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História Ônix - Capítulo 56


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Capítulo 56 - Capitulo 56


Taylor me esperava na varanda, uma visão em branco. Levei alguns segundos para perceber que o suéter branco que ela estava usando se mesclava com o fundo. Nevava profusamente, tanto que mal dava para ver a fileira de árvores a poucos metros de distância.

— Oi — cumprimentei, meio sem graça.

Ela piscou e desviou os olhos imediatamente dos meus.

— Oi — respondeu, com um entusiasmo forçado. — Espero não estar te atrapalhando.

Recostei-me na porta.

— Bem, tinha acabado de começar o trabalho de literatura inglesa. Quero me livrar logo disso.

— Ah. — seus lábios rosa fizeram um muxoxo. — Que pena, mas o trabalho vai ter que esperar. Você vai ao cinema comigo.

Recuei um passo. Com tudo o que estava acontecendo, todas as mentiras, não era fácil ficar perto da Taylor.

— Talvez outra hora. Agora estou realmente ocupada. Que tal no fim de semana que vem? — não esperei resposta. Comecei a fechar a porta.

Taylor lançou mão de sua super velocidade e me impediu. Parecia uma pequena fada furiosa.

— Isso foi muito grosseiro, Camila.

Corei. Não podia negar, mas nem assim o gesto a mandara embora, é óbvio.

— Desculpa. É que estou atolada de trabalho pra fazer.

— Já entendi. — ela abriu a porta um pouco mais. — Mas você vai ao cinema comigo e com o Adam.

— Taylor...

— Não vou te deixar arrumar desculpa. — ela me encarou, e pude ver a mágoa refletida em seus olhos. Engoli em seco e desviei os meus. — Sei que você e a Lauren estão... bem, seja lá o que for que esteja acontecendo entre vocês. Assim como sei que você tem esse negócio com a Serena, e que eu tenho passado muito tempo com o Adam, mas isso não significa que não podemos ser amigas.

Ela se balançava nos calcanhares, as mãos entrelaçadas debaixo do queixo.

— Vai calçar os sapatos, Camila e vamos. Por favor. Estou com saudade de você. Por favor.

Como eu podia dizer não? Virei o corpo ligeiramente de lado e vi minha mãe parada na porta da cozinha. Sua expressão também era de súplica. Fiquei presa entre as duas, ambas ignorando o fato de que eu estava tentando me manter longe da Taylor pelo próprio bem dela.

— Por favor — repetiu Taylor. 

Lembrei da Lauren me dizendo que eu estava sendo uma péssima amiga. Eu não queria isso, nem a Taylor merecia. Portanto, concordei com um menear de cabeça.

— Vou pegar um pulôver e calçar os sapatos.

Taylor deu um pulo e me envolveu num rápido abraço de urso.

— Eu te espero aqui.

Para o caso de eu tentar escapar sorrateiramente, pensei. Com um olhar incriminatório para minha mãe, peguei meu surrado pulôver de capuz nas costas da poltrona e calcei um par de botas de pele de carneiro falsificada que vinham até o joelho. Após meter algum dinheiro no bolso da calça jeans, saí ao encontro da fria tarde de dezembro.

Uma camada de neve cobria o chão, deixando-o escorregadio. Taylor passou deslizando por mim e correu para se lançar nos braços do Adam. Rindo, deu um beijo no topo da cabeça dele e, em seguida, se desvencilhou do abraço.

Parei um pouco afastada, as mãos no bolso dianteiro do pulôver.

— Oi, Adam.

Ele pareceu surpreso em me ver.

— Oi. Você vai com a gente mesmo?

Fiz que sim.

— Legal. — olhou de relance para a Taylor. — E quanto a...?

Ela contornou a frente do SUV do Adam, fuzilando o namorado com os olhos.

Acomodei-me no banco de trás.

— Você convidou mais alguém?

Taylor prendeu o cinto e se virou para mim.

— Ahn, convidei, mas tá tudo bem. Você vai ver.

Assim que o Adam terminou de manobrar e saiu para a rua, senti o familiar arrepio quente na nuca. Incapaz de me conter, virei no banco, louca para vê-la. Lauren estava parada na varanda, só de calça de ginastica e top e com uma toalha pendurada no ombro, mesmo que estivesse frio demais ali fora. Impossível, mas eu podia jurar que nossos olhares se cruzaram. Continuei olhando até a casa sumir de vista, certa de que ela também esperaria até não conseguir mais ver o carro.

Fiquei mais do que um pouco irritada ao descobrir quem a Taylor tinha convidado. Ash Thompson nos esperava na porta do cinema. Ela me lançou seu tradicional olhar de superioridade e entrou na frente, conseguindo, de alguma forma, rebolar os quadris apertados num jeans skinny enquanto se equilibrava num salto dez sobre a calçada coberta de gelo.

Eu teria quebrado o pescoço.

