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História Onde sentimentos se cruzam - Capítulo 4


Escrita por: Histtoria_

Capítulo 4 - Atraente negro, adorável caos


Fanfic / Fanfiction Onde sentimentos se cruzam - Capítulo 4 - Atraente negro, adorável caos

Foram poucas as vezes.

Da janela da sala de aula, dia ou outro acontecia de vê-la caminhar apressada pelo campus, carregando caixas de papelão, ou então, durante algumas ocasiões, em meio a educação física, podia avistá-la próxima de uma ala distante do prédio, regando flores.

Não virei um stalker ou coisa do tipo. Antes que percebesse, haviam momentos em que não conseguia tirar meus olhos dela, até que sumisse de vista. Em outros eu simplesmente não queria.

Por isso, foi impossível não ficar surpreso quando reconheci a figura encharcada e deprimente encolhida no pé da escada.

– Hmmmmmmmmm... – ela resmunga, pela terceira vez desde que deitou a testa na mesa. Os cabelos molhados estão espalhados pela superfície e a mão agarra firmemente o copo, preenchido até a metade de vinho. Ao lado está a segunda garrafa.

– Mais calma?

– HM! – brusca, ela levanta o rosto, amassado e corado pela embriaguez. Com a costa da mão livre afasta alguns fios negros do canto da boca, tudo enquanto mantém sobre mim um olhar lerdo e irritado. Mas então, quando inclina o corpo para trás e deita as costas no sofá, ela sorri adoravelmente, afirmando com a cabeça – Uhum...

No meio tempo em que trato de fazer essas emoções mistas sumirem, os olhos zonzos caem sobre a garrafa. Ela a apanha, a abraçando entre a região nua das cochas, entre a meia-calça escura e a saia justa de mesma cor.

– Mas, sabe, jurava que você ia tentar me convencer a entrar no Conselho, veterana.

A cara de desgosto foi instantânea, assim como o “uuuurrghhh” que soltou, revirando os olhos e jogando a cabeça para trás dramaticamente.

– Conzelho, Conzelho... Vozêz não zabem pensar em outra coisa?! Todos vocêz!. – apontou para mim, o dedo balançando, sem foco. Logo o abaixou, sonolenta, mas ainda é muito cedo para dormir.

– Entendi, então ele te deixou plantada lá? – como esperado, ela despertou, de certa forma. Uma adorável expressão de surpresa toma o rosto.

– Meu Deuz! Quem te contou?!

– Você, veterana.

Zabia que ele me deixou plantada lá?

– Não diga... Sério?

Hye-ji balança a cabeça, concordando. Pisca algumas vezes, os olhos perdidos em algum lugar, e então arrota. Eu rio, colocando meu cotovelo na mesa e apoiando meu queixo nas costas da mão, pronto para desfrutar da situação o máximo que eu conseguir.

– Você é fofa, veterana.

– É, eu zei. – sem hesitação, vira o copo, não demorando mais que meros segundos para esvaziá-lo outra vez. Algumas tiras da bebida escorrem pelo pescoço úmido, descendo até o busto. – Eu zou goztosa pra caralho.

– Isso também. – digo, e ela bate com o vidro na mesa. Depois de encarar o recipiente vazio, com calma, exigindo o máximo de foco, o enche outra vez. Observo-a voltar a garrafa, agora vazia, para as cochas. Vai ser interessante dizer o que aconteceu quando o velhote notar que parte de seu precioso estoque de bebidas sumiu. Isto é, se notar. – Mas, é por essa razão que está tão frustrada? Entendo, entendo... E o quê mais?

EI! Qual o zeu problema?! Ezze não é o ponto aqui! – a mão volta a agredir o móvel com várias batidas. Não me surpreenderia se a madeira cedesse nos próximos minutos. Ela torna a levar o copo à boca, o esvazia, e quando tenta continuar a bebê-lo, o devolve com uma cara tristonha após curtas insistências, voltando, em seguida, a grudar a testa na superfície dura. – Hmmmmmmmmm...

Pego uma das madeixas negras espalhadas e as enrolo no meu indicador. Os fios escorrem com facilidade por estarem úmidos, mas não os deixo escapar.

