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História Ônix - Capítulo 76


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Capítulo 76 - Capitulo 76


Era assustador saber que aquilo poderia dar errado de tantas formas diferentes.Lauren estendeu a mão para a maçaneta das portas duplas de vidro e, para nossa surpresa, encontrou-a destrancada. A desconfiança se fez imediatamente presente. Fácil demais, mas já tínhamos vindo até aqui.

Ao erguer os olhos, vi um pedaço circular de ônix incrustado no tijolo. Uma vez lá dentro, não teríamos acesso aos poderes, exceto o da cura. Se isso fosse uma armadilha, estaríamos ferradas.

Entramos. Uma luzinha verde piscava no sistema de alarme à direita, o que significava que ele não fora ligado. Quanto dinheiro Will teria investido para conseguir tal coisa? Os guardas no armazém, Vaughn e todas as pessoas que ele tivera que subornar só para deixar o prédio... destrancado?

Dinheiro não seria um problema para ele. Diabos, o cara tinha dedurado a própria sobrinha.

O saguão parecia com o de qualquer outro prédio comercial. Uma mesa de recepção em meia-lua, plantas falsas e piso barato de lajotas. A porta que conduzia a uma escada tinha sido deixada convenientemente aberta. Olhei de relance para ela e apertei sua mão. Jamais a vi tão pálida, o rosto com uma expressão tão dura que parecia feito de mármore.

De certa forma, seu destino a aguardava lá em cima. Seu futuro.

Lauren empertigou os ombros e seguiu para a porta. Subimos a escada o mais rápido possível. Ao alcançarmos o topo, minhas pernas tremiam de exaustão, porém o medo e a empolgação me proporcionaram uma descarga de adrenalina.

Encontramos uma porta fechada. Acima dela, outro emblema de ônix melhor confirmação impossível. Lauren soltou minha mão e, com o braço tremendo ligeiramente, fechou os dedos em volta da maçaneta.

Observei-a abrir a porta com a respiração presa na garganta. Imagens do encontro iminente povoavam minha imaginação. Será que haveria lágrimas e gritos de felicidade? Será que o Christopher reconheceria a irmã? Ou será que haveria uma armadilha à nossa espera?

O aposento estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua que incidia através de uma única janela. Distingui duas cadeiras dobráveis encostadas numa das paredes, uma televisão num canto e uma jaula dessas usadas em canis bem no meio, equipada com o mesmo tipo de algemas que havia na minha.

Lauren entrou devagar, as mãos pendendo ao lado do corpo. Ondas de calor irradiaram dela ao mesmo tempo que a coluna enrijecia.

A jaula... a jaula estava vazia.

Parte de mim se recusou a processar o que isso poderia significar; não podia deixar esse pensamento fincar raízes. Meu estômago apertou, e um bolo de lágrimas ficou preso em minha garganta já machucada.

— Lauren — grunhi.

Ela ficou parada diante da jaula por alguns instantes e, então, se ajoelhou e pressionou uma das mãos na testa. Um estremecimento sacudiu seu corpo. Corri para o lado dela e pousei a mão em suas costas rígidas. Os músculos se contraíram sob a minha palma.

— Ele... ele mentiu pra mim — disse ela numa voz entrecortada. — Ele mentiu pra gente.

Chegar tão perto, a segundos de rever o irmão, era de cortar o coração. O tipo de decepção irreparável. Não havia nada que eu pudesse dizer. Nenhuma palavra a ajudaria a aliviar a dor. O vazio que me rasgava por dentro não era nada em comparação com o que eu sabia que ela estava sentindo.

Engolindo um soluço, ajoelhei atrás dela e apoiei o rosto em suas costas. Será que Christopher algum dia estivera ali? Pelo que a Mo tinha dito, havia uma boa chance de que ele estivesse sendo mantido no armazém. De qualquer forma, se ele tivesse estado ali em algum momento, já não estava mais.

Christopher desaparecera novamente.

Lauren se levantou num pulo. Desprevenida, quase caí, mas ela se virou, me pegou antes que eu batesse no chão e me colocou de pé.

Meu coração falhou algumas batidas e, em seguida, acelerou.

— Lauren...

— Desculpa. — a voz dela soou rouca. — Precisamos... precisamos sair daqui.

Assenti e recuei um passo.

— Eu... eu sinto muito.

Ela pressionou os lábios numa linha fina.

— Não é culpa sua. Você não teve nada a ver com isso. Ele nos enganou. Will mentiu pra gente.

Honestamente, tudo o que eu queria fazer era sentar e chorar. Aquilo era tão errado.

Lauren me deu a mão e voltamos para o carro. Entrei e prendi o cinto, sentindo os dedos dormentes e o coração pesado. Saímos dali e pegamos a estrada em silêncio. Alguns quilômetros depois, dois Ford Expeditions passaram em alta velocidade pela gente. Virei no assento, esperando que os veículos dessem um cavalinho de pau e viessem ao nosso encalço, mas eles simplesmente prosseguiram.

Virei-me de volta e olhei de relance para a Lauren. O maxilar dela parecia ter sido talhado em gelo. Os olhos brilhavam como diamantes desde que havíamos saído do prédio comercial. Eu queria dizer alguma coisa, mas não havia palavras que pudessem aliviar a dor dessa nova perda.

