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História On our way, I found you - Capítulo 3


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Notas do Autor


Mais um capítulo. Faltam poucos!

Aproveitem!

Capítulo 3 - Chapter 3 - Stranger


Existem dias que você se pergunta se a realidade é realmente verdadeira, por exemplo quando seu pai diz que você vai ganhar um carro, ou que você não precisa lavar a louça porque o seu irmão — esse mesmo, aquele pestinha que muitas vezes você pensa se não poderia ir morar na Malásia qualquer dia — fará em seu lugar por livre e espontânea vontade. E, pode ser naquela vez que sua mãe, no supermercado, te deixa levar quantos biscoitos recheados você quiser.

Mágico, não é?

E, não venha com o discurso de gente velha; “se casar é melhor”, “namorar é bem mais incrível que isso”, talvez até “ter um filho com a pessoa que você ama te deixa muito mais feliz que qualquer outra coisa...”, etc, etc. Estamos falando de casos hipotéticos na melhor fase da vida, que é claro, a puberdade.

Ou a pior, depende da pessoa.

Mas o que quis dizer com todo esse discurso um tanto fora de contexto, é o caso de um acontecimento irreal que ocorrera anteriormente.

Eu nunca fui uma garota que realmente acreditava em contos de fadas, muito pelo contrário. Desde o divórcio dos meus pais, a vida sempre me pareceu algo mais concreto. Não somente pelo simples fato de que eles são meus pais e a maioria dos filhos gosta de ver seus pais unidos, mas também porque quando alguma coisa extremamente chocante te atinge na infância, fica complicado reverter o que foi estabelecido em sua mente.

E sim, eu gostaria de ver meus pais juntos novamente. Sim, eu amo os dois e acho que eles ainda combinam e tudo mais; porém depois dessa “explosão” que aconteceu comigo e com a minha família, ficou meio difícil acreditar que o Príncipe Encantado ainda existia por aí.

Cadê o “awwwn” de tristeza, hein?

Entretanto, naquele instante, quando meus olhos focaram os dele, pareceu que todos os meus discursos fossem ridículos e ironicamente infantis para uma garota de dezesseis anos.

Eu nunca o vira na escola em minhas duas semanas de novata. Admito que se tivesse, nunca mais pararia de observá-lo.

Ele estava com um dos garotos que andava com um pessoal que eu desconfio serem um grupo quase-popular da escola, daqueles tipos que não querem andar com time de futebol, mas que, mesmo assim, todos os conhecem. E parecia genuinamente curioso sobre a estranha que chegara ao colégio no meio do ano letivo.

Mas o que dizer? Ele era lindo. Com certeza — certeza meeesmo — já praticara algum esporte, porque tinha um porte atlético; bronzeado, como se passasse muito tempo na praia, e o que, sem dúvida, deixava-o distinto dos outros garotos era a cor de seus cabelos.

Um exótico cor-de-rosa, lembrando aquele fim de tarde, com o horizonte indo do vermelho para o laranja, do laranja para a rosa…

Ai, meu Deus.

E eram espetados, como se passasse a manhã inteirinha bagunçando-os, mas, por mais incrível que pareça, fazia com que a definição de perfeição fosse feita para ele.

Seus olhos, o ônix mais preto que eu já vira — não dava para descrever com tanta convicção, afinal ele estava longe, talvez fossem de outra cor — que pareciam querer desvendar tudo dentro de mim, e me aprisionaram de uma forma inexplicavelmente deliciosa e diferente.

Para piorar, meu coração ainda batia acelerado como se eu tivesse corrido uma maratona.

Quando eu deixei isso acontecer mesmo?

Acelerei o passo para a minha aula de biologia com a professora Evergreen — a biblioteca teria de ser deixada para depois —, eu gostava da matéria e a professora era simplesmente incrível. Um pouco mal-humorada, mas extremamente eficiente e centrada naquilo que deveria ensinar. E eu gosto muito de pessoas eficientes.

Quando vi a placa “213 – BIOLOGIA” um sorriso se expandiu em meu rosto. Não tinha ninguém na sala ainda, apenas a professora, que quando notou minha presença, deu um sorriso singelo.

Já disse que amava aquela hospitalidade?

