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História Opala - Capítulo 29


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Capítulo 29 - Capitulo 29


Na hora do almoço, o humor da Lauren estava em algum lugar entre carrancudo e raivoso. Ela havia conseguido deixar metade do corpo estudantil morrendo de medo de cruzar seu caminho ou respirar o mesmo ar que ela. Eu não fazia a mínima ideia do que provocara tamanha irritação. Não podia ter sido nossa discussão da véspera.

Quando ela se levantou para pegar a terceira caixinha de leite, Lesa se recostou na cadeira e soltou um assovio baixo.

— Qual é o problema?

— Não sei — respondi, empurrando um pedaço de carne de um lado para outro do prato. — Ela deve estar de TPM.

Chad soltou uma risada.

— É, não vou entrar nesse assunto.

Lesa sorriu para o namorado.

— Se souber o que é bom pra você, não vai mesmo.

— Do que vocês estão falando? — perguntou Lauren, sentando-se novamente.

— Nada. — nós três respondemos ao mesmo tempo.

Ela franziu o cenho.

O resto da tarde passou rápido demais. Volta e meia sentia como se uma pedra tivesse caído em meu estômago. Mais um dia, sábado e então, tentaríamos o impossível. Invadir Mount Weather e resgatar a Beth e o Chris. O que faríamos com eles se conseguíssemos? Não se, quando conseguíssemos, corrigi-me rapidamente.

Quando estava saindo da escola, meu celular vibrou. Uma rápida verificada me deixou com um gosto amargo na boca. Adoraria que a Serena perdesse meu número:

Precisamos conversar.

Trincando os dentes, digitei de volta:

OK.

A resposta veio imediatamente:

Sobre domingo.

— Quem te deixou com essa cara assustada? — perguntou Lauren, se materializando do nada.

Dei um pulo e soltei um gritinho de susto.

— Deus do céu, de onde você saiu?

Ela deu uma risadinha, o que deveria ser um bom sinal levando em consideração o mau humor do dia inteiro, mas que só me deixou mais apreensiva.

— Sou silenciosa feito um gato.

Com um suspiro, mostrei o telefone a ela.

— Serena . Ela quer conversar sobre o domingo.

Lauren grunhiu.

— Por que ela mandou uma mensagem pra você?

— Provavelmente porque sabe que você é um risco para a integridade física dela.

— E você não?

Balancei a cabeça, frustrada.

— Pelo visto ela tem menos medo de mim.

— Talvez a gente deva mudar isso. — apoiou um braço em meus ombros e me puxou para perto enquanto seguíamos ao encontro dos ventos gelados de fevereiro. — Diz pra ela que a gente conversa amanhã.

Meu corpo se aqueceu em contato com o dela.

— Onde?

— Na minha casa — respondeu, com um sorrisinho diabólico. — Se ela tiver colhão, vai aparecer. 

Fiz cara de nojo, mas mandei a mensagem.

— Por que não hoje à noite?

Lauren contraiu os lábios.

— Porque a gente precisa de um tempo sozinhas.

Um tempo sozinhas como o de ontem? A gente realmente precisava conversar sobre algumas coisas, mas eu podia muito bem passar sem outra discussão. Antes que pudesse abordar o assunto, Serena respondeu, aceitando o encontro.

— Veio de carro hoje? — perguntei.

Ela fez que não, os olhos fixos numa fileira de árvores.

— Vim com a Taylor . Esperava que pudéssemos fazer algo normal. Tipo ir ao cinema.

Parte de mim adorou ouvir isso. A outra, mais responsável, vestiu o uniforme do bom senso. A Camila irritantemente adulta venceu.

— A ideia é ótima, mas não acha que a gente devia conversar sobre ontem à noite?

— Sobre o quê? Minha natureza magnânima?

Minhas bochechas coraram.

— Hum, não... Sobre o que aconteceu depois.

Um sorriso se desenhou em seus lábios.

— É, imaginei que fosse isso. Vou propor um acordo. A gente vai ao cinema e depois conversa, que tal?

O acordo era ótimo, de modo que concordei. Para ser honesta, adorava fazer coisas normais com a Lauren tipo sair para jantar. Algo que raramente acontecia.

A escolha do filme ficou por minha conta, e optei por uma comédia romântica. Surpreendentemente, ela não reclamou. Talvez tivesse algo a ver com o gigantesco balde de pipoca com o qual nos empanturramos entre beijos amanteigados.

Aquilo era tão maravilhosamente normal!

