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História Once upon a time - Capítulo 7


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Notas do Autor


OLA meu povo e hoje e sexta-feira dia de atualização, bora ler.

BOA LEIRURA!!!📖

Capítulo 7 - Yes, he is the man of my life.


Fanfic / Fanfiction Once upon a time - Capítulo 7 - Yes, he is the man of my life.

Passado pouco mais de uma semana a fazenda voltava aos poucos para sua rotina. Ester  tentava esquecer sua tristeza trabalhando sem cessar, mantinha sua mente ocupada pensando em outras coisas, e Justin não estava incluído. Depois de enterrarem sua tia, os dois mal se viam. A menina o evitava de várias formas, não estava pronta para vê-lo ou até mesmo falar com ele, porém sabia que um dia seus caminhos iriam se cruzar e o que aconteceu na senzala viria à tona novamente. Benjamin parecia bem. Poucas vezes se entristecia ao lembrar-se da mãe, estavabpreocupado com outra coisa. Ester sabia o que era. A fuga seria em menos de três dias e sabia que seu primo estava tentado a ir. Não havia conversado com ele a respeito disso,mas dessa vez não o impediria, talvez estivesse melhor do lado de fora, porém se preocupava ao imaginar se não conseguisse ultrapassar a cerca. A negra estava na cozinha quando ouviu alguém a chamar, em sussurros. Ester virou-se para a porta dos fundos onde reconheceu aquela voz. Era de seu primo. Ele olhava para os lados como se não quisesse ser visto, então rapidamente a menina fora ao seu encontro. Benjamin estava inquieto, não parava de balançar suas mãos, alguma coisa o estava incomodando. 


── Venha, rápido – sussurrou ele a ela, puxando-a para mais longe do casarão.

 ── O que foi, Benjamin? 

── Shh. Ester  franziu o cenho. 

── O que está acontecendo? – Sussurrou a menina. Benjamin percorria a área toda com o olhar, mas com dificuldade, já que estava a noite. Eles pararam perto de uma árvore onde cobriam o chão com seus frutos amadurecidos. 

── Ben! – Repreendeu a menina. 

── Desculpa, Ester, mas é importante. A fuga acontecerá esta noite, quando todos estiverem dormindo – ele pausou, umedeceu os lábios e continuou. 

──  Estou pensando em ir. O coração da negra disparou. Talvez ele quisesse sua aprovação e Ester  daria,se esse fosse o melhor caminho a se escolher. 

── Tudo bem – disse ela. Ele piscou várias vezes, pareceu confuso. 

── Tudo... bem? Ela assentiu. 

── Sim... tudo bem. Eu só... – Ester levou suas mãos a boca sentindo algumas lágrimas salientes escorrer pelo seu rosto. 

── Eu só quero que você fique bem. Benjamin abraçou sua prima com muito amor. 

── Venha conosco, por favor... 

── Eu não posso. Só irei atrasa-los. A menina levantou a cabeça para olha-lo. Seus negros olhos estavam brilhantes como se estivessem pedindo para Ester ficar bem, que nada aconteceria a ele,transbordavam esperança. Benjamin encostou sua testa na testa de sua prima que chorou feito criança. 

── Eu preciso ir – sussurrou ele. 

── Benjamin, antes de ir, prometa a mim que conseguirá sair daqui. Por mim e pela tia Adelina. 

── Eu prometo. Eles se abraçaram novamente com rapidez para que Ben seguisse caminho. 

── Tome cuidado, por favor – alertou Ester .Seu primo assentiu, beijou sua testa e correu na escuridão. A menina respirou fundo limpando seu rosto e voltou ao casarão, tristonha. Já previa que esta noite não iria dormir, seus pensamentos estariam em Benjamin e nos outros. Assim que Ester  chega à cozinha cumprimenta Marta que sorriu ao vê-la, porém parecia apreensiva. A escrava estava tão distraída que acabou cortando seu dedo. 

── Marta – chamou Ester, – você está bem? 


── Estou sim. A menina levou seu dedo indicador a boca sentindo o gosto metálico de sangue preencher sua língua, logo depois o enxaguou na torneira e por fim fez um curativo. 


