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História Opala - Capítulo 47


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Capítulo 47 - Capitulo 47


No decorrer de várias semanas de entrevistas com as autoridades locais e de súplicas lacrimosas dos pais da Carissa nos noticiários noturnos, foram organizadas inúmeras vigílias à luz de velas. Chegaram também repórteres de todas as partes do país, atraídos por uma curiosidade mórbida. Como uma cidade tão pequena podia ter tantas crianças desaparecidas? Alguns chegaram até a especular que talvez um serial killer tivesse escolhido nossa pequena e entediante cidade da West Virginia como alvo.

Ir para a escola e escutar todo mundo falando da Carissa, do Simon e até mesmo do Adam e da Beth era difícil. Não só para mim, mas para todos nós que sabíamos a verdade.

Nenhum deles tinha realmente desaparecido.

Adam e Carissa estavam mortos, e provavelmente Simon também. Beth estava sendo mantida à força num estabelecimento do governo.

O humor que se instaurara entre a gente, insinuando-se sorrateiramente, era sombrio e nefasto, e não havia como nos livrarmos dele. Claro que com a chegada da primavera e o despontar dos primeiros brotos nos canteiros da escola, uma forte suspeita começou a se espalhar, porque apenas um dos garotos havia reaparecido, o Christopher. E a volta dele chamava ainda mais atenção para o sumiço dos outros.

Trocas de olhares entre alunos e sussurros ecoavam pelos corredores sempre que a Lauren ou o Christopher estavam por perto. Os irmãos, porém, agiam como se não tivessem escutado. Ou talvez eles simplesmente não dessem a mínima.

Até mesmo a Lesa estava diferente. Perder uma amiga era um bom motivo para tanto, assim como a incapacidade de encontrar um desfecho. Não havia razão para o desaparecimento da Carissa, pelo menos não para Lesa. Ela, tal como tantos outros, passaria a vida imaginando por que e como isso havia acontecido. E não saber criava um tremendo desânimo de seguir em frente. Mesmo com a mudança das estações e a visível chegada da primavera, Lesa continuava congelada no momento em que descobrira sobre o desaparecimento da amiga. De certa forma, ela continuava sendo a mesma garota; havia momentos em que dizia algo totalmente inapropriado que a fazia rir, mas então, quando não achava que eu estava olhando, seus olhos ficavam vidrados de apreensão.

Carissa, porém, não foi o único assunto a alcançar os noticiários. O dr. William Michaels, também conhecido como namorado da minha mãe e cretino-mor, foi dado como desaparecido pela irmã cerca de três semanas após Carissa sair do radar. Uma nova tempestade recaiu sobre a cidade. Minha mãe foi interrogada e ficou... ela ficou arrasada. Principalmente depois de descobrir que Will jamais havia participado de nenhuma conferência na costa oeste, e que ninguém o vira ou ouvira falar dele desde que saíra de Petersburg.

Os oficiais suspeitavam de algum tipo de emboscada. Outros diziam entre sussurros que ele devia ter algo a ver com o que acontecera com a Carissa e o Simon. Um médico proeminente simplesmente não desaparecia em pleno ar.

Mas como Lauren e eu continuávamos vivas presumimos que a mutação havia funcionado e, tendo conseguido o que queria, o médico estava escondido. Na pior das hipóteses, Daedalus o havia capturado em algum lugar. Isso não seria muito bom para a gente, mas, por outro lado, ele bem que merecia estar trancafiado numa jaula.

No todo, eu não estava nem um pouco triste pelo fato de que por enquanto Will deixara de ser um problema, mas odiava ver minha mãe passar por aquilo de novo. E o odiava ainda mais por colocá-la naquela situação. Ela passou por todos os estágios do processo de luto: incredulidade, tristeza, aquele terrível e constante sentimento de perda e, por fim, raiva.

Não tinha a menor ideia do que fazer por ela. O melhor que podia era lhe fazer companhia nas noites de folga, depois de terminar o treinamento com o ônix. Ficar com ela tentando distraí-la parecia ajudar.

