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História Ômega - Cidade Cinza - Capítulo 18


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Capítulo 18 - 17.Ômega Parte I


Fanfic / Fanfiction Ômega - Cidade Cinza - Capítulo 18 - 17.Ômega Parte I

 

A madrugada avançava noite a dentro, a Lua por um momento tomava tons avermelhados e as nuvens eram de um tom cinza, como restos de cigarro em um copo de uísque vazio. Quase não se notava estrelas no céu e as poucas que se podiam ver eram tristes e sem brilho. O mundo naquela noite parecia estranho, as regras pareciam mudar e a partir daquele momento o velho jogo entre criaturas noturnas e pessoas da Cidade Cinza se tornaria voraz.

Aghi sabia disso, as regras eram outras. Agora essas malditas criaturas matavam pessoas no meio da rua, no caso uma pessoa morreu pelo simples fato de tentar protegê-lo. Mesmo que escapasse agora teria de conviver com isso para sempre. Sentiu o medo de que aquela criatura matasse a família de Miguel. Lá estava o corpo, daquele que ele mal pôde conhecer, um rapaz as vezes confuso mas com um enorme senso de justiça, aparentemente.

— Isso é tudo culpa minha, Miguel! Eu não sabia que essa coisa estava lá.

Eu... Fome....Sangue. —Brandia a criatura.

A criatura salivava espreitando o corpo de Miguel, porém ela sabia que o banquete não poderia ser desfrutado agora. Se tentasse devorar o corpo dele agora, o garoto correria para longe. Precisava preparar o prato principal antes de devorar a sobremesa. Aghi estava com tanto medo e conflito que exalava um cheiro de vítima, era o que a criatura desejava, uma morte simples para o garoto e um banquete rápido antes que a noite sucumbisse ao raiar do dia. Varou a mente do garoto com outra de suas mensagens:

— Você sabe que foi culpa sua, certo? Você matou esse rapaz! — Lá estava a voz estridente rasgando a consciência de Aghi.

— Eu odeio você! Eu te odeio! — Aghi gritava, com um olhar de ódio, o medo simplesmente deu lugar a um sentimento que não era de sua natureza, o ódio.

— Raiva é melhor que medo. Me odeie, mas odeie com todas as suas forças minha criança. Seu ódio vai fazer você ter o mesmo destino dele. — Zombava a criatura.

Aghi sabia que os Carniçais, esses ladrões comedores de carne e alma, brincavam sempre com a mente de pessoas confusas. Foi assim com o Sr. Todorov, homem gentil e bondoso, que um dia se transformara em alguém violento, uma marionete nas mãos de duas criaturas similares a este Carniçal. A forma delas era humana, mas o cheiro de morte e esse gosto de sangue preso na garganta quando elas se aproximavam era o mesmo. O poder da espécie que corrompera a alma do pobre senhor não estava nas presas, estava na língua. Atiçaram os piores desejos, os mais proibidos, que assolam o coração de homens e mulheres. Esses desejos ainda não podiam ser compreendidos pelo jovem coração de Aghi, mas a mudança no comportamento do Sr. Todorov foi o suficiente para aterrorizá-lo. Aos poucos sua alma foi envenenada e ele perseguira o garoto que sempre o amou, eram ameaças físicas e psicológicas diárias.

Era só uma daquelas criaturas conversar com seu tutor e pronto, a alma estava envenenada. Eram cochichos, mentiras, choro, ou qualquer outra coisa que colocasse o homem contra o garoto. Aos poucos o vínculo entre eles se desfizera e Aghi entendeu que se permanecesse ali poderia acabar morto. Sim, era mais fácil ser assassinado por ele que expulsar aquelas criaturas amaldiçoadas em pele de gente, pensava o garoto.

Todo o medo que sentiu do homem que deveria protegê-lo fez com que fugisse atrás de uma promessa: O Guardião Santo. Sabia que se o encontrasse poderia mudar tudo, afugentar o terror e os monstros e mais importante que isso, poderia cumprir a missão que aquele que guarda o nome de Deus na Terra possui. Tudo isso não aconteceu, ele não teve nenhuma vitória desde que fugira, apenas obteve a dor da perda de um ente querido nas mãos de outra dessas criaturas.

Talvez fugir tenha sido uma escolha errada. Talvez devesse ter dito a Miguel a verdade e entregado o número de telefone do Sr. Todorov, uma simples ligação e ele estaria em casa agora. Era uma porção grande de talvezes, essa maldita palavra que não saia de sua cabeça. Sabia que pensamentos sobre o que poderia ter sido mas não foi eram em vão, o próprio Sr. Todorov sempre dizia: águas passadas não movem moinhos, Agnathi. O erro é primo feio do aprendizado, Agnathi.

Mas não podia deixar de pensar que morreria após perder todas as pessoas que já se importaram com ele. Quem poderia dizer que o próprio senhor Todorov não estaria morto a essa altura, quem poderia afirmar que as duas criaturas não planejavam matá-lo assim que deixasse de ser útil? Que fardo o garoto carregava. Nunca reclamou até então, mas ver o corpo de Miguel sem vida era demais pra ele. Toda aquela violência precisava ter fim de um jeito ou de outro. Ajoelhou-se perante o monstro e disse.

— Faça o que quiser comigo, mas por favor não machuca a família dele.

Nããããããooo...— Sussurrou a criatura.

— Eu vou matá-los um por um. E você saberá que a culpa foi sua. Não importa em qual mundo sua alma habite, você sempre saberá que a culpa foi sua. Sua! — A voz invadia seus pensamentos.

