História Old Yellow Bricks- Bubbline - Capítulo 2


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Palavras 5.175
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), LGBT, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Universo Alternativo, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Desculpem a demora e os erros. Eu jurava que eu tinha postado o capitulo em junho, esse mês foi uma loucura, estou bem perdida até agora jhfuhfufh. Espero que gostem desse capítulo, e obrigada pelos favoritos e comentários <3

Capítulo 2 - Capítulo 1- Love Bug


Capítulo 1- Love Bug

O anfiteatro estava cheio, era difícil encontrar alguém familiar em meio a tantos rostos. Procurei por uma cabeleira loira com roupas coloridas, porém sem sucesso. De longe avistei Marceline, junto ao grupo das lideres de torcida, que pareciam comentar sobre algo importante, entretanto a morena não parecia dar a mínima para o que estava sendo dito. Para mim era cômico o fato da garota fazer parte daquele grupo, não acho que combina com ela, e ouso dizer que a mesma não parece gostar daquilo, só de olhar para elas era notável as diferenças. As outras meninas estavam sempre com bastante maquiagem, saias, tiaras, presilhas, unhas feitas... Enquanto Marceline sempre vestia jeans, tanto no verão quanto no inverno, as camisetas sempre variavam, mas os tênis também eram os mesmos todos os dias, parecia que ela nunca penteava os cabelos, pois seus fios estavam sempre bagunçados. Às vezes queria entender o que a levou se enfiar naquele buraco. Talvez ela tenha caído no errado.

–Olá Bonnie. Como está? – assustei-me ao ouvir a voz de Finn atrás de mim.

–Olá Finn, estou normal e você?

–Estou legal– disse sorrindo sem que deixasse seus dentes a mostra– Vamos sentar junto ao Jake e a Iris, eles estão logo ali.

Eu e Finn muitas vezes parecíamos dois robôs conversando, mas na verdade era mais um costume, que acabou virando uma brincadeira nossa, na maioria das vezes nos cumprimentávamos com as mesmas frases, um pouco esquisito da nossa parte, mas acho que foi essa anormalidade que me levou a ser amiga do garoto.

Antes de ir em direção aos meus amigos dei uma ultima olhada em Marceline e nossos olhares se cruzaram, o que me fez desviar o meu rapidamente.

Eu não tinha visto meus amigos durante as férias, as minhas foram resumidas em livros, desenhos, teclado e jogos. O que eu mais gostava neles é que eles sempre estavam lá, do mesmo jeito, às vezes Jake aparecia com um pouco de barba, Iris com o cabelo em formas diferentes, Finn cada vez mais alto, porém eles sempre continuavam sendo os mesmos idiotas de sempre, sinto que talvez eu não os perca para o tempo ou distancias. Durante todos esses anos, eles me viram em meus piores momentos, mas viveram os meus melhores comigo, eu tenho muita sorte.

–Bom dia galera– cumprimentou Jake, fazendo um toque especial com Finn.  Apesar de parecer de estar cansado, ele tinha uma boa animação.

–Oi Jake, oi Iris– disse sentando ao lado de minha amiga que me puxou para um meio abraço.

Sentamo-nos em assentos perto da saída do anfiteatro, pois sabíamos que seria mais fácil para sairmos e pegarmos lugares, já que o intervalo estava próximo e costuma ficar lotado.

–Como foram as férias de vocês? – Iris perguntou, animada. Admirava isso nela, parecia que não existia dia ruim, era raro ela deixar escapar algo ruim.

Finn e Jake contaram sobre a viagem que fizeram, os pais dos garotos tinham os levado para o Arizona, onde conheceram o Grand Canyon. Iris contou que foi para Toronto com o pai, que precisava resolver alguns negócios, mas não queria ficar longe da filha durante as férias. As famílias dos meus amigos pareciam tão legais, claro que cada uma tinha seus defeitos, mas eles amavam seus filhos, isso era obvio. O pai de Iris tinha tanto orgulho dela, toda vez que eu os via juntos era perceptível o olhar contente que ele dirigia a ela. Tudo o que eu mais queria é que meus pais gostassem de mim de verdade, por quem eu sou, e não por quem eu finjo ser para eles.

