História Oh, my youth - Capítulo 2


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Categorias Bangtan Boys (BTS), Red Velvet
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Palavras 4.008
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Por favor, se o texto ficou muito grande ou confuso, pode me dar o feedback, não fique com vergonha (rsrs).
Tenha uma ótima leitura!

Capítulo 2 - Porque, se for para ser...


Estava tudo à flor da pele. Os dias passavam sem que eu tivesse a plena consciência daquilo, o que era estranho.

Não consegui pregar o olho, mantendo-me neste estado de insônia por duas noites seguidas. Talvez o meu cérebro estivesse entrando em curto quando, enfim, deixei-me levar pelo cansaço ao término da terceira madrugada em claro. O que, infelizmente, não durou mais do que uma hora.

Despertei subitamente a quase protagonizar uma cena de ataque cardíaco tamanho susto que roubou parte do meu espírito. Sentei-me em meio aos cobertores a cruzar as pernas e tatear ainda de olhos fechados e cara amassada em busca do meu aparelho celular qual tocava incessantemente há sabe lá quanto tempo. Contabilizei duas chamadas perdidas quando, finalmente, consegui alcança-lo e encher o peito de coragem para atendê-lo.

“Quem é?” perguntei sem a menor cerimônia, era quase impossível sentir os meus lábios se moverem tamanho o cansaço.

Tae Hyung?” a outra voz aparentava estar no mesmo estado qual eu me encontrava. Éramos duas almas deploráveis. Yoon Gi, só poderia ser.

Espera. Yoon Gi, oppa? Tae Hyu...

Tossi engasgando-me subitamente com sabe-se lá o que, após engolir em seco.

Passei a mão livre no rosto a lutar internamente para, de fato, despertar.

Oh céus, que horas são?

 

“Tae Hyu...” o último nome saiu quase como um sussurro e, ao perceber em qual degrau da nossa história estávamos, fui incapaz de pronunciá-lo por completo. “Tae Hyun...” repeti inconscientemente, falhando assustadoramente, presa em uma espécie de déjà vu.

Oh, Doong-Doongie, é você...” Yoon Gi interrompeu a frase de repente com um grunhido assonorentado, seguido de um bocejo. “Pode passar o celular para o dongsaeng?” indagou e suspirou arrastado estalando a língua no final. Éramos e estávamos deploráveis. Ou talvez, ele nem tanto.

Saltei para fora da cama, meus pés indo de encontro com o piso frio, minha mão livre em busca do interruptor. Meu corpo tremia em um misto de adrenalina e anestesia jamais sentido.

Droga.

 

Visualizei o quarto com dificuldade, porém em estado de alerta.

Eu estava sozinha.

Droga.

 

Segui para a cozinha um pouco cambaleante, tropeçando no vazio umas duas vezes, encontrando equilíbrio ao segurar na porta da geladeira. Aquilo definitivamente não se tratava de mais um dos meus terríveis pesadelos.

Mas é claro, Soo Young.

 

Larguei o jarro d’água onde estava, fechando a porta do eletrodoméstico, sentando-me no chão.

Doong-Doongie?” Indagou já impaciente, porém ainda de maneira preguiçosa.

“Yoon Gi, eu juro que...”, parei tentando encontrar novamente o ponto da conversa onde gostaria de chegar. “O Tae não está com você?”

Não. Há três dias para ser mais exato...”, pausou e ouvi o que parecia ser Yoon Gi levantando-se, deixando algo cair. “Soo Young, aconteceu alguma coisa que eu deva saber?

Soo Young, aconteceu alguma coisa que ele deva saber?

Soo Young?

Escuta, eu preciso falar com o dongsaeng. Combinamos que assim que ele voltasse de férias, ou seja, hoje, ele iria trabalhar no meu turno, mas ele não apareceu e, agora, nosso chefe está me ligando de cinco em cinco minutos e com razão. Há muitas reuniões para organizar e encontros com sócios e o Tae não está lá para assumir, o lugar... o setor... Caótico, é isso.” Suspirou quebrantado.

“Ele não atende o celular?”, ousei, os olhos partindo em busca de uma solução além da janela.

Não...”, estalou a língua a dizer, mas logo prolongou a negativa entonando uma dúvida. “Doong-Doongie, eu trabalhei até tarde ontem, então não estou em condições de bolar teorias mirabolantes... Soo, o que está acontecendoVocês brigaram?” Questionou, agora, obrigatoriamente tão desperto quanto eu.

