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História Ômega - O Guardião Santo - Capítulo 64


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Capítulo 64 - 63. Estrada Parte VI


Fanfic / Fanfiction Ômega - O Guardião Santo - Capítulo 64 - 63. Estrada Parte VI

Sozinho, naquele velho armazém, Aghi percebeu que sua única chance de sobreviver envolvia fazer exatamente o que Alfredo lhe aconselhou. Balançou o corpo com força e tombou a cadeira no chão, ficou bem perto do facão cravado no piso, por algum motivo o barulho feito por ele não atraiu o homem lá fora, ou seja, ele realmente queria que ele escapasse.

Com os pés debilmente atados, ele engatinhou na direção da lâmina, com cuidado cortou a corda que prendia seus braços e com as mãos livres desatou o restante dos nós que o prendiam junto a velha e enferrujada cadeira.

Estava livre, lançou uma olhada rápida no açougue abandonado para constatar que o local contava com uma saída lateral. Depois de dois solavancos, o menino conseguiu mover a velha porta de ferro que estava desgastada pelas intempéries e pelo abandono. Esgueirou o pequeno corpo para passar pela pequena abertura que conseguiu criar.

Fora do velho armazém, a visão descrita por Alfredo se concretizou: poderia se esgueirar pela chuva até o matagal, que possivelmente o levaria a estrada que os trouxera, ou correr na direção de um casebre caindo aos pedaços, no alto de uma pequena elevação. A escolha óbvia tenderia para o matagal, onde a área livre facilitaria uma possível fuga, e já na estrada com um pouco de sorte poderia conseguir até uma carona.

Os empecilhos deveriam ser considerados, o garoto estava andando com dificuldade, a pancada que o desmaiou no carro cobrara um efeito pesado. Estava cambaleante e fraco, com a chuva pesada, que estava prestes a cair, não conseguiria chegar até a estrada antes de um ataque, seja de um Carniçal ou do amaldiçoado. Poderia se esconder perto de alguma das pequenas árvores isoladas pelo terreno, mas seria presa fácil para algum Carniçal, não poderia arriscar e contar que apenas Alfredo o perseguiria.

Optou por fazer o caminho mais óbvio, se esconder no casarão. Daquele lugar poderia ver todo o terreno próximo, se conseguisse um esconderijo aos poucos recuperaria sua força para uma fuga, a chuva em breve terminaria e seria mais fácil escapar das garras da morte.

Com o corpo pressionado contra a parede lateral, Aghi avistou Alfredo e o que mais temia nesse momento, um Carniçal. Os dois estavam em uma conversa que só poderia resultar em seu assassinato ou um sequestro, precisava ser rápido e discreto em sua fuga até a velha casa. Em passos cambaleantes se esgueirou pelo mato, usou um pouco da força que lhe restava para subir o pequeno morro com toda a velocidade que suas pequenas lhe permitiram ter.

Aparentemente não foi notado por Alfredo ou pela criatura, se eles percebessem que estava indo para a casa seria encurralado e tudo estaria terminado. A casa, apesar de pequena, possuía dois andares, o segundo andar se destacava pela falta de acabamento das paredes que salientavam os tijolos de sua alvenaria. Na parte leste, um imenso buraco tomava metade da parede e a falta de boa parte do telhado, acarretava água da chuva invadindo os cômodos da residência.

Aghi entrou pela abertura daquilo que um dia foi a porta de entrada da antiga morada, certamente removeram as esquadrias do lugar, nada surpreendente vindo de uma casa abandonada no meio do nada. Dentro do cômodo principal, o piso de tacos de madeira, tão encardidos e manchados, recebia o garoto, foi necessário desviar das poças e buracos. Uma luminária parcialmente em pedaços balançava de um lado para o outro com vento da chuva que começava a se intensificar, um relâmpago cortou os céus e encheu de luz a fantasmagórica casa.

Era nítido que primeiro andar não tinha muitas opções para um esconderijo, os únicos móveis eram um sofá de um assento, que os ratos ou outros animais devoraram em grande parte, e a prateleira de três níveis. Subiu pela escada, o ranger dos degraus de madeira e o farfalhar das folhas que invadiam o lugar se fundiam ao som das pesadas gotas, que batiam contra as ripas velhas do lugar.