Sorri-lhe de volta e me encaminhei para meu assento. A melhor parte de ser uma das primeiras a chegar era poder ir para o seu lugar sem a pressão de procurar um cantinho em meio a tantos olhares. E, como eu estava um pouco sonolenta naquele dia, sentei-me na segunda cadeira do canto direito, onde se localizava a mesa da professora, e me escorei na parede, então coloquei meus materiais em cima da mesa e esperei que os alunos fossem chegando.

A turma não era exatamente grande, mas as pessoas pareciam se trancar nos banheiros na hora do intervalo — não disse? — e demoravam um bocado para aparecer. Chegavam um, dois, depois quatro, apelava para seis e novamente voltava para um, dois, três…

Abri meu caderno começando a desenhar rabiscos em toda folha. Não parece que o tédio só piora quando se faz isso? Você está ali, na sala de aula, querendo ouvir tudo que a professora tem a dizer..., mas seus colegas não têm a mínima consideração de largar a comida para estudar algo que poderá contribuir muito no futuro.

De um biólogo, mas mesmo assim, de um futuro.

Enfim.

A sala não tinha um mapeamento. Todos sentavam onde queriam — sempre me lembrava de deixar o meio da sala para os estranhos, era importante — mas geralmente seguíamos os mesmos lugares todas as vezes. Jet, da equipe de corrida, sentava atrás de mim. Era um cara legal. Assim que chegou na carteira deu uma batidinha em meu ombro e um sorriso, claramente me cumprimentando. Sorri também.

Chad, do clube de xadrez, sentava à minha frente. Às vezes, eu desconfiava se era mesmo esse clube. Ele mais parecia ser um dos estranhos por todas as vezes que o vi colocando o dedo no nariz enquanto folheava o livro no capítulo que abordava tudo sobre répteis.

Lisanna, membro dos populares — “populares” sendo os “populares mean girls” —, ficava na cadeira ao lado da minha e, como de costume, usava mais um de seus desnecessários sorrisos falsos irritantes, saltos enormes — quem ia de salto para a escola? — e colares no pescoço balançando para lá e para cá. Sempre, desde que pisei meus pés na escola, antes de sentar, trocávamos olhares raivosos uma para a outra. Eu, porque particularmente não gostava dela. E ela, porque eu a enfrentei no meu primeiro dia no colégio.

Uma dica: nunca, em hipótese alguma, peça para eu fazer algo que com toda a certeza dos deuses gregos você conseguiria fazer sozinho.

NUNCA.

E nós ficávamos assim por vários minutos. Na aula de inglês — a pior de todas as matérias que possa existir no mundo inteiro, e outra matéria que tínhamos juntas — até quando o sinal batia, não parávamos. Era uma disputa. Alguém teria que ceder, e jamais seria eu, por dois motivos; primeiro: em todas as vezes que fizemos aquilo, ela cansou e foi para outro canto da sala, resultando em minha vitória. Segundo: Sua distração era impressionante. Qualquer pigarro, suspiro ou espirro chamava sua atenção, e então ela sempre virava para mim implorando para apostarmos novamente, e como eu odiava frescurinhas, nunca aceitei e ela perdia toda as vezes.

Estávamos ali, daquele jeito, como em todos os dias, até um barulho surgir na porta e ela imediatamente correr os olhos para ver o que era, o que fazia de mim, novamente, a vencedora. Dei um sorriso orgulhoso, comemorando mais uma vitória e estava pronta para dizer à Lisanna que eu não iria ceder uma próxima rodada, até que notei sua expressão muito, muito iluminada: um sorriso enorme em seu rosto albino e as mãos juntas, dando um suspiro alegre completamente genuíno.

Movida pelo medo — e pela curiosidade também —, decidi olhar para o barulho. Eu nunca vira aquela garota arrogante dar um simples sorriso sincero para qualquer um da escola, então o que estava na porta deveria ser algo inexplicavelmente interessante para arrancar aquele tipo de reação imprevisível.

E, pelo que parecia, era a mesma reação em toda a turma.

Porém, o que surgiu em meu campo de visão foi algo que eu nem imaginava.

O impressionante é que fora preciso apenas levantar os olhos. Apenas isso.

As primeiras características que meus olhos alcançaram foram os cabelos róseos. Daí, seguiram para o porte atlético, então varreram para olhos ônix e se fixaram num sorriso torto maravilhosamente novo para mim.

