História Uma mão amiga - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias Malhação
Tags Clara, Lica, Limantha, Malhação, Samantha
Visualizações 1.277
Palavras 4.277
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Ficção, LGBT, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Linguagem Imprópria, Suicídio
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Gente, essa é a minha primeira fanfic... Português não é a minha primeira língua, então pesso perdão pelos erros 🙏...
Esta é uma história que foi escrita em quatro horas, enquanto eu estava na fila da imigração para renovar o passaporte 😂 .... Tem Limantha sim, mais a trama está focada na amizade da Lica e o MB. Espero que les guste ❤

Capítulo 1 - Paris


Fanfic / Fanfiction Uma mão amiga - Capítulo 1 - Paris

O relógio na parede marcava as onze. Heloísa acordou de seu cochilo por culpa do seu celular, que martelava como um picapau no seu ouvido direito. Arrastando seu braço pela cama, visivelmente irritada com a interrupção de seu sono, agarrou o objeto entre seus dedos e o levou até seu campo de visão. Seus olhos desacostumados com a luz se fecharam um pouco, mais conseguiu ler, entre a embaçada clareza, o nome que jamais cessava de invadir seus pensamentos. Era Samantha.

"Lica, tô precisando de vc... O MB enlouqueceu... Chegou aqui em casa bêbado, bateu na porta até acordar as minhas mães e agora tá jogado no sofá, falando besteira. Será que cê pode passar aqui e me ajudar?"

O texto a assustou um pouco, não negaria. Desde que havia voltado ao Brasil, ela tinha tentado se afastar das drogas, do álcool, das confusões. Mas desta vez ela não podia fugir. Em primeiro lugar porque era o MB quem estava precisando de ajuda. Em segundo porque foi Samantha quem invocou sua presença. E ela se negava a dizer "não" a nenhum dos dois.

Sentando-se sobre o colchão, desembolando as pernas do lençol que a cubria, decidiu ligar para sua namorada.

"Até que em fim cê me respondeu."

"Oi" - soltou Lica, sua voz rouca carregada de estupor. - "Desculpa, tava dormindo."

"As onze da noite? Cê tá bem?" - riu a outra do outro lado da linha.

"To sim, era só um cochilo." - se defendeu. - "E aí? Como é que tá o MB?"

"Ele tá mal... Sério, nunca vi ele tão mal como agora."

"Já vomitou?"

"Encima do tapete persa da minha mãe."

Lica imaginou a cara de horror de Dona Clara. Teve que se segurar para não rir. Não era a hora adequada para isso.

"Coitada da Dona Clara... Ela adorava aquele tapete."

"É, adorava sim, mas até que ela não se incomodou. Ela e mamãe estão mais preocupadas com o MB. Ele disse que os pais dele fugiram do país."

"Pera.... Cê tá me dizendo que..."

"O MB tava certo Lica... A Malu e o JM tavam metidos em falcatruas."

"Sammy, que tipo de falcatruas?" - a garota começou a se preocupar.

"Pelo jeito, Lava-Jato."

Teve que respirar fundo para evitar entrar em pânico. Sabia que a familia de MB era corrupta. O amigo vivia falando sobre os "negócios" do seu pai. Francamente ela estava se lixando para JM e seus esquemas. Nunca havia dito isso em presença do loiro, más sempre quis que o velho fosse preso. Era um criminal, e assim como todos os outros empresarios bandidos que coroavam as capas dos jornais, merecia cadeia. Mas agora o jogo havia mudado. JM havia fugido, deixando suas empresas no nome do filho. Havia transferido a conta de seus robos para ele. A polícia poderia prende-lo. Mandar ele para a cadeia. E o garoto apenas poderia se defender. Afinal, ele havia sido cúmplice da corrupção de seu pai ao não denunciar o crimem. 

"A Malu tá metida mesmo nisso? - perguntou, ainda absorvendo as novidades.

"Tá sim."

"E o meu pai?" - atreveu a questionar, inquieta. 