Nosso fim de tarde maravilhosamente normal terminou assim que paramos na frente de casa e Lauren saltou do carro, estreitando os olhos. Todas as luzes da casa dela estavam acesas. Pelo visto, Taylor não sabia o que significava poupar energia.

— Camila , acho melhor você ir pra casa.

— Ahn? — fechei a porta do carro, franzindo o cenho. — Achei que a gente ia conversar. E tomar sorvete... você me prometeu sorvete.

Ela deu uma risadinha por entre os dentes.

— Eu sei, mas tenho companhia.

Plantei-me diante dos degraus da varanda.

— Que tipo de companhia?

— Luxen — respondeu ela, pousando as mãos em meus ombros. Seus olhos verdes estranhamente brilhantes se fixaram nos meus. — Antigos.

Devia ser legal ter um sistema sensorial embutido desses.

— E eu não posso entrar?

— Não acho que seja uma boa ideia. — olhou de relance por cima do meu ombro ao escutarmos a porta abrir. — E não acho que seja uma opção.

Olhei rapidamente para trás. Um homem estava parado diante da porta um sujeito de aparência distinta. Vestia um terno com direito a colete e seus cabelos pretos eram grisalhos nas têmporas. Eu não sabia muito bem o que esperava de um antigo. Talvez um cara com uma túnica branca e a cabeça raspada afinal, eles viviam numa colônia na base das Seneca Rocks.

Isso era totalmente inesperado.

Mais inesperado ainda foi a Lauren não me soltar e colocar uma distância alienígena-humano apropriada entre nós. Em vez disso, sussurrou algo em sua própria língua, deslizou uma das mãos pelas minhas costas e se posicionou ao meu lado.

— Ethan — disse. — Não esperava te ver.

Os olhos absurdamente violeta do homem se fixaram em mim.

— Posso ver. Essa é a garota sobre a qual seu irmão e sua irmã fizeram a gentileza de me falar?

O corpo da Lauren ficou imediatamente tenso.

— Depende do que eles falaram.

O ar ficou preso em meus pulmões. Não sabia o que fazer, portanto continuei ali, tentando parecer o mais inocente possível. O fato de que eu sabia que o sujeito de terno não era humano era um problema.

Os outros Luxen não deveriam sequer suspeitar de que eu conhecia seu segredo ou que era uma híbrida.

Ethan sorriu.

— Que você tem saído com ela. Fiquei surpreso. Somos praticamente da mesma família.

De alguma forma, imaginei que isso tivesse mais a ver com o fato de que eles esperavam que a Lauren começasse a fazer pequenos bebezinhos alienígenas com a Ash do que minha namorada não ter enviado uma mensagem de texto para todos notificando que não estava mais disponível.

— Você me conhece, Ethan, não gosto de contar ao mundo com quem estou saindo. — com a ponta do polegar, traçou um círculo de maneira preguiçosa e tranquilizadora em minhas costas. — Camila , este é Ethan Smith. Ele é como um...

— Padrinho — completei, enrubescendo em seguida. Essa era a coisa mais idiota que eu poderia dizer.

Ethan, porém, pareceu gostar de ouvir aquilo.

— Isso mesmo, como um padrinho. — seus olhos estranhos se fixaram em mim. Levantei o queixo um tiquinho. — Você não é daqui, é, Camila ?

— Não, senhor. Sou da Flórida.

— Ah. — Ele arqueou as sobrancelhas escuras. — Está gostando da West Virginia?

Olhei de relance para a Lauren.

— Estou, aqui é legal.

— Que bom! — Ethan desceu um degrau. — É um prazer te conhecer.

— Estendeu a mão.

Por força do hábito, fiz menção de estender a minha também, mas Lauren interveio, fechando os dedos em volta dos meus. Levou minha mão aos lábios e plantou um beijo na palma. Ethan observou o gesto com um lampejo de curiosidade e algo mais que não consegui interpretar.

— Cami , eu te vejo daqui a pouco. — soltou minha mão e se posicionou entre mim e o antigo. — Tenho que acertar umas coisas com ele, tudo bem?

Fiz que sim e dei um sorriso forçado para o Ethan.

— Foi um prazer conhecer você.

— Igualmente — retrucou o homem. — Tenho certeza de que nos veremos de novo.

Por algum motivo, aquelas palavras fizeram meu sangue gelar. Despedi-me da Lauren com um leve aceno e corri até meu carro para pegar minha mochila. Ao me virar de volta, eles já tinham entrado em casa. Daria meu polegar esquerdo para saber sobre o que estavam falando. Desde que conheci os irmãos, jamais vira um Luxen da colônia na casa deles.