“Eu não...”, mudei drasticamente o discurso a praticamente correr rumo ao quarto e apanhar um sobretudo para disfarçar o meu pijama. “Vinte minutos, me liga em vinte minutos”, falei encerrando a ligação.

Prendi os fios emaranhados do meu cabelo em um desajeitado rabo de cavalo seguindo para um laço na veste grossa que me protegia do frio da manhã e dos olhares sobre minhas roupas de dormir. Deslizei meus pés nus em um sapato qualquer e saí cega de desespero em busca do meu ex-namorado. E foi desta maneira, a sentir o meu coração pulsar em cada superfície do corpo, que continuei correndo a caminho do único lugar em todo o país que tinha plena certeza que o encontraria.

Por que tudo isso agora?

 

O celular dentro do bolso não parava de tocar, confirmando uma preocupação exagerada esperada vinda de Min Yoon Gi. A verdade era que eu simplesmente não conseguia lhe contar a verdade, não ali, não neste estado psíquico e não...

Droga, por quê? Por que, Soo Young? Quem é que faz uma coisa dessas, afinal?

 

Aigoo, Tae Hyung atende o celular, por favor” murmurava repetidas vezes com o aparelho telefônico rente ao ouvido, ainda a perambular pelas ruas.

Realmente esperava estar certa de onde Kim Tae Hyung provavelmente estaria.

Soo Young?”, escutei o som abafado do outro lado da linha, junto de sua respiração pesada. “Park Soo Young, é você?” repetiu e nada fui capaz de responder. Parei de correr, o mundo físico era silêncio, minha visão tornou-se turva, um iceberg ocupava todo espaço em meu estômago.

“Kim, Seok Jin” balbuciei, inteiramente convicta de tal afirmação.

Aigoo, como?

Desisto.

 

Sim, eu ainda carregava seu número registrado na agenda eletrônica, com DDD e tudo, e, sempre tive receio de discá-lo por engano, o que jamais acontecera... até então. Não sabia que o mesmo também possuía o meu depois de tanto tempo. Após todos estes anos.

Senti-me péssima.

Aigoo...”  Zombou entre risos, completamente avulso ao clima em que eu me encontrava. “Como está? Céus, faz muito tempo que não escuto a sua voz”, dizia entusiasmado, sem pausas, quando enfim deu uma para respirarEstá em... Tóquio, certo?” riu.

“Seok Jin, eu... p-preciso desligar”, murmurei retomando os passos rápidos, sendo impulsionada por uma vendedora de legumes qual eu mesma havia esbarrado e quase derrubado sem querer.

Pisquei rapidamente, respirando profundamente e segui mais lúcida desta vez, desviando-me da multidão e dos veículos.

Fez-se silêncio novamente; houve vozes a preencherem o vazio entre nós, um papo sobre temperos e massas italianas e um demorado “Hum” da parte de Kim Seok Jin.

Okay, tudo bem”, murmurou com a habitual áurea pacíficaCerto. Falamo-nos mais tarde, então? Posso te ligar? Digo,” hesitou “não nos vemos há anos, gostaria que trocássemos mais palavras”. Diminuía a velocidade do diálogo.

Um aviso de mensagem atrapalhou o sinal, fazendo-me retornar à realidade novamente, submergir.

“C-claro, tudo bem”, concordei um pouco desnorteada, desligando o aparelho.

Não cheguei a ler a mensagem de Yoon Gi e, já de fôlego recobrado, tornei a correr feito louca.

Minutos mais tarde, adentrei o orfanato quase sem ar, correndo pelos corredores em busca de Matsuda, a diretora e segunda mãe de Tae Hyung. Ela mesma permitira que o mesmo lecionasse aulas extras de história para as crianças onde, literalmente, Tae contava a história do país de uma forma mais lúdica e tirava dúvidas de informática dos funcionários sendo estes mais ‘tradicionais’, fazendo essas ações sempre no escasso tempo que a empresa de animação e jogos liberava em sua agenda. Nem preciso dizer que ele amou a ideia e que eu mesma embarquei nesta correria mais gostosa que eram os seus dias de folga. Kim Tae Hyung mostrou-me um outro lado das pessoas, o que eu achava ter morrido há anos, o lado da empatia, do amor ao próximo e da temperança.

Fato era que, em todas as vezes que ele precisava ‘dar um tempo’ para qualquer coisa, este sempre fora seu lugar favorito, não importava a correria ou estresse dos seus expedientes. Eu só esperava encontrá-lo ali. Realmente contava com esta dádiva.