Um lindo sorriso torto.

Meus olhos cravaram nele por um instante, até que percebi meu coração vergonhosamente descompassado mais uma vez, e por isso abaixei a cabeça, inteiramente constrangida.

Tudo aquilo era ridículo! Era apenas um garoto! Pelo amor de Deus! O que estava acontecendo comigo?! Virei uma das Princesas Disney para aquele tipo de reação absurda?!

“Será porque eu assisti Marly e Eu essa semana? Toda aquela tristeza de perder um cãozinho mexeu muito com a minha cabeça?”

Agora, me expliquem, o que cachorros têm a ver com a minha súbita reação esquizofrênica por um garoto no qual eu nem sabia ao menos o nome?

Equizofrenia, só podia.

Ou, carência.

Vou ligar para o meu pai quando chegar em casa.

Quando olhei novamente, percebi que ele me encarava com uma expressão misturada entre curiosidade e atenção. Sustentei seu olhar por alguns segundos, convidando-o a quebrar aquela mini competição, até que seus olhos se desviaram para algo quase na mesma direção e no mesmo instante eu soube o que era.

Lisanna balançava a mão com tanta animação que, momentaneamente, me sobressaltei. Sério mesmo, ela parecia uma criança recebendo seu primeiro presente de Natal. Lançava beijos e acenos com um sorriso que lhe cobria todo o rosto, lembrando o Coringa.

Okaaay, isso foi cruel.

— Natsu! — chamou — Baby! Eu senti tanta a sua falta! Natsu!

“Baby? Ah, então ele era namorado dela. Bom, hum, eu acho que... Hum, isso é ótimo, pois é...”.

Convenci a Meryl Streep com isso.

Mas era algo bom, até. Naquele momento, melhor do que nunca, eu deveria esquecer completamente — leia com atenção esse ‘completamente’, por favor — qualquer emoção involuntária sobre aquele cara. Ele era um simples adolescente dentre muitos outros. Eu não o conhecia e não tinha qualquer relação com ele. Duas simples trocas de olhares não faziam diferença para mim.

Não mesmo.

MESMO.

Hum…hum…

Sinceramente, qual era o meu problema?

— Baaaaaaby! — ela gritou.

Meio perturbado, ele acenou levemente e olhou para mim antes de ir sentar no fundo da sala. Percebi que o garoto de cabelos azuis que lhe acompanhava ria enquanto dava tapas em suas costas. O tal de Natsu continuava com a atenção voltada para mim.

“Pare de me olhar!”

A parte mais ridícula era Lisanna. A menina não parava de gritar por ele. Será que ela não ligava que a sala não era grande o suficiente para ele não escutar um simples chamado? Precisava sempre voltar todas as atenções para ela?

“Até parece que você não conhece a figura.”

Infelizmente, minha consciência tinha toda a razão.

A vida daquela pessoa não seria nada se todos os holofotes não estivessem sobre ela, mesm os mais humilhantes.

Porém, o melhor era que Natsu — hummm... — nem ao menos ligava para o que ela fazia. Sentou-se no fundo, com o garoto de cabelos azuis, enquanto ria de alguma coisa que alguém dissera. Mas, foi nesse momento que seus olhos cravaram em mim em uma intensidade tão alarmante que me desnorteou por alguns segundos, fazendo-me, quase imediatamente, enrubescer como uma pré-adolescente.

Então, ele sorriu.

É, aquele sorriso torto.

Virei meu rosto para o quadro, onde a professora passava a revisão da matéria. Já estava farta de todas as cambalhotas que meu estômago dava dentro de mim e também, meu coração parecia saltar pela minha boca, meus ouvidos estavam aguçados, minha bochecha queimava e minha perna balançava freneticamente.

Na verdade, já estava farta das reações involuntárias que ele me fazia ter em um intervalo de tempo ridiculamente curto.

— Bom dia, pivetes. Espero que estejam num bom começo de terça-feira — disse a professora, observando todos muito atentamente, até que abaixou os óculos, observando a expressão de cada aluno. Um pouco intimidante, se vocês me perguntarem —, vejo que nosso querido fujão retornou; bem-vindo a bordo, Dragneel.

Não precisei me virar para ter a certeza de quem era.

