História Onda gentil em oceano de recordação - Capítulo 3


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Categorias Super Junior
Personagens Lee Donghae, Lee Hyukjae "Eunhyuk"
Tags Donghae, Eunhae, Eunhyuk, Haehyuk, Ohmystress, Suju, Super Junior
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Palavras 1.945
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Lírica, Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali.
Charles Bukowski.

Capítulo 3 - II. de índoles, simpatias e antipatias, rancores e amores.


Era um dia quase quente quando saí de casa à procura de emprego. Os pulmões respiravam o ar fresco com um cansaço preguiçoso e eu me meti em tantas salas de entrevista que não conseguia contar. “Me fale sobre você” eles diziam enquanto batucavam sutilmente a caneta na mesa. Odiava me sentir intimidado, era pouco íntimo de mim mesmo e me resguardava porque seria estranho dizer tantas coisas das quais eu não tinha absolutamente nenhuma certeza. De mentirosos já me bastavam os poemas e os dedos que afagavam os ombros da minha mãe – “as coisas vão mudar”. Eu não sei se as versões de mim que apresentei naquelas salas amarelas e antigas eram parecidas umas com as outras, o que eu sei é que saí de cada uma delas com a certeza de que eu não convenci, de que não fui bom o suficiente, tão longe de pensar que havia fracassado, eu aprendi a aceitar com facilidade as coisas quando entendi que a vida é feita de ciclos, ou quase isso. Aconteceu no enterro de Stella. (Ela gostava de ser chamada assim, mas só eu sabia). O que me deixou inquieto, na verdade, foi uma dúvida boba, uma lástima fingida: será que o bom o suficiente deles era realmente bom? Mamãe encarava minhas dúvidas como covardia. Sabe, me meter sempre debaixo das cobertas ponderando sobre o que é a vida e a morte e a felicidade, a gente sabe tão pouco sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre o amanhã ou até mesmo o ontem. Mas mamãe ou o atendente da padaria ou qualquer, qualquer um, por alguma razão, não considerava essa a atitude correta de um homem já crescido. Estava fadado a ser um fracasso preso num corpo de um adulto, a ser o fantasma que vagava do quarto à sala sem uma das meias no pé, com roupas tão largas que escorregavam do corpo, com atitude tão caída, perdida, os ombros pesando o nada. Eu me esforçava demais ali, naquele pouco e não sabia pelo que me movia. Talvez esse fosse o problema, não havia pelo que me mover, seguir em frente, me reestabelecer. Estava fadado e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso. Nem a força de vontade, nem o céu, nem a lua e seu magnetismo, nem Netuno, minha mãe, o espírito da minha avó morta, nem o amor poderia me livrar de quem eu era.

Não, eu não era construído de uma aceitação pessimista. Eu não era sequer construído, as coisas vieram tão tarde para mim. As dúvidas e o resto. Às vezes eu sentia como se carregasse os mesmos medos e a mesma fé de uma criança de cinco anos, mas eu sabia que esse não era o caso e nunca foi. Quando Donghae disse que nossas vidas são como bandeiras eu retesei e talvez aquela tenha sido – até um certo ponto da minha vida e do meu entendimento – a única coisa que me fez sentido naquele quase monólogo de seus olhos de estrela. Eu não era o mesmo todos os dias, não dentro de mim. Às vezes o céu parecia azul e alto e pronto para me deixar voar por entre suas poucas nuvens, pronto para me deixar tocar o sol e sua luz salmão. Viver era bonito. Às vezes os dias se arrastavam, assim como meus braços, pés e peito. Pesados e nada nunca fazia o sentido que deveria fazer. Assim como o vento brando pode ser cruel com uma bandeira. A gente é jogado para todos os lados e essa talvez seja uma das únicas certezas da vida, fora a morte e o caos.

