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História Olhos Místicos - Capítulo 45


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Notas do Autor


Exploração do novo cenário, meio açucarado, talvez até inocente, mas as vezes algumas coisas precisam ser ditas e repetidas até que sejam compreendidas de fato.

Capítulo 45 - Bater ou Correr em Londres


Fanfic / Fanfiction Olhos Místicos - Capítulo 45 - Bater ou Correr em Londres

Debaixo das ruínas do Winchester Palace, em catacumbas antigas construídas pela igreja na outrora sede do bispado inglês, onde antes era local de oração, vigília e torturas da inquisição, hoje se abriga a alcateia de Johnatan Phillmore. O lugar é espaçoso, incrivelmente bem ventilado e iluminado para um subterrâneo e possui passagens que saem em diversos lugares da capital inglesa, que os membros do bando utilizam para manter seu controle sobre o território. Ao sul do rio, quase saindo da área urbana da grande metrópole, ficam as ruínas de London Wall, limites antigos da época do império romano e onde hoje reside o maior receio do grupo, razão pela qual eles não reivindicam controle total sobre Londres: Sir Mcallister, um vampiro de quatro séculos de idade, com um bando pequeno, mas formado por outros quase tão perigosos quanto o próprio senhor sanguinário inglês, como é conhecido.

Além do próprio Phillmore, o bando conta com mais treze componentes, um alfa recluso que se sujeita as ordens de Johnatan em troca de sossego e proteção, já que é bem velho; um casal de kanimas, irmãos gêmeos encontrados assim e adotados pela alcateia e ainda, dez betas, todos “lobos cinzentos” como o patriarca, que se dizem portadores de uma genética pré-histórica e por isso, superiores aos demais lobisomens de todo o mundo. Eles estão em guerra constante contra o clã Mcallister e até já mataram vários membros deles, perdendo alguns dos seus, como o grandão contava para nosso alfa enquanto andávamos pelas catacumbas conhecendo todo o pessoal. Enquanto Phillmore sempre morde e treina ali mesmo novos membros quando são mortos nas batalhas, mantendo sempre o número de dez betas, que ele acredita ser o que consegue controlar bem, os vampiros Mcallister mortos de algum modo sempre retornam na noite seguinte.

A diferença mortal entre os dois grupos se dá além da animosidade entre espécies, por conta de uma questão filosófica e de segurança primordial. Enquanto o lorde vampiro e seus asseclas caçam indiscriminadamente, lançando os corpos no rio Tâmisa ou em locais abandonados, os lobisomens não se alimentam de nada humano, tendo seu sustento apenas na forma humana, o que agradou e muito o jovem alfa genuíno. Ethan e Jackson nunca haviam encontrado nenhum dos dois grupos, mas Johnatan garantiu que sempre esteve de olho neles.

Lydia estava claramente incomodada desde que saímos do aeroporto, massageando ocasionalmente as têmporas sem nada dizer e não perguntamos nada também para não revelar prematuramente o que ela era capaz de fazer, o que seria um trunfo em caso de estarmos sendo enganados ou haver espiões inimigos ali. Participamos de um jantar vespertino em um restaurante muito bom, com tudo pago pelo alegre anfitrião, que não se afastava de meu alfa em momento algum. Não precisei ler seus olhos para entender que pretendia tentar convencer Scott a entrar para sua equipe, aumentando assim exponencialmente seu poder. Ele também já havia percebido isso e era sempre educado e evasivo, tentando passar logo o tempo para que pudéssemos ir atrás de nosso objetivo primário: encontrar o homem da visão de nossa banshee e com sorte, conseguir o bendito livro onde estaria o perigoso ritual.

O casal londrino, passado o susto inicial ao descobrir que eram vigiados, fez amizade rapidamente com a maior parte do bando Phillmore. Stiles e Lydia se sentiam deslocados e eu me limitava a responder com monossílabos tudo que me era perguntado, sendo evasivo e deixando as explicações importantes para meu alfa.

– Um é agente do FBI e o outro, seu parceiro? – Perguntou um dos lobos cinzentos do grupo, com um sorriso sacana, tentando intimidar meu alfa.

– Exatamente isso – ele respondeu limpando a boca no guardanapo e encarando o engraçadinho.