Sem resposta. Um tempo se passa com nós dois em silêncio. Continuo enrolando a mecha de cabelo, que, noto, já se transformou num longo cacho. Eu o giro na direção contrária desta vez, transferindo minha atenção para a garota diante de mim, agora balançando a cabeça de um lado para o outro.

É impossível controlar o sorriso que surge no meu rosto.

Ela está mais calma agora. Devo me divertir só um pouquinho mais?

– Ei, vetera...

Mas, para a minha surpresa, ela arruma a postura num movimento brusco – os fios negros escapam pelos meus dedos, assim como todo o cabelo que voa para suas costas pelo impulso – e a carranca ainda mais brava, amassada e vermelha me impede de continuar.

Vozê... – ela soluça, abandonando a garrafa no carpete e inclinando o corpo para frente. Não estamos tão próximos, mas sinto o cheiro do vinho – Não penze que me engana, maldita raposa! – a mão estapeia a madeira uma, duas vezes – Eu não sou seu bobo da corte, tá me ouvindo?!

– Pelo visto, você ainda está um pouco sóbria. E com fome. – acrescento, sorrindo, após um rugido estranho tomar conta do cômodo – Eu cozinharia pra você. Mas não estou nem um pouco afim.

Seu celular vibra, sobre a mesa. Espio o relógio na tela de bloqueio, agora marcando, aproximadamente, sete horas.

Como eu imaginava, não faz tanto tempo assim desde que nos sentamos aqui, porém não durou muito até que ela chegasse nesse estado. Embora não tenha exatamente me contado sua vida toda dentro desse período de tempo, soltou o suficiente para me fazer entender o porquê de tanta raiva.

“Foi só um dia difícil...”, dizia, com os dois primeiros copos; “Eu também detesto ezzes encontros mas é só uma vez na semana, então...”, “Não é a primeira vez que o escroto faz izzo e...”  murmurava, ao fim da primeira garrafa; “Eu podia matar aquele desgrazado.”, “Não, uma arma é melhor.”, cuspia, agora na metade da segunda.

– Dylan, abra a porta para mim. – ela tenta se levantar, de uma vez, mas falha e cai sentada no sofá às suas costas. Não sei se não percebeu o que acabou de acontecer ou se somente ignorou, mas se ergue novamente, caminhando com pernas bambas até a entrada, tentando calçar atrapalhadamente os sapatos – É uma ordem!

Me ponho de pé também.

– Veterana, o que pensa que está fazendo?

– Não é óbvio, sua raposa idiota?! – sou rápido o bastante em alcançá-la e envolver sua cintura com braço quando as pernas fraquejam e vejo-a prestes a cair. Bufo, torcendo para que o aperto não tenha sido muito forte. – Eztou indo terminar meu noivado... – desfaço o contato, cauteloso com qualquer indício de que volte a cair outra vez, mas ela apenas desiste de ficar em pé, apoia o ombro na parede e desliza lentamente até se sentar desastrada no chão.

– Noivado? – pergunto, olhando-a de cima com as mãos dentro dos bolsos da calça. – Está noiva do cara que deu um bolo em você hoje?

Em resposta, ela joga a cabeça para trás no exato instante. Os olhos me encaram raivosos durante alguns segundos e um soluço escapa dos lábios. Em seguida, volta a apoiar a lateral do rosto e o corpo na parede ao lado, me ignorando.

– Bem, você deveria mesmo terminar com esse cara, se ele te trata tão ruim assim. E posso dar uma surra nele se me pagar direito. – dou a volta, me ajoelho a sua frente e seguro seu calcanhar. Sem algum protesto, com calma, ergo o pé direito e retiro o salto negro mal colocado. Em seguida, faço o mesmo com o outro. – Mas, sabe, embora essa não seja mesmo a vizinhança mais segura da cidade, acredito que, do jeito que está, qualquer bairro pode acabar sendo perigoso. – me levanto – Então se quer ir embora, se acalme um pouco antes e chame um táxi, ok?

Chega de bebidas por hoje, também, penso, me sentindo um tanto culpado.

Vozê... – a observo tentar se erguer. É como se os ossos das pernas tivessem se transformado em gelatina: as mãos buscam apoio na parede às costas e no chão, os pés deslizam e a fazem quase cair outra vez. Quando enfim consegue se erguer, me pergunta com o rosto completamente desconcentrado: – Vozê eztá ze divertindo com a minha cara, não tá?

