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História Olhos de gato - Capítulo 1


Escrita por: _sesaaw_

Notas do Autor


Demorei pra um cacete, mas consegui escrever. Tava com um bloqueio ABSURDO. Nada tava me agradando, quando terminei essa oneshot eu respirei fundo e quase gritei de alegria.

Isso aqui se chama SUPERAÇÃO. Eu superei meu bloqueio, dei um drible e consegui. Graças a Deus!

Antes de mais nada, eu não entendo muita coisa sobre gatos. Então se eu coloquei uma besteira no meio, me conte viu? KKKKKK agradeceria pela paciência.

Não sei se isso aqui tá bom, mas eu fiz com amor e carinho. Enfim, tenham paciência e vão lendo com calma 👉🏻👈🏻

Capítulo 1 - Olhos de ouro são capazes de transformar vidas.


Tudo era acinzentado. Aquele lindo amarelo sublime que corria pelas veias de Wei Wuxian havia desaparecido como se nunca tivesse existido, havia ganhado um triste selar daquele cinza profundo. Seus olhos esboçavam terror, sua mente estava gritando por ajuda e suas pernas não conseguiam mais se mover. Estando sozinho, apenas aceitou em silêncio sua possível derrota e observou o mundo agir enquanto ele paralisava. No final das contas, onde estava aquelas pessoas que juraram com todos os seus dedos que iriam apoiá-lo até o fim de sua vida? Falso. Tudo era falso.

— Desculpe, eu não posso te ajudar. 

Foi essas palavras que Jin GuangYao disse quando Wei Wuxian pediu finalmente por ajuda. Era ele que disse desde o início que iria apoiá-lo. Havia apenas sobrado Wuxian e apenas Wuxian. Saboreando o sabor amargo da derrota, o avermelhado se deixou encostar na porta do falso amigo e fechou os olhos. Terrivelmente sozinho, aquilo estava sendo pintado em sua testa. Havia inúmeros espinhos em volta de seu coração, cada passo que dava era mais um motivo de tristeza. Com um psicológico ferrado, ele voltou a se deixar afundar naquela infernal sensação.

Os pais haviam falecido. A única família que tinha havia dado as costas para si, cortaram todos seus laços com uma tesoura perigosa e jogaram em seus ombros o peso que era viver. Vivendo sobre aluguel em uma casa caindo aos pedaços, ele gargalhou quando a chuva caiu sobre sua cabeça e esperou que algum trovão caísse em seu corpo. Nada veio, tampouco fizera algum som no céu — além da tempestade. Trabalhava em uma cafeteria sem graça com um chefe barrigudo e engraçado. O ambiente era agradável, mesmo que silencioso. As vezes Wuxian arranjava um jeito de procurar por uma bela casa pra morar.

  Era engraçado como ser criança as vezes era uma benção, você olhava para o céu azul e imaginava que em um futuro próximo logo estaria em uma incrível mansão. Uma piscina bonita. Filhos. Um lindo amor pra viver. Amigos sinceros. Uma família para o acolher. Asas de uma borboleta nas costas, a sensação de liberdade. E quando você se torna adulto, você se sente cada vez mais incapaz de conseguir agarrar tais sensações. Por medo de reagir aos impactos negativos da vida, acaba que você transforma tudo em uma imaginação infantil. Viajar para a Terra do Nunca parece mais fácil do que construir uma vida sem arrependimentos, era isso que Wuxian pensava.

Quando foi para sua casinha sem graça, percebeu que não tinha água quente para se banhar. Após o banho gelado, deitou em sua cama até perceber que seu cobertor estava com inúmeros furos que deixava o frio entrar. Depois de dormir trêmulo, acordou com um terrível resfriado e de brinde, o café da manhã era algo sem graça — havia apenas uvas e um resto de café. Wuxian tinha em mente que precisava ir ao mercado, tinha um pouco de dinheiro consigo e logo juntaria o máximo no trabalho onde estava.

 O avermelhado julgava com os olhares inúmeras pessoas. Quero dizer, ele franzia a testa para quem dizia que sua vida estava uma merda — sendo que elas entravam em restaurantes caros. Wuxian julgava profundamente quem reclamava que não estava feliz porque não havia conseguido comer tal coisa — sendo que essas pessoas tinham ainda mais coisas gostosas para saborear em casa. Wuxian não tinha o prazer de dizer em voz alta "eu acho minha vida uma porcaria porque eu não consegui comprar tal bolsa" como as pessoas diziam. Elas reclamavam de não ter uma coisa desnecessária, quando no momento elas estavam morando em uma casa digna e não sentiriam fome — até porque suas geladeiras estavam cheias.