── Na verdade não – disse Marta, de cabeça baixa. Ester olhou para ela, aproximou-se e perguntou o que estava acontecendo. 


── Sei que está sabendo de hoje a noite – sussurrou ela – e vou com eles, mas estou com medo. A negra arregalou os olhos, não esperava que Marta fosse participar. Andou até a entrada da cozinha para ver se alguém se aproximava e como ninguém apareceu voltou-se para ela. 


── Vai fugir? 


── Sim... mas, estou com muito medo. E se não der certo? Quando estive na outra fazendo houve uma rebelião, muitos foram mortos, inclusive minha amiga – seus olhos encheram-se de agua.


 ── Hoje tive coragem e me decidi. Eu vou e não importa asconsequências. 


── Marta, isso é perigoso. Muito perigoso, mas... permiti que Benjamin fosse. Se ele estiver seguro do outro lado agradeço a Deus, mas se não, sabe-se lá o que irá acontecer. Se tiver plena convicção disso, que irá sobreviver, então vá e não olhe para trás. Eu vou te apoiar seja aqui ou lá fora. Marta abraçou Ester e chorou. Sim, ela estava convicta apesar do medo, estava convicta que se sair teria uma vida melhor, iria casar e ter seus filhos em paz. Era hoje que começaria a desfrutar de sua liberdade.   O silencio estava entre os escravos que corriam cuidadosamente pelo matagal, só o barulho dos galhos quebrando se manifestava. Jorge os guiava para fora da fazenda ao lado de Benjamin e Marta logo atrás. Os nervos estavam a flor da pele, porém o sonho de se tornarem livres era maior que qualquer medo. Aproximadamente quinze negros seguiam caminho rumo a uma cerca de arame farpado que se dividia em seis partes, entretanto antes que pudessem chegar ouviram tiros se sucederem onde estavam. Foram descobertos. O coração de Marta gelou nesse momento fazendo-a apertar a mão de Ben fortemente. 


──Fique calma – disse ele. – Estão dando tiros às cegas, ainda não nos encontraram. A menina se pôs a chorar, mas continuou correndo. Ao chegarem à cerca, Jorge e Ben posicionaram uma cerra em um dos fios de arame e começaram a cerra-los, com força e velozmente até cortar todos. O homem fez um quadrado médio para que pudessem passar. 


── Vamos – chamou Benjamin. O menino passou pelos arames ganhando alguns cortes nos braços e pernas, logo depois foi a vez de Marta. Ela se curvou e atravessou a cerca, porém sua saia prendeu e malgo que a fez cair no chão, por pouco os fios não a perfurou. A negra puxou a saia para si rasgando-a até a altura do joelho, e então correu para o encontro de Benjamin. Os tiros ressoavam pelo matagal. Os negros passavam com rapidez para o outro lado até o capitão do mato avista-los. Houve mais dezenas de tiros. O homem vociferou para outro mais atrás que também atirava sem parar. Gritos angustiantes começavam asurgir de um por um ainda dentro da fazenda. Homens e mulheres caíam no chão ensanguentados com uma bala encravada em seus peitos. Naquela noite, exatamente cinco pessoas morreram, quatro foram pegos pelos feitores e apenas seis conseguiram escapar, incluindo Marta e Benjamin. Os escravos fugitivos correram o máximo que puderam, olharam para trás algumas vezes, porém nada viram, nem mesmo Jorge, seu líder. Mesmo com corações entristecidos não deixaram de correr. Finalmente estavam livres. Ester andava de um lado para o outro, com a mão no peito tentando amenizar sua aflição, porem nada adiantava. Mil pensamentos lhe correriam pela cabeça a ponto defazê-la doer, seu corpo pedia para descansar, nem que fosse só meia hora, mas não iria. Seu quarto estava totalmente escuro, não havia passagem de ar o que dificultavasua respiração, mesmo assim permaneceu ali, no silêncio, até que um barulho ecoou ao longe. Ela conhecia este barulho. Eram tiros e mais tiros. Ester sentiu uma dor intensa vinda de seu coração, suas mãos tremeram ao imaginar seu primo no meio dos corpos caídos no chão. A menina foi até a porta e a abriu notando movimentos estranhos dentro da casa. Todas as luzes se acenderam, inclusive a da cozinha. Ester andou em passos lentos até a sala de estar onde estavam reunidos o senhor Jeremy e seu filho, Justin, mais um homem branco com aparência rude segurando uma espingarda. Eles conversavam sobre algo serio, porém inaudível, só o que a negra entendeu fora a palavra "fuga" e nada mais. Ester  tentava ouvir com atenção até o senhor Jeremy mudar drasticamente a expressão. Seus cenhos franzidos demonstravam raiva o que a fez encolher os ombros e entrar no desespero. Justin parecia surpreso, mas seu rosto continuava sereno, como se aquilo não o abalasse. 