Incomodada pela súbita aparição do Ethan, soltei a mochila no vestíbulo e fui pegar um copo de suco de laranja. Mamãe estava dormindo, de modo que atravessei pé ante pé o corredor e fechei a porta do quarto. Sentei na cama e botei o copo sobre a mesinha de cabeceira. Concentrando-me no laptop, estendi uma das mãos.

Ele se ergueu da escrivaninha e veio flutuando até minha mão. Eu tentava não usar meus poderes alienígenas com muita frequência talvez uma ou duas vezes ao dia para manter o... hum, o que quer que fosse, bem lubrificado. Sempre que lançava mão de algum poder, sentia uma estranha empolgação, tal como quando você está no topo de uma montanha-russa, prestes a despencar a uns cento e trinta quilômetros por hora o momento em que seu estômago dá um salto e a pele formiga de expectativa.

Era uma sensação diferente não exatamente ruim, mais para divertida e talvez até um pouco viciante.

Jamais me sentira tão poderosa quanto na noite em que o Adam morreu, após invocar o que quer que houvesse dentro de mim. Portanto, sim, entendia muito bem como um poder daqueles podia virar a cabeça de uma pessoa. Se a mutação do Will tivesse dado certo, só Deus saberia dizer que loucuras ele estaria fazendo.

Não podia me dar ao luxo de pensar sobre o médico agora. Assim sendo, liguei o laptop e vasculhei a internet por meia hora, lendo resenhas até decidir fechar o computador e enviá-lo de volta para a escrivaninha. Peguei um livro e me enrosquei na cama, esperando avançar alguns capítulos antes que a Lauren aparecesse, mas acabei pegando no sono após umas três páginas.

Quando acordei, meu quarto estava escuro. Após uma rápida investigação, descobri que já passava das nove e que mamãe já tinha saído para o trabalho. Surpresa pela Lauren não ter aparecido ainda, calcei as botas e segui para a casa ao lado.

Christopher atendeu com uma lata de refrigerante numa das mãos e uma torta Pop-Tart na outra.

— Esse açúcar todo vai te deixar cheio de energia — comentei, rindo.

Ele baixou os olhos para as mãos.

— Verdade. Acho que não vou dormir tão cedo.

Lembrei de algo que Christopher dissera sobre não conseguir pegar no sono, e rezei para que isso tivesse mudado. No entanto, antes que pudesse perguntar, ele acrescentou:

— Lauren não está.

— Ah. — tentei esconder minha decepção. — Ela ainda está com o tal antigo?

— Céus, não. Ethan foi embora mais ou menos uma hora depois. Ele não ficou nada feliz. Lauren saiu com o Andrew.

— Com o Andrew? — isso era inesperado.

Christopher assentiu.

— É, o Andrew, a Taylor e a Ash queriam comer alguma coisa. Eu não quis ir.

— Ash? — murmurei.

Certo, mais do que inesperado. O que era de esperar foi a onda de ciúme irracional que me invadiu e que quase me carregou para a terra das garotas surtadas.

— Ela mesma — respondeu ele, encolhendo-se. — Quer entrar?

Não me dei conta de que o segui até me ver sentada no sofá, os joelhos pressionados um contra o outro. Lauren tinha realmente saído para jantar com a Ash e os outros?

— Que horas eles saíram?

Christopher deu uma mordida na torta.

— Ah, não faz muito tempo.

— Mas são quase dez. — os Luxen tinham um apetite voraz, mas vamos lá... eles não tinham o hábito de jantar. Eu sabia muito bem.

Ele se sentou na poltrona e baixou os olhos para a torta.

— Ethan saiu por volta das cinco. Pouco depois, o Andrew apareceu... — olhou de relance para o relógio de parede e franziu o cenho. — Ele e a Ash chegaram mais ou menos às seis.

Meu estômago deu um nó.

— E, depois disso, os quatro saíram para comer alguma coisa?

Christopher fez que sim, como se falar fosse dolorosamente constrangedor.

Quatro horas jantando. De repente, não consegui mais ficar sentada. Queria saber para qual restaurante eles tinham ido. Queria encontrar minha namorada. Fiz menção de me levantar, tentando, ao mesmo tempo, engolir o tenebroso bolo de fel que se alojara no fundo da minha garganta.

— Não é o que você está pensando — falou Christopher baixinho.

Virei a cabeça para ele, e fiquei horrorizada ao sentir os olhos cheios de lágrimas. A ironia da situação foi como um tapa na cara. Será que era assim que a Lauren se sentiu ao descobrir que eu havia saído para jantar e depois almoçar com a Serena ? Só que na época nós ainda não estávamos namorando.

