cheias de fitas e renda que pareciam agradar as mulheres, amarradas de tal modo que nenhum homem sensato poderia jamais entender. – Isso, fique quieta só por um momento. Vou ajeitá-lo.

Yam ficou parada, como ele lhe pedira com delicadeza, mas, quando os dedos de Ramiro roçaram acidentalmente sua têmpora, sua respiração também parou. Ele estava tão perto, e havia algo muito estranho naquilo. Yam podia sentir o calor do corpo dele e seu cheiro de sabonete.

E isso pareceu fazer todo o seu corpo formigar.

Ela o odiava – ou ao menos não gostava dele nem o aprovava –, e ainda assim teve a vontade absurda de se inclinar levemente para a frente até que o espaço entre os dois fosse reduzido a nada e...

Engoliu em seco, forçando-se a dar um passo para trás. Por Deus, o que estava acontecendo com ela?

– Espere um instante – disse ele. – Ainda não terminei.

Yam esticou a mão de forma frenética para ajustar o chapéu.

– Tenho certeza de que está bom. O senhor não precisa... o senhor não precisa se preocupar.

– Pode sentir melhor o sol? – perguntou Ramiro.

Ela assentiu, embora estivesse tão distraída que nem sequer tinha certeza de que isso fosse verdade.

– Sim, obrigada. Está ótimo! Eu... Ah!

O cachorro começou a latir sem parar e a puxar a guia com força.

– Newton! – gritou Yam, sendo arrastada por ele. Mas o cão já tinha algo em vista, apesar de sua dona não fazer ideia do que se tratava, e pulava animadamente para diante, puxando Yam até que ela começasse a tropeçar nos próprios pés e seu corpo formasse uma linha diagonal, com o ombro bem à frente. – Newton! – gritou mais uma vez, embora sem resultado. – Newton! Pare!

Ramiro observou, divertido, o cão continuar sua corrida, movendo-se com mais velocidade do que ele poderia imaginar que conseguisse com as patinhas gorduchas. Yam fazia uma corajosa tentativa de continuar segurando a guia, mas agora Newton latia feito louco, e prosseguia com vigor igual.

– Srta. Sanchéz, deixe-me segurar a guia – gritou ele, lançando-se em seu auxílio.

Não era a maneira mais glamorosa de bancar o herói, mas qualquer coisa servia quando se estava tentando impressionar a irmã da futura noiva.

No entanto, assim que Ramiro a alcançou, Newton deu um puxão violento na guia, soltando-a da mão de Yam. Ela deu um gritinho e apressou o passo, mas o cão já estava longe, enquanto a guia serpenteava pela grama, atrás dele.

Ramiro não sabia se ria ou resmungava. Era evidente que Newton não queria ser alcançado.

Yam parou por um momento e levou uma das mãos à boca. Então olhou para Ramiro e ele teve a desagradável sensação de que sabia o que ela pretendia fazer.

– Srta. Sanchéz – falou apressadamente. – Tenho certeza de que...

Mas ela já estava longe, correndo e berrando “Newton! ” com uma decidida falta de decoro. Ramiro deixou escapar um suspiro cansado e começou a segui-la, também em alta velocidade. Não poderia deixá-la ir atrás do cão sozinha e ainda considerar-se um cavalheiro.

Ela estava um pouco mais à frente dele, porém, e quando ele conseguiu alcançá-la, ao dobrar a esquina, Yam parou. Respirava com dificuldade, com as mãos nos quadris, enquanto perscrutava a vizinhança.

– Aonde ele pode ter ido? – indagou Ramiro, tentando ignorar que havia algo muito excitante em uma mulher ofegante.

– Não sei. – Ela tentava recuperar o fôlego. – Acho que estava perseguindo um coelho.

– Ah, que ótimo. Isso vai tornar bem fácil pegá-lo – falou ele. – Considerando que coelhos não gostam de se esconder...