"O MB não falou nada dele... Ainda." - Samantha respondeu, sentindo o medo apoderando se das palavras de sua namorada.

"Ainda... " - ela suspirou, levantando-se da cama. - "Eu to indo pra aí."

"Tá bom. Eu te espero."

Heloísa não perdeu seu tempo. Se vestiu com pressa, agarrando do armário uns jeans rasgados, uma camisa velha dos Rolling Stones e seu all-star preto de cano alto. Se a situação fosse outra, até iria bem vestida à casa das sogras. Mas naquele momento, ela precisaria de algo prático, não elegante.

Guardando seu celular e sua carteira adentro de sua bolsa, ela caminhou até a sala, ignorando o fato de que sua mãe estava sentada no sofá, com Luis, aos beijos e amassos. 

"Lica!" - a mulher se separou do namorado com um pulo. 

"Oi mãe, oi Luis." - respondeu, meio fora de órbita, muito concentrada na atual situação de MB como para lançar um comentário sarcástico em contra do casal.

"Desculpa, a gente não te viu..."

"Tá de boa, Luis. Vocês tão juntos, é normal." o acalmou, batendo o pé chão, nervosa. 

"E você? Vai sair?"

"Vou pra casa da Samantha"

"Se cuida, tá, não quero netos. " - brincou Marta.

"Não mãe, eu não vou lá pra isso." - se tivesse sido qualquer outro dia, teria corado com o comentário, mas naquela situação, não conseguiu.

"Lica, que foi? Você tá pálida..."

"Ô, eu realmente não queria acabar com a noite de vocês, mas será que cê pode me levar lá?" - a interrompeu sem ceremonias, ansiosa.

"Só se você me contar o que está acontecendo primeiro. Por qué esa pressa toda? Por que tão séria?... "

Ela respirou fundo.

"Descobriram que o pai do MB tava envolvido num esquema de corrupção, que ao parecer também envolve a Malu, e possivelmente, o meu pai."

"O que?" - a cara de Marta caiu. - "Como assim? Quem te disse isso?"

"O propio MB que falou. Acontece que o pai dele decidiu dar uma de ladrão internacional e fugir do pais. Só que aí ele tacou quase todas as suas empresas no nome do MB, o seja, envolveu ele no roubo também, e foi embora como se nada tivesse acontecido. O MB ficou completamente maluco, bebeu até cair, e sem casa, foi buscar asilo ná da Sam. É por isso que eu tô indo pra lá."

"Meu Deus..." - suspirou Luis, enquanto Marta o olhava, ainda boquiaberta. - "A Malu tá nisso também? Essa eu não esperava."

"Nem eu." - Lica concordou, cruzando seus braços. - " E ai mãe, cê me leva?"

"Claro que sim minha filha." - ela respondeu, levantando do sofá. - "Luis, você vem com a gente?"

"Eu não sei. Preciso falar com a Clara. Se a louca da Malú estiver mesmo metida nessa fuga, conforme disse o seu amigo Lica, ela deve estar sozinha em casa."

"Cê tá cuberto razão. Com ese desastre todo nem tinha pensado na Clara..."

"Se você quiser a gente poder passar na casa da sua filha antes de ir lá..." - ofereceu Marta.

"É, ai a Sam pode até dar uma força pra 'maninha'." - brincou Lica. - "Elas são melhores amigas, acho que seria bom ela ter um apoio desses por perto, ainda mas agora. Não que você não seja suficiente, cê é um pai maravilhoso pra ela e ela te ama, eu só queria dizer que..."

"Respira, Lica." - sorriu Luís, vendo a evolução de Heloísa com seus próprios olhos. As vezes não conseguia acreditar que aquela era a mesma menina que quase o socou em uma briga no ano anterior. 

"É, filha... Ficar nervosa não vai ajudar em nada."

"Ai, desculpa, serio... É que cês tavam ai, de boa, e eu chego com uma bomba dessas e não paro de tagarelar..."