Não era como se eu devesse qualquer explicação a ela.

— Não é? — minha voz soou rouca.

Christopher terminou de comer a torta.

— Não. Acho que ela apenas precisava sair um pouco.

— Sem mim?

Ele espanou alguns grãos de açúcar que haviam caído na calça.

— Talvez sim, talvez não. Lauren não é mais a irmã que eu conhecia. Jamais a teria imaginado com uma humana. Sem ofensa.

— Tudo bem — murmurei. Sem mim. Sem mim. Fiquei repetindo essas palavras mentalmente. Não era como se eu fosse uma daquelas garotas carentes que precisava estar com a namorada o tempo todo, mas, maldição, não podia fingir que a informação não me incomodara.

E esse incômodo se transformou numa raiva ardente ao imaginar Taylor e Andrew sentados num lado da mesa e Ash e Lauren do outro, porque essa com certeza era a maneira como eles se acomodariam para comer. Seria como nos velhos tempos quando a Lauren e a Ash namoravam.

Serena e eu talvez tivéssemos nos beijado uma vez, mas não tínhamos tido um longo relacionamento.

Céus, eles provavelmente haviam...

Forcei-me a parar de pensar nisso.

Christopher levantou, contornou a mesinha de centro e sentou ao meu lado.

— Ethan a deixou irritada. Ele queria se certificar de que o relacionamento da minha irmã com você não iria interferir na lealdade dela para com a nossa espécie. — ele se inclinou e esfregou as palmas sobre os joelhos dobrados. — E, bem, você pode imaginar o que a Lauren respondeu.

Não tinha muita certeza de que podia.

— O que ela disse?

Christopher riu, apertando os olhos da mesma forma que a irmã.

— Digamos apenas que minha irmã explicou que sua lealdade não tinha nada a ver com quem ela saía, só que não com essas palavras.

Abri um ligeiro sorriso.

— Ela foi grosseira?

— Super — respondeu ele, olhando de relance para mim. — Eles jamais esperaria isso dela. Ninguém esperava. De mim? Ah, bem, ninguém nunca esperou grande coisa de mim. Talvez porque eu não desse a mínima para o que eles achavam... Não que a Lauren dê, mas...

— Eu sei. Ela sempre foi a responsável, o que cuidava de tudo, certo? Nunca uma causadora de problemas.

Christopher anuiu.

— Eles não sabem sobre você, mas duvido que o Ethan vá deixar isso barato.

— Eles vão expulsá-la? — ao vê-lo assentir de novo, balancei a cabeça, frustrada. Quando um Luxen era expulso, ficava proibido de permanecer perto de qualquer comunidade Luxen, o que significava que não podia se manter sob a proteção do quartzo-beta. Lauren ficaria totalmente sozinha contra os Arum. — Quem é o Ethan? Quero dizer, sei que ele é um antigo, mas e daí?

Christopher franziu as sobrancelhas.

— Os antigos são como prefeitos ou presidentes de nossas comunidades. Ethan é nosso presidente.

Foi a minha vez de arquear as minhas.

— Parece importante.

— Todos que vivem na colônia darão ouvidos a ele. Pelo menos os que não quiserem arriscar a mesma degradação social. — ele se recostou no sofá e fechou os olhos. — Mesmo aqueles que interagem com os humanos, como os que trabalham fora da colônia, têm medo de irritar os antigos. Nenhum de nós pode ir embora sem a permissão do DOD, mas se eles quiserem que a gente seja expulso darão um jeito de fazer isso.

— Eles fizeram isso com você por causa da Beth?

O rosto dele ficou subitamente tenso.

— Teriam, mas não deu tempo. Não houve tempo suficiente pra nada.

Senti uma fisgada no peito e pousei a mão sobre o braço dele.

— Vamos recuperá-la.

Um pequeno sorriso se desenhou em seus lábios.

— Eu sei. Domingo... Tudo se resume a esse próximo domingo.

Meu estômago embrulhou e meu pulso acelerou.

— Como era lá dentro?

Christopher abriu ligeiramente os olhos. Vários segundos se passaram antes que respondesse.

— A princípio, não foi muito ruim. Eles permitiam que Beth e eu nos víssemos com frequência. Disseram que estavam nos mantendo lá para nossa própria segurança. Você sabe, aquela história de "se as pessoas descobrissem o que eu tinha feito com ela, a coisa ficaria feia, de modo que precisávamos da proteção". Segundo eles, o Daedalus estava do nosso lado. Por um tempo, realmente pareceu que sim. Eu... eu quase acreditei que sairíamos daquilo juntos.