Ela fez uma careta ao ouvir o comentário irônico.

– O que vamos fazer?

Por pouco, Ramiro não respondeu “Vá para casa e me traga um cachorro obediente”, mas, ao vê-la tão preocupada, desistiu. Na verdade, ao olhá-la com atenção, ela parecia mais irritada que preocupada, mas decerto havia uma ponta de preocupação naquela mistura.

Então ele disse:

– Proponho esperarmos até ouvir alguém gritar. A qualquer minuto ele vai se lançar entre os pés de alguma jovem e quase matá-la de susto.

– O senhor acha mesmo? – Ela não parecia muito convencida. – Porque ele não é o cachorro mais assustador que existe. Ele acha que é, e é muito engraçadinho, de fato, mas a verdade é que ele...

– Aaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiii!

– Acho que temos uma resposta – observou Ramiro, e partiu na direção de onde vinha o grito anônimo de mulher.

Yam adiantou-se, cortando caminho pela grama rumo a Rotten Row. O visconde corria à sua frente, e tudo em que ela conseguia pensar era que ele devia querer muito casar-se com Chiara, porque, apesar do fato de ser, evidentemente, um atleta esplêndido, parecia muito pouco digno correndo pelo parque atrás de um Corgi roliço. Pior ainda, eles teriam que seguir assim pela Rotten Row, o local favorito da alta sociedade para cavalgar e andar de carruagem.

Todos iam vê-los. Um homem menos determinado já teria desistido muito tempo antes. Yam continuava no encalço deles, mas estava ficando para trás. Não usava calças compridas em muitas ocasiões, mas tinha certeza de que era muito mais fácil correr com elas que de vestido. Especialmente quando se estava em público e não se podia erguê-lo acima do tornozelo.

Quando alcançou a Rotten Row, recusou-se a olhar para qualquer das senhoras e dos cavalheiros na moda em seus cavalos. Ainda havia a chance de não ser reconhecida como a senhorita espirituosa que corria pelo parque como se alguém tivesse ateado fogo a seus sapatos. Não era uma possibilidade muito provável, mas já era alguma coisa.

Ao voltar para a grama, Yam tropeçou e teve que fazer uma pausa para respirar. Então, ficou horrorizada. Estavam quase na The Serpentine.

Ah, não.

Não havia nada que Newton gostasse mais que pular em um lago. E o sol estava quente o suficiente para que parecesse tentador – ainda mais para uma criatura coberta de pelo denso e pesado, uma criatura que correra a uma velocidade vertiginosa por cinco minutos. Bem, vertiginosa para um Corgi gorducho.

O que ainda era, Yam notou com algum interesse, rápido o suficiente para manter a distância um visconde de mais de 1,80 metro.

Ela ergueu as saias pouco mais de um centímetro – que se danassem os observadores, mas ela não podia se permitir ser pudica agora – e saiu correndo novamente. Não havia meio de alcançar Newton, mas talvez ela conseguisse chegar até lorde Bridgerton antes que ele matasse seu cãozinho.

Ele só podia estar pensando em morte naquele momento. O homem seria um santo se não quisesse acabar com a vida daquele cão.

E, se um por cento do que fora escrito a respeito dele no ForNow fosse verdade, ele não era nenhum santo.

Yam engoliu em seco.

– Lorde Bridgerton! – gritou, com a intenção de dizer-lhe que interrompesse a perseguição. A única solução seria esperar que Newton se cansasse. Com pernas de 10 centímetros, isso não deveria demorar muito. – Lorde Bridgerton! Podemos apenas...

Antes de terminar de falar, Yam tropeçou nos próprios pés. Era Chiara ali, próxima ao lago Serpentine? Estreitou os olhos para ver melhor. Era a irmã, parada graciosamente com as mãos entrelaçadas à frente. E parecia que o infeliz Sr. Berbrooke fazia algum tipo de reparo no cabriolé.