— Pela quinta vez, professora! Já posso me formar! — disse, dando uma gargalhada em seguida.

Nem preciso dizer que sua risada era viciante, não é? Claro que não.

Por outro lado, ele parecia ser uma pessoa animada. Bem, era um pouco evidente que a maioria dos garotos dos treze aos vinte e um anos eram daquele jeito, mas havia algo no humor dele que parecia simplesmente único, como se escondesse alguma coisa a partir de sorrisos — perfeitos — tortos. E era evidente, não apenas pelas risadas que ele e seus amigos deram, mas pelo jeito que ele ria.

Impressionante foi conseguir descrever tudo isso, sendo que nem havia olhado para trás.

— É maravilhoso vê-lo novamente, pirralho — pigarreou, sorrindo um pouco cínica — Abram os livros na página cento e quarenta e dois.

Mais impressionante ainda foi notar que ele continuou me encarando.

Até a aula acabar.

 

N&L

Têm dias que as aulas passam voando como se nunca tivessem começado. E há dias em que as aulas são mais lentas do que uma lesma. Aquele dia acabou inexplicavelmente rápido. Dizem que, quando você faz algo que gosta, o tempo é mais curto. E quando é algo que você não gosta, o contrário.

Até que fazia sentido, porque terça-feira era o único dia da semana que todos os meus horários eram preenchidos por aulas que eu amava com professores incríveis e maravilhosos.

Descobri que eu e Natsu tínhamos o horário bem diferente — e seu amigo, que descobri ser Gray, também, mas isso não vinha ao caso — no segundo horário à tarde, quando eu tinha literatura, ele... bem, eu o vi entrando na sala de informática.

Já estava virando uma perseguidora em minha terceira semana de aula?

É isso aí, Lucy. Continue assim.

O que quero dizer é que na aula de biologia ele me encarou. Em todo momento. Se piscou, era uma coisa que tinha como objetivo descobrir.

Não era algo extremamente preocupante, eu acho... Certo, óbvio que era. Uma coisa é você ser tachada de “normal anônima”, outra bem diferente é ser encarada continuamente por um mero desconhecido. Sabe aquele arrepio que sempre surge quando alguma coisa vai acontecer e você tem certeza que não é algo especificamente bom? Mais ou menos dessa forma.

Mas… digamos que não fiquei tão desconfortável assim.

Não está mais aqui quem falou.

Okay?

Okay.

Enfim, quem sou eu para falar algo sobre perseguições, títulos ou sei lá mais o quê? Preciso dizer que a única coisa que passava em minha mente enquanto eu andava para a parada de ônibus, naquele instante, era cair dura na minha cama?

Dei um suspiro.

Já passavam das 16h. Nenhum ônibus chegava. Minha paciência deveria ser igual à dos monges naquele momento, afinal ele só chegaria um pouco antes das 19h.

Um grunhido.

Estava começando a odiar Chicago pela sua esquisitice que ia de ônibus com horários nada normais a garotos lindos de cabelos rosa com um “Q” de perseguidor.

Mais um suspiro.

Eu estava em pé de frente à rua, na espera de um milagre. Talvez fosse melhor fazer alguma coisa enquanto aguardava, ou, quem sabe, ir andando para casa.

Impossível. Chicago era uma cidade imensa. Com duas milhões de pessoas prontas para trazer à memória todo o desconforto que você tem de seres humanos agrupados. Milhões de pessoas prontas para te sequestrarem e te venderem em algum comércio ilegal.

Não, não é legal ser paranoica, mas eu não tenho controle sobre isso, tudo bem?

Provavelmente a situação chegue ao ponto de uma curiosidade sobre esse meu “problema” brotar na cabeça de muitos. Graças a isso, irei contar uma historinha.

E não, não começaremos com “era uma vez”.

Quando eu tinha sete anos, muitas coisas surgiram repentinamente na minha vida. E não pense que a minha falta quase preocupante de sociabilidade veio dos meus pais. Eles não têm culpa de tudo.

Acredite se quiser.

Essas novas coisas que surgiram em minha infância, foram caracterizados, principalmente, pelo meu antigo medo de palhaços.

E sabe como é, criança, sete anos, festa de aniversário de uma amiguinha onde, por alguma investida maligna do destino, havia vários palhaços. Digamos que, no máximo, uns cinco. Cinco palhaços fazendo brincadeiras com crianças em vários brinquedos típicos de festas de aniversário.