Ingratidão. Era isso que Wei Wuxian via nas pessoas que passavam por ele. Um dia o avermelhado estava sentado no banco da praça e teve o desprazer de ouvir um jovem reclamar com um amigo que sua vida estava péssima só porque seus pais não deixaram ele dormir na casa de outra pessoa. Wei queria agarrar os ombros dessas pessoas, balançarem-as com força e gritar em suas orelhas "vocês deveriam estar gratos por terem o que comer, eu não tenho nada!". Claro que Wuxian não podia passar dos limites em sua mente, cada um havia um tipo de situação que passava e cada um levava uma maneira de enfrentar. Dores diferentes. Medo diferentes. Realidades opostas.

Então, quando se sentia irritado, apenas respirava fundo e saia andando até parar em frente a um restaurante. Nunca entrava lá. Ia no mercado comprar o que conseguia, procurava outro trabalho. Houvera um momento em que Wuxian havia tido quatros trabalhos ao mesmo tempo, ganhava pouco — mas quando juntava dinheiro de cada serviço, ele quase chorava quando trazia frutas pra casa. Ele conseguia sorrir quando mordia o pedaço de uma maçã, mesmo que depois ele se sentisse tristonho por ter acabado de comer rápido demais. Era por essas coisas que ele sorria verdadeiramente, enquanto alguns só queria procurar a felicidade em algo grandioso — por exemplo, roupas caras e um carro chamativo. Ele sabia que estava em uma situação delicada de solidão e morria aos poucos, mas sua curiosidade e desejo de viver o impedia de querer aceitar a derrota. Andava como um zumbi pelas ruas, virava em uma esquina e logo fazia o possível para se recompor. E daí se minhas roupas não são tão belas? Eu ainda estou aqui, porque eu devo apenas reclamar e bater o pé?

 Ele nunca pediu para nascer ou existir. Mas se ele estava ali, era melhor viver de uma maneira que o agradasse e atingisse objetivos que ele teria orgulho de esbanjar. Nunca entenderia o que a vida pensava dele ou como ela raciocinava, por isso apenas orava durante a noite na hora de dormir e de manhãzinha trabalhava como um cachorro.

E por algum milagre, ele havia feito um amigo. Ele se chamava Jiang Cheng, era estupidamente chato e tagarela. Reclamava de tudo, tinha um humor um tanto diferenciado e dizia que antes de ir dormir, ele lia revistas femininas sobre perfumes. Dizia ele que perfumes femininos tinham um cheiro que lhe agradasse, por isso ele sempre comprava os perfumes mais doces que tinha. Era irônico, uma personalidade terrível com uma sensibilidade fora do normal. O que mais irritava Jiang Cheng era que esses perfumes doces saiam rápido demais, enquanto os masculinos duravam o dia inteiro e ainda tinha um pouco na manhã seguinte. Toda vez que Wei perguntava para Jiang Cheng se ele se sentia incomodado com o fato das pessoas o olharem torto — por gostar de algo feminino invés do masculino — ele apenas respondia algo como "Por que eu deveria me importar com o que os outros estão pensando? Eu jamais vou ser feliz desse jeito. Eu tô pouco me fudendo pra essa gente. "

— Tome isso, e mais isso. Eu pretendo comprar uma casa, vamos morar juntos. — Ele tagarelava sem a menor vontade de ser gentil, jogava nos braços de Wuxian sacolas cheias de frutas e outras variedades.

— E quem disse que eu irei morar com você?

— Eu disse. Você vai e pronto. Caso contrário, eu irei te amarrar com cordas e correntes, depois te arrasto pelo asfalto com meu carro! — Irritado, Wei franziu sua testa com um biquinho nos lábios.

No fundo o avermelhado se sentia feliz em saber que não estava totalmente sozinho, mesmo que tivesse o medo de ser abandonado novamente. Era engraçado a conexão que eles tinham, uma vez Wuxian estava chorando sem o menor controle em seu quarto e de repente Jiang Cheng havia aparecido com um travesseiro e cobertas. Dizia ele que queria passar uma noite por ali, estava detestando ficar ouvindo as vozes altas dos vizinhos. E quando notou Wuxian com os olhos vermelhos, ele apenas o abraçou e deu um peteleco em sua cabeça. Depois daquele dia, ele sempre ia na casa de Wei e tinha momentos em que preferiria dormir por ali.