"Não é culpa sua... Você fez bem em chamar a gente, a situação é delicada, e vocês são muito jovens para lidar com isso tudo sozinhos." - a cortou o padrasto, levantando-se do sofá.- "E com relação a sua oferta meu amor, eu vou sim. Deixa só eu ir trocar de roupa, não quero aparecer na casa de ninguém usando só o meu pijama. Com licença..."

Luís correu até a suite do casal, deixando Marta e Lica sozinhas ná sala. Pelas roupas, a mas velha parecia ter chegado em casa a pouco tempo. Deveria ter ido a um jantar com algum investidor do seu projeto educacional.

"As mães da Samantha já sabem de tudo isso?"

"Elas foram acordadas com o MB socando a porta do apartamento, então sim, elas já sabem."

"Eu vi a Marina hoje de noite, sabe... Ela estava lá no jantar, falando de um projeto novo dela: fotografar professoras de diversas partes do Brasil. Ela comentou sobre a diferença na infraestrutura disponível nas escolas, sobre as dificuldades que as escolas públicas tem por causa da crise, dos tiroteios... Eu gostei muito."

"Dela ou do trabalho dela?"

"Dos dois. O trabalho é fantástico, e ela como pessoa é muito educada, muito aberta ao diálogo, muito crítica..."

"As minhas sogras são incríveis mesmo. Dá pra conversar muito com elas. Eu adoro."

"Eu só vou ficar com pena né, elas ficaram no jantar até tarde, devem estar mortas de cansada. Ai chegam e se deparam com um carnaval desses..."

"Pelo que a Sammy me contou elas tão de boa. Preocupadas, claro, mas tão tendo paciência com o MB."

"Falando do Michel, onde ele vai ficar? Esse menino não pode ficar sem um adulto responsável do lado..."

"Eu não sei, mas eu estava pensado nisso mesmo. Será que ele pode ficar aquí?"

"Eu não tenho problema nenhum com isso, ele já dormiu aqui tantas vezes... Só se lembre que agora você tem uma namorada Lica." 

"Mãe, eu e o MB já foi. A muito tempo. Mesmo. Eu não trocaria a Sam por nada nesse mundo. Eu só tô querendo ajudar um amigo, que tá na pior..."

"Entendi." - respondeu Marta, ainda com receio. - " Só nao quero ver a minha nora machucada."

"Quê isso Dona Marta? Agora também tá shippando Limantha? Olha que a nossa madrinha é a Tina, ela sempre diz isso."

"Eu só quero que você não acabe com a sua própria felicidade de novo minha filha. Uma garota, ou garoto, pessoa, tanto faz..." - Lica riu dos tropeços de sua mãe. - "Alguém como a Samantha você não vai encontrar em qualquer esquina. Ela te ama Lica, não chantageia a sua relação, não outra vez."

"Pode deixar Dona Marta." - Heloísa sorriu, agradecendo a preocupação.

"Estou pronto." - disse Luis, guardando a sua carteira no seu bolso de trás. - "Vamos?"

"Vamos."

---

Quando chegaram na rua do apartamento que Malú e Edgar compartiam, encontraram Clara, junto a uma montanha de malas, esperando por eles na calçada. Ao ver a cara de tristeza de sua irmã, Lica não hesitou em sair do carro, mesmo que ele ainda estivesse em movimento. Ignorando os comentarios asustados de sua mãe, correu até ela de braços abertos, recebendo o impacto de seu corpo com carinho. 

"Clara!" - exclamou, envolvendo a loira em um forte abraço, que foi retribuído em meros segundos.

"Ela fugiu Lica... Ela me deixou. Os dois me deixaram." 

"O Edgar também?" - tentou, mas não pode esconder sua curiosidade. 

Clara afirmou com a cabeça, chorando em contra do hombro de Heloísa. A mesma tentou acalma-la, fazendo leves círculos nas suas costas com as mãos, sabendo que a garota não estava nada bem.

"Será que ela vai ser presa, Lica? Eu não quero ela ná cadeia..."  - sua voz quebrou.