–E você Bonnie? Não fez nada? –Jake parecia curioso para saber sobre minhas férias entediantes.

–Não. Meu pai não tirou férias no trabalho, então passei a maior parte do tempo em casa, com meu irmão e minha mãe.

Ao citar minha mãe meus amigos se entreolharam com uma feição mais seria e um silêncio um pouco desagradável tomou conta do nosso meio, até que Jake resolveu o quebrar.

–Não vou nem perguntar se foi divertido, porque não deve ter sido– disse rindo um pouco, tentando quebrar o clima.

Eu soltei uma breve gargalhada, fazendo os outros relaxarem.

–Tudo bem, foi normal, nada que eu não esteja acostumada.

Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, o diretor bateu no microfone para que cessássemos a conversa para ouvi-lo. Ele falava as mesmas coisas de todos os anos, era cansativo de ouvir, a maioria das coisas ditas eram óbvias. Senti como se estivesse sendo observada e percorri meu olhar sob as pessoas sentadas ao meu redor até encontrar Fionna, ela sorriu e acenou para mim e eu correspondi. Tivemos uma relação conturbada, mas erámos amigas ainda, pelo menos eu acho, o que era bom já que ela é prima de Finn e Jake, ou seja, teríamos de conviver juntas de qualquer forma.

********

Após a palestra, Iris e eu nos dirigimos para o refeitório, meus amigos abandonaram a nós duas para conversar com outras pessoas. Os corredores estavam cheios de cartazes espalhados, estes convidavam as pessoas para participar de grupos e aulas extracurriculares. Minha amiga contava que queria entrar para as aulas de desenho assim como no ano passado, e eu concordei com ela dizendo que também retornaria a essas aulas, e ela tentava me convencer a entrar para o jornal da escola, dizendo que seria bom para mim, além de pedir para que eu fizesse aulas de robótica com ela, o que eu não queria e então entramos em uma breve discussão, porém parei de respondê-la ao ver o cartaz do grupo LGBTQ+. Não tinha percebido que havia parado no lugar até Iris tocar em meu ombro.

–Você deveria entrar, eles falam sobre assuntos como a aceitação na família, por exemplo, seria algo bom para você, não é? – Suspirei. Eu sei que Iris estava tentando me ajudar, ela sabe o quanto eu queria estar no grupo.

–Não dá. Meus pais não podem nem sonhar que estou no grupo– respondi voltando a caminhar.

–Bonnibel, eles tem que entender que a vida é sua. Você já falou para eles da sua orientação sexual, já passou, agora vive sua vida.

Comecei a dar passos mais corridos. Para ela era fácil falar, ela nunca precisaria sair do armário, estava dentro do padrão. Eu nem imagino o que meus pais fariam caso descobrissem que estou no grupo, mesmo eles sabendo sobre mim, tenho medo deles me ignorarem ou me tratarem de forma diferente, como foi quando eu contei. Eles ainda têm esperança que eu diga “eu gosto de garotos e apenas garotos” porque, para eles, eu não sei o que eu quero para minha vida, e como diz minha mãe “eu não pareço gay”, como se um corte de cabelo ou roupas definisse alguma coisa além do gosto para vestuário.

–Ei– Iris apertou o passo para poder me alcançar– você vai fazer alguma coisa mais tarde? – a loira entrou em minha frente, agora andando como se estivesse dando ré, abraçada aos livros– Poderíamos fazer as unhas hoje ou passar mascara de argila branca, ainda não testamos essa. 

Eu só queria chegar em casa e ler o livro que estava implorando para ser lido em minha prateleira, mas não queria que minha amiga pensasse que eu estava a trocando por livros... De novo.

–Não dá, eu prometi passar a tarde vendo series com meu irmão– Iris tentou me comprar fazendo a “carinha de cachorro que caiu da mudança” – É sério. Tudo o que o Neddy faz agora e passar a tarde com os amigos no vídeo game, e eu provavelmente vou sair daqui ano que vem, queria passar um tempo com ele antes que vire adolescente e me esqueça.