“Tae Hyung, oppa”, gritei com o resto de energia que restava, a voz um soco rouco, porém fraco. Estava longe do dormitório das crianças e próxima ao dos funcionários e da administração, então... Por que não? “Kim Tae Hyung!”, exclamei mais baixo aflita procurando-o.

“Soo Young-chan, o que está acontecendo?” Matsuda segurou-me pelo antebraço, impedindo-me de prosseguir. Ela havia entrado por outro caminho, o arco que dava para o jardim.

“Tae Hyung... o Tae esteve aqui hoje, ontem, anteontem?” Perdia-me em seus olhos preocupados e confusos que pareciam buscar avidamente uma fresta de sanidade em minhas palavras.

Nisto, antes de mais uma só palavra, a porta de um dos quartos, atrás de nós duas, se abriu rompendo o silêncio que havia tomado forma naquele corredor escuro devido à falta de iluminação natural àquela hora da manhã.

“Soo...? Aconteceu alguma coisa?” Kim Tae Hyung questionava confuso a falar em japonês em respeito à Matsuda. Forçou a vista para acostumar-se com a pouca claridade quando saí da frente de uma das estreitas janelas e trazia a voz aveludada por provavelmente ter sido acordado com os meus chamados. Matsuda o encarou, porém logo voltou a atenção para mim, deixando a cesta que segurava ao pé da porta.

“Está tudo bem, querida?” A senhora de olhar maternal insistiu a segurar as minhas duas mãos e esquentá-las por incertos segundos. Anuí em resposta, sentindo todo o sangue do meu corpo desaparecer. Desvencilhei-me de Matsuda com sutileza e sentei-me rente à parede, cobrindo o rosto com as mãos.

“Vou pegar um copo de água para você, espere aqui”, ela disse.

“Baa-chan, cuidarei dela”, Tae Hyung falou educadamente, seus dedos encontrando meu punho desprotegido. Eis que a mulher de vestes simples e um perfume típico de flores, abriu um meio sorriso anuindo, permitindo que ficássemos sozinhos, voltando a pegar a cesta de legumes e verduras qual pusera no chão a fim de conter-me, instantes mais cedo.

Kim Tae Hyung que vestia um robe preto, agora, o fechava disfarçadamente escondendo o tórax sem outra peça de roupa. A calça esportiva de moletom denunciava que ele nem cogitara retornar para o apartamento que dividia com Yoon Gi, como o mesmo dissera ao telefone, mas eu não estava ali para confirmar a veracidade do que o hyung do meu ex-namorado falara, estava ali por ele, por receio de perde-lo ainda mais. Adentramos o cômodo e ele encostou a porta devagar sem a trancar, conduzindo-me na mesma velocidade em direção à sua cama desarrumada, indicando para que eu me sentasse e, feito isso, caminhou em silêncio até outro canto do cômodo confortavelmente minúsculo, onde havia uma garrafa térmica e coisas básicas de cozinha, permitindo que os meus pensamentos e emoções mais afloradas fossem se dissipando, e, claro, mais lágrimas se foram com isso.

“Ei, Soo...” Voltei para a realidade ao ouvi-lo sussurrar, levantei o olhar e parei de mexer em minhas unhas postiças. “... o que foi isso?”, perguntou e entregou-me uma xícara de chá verde. Ele agora vestia uma blusa de frio acinzentada, abandonando o robe.

Segurei a xícara, fitando Tae Hyung um pouco mais antes de a minha voz despertar de uma trégua concedida por mim.

“Eu só...”, disse a enxugar o rosto com minha mão livre. “... pensei que... Aigoo, eu não queria que tivéssemos terminado desta forma. Não desse jeito. É-é desumano se parar para analisar. Fiquei preocupada com você. Yoon Gi disse que não conseguia entrar em contato contigo desde sexta”, pausei.

“Oh. Yoon hyung”, Tae Hyung deveria ter se lembrado da promessa, porque ficou um pouco desconcertado antes de continuar. Por fim, olhou no relógio a expirar todo ar dos pulmões.

“Eu não... Digo, eu sinto que não foi justo fazer o que fiz você passar, aliás, foram dois anos de relacionamento”, comecei e notei que quanto mais falava, pior tornava a situação.