O real problema é quando você é apenas uma menininha — que como qualquer outra, tem medo de alguma coisa ou alguém — e tem que aguentar passar início, meio e fim de uma festa rodeada de palhaços esquisitos e medonhos.

Já chegou em alguma conclusão?

Um dos palhaços, que tinha um cabelo azul tão espetado feio e uma cara redonda cheia de pó branco e maquiagem assustadora, viu que eu estava um tanto excluída dos brinquedos legais e ficou meio intrigado. Por isso, ele decidiu ir até mim enquanto eu brincava com alguma boneca, e como quem não quer nada, me convidou para ir ao pula-pula.

Resultado: eu gritei com todas as minhas forças e comecei a chorar como um bebê no meio da festa.

E, para melhorar, comecei a correr como se estivesse sendo perseguida por um serial killer, quando enfim acabei tropeçando nos meus próprios pés de tanto horror que senti daquela personificação do capeta, e desabei diversos refrigerantes e sucos de laranja que estavam em alguma mesinha colorida, em cima de mim.

Depois disso, acabei sendo chamada de várias coisas. Até as crianças sabem zoar muito bem. Então, quando eu notei que ninguém estava ao meu lado, passei a ver os outros “coleguinhas” como meros... colegas. Pessoas que não eram exatamente legais e nem confiáveis. E isso perpetuou ao ponto de eu me isolar quase completamente.

Conclusão: minha dificuldade em me relacionar começou com palhaços.

Lógico que não sou uma pessoa que aguenta ficar sozinha o tempo inteiro — pelo amor de Deus, alguém gosta disso? —, claro que não. Mas me tornei uma pessoa um tanto, sei lá, problemática?

Só eu senti o peso dessa palavra?

Vamos reformular: eu sou um pouco complicada. Melhor.

Sinceramente, acredito que todos tenham suas dificuldades sociais ou pessoais. Por exemplo, já encontrei diversas pessoas que não conseguem mais atender ao telefone de casa pensando que seria a Samara, daquele filme de terror, se preparando para pegá-los em sete dias.

Viram? Existem mais “complicados” pelo mundo.

Soltei mais um suspiro, meu tédio alcançando níveis altíssimos e apanhei meu pacote de bolinhos que tinha colocado na mochila depois do almoço, e fui sentar no banquinho da parada de ônibus.

Na verdade, “sentar” é um verbo interessante, e uma ação necessária para uma pessoa em um tédio monstruoso. Porém, como a vida é cheia de surpresas inevitáveis, teve que aparecer um vulto — realmente, surpresas são desnecessárias de vez em quando —, que desastrosamente derrubou meu pacote de bolinhos de laranja.

A primeira coisa que eu vi foram os bolinhos caindo no chão e indo para a rua, onde um carro, sem a menor consideração, passou por cima.

Senti uma vontade de chorar.

Juro que meus ombros caíram, acabando com a política da minha mãe de que mulheres precisam de uma boa postura em todos os momentos.

A segunda coisa que vi foi um estranho e familiar emaranhado de madeixas rosas.

Mas hein?

Juro que levantei as duas sobrancelhas.

E até daria para começar a xingar, mas sinto em dizer que ele começou primeiro.

— Merda! — proferiu, pisando num bolinho que por acaso parou bem na sua frente. Frankie! Frankie? Tá, Frankie! — Dá para prestar mais atenção aonde... — Antes que pudesse terminar, levantou os olhos e encontrou os meus — Anda? — Ele pareceu nitidamente surpreso ao me ver ali.

E me encarou.

Eu abaixei a cabeça.

Mas, quando levantei novamente — depois de uns três segundos — ele ainda persistia em me encarar com aqueles olhos, realmente ônix, extremamente perfeitos.

Arfei.

Ele sorriu.

Torto.

Cara, ele fazia de propósito?

— Desculpe, loirinha — Sua voz estava um tanto rouca —, te machuquei? — Seu olhar variava entre o malicioso, divertido e irônico.

Saí do transe.

— Não, tudo bem — falei, sorrindo, mas em seguida adquirindo um tom sarcástico —, acho que devo começar a me lembrar de que aqui é terra de gigantes, e que até na parada de ônibus posso ser atropelada. — Arqueei uma sobrancelha.

