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História Ômega - Cidade Cinza - Capítulo 20


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Capítulo 20 - 19.Amargo


Após os acontecimentos envolvendo o Carniçal, Agui e Miguel voltaram para casa. Aghi estava exausto e adormeceu no sofá rapidamente, enquanto Miguel tomado por um ânimo repentino sequer conseguiu fechar os olhos, nem mesmo por um instante.

Tomou um banho, o sangue do Carniçal sumira por completo, mas seu próprio sangue ainda impregnava suas vestes a tal ponto que somados aos rasgos e manchas fez com que Miguel opta-se por jogá-las na lixeira.

Ao sair do banheiro olhou para a porta do quarto de Sofia, as lembranças no limbo ou imensidão branca ainda percorriam seus pensamentos. Por um instante entendeu a dor da irmã quando se colocou em seu ponto de vista durante aquele assassinato. Como uma criança podia lidar com aquilo, questionava-se sem entender o porquê de sua irmã não ser tomada pela revolta e sede de justiça. Talvez em algum momento ela tivesse se revoltado contra o assaltante, mas atualmente ela apenas absorvia aqueles sentimentos em silêncio.

A porta do quarto de Sofia abriu bruscamente e a garota, andando rapidamente com o corpo encurvado, saiu com a cara pálida cambaleando pelo pequeno corredor.

— Olha Sofia, eu sei que você não me viu noite passada e eu....— Antes que terminasse a frase ele foi empurrado para o lado esquerdo pela irmã que apressadamente entrou no banheiro.

A porta fechou-se com violência e o barulho da chave trancando-a pôde ser escutado por Miguel que não entendeu o que estava acontecendo com sua irmã. Posicionou-se em frente a porta e resolveu continuar seu discurso interrompido:

— Só queria dizer que ontem eu tive um problema na empresa e acabei virando a noite. Nada que devesse te preocupar... O que eu tô fazendo? Não foi isso, foi algo sério, algo verdadeiramente fantástico. — Fez uma pausa esperando por algum barulho de Sofia. Nada aconteceu.

—Sofia? Oi? Tá tudo bem? — Insistia.

Após um breve silêncio ele escultou um som de vômito e sua cara de espanto foi sua própria sentença de erro. Eu não deveria ficar colado na porta, pensou Miguel.

Deu dois passos para trás e resolveu esperar que a irmã saísse bem do banheiro, afinal, perguntar se estava tudo bem não parecia adequado naquele momento. Sofia abriu a porta do banheiro, sua face refletia um ar de dor, caminhou direto em direção ao quarto antes que Miguel pudesse continuar a tecer seus comentários.

Miguel optou por segui-la até o quarto, viu a irmã deitada abraçando um travesseiro contra o corpo e fechando os olhos.

—Sofia, você está bem? Tá tudo bem? — Repetiu a pergunta feita no banheiro.

A garota deu um sorriso forçado para o irmão e acenou como se quisesse dizer que estava bem e que ele não precisava se preocupar. Então Miguel consentiu com a cabeça e sentou-se na beirada da cama com a intenção de continuar a conversa, ele não podia notar mas a garota revirava os olhos em sinal de decepção quando o irmão sentou.

— Nossa, sabe? Eu não sei nem por onde começar, Sofia. As coisas que eu vi, bem... Não sei se posso te contar ou sequer se você acreditaria nelas. Mas o que me aconteceu ontem mudou minha vida, eu me sinto diferente. — Dizia Miguel.

A irmã mantinha o sorriso amarelo, a cara pálida quase tão branca quanto a tinta da parede não era notada pelo irmão. Ela balançava a cabeça positivamente como se quisesse que ele terminasse aquele monólogo rapidamente. Mas ele continuou:

—Eu vi coisas que me fizeram entender sua dor. — Quando Miguel disse a palavra dor os olhos de Sofia tomaram sua cara com a expressão de espanto, ela estava com dor naquele momento e ele não notava. — Eu entendi tudo que você passou, maninha e....

Ela interrompeu o irmão com uma cutucada e apontou para a porta manifestando sua vontade de que ele saísse. Miguel zangado pela falta de interesse da irmã disse:

— Sofia! Qual é seu problema? Eu quero conversar com você! É uma coisa importante!

A garota pegou um pequeno quadro de avisos e começou a escrever, ela optou por usar o quadro no lugar de folhas de papel para passar os recados necessários, e mostrou para o irmão a seguinte frase:

"ESTOU NAQUELES DIAS!"

— Caramba, eu não sabia. Você vomitou... de dor? Nossa, foi mal! — Sofia apagou tudo e começou a escrever novamente quando percebeu que Miguel não pararia de falar.— Eu nem me toquei porque o que eu preciso falar é realmente importante e está relacionado a morte da nossa...

Interrompeu o monólogo outra vez para ler o que a irmã escreveu:

"ESTOU MORRENDO DE CÓLICA, MATE-ME OU SAIA DAQUI AGOOOORA!"

— Uoow, tô saindo! — Concluiu Miguel.

Saiu apressado do quarto e fechou a porta. Balançou a cabeça e disse para si mesmo em voz baixa:

— Custava esperar alguns minutos? Eu só queria falar uma coisa.

Voltou para a sala aonde Aghi adormecera no sofá, o sono tranquilo da criança não condizia com a situação atual. Perguntava-se como o garoto podia dormir tão facilmente, e enquanto se perguntava resolveu abrir a janela da sala para deixar o ar refrescar o ambiente.

Quando abriu o vidro percebeu que no estacionamento, do conjunto habitacional, a alguns metros de distância uma criatura albina, magra e sem olhos o observava escondido atrás de um carro, era um Carniçal. Definitivamente a pequena criatura esguia não se assemelhava ao gigante que o matou na noite anterior, mas a figura sem olhos era similar em alguns aspectos faciais.

— Mas que merda é essa? — Disse despertando Aghi de seu sono.

— O que foi, Miguel? — Disse Aghi esfregando os olhos, ainda estava tomado pelo sono.

— Chega na janela, Aghi! Você precisa ver aquilo.— Apontava o dedo indicador, sem receio, na direção da criatura.

Aghi levantou apressado do sofá, esticou-se para dar altura e enxergar melhor pela janela. A criatura estava agachada e escondida, mas não se importava com as pessoas que moravam no conjunto e passavam por ela, aparentemente nenhuma delas podia enxergar o Carniçal. Ele se escondia, muito mal, apenas de Aghi e Miguel.

— Parece um Carniçal vigiando sua casa.—Disse em tom de tranquilidade.

— E você acha isso normal?— Um tom de surpresa na voz de Miguel chamou a atenção da criatura que assustada fugiu rapidamente.

— Eles estão em vários lugares, mas raramente atacam ou fazem alguma coisa.

— Repito, você acha isso normal?— O tom de voz agora era relativamente preocupado. — Eu nunca tinha visto essas coisas e agora elas cercam minha casa? E se elas invadirem? E se vierem em bando?

— Sua casa está segura e você só consegue enxergá-los por causa de ontem. Os pequenos se escondem durante o dia. E os grandes caminham à noite.

Miguel saiu de perto da janela, esfregou o rosto com as mãos sem acreditar em tudo o que estava escutando. Agora eu preciso me preocupar com monstros, ele pensou.

— Como assim minha casa está segura? E por que eu nunca tinha visto antes essas criaturas?

Aghi aproximou-se dele com o rosto repleto de seriedade e disse:

— A porta!

— O que tem a porta? Isso é algum tipo de metáfora? Por acaso eu...— Antes que prosseguisse a campainha de sua casa tocou.


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