── Leve-os ao calabouço – disse Jeremy. – Amanhã cedo quero todos no tronco. 


── Pai... 


── Não comece, Justin– ordenou ele, logo depois voltou-se ao feitor. – Faça o que digo. E assim o feitor saiu para cumprir o que lhe haviam mandado. O senhor não disse mais nada, somente caminhou até seu quarto para descansar. Justin  suspirou e fechou os olhos. Ester  o observava, seus gestos eram graciosos e leves. Como alguém como ele poderia dizer que a amava? Ela abaixou a cabeça e afastou-se dali, caminhou até a portados fundos, abriu-a lentamente para não ranger e saiu. Lá fora estava tão frio que a fez estremecer. A menina cruzou os braços sentindo o vento gélido bater em seus braços nus e foi em direção ao calabouço. Este lugar era até pior que a senzala, suas paredes de pedra eram úmidas, ásperas e geladas. Ester  parou atrás de uma árvore, pois notou que os feitores se aproximavam com alguns escravos. Ela se abaixou por entre os arbustos para não ser vista, semicerrou os olhos vendo que nenhum daqueles homens era seu primo. Seu coração se aliviou por um momento, porém logo a angustia voltou ao lembrar que houve mortes no meio da fuga. Os feitores saíram do calabouço sorrindo e conversando como se nada estivesse acontecido. Após irem embora, Ester  correu para o calabouço, queria falar com um deles,queria perguntar se Benjamin e Marta escaparam. A negra caminhou por um corredor frio, iluminado por tochas penduradas na parede até ouvir um grunhido vindo de uma das selas. Ela se aproximou das barras de ferro vendo Jorge esparramado pelo chão, suas mãos tampavam a ferida em seu abdômen que sangrava insistentemente. 


──Jorge? – chamou ela. O homem a olhou e sorriu, rastejou com dificuldade ao seu encontro encostando seu rosto nas grades. Tinha sangue escorrendo por sua testa, mas o sorriso continuava estampado em seu rosto. 


── Benjamin conseguiu – disse ele em sussurro. – Marta conseguiu. Julian, Marcos, Samuel e Nicolas também. E deixou algumas lágrimas caírem, estava aliviada e triste ao mesmo tempo. Jorge não escapou e mesmo assim seu sorriso permanecia intacto. 

── Eu sinto muito – disse Ester  em voz baixa. 


── Fique feliz, menina. Temos que lutar, não é? Fazemos alguns sacrifícios no caminho, mas tudo em prol da nossa sobrevivência, do nosso futuro. Ela abaixou a cabeça e chorou. Não tinha que ser assim, pessoas não tinham que morrer para outras sobreviverem. Este mundo estava um caos. O que mais poderiam aguentar para terem um simples sorriso bobo nos lábios? Um sorriso que saia espontaneamente pelas pequenas coisas que fazem, ou até mesmo lágrimas de alegria por verem seus filhos se tornando tudo aquilo que desejaram. 


── Benjamin é um grande homem e fará tudo para protegê-la. Quando acharem o quilombo ele imediatamente voltará para busca-la, com mais de cinquenta homens para lutar e tirarem o restante daqui. Agora volte antes que a vejam. Ester assentiu limpando as lágrimas.


 ── Só te peço uma coisa – continuou Jorge, – não vá ao pátio amanhã. Não quero que veja o que farão comigo. A menina fez que sim com a cabeça relutante. 