Iris voltou a andar normalmente ao meu lado, agora com uma feição de emburrada. Não tiro a razão dela, não nos vimos durantes as férias, um mês longe de uma das suas melhores amigas é muito tempo.

–Fala sério Bonnie, seu irmão ainda tem onze anos. Vai demorar a chegar nessa fase.

–Na verdade ele já tem doze, os treze estão chegando, e dizem que é aí que tudo começa– a loira bufou. – Mas– disse a parando perto da porta do refeitório– sexta a noite podemos chamar a Caroço e vocês podem dormir lá em casa e então testamos a mascara de argila branca. Podemos até fazer biscoitos com estrelas coloridas e...

–Chá– dissemos juntas. Soltamos uma gargalhada, era tão bom poder ver minha amiga novamente.

–Tá bom, Bonnibel, você venceu. Agora vamos procurar a Caroço e falar com ela– disse me puxando pela mão para dentro do refeitório.

*********

O refeitório estava cheio, o que me deixava um pouco nervosa, porém a conversa com minhas amigas me acalmava. Caroço falava do quanto ela estava brava com Brad, pois esse havia arruinado o novo romance de verão dela. Ele queria voltar a ter um relacionamento sério com ela, mas Caroço, no momento, dizia estar cansada dele. Daqui alguns dias provavelmente ela vai querer voltar com ele de novo, é sempre assim.

–Bonnie, não vai comer nada? – perguntou Iris me oferecendo biscoitos.

Eu dei de ombros.

–Não estou com fome.

Na verdade eu estava, não havia jantado noite passada, porém eu tinha uma dieta para ser seguida. Iris me olhou com seu olhar de “para com isso, eu sei o que você está fazendo”. Ela odiava minhas dietas, porém elas eram necessárias.

–Já não falei para parar com essas coisas? Você precisa comer, vai acabar morrendo se continuar assim. – Revirei os olhos, era sempre a mesma coisa, parecia até que a loira tinha a frase na ponta da língua.

Caroço parou de comer seu sanduiche para olhar para mim, com um semblante mais sério.

–Você já é muito magra, já está abaixo do peso, acho que já está bom, não acha?

Meu peso e o que eu penso sobre meu corpo são coisas das quais não gosto muito de falar sobre. Eu sei que eu estou abaixo do peso, eu acho que devo ser magra já que minha numeração de roupa é difícil de ser encontrada e normalmente é a sessão infantil que me salva, porém tem sempre algo que não me agrada. Eu sei que sou magra, mas eu não sou magra o suficiente, minhas coxas continuam grossas para mim, por mais que as pessoas digam que parecem dois palitos.

–Tá tudo bem, eu sei o que eu faço– o melhor a se fazer era cortar o assunto por ali– Eu amei o que você fez no cabelo Caroço– disse tocando no cabelo de minha amiga. Ela o deixou em um tom mais escuro de roxo e agora deixava seus cachos aparecem mais.

Caroço abriu um sorriso, ela amava um elogio.

–Ficou bom, né? Eu estava cansada daquele roxo, quis mudar um pouco, mas o roxo é a minha cor, vocês sabem– rimos das poses que minha amiga fazia enquanto falava.

As duas começaram a comentar sobre assuntos aleatórios, entretanto eu não estava prestando muita atenção. Meus olhos percorriam o local procurando por Marceline, eu não a vi por aqui. Pisquei os olhos um pouco mais forte, por que diabos eu estava procurando por ela? Que nada haver. Talvez eu quisesse ser amiga dela, pois a mesma parecia ser legal, mas ainda parecia ser um problema, não um problema como a Fionna era, diferente. Por que eu estou falando da Fionna? Ela era minha “namorada”, Marceline não é nem minha amiga. Não estou mais me entendendo.

–Tá aí? – Iris estalava os dedos em frente ao meu rosto.