– E dois humanos em uma alcateia ajudam em que mesmo? Porque não os transforma?

– Vejo que tem ajudantes bem curiosos – Scott disse olhando para Johnatan com um sorriso desafiador – mas acho que cada um cuida como acha que deve de seu próprio grupo, não concorda?

– Naturalmente, meu amigo americano. Perdoe a língua venenosa de meu filho Michael, ele não sabe manter a boca fechada no momento certo.

Uma simples olhada depois de dizer isso e o lobo cinzento beta se encolheu todo, levantando as mãos em paralelo ao corpo num sinal de desculpa, mas sem nada dizer. Olhei cuidadosamente os rostos ali presentes e percebi que todos temiam igualmente o alfa, inclusive o alfa mais velho que mantinha sempre a boca fechada e a cabeça baixa.

– Já faz três dias que não acham um corpo no Tâmisa ou nas ruas escuras e pobres de Londres – disse Phillmore parecendo entediado – então acredito que hoje, eles sairão para comer. É uma ótima oportunidade para você estar com a gente – ele deu um tapa “amigável” nas costas de Scott.

– Como eu te disse antes – respondeu firme nosso alfa – temos assuntos importantes e urgentes e vamos ficar aqui apenas seis dias, então vou ter que declinar seu convite. Começaremos a tentar encontrar nosso amigo logo que acabarmos aqui.

– Como quiser, senhor McCall – respondeu Johnatan sorrindo – mas faço questão de enviar dois de meus filhos como apoio a você nessa empreitada. Ficaria imensamente ofendido – ele deu muita ênfase no advérbio – se você recusasse.

Sabendo que eles nos seguiriam mesmo se dissesse não, Scott aceitou, já que seria mais fácil vigiar os dois estando junto conosco.

A tarde dava aos poucos lugar à noite, mas era difícil perceber isso dada a quantidade de nuvens de chuva que preenchiam os céus da capital, com trovões ao longe e raios ocasionais em cada lado do horizonte. Fazia bem mais frio que em Beacon Hills e eu comecei a desejar um casaco extra, mas me segurei para não começar a tremer e dar àquelas bestas, uma demonstração de fragilidade humana, uma vez que eles não se importavam com o frio e eu fiquei imaginando se seus corpos eram tão quentes quanto o do meu alfa, o que me fazia dormir tranquilo mesmo sem cobertores algumas vezes.

Observando os “não monstros” que frequentavam o restaurante, fiquei ainda sentindo vir de vários deles, alguma coisa mística, sobrenatural, mas diferente daquilo que um lobisomem, vampiro ou banshee passa. Era como se fossem humanos escondendo algo de mágico dentro das bolsas e bolsos. Afastei aquele pensamento totalmente sem lógica e mastiguei desanimado meu almoço, sem fome nenhuma dada a grande quantidade de gente ali e a alegria falsa e desajeitada que sua amizade forçada me impunha. Jackson e Ethan estavam maravilhados com isso, Lydia continuava com sua enxaqueca e Stiles se entrosava bem com os betas da alcateia local.

Assim que o cinza nublado do céu se tornou o negrume da noite por completo, Johnatan Phillmore partiu para caçar seus inimigos vampiros, deixando o beta Michael e seu “irmão” David como nossos guias e ajudantes. Sabíamos que estavam mais para espiões, mas não tínhamos muita opção no momento, já que o tempo era curto. Nos hospedamos em um hotel discreto em Westminster, a poucas quadras do grande relógio, onde acreditávamos ser o ponto de partida para encontrar o herdeiro do padre e seu livro secreto. Nos dividimos em dois grupos e como esperado, por medo de se separar, os betas resolveram acompanhar Scott, que iria com Stiles e Ethan, enquanto eu, Jackson e Lydia daríamos a volta pelo outro lado do parque arborizado, procurando pistas de nosso alvo.