Ele alargou o sorriso.

— Ah, verdade. Somos durões por aqui, tome cuidado.

— Anotado — respondi.

Entretanto, aquilo não foi o suficiente para pararmos de nos encarar descaradamente. Enquanto eu apenas observava os traços de seu rosto — porque não sou nenhuma maníaca sexual —, ele descia com os olhos por praticamente todo o meu corpo, mordendo os lábios sugestivamente. Achei um tanto... incômodo? Não era ruim, mas definitivamente não era confortável.

Pigarreei.

Seus olhos voltaram para os meus quase com um ponto de interrogação, mas em seguida a diversão tomou-os, fazendo-me pensar se era tudo uma provocação.

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Natsu direcionou seus olhos para o celular e franziu o cenho.

— Adoraria ficar e continuar nossa conversa sobre a brutalidade dos cidadãos de Chicago, honey, mas — Colocou as mãos no bolso da calça —, o dever chama. — Sorriu.

Honey? — sussurrei com o mesmo cenho franzido que ele fizera segundos antes.

— Até mais — disse, ignorando a pergunta e indo embora.

Espera um instante.

O cara vem correndo em uma velocidade de um carro de Fórmula 1, me atropela na parada de ônibus — onde, teoricamente, todos esperam pacificamente a chegada do abençoado que os levará para casa —, derruba meus amados bolinhos, dá um bando de sorrisinhos, brinca e depois vai embora?

Até meu trauma social achava aquilo um absurdo!

Virei-me para encarar à minha mais nova aberração que estava de costas, andando como quem não quer nada da vida.

Sinceramente? Não foi uma boa ideia. Sabe quando a pessoa é linda por natureza? Como se ela não precisasse de mais nada para parecer perfeita? Então, digamos que Natsu era uma dessas pessoas invejáveis.

As costas dele eram bonitas.

As costas!

Enfim! Você pode rir de mim porque eu chorei por causa do palhaço cabeludo, mas se mexer com meus bolinhos, aqueles que eu sempre espero ter no refeitório para conseguir comer alguns uma vez na semana, a situação é um pouco diferente.

Muito diferente.

— Calma aí! — Caminhei até ele enquanto este se virava, todo sereno — Como vai compensar aquilo? — perguntei, enquanto uma careta confusa se formava em seu rosto.

Ele parou um instante e franziu o cenho de uma forma especialmente fofa, como se estivesse ponderando em sua mente o que eu havia acabado de falar.

E, com isso, pude analisar melhor a sua aparência; ele trajava a mesma calça jeans, a mesma blusa branca, e o mesmo tênis. Porém, os cabelos estavam mais desgrenhados e rebeldes que antes, e um cheiro forte de desodorante pairava no ar. Ainda com a mesma mochila, com o celular na mão esquerda e um pouco de suor escorrendo por sua testa, digamos que ele estava irrealmente atrativo.

E perfeito.

Cruzei os braços.

— Como? — perguntou.

Apontei para o pacote que fora derrubado sem nenhuma consideração no meio entre a rua e a calçada, onde os bolinhos haviam escapado e agora eram simples massas mortas sem utilidade.

— Custaram cinco dólares — falei, enquanto ele observava um bolinho que tinha caído no meio da rua e um carro vermelho passava por cima dele. Simples assim, como se não tivesse cometido um assassinato.

Ele deu de ombros.

Honey, eu poderia te compensar de várias formas, mas digamos que não estou no clima — Olhou para o celular novamente —, e com tempo. — Andou até o pacote caído e me entregou — Aproveite — Sorriu, dando uma piscadela —, a gente se vê.

Direi uma última vez: eu REALMENTE não estava num conto de fadas.

REALMENTE!

Geralmente sou uma pessoa tranquila nos limites da normalidade. Quem não é? Porém, ele havia derrubado meus bolinhos, só restava um dentro do pacote quando deveria ter sete.

Nunca se deve mexer nos bolinhos de alguém! É a lei da vida, gente, pelo amor de Deus!

— Ei — falei, enquanto marchava até ele, de novo, e cutucava seus ombros. Ele se virou, com uma sobrancelha erguida — É isso? Você derruba minha comida e vai embora? Não sei como funciona a moral nessa cidade, mas posso te garantir que vai ter que compensar os meus bolinhos, mate.

