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História Opala - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Capitulo 4


Como eu já andava pisando em ovos com a minha mãe, decidi não falar nada sobre a janela quando ela ligou à noite para saber como eu estava. Rezava com todas as forças para que as estradas fossem desobstruídas e eu conseguisse chamar alguém para consertá-la antes que a mamãe voltasse para casa.

Odiava mentir para ela. E tudo o que eu vinha fazendo nos últimos tempos era mentir. Sabia que precisava abrir o jogo, especialmente sobre seu suposto namorado, Will. Mas como ter uma conversa desse tipo? Ei, mãe, nossos vizinhos são alienígenas. Um deles me transformou em uma híbrida acidentalmente, e o Will é um psicopata. Alguma pergunta?

Certo, isso definitivamente não ia acontecer.

Pouco antes de desligar, ela insistiu mais uma vez na história de ir a um médico checar minha voz.

Disse a ela que era só um resfriado, o que funcionaria por ora, mas o que eu ia dizer dali a uma ou duas semanas? Céus, esperava que minha voz estivesse curada até então, embora parte de mim soubesse que o dano podia ser permanente. Outra coisa para me fazer lembrar de... tudo.

Precisava contar a ela a verdade.

Peguei um pacote de macarrão com queijo instantâneo e estava quase ligando o micro-ondas quando baixei os olhos para minhas mãos. Será que eu tinha esse poder também, como a Taylor e a Lauren? Meti o pacote no micro-ondas e dei de ombros. Estava faminta demais para arriscar.

Calor não era a minha praia. Durante os treinos com a Serena para aprender a manipular a Fonte, ela tentara me ensinar a criar calor isto é, fogo, mas, em vez de acender a vela, eu acabara ateando fogo às minhas mãos.

Enquanto esperava o macarrão ficar pronto, dei uma espiada pela janela que ficava acima da pia. Christopher estava certo. Tudo havia ficado realmente lindo sob a luz do sol. O chão e os galhos cobertos de neve. As estalactites de gelo que pendiam dos beirais dos telhados. Mesmo agora que o sol já se fora, tudo continuava belissimamente branco. Senti vontade de sair para brincar.

O micro-ondas bipou. Comi meu jantar nada saudável em pé mesmo, imaginando que pelo menos assim conseguiria queimar algumas calorias. Desde que a Lauren me transformara numa aberração-humana-alienígena-híbrida-mutante, meu apetite se tornara voraz. Não havia mais quase comida nenhuma na casa.

Ao terminar, peguei meu laptop e me sentei à mesa da cozinha. Tinha andado muito aérea a semana inteira, e queria verificar uma coisa antes que me esquecesse. De novo.

Digitei DAEDALUS no Google e apertei enter. O primeiro link que apareceu foi da Wikipedia e, como não esperava encontrar nenhum site tipo "Bem-vindo ao Daedalus: Organização Secreta do Governo", resolvi abri-lo. E me deparei com uma série de mitos gregos.

Dédalo ou Daedalus, em latim, era um inventor, tendo criado, entre outras coisas, o labirinto onde vivia o Minotauro. Ele tinha um filho, Ícaro, que morreu afogado depois de despencar do céu por se aproximar demais do sol, que derreteu as asas confeccionadas pelo pai. Ícaro ficou zonzo durante o voo e, conhecendo os deuses, isso provavelmente tinha sido uma espécie de punição passiva. Um castigo também para Dédalo, por ter criado para o filho uma engenhoca que dera ao garoto a habilidade divina de voar.

Bela lição, mas qual era o ponto? Por que o DOD daria esse nome a uma organização que estudava os humanos mutantes, em homenagem a um cara que...?

De repente, a ficha caiu.

Dédalo criava toda espécie de geringonças para ajudar o homem a se aprimorar, e essa história de poderes divinos era mais ou menos o que acontecia com os humanos transformados pelos Luxen. Uma lógica um tanto distorcida, mas, vamos lá, era de esperar que o governo fosse tão cheio de si a ponto de batizar uma organização em homenagem a um mito grego.

Fechei o laptop, levantei, peguei um casaco e saí para o jardim. Não sabia bem por que estava fazendo isso. E se houvesse outros oficiais nas redondezas vigiando? Minha fértil imaginação conjurou a imagem de um atirador de elite escondido em meio às árvores e um pontinho vermelho incidindo em minha testa. Legal.

Com um suspiro, tirei um par de luvas do bolso do casaco e abri caminho através da neve acumulada. Precisando de algum tipo de exercício físico para impedir que meu cérebro entrasse em curto-circuito, comecei a fazer uma bola de neve no jardim da frente. Tudo havia mudado em questão de meses, e mais uma vez em questão de segundos. Eu deixará de ser uma garota tímida e viciada em livros para me tornar algo impossível; alguém que havia se transformado não só em nível celular. Já não enxergava mais o mundo em preto e branco e, no fundo, sabia que também não operava mais segundo as regras sociais básicas.

Tipo, não dava mais a mínima para coisas como: não matarás e por aí vai. Eu não havia matado Brian Vaughn, o oficial subornado pelo Will para me entregar para o médico em vez de para o Daedalus, a fim de me usar como um meio de garantir que Lauren o transformasse, e não o matasse logo de cara. Eu, porém, havia desejado matar o oficial, e teria feito isso se minha vizinha não tivesse sido mais rápida.

A ideia de matar alguém não me incomodara nem um pouco.

Por alguma razão, ter matado os dois Arum, a raça alienígena maquiavélica, não me afetara tanto quanto a ideia de não ter problemas em matar um ser humano. Não sei bem o que isso dizia de mim, pois como Lauren afirmara certa vez, uma vida era sempre uma vida. De qualquer forma, não sabia como acrescentar as palavras "não tenho problemas com matar" no "sobre mim" do meu blog literário.

Quando finalmente terminei a primeira bola e passei para a segunda, minhas luvas de algodão estavam encharcadas. Essa história de me exaurir fisicamente não estava fazendo nada além de me deixar com as bochechas coradas pelo frio. Um tremendo fracasso.

Ao terminar, meu boneco de neve tinha três seções, mas sem braços nem rosto. Isso meio que refletia como me sentia por dentro. Eu tinha a maioria das partes do corpo, mas carecia dos detalhes vitais que me tornariam um ser real.

Definitivamente não sabia mais quem eu era.

Dando um passo para trás, corri a manga do casaco pela testa para secá-la e soltei um suspiro entrecortado. Meus músculos queimavam e minha pele ardia, mas permaneci ali até a lua surgir por entre as nuvens pesadas e projetar um raio prateado sobre a minha incompleta criação. 



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