Então no caminho para casa eu desabotoei as três primeiras casas da camisa que me vestia de modo escorregadio, segurando em dois dedos um blazer que eu nunca tivera oportunidade de usar antes. Ele era preto e provavelmente havia sido comprado num brechó, pois mamãe os amava. Me senti um pateta por um bom tempo com aquela roupa, sem saber como me portar dentro dela. Meus ombros ficavam grandes demais e minha cabeça pequena, meus pulsos não eram cobertos e os sapatos eram um exagero.

O centro da cidade era um dos únicos pedaços da cidade asfaltado decentemente, tinha um cheiro quase limpo, um céu – dessa vez – caramelo, que me fez sorrir aberto sob ele, após muito, ao ver um menino de tênis gastos e bermuda rasgada mandar um som em um violão imaginário. A maneira como os dedos se moviam, as notas mudas e os sorrisos fechados, ordinários, idiotas como só os de uma criança, aquilo me fez lembrar Donghae. Talvez o menino fosse o seu aluno.

(Eu ouvi dizer que as pessoas sabem quando estão prestes a enlouquecer de vez.)

 

 

O jantar daquela noite foi bonito. Mamãe vestia azul, azul assim como céu aberto. Um azul florido, calmo, alegre que me fez querer abraçá-la e morrer ali. Papai não lia o jornal – que naquele momento encontrava-se jogado no braço do sofá – e nem se mantinha calado como de costume. Eles sorriam um para o outro e eu estava ali, eu era testemunha, eu via e sorria junto e escondido, por dentro. Eu era a bandeira dos inocentes que venceram, a bandeira que os monstros que permaneceram não derrubaram. Eu era a esperança ali, metade de mim encantada naquelas coisas tão pequenas e ainda sim tão raras. Era como se sentir em casa estando em casa. E isso é tão raro. (Sentimos a falta de Sora, mas lembramos que ela estaria ali em menos de um mês e que reclamaria do tempero e do resto, porque Sora sempre foi assim e nós a amávamos assim.)

Também naquela noite, de modo curioso, soube de pequenas coisas sobre Donghae. Não lembro como o assunto chegou a mesa, tampouco se meu interesse era assim tão alarmante. Era simples, mamãe frequentava a mesma igreja que a mãe de Donghae (aliás, tinha a impressão de que aquela mulher era um tanto infeliz, amarga; seu sorriso era tão pequeno que não me remetia à outra coisa senão a segredos obscuros e dualidade, mas eu podia muito bem estar enganado) desde sempre e elas até tinha algo muito parecido com uma amizade.

Eu espetava as batatas com o garfo e apoiava o rosto com uma das mãos. Eu perguntava coisas das quais não me lembro muito bem. Mas guardei, com as dezenas de piscadas dos meus olhos secos e fingidos, o que mamãe dizia com sua voz calma e seu sorriso meigo.

Donghae morava nos fundos da casa da mãe, o pai estava morto havia sete anos – onde eu estava? –, aprendera a tocar violão sozinho, levava a mãe à igreja, havia começado a namorar uma das filhas do proprietário do único sebo da cidade e gostava tanto de crianças que assustava. A mãe o convenceu a não trocar de nome depois que completou a maioridade (aparentemente isso ainda era uma dor de cabeça para a velha) e ele havia parado de fumar fazia pouco mais de dois anos. Donghae tinha uma vida quase parecida com a minha. Me fez pensar que seu sorriso era de cera e segundos depois discordar de mim mesmo.

Em seus olhos havia uma existência limpa.