Não sei, mas acho que vi seus olhos brilharem.

— Hum... — Estralou os lábios — Tudo bem... Tudo bem, okay. — Ergueu as mãos para cima em sinal de rendição — O que quer, honey? — Escondeu um sorriso, tentado soar desinteressado.

 

— Sinceramente? Que pare de me chamar disso — Revirei os olhos, ele sorriu —, e que compre outro pacote de bolinhos para mim.

Ele ponderou um instante.

— Só isso?

— Yeah, o que mais seria? — Franzi o cenho.

— Sei lá, um Macbook? — Ele olhou atrás de mim e mordeu os lábios — Mas esse seria pela mochila, claro.

Mochila?

Virei-me abruptamente tentando entender o que ele quis dizer, quando só deu tempo de ver um cara de calça verde e blusa cinza pegar minha mochila escolar e sair correndo com medo de alguém notar sua ação meliante.

Grunhi.

— Eu definitivamente odeio essa cidade — sussurrei.

— O quê?

Virei a cabeça e encontrei aqueles lindos orbes escuros que teriam me afetado se eu não estivesse prestes a cometer homicídio.

— Você! Argh! — praticamente gritei — Resolva isso! — tá, eu gritei.

Ele fez uma careta e disse, um tanto indignado:

— Resolver o quê? O cara te roubou. Você não viu o rosto dele. Eu não vi o rosto dele. Aceite a perda. — Deu de ombros.

— Minha carteira estava dentro!

— E daí? É só refazer os documentos — falou, como se fosse simples sair por aí e refazer seus documentos que você tem desde o nascimento.

— E os meus livros escolares, anotações para as provas, resumos das aulas, tudo! — ponderei um instante — E isso é sua culpa!

Tá, eu estava quase tendo um piripaque.

Mas era inteiramente aceitável, não é? Quem não teria num momento daqueles?!

Ah, claro, só o cretino de cabelo rosa.

— Minha?! — Olhou-me incrédulo, como se eu tivesse falado algo absurdo — Sua desatenção é culpa minha?!

— Claro que é! Se você não tivesse derrubado meus bolinhos, eu estaria sentada na parada comendo-os, sem probabilidade de ser roubada!

Ele deu um sorriso sarcástico.

— Sinto em dizer isso, honey, mas aqui é Chicago. Você pode ser roubada em qualquer lugar — Ergueu uma sobrancelha, sugestivo —, sendo ou não distraída como você.

Juro do fundo do meu coração que eu quis dar um soco na barriga daquele cara.

— Tudo bem. Certo. Quer compensar meus bolinhos e a minha mochila, não é? — Assentiu, parecendo se divertir com minhas reações — Traga ela de volta.

Ele parou um minuto.

— Trazer o quê de volta?

— A mochila, man!

Ele continuou me olhando.

— A que foi roubada agora pouco?

— O que você acha, gênio?

Cruzou os braços.

— Você está falando sério?

— Eu necessito daquela mochila! Você causou isso, agora resolva — choraminguei.

Três segundos.

Um. Ele parou, olhando para mim como se fosse lunática.

Dois. Colocou a mão no queixo curvando-se para frente, claramente em meio a um pensamento.

E... Três. Deu um sorriso torto.

Claro que prendi a respiração.

— Como quiser, milady — falou, causando tremores na minha pele, chegando mais perto de mim, com o mesmo sorriso —, mas com uma condição.

— Que seria? — questionei num fio de voz.

Ele alargou o sorriso, diabolicamente delicioso.

— Você vem comigo, honey — respondeu, com a voz ligeiramente rouca, fazendo meu coração bater enlouquecido e minhas bochechas corarem vergonhosamente.

Ele segurou meu queixo com uma das mãos, e em seguida puxou a minha para implantar um beijo no dorso, fazendo jus ao apelido “milady” que mencionara antes. Mas, naquele instante, não consegui relacionar muita coisa, minha cabeça parecia ser feita de geleia.

Mas uma coisa, sim, clareou em minha mente.

Natsu definitivamente não era um garoto de dezessete anos comum.

Não mesmo.

E eu não sabia se isso era completamente ruim.



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