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História Ônix - Capítulo 44


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Capítulo 44 - Capitulo 44


Embora eu soubesse que não poderia me esconder para sempre, parte de mim desejava não ir à aula no dia seguinte. Para minha surpresa, foi Lauren quem não apareceu. Tampouco a vi perambulando pelos corredores, nem quando fui pegar minhas coisas no armário antes do almoço. Ela simplesmente sumira.

Eu a fizera fugir correndo da maldita escola.

— Oi — cumprimentou Serena, aproximando-se de mim. — Você continua com uma cara péssima.

Eu tinha passado a aula quase toda de biologia com a cara enfiada no livro. Suspirei e fechei o armário.

— Oi, não estou muito bem hoje.

— Com fome? — quando neguei com um sacudir de cabeça, ela segurou minha mochila. — Eu também não. Conheço um lugar onde podemos ir, sem pessoas nem comida.

Parecia uma boa ideia, uma vez que a última coisa que eu conseguiria digerir agora seria o Adam e a Taylor se derretendo um para o outro na mesa do almoço. Acabei descobrindo que o lugar que Serena tinha em mente era o auditório vazio. Perfeito.

Sentamos no fundo e apoiamos os pés no encosto das cadeiras à nossa frente. Serena tirou uma maçã de dentro da própria mochila.

— A Lauren se acalmou ontem depois que eu fui embora?

Gemi internamente.

— Na verdade... não.

— Era o que eu temia. — ela fez uma pausa enquanto dava uma mordida na fruta de um vermelho brilhante. — Você definitivamente não estava em perigo. Se não tivesse conseguido deter a faca, uma de nós teria.

— Eu sei. — escorreguei ligeiramente na cadeira e apoiei a cabeça no encosto. — Ela só não quer que eu me machuque. — no entanto, dizer isso machucava. Porque embora eu soubesse que havia uma estrada inteira de boas intenções por trás de tudo o que ela dissera na noite anterior, Lauren precisava me ver como uma igual. Não como uma pessoa fraca que precisava de proteção.

— Isso é admirável. — Serena deu uma risadinha. — Você sabe que eu não gosto da idiota, mas sei que ela se importa com você. Sinto muito. Não quis causar problemas entre vocês.

— Não é culpa sua. — dei-lhe um tapinha no joelho, sem me surpreender ao sentir a ligeira descarga elétrica. — Vai ficar tudo bem.

Ela assentiu.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Claro.

Serena deu outra mordida na maçã antes de continuar:

— Foi Lauren quem te curou? Só estou perguntando isso porque saber quem te transformou pode fazer com que eu entenda melhor o seu poder.

Fui invadida por uma súbita ansiedade.

— Por que você acha que foi ela?

Serena me lançou um olhar penetrante.

— Isso explicaria a proximidade entre vocês. Meu amigo e eu ficamos muito próximos depois que ele me curou. Eu quase sempre sabia quando ele estava por perto. Éramos como duas metades de um todo. A gente tinha uma forte... conexão.

A cura era algo tão contra as leis que nem mesmo um exército de Arum me faria admitir que tinha sido a Lauren.

— Bom saber, mas não é este o caso. — não consegui, porém, disfarçar a curiosidade. — Você disse que vocês dois eram próximos. Você se sentia... atraída por ele?

— O quê? — Serena riu. — Não. Éramos como irmãos. A conexão... ou seja lá o nome que se dá ao que eles fazem com a gente... não te faz sentir nada. Ela só te torna mais próximo de quem te curou. É como um laço familiar, só que mais forte, mas sem nenhum tipo de conotação emocional ou sexual.

Baixei os cílios antes que ela pudesse ver as lágrimas que me queimavam os olhos. Ótimo, eu era uma verdadeira imbecil. Passara tanto tempo jogando na cara da Lauren a história da conexão alienígena quando, na verdade, não era isso o que a movia.

— Bom saber. — minha voz soou estranha aos meus próprios ouvidos. — De qualquer forma... por que é tão importante saber quem me curou?

Ela me fitou como se duvidasse do meu QI enquanto terminava de comer a maçã.

— Porque o potencial do seu poder depende da força do Luxen que te curou. Pelo menos foi isso que a Liz me disse. O poder e as limitações dela eram equivalentes aos daquele que a havia curado. O mesmo aconteceu comigo.

— Ah. — isso explicava como eu havia destruído um satélite em pleno espaço. O ego da Lauren chegaria à lua se ela descobrisse. Fiz menção de dar uma risadinha, mas só de pensar nela senti outra fisgada no peito.

— Foi por isso que eu pensei que tinha sido a Lauren, mas ela é poderosa demais. Sem ofensa, mas você não fez nada de tão extraordinário assim até o momento, portanto...

— Credo, o que eu devo dizer, obrigada? — ri ao notar a expressão constrangida dela. — De qualquer forma, não foi ninguém que você esperaria, e isso é tudo o que eu estou disposta a contar, ok?

— Ok. — ela ergueu o miolo da maçã diante do rosto e franziu o cenho. — Você não confia em mim, confia?

Tive vontade de dizer que sim, mas me detive. Pelo menos alguém merecia que eu fosse honesta.

— Não leve isso para o lado pessoal, mas, no momento, confiança não é algo que eu vá oferecer com facilidade.

Serena me lançou um olhar de esguelha e sorriu.

— Bem colocado.

Se eu visse mais uma faca nos próximos dez anos, precisaria de outros tantos de terapia. Passar meu tempo livre com uma faca sendo atirada em mim repetidas vezes não era minha ideia de diversão.