O corredor do segundo andar dividia muito bem os cômodos, era tomado por revistas, garrafas, pneus, e os restos daquilo que seria uma obra paralisada, madeiras, tijolos e vergalhões abandonados. Se esquivou de tudo aquilo até um quarto que ficava no final do corredor.

No aposento três esconderijos claros: A cama, o armário velho e um baú de ferro que só não foi roubado devido ao seu peso. Antes que pudesse escolher entre eles, o seu maior temor aconteceu, uma voz firme e forte veio do lado de fora da casa:

— Ei, garotinho! É o tio Alfredo, vim te matar! Por favor, me diga que você foi burro o suficiente para se esconder na casa.

As palavras caíram com um peso imenso, Aghi percebera o tamanho de sua ingenuidade ao entrar na casa. Ele foi manipulado pelo Amaldiçoado sem ao menos perceber que aquele seria o único lugar que não poderia escapar, estava totalmente cercado. Era óbvio que o terrível homem que o capturara nunca permitiria a intervenção de Carniçais enquanto o perseguia, sua escolha deveria ser correr por um lugar aberto e não ficar preso em uma área fechada.

Burro, burro, burro! Ele repetia em sua cabeça, pensou em chorar em seu momento de desespero, nada poderia ser feito a partir de agora. Tudo que fez até o derradeiro instante, resultou na perda de todos: sem o senhor Todorov, sem Miguel ou Guardião Santo, ninguém poderia salvá-lo.

Por que o medo o corria tanto? Por que a figura de Alfredo o desesperava mais que qualquer Carniçal? O sujeito na entrada da casa representava tudo que Aghi não podia compreender, a solidão na forma mais simples. O Amaldiçoado era um sim, um homem sem Deus, contudo era um homem sem demônios, sem medos ou angustia.

Imaginou o sorriso perverso do homem de boca costurada, o medo o alimentava. A felicidade que o sofrimento dos homens na estrada lhe proporcionou e a satisfação com o ódio de Aghi, eram a maior prova da falta de empatia de alguém que podia matar das piores formas possíveis.

— Espero que você tenha se escondido bem, garotinho! Quero te achar pelo som das suas lágrimas, chore bem alto! — Gritou o homem — estou entrando...

Ele poderia ter matado Aghi no armazém, mas não teria medo, não existiriam lágrimas. Essas criaturas, Carniçais ou homens malignos, sempre querem isso. O Carniçal no beco, o ameaçava com a morte da família de Miguel, no cemitério o falso Todorov brincava com seu espírito ao se fantasiar de tutor. Todos eles queriam lágrimas, desejavam o medo e a dúvida nos corações das pessoas que consideravam fracas.

Ele estava exausto desses jogos, nenhum deles se alimentaria mais de seus temores, se a morte era uma realidade que não podia ser evitada, teriam que concedê-la sem o prazer de suas lágrimas. Não vou chorar nunca mais! Repetia enquanto se escondia no velho baú entreaberto.

— ... Entrei, esse lugar precisa de uma reforma, heim! Sabe garotinho, isso não precisa ser ruim, não se sinta mal, não fique tenso... posso até cantar uma música pra você, que tal? — Escutou o homem se mover pelo assoalho antes de começar a cantar. — Rock a bye baby on the tree top... When the wind blows...

O Amaldiçoado vasculhava não apenas a sala no primeiro andar, criava barulho por alguns outros cômodos também, os trovões cortavam os céus com fúria enquanto ele se divertia procurando Aghi.

— ... O que estou fazendo? Essa música não é adequada para nossa situação, não é mesmo? Olha só essa casa, ela é espetacular! Vou cantar uma coisa mais apropriada... — O homem respirou fundo e recomeçou sua cantoria. — Era uma casa muito engraçada...

Com força Aghi sentiu as paredes chacoalharem com a potência do impacto do sofá sendo arremessado contra o forro do andar de baixo, em seguida o estilhaçar do lustre seguiu-se da voz firme do Amaldiçoado:

— Não tinha teto, não tinha nada! Ninguém podia entrar nela, não...

