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História Ônix - Capítulo 72


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Capítulo 72 - Capitulo 72


Quando recobrei a consciência, estava com a boca seca e parecia que um percussionista tinha se alojado em meu cérebro. Só me sentira assim uma vez antes, no dia em que uma amiga dormira lá em casa e a gente acabara bebendo uma garrafa inteira de vinho barato. Exceto que daquela vez eu havia acordado suada e com calor, e agora estava tremendo de frio.

Levantei a cabeça do cobertor áspero onde estava apoiada e me forcei a abrir os olhos. As formas permaneceram borradas e indistintas por vários minutos. Apoiando as palmas ao lado do corpo, tentei me sentar, mas fui acometida por uma súbita tonteira.

Estava descalça e com os braços descobertos. Alguém havia tirado meus sapatos, as meias e o suéter, deixando-me apenas de jeans e uma camiseta de alça. Minha pele estava toda arrepiada em resposta à temperatura congelante de onde quer que eu estivesse. Sabia que era um lugar fechado. O zumbido baixo das lâmpadas e de vozes distantes me diziam pelo menos isso.

Por fim, meus olhos desanuviaram, e quase desejei que tivessem continuado fora de foco.

A jaula onde me encontrava lembrava uma daquelas usadas em canis. As barras pretas e largas pareciam espaçadas o bastante para que conseguisse enfiar a mão. Quem sabe. Ao erguer os olhos, percebi que não havia espaço suficiente para ficar em pé ou me deitar completamente esticada sem tocar nas barras. Correntes e algemas pendiam do teto. Um par estava fechado em torno dos meus tornozelos gelados e dormentes.

Invadida por uma onda de pânico, me forcei a inspirar e soltar o ar algumas vezes enquanto corria os olhos de maneira frenética pelo entorno. A minha era apenas uma entre várias jaulas. Uma brilhante substância preto-avermelhada revestia o interior das barras e envolvia as algemas.

Disse a mim mesma repetidas vezes que precisava manter a calma, mas não adiantou. Virei de costas e procurei me sentar de um jeito que conseguisse estender os braços para tentar soltar aqueles troços dos tornozelos. Assim que meus dedos tocaram o metal, uma dor abrasiva subiu por meus braços direto até o cérebro. Soltei um grito e puxei as mãos.

Com um pavor profundo que ameaçava me engolir como uma maré enchente, estendi as mãos para as barras, mas outra fisgada de dor semelhante me fez recuar de imediato. Um grito irrompeu de minha garganta ao mesmo tempo que apertava as mãos junto ao peito, tremendo. Era a mesma dor que eu havia sentido quando o fumante encostara aquele objeto no meu rosto. 

Tentei acessar o poder que havia em mim. Podia usá-lo para arrombar as jaulas sem tocar nelas. Mas não encontrei nada. Era como se eu estivesse oca ou desligada da Fonte. Indefesa. Encurralada.

Percebi um movimento sob um amontoado de tecido na jaula mais próxima que, de repente, se ergueu. Era uma pessoa uma garota. Com o coração martelando com força contra as costelas, observei-a se sentar e afastar do rosto pálido algumas mechas compridas e ensebadas de cabelos louros.

Ela se virou para mim. A garota tinha a minha idade, talvez um ano a mais ou a menos. Um feioso hematoma arroxeado acompanhava a linha do cabelo e descia pela bochecha esquerda. Ela seria bonita se não estivesse tão magra e maltratada.

A menina suspirou e abaixou o rosto.

— Eu costumava ser bem bonita.

Será que ela havia lido a minha mente?

— Eu...

— Sim, eu li a sua mente. — a voz soava áspera, grossa. Ela correu os olhos pelas outras jaulas vazias e, em seguida, os fixou nas portas duplas. — Você é como eu, acho... propriedade do Daedalus. Por acaso conhece algum alienígena? — riu e apoiou o queixo pontudo sobre os joelhos dobrados. — Imagino que não faça ideia do motivo de estar aqui.

Daedalus? Que diabos era isso?

— Não. Na verdade, não sei nem onde estou.

A garota começou a se balançar para a frente e para trás.

— Você está num armazém. Uma espécie de contêiner para transporte. Não sei em qual estado. Eu estava apagada quando eles me trouxeram. — tamborilou os dedos pequenos sobre o hematoma. — Eu não estava assimilando.

Engoli em seco.

— Você é humana, certo?

Outra risada engasgada e sem o menor humor ressoou pelo ambiente.

— Não tenho mais tanta certeza.

— O DOD está envolvido nisso? — perguntei. Continue falando. Eu não surtaria completamente se continuasse falando.

Ela assentiu.

— Sim e não. O Daedalus está, mas ele é um braço do DOD. Foram eles que me puseram aqui, mas você... — os olhos dela se estreitaram. Eram de um castanho bem escuro, quase preto. — Só consegui captar fragmentos dos pensamentos dos caras que te trouxeram, mas você está aqui por outro motivo.

Muito tranquilizador.

— Qual é o seu nome?

— Mo — gemeu a garota, levando a mão aos lábios secos. — Todo mundo me chama de Mo... pelo menos, costumava chamar. E o seu?

— Camila. — aproximei-me um pouco mais, tomando cuidado para não encostar nas barras da jaula. — O que você não estava assimilando?