Newton parou por um instante, avistando Chiara ao mesmo tempo que Yam, e mudou seu curso de imediato, latindo com alegria ao correr na direção da amada.

– Lorde Bridgerton! – gritou Yam mais uma vez. – Veja! Lá...

Ramiro deu meia-volta ao ouvir a voz dela, então seguiu o dedo que apontava para Chiara. Tinha sido por isso que o maldito cão girara nos calcanhares e alterara seu caminho. Ramiro escorregou na lama e quase caiu sentado, tentando manobrar uma virada tão súbita.

Ele ia matar aquele cão.

Não. Ele ia matar Yam Sanchéz.

Não, talvez...

Seus animados pensamentos de vingança foram interrompidos pelo grito repentino de Chiara:

– Newton!

Ramiro gostava de achar que era um homem decidido, mas, quando viu que o cão se lançava no ar e precipitava-se para a Srta. Sanchéz mais nova, ficou simplesmente paralisado pelo choque. Nem Shakespeare teria imaginado um fim mais apropriado para aquela farsa, que se desenrolava diante de seus olhos como se estivesse em câmera lenta.

E não havia nada que ele pudesse fazer.

O cão ia atingir Chiara em cheio e, por sua vez, ela cairia para trás.

Direto no lago Serpentine.

– Nããããão! – gritou ele, lançando-se para a frente, embora soubesse que qualquer tentativa de heroísmo seria inútil.

Splash!

– Meu Deus! – exclamou Berbrooke. – Ela está ensopada!

– Ora, não fique parado aí – atalhou Ramiro, chegando à cena do acidente e lançando-se para dentro d’água. – Faça alguma coisa para ajudar!

Era evidente que Berbrooke não entendia o que isso significava, pois simplesmente ficou parado, com os olhos arregalados, enquanto Ramiro se esticava, pegava a mão de Chiara e a erguia.

– A senhorita está bem? – perguntou ele.

Ela assentiu, cuspindo e espirrando com força em resposta.

– Srta. Sanchéz – resmungou ao ver Yam parada na margem. – Não, não a senhorita – acrescentou, percebendo que Chiara olhara para ele. – Sua irmã.

– Yam? – indagou ela, piscando várias vezes para expulsar a água suja dos olhos. – Onde está Yam?

– Ali, bem sequinha – murmurou ele, depois gritou para ela: – Pare esse maldito cachorro!

Newton pulara com alegria para fora do lago e agora estava sentado na grama, com a língua de fora. Yam correu para ele e agarrou a guia. Ramiro percebeu que ela não contestara a ordem que ele lhe dera. Ótimo, pensou maldosamente. Não havia imaginado que a estúpida mulher teria o bom senso de manter a boca fechada.

Virou-se para Chiara, que contra todas as expectativas ainda conseguia manter-se adorável mesmo ensopada.

– Deixe-me tirá-la daqui – falou e, antes que ela tivesse a chance de reagir, ergueu-a nos braços e carregou-a para terra firme.

– Nunca vi nada assim – comentou Berbrooke, balançando a cabeça.

Ramiro não disse nada. Não achava ser capaz de falar sem empurrar aquele idiota para dentro d’água. Em que ele estava pensando ao ficar parado ali enquanto Chiara se afogava por causa daquele cão ridículo?

– Chiara? – chamou Yam, andando até onde a guia lhe permitia. – Você está bem?

– Acho que a senhorita já fez o bastante – retrucou Ramiro, avançando na direção dela até estarem a cerca de um metro de distância.

– Eu? – disse Yam, arfando.

– Olhe para ela – respondeu ele, apontando um dedo para Chiara embora sua atenção estivesse concentrada em Yam. – Olhe só para ela!

– Mas foi um acidente!

– Eu estou bem! – gritou Chiara, parecendo um pouco assustada com o nível da raiva que crescia entre a irmã e o visconde. – Com frio, mas bem!

