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História Ônix - Capítulo 69


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Capítulo 69 - Capitulo 69


Quando entrei em casa, todos já tinham ido embora, com exceção do Matthew, que ficara para... ajudar a limpar a bagunça. Alguém removera o corpo do Vaughn, assim como o carro dele e o carro da Serena. Havia pedaços de molduras quebradas por todos os lados. A mesinha de centro estava completamente arranhada. Eu não fazia ideia de como ia explicar a janela quebrada no corredor do segundo andar.

No entanto, o lugar onde Adam caíra era o pior.

Um líquido brilhante havia empoçado em dois pontos. Com o maxilar trincado, Matthew tentava limpá-los, mas suas mãos tremiam demais. Peguei algumas toalhas no armário e me ajoelhei ao lado dele.

— Deixa comigo — murmurei.

Ele se sentou, jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. Soltou um suspiro entrecortado.

— Isso não podia ter acontecido.

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas continuei limpando o que restara do Adam.

— Eu sei.

— Eles são como meus filhos. Agora perdi mais um, e por que motivo? Não faz sentido. — seus ombros tremeram. — A morte nunca faz sentido.

— Sinto muito. — sequei as bochechas molhadas com os ombros. — Foi culpa minha. Ele estava tentando me proteger.

Matthew não disse nada por vários minutos. Continuei limpando o chão, e já encharcara duas toalhas quando ele pousou a mão sobre a minha.

— A culpa não é toda sua, Camila. Você foi arrastada para esse mundo, um mundo de traição e ganância. E não estava preparada para isso. Nenhum deles está.

Ergui a cabeça e pisquei para conter as lágrimas.

— Eu confiei na Serena quando devia ter dado ouvidos a Lauren. Deixei que isso acontecesse.

Matthew se virou para mim e envolveu meu rosto entre as mãos.

— Você não pode assumir toda a responsabilidade pelo que aconteceu. Você não fez as escolhas pela Serena. Não a forçou a se meter nisso.

Engasguei com um soluço angustiado, invadida por uma tristeza profunda. As palavras dele não aliviavam a culpa, e ele sabia. Foi então que algo muito estranho aconteceu. Matthew me puxou para seus braços, e eu desmoronei. Os soluços sacudiam meu corpo. Pressionei a cabeça contra o ombro dele e senti-o tremer, talvez porque ele também estivesse chorando. O tempo passou, e o ano virou. Acolhi a chegada do Ano-Novo com lágrimas escorrendo pelo rosto e um coração partido em mil pedaços. Quando as lágrimas enfim secaram, meus olhos estavam praticamente fechados de tão inchados.

O professor se afastou ligeiramente e tirou o cabelo do meu rosto.

— Isso não é o fim de nada para você... nem para a Lauren. É só o começo, e agora vocês sabem o que terão que encarar. Não terminem como o Christopher e a Bethany. Vocês são mais fortes do que isso.

Passei o resto da noite tentando esconder da minha mãe o que havia acontecido. Em algum momento eu teria que contar a ela. Sem dúvida os satélites haviam registrado tudo o que ocorrera na véspera. E havia ainda o problema pendente de algo que Vaughn tinha dito e que não fizera muito sentido, e que me dava a sensação de que o pior ainda estava por vir. Imaginei que acabaria descobrindo nos próximos dias ou semanas. Teria que encarar também as perguntas acerca do Adam.

No entanto, mamãe não precisava saber nesse exato momento.

Convenci-a de que uma rajada de vento havia lançado um galho contra a janela do segundo andar. Uma desculpa plausível, visto que a Lauren tinha derrubado várias árvores lá fora. Os quadros foram mais difíceis de explicar.

Feito isso, dormi o primeiro dia do ano inteiro, só levantando rapidamente de manhã para comer algumas Pop-Tart e, então, voltar a dormir, a fim de adiar a profunda escuridão que me aguardava. Contudo, mesmo dormindo, a culpa me corroía por dentro. Sonhei com a Serena e o Adam, e até mesmo o Vaughn. Eles me cercavam enquanto eu nadava no lago, mergulhando por baixo de mim e me puxando pelos pés como se tentassem me afogar.

Foi, portanto, estranho que, ao acordar naquela noite, tenha decidido tomar um banho, vestir algumas roupas e ir até o lugar que assombrara meus sonhos. Minha mãe já saíra para o trabalho, e eu tinha uma vaga lembrança de ter escutado Will na casa mais cedo.

Continuava nevando, porém com a lua que despontara no céu e que agora se refletia na superfície lisa, tinha sido fácil encontrar o caminho até o lago. Parei ao lado da água impecavelmente congelada, encolhida em meu pulôver e no cachecol que minha mãe me dera de Natal. Tinha até conseguido encontrar um par de luvas combinando.

