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História Ônix - Capítulo 57


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Capítulo 57 - Capitulo 57


Eu adorava o Natal quando meu pai era vivo. Éramos o tipo de gente que altera completamente os hábitos na manhã de Natal. Eu descia a escada ao nascer do sol e me sentava sozinha diante da árvore, esperando meus pais acordarem.

Um ritual que só foi quebrado com a morte dele.

Nos últimos três anos, tinha preparado sozinha os bolinhos de canela, impregnando o ar com seu aroma adocicado. Esperava, então, minha mãe chegar em casa do trabalho para podermos abrir os presentes.

Mas esse ano seria diferente.

Quando acordei, senti imediatamente o cheiro de canela no ar. Will estava na sala, vestindo um roupão quadriculado e tomando café com a minha mãe. Ele tinha passado a noite lá. De novo. Ao me ver parada à porta, se levantou e veio me dar um abraço.

Congelei, com os braços pendendo de maneira inerte ao lado do corpo.

— Feliz Natal — disse ele, dando-me um tapinha nas costas.

Murmurei o mesmo de volta, ciente da minha mãe sentada no sofá com um sorriso radiante estampado no rosto. Abrimos os presentes, tal como costumávamos fazer com meu pai. Talvez tenha sido isso o que me fez ficar de mau humor o resto da manhã, me arrastando pela casa, determinada a arruinar o feriado.

Mamãe subiu para tomar um banho após mandar Will e eu prepararmos o jantar. Ele tirou um presunto do forno. Suas tentativas de puxar conversa foram amplamente ignoradas, até que tocou naquele assunto.

— Alguma outra visitinha noturna? — perguntou com um sorrisinho conspiratório e cheio de malícia.

Comecei a amassar as batatas com mais determinação ainda, imaginando se o médico estava tentando ser bacana apenas para que eu não atazanasse a cabeça da mamãe a respeito do relacionamento deles.

— Não.

— Você não me contaria nada mesmo que tivesse rolado, certo? — Ele soltou a luva de cozinha sobre a bancada e me encarou.

Para ser honesta, eu não via a Lauren desde sábado de manhã. Já fazia dois dias que não tinha notícias dela.

— Ela parece ser uma boa garota — continuou Will, pegando uma das facas que a Serena atirara na minha cabeça. — Só um pouco intensa, eu diria. — fez uma pausa, erguendo a faca diante do rosto e arqueando ligeiramente as sobrancelhas. — Bom, o irmão também era.

Quase deixei a espátula cair.

— Tá falando do Christopher?

Ele anuiu.

— Ele era o mais sociável dos dois, mas tão intenso quanto. Agia como se o mundo fosse acabar a qualquer minuto e cada segundo precisasse ser vivido plenamente. Lauren nunca me deu essa impressão. Ela é um pouco mais reservada, não?

Reservada? Fiz menção de negar, mas, pensando bem, Lauren sempre fora um tanto... contida. Como se tentasse resguardar a parte mais importante de si mesma.

Will deu uma risadinha enquanto fatiava o fumegante presunto.

— Eles sempre foram muito unidos. Acho que isso é normal entre trigêmeos. Veja os irmãos Thompson.

Meu pulso acelerou sem nenhum motivo aparente. Voltei a esmagar as batatas.

— Você parece conhecê-los muito bem.

Ele deu de ombros e começou a arrumar as fatias em uma das sofisticadas travessas de porcelana da minha mãe que não via a luz do dia havia anos.

— Essa é uma cidade pequena. Conheço quase todo mundo aqui.

— Nenhum deles jamais mencionou você. — botei a tigela com as batatas sobre a bancada e fui pegar o leite.

— Ficaria surpreso se tivessem. — virou a cabeça ligeiramente para mim, sorrindo. — Acho que eles nem sabem que a Bethany era minha sobrinha.

A caixa de leite escorregou dos meus dedos, bateu na bancada e caiu no chão. O líquido branco e espumoso espalhou pelo piso. Continuei congelada no lugar. Bethany era sobrinha dele?

Will soltou a faca e pegou algumas toalhas de papel.

— Coisinha escorregadia, não?

Forcei-me a sair do transe e me agachei para pegar a caixa.

— Bethany era sua sobrinha?

— Era. Uma história muito triste. Tenho certeza de que já a escutou.

— Já. — soltei o leite de volta sobre a bancada e o ajudei a limpar a sujeira. — Sinto muito sobre... o que aconteceu.