“E não foi justo. Mas, e daí? Não podemos mudar o que aconteceu, certo?” Suas palavras apesar de serem ditas inocentemente, fez-me prender o fôlego. “Soo, eu estou tentando superar e entender o que tivemos durante todos esses dois anos e meio de relacionamento, entende? Digerir toda a questão de amor unilateral e não converter isso em raiva ou...”. Perdeu-se, inspirou e prosseguiu. “Soo Young, eu optei por seguir em frente, assim como eu te disse há três dias, não disse?” Dito isso, quase assenti.

“Enquanto lia cada página do seu diário, pensava o quanto você sofreu por ele”, tua voz embargou. “Confesso que também cheguei a achar fofa a forma como você se referia aos seus sentimentos, porque, na minha cabeça, você tinha superado; aquela era apenas uma paixão adolescente, a Park Soo Young com quinze anos. Mas, a cada página nova, tudo ficava pior, mais intenso, confuso, desiludido, pessimista... Daí compreendi que talvez eu estivesse no caminho errado, que estivéssemos a caminhar juntos em uma estrada que, desde o princípio, não suportava nosso peso juntos. Pensei que você houvesse superado, mas não”, repetiu. “E confirmei isto quando te perguntei da significância de tudo aquilo”, seus dedos tocaram os meus, seus olhos sinceros não desviavam, não se escondiam, eram claros.

“Soo, eu estou seguindo em frente e você deveria fazer o mesmo, porque, por mais torturante que seja pensar nesta realidade, sei que jamais voltaremos a ser um casal e eu quero superar tudo isso da melhor forma possível.” Soltou as minhas mãos, porém continuou o contado visual.

“Desejo que faça o mesmo e... sei lá, encontre o paradeiro dele, saiba o que ele faz atualmente, com quem ele está, se solteiro, casado, e, se for preciso, aproxime-se e converse com ele de forma amigável, afinal, ele faz parte de um período da sua história que precisa ser revisado para que você finalmente siga para a próxima página satisfeita com as suas escolhas”, finalizou.

 Tae Hyung, que estava agachado este tempo todo, levantou-se e, como que impulsionada por seu magnetismo, fiz o mesmo, recebendo inesperadamente um abraço nostálgico, aquele qual eu não recebia desde a época em que éramos somente amigos. Não havia toque, somente um esboço do gesto e uma emoção sem tamanhos a circundar-nos – e era horrível senti-lo desta forma, após ter provado durante dois anos e meio de seu afeto, porque isso significava uma barreira entre nós, um limite.  

O puxei para mim, mas foi em vão, ele continuou da mesma forma. Não queria perde-lo, não como melhor amigo, por mais que aquele gesto limitado representasse os maravilhosos meses que passamos como conhecidos, amigos e, de fato, melhores amigos. Sei que é egoísmo da minha parte, mas, como citei anteriormente, isso significava agora que algo realmente se rompera entre nós, era como se ele dissesse explicitamente ‘Não, Soo. Não somos tão íntimos para isso. Não tenho esse direito.’

Droga, eu não queria chorar, não aguentava mais, mas...

“Desculpe-me, desculpe-me, mas não posso, não posso, desculpe-me”, ele sussurrava como em uma melodia dolorosa aos meus ouvidos e acelerada, e, antes que eu o libertasse, senti uma folha de papel tocar a minha cintura.

“Isto é seu. Estava em uma divisória do seu diário. Eu a li, e, depois de tudo que ouvi até agora, sei que você não a leu, nem mesmo sabia da sua existência”, ele disse.

 O libertei de meus braços aos poucos como em um despertar, situando-me no espaço-tempo, digerindo a nova informação.

Meus olhos pousaram sobre a folha rosa amarelada que Tae Hyung segurava na tentativa de reconhece-la. Nada, nunca havia visto aquilo.

“É de Kim Seok Jin”, ele disse dando-me um beijo na testa.

E, sinceramente, para a minha surpresa, meu corpo não reagiu àquela revelaçãoao nome da minha antiga paixão a invadir o espaço que dividíamos desta maneira. Ao contrário de todas reações que hoje imaginaria que teria por deparar-me com a nova peça que me ligava ao meu passado, naquele instante, controlava-me para não desabar novamente segurando as lágrimas quando senti as dele, as de Kim Tae Hyung, caírem sem querer sobre mim. Era contra isso que minha matéria física e metal lutava. Uma, duas, três.

 “Desculpa”, ele balbuciou e saiu do quarto encostando a porta, sem olhar para trás.

Nunca havia visto meu namorado chorar.

Nunca havia visto meu melhor amigo chorar.

Jamais pensei que o feriria tanto ao ponto de chegar a participar e comandar este momento.  