Balancei a cabeça de um lado para outro, como se pudesse tirar esse tipo de pensamento de minha cachola.

–Tô.

–Tá apaixonada é? – Caroço comentou fazendo graça, enquanto apoiava a cabeça em uma de suas mãos, me olhando com um sorriso irritante.

–Que? Não. Eu nem conheço ela– disse sem pensar.

Iris arregalou os olhos e Caroço endireitou a postura.

–Uh, ela quem? – a loira perguntou.

–Ninguém– disse um pouco irritada, sentindo meu rosto esquentar.

–Ela tá com vergonha– Caroço disse rindo.

–Bom dia novamente– cumprimentou Jake, deslizando ao lado de Iris.

–Caroço, como está? – Finn disse abraçando a garota do cabelo roxo.

Iris não conseguia parar de rir, e Jake parecia um pouco perdido.

–Eu estou bem, mas a rosinha ali está ótima– disse apontando para mim e enfatizando a ultima palavra.

Jake estreitou o olhar, como se estivesse me examinando, procurando por algo em meu rosto.

–Está tudo bem? Você está... – o garoto disse indicando a própria face.

–Ela está com vergonha– Caroço disse rindo.

Eles poderiam conversar mais sobre as férias, acho que tinham assuntos mais interessantes do que a cor que meu rosto se encontra no momento.

–É reflexo do cabelo– respondi com certo desespero na voz. Iris continuava rindo e Finn e Jake pareciam perdidos– Eu preciso ir ao banheiro, daqui a pouco o intervalo termina. –Peguei meus livros de cima da mesa e me afastei de meus amigos antes que pudessem falar mais alguma coisa.

Ótimo, agora elas iriam me encher a paciência com isso, e eu nem conheço Marceline, não tem nada haver. Tudo bem que ela parece ter algo de interessante, mas isso não significa que eu esteja interessada nela, não somos nem amigas.

Os corredores estavam vazios. Conforme eu me aproximava do banheiro escutava gritos, provavelmente alguém estava bem estressada.

–Não é nada pessoal. Não é minha culpa que você não esteja nos padrões necessários– a voz mais calma dizia.

–Eu não ligo para tudo isso, é estupido. Esse uniforme é ridículo, combina com todas vocês. – esse som não me era desconhecido, a pessoa parecia prestes a explodir.

–Tá certo, explica isso para sua mãe depois.

Uma das garotas saiu banheiro pisando duro e murmurando algo que não entendi direito, mas pareciam palavras de baixo calão. Era Marceline. Quase nos trombamos na saída do local, pois a morena estava encarando seus pés, o que fez com que meu horário caísse no chão. A garota se abaixou para pegar e me devolver. Por um momento nossos olhares se encontraram, ela sorriu sem mostrar os dentes e continuou seguindo pelo corredor vazio. Eu queria perguntar se estava tudo bem, mas não conseguia, e a garota ficava cada vez mais distante. Antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, o sinal tocou, indicando o fim do intervalo.

***********

As aulas que eu tive naquele dia foram mais apresentações dos professores, alunos novos e do que aprenderíamos, e claro que também colocaram aquela pressão de “vocês precisam saber o que vão fazer na faculdade e precisam ser aceitos em uma”. Não presto muita atenção nessa conversa, pois sei que quanto mais se escuta, mais pressionado você fica. Nem meus pais colocam toda essa pressão em mim, pelo menos ainda não.

Minha ultima aula do dia era de desenho, a minha aula preferida. Quando entrei na sala não tinha muita gente, e Iris também não estava por lá, então me sentei para esperar. Fiquei pensando no porque Marceline estaria exaltada daquela forma. Ela não parecia inteiramente brava, quando olhei para ela, seus olhos pareciam ter uma mistura de alivio com preocupação. Aquele momento se repassava em minha cabeça em câmera lenta. Os olhos dela eram muito bonitos, eles eram muito escuros, assim como seu cabelo, eram totalmente negros, o que fazia um contraste lindo com o tom da sua pele, que era extremamente pálida.