— Eu também. —ele jogou as toalhas molhadas no lixo. — Minha irmã e o marido ficaram arrasados. Eles se mudaram há mais ou menos um mês. Acho que não aguentavam mais morar aqui, serem relembrados o tempo todo do sumiço da filha. Pouco depois, aquele garoto Cutters desapareceu, tal como aconteceu com a Bethany e o Christopher. É muito triste ver tantos jovens desaparecendo.

A Lauren e a Taylor nunca tinham dito nada sobre o Will ser parente da Bethany, mas, por outro lado, elas não falavam muito dela. Incomodada pelo parentesco e a menção ao Simon, terminei de preparar as batatas em silêncio. Ele gostava delas à moda rústica, ou seja, com casca. Que nojo!

— Preciso que você entenda uma coisa, Camila. — Will entrelaçou os dedos. — Não estou tentando tomar o lugar do seu pai.

Fitei-o, surpresa pela súbita mudança de assunto. Ele me fitou de volta, os olhos claros firmemente concentrados nos meus.

— Sei que é difícil perder um pai, mas não estou aqui para substituí-lo.

Antes que eu pudesse responder, ele me deu um tapinha no ombro e saiu da cozinha. O presunto esfriava sobre a bancada. As batatas estavam prontas, assim como a caçarola de macarrão. Eu estivera faminta até então, mas a menção ao meu pai acabara com o meu apetite.

No fundo eu sabia que Will não estava tentando tomar o lugar dele. Nenhum homem jamais conseguiria substituir meu pai, mas mesmo assim senti duas lágrimas grandes rolarem pelo rosto. Eu tinha chorado muito no primeiro Natal sem ele, mas nos outros dois não. Talvez estivesse chorando agora porque era o primeiro feriado que passava com a mamãe e mais alguém que não é o meu pai.

Ao me virar para sair, meu cotovelo bateu na tigela, fazendo-a girar e escorregar pela borda da bancada. Sem pensar, congelei-a para que todo o meu trabalho não acabasse espalhado pelo chão. Em seguida, peguei a tigela em pleno ar e a coloquei de volta sobre a bancada. Ao me virar de novo, captei uma sombra no corredor, bem perto da porta da cozinha. Com a respiração presa na garganta, escutei um som de passos mais pesados do que os da minha mãe atravessarem o corredor e começarem a subir a escada.

Will.

Será que ele tinha me visto congelar a tigela? Se tinha, por que não invadira a cozinha exigindo saber como eu havia feito isso?

Quando acordei no dia seguinte, Will já havia desmontado a árvore. Só isso lhe garantiu alguns sérios pontos negativos. Que direito ele tinha? A árvore não era dele. Além disso, eu queria ter ficado com a bola verde, que agora estava guardada junto com o resto no sótão em que não me arriscava a entrar. Somando a isso minha crescente implicância com o sujeito, não era difícil imaginar que teríamos sérios problemas no futuro.

Será que ele tinha me visto congelar a tigela? Não fazia ideia. Seria coincidência que o tio da menina transformada numa humana híbrida, tal como eu, estivesse namorando a minha mãe? Pouco provável. No entanto, eu não tinha provas. E com quem poderia conversar sobre isso? Bom, havia uma pessoa.

Horas após minha mãe ter saído para trabalhar e momentos antes de eu decidir subir para o quarto, senti o familiar arrepio quente na nuca. Parei no meio do corredor e esperei com a respiração presa na garganta. Escutei uma batida à porta. Lauren estava na varanda e um boné preto enterrado na cabeça escondendo a parte superior do rosto. O visual destacava aqueles lábios sensuais repuxados num sorrisinho.

— Tá ocupada?

Fiz que não.

— Quer dar uma volta?

— Claro. Vou só pegar um casaco. — fui correndo pegar minhas botas e o pulôver de capuz e, em seguida, voltei para junto dela. — O que você quer fazer, espionar o Vaughn?

— Na verdade, não. Descobri uma coisa. — ela me conduziu até seu carro e esperou que ambas nos acomodássemos antes de continuar. — Mas, em primeiro lugar, como foi o Natal? Pensei em dar uma passadinha, mas vi que sua mãe estava em casa.

— Legal. Will passou o dia com a gente. Isso foi estranho. E o seu?