Escutou as pisadas fortes:

"Tan", "tan", "tan"!

Suas passadas ecoavam por todo o lugar, eram tão intensas que venciam o barulho da chuva lá fora, enquanto isso o homem se esbaldava no seu momento de loucura:

— ... Porque na casa não tinha chão!

Um breve silêncio tomou a morada, as partículas de água batiam contra o piso do quarto em que Aghi estava escondido, ele tentava ignorar, focava apenas nos passos lentos de Alfredo que àquela altura parecia cada vez menos uma pessoa, estava tomado pelo êxtase daquela caçada insana.

Os passos firmes pela escada indicavam que ele queria que Aghi soubesse que estava subindo. O som metalizado do facão deslizando pelo corrimão da escada era tão uniforme que parecia ainda mais próximo do que realmente estava. E ele prosseguia:

— Ninguém podia dormir na rede... Porque na casa não tinha parede!

As palavras foram seguidas de tapas nas laterais do corredor superior, ele estava finalmente no andar de cima. Por alguma razão ele pegou um vergalhão da pilha que estava no corredor, o barulho do aço se chocando, com as paredes e tábuas de madeira, indicava que ele estava partindo para o banheiro da parte superior.

— Ninguém podia fazer pipi... — disse com voz doce, para depois gritar com ódio — Porque penico não tinha ali!

A porcelana do velho sanitário se desfez em pedaços com o impacto do pesado vergalhão, o ruído indicava que ele também quebrara o único vidro restante em alguma esquadria do velho imóvel abandonado.

O baú entreaberto permitia uma visão turva do corredor, entre a escuridão e a chuva. Uma sombra despontou e Aghi rapidamente fechou a arca por completo, mas ainda era possível escutar o homem cantarolar pelo caminho:

— Mas era feita com muito esmero...

O som estava muito próximo, o amaldiçoado estava no quarto.

— Na rua dos mortos...

Estava parado bem na porta do dormitório.

Seu coração batia descontroladamente, o silêncio que tomou o cômodo foi tão intenso que não existia sequer o barulho da água tocando o assoalho, nem passos, apenas aquela respiração constante do Amaldiçoado.

Seu medo foi confirmado, suavemente a tampa foi levantada revelando um Aghi encurvado, que com força abraçava as pernas no pequeno espaço disponível, no rosto de seu perseguidor um sorriso doentio de satisfação plena indicava que não existia escapatória.

E Alfredo encerrou sua versão mórbida da canção:

— Número meia... meia... meia.

O vento gelado, como a força da escuridão de um lugar sem sol, varreu as folhas para longe. A chuva era como a lágrima mais pura dos anjos e aquela descarga elétrica nos céus presenteou o lugar com o estrondoso som do trovão.

A madrugada possuía seus sortilégios.

 

Fim do Livro I

 

 

 


Notas Finais


Terminei Ômega! Deus, terminei!
Minha primeira postagem foi em outubro de 2017, de lá pra cá foi uma mistura de emoções, pensei em desistir, me achei um merda, pensei que livros de fantasia urbana não seriam apreciados no wattpad...
Ganhei o wattys e me achei um bom escritor, então notei que ganhar o wattys não mudava em nada meu status na plataforma e me achei horrível outra vez... voltei a amar o livro quando recebi o carinho de algumas pessoas... enfim... um turbilhão de sentimentos.
Tudo que posso dizer é que se você leu pelo menos algumas páginas, sabe que existe muito de Chris no livro, ele mudou muito com o tempo (capas, títulos, escrita...) e eu também mudei, mas isso faz parte da evolução. Você não é quem começou o dia quando deita na cama à noite.
Outro livro de Ômega vai sair um dia se Deus quiser, mas até lá sou uma pessoa exausta e feliz, contudo estou grato.
Obrigado Ômega,
obrigado Miguel,
obrigado Aghi e
OBRIGADO você que tirou algum tempo para ler essa história.
Um abraço do não tão aclamado, mas muito esforçado autor Chris.


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