— Eu não estava cooperando. — Mo abaixou a cabeça, escondendo o rosto atrás dos cabelos ensebados. — Tenho a impressão de que eles sequer acreditam que estejam fazendo algo errado. No que diz respeito a eles, é tudo uma grande área cinzenta. — ergueu o queixo. — Tinha outra pessoa aqui. Um rapaz, mas ele não era como a gente. Eles o levaram pouco depois de te trazerem.

— Como ele era? — indaguei, pensando no Christopher.

Antes que ela pudesse responder, o eco de uma porta batendo ao longe reverberou pelo cômodo grande e gelado. Mo se afastou e envolveu os joelhos com os braços finos.

— Finja estar dormindo quando eles entrarem aqui. O que te trouxe não é tão mal quanto os outros. Você não vai querer provocá-los.

Pensei no fumante e em seu parceiro. Meu estômago revirou.

— O que...

— Shhh — sussurrou ela. — Eles estão vindo. Finja que está dormindo!

Sem saber o que fazer, recuei até o fundo da jaula e me deitei, apoiando um braço sobre o rosto para que pudesse espiar sem ser vista.

A porta se abriu e dois pares de pernas vestidas com calças pretas entraram. Em silêncio, eles se aproximaram das nossas jaulas. Meu coração voltou a bater furiosamente, piorando minha dor de cabeça. Eles pararam na frente da jaula da Mo.

— Vai se comportar hoje? — perguntou um dos homens. Havia um tom de riso em sua voz. — Ou vamos ter que fazer isso do jeito mais difícil?

— O que você acha? — rebateu ela.

O homem riu e se curvou. Um par de algemas pretas balançava em sua mão.

— A gente preferiria não estragar o outro lado do seu rosto, docinho.

— Fale por você — interveio o segundo homem. — A vaca quase me deixou estéril.

— Tente me tocar de novo — disse Mo — que você vai ficar.

Ele abriu a jaula e ela imediatamente partiu para cima deles. Mo, porém, não era páreo para os dois. Eles a agarraram pelas pernas e a puxaram para fora até que ela estivesse deitada sobre o piso de cimento frio. O que a xingara virou-a de bruços rudemente e pressionou o rosto dela contra o chão. Ela soltou um grunhido quando ele apoiou um joelho no meio das suas costas e puxou seus braços para trás. E, então, um leve grito quando as algemas se fecharam em torno dos pulsos.

Eu não podia ficar parada observando aquilo. Ignorando a náusea, me forcei a sentar.

— Parem com isso! Vocês a estão machucando!

O que a prendia no chão virou a cabeça e franziu o cenho ao me ver.

— Olhe só, Ramirez. Essa aí acordou.

— E temos ordens de deixá-la em paz — retrucou Ramirez. — Estamos sendo muito bem pagos para fingir que ela não está aqui, Williams. Bota logo o negócio nela e vamos embora daqui.

Williams saiu de cima da Mo e se aproximou da minha jaula, ajoelhando-se para que nossos olhos ficassem no mesmo nível. Ele não era muito velho, algo em torno dos vinte e cinco anos. A expressão depravada naqueles olhos azuis me assustou mais do que as jaulas. Botar o que em mim?

— Ela é bem bonita.

Recuei, com vontade de cruzar os braços sobre o tecido fino da minha camiseta de alça.

— Por que eu estou aqui? — minha voz tremeu, mas não desviei os olhos dos dele.

Williams riu e lançou um olhar por cima do ombro.

— Escuta só, ela está fazendo perguntas.

— Deixa a garota em paz. — Ramirez suspendeu uma silenciosa Mo. A cabeça dela pendia para a frente, o rosto encoberto pelos cabelos. — Temos que levar essa aqui de volta para o centro. Vamos.

— A gente pode apagar a mente dela depois. E se divertir um pouco.

Encolhi-me diante da sugestão. Será que eles podiam fazer isso? Apagar a memória de alguém? Tudo o que eu tinha eram as minhas lembranças. Meus olhos dardejavam de um para o outro. Ramirez soltou um palavrão por entre os dentes.

— Anda logo, Williams.

Quando Williams começou a se levantar, afastei-me ainda mais.

— Espera. Espera! Por que eu estou aqui?

Ele abriu a jaula com uma chave pequena, agarrou as correntes e deu um forte puxão que me fez cair de costas.

— Não faço a menor ideia do que ele quer com você, e não dou a mínima. — deu outro puxão nas correntes. — Agora seja uma boa menina.

Querendo mostrar o quanto eu apreciava a sugestão, comecei a chutar. Se eu conseguisse passar por ele... Meu pé o acertou bem debaixo do queixo, lançando sua cabeça para trás. Williams revidou com um soco em meu estômago que me fez dobrar ao meio. Enquanto eu tentava recuperar o fôlego, ele segurou meus pulsos com uma das mãos e com a outra puxou um par de algemas presas a uma segunda corrente que pendia do teto.

— Não! — gritou Mo. — Não!

O medo na voz dela aumentou meu próprio, de modo que voltei a lutar com renovada energia. Não adiantou. Williams fechou as algemas em volta dos meus pulsos, e meu mundo explodiu em dor. Comecei a gritar.

E não parei. 



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