O caminho era longo e dificultado pelo trânsito intenso de carros e pessoas. Próximo de Berkeley Square, mais ou menos na metade do caminho, uma estranha neblina negra começou a tomar a rua e a parte arborizada. O frio aumentou intensamente e os pedestres procuraram abrigo, enquanto motoristas fechavam seus vidros e se concentravam na estrada, enxergando muito pouco o que os faróis de seus veículos permitiam. Continuamos pela calçada por um tempo, mas paramos quando Jackson segurou Lydia, que ameaçava cair tomada pela enxaqueca que havia piorado exponencialmente. Ofereci ajuda, mas ela se recusou, dizendo que eram seus poderes nos guiando pelo caminho certo.

O som de asas batendo se fez ouvir e, afastando parte da neblina negra, um homem desceu dos céus há alguns metros de nós, uma figura mítica que eu nunca imaginaria encontrar. Cabelos brancos como sua pele pálida, cobrindo as orelhas e um rosto incrivelmente jovem. As roupas incomuns não se pareciam com nada que se usa hoje em dia: Calça preta justa que terminava em botas longas de adornos dourados, camisa branca manga longa com babados esquisitos no peito e um sobretudo preto de interior vermelho, rasgado no local onde suas asas brotavam. No momento em que ele tocou o piso, no entanto, as asas desapareceram, dando-lhe uma aparência mais humana, mas ainda assim exalava perigo e urgência.

– Precursora da morte – ele disse com uma voz aveludada, grave e excitante, referindo-se claramente à moça que era amparada pelo kanima. – Eu peço perdão por ter que matá-la dada a raridade de sua presença, mas aliados tão perigosos quanto uma banshee não podem ser permitidos nesta guerra.

Enquanto o vampiro falava, cometi o erro de olhar em seus olhos, fascinado pelas fagulhas de luz que saíam de seu corpo como linhas amarelas brilhantes, desaparecendo na neblina escura e mergulhei em um turbilhão de quatro séculos de memórias misturadas. Havia ainda um brilho amarelado sedutor que tentava nublar meu pensamento e me fazer servo daquela mente. Balancei a cabeça e desviei os olhos, escapando de sua tentativa de hipnose. Percebi que ele encarava Jackson, que ficou estático por um momento, tendo seus globos oculares substituídos em seguida por olhos ofídicos assustadores e uma língua fina com duas pontas saiu de sua boca quando o rapaz pronunciou aquele longo silvo metálico.

– Parece que não poderei seduzir nenhum de vocês hoje, que inusitado!

Ao dizer isso, sua imagem sumiu e ele apareceu ao lado do kanima, segurando seu braço livre com o direito, enquanto o esquerdo rasgava sua garganta. Percebi que ele não se movera rápido como o puma fazia, aquilo era uma espécie de poder mágico de teleporte. Segurei Lydia para que não caísse, enquanto o corpo de Jackson tombava agonizante e em um movimento muito rápido, o vampiro me atacou da mesma forma que a meu amigo. Se assustou quando percebeu que, ao rasgar minha garganta, ela se curava quase que ao mesmo tempo e arregalou seus olhos ao sentir o cheiro de meu sangue. Apertou meu braço me forçando a largar Lydia, que caiu inconsciente vitimada pela enxaqueca e usando uma força descomunal, dobrou meu pescoço para o lado e cravou veloz suas presas em minha jugular, se alimentando de meu sangue. Senti a chama de alfa queimar mais forte em meu peito, enquanto a vida deixava meu corpo junto com o líquido vermelho drenado.

Me largou de súbito e deu um passo para trás como se engasgasse e eu caí de joelhos, zonzo, tentando me manter desperto para curar Jackson. Não o perderia como perdi Theo. Me arrastei como pude, de quatro, até o rapaz inconsciente e toquei seu braço, buscando forças não sei de onde para mantê-lo vivo. A escuridão começou a se dissipar como se varrida por um vento que eu não percebia e o vampiro saltou, invocando suas asas negras, que piscaram, mas não se mantiveram. Ele correu para a rua, saltando por sobre os carros com velocidade e agilidade sobre humanas, desaparecendo na Londres noturna. Ainda ouvi a voz de Scott chamando meu nome, preocupado e se aproximando, antes de perder a consciência.

Acordei algum tempo depois, com tapinhas no rosto dados por meu alfa preocupado, que me abraçou e beijou, me perguntando se eu estava bem. Abracei de volta recuperando aos poucos minhas forças e percebi que já conseguia ficar de pé. Michael e David não estavam junto, levaram um perdido dos dois lobisomens mais experientes que mudaram de direção e vieram para nós. Observei satisfeito Jackson de pé e bem, conversando com Lydia sobre algo importante.