– Viu? – Yam virou-se e se deu conta do desalinho da irmã. – Foi um acidente.

Ele se limitou a cruzar os braços e arquear uma das sobrancelhas.

– O senhor não acredita em mim – suspirou ela. – Não creio que esteja duvidando de mim.

Ramiro continuou em silêncio. Era inconcebível para ele que Yam Sanchéz, com toda sua espirituosidade e inteligência, não sentisse inveja da irmã. E, mesmo que não houvesse nada que ela pudesse ter feito para evitar aquele contratempo, decerto apreciava o fato de estar seca e confortável enquanto Chiara parecia um rato afogado. Um rato atraente, sem dúvida, mas afogado.

Mas, pelo visto, Yam não dera a conversa por encerrada:

– É evidente que eu nunca faria nada para machucar Chiara. Além disso, como o senhor supõe que eu operaria essa proeza? – Ela espalmou a mão livre no rosto, fingindo surpresa. – Ah, claro, eu conheço a linguagem secreta dos Corgis. Ordenei a Newton que puxasse a guia da minha mão e então, como eu tenho a capacidade de prever o futuro e sabia que Chiara estaria parada bem aqui, à margem do lago, disse a ele, graças à nossa poderosa conexão mental, já que ele estava muito longe para ouvir minha voz, que mudasse de direção, corresse para Chiara e a derrubasse dentro d’água.

– Ironia não lhe cai bem, Srta. Sanchéz.

– Nada lhe cai bem, lorde Bridgerton.

Ramiro inclinou-se e projetou o queixo à frente da maneira mais ameaçadora que pôde.

– As mulheres não deveriam ter bichinhos de estimação se não conseguem controlá-los.

– E os homens não deveriam levar as mulheres com bichinhos de estimação para uma volta no parque se não podem controlar nenhum deles – retrucou ela.

Ramiro sentiu as pontas das orelhas esquentando com a raiva mal controlada.

– A senhorita é uma ameaça à sociedade.

Ela abriu a boca como se fosse devolver o insulto, mas, em vez disso, apenas lhe ofereceu um sorriso irônico, virou-se para o cão e disse:

– Se sacuda, Newton.

O animal ergueu os olhos para o dedo dela, que apontava direto para Ramiro, então se aproximou dele obedientemente antes de se sacudir todo, espirrando água do lago para todos os lados.

Ramiro esticou a mão para o pescoço dela.

– Eu... vou... MATÁ-LA! – rugiu ele.

Yam saiu do caminho dele bem rápido, ficando mais perto de Chiara.

– Ora, ora, lorde Bridgerton – provocou, mantida em segurança pelo corpo da irmã, que ainda pingava. – Não seria de bom-tom perder a paciência na frente da doce Chiara.

– Yam? – sussurrou a mais jovem. – O que está acontecendo? Por que você está sendo tão má com ele?

– Por que ele está sendo tão mau comigo? – sibilou Yam.

– Esse cão – disse subitamente o Sr. Berbrooke – me molhou todo.

– Molhou a todos nós – retrucou Yam.

Incluindo ela mesma. Mas valera a pena. Ah, como valera ver a expressão de surpresa e de raiva no rosto daquele aristocrata pomposo.

– Você! – rugiu Ramiro, apontando um dedo furioso para Yam. – Cale a boca.

Ela obedeceu. Não era tão imprudente a ponto de provocá-lo ainda mais. Parecia que a cabeça dele ia explodir a qualquer instante. E decerto ele perdera toda a dignidade que tivera no início do dia. Sua manga direita pingava por ele ter enfiado o braço dentro do lago para resgatar Chiara, as botas pareciam arruinadas para sempre e seu corpo inteiro respingava graças à destreza de Newton para sacudir-se.

– Vou lhe dizer o que nós vamos fazer – prosseguiu ele numa voz baixa, mortal.