Jiang Cheng era um pouco sortudo. Tinha uma família boa, mesmo que tagarela e cheia de intenções estranhas. Pais dedicados, até mesmo quando tinham medo de deixar o garoto abrir suas asas. Estudava como um condenado desde sempre, quando tirava notas baixas ele respirava fundo e se esforçava o máximo. Quando sua avó morreu, ele se sentiu infeliz por um bom tempo e depois quis jogar sua dor para longe. Mas mesmo que tivesse uma vida boa, ele se recusava a reclamar de forma séria. Claro que ele era um resmungão preguiçoso, contudo ele colocava um grande X em sua frente. Jamais iria ser ingrato. Ele tinha coisas que inúmeras pessoas não conseguiram ainda, e apenas por isso ele era grato. Antes de ter bens materiais, ele agradecia toda noite por apenas ter uma família e comida na mesa.

Conheceu Wuxian quando estava dentro de um barzinho — um dos inúmeros trabalhos que Wei teve. Um idiota havia começado uma grande briga, o avermelhado se intrometeu com sua língua afiada e recebeu um soco como retribuição. O resultado foi o garoto sendo demitido, Jiang Cheng e o idiota sendo expulsos do lugar. Depois do imprevisto, o resmungão voltou a esbarrar em Wuxian e quando perceberam, sempre se encontravam em frente ao mercado.

Wei só não havia morrido de fome ou frio porque Jiang Cheng fazia questão de trazer mais comida pra ele. Trazia até roupas quentes demais para o avermelhado. E ele voltava a agradecer por ter o rapaz ao seu lado. Talvez nem todas as pessoas fossem tão ruins assim, certo? Jin GuangYao era uma pessoa falsa, havia usado Wei até o máximo que conseguia e depois o descartou. Esperava o pior de Jiang Cheng, entretanto só recebeu carinho.




— Eu não sei, eu juro que não sei. — Uma pessoa de cabelos curtos balançava suas mãos para cima, dois marmanjos altos e musculosos o encaravam com ódio.

— Você sabe sim, cadê o Mingjue? Cadê o filho da puta do seu irmão? — Um dos homens rugiu.

  Wei Wuxian estava passando por ali comendo seu salgado, A-Cheng estava ao seu lado um tanto feliz. E quando viu aqueles homens encurralando uma pessoa baixa e medrosa, ele revirou os olhos. Apertou os punhos.

— Ah não. Por favor, A-Cheng. Vamos só passar reto e fingir que não vimos nada. — Mordendo seu salgado, ele franziu a testa e ignorou as vozes altas. Estava nervoso.

— Aqueles merdas não tem receio de machucar uma donzela daquele jeito? Eu vou meter um porradão neles, Wei Wuxian!

  Os garotos não tinham a menor ideia de quem era a pessoa sendo encurralada. Imaginaram logo uma garota baixa, ainda mais por olhar pra baixo e ver as perninhas tremendo como de um sapo. Jiang Cheng era o defensor das mulheres, tinha apenas cara de hétero. Ao se meter ali no meio, puxou pelos cabelos um dos marmanjos e deu beliscadas em seus braços. E como um otário, Wuxian correu até o garoto e tentou o puxar pra longe daqueles marmanjos.

— Me solta, porra! Eu tô defendendo alguém aqui, vocês não tem pena? Covardes desgraçados miseráveis!

  Wuxian ainda recebeu uma cotovelada de Jiang Cheng e de brinde um chute nas costas por um daqueles homens. O salgado saiu voando pela rua, um carro ainda passou por cima dele e destruiu todo seu lanche.

Eu não acredito nisso! Meu lanche! Meu lanche! Jiang Cheng!

  Ele quase chorou. Se ajoelhou no chão, ignorou a briga atrás de si e ficou olhando seu lanche destruído. Não era mais comestível, estava com cheiro de gasolina e poeira no ar. Irritadiço, olhou pra trás e teve tempo de visualizar um dos marmanjos voando em direção a Jiang Cheng com seus dentes vermelhos de sangue. Uma das coisas que Wei fez sem pensar foi ter pulado nas costas daquele homem, deu uma de louco e se balançou nas costas do cara como um macaco. Deus sabe se lá como as pessoas da rua viam a cena, as crianças corriam ao lado dos pais e Wei só podia ver tudo girando.

Caralho de porra de merda de vida! Vão se ferrar, saí daí Wei Wuxian!

  Não tinha mais sentido a situação, muito menos o que Jiang Cheng dizia. Um chute e mais outro e um daqueles homens saiu correndo dali, abandonando o amigo sendo agarrado firmemente por Wuxian. O avermelhado não sabia, seu pé batia em tudo que é canto.

Não sei, não sei e não sei! Eu vou morrer, vou morrer!

Aquela voz suave estava ecoando pelo lugar enquanto observava com seus olhos a situação embaraçosa de Wuxian se agarrando no marmanjo confuso. Jiang Cheng estava atento demais as giradas que o homem dava, invés de reparar na donzela ao seu lado. Depois de um descuido, Wei caiu pra trás e se soltou do homem. Soube de início que aquela era a sensação que seu salgado sentiu ao ser atropelado. E que raios de pensamento era esse? Aquilo era apenas um alimento.