Chorava de olhos fechados enquanto murmurava algo parecido com uma oração, dizia Deus diversas vezes e implorava. Não implorava por sua vida, mas sim pela família de Miguel. Pedia perdão por seus pecados, possivelmente sua vida teve poucos, tendo em vista sua idade, mas seu coração puro, de menino, sentia-se pecador até pelo erro de outras pessoas.

A neblina, agora mais densa, dançava ao redor deles como se quisesse degustar sangue inocente. Aghi agora mal podia ver Miguel, mal podia ver aquela massa gigantesca que era o Carniçal. Mas podia sentir sua presença, escutar sua respiração de besta e ver os buracos no lugar dos olhos.

A criatura fez um movimento brusco arremessando Aghi para longe. Agora o monstro, Carniçal, precisava ser rápido, o menino estava cambaleante sucumbindo ao medo e a falta de esperança. Com sua confiança em frangalhos ele não poderia fugir, sua única opção era aceitar sua sentença de morte dada pelo juiz asqueroso que também seria seu algoz—, a besta que estava a sua frente salivando ácido.

Ao ver Aghi caído se esforçando para levantar-se a criatura parecia grunhir de felicidade e satisfação, faria o que mais gostava na vida, matar inocentes com toda a crueldade natural de sua espécie. A criatura parecia querer mais de Aghi, sentiu que poderia irritá-lo mais e quem sabe levá-lo a loucura. Se arrastou com passos pesados, as costas arqueadas pelo peso dos longos espinhos que saltavam de sua pele, aproximando-se lentamente do garoto. Aquela distância, um metro e alguns centímetros, o Carniçal podia degustar o sofrimento dele.

Medo....Mais medo...

Não funcionou, o medo de Aghi dera lugar a tristeza profunda, ele não tinha mais nada que pudesse ser tirado. Não poderia salvar a família de Miguel e não poderia nem mesmo salvar sua própria vida. Apenas prostrou-se novamente na presença da criatura, abriu os olhos e disse:

— Pode me matar, não vou fugir.

A criatura voltou a rugir, parecia nervosa. A postura corajosa de Aghi a irritara de certo modo. Como uma simples criança podia não ter medo, questionava-se o monstro.

Fome....

Entrou novamente na cabeça de Aghi, invadiu seu cérebro como um cão farejador revistando uma casa atrás drogas. Não encontrou outras formas de ameaçá-lo e resolveu emitir sua mensagem mental antes de devorá-lo.

— Quando encontrar a alma daquele garoto não se esqueça de dizer o que eu vou fazer com a família dele.— A monstruosidade seguiu seu comentário de uma risada falsa, carregada de maldade.

O Carniçal deu dois passos em direção a Aghi. Suas garras agora estavam ao redor do garoto, envolveram seu pescoço lentamente, a medida que os dedos desajeitados da criatura pressionavam-se contra ele, o ar lhe escapava e a visão se embaralhava. O garoto se debatia tentando soltar-se das garras do monstro, em vão. Afundava os dedos na garganta do garoto, estrangulando-o de forma que pudesse aproveitar seu sofrimento um pouco mais antes de matá-lo. O rosto do carniçal que parecia um crânio de animal deu lugar a uma grotesca boca, de dentes podres e um hálito insuportável. A criatura pretendia devorá-lo de uma só vez.

O rosto de Aghi estava pálido, quase se despedindo daquele mundo de sofrimento causado pelo Carniçal, não sabia se desmaiaria naquele momento ou se teria algum tempo para ver sua cabeça sendo arrancada pela boca nojenta a sua frente.

Seu corpo sendo levado em direção a boca do monstro parou perto das presas salivantes. Sua visão, parte embaralhada pelo sufocamento e parte ofuscada pela névoa densa, jurava ter visto um fantasma atrás do Carniçal. Aos poucos os dedos grossos e sujos dele abriam-se fazendo com que Aghi caísse da altura que o monstro o erguera com a intenção de devorá-lo.

Assustado ele puxou o máximo de ar que podia, massageava a garganta e tentava entender porque o monstro o soltou tão repentinamente. Viu a criatura, imobilizada com os braços levantados, tremer e sucumbir os joelhos em direção ao chão. Estava prostrada como Aghi a alguns instantes. Próximo a ele uma silhueta de homem com olhos amarelos estava com os punhos erguidos como se tivesse acabado de acertar um soco nas costas do Carniçal.

A criatura gemia de dor em frente a Aghi. O menino forçava sua vista e a medida que recobrava sua consciência podia entender o que acertara o monstro que estava prestes a matá-lo. Era Miguel. Sua aparência era diferente, com aqueles olhos e um ar sombrio, mas as roupas rasgadas pelo golpe que o atravessou eram as mesmas. De alguma forma ele estava vivo e sua alma não era a que Aghi conhecia.

— Miguel!— O garoto deu um grito sufocado— É você Miguel?

O Carniçal prontamente voltou-se para o ser que ousou acertá-lo pelas costas. Provavelmente em toda sua existência ele nunca recebera um golpe, quanto mais um soco pelas costas. A criatura apesar de sua falta de feições parecia transtornada com a visão de Miguel erguido diante dele.

— Você estava morto... — sussurrou o monstro.

A mente de Aghi, ainda conectada aos pensamentos do Carniçal, pôde escutar a criatura desesperada grunhir sua surpresa em direção a Miguel.

— Eu matei você! Raios, eu atravessei você! Porque não está morto? —Insistia o monstro.

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