À medida que as semanas foram passando sem que houvesse nenhum sinal da Carissa nem de qualquer dos outros desaparecidos, aconteceu o inevitável. As pessoas jamais esqueceriam, mas os repórteres foram embora e outros assuntos passaram a ocupar os noticiários noturnos. Por volta de meados de abril, todos tinham basicamente voltado para seus próprios afazeres.

Perguntei a Lauren certa noite enquanto voltávamos do lago, aproveitando a temperatura amena, como as pessoas conseguiam esquecer com tanta facilidade. Uma profunda amargura se instalara em minhas entranhas. Será que o mesmo aconteceria comigo algum dia caso não conseguíssemos retornar de Mount Weather? As pessoas simplesmente superariam o fato?

Lauren apertou minha mão e disse:

— É uma condição natural do ser humano, gatinha. O desconhecido não é algo muito bem aceito. As pessoas preferem ignorar... não completamente, apenas o bastante para que isso não fique interferindo em cada ato ou pensamento.

— E isso é legal?

— Não estou dizendo que é. — ela parou e fechou as mãos em volta dos meus braços. — Mas não ter as respostas de algo pode ser assustador. As pessoas não conseguem permanecer focadas nisso indefinidamente. Assim como você não conseguiu continuar focada no motivo de seu pai ter ficado doente e morrido. Esse é o grande desconhecido. Chega um momento em que você precisa seguir em frente.

Ergui os olhos e observei aquele rosto lindo iluminado pela suave luz da lua.

— Não acredito que você consiga soar tão sábia de vez em quando.

Lauren riu e correu as mãos pelos meus braços, me deixando toda arrepiada.

— Sou mais do que beleza, gatinha. Você já devia saber disso.

E eu sabia. Ela era inacreditavelmente encorajadora na maior parte do tempo. Por mais que odiasse o fato de eu estar participando dos treinos com o ônix, não havia mais tentado me impedir, e eu era grata por isso. Empenhei-me nos treinos, o que me deixou com pouco tempo livre para qualquer coisa exceto frequentar as aulas. O ônix roubava nossa energia e, após cada treino, todos nós apagávamos rapidamente. A gente estava tão concentrada em desenvolver a tolerância e manter os olhos abertos para possíveis oficiais e espiões que nem comemoramos o Dia dos Namorados. Lauren apenas me deu um buquê de flores, que eu retribuí com um cartão e flores.

Combinamos de compensar depois, sair para jantar ou algo do gênero, mas ou o tempo era apertado demais ou alguém atrapalhava. Ou era o Christopher, com sua impaciência para invadir logo Mount Weather e resgatar a Beth, ou a Taylor desejando matar alguém, ou a Serena exigindo que treinássemos todos os dias.

Já tinha até me esquecido como era ficarmos somente a Lauren e eu.

Comecei a achar que suas esporádicas visitas no meio da madrugada eram fruto da minha imaginação fértil, porque, ao final de cada noite, ela estava tão esgotada quanto eu. Ao acordar, tinha a sensação de ter tido um sonho demasiadamente vívido, mas como Lauren jamais mencionara nada, deixei o assunto de lado, embora aguardasse ansiosamente pelo próximo. Uma Lauren onírico era melhor do que nenhuma Lauren, concluí.

Por volta do começo de maio, nós cinco já conseguíamos manipular os ônix por cerca de cinquentas segundos sem perdermos o controle dos músculos. Podia não parecer muito, mas já era um progresso.

Estávamos na metade do treino quando subitamente Ash e Taylor apareceram para assistir. Aquelas duas estavam se tornando unha e carne, enquanto eu continuava basicamente sem amigos, com exceção da Lesa nos dias bons.

Os ruins eram aqueles em que ela morria de saudade da Carissa e ninguém conseguia substituir essa amizade perdida.

Observei a Ash andando de um lado para outro naqueles saltos ridículos, imaginando como ela e a Taylor podiam se dar tão bem. Tirando a obsessão das duas por moda, elas não tinham praticamente nada em comum.

De repente, me dei conta de que provavelmente o que unia as duas era o luto. E ali estava eu, ressentida por isso. Eu podia ser uma verdadeira imbecil.