As coisas ali pareciam mais claras. Não menos intensas, porém digeríveis. Adam estava morto e, em algum momento, o DOD apareceria procurando pelo Vaughn. E, quando eles fizessem isso, viriam atrás de mim... e da Lauren.

E eu havia matado. Não com minhas próprias mãos, mas tinha conduzido todos em direção a isso. Pessoas tinham morrido algumas inocentes e outras nem tanto. Mas Lauren estava certa uma vida era uma vida. Havia sangue em minhas mãos, quer fosse do inimigo ou não, um sangue que eu não tinha como lavar, que penetrava em minha pele, deixando uma mancha escura.

Sempre que eu fechava os olhos, via o corpo do Adam. O aperto que sentia em meu peito provavelmente jamais cederia.

Não tinha certeza se iria à aula no dia seguinte. Após tudo o que acontecera, tinha a impressão de que não havia o menor sentido nisso. Eu ainda não fazia ideia de quem havia traído o Christopher e a Bethany, e sabia que havia outros espiões pela área me vigiando, vigiando todos nós. Era como se um relógio invisível tivesse começado a ticar, contando os minutos para o dia do meu juízo final particular, e eu não podia culpar ninguém além de mim mesma.

Cerca de um minuto depois, senti o familiar arrepio quente na nuca. Minha respiração ficou presa no peito e eu não consegui me forçar a virar. Por que ela estava ali? Lauren devia me odiar. Assim como a Taylor.

Estranhei o som da neve sendo esmagada pelas botas dela. Lauren podia se mover tão silenciosamente quando queria. Ela parou bem atrás de mim, e o calor do seu corpo me envolveu. Não poderia ignorá-la para sempre, e eu sabia que ela ficaria ali eternamente se decidisse. Surpresa e apreensiva, virei-me para encará-la.

— Eu sabia que te encontraria aqui. — ela desviou os olhos e trincou o maxilar. — É para onde eu venho quando preciso pensar.

Falei a primeira coisa que me veio à mente.

— Como está a Taylor?

— Ela vai sobreviver — disse, os olhos encobertos pelas sombras. — Precisamos conversar. — Lauren se inclinou para a frente antes que eu pudesse responder. — Tá ocupada? Não sei se estou interrompendo alguma coisa. Olhar para o lago exige muita concentração.

As palavras e a expressão dela não me disseram nada.

— Não, não estou ocupada.

Seu olhar cintilante recaiu sobre mim.

— Por que não volta comigo então?

Fui tomada por uma súbita ansiedade. Será que ela ia me matar e se livrar do meu corpo? Uma atitude drástica, porém, provável após tudo o que eu havia causado. Senti a garganta seca ao retomarmos o caminho de volta para a casa dela, ambas em silêncio. Lauren entrou e eu a segui, as mãos úmidas e trêmulas.

— Tá com fome? — perguntou ela. — Não comi nada o dia inteiro.

— Um pouco.

Minha vizinha foi até a cozinha e tirou um pacote de frios da geladeira. Sentei à mesa enquanto ela preparava dois sanduíches de presunto com queijo. Botou duas vezes mais mostarda no meu, sabendo que era assim que eu gostava, o que quase me fez recomeçar a chorar de novo. Comemos num silêncio constrangedor.

Por fim, ao vê-la terminar de limpar tudo, me levantei.

— Lauren, eu... a

— Ainda não — retrucou ela. Secou as mãos e saiu da cozinha sem dizer mais nada. Inspirei fundo e a segui. Ao vê-la começar a subir a escada, meu pulso foi a mil.

— Por que você está subindo?

Com a mão no corrimão de madeira de mogno, ela me lançou um olhar por cima do ombro.

— Por que não?

— Não sei. É só que parece...

Ela voltou a subir, deixando-me sem opção. Passamos pelo quarto vazio da Taylor. A impressão era de que alguém tinha vomitado litros de Pepto-Bismol pelo aposento. Vi outro cômodo com a porta fechada. Imaginei que fosse o quarto do Christopher, provavelmente intocado desde o desaparecimento dele. Meses tinham se passado antes que eu e minha mãe tirássemos as coisas do papai de casa.

— Onde ela está? — perguntei.

— Com a Ash e o Andrew. Acho que ficar com eles está ajudando...

Assenti. Mais do que tudo, queria poder voltar no tempo, ser mais desconfiada, não tão imbecil.

Lauren abriu outra porta e meu coração deu uma cambalhota. Ela, então, se afastou e fez sinal para que eu entrasse.

— Seu quarto?

Ela confirmou.

— É. O melhor lugar da casa. 



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