── Agora vá. Ela não queria abandona-lo ali, mas tinha que fazer. Amanhã seria um dia longo e cansativo para ambos. Ester ainda tinha esperanças de que ele pudesse voltar com vida, porém Jorge sabia que não voltaria. Ao amanhecer, sem demora, os feitores carregaram os escravos fugitivos para otronco. O senhor Bieber estava parado de braços cruzados a poucos metros de onde seria a punição, sua feição era dura e reprovadora. Justin, por sua vez, não encarava asituação da mesma forma que seu pai, ficou preocupado com Ester. Ele a viu andando pela cozinha de cabeça baixa, seus olhos estavam fundos, talvez não tenha dormido muito bem, ou talvez a noticia que seu primo havia fugido a deixou assim. Queria ajuda-la a superar tudo isso, mas sabia que Ester não desejava vê-lo, respeitaria sua decisão. 

── Justin eu não gosto de fazer o que estou fazendo – disse Jeremy. 

── Fazer o que? Ser frio? – retrucou ele, encarando o chão. 

── Existem regras que precisam ser seguidas. O menino sorriu sarcasticamente. 


── Danem-se as regras, pai. O senhor não gostaria de me ver no lugar daqueles homens, gostaria? Jeremy suspirou. 

── Um dia você vai entender... 


── Não, acho que não vou. Um homem branco de cabelos grisalhos e chapéu na cabeça se aproximou dos dois pedindo permissão para começar. O senhor Bieber concedeu e então, com o chicoteem mãos, iniciou o castigo. O som era angustiante para Justin, as cordas batendo na pele do negro abriam grandes feridas que pareciam incapazes de ser curadas. Ele virou acabeça para o lado, não queria ver tal crueldade. Seu pai permanecia de cabeça erguida, sem nenhuma expressão no olhar, apenas observava seus trabalhadores sendo espancados.Justin pôde ver de longe Ester, que assistia aquela cena aos prantos. Ela olhava para o escravo com certo medo, a dor de vê-lo ali era grande. O menino se virou para ela, e mesmo com a reprovação do pai caminhou até a garota sem olhar para trás. 


── O que faz aqui? – Perguntou ele. – Venha comigo. Não precisa ver isso.Ester não hesitou, parecia estar anestesiada com tudo aquilo, deixou ser levada para perto do casarão onde se sentou num pequeno banco de madeira improvisado. Justin não saiu de seu lado nenhuma vez, abraçou-a fortemente e acariciou seus cabelos.

 ──Porque você estava ali? 


── Eu não sei – respondeu ela, rouca. – Eu só... eu só não quero acreditar que isso éreal. 


── Ester  – Justin a chamou fazendo-a olhar em seus olhos, – não posso dizer que entendo o que sente, mas prometo que isso vai acabar. Você não merece nada disso, nenhum de vocês. A menina desviou seu olhar para baixo, logo depois se levantou ainda de costas para ele. 


── Senhor, me responda: Como pode me amar em tão pouco tempo? Digo, o senhor mal me conhece. Ester sentiu suas bochechas arderem ao mesmo tempo em que suas lágrimas secavam em seu rosto. Ela as limpou rapidamente e respirou fundo. ──Desculpe-me, eu... não deveria ter perguntado isso... 


── Acha que eu a amo nesse pouco tempo? – Interrompeu ele. – Estou lhe oferecendo uma vida descente, isso não é amor de duas semanas. Eu sempre a amei, desde quando éramos pequenos, quando brincamos pela primeira vez, tínhamos nove anos, lembra? A negra voltou-se para ele envergonhada Recordava-se perfeitamente daquele dia, quando Ester, ao tentar subir em uma arvore, escorregou e caiu. Seu braço esquerdo sofreu pequenos arranhões, porém Justin imediatamente correu para ver se ela estava bem, Jazzy fora logo em seguida. Depois desse dia as brincadeiras se tornaram sagradas para os três, brincavam sempre na mesma hora e no mesmo lugar até cansarem. 