Enquanto o Matthew se levantava do chão, Ash foi até a pilha de ônix, o cenho franzido.

— Não pode ser tão ruim assim. Quero experimentar.

Abafei uma risadinha maquiavélica. Eu não ia impedi-la, de jeito nenhum.

— Ahn, Ash, eu não faria isso se fosse você — alertou Lauren.

Estraga-prazeres, pensei. Ash, porém, era uma alienigenazinha determinada. Assim sendo, me sentei, estiquei as pernas e esperei o show começar.

Não precisei esperar muito.

Ela se curvou graciosamente e pegou uma das brilhantes pedras preto-avermelhadas. Prendi a respiração. Menos de um segundo depois, com um grito esganiçado, soltou o ônix como se ele fosse uma cobra e cambaleou alguns passos para trás, caindo de bunda no chão.

— Tem razão, não é tão ruim assim — comentou Christopher de modo seco.

Os olhos dela estavam arregalados, a boca abrindo e fechando como a de um peixe.

— O que... o que foi isso?

— Ônix — respondi, deitando de costas. Um resquício de sol aquecia o ar contra um céu de um azul brilhante. Só hoje eu já passara três vezes por aquela tortura. Não conseguia mais sentir meus dedos.

— É uma merda.

— Senti... senti como se minha pele estivesse sendo arrancada do corpo — disse ela. O choque a deixara rouca. — Por que vocês estão fazendo isso há meses?

Christopher pigarreou.

— Você sabe por que, Ash.

— Mas ela...

Ah, não.

— Ela o quê? — O gêmeo da Lauren se levantou num pulo. — Ela é minha namorada.

— Não foi o que eu quis dizer. — Ash correu os olhos em volta em busca de apoio, mas percebeu que estava sozinha nessa. Levantou-se com cuidado e deu um passo titubeante na direção do Christopher. — Desculpa. É só... que isso dói.

Ele não disse nada ao passar pela Lauren e desaparecer mata adentro. Lauren olhou para mim, soltou um suspiro e saiu trotando atrás do Christopher.

— Ash, você precisa aprender a ter um pouquinho mais de tato — observou Matthew, espanando a terra da calça jeans.

Ela fez uma careta e se sentou de novo.

— Sinto muito. Não quis dizer nada com isso.

Não acreditei. Era raro ver a Ash demonstrar qualquer emoção além de uma mal-humorada amargura. Taylor foi até ela e as duas se mandaram. Matthew as seguiu, dando a impressão de que precisava de um descanso ou de uma garrafa de uísque.

O que me deixou sozinha com a Serena.

Resmungando, fechei os olhos e me deitei de novo. Sentia o corpo tão pesado que tinha a sensação de que abriria um buraco no chão. Em umas duas semanas, flores brotariam do meu corpo.

— Está se sentindo bem? — perguntou Serena.

Minha língua coçou com uma série de respostas ferinas, mas tudo o que eu disse foi:

— Só estou cansada.

Seguiu-se uma ligeira pausa e, então, escutei seus passos se aproximando. Serena se sentou ao meu lado.

— O ônix é foda, não é? Nunca parei para pensar nisso, mas quando fui admitida no Daedalus eu vivia cansada.

Não soube o que responder, de modo que fiquei quieta e, por um tempo, ela também. Serena era provavelmente a pessoa mais difícil de ter por perto. Porque, no fundo, ela não era tão horrível assim, talvez nem mesmo um monstro. Era apenas alguém desesperada, e o desespero levava as pessoas a fazerem loucuras.

Ela trazia à tona sentimentos conflitantes. No decorrer dos últimos dois meses, eu e os outros havíamos aprendido a tolerá-la, ainda que não confiássemos nela. Lembrava muito bem das palavras do Luc ao nos despedirmos

— Não confiem em ninguém. Não quando todos têm algo a ganhar ou perder.

Não conseguia evitar pensar se ele não tinha se referido a Serena. Não queria pegar leve com a surfista por conta do que ela tinha feito com o Adam, e tampouco desejava sentir pena dela, mas às vezes sentia.