– Ser tão rude a ponto de se divertir às suas custas? Eu não poderia...

– Quero vomitar...

– Pensando bem, o bairro está bem mais seguro ultimamente...

Veterana passa por mim, não sem antes se apoiar no meu ombro por um instante, e se atira de bruços no meu sofá. Os resmungos são altos, mas saem abafados. As pernas balançam para cima e para baixo desajeitadas, num sinal de raiva. É fofo, mas o meu receio de que vá vomitar no acolchoado é mais forte para ficar aqui parado admirando seu surto.

Já estou agachado diante do hack, abrindo o pequeno armário onde lembro de deixar a caixa de remédios quando ouço algo.

– Cale a boca! – ela grita para o celular vibrando alto, se movendo ligeiramente sobre a mesinha de centro.

Por algum motivo sua ordem não funcionou, então veterana se põe rápido de joelhos, inclina o corpo e encara o aparelho. Samuel, é o que diz.

A vibração cessa, mas volta quase que imediatamente. O ciclo se repete mais duas vezes, e quando começo a questionar a situação e me perguntar por que demônios estamos observando com tanta atenção esse maldito telefone, a voz bêbada invade meus ouvidos:

– Não vai atender?

– Você tirou as palavras da minha boca, veterana.

Ezze inútil vai continuar ligando até alguém atender! Atende!

– Esse é o seu celular.

Para a minha surpresa, o rosto lerdo rapidamente se torna mais rubro, o lábio inferior treme enquanto um beiço se forma e os olhos finos se comprimem ainda mais. Ela funga. As sobrancelhas se unem, com raiva. Posso ver as íris negras brilharem um pouco antes das lágrimas começarem a se acumular ali. Abraçando as pernas e deitando a cabeça nos joelhos, começa a chorar.

Eu não posso contestá-la agora, está mais do que claro.

Respiro fundo, apanhando o telefone e atendendo a chamada.

– E aí?

Por que você atendeu? Onde está minha aluna?

– Hmmm, “onde” você pergunta...? – a olho de soslaio. Veterana voltou a estar deitada de bruços e o rosto, coberto por vários fios de cabelo, continua tão irritado quanto antes. Um dos braços está apoiado e esticado por cima do encosto do sofá, enquanto a outra mão faz carinho no carpete de um lado para o outro. Ou melhor, fazia, pois agora ela aponta o dedo indicador para mim.

– Fala que eu morri!

– Desculpe, ela morreu. – mas não é como se não tivesse escutado ela gritar – Que triste, não acha? E tinha toda a vida pela frente...

Escuta aqui, seu pirralho desgra...

– Ela está bem. – o interrompo, antes que comece a me dar um sermão – Só encheu um pouco a cara, então emprestei meu sofá. – posso ouvi-lo dizer “O quê? Olha, quero falar com ela!” enquanto distancio o telefone da orelha. Aperto o botão de viva-voz e sorrio para a garota debruçada no acolchoado – Veterana, veterana!

– Ei, Hye-ji, sua doida! Quanto você bebeu?! Não, por que DIABOS você...

– Veterana, você está bem?

– Tô!

– Você bebeu muito?

– Sim!

– Você gosta de mim?

– Não.

– Como pode ouvir, ela está em perfeito estado.

O caralho que ela tá! – bufo, incomodado com o grito. Deveria ter imaginado. Retirar o viva-voz é um reflexo. – Estou indo aí. – digo “Não venha” em alto e bom som, mas sou ignorado – Ela não está tão ruim, mas não quero ninguém vomitando no meu carro. Dá teu jeito.

Sentindo uma leve irritação crescer, observo os segundos piscarem na tela após Samuel encerrar a ligação. Deixo o telefone sobre a mesa e me volto para a abandonada caixa de remédios, em busca de algum que resolva o enjoo da garota. Acabo retirando algumas cartelas quando lembro de meu tio dizer que água ajuda a diminuir a embriaguez, ou seria a ressaca? Não, isso é água com açúcar. Eu acho. Um banho? Não, sem chance.

Estava começando a considerar jogá-la na chuva, mas pesquisar ideias melhores na internet pareceu mais útil.

– Veterana, vou pegar o seu celular empresta...