Meus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Iris, que estava junto de Fionna e Cake. As três me cumprimentaram e Fionna me abraçou, porém não trocamos nenhuma palavra além de um simples “oi” e um sorriso. Ela era uma pessoa legal, mas doeu passar pelo o que eu passei com ela, e eu queria tê-la por perto, no meu ciclo de amizades, mas a vida é um pouco complicada.

Não demorou muito para a professora chegar. As mesas eram divididas em duplas, sentei-me com Iris, novamente, assim como no ano passado. A primeira aula era livre, poderíamos desenhar o que quiséssemos com a condição de que fosse algo relacionado aos nossos sentimentos. Eu resolvi desenhar sobre o medo, decidi fazer um urso de pelúcia rasgando a garganta de uma garota. Enquanto eu trabalhava na minha criação, minha amiga me cutucou com o cotovelo.

–Então, não vai me contar sobre sua @?– disse baixinho segurando a risada.

A professora passou por nós, elogiou os desenhos e continuou andando pela sala. Por um momento eu achei que ela fosse pedir silêncio, achei que Iris tivesse falado alto, mas fiquei aliviada por ter sido alto só na minha cabeça.

–Eu não tenho uma @.– Sussurrei de volta sem tirar os olhos do meu desenho.

–Tá bom então– a loira voltou a se concentrar em seu desenho, rindo.

Eu podia confiar em Iris, ela era minha melhor amiga junto com a Caroço. Eu não estou interessada em Marceline, mas talvez ela soubesse alguma coisa sobre a morena.  

–Iris– chamei-a baixinho e a mesma me olhou– você sabe alguma coisa sobre a Marceline Abadeer?

Minha amiga sorriu, aquele sorriso irritante. Eu revirei os olhos.

–Ah, eu sei que ela era do time das lideres de torcida ano passado– a loira se aproximou mais de mim e colocou a mão perto da boca, como se fosse contar um segredo– e cai entre nós, ela não parece nada com aquelas garotas. Marceline parece ser do tipo que quebra vidros e não das que fazem a unha toda semana.

–Quebra vidros? – perguntei confusa, que tipo de personalidade seria essa?

–É tipo– Iris começou a gesticular com as mãos, como se procurasse as palavras certas– sei lá, mas eu consigo imaginar aquela garota quebrando vidros.

Eu ri baixinho.

–E eu acho que ela está fazendo aulas de música– completou.

As aulas de desenho eram no mesmo período que as aulas de música, porém eu nunca tinha visto Marceline por aqui nesse horário.

–Como você sabe disso? – a questionei.

–Eu a vi entrando na sala com o que parecia ser um violão quando estava vindo pra cá– disse dando de ombros.

Marceline tocava? Isso eu consigo imaginá-la fazendo.

–Ah– Iris deu um pequeno pulo em sua cadeira, como se tivesse se lembrado de algo– e ela é um membro do clube LGBT–a loira sorriu de modo irritante – Vai fundo– disse rindo.

Senti meu rosto esquentar e me voltei para meu desenho novamente.

***********

Ao chegar em casa tudo o que eu queria era me jogar em algum canto e ler aquele livro que tanto sussurrava “leia-me” para mim. Ao adentrar minha casa, meu irmão desceu as escadas com uma mochila nas costas e minha mãe logo atrás com as chaves do carro.

–Oi Bonnie– disse meu irmão e eu sorri em resposta.

Meu irmão era um ser muito fofo, apesar de ser irritante. Ele não se parecia nada comigo, ele era completamente meu pai. Ambos tinham cabelo escuro (algo que eu também havia puxado para meu pai) e olhos escuros. Enquanto eu, as pessoas falavam que eu me parecia com a minha mãe, o que eu discordo. Minha mãe era loira dos olhos azuis, eu, originalmente, era morena com olhos verdes, até eu pintar meu cabelo de rosa. Para mim, a única coisa que tínhamos em comum era a palidez doentia da pele. Nós não tínhamos, praticamente, nada em comum, nem de jeito. Eu não gosto quando me comparam a ela, e eu não sei o porquê disso. Talvez seja por conta do rancor que eu guardo de sua pessoa.