Ela havia perdido o irmão novamente. A injustiça dessa situação me corroía por dentro.

Estendi a mão e a pousei no braço dela. Lauren olhou para mim rapidamente, mas não disse nada. Recostando-me de volta no banco, fiquei observando o cenário de sombras borradas pelo qual passávamos. Mantive, porém, a mão no braço dela, na esperança de que lhe trouxesse algum conforto, tal como ela me proporcionara mais cedo.

Quando finalmente alcançamos a rodovia principal que levava ao nosso bairro, eu mal conseguia manter os olhos abertos. Já passava da meia-noite. A única coisa boa era que minha mãe estava no trabalho, e não imaginando onde diabos eu havia me metido o dia inteiro. Ela provavelmente havia me enviado várias mensagens, e não ia ficar nem um pouco feliz quando eu lhe respondesse com alguma desculpa esfarrapada.

Eu e minha mãe teríamos que conversar. Não agora, mas em pouco tempo.

Paramos diante da entrada de garagem da Lauren. O Jetta da Taylor estava lá, ao lado do carro do Matthew.

— Você ligou para eles? Contou a eles o que aconteceu... comigo?

Ela inspirou fundo, e só então percebi que fizera a viagem inteira sem respirar.

— Eles queriam me ajudar a te encontrar, mas pedi que ficassem aqui para o caso...

Para o caso de as coisas terminarem mal. Muito esperta. Pelo menos a Taylor não tinha criado esperanças só para vê-las darem lugar a um profundo desespero, tal como acontecera com a Lauren.

— Se a mutação não der certo, vou atrás do Will — disse ela. — E irei matá-lo.

E eu ia ajudar, mas antes que pudesse replicar, ela se debruçou por cima do freio de mão e me beijou. O contato suave não combinava nem um pouco com o que ela acabara de dizer. Letal e doce era isso o que a Lauren era; duas almas totalmente diferentes vivendo num mesmo corpo, fundidas uma à outra.

Ele se afastou e estremeceu.

— Não posso... não posso encarar a Taylor agora.

— Mas ela vai ficar preocupada.

— Eu mando uma mensagem assim que você estiver acomodada.

— Tudo bem. Você pode ficar comigo. — sempre, tive vontade de acrescentar.

Um sorrisinho matreiro se desenhou em seus lábios.

— Prometo que vou embora antes da sua mãe chegar.

Boa ideia. Ela me pediu para esperar enquanto saltava e dava a volta no carro, andando de maneira mais lenta do que o normal. A noite tinha sido desgastante. Ao chegar ao meu lado, abriu a porta e estendeu a mão para mim.

— O que você está fazendo?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Você está sem sapatos esse tempo todo. Chega de andar.

Senti vontade de contestar, mas o instinto me disse para não forçar a barra. Ela precisava disso, precisava cuidar de alguém no momento. Assim sendo, assenti e cheguei até a beira do banco.

A porta da casa dela se abriu com tanta força que bateu na parede. O som foi semelhante a um tiro. Congelei, mas ela simplesmente se virou com os punhos cerrados, preparada para encarar o que quer que fosse e esperando o pior.

Taylor saiu correndo, o cabelo preto liso balançando às suas costas. Mesmo de onde estava, pude ver as lágrimas que escorriam por suas bochechas lívidas e os olhos inchados. Ela, porém, estava rindo. Balbuciando um monte de bobagens, mas rindo.

Saltei do carro, me encolhendo ao sentir o contato com o chão gelado. Lauren deu um passo à frente ao mesmo tempo que a porta começava a fechar, para então ser impedida. Uma figura alta e magra surgiu na soleira, oscilando feito um junco. A figura saiu para a varanda, e Lauren tropeçou.

Ó céus, ela nunca tropeçava.

A ficha demorou a cair. Pisquei, morrendo de medo de acreditar no que estava vendo. Era tudo muito surreal. Talvez eu tivesse pego no sono no caminho de volta e estivesse sonhando com algo perfeito demais.

Porque sob o brilho da luz da varanda estava um garoto de cabelos escuros que pendiam em mechas desordenadas em torno das maçãs do rosto proeminentes; ele tinha lábios grossos e expressivos, e olhos um tanto embaçados, porém com o mesmo tom impressionante de verde. Uma réplica exata da Lauren. Embora magro e pálido, era como ver minha vizinha na versão masculina em dois lugares ao mesmo tempo.

— Christopher — murmurou ela.

Dizendo isso, partiu feito um tufão, os pés vencendo em instantes o solo congelado e os degraus da varanda. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, observei Lauren abrir os braços, o corpo bloqueando o do irmão.

De alguma forma, de alguma maneira, Christopher estava em casa.

Lauren envolveu o irmão num abraço, porém Christopher... Ele continuou parado onde estava, os braços pendendo ao lado do corpo, o rosto tão lindo quanto o da Lauren, porém dolorosamente vazio.

— Christopher...? — a insegurança na voz da Lauren ao se afastar fez minhas entranhas se retorcerem em diminutos e ardentes nós que pareceram subir e formar um bolo em minha garganta, me impedindo de respirar.

Enquanto os dois irmãos se fitavam, com o vento varrendo os flocos de neve soltos e os levantando em espirais em direção ao céu noturno, lembrei de algo que a Lauren tinha dito. Ela estava certa. Naquele momento, tudo mudou... para melhor e para pior.



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