Entretanto, as palavras não saem quando me viro para olhá-la. O rosto continua vermelho e sonolento, com os olhos escuros e puxados encarando o nada a sua frente. A mudança é drástica descendo pelo pescoço, os seios, cobertos somente pelo sutiã negro de rendas, onde antes havia uma outra camada de blusa.

Quando a imagem é interpretada pelo meu cérebro, desvio o olhar lentamente para o outro lado que, por coincidência, é onde a camisa cor de creme está, estirada no chão bem ao lado do sofá.

– Quer me fazer um show de strip, veterana? –  Me xingo mentalmente ao perceber que as palavras por pouco não se enrolaram graças a um nervosismo repentino e irritante. Me levanto, vou até a camisa, a apanho do chão e jogo-a no rosto dela. – Não me importo, mas ao menos pague um jantar antes.

– Está calor! – após puxar a roupa do rosto e a atirar com força no sofá, os olhos embriagados correram pelo cômodo, parando outra vez – para a minha felicidade – no armário onde mais outros vários litros de álcool a encaram de volta.

Quando minha mão segura seu braço a garrafa escura já está nos seus dedos. Ela vira o rosto vermelho para me encarar. O cheiro do álcool me faz perceber o quão próximos estamos agora. Me esforço um pouco para manter o olhar em sua face e sorrir.

– Não acha que é o suficiente por hoje, Hye-ji?

– Não. – diz, balançando a cabeça para os lados, usando o tom menos bêbado até agora. Os olhos permaneceram fixos num ponto além do chão. – ...Talvez?

Apanho o vinho de suas mãos e olho por cima do ombro as cartelas de remédios sobre a mesa às minhas costas. Não sei se ainda está com enjoo, já que foi atrás de mais álcool para beber, mas é melhor que tome isso, mesmo que seja apenas a água.

Porém a mão tocou gentilmente as costas do meu pescoço antes que eu pudesse dar um passo. Os dedos subiram e roçaram as pontas dos meus cabelos, o contato leve das unhas na pele fez uma corrente gélida de arrepio seguir por minha espinha.

Quando meus olhos voltam a cair sobre seu rosto, ela não está sorrindo, continua tão bêbada quanto antes, o cheiro mais forte com a súbita aproximação, e, por alguma razão, muito mais atraente.

Posso sentir a surpresa abandonar meu rosto e um sorriso crescer nos meus lábios. Não demoro a rir, percebendo o toque da outra mão descer sobre meus dedos que até o momento seguravam a garrafa de vinho, pois a solto, e agora, com estes livres, consigo erguer seu rosto um pouco mais, o suficiente para que possa experimentar nossas respirações se mesclarem, acariciarem minha boca.

– Está mesmo tentando me seduzir agora, veterana?

– Do que está falando? – não consigo deixar de tremer quando noto seus dedos em minha pele, erguendo a camisa que uso à medida que sobem por minha barriga num toque delicado, deixando correntes de arrepio por onde passam. – Eu já fiz isso, não fiz?

Seguro seu pulso, sentindo um nervosismo ridículo crescer com a situação que me faz desviar o olhar do seu, e não há dúvidas de que notou isso, porque avança, encurtando ainda mais distância quase inexistente entre nós dois. Eu recuo, apenas dois ou três passos até sentir o encosto do sofá contra minhas pernas e cair sentado no acolchoado.

Não me dando tempo para reagir, no mesmo instante ela apoia um dos joelhos no estofado e leva a mão, que até então empurrava meu peito, rumo a um dos meus ombros. O peso do corpo foi suficiente para me fazer deitar. Tenho o reflexo de agarrar seu braço e tentar me erguer, pelo menos um pouco. Já estou com os cotovelos me apoiando, mas hesito como um completo idiota assim que meus olhos encontram os seus.

Com ela sobre mim, noto as poucas gotas de suor descerem por sua nuca, a transparência discreta do sutiã, o cheiro fraco do perfume que quase se perdeu com a chuva, ofuscado pelo aroma do álcool. E então, eu percebo: Está quente. Mesmo com a tempestade de outono, está quente, principalmente ela. Tudo nela é quente agora, desde a respiração agora acariciando meu pescoço, me fazendo desejar que sua boca toque bastante minha pele ali, até a temperatura do corpo tão próximo do meu.