"Tal vez sim, tal vez não. Eu não sei..." - respondeu com calma, separando-se de seu corpo para olha-la nos olhos. - " A única coisa que eu sei é que você não tá sozinha nessa história."

"Não tá mesmo" - Luis apareceu, capturando todo o interesse da loira.

"Pai!" - ela exclamou, correndo ao seus braços, escondendo se em seu amparo, lágrimas molhando o tecido de sua camisa. 

Em quanto Luis tentava ajudar sua filha a se recompor, as outras duas mulheres subiram sua bagagem ao carro. 

O veiculo partiu pouco tempo depois. As duas irmãs permaneceram grudadas uma a outra no assento de trás em completo silêncio. A loira manteve sua cabeça apoiada no hombro de Lica a viagem inteira, enquanto esta última a abraçava de lado. 

Era fácil perceber que sua relação havia mudado. Nesses últimos meses, a confiança que tinham uma na outra havia aumentado bastante. O carinho que agora davam sem pensar foi um fruto inexperado de muitas discussões, conversas, e troca de conselhos. A presença de Samantha, ambas sabiam, também ajudou muito a que as duas se entendessem. Ainda que os métodos da baixista dos Lagostins foram, no mínimo, questionáveis (Como trancar as duas em um armário por dez minutos durante um jogo de verdade ou consequência para que, segundo ela mesma, "fizessem as pazes") a sua intenção sempre havia sido boa. 

Clara agradecia aos céus todos os dias por ter aquela garota como sua melhor amiga e cunhada. Jamais teria chegado a se entender tão bem com Lica sozinha. Sua Shirley Temple Paulistana realmente havia salvado o caso perdido que era seu vinculo fraternal com a artista. E em momentos como esse, ela sabia que tal vínculo era extremamente necessário. 

---

Em menos de quinze minutos já haviam chegado na residência Nogueira - Lambertini. Marta disse que demoraria para estacionar o carro, e sugeriu que as meninas subissem. Luis se juntou a ela e disse que as acompanharia más tarde junto a sua namorada. Heloísa então, sendo tão ansiosa como sempre era, agarrou a mão de Clara e a arrastou até o elevador. O porteiro já as conhecia, então não tiveram problemas para subir. 

Quando as portas se abriram, dando espaço ao décimo segundo andar, ambas correram até a porta do apartamento, batendo com insistência na madeira. Uma cansada Samantha as recebeu.

"Ainda bem que você chegou, já não sabia mais... Clara?" - se surpreendeu ao vê-la, com olhos inchados e bochecha avermelhada ao lado de sua namorada. - "Clara." - não duvidou em estender seus braços, como se soubesse exatamente tudo o que tinha acontecido.

Por terceira vez aquela noite, a loira se afundou nos braços de um ser querido. O aconchego de Samantha era menos intenso do que o de sua irmã, isso ela sabia. Lica dava o tipo de abraço que ela precisava na hora do pânico. Samantha dava um que a levava de volta pra terra quando a poeira baixava. 

"Lica, vem, entra... Eu vou levar a Clara lá pro meu quarto, ela não merece ver esse show do MB." 

"Tá bom, vai lá."

"Nem um selinho vai rolar? Ae liquinha, tem cuidado... A Clara tá roubando a tua mina!" - o Loiro gritou desde o sofá, visivelmente alterado. 

"Cala a boca, MB." - o confrontou a garota em questão, se separando do abraço de Samantha. 

"Liga não, Clara... Vai lá pra dentro com a Sam. Desse ai eu que cuido."

"Valeu Lica..." - sua irmã sorriu, cansada, deixando-se levar até os interiores do apartamento. 

"Heloísa..." - escutou uma de suas sogras, Dona Clara, a chamar desde a porta da cozinha. - "Que bom te ver!... Mesmo que seja numa situação dessas..."

"Vai lá madame, coloca a culpa no MB aqui!" - o próprio a confrontou, muito fora de si como para lembrar que estava falando com a proprietária da casa que havia invadido. 