 

 

Na penumbra de um quarto fechado e de uma madrugada quente eu tive relapsos, memórias esquisitas, borradas num preto e branco tosco, enquanto encarava a janela ou a parede, estava tão escuro, não me lembro bem. Lembrei de quando tinha uns oito talvez seis anos, estava na frente da casa de Donghae. Nossas mães oravam juntas na sala de sua casa ou qualquer outra coisa parecida. Nós brincávamos. Ele usava um moletom cinza, gasto, cheio de bolinhas e seus cabelos eram lisos, escorriam preguiçosos e calmos pelo rosto moreno e sujo. Do meu rosto eu não lembro, talvez eu não o conheça. O céu fechado e de boca aberta para nos engolir – eu costumava pensar que atrás daquelas nuvens escuras existia um outro mundo, mas eu não fazia ideia de como esse mundo poderia ser porque eu nunca soube idealizar as coisas. Donghae me amarrava com uma corda grossa na árvore mais velha do bairro, ele girava em volta da árvore e ria aberto, bobo e feliz e eu me sentia desconfortável porque ele me apertava muito, mas eu não queria desanimá-lo então ficava olhando as folhas caírem. (Ele dizia que a árvore estava doente e que era sua única amiga e eu achava aquilo muito esquisito). Por mais que brincássemos de índios ou coisa assim, por mais que Donghae fosse quase abusivo em ter me negado uma leitura de Guliver e que sua brincadeira mais me machucasse do que qualquer outra coisa (ele fazia sem querer e eu sabia), em algum momento, eu sei, sei que ri. De forma espontânea, incontida, estúpida, puxando todo ar do pulmão olhando para seu rosto de imaginação avoada e perdida, de criança nutrida. E hahahahaha. Rimos. E naquele momento não havia as cintadas do meu pai ou a extinção da minha espécie de sapo preferida, não havia a árvore doente nem a corda e Guliver. O céu pintado no riso de dois meninos. Era como paraíso. Um instante efêmero que se eternizou quando eu acendi o abajur.

 

 

Nunca entendi minha mania de olhar o céu, de decorar suas cores, de cismar com seus movimentos, de procurar nele o que já não existe, o que nunca existiu. (Até o céu pode ser efêmero). Eu havia preparado um chá muito doce na pior térmica de casa e carregava ela comigo até a janela do quarto, quando tropecei em um sapato e percebi que talvez eu fosse em direção ao telhado para esperar uma coisa muito, muito esquisita naquele fim de tarde. Saltei a janela e caminhei com uma caneca e a térmica nas mesmas mãos pelo telhado marrom e quebradiço de casa, tentando me equilibrar e não me intimidar. Quando me sentei lembrei de modo vívido que os céus dos fins de tarde costumavam ser lilases ou alaranjados, que o sol refletia na água do mar e que mesmo de longe ardia os olhos. Eu esperava ver Donghae e constatei isso na cozinha, enquanto despejava o chá na garrafa térmica sentindo um nó no peito ou qualquer coisa parecida com decepção. Não precisei de muito para entender. Eu sabia bem que podia ser bobagem, confusão ou uma carência difícil de admitir, o desejo de um amigo que o tempo não apagasse ou afastasse. De repente me senti muito próximo a ele e eu nunca soube lidar com esse tipo de sensação. Eu arrancava das calças do pijama a sujeira dos cobertores, seus pelos e bolinhas quando Donghae passou com o cabelo cortado e o casaco azul e o violão nas costas. O sol caia no mar com certa presa e ele usava uma bermuda que não combinava com nada, chegava a ser ridículo, uma estampa vermelha e roxa que era de deixar tonto.

Ele me encontrou quando desistiu de não pisar nas linhas, com olhos perdidos e a boca aberta e seca. Seu aceno foi tão caloroso que me fez rir sozinho porque ele de certo modo conseguia arrancar de mim as mesmas reações daquela tarde, amarrado naquela árvore doente – agora morta – que era sua única amiga. Tinha um passo tão lento pela calçada que eu pensei em perguntar lá de cima se ele havia guardado as folhas dela, mas deixei que ele fosse embora enquanto eu me ouvia respirar e desviava os olhos.

Quando entrei em casa com a térmica vazia e sombras que entravam pela janela eu acreditei que daria um jeito na minha vida de fracassos. Como se pudesse vencer o mundo e até eu mesmo.


Notas Finais


A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.


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