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História Ônix - Capítulo 37


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Capítulo 37 - Capitulo 37


Queria bater em alguma coisa, mas precisava me controlar. Se havia aprendido algo com a doença do meu pai era que o destino não podia ser alterado. O que eu podia fazer era mudar o modo de encará-lo. Desde que me mudara para aquela cidade, desde que conhecera a Lauren e a Taylor, eu havia mudado.

Inspirei fundo, tentando domar a raiva, o medo e a frustração. Era preciso manter uma perspectiva.

- O que podemos fazer?

- Não precisamos da ajuda dela - disse Lauren.

- Precisam, sim - murmurou Serena. - Ouvi falar do que aconteceu com o Simon e as janelas.

Olhei de relance para minha vizinha, mas ela fez que não.

- O que você acha que vai acontecer na próxima vez? Simon fugiu, só Deus sabe pra onde. Você não vai ter a mesma sorte de novo.

O desaparecimento do Simon não era uma sorte. Não queria encarar isso dessa maneira. Recostei a cabeça no banco e fechei os olhos. Meus membros pareciam pedras de gelo. Não era mais apenas uma questão de temer expor os Luxen, o medo agora era de me expor também. E a minha mãe.

- Como você sabe tanto sobre eles? - perguntei num fio de voz.

- Sabe a garota sobre a qual eu falei? Ela me contou tudo. Tentei ajudá-la a... fugir, mas ela não quis. O DOD estava com algo ou alguém que significava muito pra ela.

Deus do céu. O DOD era como a máfia. Eles lançariam mão de quaisquer meios necessários. Estremeci.

- Quem era ela?

- Liz alguma coisa - respondeu Serena. - Não sei o sobrenome.

O carro pareceu ficar ainda mais apertado. Encurralada. Eu me sentia encurralada. Sentada ao meu lado, Lauren fervia.

- Você sabe - disse ela para a surfista - que não tem nada que me impeça de te matar aqui e agora.

- Tem, sim. - a voz da Serena manteve-se calma. - Tem a Camila e o fato de que eu duvido de que você seja uma assassina sangue-frio.

Minha vizinha enrijeceu.

- Não confio em você.

- Não precisa. Quem precisa confiar em mim é a Camila.

Esse era o problema. Não tinha certeza se confiava nela, mas Serena era como eu. Se ela pudesse me ajudar a não expor Lauren nem meus amigos, estava disposta a fazer o que fosse necessário. Simples assim. O resto eu teria que pagar para ver.

 Olhei para a Lauren. Ela estava com os olhos fixos à frente, uma das mãos apertando o painel como se o plástico pudesse ajudá-la de alguma forma. Será que ela se sentia tão impotente quanto eu? Não fazia diferença. Eu não podia... não arriscaria colocá-la em perigo.

- Quando começamos? - perguntei.

- Amanhã, se você puder - respondeu Serena.

- Minha mãe sai pra trabalhar às cinco. - engoli em seco. 

Serena assentiu e Lauren declarou:

- Estarei lá.

- Não é necessário - revidou a surfista.

- Não dou a mínima. Você não vai fazer nada com a Camila sem a minha presença. - virou-se para a garota de nova. - Vamos deixar uma coisa bem clara: não confio em você.

- Problema seu. - Serena saltou do carro e uma lufada de ar frio invadiu o veículo. Ao me ouvir chamá-la, parou com a mão na porta.

- Que foi?

- Como você conseguiu escapar do ataque dos Arum? - perguntei.

Ela ergueu a cabeça para o céu e apertou os olhos.

- Não estou pronta pra falar sobre isso, Camila. - fechou a porta e partiu correndo para seu próprio carro.

Fiquei ali parada por vários minutos, os olhos fixos na janela, mas sem ver coisa alguma. Lauren murmurou qualquer coisa por entre os dentes e abriu a porta, desaparecendo na escuridão que cercava o restaurante.Ela havia me deixado. 

Sequer reparei no trajeto até em casa. Assim que parei na entrada da garagem, desliguei o carro, me recostei no banco e fechei os olhos. Ao sentir a noite envolver o carro silencioso, saltei, inspirei fundo e escutei os degraus da minha varanda rangerem. 

Lauren chegara antes de mim. Ela veio ao meu encontro, o boné enterrado na cabeça ocultando-lhe os olhos. 

Balancei a cabeça, frustrada.

- Lauren...

- Não confio nela. Não confio em nada do que diz respeito a ela, Cami. - tirou o boné, correu os dedos pelo cabelo e enfiou-o de novo na cabeça. - Ela surge do nada e sabe tudo. Todos os meus instintos me dizem que Serena não é confiável. Não sabemos quem ela é, se não está trabalhando para alguma organização. Não sabemos nada sobre ela.