"Só não respondo a esse garoto porque eu sei que ele tá passando por um momento difícil." - sua sogra comentou, caminhado até o seu lado para abraça-la. 

"Pode ficar calma, tá... Ele agora é problema meu." 

"Como assim?" 

"Minha mãe deixou ele ficar lá em casa. Depois eu explico pra senhora o porquê. E não, eu não vou fazer absolutamente nada que machuque a sua filha. Nunca a enganaria."

"Eu nunca pensei que você o faria... Mais agora confesso que estou preocupada." - brincou, tranqüilizando sua nora. 

"Não quero ser rude, mais será que a senhora poderia nos dar um tempo a sós? Eu quero ter uma conversinha com esse pateta aqui."

"Eu te escutei viu."

"Que bom, porque essa era justamente a minha intenção." - ela rebateu, voltando sua atenção para Dona Clara. 

"Pode sim, aliás deve. A Marina está lá dentro deitada, está com dor de cabeça. Vou fazer companhia a ela. Eu deixei um café feito encima da mesa para ele. Vê se consegue fazer ele beber, por favor?"

"Pode deixar, quando a senhora voltar a xícara já vai estar vazia."

"Então tá, estou indo. Daqui a pouco volto."

Lica obsevou sua sogra ir embora pelo corredor e logo girou sua cabeça em direção ao causante de todo aquele drama, o pobre coitado do seu ex-namorado. Não negaria, sua aparência era assustadora. As olheras que se estendiam por debaixo de seus olhos eram profundas, negras. Seu cabelo estava desordenado, sujo, e cheio de suor. Sua camisa, manchada com vinho e vodka black, tinha a cominação de odores tipica de uma boate de baixo talão. 

"Tá me olhando assim porquê, Liquinha? Não era você que andava bebendo, fumando, e cheirando todas ano passado? Tá me julgando porquê?"

"Eu não tô te julgando MB. Eu tô é preocupada com você."

"Relaxa... O tio MB aqui tá ótimo."

"Tão ótimo que terminou com a K1, encheu a cara, e invadiu a casa dos outros."

"Eu não invadi, ela abriu a porta pra mim."

"A Samantha não é uma otária, MB. É claro que ela abriria a porta pra você. Olha como cê tá." 

"Já disse que tô ótimo. Para de me encher!" - foi então que ele se sentou sobre o sofá, quase caindo, e buscou por sua jaqueta de couro. - "Te achei..." - disse para si mesmo com um sorriso, e abriu um dos bolsos para tirar seu cantil de prata, que para ele era um dos únicos presentes uteis dado pelo seu pai. - "Senti falta de você, meu amor..."

Antes de que podesse levar sua boca ao tão necessitado álcool, Lica alçou sua mão, retirando o objeto de seu alcance. 

"Você não bebe mais nada hoje, Michel."

"Ah, Lica! Eu achava que você era das minhas! Sério, deixa eu aqui em paz!"

"Eu não vou deixar você se afundar." - ela insistiu, cheirando o recipiente.

Era vodka. Uma vontade poderosa de beber a atingiu. Meses e meses sobria e ainda assim o desejo não disminuía. Molhou seus lábios, nervosa. Respirou fundo, e confiando na sua força de vontade, fechou o cantil.

"Você quer né?" - o loiro perguntou, rindo. - "Pode ir, bebe. Eu tenho mais em casa."

"MB... cê fugiu de casa."

"Eu tava lá sozinho, é claro que eu fugi. Meu pai também fez isso. Mas eu posso voltar quando eu quiser."

Olhando o estado do amigo, a garota teve uma ideia.

"Então me da a chave, eu vou lá e pego mais, porque a sua reserva ai tá acabando."

"E tá mesmo." - Ele olhou pro recipiente, desesperado. - "Tudo bem, vai lá." - tirou a chave de casa da sua jaqueta e a jogou para Lica. 

"Obrigada." - Ela sorriu, esperando que o garoto se desse conta da burrada que fez.