Para minha sorte, acabei sentando entre ela e a Taylor. Afundei na cadeira, dando o melhor de mim para ignorar a Ash enquanto esperávamos as luzes se apagarem e o filme começar.

— Quem foi que escolheu um filme de zumbis? — demandou ela, segurando um balde de pipoca maior do que sua cabeça. — Foi a Camila? Ela se parece um pouco com eles.

— Ha-ha — murmurei, olhando para a pipoca. Aposto como ela não tinha muita coisa entre as orelhas para alimentar um zumbi.

Do meu outro lado, Taylor e Adam tinham feito a limpa no balcão de doces. Minha amiga mergulhou uma barra de chocolate num potinho de molho de queijo, me fazendo tapar a boca com a mão para não vomitar.

— Isso é nojento.

— Não é nada — retrucou ela, dando uma mordida no chocolate. — É o melhor de dois mundos. Chocolate e queijo, duas das coisas mais deliciosas do planeta.

— Eu sei — disse Ash, franzindo o nariz. — Mas vou ter que concordar com a morta-viva aqui. É nojento.

Franzi o cenho.

— Eu estou com uma cara tão ruim assim?

Ash disse "sim" ao mesmo tempo que Taylor dizia "não". Cruzei os braços e apoiei os pés no assento vazio à minha frente.

— Deixa pra lá — murmurei.

— Então — interveio Adam, pronunciando a palavra de maneira arrastada —As coisas entre você e a Serena estão indo bem?

Afundei ainda mais no assento, engolindo uma série de palavrões.

— Estão. Tudo ótimo.

Ash bufou.

— Bem, você tem passado muito tempo com ela. — Taylor me fitou enquanto mergulhava outra barra de chocolate no molho de queijo. — Deve estar tudo ótimo mesmo.

— Olhe só, preciso ser honesta. — Ash jogou um grão de pipoca amanteigada na boca. — Você tinha a Lauren... a Lauren. E eu sei o quanto ela é deliciosa. Confie em mim.

Fui tomada por uma súbita crise de ciúmes, tão forte que desejei enfiar o balde de pipocas goela abaixo da Ash.

— Tenho certeza de que sim.

Ela deu uma risadinha.

— De qualquer forma, não sei por que você prefere a Serena a ela. A garota até que é bonitinha, mas não pode ser tão gostosa...

— Eca! — Taylor franziu o rosto numa expressão de asco. — Será que podemos parar de falar sobre as características deliciosas da minha irmã ou qualquer outro assunto que vá me forçar a fazer anos de terapia? Obrigada.

Ash riu e sacudiu o balde de pipoca.

— É só uma opinião...

— Não dou a mínima para a sua opinião. — peguei um punhado da pipoca dela só para vê-la estreitar os olhos. — Não quero falar sobre a Lauren. E, a propósito, Serena e eu não estamos namorando.

— Amizade colorida? — perguntou Adam.

Grunhi. Em que momento a saída se tornara uma discussão sobre a minha vida sexual inexistente?

— Não tem amizade colorida nenhuma.

Depois disso, eles pararam de me interrogar sobre a Lauren e a Serena. Na metade do filme, os três alienígenas se levantaram e voltaram com mais comida. Experimentei o chocolate com molho de queijo, que, como já esperava, era nojento. Mesmo obrigada a aturar a Ash, eu estava me divertindo. Enquanto assistia zumbi após zumbi comer as mais variadas partes dos humanos, esqueci de todos os meus problemas. As coisas pareciam normais. Saí do cinema sorrindo e brincando com a Taylor. O sol já havia se posto, e o estacionamento estava imerso no brilho suave dos postes da rua e das luzinhas de Natal.

Taylor e eu seguimos de braços dados, um pouco atrás da Ash e do Adam.

— Fico feliz que você tenha vindo — comentou ela baixinho. — Foi divertido.

— Foi mesmo. Eu... sinto muito por ter andado meio distante nos últimos tempos.

O vento soprou os fios do cabelo dela diante do rosto.

— Tá tudo... bem com você? Quero dizer, sei que muita coisa aconteceu desde que você se mudou pra cá. Fiquei com medo de que não quisesse mais ser minha amiga por causa do que eu sou e de tudo que isso implica.

— Não. De jeito nenhum. — apressei-me em tranquilizá-la. — Por mim você podia ser uma lhamasomem. Você ainda é minha melhor amiga, Taylor.

— Não tenho me sentido assim há tempos. — ela me ofereceu um sorriso meio amarelo. — A propósito, o que é uma lhamasomem?

Eu ri.

— É uma mistura de lhama com humano, que nem lobisomem.

Taylor franziu o nariz.

— Isso é bizarro.

— É mesmo.

Paramos diante do carro do Adam. Ash brincava com as chaves ao mesmo tempo que inspecionava as unhas. Começara a nevar de novo, cada floco maior do que o anterior. Fechei os olhos por um segundo e, ao reabri-los, a neve havia parado. Simples assim, num piscar de olhos.



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