— E se voltar a mexer com essa mulher de novo eu vou te castrar, desgraçado inútil! Isso, mete o pé!

 Caído no chão como um pedaço de merda, Wei olhou para uma pessoa próxima de si e percebeu que aquelas feições delicadas era de um homem. Bem baixinho, os cabelos curtos e acastanhados, pele idêntica a porcelana e lábios cheios. Depois de se sentar no chão com a cabeça doendo — além de ver Jiang Cheng berrar pro vento para o homem se afastar, mesmo que ele não estivesse mais ali —, procurou a tal mulher que estavam protegendo até notar que no final das contas, protegeram um homem e não uma mulher.

— Uh, Jiang Cheng... — Wuxian não sabia nem mesmo como começar. Ele respirou fundo.

— Cala a boca, fica quietinho. Eles ajudaram a destruir seu salgadinho que você demorou pra conseguir comprar, te deram um chute e você ainda caiu como um pedaço de merda no chão. Aliás, você tá bem? Tá respirando, então tá bem. — Voltou a tagarelar, suas costas estavam corcundas e ele apertava os punhos. Do jeito que estava, parecia um verdadeiro gorila.

— Eu não sei por quê ainda tentei te ajudar! — Wuxian se levantou um pouco bambo, olhou em volta e fez um sorriso preguiçoso para as pessoas que passavam por ali.

— Você é idiota, por isso.

— Você é ainda mais idiota por acreditar que estava ajudando uma mulher. — Quero dizer, nós somos idiotas.

  Jiang Cheng travou no lugar, se virou e deu de cara com o rapaz baixinho. Ele estava entre olhar Wuxian e Jiang Cheng. Franziu a testa um pouco confuso.

— Mulher? Onde?

Foi assim que conheceram Nie Huaisang, um jovem mais preguiçoso que Jiang Cheng e adocicado como um anjo. Exceto pelos momentos em que ele estava com fome. No meio daquele caos, criaram um laço que jamais imaginariam que aconteceriam. Quando notaram, se passou dois anos. Wuxian morava na casa de Jiang Cheng, trabalhava como um idiota e ainda dava risada quando era despedido por motivos bestas. Uma vez ele gargalhou tanto pela decepção que Nie Huaisang achou que ele estava possuído, jogou água fria em sua cabeça invés de água benta e depois açúcar — sendo que normalmente era sal grosso. Foi naquele mesmo dia que ajudaram o Wuxian a comprar roupas novas.

  Foi nesse mesmo dia que se deparou com um gatinho encardido e branco. Os olhos dourados, um jeito desleixado de caminhar pelas ruas e se fosse uma pessoa, teria uma personalidade inexpressiva. Era o gato mais lindo que já havia visto, ficou longos minutos o olhando até suspirar e ir pra casa. No dia seguinte, passou pelo mesmo lugar até se deparar com o gatinho dentro daquela caixa. Ele estava acordado, deitadinho e ignorando sua volta. Sempre que alguém estranho se aproximava, ele mostrava as garras e soltava um mínimo miado que deveria ser um gritinho de guerra. Wuxian estava sem o que fazer, se sentou no banco ao lado daquela caixa e deixou que o gato branco o olhasse com receio. Foi longos dias sendo testado por aqueles olhos dourados como ouro.

 Choveu. Na verdade, foi uma chuva forte e com ventos intensos. A mente de Wei estava no gatinho abandonado, como ele iria sobreviver naquele temporal? Fugiu da casa de Jiang Cheng — que não estava no momento — com um guarda-chuva meia boca até ir onde o gato mais habitava. E lá estava o bichano, trêmulo com as garras presas na caixa e os olhos cheios de medo da chuva grossa. Wuxian ignorou a violência da chuva, se abaixou e colocou o guarda-chuva ao lado da caixa de papelão. O gatinho tentou até mesmo arranhar Wei, mas ele ignorou o receio do animal e apenas deixou que a chuva parasse de cair sobre a cabeça do ser indefeso. Se sentou no chão molhado alí mesmo, agarrou o guarda-chuva e colocou sobre sua cabeça também. Os dois se olharam impressionados.

— O que foi? Achou que eu fosse o machucar? Jamais faria isso.

 Foi a primeira vez que Wuxian havia falado com ele. O animalzinho o observou atento, o brilho de seus olhos prendeu o foco do avermelhado. Parecia mel derretido, um pouco do calor do pôr do sol, talvez até ouro. Pelo corpo do gato, havia minúsculas marquinhas e machucados cicatrizados. Ele pareceu lutar bastante durante sua vida. Wei se sentiu um pouco triste sobre isso, aquele gato era incrivelmente bonito. E se não morasse com Jiang Cheng e tivesse um pouco mais de dinheiro, ele com certeza levaria o gato. Iria cuidar bem, dar amor e carinho. Mas sua vida estava longe de ser um mar de rosas.