"Cê não vai ir, né?"

"Não." - respondeu com calma. - "E nem você."

MB bufou, se jogou de novo no sofá, e perguntou, irritado:

"Você tá querendo o quê afinal? Me sacanear garota? Tá aqui pra quê?

"Você é meu amigo."

"E daí, Heloísa?"

"Eu não quero que você caía no mesmo buraco que eu caí."

Essa havia sido a principal razão de sua partida à casa de Samantha. Quando escutou da boca da sua namorada tudo o que havia acontecido com o loiro, ela se lembrou de tudo o que ela mesmo havia vivido nos anos anteriores. A separação de seus pais, os enganos, as mentiras, os joguinhos de poder. Tudo aquilo a arrastou ao caminho das drogas. Havia sido uma decisão própria, burra, e evitável? Sim, mas ela a tomou de todas formas. 

Ela não queria que MB passasse pelo mesmo inferno que ela passou. As noites sem dormir. Os ataques de ansiedade. A depressão. O desequilíbrio temperamental. A decepção da familia e dos amigos. Ele não precisava daquilo na vida dele.

"MB, me escuta. Você acha que eu fui pra Paris só pra ter a viagem da minha vida? Pra comer croissants e crepes a luz do luar francês? Eu passei duas semanas numa clínica. Só quando eu sai de lá que eu fui estudar na Académie de la Grande Chaumière, e mesmo assim, eu tive acompanhamento de psicólogos e psiquiatras a minha viagem toda. Eu fui até pra terapia, se você quer saber."

"Espera ai... Você, Heloísa Gutiérrez, foi parar na rehab?"

"Fui." - confessou, séria. - "Não foi legal MB. Foi um dos períodos más difíceis da minha vida."

"Não deve ter sido tão ruim assim..."

"Eu tentei me matar duas vezes e quase consegui na segunda, tá bom pra você?"

O loiro ficou sem reação. Seus olhos piscavam, sua boca se abria, más nenhum som era emitido por seus labios.

"Eu não tinha ideia..."

"Ninguém sabe disso. Só a minha mãe, e agora, você." - ela confessou. - "Eu não quero que você caia tão baixo MB. Eu não vou deixar que você caia tão baixo."

"Eu não vou Lica..."

"Todo mundo diz isso até ir parar no hospital, sabendo que fez merda." 

O garoto desviou a vista com vergonha. Lica se ajoelhou ao lado do sofá, estando perto de sua cabeça. Brincou um pouco com seu cabelo, tentando acalma-lo.  

"Mas e a investigação, Lica? Eu não quero ir pro xilindró."

"Você vai ter que contratar um advogado, de preferência antes de que congelem o dinheiro do seu pai, e vai ter que ir até a policia. Vai ter que contar tudo o que você sabe."

"Eu não quero entregar o meu pai."

"O teu pai se entregou sozinho ao fugir do país no meio de uma investigação. Ele vai ser preso de todas formas, porque convenhamos MB, ele roubou."

"Pra cacete." - o loiro completou, soltando uma risada frágil. 

"Pois é." 

"Tá, e agora? O que é que eu faço?"

"Minha mãe deixou você dormir lá em casa por enquanto. A gente vê o seu advogado, faz todas as perguntas a ele, e conta a verdade completa."

"Tava falando de mim e do vodka, mas valeu."

Lica riu, notando que de a poco, estava conseguindo tirar o verdadero MB da sua cova. 

"Primeiro de tudo, detox. Nada de vinho, cerveja, vodka, whisky, ou o que for por uma semana. Você começa a ir a terapia, vai a um grupo de apoio, tudo mas. Quando você superar a primeira semana. Você parte pra outra fazendo o mesmo. Se você achar isso muito difícil, se concentra no dia. Fala bem alto na frente do espelho 'hoje eu não vou beber, fumar, ou cheirar coisa alguma' e cumpra a sua promessa. Depois repete de novo no día seguinte e assim vai."