– O que eu preciso fazer – atalhou o Sr. Berbrooke com jovialidade, evidentemente sem perceber que lorde Bridgerton estava disposto a assassinar a primeira pessoa que abrisse a boca – é terminar de consertar o cabriolé. Então poderei levar a Srta. Sanchéz para casa – concluiu apontando para Chiara, caso alguém não soubesse a qual das senhoritas se referia.

– Sr. Berbrooke, o senhor sabe consertar um cabriolé? – perguntou Ramiro.

O homem piscou algumas vezes.

– O senhor ao menos sabe o que há de errado com o cabriolé?

Berbrooke abriu e fechou a boca algumas vezes, então disse:

– Tenho algumas ideias. Não deve demorar muito para que eu entenda qual é o problema.

Yam olhou para Ramiro, fascinada pela veia que pulsava no pescoço dele. Ela nunca vira um homem tão claramente levado ao limite. Sentindo-se um pouco apreensiva com a explosão iminente, deu um passo para trás de Chiara.

Não se considerava uma covarde, mas o instinto de autopreservação falou mais alto.

O visconde, porém, conseguiu, de alguma forma, manter-se no controle, e sua voz estava muito tranquila quando disse:

– Eis o que vamos fazer.

Yam, Chiara e Berbrooke o fitaram em expectativa.

– Vou até ali – falou, apontando para uma senhora e um cavalheiro a cerca de 20 metros deles que tentavam não olhar, embora não conseguissem – pedir a Maxi que me empreste a carruagem dele por alguns minutos.

– Ora, aquele homem erguendo o pescoço é Maximiliano Ponte? – indagou Berbrooke. – Não o vejo há séculos.

Uma segunda veia começou a saltar. Dessa vez, na têmpora de lorde Bridgerton. Yam segurou a mão de Chiara em busca de apoio moral e apertou-a bem forte.

Em sua defesa, porém, Ramiro ignorou a pergunta inapropriada de Berbrooke e continuou a narrar seu plano:

– Como ele dirá que sim...

– O senhor tem certeza? – retrucou Yam, sem pensar.

De alguma forma, os olhos castanhos dele pareceram gelo.

– Certeza de quê? – questionou ele.

– De nada – murmurou ela, pronta a dar um chute em si mesma. – Continue, por favor.

– Conforme eu dizia, como amigo e cavalheiro – prosseguiu, lançando um olhar severo a Yam –, ele não vai se opor, então levarei a Srta. Sanchéz para casa, depois eu voltarei para casa e pedirei que um de meus homens devolva o cabriolé de Ponte.

Ninguém se preocupou em perguntar a qual das duas irmãs ele se referia.

– E quanto a Yam? – indagou Chiara.

Afinal, o cabriolé tinha apenas dois lugares.

Yam deu um apertão na mão dela. Querida e doce Chiara.

Ramiro encarou Chiara.

– O Sr. Berbrooke acompanhará sua irmã até em casa.

– Mas eu não posso – retrucou Berbrooke. – Tenho de terminar o reparo no cabriolé.

– Onde o senhor mora? – perguntou Ramiro.

Berbrooke piscou, surpreso, mas deu-lhe o endereço.

– Vou parar em sua casa para buscar um criado que fique aqui tomando conta do cabriolé enquanto o senhor acompanha a Srta. Sanchéz à casa dela. Está claro?

Fez uma pausa e fitou cada um, incluindo Newton, com uma expressão muito severa. A não ser Chiara, é claro, que fora a única pessoa ali que não desafiara seu humor.

– Está claro? – repetiu.

Todos assentiram e seu plano foi posto em prática. Minutos depois, Yam via lorde Bridgerton e Chiara sumirem no horizonte – as duas pessoas que jurara nunca deixar no mesmo cômodo juntas.

Pior ainda, ela fora deixada sozinha com o Sr. Berbrooke e Newton.

E bastaram apenas dois minutos para que ela percebesse que, dos dois, era Newton quem tinha a melhor conversa.



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