Serena era um produto do meio onde crescera. O que não servia como justificativa, mas a surfista não era a única responsável. Vários fatores haviam contribuído para tanto. No entanto, o mais estranho tinha sido vê-la na hora do almoço, sentada à mesa com os irmãos do garoto que havia matado.

Honestamente, achava que ninguém sabia como lidar com a Serena.

Por fim, ela disse:

— Sei no que você está pensando.

— Achei que você não conseguisse ler a mente de outros híbridos.

Ela riu.

— E não consigo, mas está na cara. Você não está se sentindo confortável comigo aqui, mas está cansada demais e é bacana demais para se levantar.

Serena estava definitivamente certa.

— E, ainda assim, você continua aqui.

— Bem, quanto a isso... não acho que pegar no sono aqui seja muito seguro. Além dos ursos e dos coiotes, pode aparecer algum oficial do Daedalus ou do DOD.

Abri os olhos e soltei um suspiro.

— O que teria de suspeito alguém me encontrar deitada aqui?

— Bem, fora o fato de que estamos em maio e que está um pouco tarde para alguém estar tomando sol... eles sabem que eu ainda falo com você. Pelo bem das aparências e tudo o mais.

Virei a cabeça para ela. Os Luxen se revezavam para vigiar a área enquanto treinávamos, certificando-se de que ninguém estivesse nos observando. Parecia estranho que a Serena se mostrasse preocupada com isso agora.

— Fala sério — repliquei.

Ela dobrou os joelhos, apoiou os braços sobre eles e ficou olhando para as águas plácidas do lago.

Seguiu-se outro momento de silêncio e, então:

— Sei que você e a Lauren foram ver o Luc em fevereiro.

Abri a boca para responder, mas apenas balancei a cabeça sem dizer nada. Tinha certeza de que não precisava explicar o motivo de termos feito isso.

Ela suspirou.

— Sei que vocês não confiam nem jamais irão confiar em mim, mas podia tê-las poupado a viagem. Eu conheço os efeitos da opala negra. Já vi o Luc fazer algumas coisas bem loucas por causa dela.

Fui tomada por uma súbita irritação.

— E não passou pela sua cabeça mencionar nada?

— Não achei que poderia ser importante — respondeu ela. — Esse tipo de opala é quase impossível de encontrar, e a última coisa que esperava era que o Daedalus oferecesse uma a um híbrido. Diabos, isso nunca me passou pela cabeça.

Ali estava eu, novamente na mesma posição: acreditar ou não acreditar nela. Cruzei as pernas na altura dos tornozelos e fiquei observando um chumaço de nuvens algodoadas cruzar o céu.

— Certo — retruquei, porque, para ser honesta, não havia como saber se ela estava mentindo ou não. Podia apostar que, se a conectássemos a um detector de mentiras, os resultados seriam inconclusivos.

Serena pareceu surpresa.

— Gostaria que as coisas fossem diferentes.

Bufei.

— Eu também, e provavelmente uma centena de pessoas.

— Eu sei. — ela cavoucou a terra até encontrar uma pedrinha. Com gestos lentos, virou-a em suas mãos. — Andei pensando sobre o que vou fazer quando tudo isso terminar. Existe uma boa chance de que o Chris... esteja meio pancado, entende? Precisaremos ir para algum lugar, desaparecer, mas e se ele não conseguir se misturar? E se ele estiver... diferente?

Meio pancado, que nem a Beth quando eu a vira.

— Você disse que ele gosta de praia. E você também. Talvez seja um bom lugar pra começar.

— Não é má ideia... — ela me lançou um olhar de relance. — O que vocês vão fazer com a Beth?

Diabos, o que vão fazer depois que a resgatarem? O Daedalus vai procurar por ela.

— Eu sei. — suspirei, desejando que o chão me engolisse. — Vamos ter que escondê-la, eu acho. Ver como ela se comporta. Mas um problema de cada vez. Desde que estejamos todos juntos, o resto a gente resolve.