- Eu sei. - um súbito cansaço tomou conta de mim. Tudo o que eu queria era me deitar. - Mas pelo menos desse jeito podemos ficar de olho nela, certo?

Lauren soltou uma risada curta e grave.

- Há outras maneiras de lidarmos com ela.

- Como assim? - minha voz soou demasiadamente alta, mas foi logo carregada pelo vento. - Lauren, você não está pensando...

- Não sei no que estou pensando. - recuou um passo. - Merda, nesse momento minha cabeça está uma confusão. - fez uma pausa. - De qualquer forma, por que você estava com ela?

Meu coração deu um salto.

- Fomos comer alguma coisa. Eu queria...

- Queria o quê?

De alguma forma, senti que havia sido pega em outra armadilha ainda maior. Sem saber ao certo o que responder, não disse nada. Grande erro. 

A ficha caiu e ela ergueu o queixo. Por um momento, seus olhos verdes escureceram com uma mágoa profunda.

- Você foi se encontrar com a Sierra depois... 

Depois de ter passado a noite com ela... aconchegada nos braços dela. Fiz que não, precisando fazê-la entender o motivo de ter ido me encontrar com a Serena.

- Lauren...

- Sabe de uma coisa? Isso não me surpreende. - seu sorriso pareceu ao mesmo tempo amargo e condescendente. - Nós nos beijamos. Duas vezes. Você passou a noite me usando como seu travesseiro particular... e sei que gostou disso. Tenho certeza de que assim que eu fui embora você começou a surtar. E foi correndo para os braços da Susan porque ela não te faz sentir nada. O fato de sentir algo por mim te deixa apavorada.

Fechei a boca.

- Não fui correndo para os braços da Serena. Ela me enviou uma mensagem me convidando para comer alguma coisa. Não foi um encontro, Lauren. Só fui até lá para dizer a ela...

- Então foi o quê, gatinha? - ela deu um passo à frente, os olhos me perscrutando. - É óbvio que ela gosta de você. Vocês já se beijaram antes. A garota está disposta a arriscar a própria segurança para te treinar.

- Não é o que você está pensando. Se me deixar explicar...

- Você não sabe o que eu estou pensando - rebateu ela.

Uma sensação horrível se alojou em meu estômago.

- Lauren...

- Você é inacreditável, sabia?

Ela não estava dizendo isso no bom sentido.

- Lembra da noite da festa, quando você achou que eu tinha ficado com a Ash? Você ficou tão puta que saiu e acabou explodindo uma série de janelas, expondo a si mesma.

Encolhi-me. Pura verdade.

- E agora você está fazendo... o quê? Saindo com ela logo depois de me beijar?

Eu gosto de você. Meus lábios, porém, recusaram-se a pronunciar as palavras. Não sabia por que, mas não conseguia dizê-las. Não com ela me olhando cheio de raiva e desconfiança e, pior ainda, decepção.

- Não estou saindo com ela, Lauren! Somas amigas. Só isso.

Cético, seus lábios se apertaram numa linha fina.

- Não sou idiota, Camila.

- Eu não disse que você é! - de repente, a irritação tornou-se maior do que a dor em meu peito. - Você não está me dando uma chance de explicar. Como sempre, está agindo como uma maldita sabe-tudo, me interrompendo o tempo todo!

- E, como sempre, você é um problema maior do que eu jamais poderia imaginar.

Encolhi-me como se tivesse levado um tapa e dei um passo para trás.

- Não sou problema seu. - minha voz falhou. - Não mais.

A raiva deu lugar ao arrependimento.

- Camila...

- Não. Em primeiro lugar, nunca fui problema seu. – a raiva se espalhou pelo meu corpo como um incêndio florestal fora de controle. - Agora é que não sou mesmo, pode acreditar.

A janela de emoções que eu podia ver em seus olhos se fechou, deixando-me sozinha a tremer no escuro. De repente, percebi. Compreendi que a havia magoado mais do que imaginava ser possível. Eu a magoara de um jeito muito pior do que ela jamais fizera comigo.

- Maldição. Nada disso... - fez um gesto com a mão como se me envolvesse. - Importa no momento. Esquece.

Ela desapareceu antes que eu tivesse a chance de completar o pensamento. Chocada, corri os olhos em volta, mas Lauren não estava em lugar algum. Senti uma fisgada no peito e meus olhos se encheram de lágrimas ao me virar de volta para minha casa. A súbita realização foi como uma pancada na cabeça. Eu passara tanto tempo preocupada em afastá-la, em dizer a ela que o que quer que houvesse entre nós não era real. E agora, ao perceber a profundidade do que ela sentia por mim e do que eu sentia por ela, Lauren se fora.



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