– Vou levar seu irmão para as aulas de natação. Come alguma coisa– disse minha mãe ao passar por mim e fechando a porta logo atrás de mim.

Olhei em volta. A casa estava livre. Eu estava sozinha, do jeito que eu gosto. Entretanto, logo eles estariam de volta e eu só queria ficar em paz para ler. Tinha um parque, não muito longe daqui que era bem convidativo e quieto, um ótimo lugar. Era para lá que eu iria.

Antes que pudesse subir para o meu quarto, escutei batidas na porta de vidro que levava ao quintal. Ciência batia as patas desesperada para entrar na casa. Assim que abri a porta, a beagle passou por mim correndo, sabe-se lá para onde. Era sempre assim nem ela queria ficar por perto.

Meu quarto era o melhor lugar do mundo para mim. As paredes eram em um tom de creme, eu queria rosa, mas minha mãe achou que creme valorizava mais a casa. Em uma das paredes tinham vários adesivos, próprios para decoração, de dragões, em outra ficava meu quadro de avisos, que tinha nele, pendurado, vários bilhetes de amigas minhas, e meu cronograma de cuidados com o cabelo. Meus armários eram todos de madeira, e seriam sem graça se não fosse pelos desenhos e frases de musicas espalhados por eles. Tinha algumas coisas de Star Wars, como um balde em formato de Stormtrooper, alguns pôneis e itens da Hello Kitty também eram fáceis de serem encontrados por ali. A minha janela tinha um assento, que também servia de baú, e em volta, era cheia de livros, que são, simplesmente, as melhores coisas existentes, eu não conseguiria viver sem.

E por fim, minha cama, que ficava encostada a parede do meio do quarto. A colcha tinha vários desenhos diversos tipos de doces, e nela, entre os travesseiros e almofadas, estava o Banguela, meu dragão de pelúcia. Eu sou uma grande fã dos filmes e séries de Como Treinar o seu Dragão, e quando eu fiz dezesseis anos, Iris me deu de presente a pelúcia do dragão, e desde então eu não consigo dormir sem ele. Todas as noites que passei em branco, no final de cada ataque de pânico, todas as vezes em que chorei, os momentos tristes e difíceis... Banguela sempre estava ali, e só ele. Pode ser só uma pelúcia, mas eu me apeguei. Tem momentos que me sinto mal por dormir com ele, na minha idade ninguém mais dorme com pelúcias.

Direcionei-me para meu guarda roupa para escolher um vestido. Eu gosto de shorts, normalmente só uso os de cintura alta, assim como saias também. Eu não gosto de calça, às vezes uso jeans de cintura alta, porque tudo o que não é de cintura alta parece me desvalorizar, apesar das pessoas falarem que não, eu me sinto gorda. É estranho para as pessoas quando digo que não me sinto bem usando calças e que me sinto mais confortável com vestidos, ninguém entende porque geralmente é o contrario para elas.

Escolhi um vestido branco de manga curta, que parava na metade de minhas coxas, coloquei uma de minhas meias com babado, branca, e calcei meu all star azul. Parei em frente ao espelho e suspirei. Não importava o tanto de kg que eu estivesse abaixo do ideal, nunca parecia o suficiente, mas eu tinha que continuar tentando.

Procurei pelo livro que eu tanto queria ler e assim que o achei, peguei-o. O Mau Exemplo de Cameron Post parecia o tipo de livro que eu iria amar ler, eu sentia que eu ia aprender várias coisas novas, quem sabe abrir os olhos para novos pensamentos sobre as coisas na vida. Eu tenho certeza de que este vai ser tão bom quanto “Não conte o nosso segredo” ou “Cartas de amor aos mortos”, meus livros favoritos.