── Sei que pode parecer inacreditável, mas é o que sinto – continuou ele. – Eu realmente não paro de pensar em você, em nem um segundo.Justin  sentia que seu coração fosse explodir a qualquer momento. A brisa refrescava o calor de sua pele que queimava por de baixo da roupa clara. As palavras eram difíceis de sair, olhar para ela e não poder toca-la era frustrante, aqueles lindos olhos demonstravam tantas coisas que não conseguia decifrar. Ester  abaixou a cabeça deixando seus cabelos esconderem seu rosto, não queria que ele a visse esboçar um sorriso, porém discreto. Ainda não tinha total confiança naquelas palavras, mas ouvi-lo dizer aquilo a enchia de alegria, uma alegria que nunca acharia que sentisse, era boa e calma... tudo o que queria.      A caminhada era longa até chegarem ao quilombo. Benjamin e os demais fugitivos passaram o restante da noite em uma pequena casinha de madeira onde vivia um casal de idosos. Eles os acolheram de bom grado, entretanto, haveriam de ir embora logo cedo, enquanto o sol se levantava, pois a qualquer momento os guardas bateriam em sua porta a procura dos escravos. Joaquim e Rosa ofereceram o celeiro para eles dormirem, visto que sua casa mal cabia cinco pessoas. A mulher levou algumas cobertas e lençóis para forrarem o chão,água e bastante comida. Marta agradeceu com lágrima nos olhos, nunca havia sido tratada daquela maneira por um branco e não imaginava que ainda existiam pessoas como aquele casal. Antes mesmo de amanhecer, os escravos partiram para o seu destino. Não esqueceriam jamais o ato de bondade dos idosos e esperariam encontra-los 


── Isso é inacreditável - murmurou Patrícia. – Uma hora ou outra eu sabia que isto iria acontecer. Jazzy bufou e revirou os olhos disfarçadamente. Jazzy não tinha mais ouvidos para escutar sua mãe reclamar o tempo inteiro. O jantar seria servido daqui alguns minutos, e mais algumas escravas preparavam a mesa onde Jeremy, Patrícia e Jazzy estavam. Justin ainda não havia descido, mas não demorou a sentar-se junto aos outros. 


── Coloquem mais um prato. Teremos um amigo jantando conosco. 


── Sim, senhor. Ester depositou o prato no lugar vazio em frente a Jeremy e saiu.

 ── Papai, quem virá a essa hora? –Perguntou Jazzy. 


── Afonso. Proprietário das terras locais. Era muito nova quando o conheceu e provavelmente não deverá se lembrar. Ouvia-se alguém bater na porta. Jeremy se levanta com uma empolgação nunca vista, afinal não se viam há quase quinze anos. Odete, uma velha escrava, caminhava para abri-la, acompanhando seu senhor. O convidado logo entrou abrindo um sorriso estonteante ao ver seu antigo amigo, com seus dentes tortos e lábios rachados. Era alto, esbelto, cabelos grisalhos, pele tão branca quanto a neve. Jeremy o recebeu de braços abertos, sorriso estampado no rosto. Eram amigos de infância, porém Afonso mudou-se para outro país. O tempo foi passando e cada um seguiu sua vida conforme quiseram seus pais. Esta tarde Jeremy saiu para resolver assuntos relacionados a fazenda e coincidentemente o encontrou. Conversaram rapidamente, pois tinham coisas a fazer. 


── Esta casa não mudou, mas devo admitir que fora difícil acha-la – sua voz era grossa, ecoava por todo o lugar.


 ── Faz muito tempo que não nos reunimos, amigo. Patrícia se aproximou dos homens e esboçou um sorriso, cumprimentando-o. 


── Patrícia, está divina, com todo o respeito.-Imagina Justin e Jazzy chegaram logo depois. Afonso voltou sua atenção a Jazzy e no olhar dele Justin percebeu algo frio e desprezível, arrogante e insensível. 


── Não me diga que está é Jazmyn – ele pegou em sua mão e a beijou, com olhos fixos à menina. Jazzy suspirou discretamente e sorriu forçadamente. 


── Muito... prazer – disse ela. 


── O prazer é todo meu. Como está crescida, não é?