– Ele não está na torre do relógio e nem em volta, o que significa – começou Ethan.

– Que deve estar nos túneis subterrâneos do metrô – completou o kanima sorrindo.

Descemos por um bueiro em um beco discreto e pouco movimentado e nos separamos em duplas para tentar encontrar um velho grande e meio louco, a única descrição que Lydia conseguiu dar. Eu fui com Scott que ainda estava preocupado comigo e não queria se afastar outra vez, enquanto Stiles foi com Lydia e Ethan com Jackson, formando três duplas de casais.

– Então Mcallister atacou vocês?

– Sim, eu li seu nome em seus olhos, mas foi só o que consegui.

– E cometeu o erro de sugar seu sangue. Tem certeza que está bem?

– Ele não tirou o bastante para me matar e meu dom de cura já está repondo.

– Sabe, Londres é uma cidade muito romântica – Scott disse segurando minha mão e me encarando – e eu sei que estamos juntos há algum tempo, mas talvez...

– Devêssemos falar mais de sentimentos? – Arrisquei.

– É isso! Você me ama? – Perguntou sorrindo, mas percebi aflição em seu olhar.

– Eu preciso pensar – falei abaixando a visão e batendo com um indicador no queixo.

– Gabriel – ele me pegou pelos cotovelos ainda sorrindo e me balançou forte, me fazendo olhar para sua face outra vez.

– Eu nunca amei antes – respondi sincero, uma vez mais olhando dentro de seus olhos castanhos – e os tuneis de um metrô não parecem ser o lugar ideal.

– Mas? – Ele me encorajou.

– Eu amo o ar. – Respondi conclusivo.

– O ar? – Scott perguntou com o sorriso mais fraco, sem entender bem e vi uma pontinha de decepção começando a se formar.

– O ar que entra em meus pulmões e me mantém vivo – completei – e o pulsar do sangue em meu coração, o sabor de cada coisa gostosa, o som de cada música suave, o sorriso feliz de cada pessoa. Também amo cada passo de uma caminhada em paz e a brisa que toca meu rosto pela manhã.

– E quanto a mim? – Ele perguntou esperançoso – sou só um corpo quente que você usa?

– Longe de você – respondi ainda dando continuidade a minha declaração boba – tudo isso fica menos agradável. Sem você, eu deixo de respirar, de sentir o ar, o pulsar do sangue e o sabor das coisas. A música perde o sentido e cada sorriso inocente e puro parece gargalhar minha solidão inevitável. Não consigo dar um passo sequer e mesmo uma brisa, resfria meu ser e congela minha existência.

– Puxa, que palavras lindas – ele disse me abraçando e ainda processando o que falei.

– Eu achei um livro de poesias velho na sua casa e estive lendo – confessei. Acho que tudo isso é só uma maneira de falar com mais intensidade o que eu queria te dizer e repetir a cada segundo, para o resto da vida.

– Eu te amo Gabriel Chris. – Disse com um sorriso e me deu um beijo rápido.

– Chris? – perguntei sorrindo.

– Chrisóstomo é muito grande e não consigo pronunciar correto – brincou. E Ordore, bem, é meio desconfortável.

– Um dia vou me livrar dele.

– De seu sobrenome ou de seu tio?

– Não era para isso ser o assunto Scott, eu estou tentando te dizer.

– Que gosta muito de mim, eu sei.

– Eu te amo Scott McCall!

Beijamo-nos longamente e fomos interrompidos por passos e um pigarro desajeitado.

– Detesto interromper o casal – falou Johnatan que se aproximava arrastando um senhor de cinquenta anos, acima do peso, com barba e bigode por fazer, roupas gastas e olhar cansado – mas acho que é isso que estão procurando, não é?

A primeira coisa que notei, foram as garras expostas do alfa já na garganta do homem que viemos procurar.

 


Notas Finais


Esse é o penúltimo capítulo da segunda temporada. Gosto de fechar cada temporada com saltos de tempo, as vezes pequenos, mas significativos para a história, então até amanhã, no season finale!


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