Desci até a cozinha para comer alguma coisa antes de sair, já que não comi nada desde ontem à noite, e já são quase três e meia da tarde. Eu precisava comer algo com poucas calorias, estava indo bem até agora. Assim que abri a geladeira avistei um bolo branco com morangos em cima. Minha barriga roncou. Supondo que eu comece um sanduiche natural para matar a fome, e depois um pedaço daquele bolo, eu não iria engordar tanto, não é? Eu sei que tem muita caloria e eu provavelmente choraria mais tarde por isso, mas é só dessa vez.

Comi o sanduiche acompanhado de suco de uva, e quando fui pegar um pedaço do bolo, por mais que fosse pequeno o pedaço, uma vozinha na minha cabeça tentava me avisar que aquilo não seria bom para a dieta, porém eu queria muito, e por mais difícil que fosse ignorar a voz, eu consegui. Eu tenho certeza de que vou me arrepender muito mais tarde, talvez eu devesse comer bem menos no jantar, ou então comer só no dia seguinte de manhã e pular o almoço. Eu teria de dar um jeito.

**********

O parque era grande, o que era muito bom,  pois tinha partes do local que eram mais calmas, geralmente muitos casais usavam o lugar para se encontrar, algumas pessoas fotografavam e outras pintavam. Sentei-me de baixo de uma das arvores, e comecei minha leitura.

O livro estava interessante, porém não consegui me manter concentrada, eu sentia como se estivesse sendo observada, mas não via ninguém olhando para mim. Levei um susto quando alguém aterrissou ao meu lado.

–Desculpe, eu não queria te assustar– disse Marceline se sentando ao meu lado. Ela provavelmente estava em cima da arvore em que eu me encontrava.

Eu tentei me recompor endireitando minha postura e colocando uma mecha de cabelo para trás.

–Tudo bem.

Marceline deu um sorriso fraco, e encarou o livro em meu colo.

–Eu estou te atrapalhando porque se eu estiver...

–Não, tá tudo bem, é legal ter companhia– Por alguma razão eu não queria que ela fosse embora.

A morena chegou mais perto de mim para poder se encostar-se à arvore. Eu nunca havia chego tão perto dela como agora. Ela tinha um cheiro bom, eu não sei definir direito como era, mas era muito bom. Eu queria perguntar se estava tudo bem por conta da cena de hoje, porém não queria ser invasiva.

–Do que o livro fala? – Marceline perguntou me encarando com seus olhos extremamente escuros. Eles pareciam dois buracos negros, eram muito bonitos e fáceis de se perder.

–Eu ainda não descobri exatamente, porque não cheguei nem na página vinte– disse soltando uma pequena risada– mas aparentemente, os pais da personagem morrem em um acidente de carro e a primeira coisa que ela sente é alívio porque eles nunca precisaram saber que ela beijou uma menina.

Marceline sorriu.

–Parece ser interessante. Eu até tentaria ler, se ele não fosse muito grande– disse apontando para o livro.

–Eu posso ir te contando a história, conforme vou lendo– disse rindo– se quiser, claro– acrescentei assim que notei que tinha me disposto a falar sobre o livro com ela. Geralmente, as pessoas acham desinteressante quando falo sobre livros com elas.

–Claro, ia ser legal. Fiquei curiosa para saber sobre a história.

Eu sorri para ela. Marceline parecia realmente interessada no livro. A garota pegou um dos fones de ouvido e me ofereceu. Eu aceitei e cheguei um pouco mais perto para que pudéssemos escutar juntas. Assim que a música começou a tocar, eu não precisava pensar duas vezes.

–Nevershoutnever? – perguntei.

Marceline sorriu e assentiu.

–Você conhece?

–Não, eu sei que musica é esse sem ter escutado muito e a banda que toca , mas não conheço– eu estava sendo irônica, e Marceline entendeu e riu.

–Lovesick é bem velha, mas eu não me canso.

–Eu amo essa, mas acho que Can’t stand it, sempre vai ser minha favorita deles– eu disse, enquanto me ajeitava em seu lado.

–Eu adoro CheaterCheaterBestFriendEater– a garota dizia enquanto se ajeitava ao meu lado.