— Tem razão... — fez uma pausa e apertou os lábios. Em seguida, abriu o braço e lançou a pedrinha no lago. Ela quicou três vezes sobre a superfície antes de afundar. Serena, então, se levantou. — Vou te deixar em paz, mas ficarei por perto.

Antes que eu pudesse responder, a surfista se afastou. Franzindo o cenho, arqueei as costas para conseguir vê-la. As margens do lago estavam desertas, com exceção de alguns pintarroxos que ciscavam o chão próximo a uma árvore.

Essa tinha sido uma conversa para lá de estranha.

Deitei de novo, fechei os olhos e tentei forçar o cérebro a não pensar em nada. No entanto, assim que me vi sozinha, imersa num profundo silêncio, mil coisas invadiram minha mente. Sempre que sentia dificuldades em pegar no sono, tentava visualizar uma praia na Flórida que papai gostava de frequentar.

Imaginava as ondas azul-esverdeadas lambendo a areia, num ir e vir constante, e fixava essa imagem nos recônditos da mente, repetindo-a sem parar. Não tinha a intenção de dormir ali ao relento, mas estava tão exausta que apaguei rapidamente.

Não sei bem o que me acordou, mas ao abrir os olhos me peguei encarando um familiar par de um verde cintilante. Sorri.

— Oi — murmurei.

Aqueles lábios cheios repuxaram num dos cantos.

— Oi, bela adormecida...

Ao olhar por cima do ombro dela, vi que o céu adquirira um azul-índigo.

— Você me acordou com um beijo?

— Foi. — Lauren estava deitada de lado, a cabeça apoiada num dos braços. Ao pousar a outra mão em minha barriga, meu coração deu uma cambalhota. — Eu te falei, meus lábios são mágicos.

Meus ombros subiram e desceram numa risadinha silenciosa.

— Há quanto tempo você está aí?

— Não muito. — seus olhos perscrutaram os meus. — Encontrei a Serena de cara amarrada não muito longe daqui. Ela não queria ir embora e te deixar sozinha.

Revirei os olhos.

— Por mais que isso me incomode, fico feliz por ela não ter ido.

— Uau! Os porcos criaram asas! — ao vê-la estreitar os olhos, ergui a mão e, com as pontas dos dedos, afastei uma mecha rebelde que caíra. Lauren cerrou as pálpebras, fazendo-me ofegar. — Como o Christopher está?

— Mais calmo. E você, gatinha?

— Com sono.

— E?

Rocei lentamente os dedos pelo rosto dela, acompanhando a linha da bochecha e do maxilar. Lauren virou a cabeça e pressionou um beijo em minha palma.

— Feliz por você estar aqui.

Com movimentos rápidos, ela abriu meu leve cardigã, os nós dos dedos roçando a camiseta justa que eu vestia por baixo.

— E?

— Contente por não ter sido devorada por um urso ou um coiote.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Como?

Dei uma risadinha.

— Aparentemente, eles são um problema nessa área.

Minha namorada balançou a cabeça.

— Vamos voltar a falar sobre mim.

Em vez de falar, mostrei. Como Lauren diria, era a amante de livros que existia dentro de mim.

Mostrar era muito melhor do que falar. Corri os dedos por seu lábio inferior e deixei a mão escorregar para o peito. Ao erguer a cabeça, ela me encontrou na metade do caminho.

O beijo começou de forma suave e hesitante. Aqueles beijos sedosos instigavam um desejo que vinha se tornando demasiadamente familiar. A sensação dos lábios dela contra os meus, a certeza de saber o que eu queria, acendeu uma fagulha no fundo do peito, e nossos corações aceleraram em compasso, batendo de forma rápida e pesada. Deixei-me perder naquele beijo, me afogar nela, tornar-me ela. Era difícil processar a crescente onda de emoções. Aquilo era ao mesmo tempo excitante e assustador. Eu estava pronta, mais do que pronta, mas ainda assim estava assustada, porque como a própria Lauren dissera antes, os humanos tinham medo daquilo que não conheciam. E tanto ela quanto eu vínhamos "namorando" o desconhecido havia um tempo.