 Ergueu a mão livre na direção do gato. De início, ele se abaixou um pouco pronto para dar o bote e fixou seus olhos nos dedos longos de Wuxian. Atento a qualquer ação suspeita, ele ergueu seu nariz rosado e deslizou para perto da pele do avermelhado. Depois de notar que não havia maldade por ali, deslizou sua cabeça pela mão do rapaz. Wuxian se sentia impressionado, seu coração se aquecia e ele não podia deixar de dar um sorriso. Foi um longo tempo debaixo daquele temporal — que era facilmente esquecido pelos dois — até Wuxian notar que estava molhado, os cabelos bagunçados pelo vento frio e o gato mais seco que ele. Graças aos céus que o vento era fraco, não puxava a chuva para cima dos dois. Quando a chuva parou, Wei ignorou que estava sentado naquele chão imundo e sujo, apenas olhou para a rua com o gato ao seu lado. E toda vez que observava o animal, parecia que contavam os maiores segredos um para o outro.

 Seus dias foram desse jeito. Sempre ia no mesmo lugar, se sentava ao lado da caixa de papelão. As vezes o gato o surpreendia com uma mordida em seu dedo, mesmo que fosse por pura brincadeira. E como se conversasse com ele, o gato miava de volta quando Wuxian falava algo bobo. Jiang Cheng havia conhecido o serzinho peludo, contudo recebeu um arranhão na bochecha quando o tocou. Nie Huaisang nem mesmo tentou se aproximar, era alérgico a gatos e espirrava como um condenado. Wuxian pouco notava, estava apegado ao bichano indiferente a tudo e toda vez que anoitecia, ele dava um pequeno tchau. Carinho e mais carinho, até o gato deixar um lamber em seus dedos como retribuição.

 Wei estava encantado. Havia trazido um lençol grosso e esfarrapado para acolher o filhote, o enrolou como um bebê naquilo. Trazia água, um pouco de alimento que conseguia. E por muita briga com Jiang Cheng, o rapaz deixou que o gato fosse ficar com eles. Passou-se um dia morando com eles, durante a noite o gato simplesmente fugiu da casa e voltou a ficar no mesmo lugar de antes. Wuxian não negou que ficou irritado, apontou seu dedo para o gato e se tornou um verdadeiro leão. Miados, arranhões fracos e uma "briga" terrível. Quem passava pela rua achava que Wuxian estava enlouquecendo, ele não conseguia explicar a sensação de saber exatamente o que o gato pensava. Havia se passado dois meses convivendo estranhamente ao lado do peludo, e era só nesses dois meses que ele já sabia o que podia ou não fazer perto do serzinho.

Não podia fazer barulhos desnecessários, um exemplo seria assobiar. Não podia bater muito o pé no chão porque receberia uma mordida no braço. Não podia mandar língua, automaticamente iria ganhar inúmeros arranhões. E, em hipotése alguma, toque no rabo dele. Um dia Wuxian fez isso por curiosidade, o gato miou como um louco até morder a mão do homem.

Caralho! — Ele afastou-se num pulo com a mão dolorida, apertou seus olhos um tanto indignado e olhou para o gato com suas unhas a aparecerem. — Já entendi, não precisava fazer isso. Se afastar seria suficiente pra eu entender!

 O gato apenas desviou o olhar e voltou a se sentar. Fingiu desinteresse nas expressões indignadas de Wuxian, o rapaz revirou seus olhos e cruzou os braços. Ficaram quinze minutos se odiando, até o gato deslizar para mais perto do homem e passar a cheirá-lo. Wei não conseguiu segurar sua vontade, deslizou seu dedo indicador no topo da cabeça do bichano com delicadeza até os olhos do gato se tornarem algo parecido com gentileza.

 Wei Wuxian só podia descrever esse momento de sua vida como: mar de rosas. Era essa felicidade que ele queria alcançar e sequer percebia o quão se sentia animado com os dias. O afeto que tinha por aquele gato crescia tanto que os espinhos em seu coração começavam a se quebrar em mil pedacinhos, as flores brincavam por seu peito sem ter aqueles espinhos cruéis. O gato nunca saía dali, sempre estava o esperando atentamente com seus olhos intensos e as unhas afiadas prontas para arranhar qualquer um que se aproximasse — exceto por Wuxian, o gato parecia não ter coragem.