 

Sem querer nossas mãos acabaram se tocando, as mãos dela eram tão geladas quanto as minhas, nos encaramos por alguns segundos, até Marceline desviar o olhar, encarando a paisagem a sua frente.

–Você tem um ótimo gosto musical, Bonnibel.

Bonnibel. Quando ela falava meu nome ele soava tão bonito, mas era estranho ouvir alguém me chamar assim, era como se a pessoa estivesse brava comigo.

–Bonnie– disse e ela voltou a olhar para mim– Pode me chamar de Bonnie.

Ela sorriu e estendeu uma das mãos para me cumprimentar.

–Sendo assim, pode me chamar de Marcy– eu aceitei sua mão, agora pegando a por inteiro. Ela era muito macia. Eu sorri para ela.

Marceline voltou a olhar para frente e fechou os olhos apreciando a música.

–Você está bem? – perguntei e ela abriu os olhos e me encarou– Eu vi que você estava brava hoje mais cedo, mas eu não quero ser invasiva...

–Está tudo bem– garantiu a morena, com uma expressão calma– Ashley me expulsou do time de lideres de torcida. Eu odiava aquilo de qualquer maneira. O uniforme é ridículo– não era verdade, o uniforme era lindo. Se eu não fosse uma piada, gostaria de fazer parte do time, porém ninguém pode ficar sabendo desse tipo de coisa– as garotas, em sua maioria, são chatas. É um pesadelo– um pesadelo que eu gostaria de fazer parte, pensei. – Mas minha mãe adorava me ver torcer, porque um dia ela foi líder de torcida.

Ficamos em silêncio durante alguns segundos.

–Tanto faz. Eu sei que ela vai ficar decepcionada, mas pelo menos agora não tenho que fazer algo contra a minha vontade.

–É bom fazer as coisas que você gosta porque você gosta e não porque alguém te pressiona– eu disse, suspirando. – Queria ter mais liberdade.

–Ir para um lugar bem longe daqui seria ótimo– Marceline carregava certa melancolia na voz.

–Eu tenho vontade de um dia pegar o metrô e ir pra algum lugar diferente e só sair daqui. Ficar longe de tudo.

Marceline soltou um suspiro seguido de uma risada ao meu lado.

–Por favor me chame quando for fazer isso.

Eu ri. Ela era muito legal. Eu sei que eu deveria voltar para casa, porém eu gostaria de ficar mais tempo com Marceline e conhecer mais sobre ela. Entretanto, eu havia deixado meu celular em casa, minha mãe provavelmente ficaria preocupada se eu não voltasse logo, pois ela já deveria ter chegado em casa.

–Eu preciso ir– disse me levantando e entregando o fone a Marceline.

A morena se levantou junto comigo. Ela era mais alta do que eu, o que não era difícil, eu gostava disso.

–Eu também vou indo– a garota parecia que ia falar algo, porém desistiu.

Eu estava um pouco perdida, não sei como eu falaria tchau pra ela. Acho que talvez com um abraço. Antes que pudesse me aproximar para me despedir, ela perguntou:

–Bonnie, você gosta de fliperama?

Era uma pergunta aleatória. Eu não me recordo de ter jogado algum jogo assim algum dia.

–Eu nunca joguei.

Marceline arregalou os olhos, surpresa.

–Sério? – eu assenti. – Essa sábado eu estava indo jogar alguns jogos com Marshall e um amigo dele. Você gostaria de ir?

Eu não conhecia Marshall muito bem, mas já que ele e Marceline são irmãos gêmeos, talvez, bem talvez, ele fosse legal como ela. E eu queria sair com ela.

–Pode ser– eu tentei parecer o mais natural possível.

Marceline abriu um sorriso.

–Tudo bem, eu te mando uma mensagem– eu havia me esquecido de que passei meu número para ela, hoje mais cedo. Que bom que ela havia me pedido ele.  

–Eu vou indo– disse sentindo meu rosto esquentar.  – Até amanhã, Marcy.

–Até, Bonnie. 


Notas Finais


Espero que tenham gostado.
Beijos, Cat <3


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