– Seus olhos são tão bonitos, Dylan. – meu coração falha uma batida, e em seguida, volta a chacoalhar como louco. Me forço a não desviar o olhar. É irritante e inconveniente, mas eu sei que é impossível não ficar nervoso. Principalmente quando me vejo querendo isso. – Os mais lindos que eu já vi.

Meu corpo enrijece quando os dedos pousam delicadamente em uma das minhas bochechas. O toque sobe, cuidadoso, até a região sob meus olhos. Após alguns segundos, descem rumo aos meus lábios, por onde passam lentos.

De repente, me surpreendendo, ela ri, baixo, de uma forma extremamente doce, e algo nesse sorriso me acalma, faz meus músculos relaxarem, minha tensão quase desaparecer.

– Por que está fazendo essa cara? – pergunta, seu hálito outra vez se mesclando ao meu.

– ...Que cara?

Em resposta, ainda exibindo o mesmo rosto, mas com os olhos voltados para mim novamente, veterana toca nossas testas. Contenho o impulso de me afastar, e mesmo sentindo que todo meu sangue se reuniu no meu rosto, reforço o contato, com cautela, na intenção de abalá-la pelo menos um pouco. Entretanto, ela apenas ri mais uma vez.

Tão fofo. – murmura para mim, aumentando não muito a distância entre nós dois, apenas o suficiente para que meu coração deixe de bater tanto. Só então, percebo o que disse. Fofo. Eu. Enquanto sinto meus olhos se arregalarem, o sorriso dela cresce. – Sério... – veterana se afasta mais ainda – deixando com que eu enfim arrume minha postura – apoia um dos braços no topo do encosto do sofá e deita ali a face corada pela bebida – Eu poderia te observar por hooooras...

No entanto, foram necessários apenas alguns segundos para que os olhos saíssem do meu rosto e se voltassem, desfocados, para algum outro canto. Eu permaneço observando-a se render rapidamente ao sono, ao mesmo tempo em que tento raciocinar tudo o que acabou de acontecer.

O celular toca e o nome de Samuel brilha na tela. Respiro fundo, incomodado com tantas sensações. Me levanto, escapo, apanho o aparelho e me sento no carpete, de costas para ela.

– O que é?

Estou saindo de casa. Vou pegar o caminho mais curto. – o tom de voz dele, alto e vívido, alheio à situação de agora, me irrita. Muito. Mas sei que não tem culpa, então contenho a vontade de xingá-lo – Tá me escutando, moleque?

– Sim, inferno. – bufo, esfregando minha testa e enfiando meus dedos nas raízes dos cabelos. Cacete, ainda sinto a fervura tomar conta do meu rosto. – Estou escutando.

Samuel torna a falar, resmungando que vai nos fazer pagar se acabar enfiado em algum engarrafamento quando ouço um som abafado. E então, os roncos baixos alcançam meus ouvidos.

As costas praticamente nuas estão viradas para mim, os cabelos enormes tocam o chão. Resmungando um pouco, ela mexe lentamente as pernas, tentando arrumar uma posição confortável no sofá.

– Luke... – sem receber resposta, muda o tom para um timbre choroso e, devagar, se põe sentada, me deixando alerta – Lukeee... Faz cho... – um momento breve de silêncio, seguido pelo som abafado de antes, pois se joga no estofado outra vez – Faz chocolate pra mim... Lukeeee...

É Hye-ji? – pergunta Samuel, me fazendo lembrar de que ainda existe e ainda está falando comigo – Como ela está?

– Ótima. Só venha rápido.

Não espero uma resposta para encerrar a ligação e deixo o telefone sobre a mesinha de centro.

O som forte e constante da chuva é, enfim, o único que se sobressai no cômodo. A respiração calma dela é, num momento ou outro, interrompida pelos roncos curtos, me assegurando de que está num sono profundo.

Observo as garrafas de vinho deitadas no piso, as cartelas de remédios, a camisa estirada no carpete e acabo soltando um breve riso. O que é que eu fui fazer?  Provavelmente fui infectado pela idiotice dessa mulher.

Mesmo sentindo meus pés adormecerem um pouco, me levanto. Tapo minha boca ao soltar um bocejo e sigo em direção da cozinha. Se não me engano, ainda há alguns pacotes de chocolate no fundo do armário. 




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