Por sorte, fui capaz de detê-la todas as vezes. E, sem a presença da Lauren, Serena conseguiu permanecer incólume.

Ao final da semana, ela passou a jogar objetos não letais na minha cabeça, como almofadas e livros. Após horas e mais horas, aprendi a dominar a arte de não comer tecido. Os livros, porém, jamais batiam em mim nem caíam no chão. Isso seria um sacrilégio.

Parecia totalmente absurdo alguém começar com facas e terminar com almofadas, mas eu compreendia a intenção dela. Meus poderes estavam ligados às minhas emoções medo, por exemplo. Eu precisava ser capaz de acessar e usar esses sentimentos mesmo que não estivesse em pânico. E de controlá-los nos momentos de crise emocional.

Gemi enquanto catava todas as almofadas do chão e a pilha de livros sobre a mesinha de centro, a fim de colocar cada um de volta no seu devido lugar.

— Cansada? — observou Serena, recostado na parede.

— Sim! — bocejei.

— Sabe como os Luxen se cansam quando usam seus poderes? — ela pegou o último livro e o botou de volta no lugar de onde o tirara: o móvel da TV.

— Sei, e lembro de você dizer alguma coisa sobre nós cansarmos mais rápido do que eles.

— Somos que nem os Luxen nesse sentido. Eles consomem energia ao realizarem qualquer tarefa... essa história de enviar-um-pedaço-de-você-mesmo? Somos exatamente iguais, só que eles conseguem aguentar muito mais tempo do que a gente. Não sei por quê. Acho que tem algo a ver com o fato de possuirmos apenas metade do DNA alienígena. Mas precisamos tomar cuidado. Quanto mais usamos nossos poderes, mais cansados ficamos. E rápido.

— Ótimo — murmurei. — Isso significa que a Lauren poderia ter te segurado contra a parede a noite inteira?

— Poderia. — Serena parou ao meu lado. — Consumir açúcar ajuda. Assim como a Pedra da Melodia.

— O quê? — esfreguei a nuca e despenquei no sofá.

— É um tipo de cristal... uma opala muito rara. — ela se sentou ao meu lado, tão perto que sua coxa pressionou a minha. Afastei-me ligeiramente.

— O que ela faz?

Ela apoiou a cabeça numa das almofadas e, virando-se meio de lado, deu de ombros.

— Pelo que entendi, ela ajuda a ampliar nossos poderes. Acho que os estabiliza também, de modo que a gente não se cansa como os Luxen.

Essa história de cristal não fazia o menor sentido. Parecia uma daquelas baboseiras de Nova Era, mas, por outro lado, quem era eu para dizer qualquer coisa?

— Você tem uma?

Serena riu.

— Não. Elas são difíceis de encontrar.

Peguei outra almofada, meti-a debaixo da cabeça e fechei os olhos, aconchegando-me ao braço do sofá.

— Bem, imagino então que somos só eu e o açúcar.

Fez-se uma pausa.

— Você se saiu muito bem hoje. Tá aprendendo rápido.

— A-há! Você não dizia isso na primeira semana de treinamento. — bocejei de novo. — Talvez isso não seja tão difícil. Se eu aprender a controlar meus poderes... tudo vai voltar ao normal.

— As coisas jamais voltarão ao normal, Camila. Assim que você sair da área de proteção do quartzo beta, os Arum irão atrás de você. — o sofá ao meu lado afundou, mas eu estava cansada demais para abrir os olhos. — No entanto, se você realmente aprender a controlar seus poderes, será capaz de se defender.

Era exatamente isso o que eu queria. Poder estar ao lado da Lauren, e não acovardada atrás dela.

— Você me deu uma excelente notícia, sabia?

— Não foi minha intenção.

A almofada do assento afundou mais um pouco e, em seguida, senti os dedos da Serena afastando meu cabelo do rosto. Abri os olhos imediatamente e me empertiguei num pulo, virando-me para encará-la.

— Serena.

Ela tirou a mão e a deixou cair sobre a coxa.

— Desculpa. Não quis assustá-la. Só queria me certificar de que você estava confortável.

Só? Ou teria algo mais? Ó céus, isso era tão estranho.

— As coisas estão muito complicadas no momento.

— É compreensível — comentou a surfista, recostando-se no sofá. — Você gosta dela, não gosta?

Apertei a almofada de encontro ao peito, sem saber ao certo o que dizer.

— Não minta. — ao me ver franzir o cenho, soltou uma risada. — Você sempre fica vermelha quando mente.

— Não sei por que as pessoas vivem me dizendo isso. Minhas bochechas não são um detector de mentiras. — comecei a brincar com um fio solto do tecido, sabendo que precisávamos ter aquela conversa, principalmente agora que estávamos trabalhando juntas. — Sinto muito. É só que o momento...

— Tá tudo bem, Camila. — ela pousou a mão sobre a minha e a apertou de maneira tranquilizadora. — De verdade. Eu gosto de você. Gosto mesmo. É óbvio. Mas sei que você tá enrolada com um monte de coisas, algumas provavelmente desde antes de eu vir pra cá. Portanto, não tem problema. Juro.

Esbocei um sorriso, o primeiro de verdade em dois dias.

— Obrigada por ser tão... compreensiva.

Serena se levantou do sofá e correu uma das mãos pelo cabelo.

— Bom, tenho tempo para ser paciente. Não vou a lugar algum. 



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