Lauren me empurrou até eu me ver com as costas pregadas no chão e se posicionou acima de mim, seu peso uma perfeita loucura. Em seguida deslizou a mão por baixo da camiseta, suspendendo o tecido, os dedos roçando de leve minha pele. O toque foi ao mesmo tempo enlouquecedor e frustrante. Meu peito começou a subir e descer rapidamente ao senti-la encaixar uma das pernas entre as minhas. Quando ela se afastou ligeiramente, inspirei fundo, tentando recobrar o controle que eu vinha perdendo numa velocidade surpreendente.

— Tenho que parar — disse ela numa voz rouca, fechando os olhos com força, as pestanas roçando o topo das bochechas. — Tipo, imediatamente.

Entrelacei os dedos nas mechas de sua nuca, rezando para que ela não percebesse o tremor em minha mão.

— É, é melhor a gente parar.

Lauren concordou com um menear de cabeça, mas, em seguida, me beijou de novo. Era bom ver que ela tinha tanta força de vontade quanto eu, ou seja, zero. Deslizei as mãos por suas costas, enterrando os dedos na camiseta, suspendendo-a para poder sentir aquela pele quente por baixo, e enrosquei minha perna na dela. Estávamos tão, tão coladas que mesmo que nossos corações já não batessem no mesmo ritmo antes, não faria a menor diferença, pois eles teriam se encontrado e passariam a fazer isso agora.

Estávamos ambas ofegantes. Aquilo era uma perfeita loucura. A mão dela começou a subir por baixo da camiseta, mais e mais, até que cada parte do meu corpo desejou poder apertar o botão de parar e, então, retroceder, a fim de que eu pudesse sentir tudo aquilo novamente.

De repente, ela congelou.

— Ai, meu doce Jesus na manjedoura. Pai do céu, meus olhos! — guinchou Taylor. — Meus olhos! 

Abri os meus. Lauren ergueu a cabeça, os olhos cintilando. Percebi, então, que minhas mãos continuavam espalmadas em suas costas e as puxei de baixo da camiseta.

— Ai, meu Deus — murmurei, mortificada.

Lauren disse alguma coisa que fez meus ouvidos queimarem.

— Taylor, você não viu nada. — em seguida acrescentou num tom bem mais baixo. — Seu timing é impecável.

— Você estava em cima... dela, e suas bocas estavam assim... — podia muito bem imaginar os gestos que ela estava fazendo. Taylor continuou: — E isso é algo que eu definitivamente não quero ver.

Tipo, nunca.

Plantei as mãos no peito da Lauren e a empurrei para que saísse de cima de mim. Em seguida, me sentei e virei meio de lado, mantendo a cabeça baixa para que o cabelo escondesse minhas bochechas vermelhas de vergonha. Observando-a pelo canto do olho, fiquei surpresa ao ver que mesmo que ela estivesse com uma expressão de quem havia surpreendido nós duas nuas no meio de uma transa, em vez de apenas trocando uns amassos, Taylor estava rindo.

— O que você quer, Taylor? — perguntou Lauren.

Ela bufou e plantou as mãos nos quadris.

— Bem, com você, nada. Quero falar com a Camila.

Levantei a cabeça. Pro inferno com a vergonha!

— Quer?

— Ash e eu vamos a uma lojinha nova que abriu em Moorefield no sábado à tarde. Eles vendem vestidos retrô. Para o baile de formatura — acrescentou ela enquanto eu a encarava de boca aberta.

— Baile de formatura? — eu não estava entendendo.

— É, o baile é no fim do mês. — olhou de relance para a irmã, as bochechas começando a adquirir um tom rosado. — Os vestidos vão acabar rápido. Não sei se esse lugar tem alguma coisa interessante, mas a Ash ouviu falar dele e você sabe como ela é no que diz respeito a roupas, uma perfeita consultora de moda. Por exemplo, uns dois dias atrás, ela encontrou um suéter cropped muito lindo...

— Taylor — interveio Lauren com um pequeno sorriso nos lábios.