Contudo, a vida era extremamente cruel quando queria ser

Wuxian estava caminhando em direção ao gato do outro lado da rua. O bichano o notou, se levantou um tanto preguiçoso e balançou seu rabo branco. O rapaz se sentia mais animado que o comum naquele dia, havia conseguido comprar mais comida pro animalzinho. Com uma sacola cheia de alimento e pote, ele sabia que logo iria encher aquilo com a ração e água fresca. Mal podia esperar, precisava ver como ele iria cheirar a sacola de início até ter certeza que ali estava um presente perfeito pra ele. Um tanto animado, o gato pareceu mais elétrico que o comum. Deu passos rápidos até a rua com sua agilidade única, o rabo se balançou pelo ar e seu nariz estava empinado.

 Entretanto, não durou muito que o miado de dor voasse pela rua e Wuxian visse claramente um carro passando em direção do bichano. O freio foi endurecedor, cruel e bruto. O dono do carro estava desesperado, a roda havia passado em cima da cauda do gato e o homem de dentro sequer havia reparado no ser frágil. Wei estava apavorado, os olhos cheios de lágrimas e um grito preso em sua garganta. Quase fora atropelado também, correu em direção ao animal caído e um tanto amedrontado. O rabo do animal estava preso na roda do carro, ele miava com puro desespero e em sua pelagem o vermelho camersim escorria como tinta. Foi doloroso de se ver. O homem dava ré, o gato miava em dor e sequer conseguia manter seus olhos caramelos abertos.

  Naquele dia, o mundo de Wuxian voltou a se despedaçar. Aquele lindo amarelo que corria em suas veias... Desapareceu.





— Não há mais o que fazer. Ele irá morrer em alguns dias. 

 O veterinário era gentil, mesmo que suas últimas palavras tivessem sido dolorosas. A sensação de saber que vai perder algo antecipadamente era assustador, não era possível medir a dor que você iria sentir.

Wuxian sentiu que seu coração havia sido arrancado. Aqueles olhos caramelos o olhavam com dor, cansaço e pura hesitação. O enrolando em um tecido escuro, o gato apenas se deixou ser cuidado. O bichano pareceu saber que aquilo era seu fim, não se importou quando o rapaz assobiou para o céu uma canção de derrota. O gato estava doente, mesmo que não transparecesse isso de forma tão clara. Quando Wei o conheceu, ele havia sido abandonado naquela ruazinha. O dono do bichano pareceu descobrir que ele estava doente, o abandonou por completo e fingiu que ele não existia mais. O dono queria evitar sofrer, optou por uma decisão pior e evidentemente não aguentaria segurar em seus braços o peso morto de um gato com seus últimos momentos de vida. Não tinha ideia de que doença era, ninguém tinha coragem suficiente de continuar a cuidar de um gatinho filhote que havia acabado de nascer com uma doença tão trágica e terminal. Se ele fosse humano, a tal doença seria o próprio câncer.

O gato mostrava indiferença a tudo, esperava sua morte se aproximar a cada dia que passava. Quem diria que, de alguma forma, conheceria Wei Wuxian. Aquele humano tão dócil que fazia questão de dar-lhe comida e água. Nunca achou que seus últimos momentos seria ao lado de uma pessoa tão boa. E o rapaz nunca achou que dar adeus seria algo tão doloroso. Não importava quem era, ou o que era. No final das contas, dar adeus à algo importante era doloroso. Sua alma parecia ser estraçalhada. Aquele gato que sempre exalava ódio, desprezo e solidão, havia deixado uma marca enorme em seu peito. Ninguém acreditaria se Wei contasse que aquele mesmo gato tinha um lado frágil, um lado onde queria deslizar suas orelhas entre os dedos de Wuxian e se deixar levar pelo carinho inocente.

O rabo do gato estava destruído. Enrolado em panos e mais panos, o humano fazia questão de evitar se mover demais ou tocar naquele machucado. O sangue havia sido limpado, mas ainda era fácil de sentir aquele cheiro perturbador em suas narinas. Os olhos caramelos analisaram Wuxian com atenção, havia um lacrimejar por toda a extensão e nem mesmo um anjo seria capaz de acalmar aquela dor. Wei se esforçava para não chorar, mordia seus lábios com força. Se sentou no banco perto do lugar onde havia conhecido aquele gatinho, deixou que ele lambesse seu dedo.

— Quem diria que você iria me deixar, hein? — O sorriso que o avermelhado dava era cheio de dor. Mesmo naquelas circunstâncias, queria sorrir e tranquilizar o gato. — Nem mesmo consegui comprar pra você uma ração decente, Jiang Cheng vai me matar por ter pegado tanto dinheiro emprestado com ele.