 ──E logo se casará – observou sua mãe, entusiasmada. A loira arregalou os olhos sentindo suas bochechas ruborizarem. 


── N-não é bem assim...Afonso gargalhou após soltar a fina e delicada mão de Jazzy. Por fim, seus cumprimentos se dirigiram a Justin  que continuava a analisar o homem cuidadosamente. 

── O jantar está na mesa, senhor. 

── Obrigado, Ester– disse Jeremy. – Então, vamos? Todos assentiram, varados de fome. Como esperado, os irmãos foram os últimos a seguirem, queriam falar com a escrava primeiramente. Jazzy sorriu para ela e a abraçou rapidamente e logo se foi. Justin  se aproximou da menina notando-a um pouco retraída, talvez porque seus senhores estavam por perto e não gostaria de ser repreendida por isso. 

── Você está bem? – Perguntou Justin. 


── Estou sim. Justin balançou a cabeça com um sorriso bobo nos lábios. 

── Bom, tenho que ir – disse ele.


 ── Sim, senhor. Mas... antes eu... queria dizer bom apetite – Ester sentiu seu rosto queimar, mas tinha que continuar, não queria ser mal educada. – Espero que goste. 


── Obrigado, Ester...Naquele exato momento, Patrícia apareceu surpreendendo-os. Ester  abaixou acabeça e saiu para a cozinha, Justin permaneceu no mesmo lugar. 

── O que está fazendo? – Perguntou ela. 

── Nada de mais. Vamos jantar.Antes que sua mãe pudesse fazer mais perguntas ele saiu. Patrícia respirou fundo, fechou os olhos e seguiu para a mesa. Já imaginava que Justin pudesse estar falando com aquela menina. Não diria nada por agora, tinha visita e não queria chamar muita atenção para assuntos pessoais. No decorrer do jantar vários assuntos passaram pela boca de todos. A maioria eram lembranças da infância de Afonso e Jeremy. Justin e Jazzy interagiam pouco, uma hora ou outra falavam algo até chegar a um que não os agradou muito. 


── Soube que alguns escravos fugiram por aqui. Já mandou procura-los? 


── É o que mais tenho feito, Afonso. Tudo aconteceu muito rápido. Primeiro a morte de uma, agora a fuga. 


── Não o culpo, amigo. O numero de escravos fugitivos está aumentando. Os abolicionistas estão mudando a cabeça do povo e enchendo os negros com baboseiras, se isso continuar pode haver uma guerra, e sabe-se lá o que mais. Esses movimentos deviam ser extintos.


 ── Eu discordo do senhor – pronunciou Justin. Afonso o olhou entretido. Aquilo lhe renderia uma boa conversa, gostaria de saber o que os jovens pensavam sobre isso. 


── Pois bem. Vamos ver o que tem a dizer. 


── O senhor fala em benefício próprio, pouco importa os outros, a minoria não tem direito de expressar o que acha, não é verdade? Em outros países, a escravidão já não é mais comum. Esta ideia está velha e somente aqui pregam-na como se fosse sagrada. Já não é hora de mudarmos nossos valores e começarmos a pensar nos outros? Pessoas não vivem a mercê de outras e sim ao lado para que todos possam ser ajudados. Afonso abre um sorriso irônico. 

── Bom argumento, garoto. Mas acontece que você não sabe um terço do que acontece em outros países e nem mesmo o que acontece ao seu redor. 


── E o senhor não sabe ter a mínima decência de jantar em paz – retrucou Jazzy, em voz baixa, quase inaudível. O homem desvia sua atenção para Jazzy que continua comendo. 


── Como é? – Perguntou Afonso. 


── Não é nada. Só não é uma boa hora para discutirmos este assunto. O silencio se fez na sala de jantar. Afonso parecia constrangido, como todos os outros, menos Justin e sua irmã. Patrícia olhava apreensiva para Jeremy que parecia estar um pouco irritadiço, e para quebrar aquele clima ela pigarreou e sorriu.


 ── Bom, acho que já podemos comer a sobremesa, o que acham? 