— Que foi? Não estou falando com você. — ela me fitou, exasperada. — De qualquer forma, você não quer ir com a gente? Ou já encontrou um vestido que nem a Lauren? Porque se tiver encontrado, então acho que não faz muito sentido, a não ser que você...

— Não, ainda não encontrei. — não conseguia acreditar que ela estivesse me convidando para fazer algo. Estava chocada. Esperançosa também, porém profundamente chocada.

— Ótimo! — Taylor deu uma risadinha. — Então sábado está de pé. Pensei em chamar a Lesa pra ir também.

Eu só podia estar sonhando. Taylor queria convidar a Lesa também? O que acontecera que eu não estava sabendo? Olhei de relance para a Lauren enquanto sua irmã continuava falando sem parar, e ela deu uma risadinha.

— Espera um pouco — interrompi. — Eu não estava planejando ir ao baile.

— Como assim? — o queixo dela caiu. — É nosso baile de formatura.

— Eu sei, mas com tudo o que vem acontecendo... não tinha parado pra pensar nisso. — mentira.

Era impossível entrar na escola e não ver todos os cartazes e folhetos sobre o baile.

A expressão da Taylor tornou-se ainda mais incrédula.

— É nosso baile de formatura.

— Mas... — prendi o cabelo atrás da orelha e olhei de esguelha para a Lauren. — Você nem me convidou.

Ela sorriu.

— Não achei que precisasse. Presumi que a gente iria e pronto.

— Bem, você sabe o que dizem sobre pessoas que ficam presumindo coisas — falou Taylor, se balançando para a frente e para trás nos calcanhares.

Ela a ignorou, o sorriso desaparecendo.

— Que foi, gatinha?

Pisquei.

— Como podemos ir ao baile com tudo o que está acontecendo? Estamos tão perto de desenvolver tolerância o suficiente para tentarmos invadir Mount Weather de novo e...

— E o baile é num sábado — retrucou ela, soltando a mão com a qual eu continuava segurando o cabelo. — Digamos que estaremos prontos em duas semanas, ainda assim, será num domingo.

Taylor pulava de um pé para o outro como se estivesse pisando em batatas quentes.

— E serão só algumas horas. Vocês podem interromper o treinamento de automutilação por algumas horas.

O problema não era o número de horas, nem mesmo o ônix. Não parecia certo ir a um baile depois de tudo o que acontecera, depois que a Carissa...

Lauren passou um braço em volta da minha cintura e falou baixinho ao pé do meu ouvido:

— Isso não é errado, Camila. Você merece uma trégua.

Fechei os olhos.

— Por que temos o direito de celebrar e ela não?

Ela colou o rosto no meu.

— Nós ainda estamos vivas e merecemos estar, merecemos fazer coisas normais de vez em quando.

Será?

— Não foi sua culpa — murmurou ela, plantando um beijo em minha têmpora. Em seguida, se afastou, os olhos perscrutando os meus. — Quer ir ao baile comigo, Camila?

Taylor continuava inquieta.

— Aceita logo, assim podemos sair para comprar nossos vestidos e eu não serei obrigada a presenciá-la dar um fora na minha irmã. Mesmo que ela mereça.

Soltei uma risada e olhei para ela. Taylor me ofereceu um sorriso hesitante, e meu peito se encheu novamente de esperança.

— Tudo bem. — inspirei fundo. — Eu vou ao baile... só porque não quero que essa conversa se torne ainda mais constrangedora.

Lauren cutucou meu nariz de forma brincalhona.

— Vou aceitar o que você quiser me oferecer pelo máximo de tempo possível.

Uma nuvem encobriu o céu. A temperatura caiu drasticamente.

Um calafrio percorreu minha espinha, e meu sorriso quase desapareceu. Esse era um bom momento um momento de felicidade. Minha amizade com a Taylor não estava completamente perdida. E um baile não era pouca coisa. Íamos agir como adolescentes normais por uma noite, mas ainda assim a sombra que pairava sobre nós pareceu escorrer para dentro de mim.

— Qual é o problema? — perguntou ela, preocupada.

— Nada — respondi, embora houvesse alguma coisa. Só não sabia o quê.



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