 O gato apenas o olhou. Suas orelhas se moviam em direção aos sons, prestava atenção em cada palavra que saia da boca de Wuxian. Ele se sentia derrotado ao lembrar que jamais voltaria a ver aqueles olhos dourados, um nó se formou em sua garganta e ele não conseguiu mais dizer nada.

Era insuportável essa sensação. Um pássaro dentro de uma gaiola provavelmente sentia a mesma coisa. Uma borboleta com as asas quebradas devia sofrer desse mesmo jeito. Wei Wuxian queria correr dali, o filhote em seus braços esperava ser abandonado novamente. Tentou se livrar do conforto que era estar naquele lenço, mas o rapaz soluçou alto e o fez parar.

— Eu não vou te abandonar. Pare com isso. — As lágrimas queria cair. Não podiam cair, não naquele momento. Ele iria dar um final bonito para o gato. — Eu queria te dar um nome, mas eu não sei qual te dar. Qual combinaria com você?

  Pensou e pensou. Pelagem branca, porcelana, neve. Olhos de mel, caramelo, ouro e do pôr do sol. Patinhas fofas, agressivas e ao mesmo tempo gentis. E o olhando daquele modo, Wuxian não conseguia evitar de se recordar de como se sentiu feliz quando o gato pela primeira vez havia o deixado acariciar a sua cabeça. Toda vez que tentava o mimar, recebia um arranhão e um desprezo no olhar. Por isso, ele parou de o elogiar repetidas vezes. Era muito engraçado.

— Eu já sei que nome te dar.

  Erguendo um pouco o gato, Wuxian deu um pequenos beijo gentil perto das orelhinhas peludas. O bichano não se irritou, fechou seus olhos e esperou aquela voz gentil voltar a passar perto de si. Os lábios de Wei tremeram um pouco, ele formou um sorriso carinhoso com muita luta até poder respirar com calma.

— Você vai se chamar... Zhi. Significa sabedoria e cura. Você foi como uma cura pra mim, mesmo que me arranhasse de montão e ainda me mordesse. — Riu sem forças. — Você vai ser meu Zhi, uh?

O gato pareceu gostar. Os olhos brilharam e ele continuou silencioso como nunca, seus olhos pareciam agradecer. O humano e o gato se olharam pela última vez, aquela pelagem parecia se tornar algo gélido. Dando uma última lambida no dedo de Wei em pura gratidão, aqueles olhos caramelos se fecharam antes da hora. Wuxian achou que ele estava dormindo, o cobriu ainda mais com o lençol e o deixou em seus braços como um bebê. Ficou longas horas sentado naquele banco, os olhos fixos nas pessoas que passavam por ali e a pequena brisa silenciosa que corria entre seus braços.

Wei tirou o celular de seu bolso, analisou os números e discou. Demorou alguns segundos, mas Jiang Cheng atendeu.

— Ele se foi.




 Não tinha certeza de quanto tempo havia se passado desde então. Olhava raramente para o calendário. Estava um tanto triste, Nie Huaisang e Jiang Cheng haviam grudado no rapaz como chiclete e se recusavam a ir embora. A decepção e dor andavam lado a lado de Wei, ele deslizava pela cama durante a noite com os olhos cheios de lágrimas. Havia passado tanto tempo chorando desde que perdera o filhote, que agora não tinha mais forças para soltar tais lágrimas. Elas brincavam em seus olhos, não se derramavam mesmo que ele se esforçasse pra isso.

 A vida não se importava se ele estava com dor. Ela apenas iria continuar. O tempo iria continuar sendo um verdadeiro louco. As horas iam continuar correndo em uma maratona eterna. Os minutos estariam mais apressados que nunca. Os sons da chuva continuariam os mesmos. As luzes dos postes iriam sempre ter aquela coloração amarelada e intensa. Mas Wei Wuxian não sabia exatamente como fugir daquela saudade. Não tivera mais coragem de voltar naquela rua desde então. Evitava passar por ela. E quando tinha que ir por aquele caminho, não olhava na direção daquele banco. A caixa de papelão não estava ali como de costume, os miados não estavam passando em suas orelhas e ele só tinha uma pequena cicatriz em sua mão como recordação.

Mesmo que aquela dor não fosse eterna — afinal, Wuxian se recusava a viver tristemente e com arrependimentos —, ele ainda se mantinha perdido no que deveria fazer. A vida havia lhe entregado Zhi, depois o tirado violentamente. As mães que tiveram os filhos tomados de si sentiam isso?

 O tempo que passou ao lado daquele gatinho havia se tornado único, um momento só seu e de pura alegria. Não mudaria nada. Não estava arrependido de nenhuma decisão que tomou ao lado de Zhi. Viver sem arrependimentos era complicado, toda vez que Wei ia dormir ele ficava se perguntando se poderia ter dito mais alguma coisa. Viver no passado estava o atormentando, ele precisava mesmo passar por aquele sofrimento? Ele tinha mesmo que aceitar tudo calado e desistir? Não. Ele não queria isso. Ele precisava viver. Ele precisava continuar. Nie Huaisang e Jiang Cheng precisavam de si, Wuxian precisava de si mesmo bem.