 

Guardei a carta no bolso junto ao celular que vibrava incessantemente e caminhei rumo ao corredor onde estávamos no início de toda esta minha busca egoísta e desesperada por ele. Demorei a girar a maçaneta, dando uma espécie de intervalo não para mim, mas para ele.

Quando, enfim, saí para a claridade, Tae Hyung estava lá, indo em direção a um garotinho de pijamas e cabelos bagunçados que chorava sonoramente enquanto corria de braços abertos em sua direção.

Suspirei de repente, invadida por um sopro de ar gelado vindo da janela. Fechei os olhos e senti-me ser acalmada, os abrindo no instante seguinte; eles estavam pesados, mais pesados do que nunca. Posso afirmar que o cansaço e outra trégua finalmente vieram ao meu encontro.

Era a minha vez de ser a observadora.

Calei-me, concentrando-me no automático na cena que prosseguiu.

“Hyung!” a criança de, no máximo, cinco anos de idade usava de maneira adorável o pronome de tratamento coreano ainda aos prantos. Tae Hyung a envolveu em seus braços como um pai ao salvar o filho de um monstro escondido no armário.

“Kento, acalme-se. O que aconteceu? Hein?” Chamava a atenção do garotinho enquanto retirava o cabelo bagunçado grudado no rostinho molhado pelas lágrimas. “Estou aqui, nada de ruim vai acontecer”, deu ênfase a enxugar a face enrubescida de Kento.

“Ele é mais rápido do que eu hyung. Não consigo mais dormir... Vou ficar acordado para sempre porque ele está nos meus sonhos, é horrível...” O garotinho choramingava entre soluços escondendo o rosto, confirmando a suspeita de ser um simples pesadelo.

“Não, não. Ninguém fica acordado para sempre e você é muito forte, pode enfrentar esse pesadelo sozinho, não pode?” Tae Hyung disse com todo carinho e levantou uma das mãos como o super-homem enfatizando o questionamento, o que acabou atraindo o olhar do garotinho.

“É, consigo”, Kento afirmou a sorrir, passando as mãos pelo rosto.

“E o que vai dizer da próxima vez que tiver um pesadelo?”

Notando a demora do menino, Tae Hyung tratou logo de sussurrar disfarçadamente a frase de efeito em seu ouvido. “UM PESADELO NÃO VAI ME IMPEDIR DE DORMIR..., eu sou forte e posso mandar os monstros embora sozinho. Eles não são reais.” Disse a alternar a intensidade da euforia a medida que se esquecia do restante das palavras, as quais o mais velho repetira prontamente no meio do percurso.

Tae Hyung comemorou junto ao garotinho a reprimir uma gargalhada. Aquilo era muita fofura para ele, eu sabia.

Não consegui evitar. Sorri exausta.

Você está caótica, Soo Young; respire.

 

“Está tudo bem, querida?” Virei-me para fitar Matsuda que, por uma razão não externada, encarava a aliança em meu dedo.

Poxa vida, eu havia me esquecido de retirá-la. Anui encolhendo os ombros abaixando o olhar, retirando o arco delicado do anelar o fazendo escorregar pelo bolso do sobretudo.

Hyung, você também teve um pesadelo?” fui trazida de volta pela voz daquele garotinho esperto.

“O-o quê?”, pude escutar Tae Hyung indagar confuso e um pouco embaraçado a passar a mão livre pelo rosto que, de fato, entregava seu estado emocional pregresso.

“Estava chorando?” Kento inclinou a cabeça em dúvida a franzir a testa.

Matsuda sorriu balbuciando alguma coisa que não fui capaz de traduzir dadas circunstâncias.

 “A-ah, não”, Tae Hyung mentiu. “Um cisco entrou nos meus olhos quando abri a janela. Estava ventando bastante”. Completou e riu frouxo.

Kento não parecia muito convencido, mas...

“O que...” Tae Hyung segurou-se ao máximo para não rir, tendo que fechar os olhos fortemente quando falhou miseravelmente na tentativa. Ainda tinha o garoto nos braços e o mesmo pusera as mãozinhas no canto do rosto do mais velho e assoprava seus olhos empenhado em tirar os famosos ciscos dos olhos do seu professor, quando falhou.

“Ei, não fecha”, o garoto o repreendeu a estalar a língua em sinal de impaciência.

“Okay, Kento, eles já saíram”. Tae Hyung conseguiu dizer a fitar o garotinho que abriu um sorriso gigantesco súbito, arrancando risos não somente dele próprio, mas também de Matsuda.