── Excelente ideia – respondeu Afonso. A mulher chamou Ester para servi-los. A menina pôs a bandeja sobre a mesa retirando uma pequena torta de frutas. Assim que Afonso a viu não parou um segundo de olha-la o que incomodou profundamente Justin. A expressão em seus olhos voltou. Era a mesma expressão que olhara para Jazzy. Pelo seu olhar Justin podia sentir o desejo inevitável que Afonso cobiçava. 

── Esta menina eu não conhecia - disse Afonso. 

── Ela é filha de Isabel – disse Jeremy. – Creio que se lembre dela. 

── Ah, claro... não poderia esquecer. Ester olhou o homem intrigada, mas logo desviou. Afonso conhecia sua mãe?Infelizmente aquele não era o momento adequado para perguntar, apenas abaixou acabeça ao sair, porém antes de ir Afonso a chamou fazendo-lhe uma pergunta pertinente. 


── Você é virgem? Justin franziu o cenho, Jazzy arregalou os olhos, Jerey quase engasgou Patrícia ficou boquiaberta, todos ao mesmo tempo. Ester  não sabia absolutamente o que responder ou como responder. 

── Estou perguntando se é virgem. Responda-me. 

── Você não precisa responder, Ester – disse Justin. –O que o senhor está fazendo? Afonso se dirigiu a Justin com as sobrancelhas arqueadas. 

── Apenas perguntei se ela era virgem. Gostaria de compra-la. 

── Ela não está à venda – disse Jeremy, com um sorriso amigável nos lábios. 

── Tem certeza? Ela seria ótima em minha fazenda. Justin revirou os olhos. 

── Se me lembro bem o senhor disse que é casado, não é?Afonso pareceu um pouco desconcertado notando que Justin não gostara nem umpouco de sua observação. 

── Sim, sou muito bem casado, porém, convenhamos que... não é todo dia que vemos escravas como ela, sim? Nova, bonita, virgem. Compro-a pelo preço que for...

 ── Ela não está a venda! – Interrompeu Justin, com os nervos aflorando. Ester assistia tudo àquilo abismada, sem nem ao menos retrucar. Ela notara que Justin perdia a paciência aos poucos, podia sentir sua raiva transbordando em seus olhos escuros, a vermelhidão em que ficou ao dizer que ele não a venderia. A escrava teve aplena certeza que aquele homem a amava como dizia amar, ela só precisava falar que aceitava e então estariam juntos. 

── Chega! – Pronunciou Jeremy. Ele estava sério. Olhava para a mesa como se quisesse falar mais algumas palavras. Justin sabia que viria uma bomba em cima dele, mas não podia deixar Afonso tão a vontade, afinal ele mal havia chegado. 

── Ester pode sair – continuou ele. 


── Sim, senhor.

 

──Justin, venha comigo. Voltarei em um minuto. O garoto se levantou depositando seu guardanapo na mesa, caminhou até a sala voltando-se para seu pai. Justin colocou seus braços para trás, ergueu o peito e levantou acabeça, estava desafiando Jeremy. 


── Pai... 


── Deixe-me falar – ordenou ele.


── Justin, sabe que esse jantar é importante para mim, não sabe? Afonso é um grande amigo meu, não vou tolerar esse tipo de comportamento. 


── Pai, não acha que ele está exagerado demais? Primeiramente não fui eu quem começou este assunto, mas já que chegamos a esse ponto não posso deixar de falar. Jeremy  suspirou. Seu filho estava certo, porém não queria estragar aquele jantar. 


── Filho, só esqueça. Peça desculpas a Afonso para podermos continuar, está bem? Justin sorriu falsamente.

 ── Quer que eu peça desculpas? Por quê? Seu pai se aproximou do filho, mas antes observou se não havia ninguém ouvindo. 


── Faça o que digo. Aquele homem é influente em todo o país, não estou pedindo porque ele é simplesmente meu amigo – sussurrou ele. 

── Então são questões de negócios. ── Exato.O garoto acatou o pedido do pai. Pediria desculpas a Afonso, contra sua vontade,mas seu pai precisava daquele jantar mais que ele.  


Notas Finais


Espero que tenham gostado até sexta-feira beijos fiquem com Deus


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