  Jiang Cheng, Nie Huaisang e Zhi. Todos eles tinham algo em comum que Wuxian demorou um tempo para notar. Eles vieram porque Wei deixou que viessem. O segredo era simplesmente deixar que as coisas boas viessem pra si. Abrir seu coração gentil, agradecer por tudo que tinha e abrir seus olhos para o mundo — que estava sempre mudando. Wuxian, por mais cansado que estivesse desde o início, deixava seu coração aberto e atento a tudo. Ele havia permitido que energias boas corressem até si, foi por esse motivo que encontrou Jiang Cheng — mesmo que não fosse de uma maneira agradável. Depois de se sentir acolhido, voltou a se permitir e a vida como sempre o surpreendia mais ainda. Lhe entregou Nie Huaisang, e por fim, Zhi.

Mesmo que Zhi tivesse partido, ainda parecia mais um até logo do que um adeus eterno. Ele transformou os últimos momentos do gatinho em algo lindo e verdadeiro. E Wuxian se sentia feliz em saber que havia sido bondoso o bastante. Por isso, quando olhou para as estrelas antes de dormir, ele apenas sorriu tendo em mente que sua alma parecia mais leve que nunca. 





— Eu conheci o Xichen no mercado. Aquele idiota tava querendo pegar um monte de papel higiênico, quem diria que esse inútil derrubou tudo em cima de mim? — Jiang Cheng estava puto e feliz. Era uma combinação idiota, mas era assim que ele vivia.

— Tá, mas como você conheceu o irmão dele? — Nie entregou um pouco de biscoito para Wei, depois de ser rejeitado ele voltou a comer.

— O Wangji tava do lado da gente. Ignorou o que tava acontecendo e saiu dali como se nada tivesse acontecido, aquele desgraçado.

 Iriam se encontrar com Xichen e Wangji em alguns minutos. Nie Huaisang havia demorado tanto pra se arrumar que Jiang Cheng havia perdido a paciência, saiu de casa com passos apressados e abandonou o garoto. Nie pareceu se alterar com isso, se arrumou em questões de segundos e deu de cara com o Jiang parado na porta. É claro que ele não iria o abandonar, por isso "fingiu" impaciência e apenas acelerou a situação. Era engraçado como o relacionamento daqueles amigos chegava ao ápice da idiotice. Wuxian só conseguia sorrir com isso.

— Eles parecem boas pessoas. — Wuxian abraçou seu corpo quando o vento gelado bateu em seus braços. — Wangji parece ser bem sério.

— E ele é, você vai ver! — Jiang Cheng atravessou a rua enquanto puxava Nie pelo braço. — Olha eles ali!

Olhando para frente, Wuxian viu como era Xichen. Alto, os cabelos levemente ondulados e curtos. As mechas de seus cabelos haviam sido cortadas a pouco tempo, pelo modo que estavam bem arrumadas. As roupas eram casuais, uma calça justa com um moletom grosso e acinzentado por cima. Calçava apenas um tênis aleatório, não havia feito muita questão de se arrumar — diferente de Nie, que colocou a melhor roupa e passou uma maquiagem delicada.

E a vida continuava engraçada como sempre.

Wangji também era alto, parecido com seu irmão e um tanto rígido consigo mesmo. Nariz empinado, olhos brilhantes e caramelados, o cabelo bem arrumado com mechas longas e que precisavam ser aparadas, a pele idêntica a de uma porcelana cara e com uma postura de superioridade. Ele era muito bonito.

Mas quando o viu pela primeira vez, o coração de Wuxian se encheu de dor e alegria. A garganta se formava um nó dolorido, pesado e que fazia seu corpo tremer. Wei sabia que estava sendo testado, aquilo só podia ser brincadeira. Jiang Cheng, Nie Huaisang e Xichen não haviam percebido os braços trêmulos de Wuxian. Conversaram entre si com muita empolgação, enquanto Wangji mantinha seus olhos no céu nublado.

Aqueles olhos de açúcar e mel eram extremamente familiares. E Wuxian não sabia como explicar, a sensação de acolhimento corria em suas veias. Não soube entender por quê se sentia daquela maneira, mas quando seus olhos viram Wangji pela primeira vez, foi como ter visto Zhi.

Como sempre, a vida estava lhe entregando de brinde uma felicidade um tanto interessante. Não precisou de muito pra entender que aquele adeus havia se tornado um verdadeiro até logo. 



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