“Eles nem estavam aí...”

Kento nos surpreendeu, arrancando agora boas gargalhadas dos dois.

“Não?” Tae Hyung insistiu e recebeu um aceno em negativa.

“Tae Hyung-sensei, pode chorar se precisar, eu também choro às vezes e me sinto bem melhor.” Enfatizou Kento, maneando com a cabeça levando as mãos pequeninas para o alto da cabeça.

Tudo se tornou silêncio.

 

“Obrigado, Kento. Agora, vamos. Vou te levar de volta para o seu quarto” Tae Hyung disse simplesmente e o garotinho assentiu a dar um belo gigantesco bocejo, deitando a cabeça no ombro do mais velho.  

“Você está realmente melhor, querida?” Matsuda quase sussurrou a olhar proativa e pousar a mão sobre meu ombro esquerdo.

“Sim”, assenti juntamente com a resposta. “Eu...” Uma careta insegura e tímida surgiu em meu rosto, lancei um rápido olhar para o relógio do celular e para a paisagem que começava a ganhar cor. “Vou para casa agora, preciso estar no laboratório em uma hora”.

E, felizmente, fui acolhida por seu sorriso empático.

“Use isso para o táxi, andou muito até aqui”, ela disse sem pretensão entregando-me o dinheiro suficiente para chegar em casa sem ter que sair correndo novamente pelas ruas da cidade.

Pensei em recusar, mas as minhas pernas contra-atacaram tal desfeita.

“Obrigada, prometo que trarei o valor de volta ainda nesta semana”, agradeci.

“Estará com tempo livre no último sábado do mês?”

Matsuda parecia planejar algo maior que eu tinha em mente.

“Pode ter certeza que, caso eu tenha, farei o impossível para estar aqui.” Dei a minha resposta rotineira para as suas propostas. Ela sorriu entusiasmada.

“Estarei a esperando, então. Nunca é demais um voluntário para animar as crianças e ajudar-nos com os preparativos de uma festa de aniversário”, ela disse e anuí sorrindo o máximo que minha exaustão psicológica permitia no momento.  

Dito isso, deixei o orfanato, tomei o táxi e, como o planejado, fui parar em casa em menos de dez minutos.

Eu estava comigo, de novo, e era bom.  

 

Não consegui abrir a carta ou dar atenção para as chamadas perdidas e mensagens de Min Yoon Gi. Pus-me debaixo do chuveiro e, também, me propus a não matutar mais nada em minha cabeça, parar de me culpar, pensar no passado, melhor, no futuro. Os pensamentos surgiam e desapareciam como uma nuvem de formato irregular; iam e partiam sem apego por parte dos meus neurônios. Eu estava tirando um tempo para economizar sinapses e dores de cabeça, caminhava em busca do equilíbrio interno. Aprendi esta técnica com a pessoa que mais feri, mas que, contraditoriamente, propôs-me uma cura. Pelo menos, acho que fora isso que consegui captar, mas às vezes eu acho muita coisa.

Era melhor pensar desta forma.  

Quando a banheira encheu quase por completo com a água do chuveiro, imergi uma única vez. Um dia repleto de análises e listas de manipulação estavam à minha espera. Deixei o banheiro e segui para o quarto onde o guarda-roupas já se encontrava aberto.

Olhei de relance para o meu celular encima da cama; o mesmo acabava de indicar uma nova mensagem. Irene. A minha melhor amiga e colega de trabalho provavelmente esquecera de encher o tanque do carro na noite anterior e não poderia oferecer carona dessa vez. Segui com o estipulado, estando prontamente vestida e prestes a encaixar o último brinco de pressão em minha orelha quando outro aviso de mensagem surgiu na tela do aparelho.

Kim Seok Jin.

 

E se a pessoa que você tanto amou platonicamente fosse completamente o oposto do seu conceito sobre ela? Você fugiria, superaria? E se ela fosse quase exatamente o mesmo? Faria o mesmo, o contrário? Bom, dadas as circunstâncias e o meu total desconhecimento sobre tais respostas naquele momento, optei por continuar com o meu planejamento inicial; responder Irene e pegar o primeiro metrô para o laboratório. Eu precisava viver a minha vida, desvencilhar-me de um relacionamento delicado, rompido e recente antes de tudo o que quer que me propusesse a fazer com relação a este assunto.

Se não for para ser, então, não será, mas se for para ser...

"[...] aproveite cada segundo" ele diria, como nos velhos tempos. 



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