— Bacana. Taylor quase ateou fogo na casa tentando preparar um peru. Fora isso, nada demais. — manobrou para sair da garagem. — Então, a história de sábado te trouxe muitos problemas?

Corei, grata pela escuridão.

— Tive que escutar um sermão sobre ainda ser nova para ter relações. — Lauren riu e eu suspirei. — Agora serei obrigada a seguir regras, mas nada muito sério.

— Desculpa, foi mal. — ela sorriu e me lançou um olhar de esguelha. — Não tive a intenção de pegar no sono.

— Não tem problema. Então, pra onde estamos indo? O que você descobriu?

— No domingo à noite, Vaughn passou em casa por uns dez minutos. Eu o segui até um dos armazéns de um complexo industrial que não é usado há anos, nos arredores de Petersburg. Ele ficou lá por algumas horas e depois foi embora, mas deixou dois oficiais de vigia. — diminuiu a velocidade ao ver um cervo atravessar a estrada. — Eles estão mantendo alguma coisa lá.

Vibrei de entusiasmo.

— Você acha que a Bethany ou o Christopher podem estar lá?

Ela me lançou um olhar de esguelha, os lábios apertados numa linha fina.

— Não sei, mas preciso entrar pra ver e quero que alguém fique de olho enquanto eu estiver fazendo isso.

Concordei com um menear de cabeça, me sentindo útil.

— E se os dois oficiais ainda estiverem de vigia?

— Eles não estavam fazendo nada até o Vaughn aparecer. E ele está em casa agora. Com a Nancy. — os lábios se curvaram num ligeiro sorriso. — Acho que tem alguma coisa rolando entre eles.

Que nem entre o Will e a minha mãe. Nojento. Pensar nisso me fez lembrar de algo que eu precisava perguntar.

— Você sabia que o namorado da minha mãe é tio da Bethany?

— Não. — Lauren ergueu as sobrancelhas, mas não desviou os olhos da estrada. — Nunca fiz questão de tentar conhecê-la melhor. Merda, nunca fiz questão de conhecer nenhuma garota humana.

Senti um estranho bater de asinhas na barriga.

— Você nunca saiu com uma humana?

— Sair, tipo, namorar? Não. — lançou um rápido olhar em minha direção, parecendo decidir o que dizer. — Amizade colorida? Sim.

O bater de asas se transformou numa cobra de fogo serpenteando em minhas entranhas. Amizade colorida o tipo de amizade colorida que todo mundo achava que existia entre mim e a Serena? Quis socar alguma coisa.

— De qualquer forma, não sabia que eles eram parentes.

Forcei-me a botar o ciúme de lado. Agora não era a hora.

— Não acha isso estranho? Quero dizer, ele é tio da Bethany, uma híbrida, que nem eu, e agora tá namorando a minha mãe. Sabemos que ela e o Christopher foram traídos por alguém.

— É meio estranho, mas como ele poderia ter sacado alguma coisa? O cara precisaria conhecer muito bem todo o processo de cura pra saber identificar os sinais.

— Talvez ele seja um espião.

Lauren me fitou com um olhar penetrante, mas não disse nada. A possibilidade era perturbadora. Will podia estar usando a minha mãe para ficar de olho em mim. Ganhando aos poucos sua confiança, dormindo na cama dela... Eu ia matá-lo.

Passados alguns momentos, Lauren pigarreou para limpar a garganta.

— Andei pensando no que o Matthew disse... naquela história da fusão do DNA.

Todos os músculos do meu corpo tencionaram, mas mantive os olhos grudados à frente.

— E...?

— Conversei com ele depois e perguntei sobre a conexão, se ela induziria alguém a sentir qualquer coisa. Ele disse que não. Eu já sabia. Mas achei que você gostaria de ouvir isso.

Fechei os olhos e assenti. Claro, eu também já sabia. Cerrei os punhos. Quase contei como, mas mencionar a Serena apenas arruinaria o momento.

— E quanto ao lance de, se um morrer, o outro morre?

— O que é que tem? — retrucou ela, os olhos novamente na estrada. — Não há nada que a gente possa fazer a respeito a não ser evitar ser morta.

— Só que é mais do que isso — comentei, observando os picos nevados das montanhas pelas quais passávamos. — A gente tá realmente conectada. Você sabe, tipo, pra sempre...

— Eu sei — replicou ela baixinho.

Não havia mais nada que eu pudesse acrescentar. 



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