Era a primeira vez que eu o escutava mencionar o Daedalus. A palavra soou estranha dita por ele.

— Acreditar nisso só nos trouxe tristeza e, por fim, loucura quando a esperança desapareceu. — seus lábios se ergueram nos cantos. — O pessoal do Daedalus queria que eu repetisse o que tinha feito com a Beth. Eles queriam que eu criasse outros como ela. Que ajudasse a aperfeiçoar a humanidade e toda aquela baboseira, mas quando minhas tentativas não deram certo, as coisas... as coisas mudaram.

Troquei de posição.

— Mudaram como?

Ele trincou o maxilar.

— No começo, eles não me deixavam vê-la... o castigo por fracassar em algo que consideravam tão fácil. Não entendiam que eu não sabia como a tinha curado e transformado. Ficavam me trazendo humanos moribundos e eu tentava, Camila , realmente tentava. Mas eles morriam de qualquer jeito.

Fui tomada por uma forte sensação de enjoo e desejei ter algo para dizer, mas tinha a impressão de que esse era um daqueles momentos em que ficar em silêncio era a melhor opção.

— Então eles começaram a trazer humanos saudáveis e fazer coisas com eles, tipo, machucá-los, para que eu os curasse. Alguns... alguns melhoraram. Pelo menos a princípio, mas passado um tempo os ferimentos infligidos voltavam ainda piores. Outros... outros ficavam instáveis.

— Instáveis?

As mãos do Christopher abriam e fechavam sobre o colo.

— Eles desenvolviam alguns dos nossos poderes, mas algo... algo acabava dando errado. Teve uma garota... ela não era muito mais velha do que a gente e era muito, muito bacana. Eles deram a ela algum tipo de remédio que a estava matando e eu a curei. A garota estava tão assustada, e eu realmente desejava curá-la. — seus olhos esmeralda fitaram os meus. — Achamos que tinha funcionado. Ela ficou doente, que nem aconteceu com a Beth logo depois que fomos capturados. A menina desenvolveu velocidade, começou a se mover tão rápido quanto nós. Um dia após a doença ceder, ela se lançou contra uma parede.

Franzi o cenho.

— E isso é tão ruim assim?

Ele desviou os olhos.

— Nós podemos nos mover mais rápido do que uma bala, Camila . Ela se chocou com tudo. Tipo, acertou a parede numa velocidade supersônica.

— Ai, meu Deus...

— Foi como se a garota não conseguisse se impedir. De vez em quando, imagino se ela não fez isso de propósito. Houve tantos, tantos outros depois dela. Humanos que morreram em minhas mãos. Outros que morreram pouco após eu tê-los curado. Alguns sobreviveram, mas sem mutação, e esses eu nunca mais vi. — baixou os olhos. — Eu carrego sangue demais nas mãos.

— Não. — balancei a cabeça com vigor. — Nada disso foi culpa sua.

— Não? — sua voz grave transbordava raiva. — Eu tenho o poder de curar, mas não consigo exercê-lo direito.

— Mas você precisa querer curar as pessoas... tipo, em nível celular. E estava sendo forçado a fazer isso.

— Não muda o fato de que tanta gente morreu. — ele se inclinou para a frente, inquieto. — Houve um tempo em que eu acreditava que merecia o que eles estavam fazendo comigo, mas nunca... nunca com a Beth. Ela não merecia nada daquilo.

— Nem você, Christopher.

Ele me fitou por um momento e, em seguida, desviou os olhos.

— Eles me proibiram de vê-la, me deixaram sem água nem comida, e, quando isso não funcionou, tornaram-se criativos. — soltou um longo suspiro. — Acho que fizeram o mesmo com ela, mas não tenho certeza. Só sei o que eu vi fazerem na minha frente.

Meu estômago foi parar no pé. Eu tinha um mau pressentimento em relação àquilo.

— Eles a feriram para que eu a curasse e, assim, pudessem analisar o processo. — o maxilar dele tremeu. — Esses momentos me deixavam apavorado. E se eu não conseguisse curá-la? Se fracassasse com ela? Eu... — girou o pescoço como se estivesse tentando aliviar um torcicolo.

Christopher nunca mais seria o mesmo. Outra leva de lágrimas ficou presa em minha garganta. Queria chorar por ele, pela Beth, mas, acima de tudo, pelas pessoas que ambos costumavam ser e que jamais seriam novamente.



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