"Queria ter essa sua cabeça, sabia? Você é sempre tão determinada..."

"Não foi fácil pra mim não, MB. Pra ninguém é. Quando se tem um vício, as vezes até a determinação não basta."

"Sei..." - ele suspirou. - "Obrigada por vir até aquí, Lica... Não consigo viver sem você." - jogou uma de suas piadinhas básicas para suavizar suas palavras.

"Não força." -  a garota riu, se levantando. 

"E ai, ele tá melhor?" - brotou do corredor Samantha, seus olhos avermelhados e inchados. 

"Sam, cê tá bem?"

"Tô." - mentiu. - "E vocês?"

"Tô mais calmo sim. Mais ainda tô bêbado. Eu acho que eu preciso de um café." - ele disse, se levantando com dificuldade do sofá. 

"Dona clara deixou um pra você na mesa da cozinha." - Lica o lembrou, ajudando o garoto a chegar até a porta do recinto. -"Já deve estar meio morno, mais pra quem bebeu vodka puro a tarde toda, qualquer coisa vai né?" 

"Engraçadinha você."

"Senta lá, Michel." - ela respondeu com um sorriso brincalhão, deixando-o só. 

Enquanto ela o auxiliava Samantha havia se sentado no sofá. Ao levantarse, Lica havia deixado o cantil de MB e suas chaves ná mesinha de chá paralela ao móvel. A baixista dos Lagostins olhava tais objetos com uma lúgubre tristeza, enquanto girava um de seus gigantes anéis na ponta de seus dedos. Ela estava pensativa. Muito pensativa.

"Quê foi, Sammy?" - a artista perguntou, sentando-se ao seu lado.

"Desculpa..." - começou sua namorada, parando de girar o anel. - "Eu sem querer querendo escutei parte da sua conversa com o MB."

"Quê parte?"

"Paris." - disse, sentindo-se culpada.

"Ah." 

Um silêncio se instalou a sua volta. Era estranho para ela ficar calada muito tempo perto de Samantha. A garota sempre tinha uma opinião, uma proposta, um argumento. Essa era uma das tantas razões de porque a amava tanto. As duas eram seres comunicativos, que gostavam de se expressar. Mas naquele momento, nenhuma palavra em todo o seu léxico pôde ser usada em contra daquela fria e inesperada pausa.

"Lica..." - começou outra vez sua namorada, entrelaçando seus dedos com os dela. - "Outra vez, me desculpa. Agora por outra coisa."

"O quê?"

"É que.. Argh." - ela exalou.- "Eu poderia ter te ajudado naquela época, sei lá, te parado..."

"A gente nem se conhecia direito, Sam."

"Mesmo assim. Alguém, mesmo que não fosse eu, deveria ter feito alguma coisa para te ajudar."

"Já foi, tá?... Hoje eu estou muito melhor. Isso é o que importa." - Sentiu a outra mão da garota a sua frente se enterrar no seus cabelos negros, massageando sua cabeça com carinho.

"Me prometa que cê nunca mas vai tentar fazer uma burrada daquelas."

"Pode relaxar, eu não vou não." - se aproximou de sua cara. - "Não posso deixar um anjo que nem você aqui ná terra; quando eu chegar lá encima Deus me mata."

"Eu tô falando serio, Lica."

"Eu sei." - concordou, admirando seus belos e achocolatados olhos. - "Eu também."

Sem pensar duas veces se inclinou, acabando com a distância entre as duas. Seus lábios se conectaram sem demora alguma. Suas línguas brincaram uma com a outra, guiadas pela inocência daquela paixão, sútil e delicada, doce e prazerosa. As mãos, interligadas, não se perderam, mais as outras duas, livres de fazerem o que quisessem, se entregaram as carícias leves e aos toques sensíveis.  

"Eu te amo, Lica. Muito. Cê não tem ideia."

"Ah, tenho sim. Porquê eu também te amo demais."

 

 

 


Notas Finais


Fim? Vocês que decidem 😂


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...