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História Opala - Capítulo 48


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Capítulo 48 - Capitulo 48


Uma das primeiras coisas que fiz no dia seguinte foi convidar a Lesa.

Fiquei animadíssima quando ela ergueu a cabeça e aceitou. O fato de ela ter topado fez com que me sentisse melhor em relação à minha própria decisão.

Era como se tivesse conseguido a aprovação da melhor amiga da Carissa, o que não era pouca coisa. Como eu, Lesa estava um pouco apreensiva de sair para fazer compras com a Ash, e um vestígio de sua antiga personalidade veio à tona através de uma série de comentários ferinos.

— Aposto que ela vai escolher algo ridiculamente curto e apertado e fazer com que a gente se sinta um daqueles feiosos Oompa Loompas. — soltou um suspiro conformado. — Não. Esquece. Mais provável que ela simplesmente fique desfilando nua na frente do espelho da loja.

Eu ri.

— É verdade, mas estou feliz pela Taylor ter nos convidado.

— Eu também — retrucou ela num tom sério. — Sinto falta da Taylor, especialmente depois... Apenas sinto falta dela.

Meu sorriso falhou. Eu nunca sabia como agir quando Carissa surgia no meio da conversa. Por sorte, fomos interrompidas pela Lauren, que resolveu puxar meu rabo de cavalo que nem uma garotinha de seis anos.

E, assim que se sentou atrás de mim, me deu uma cutucada com a caneta.

Olhei para Lesa e, com um revirar de olhos, me virei para ela.

— Você e essa maldita caneta.

— Que você adora. — ela se debruçou sobre a carteira e bateu com a ponta da caneta no meu queixo. — Bom, estava pensando em pegar uma carona com você pra casa. Aquele negócio que temos que fazer vai atrasar cerca de uma hora. E sua mãe já vai ter ido para o plantão em Winchester, certo?

Uma leve descarga de adrenalina se espalhou por minhas veias. Eu sabia o que ela estava insinuando. Sem minha mãe para nos vigiar. E mais ou menos uma hora para ficarmos sozinhas sem interrupções se Deus quisesse.

Não pude evitar um suspiro sonhador.

— Isso seria perfeito.

— Achei que sim. — Lauren se recostou de volta na cadeira, mas manteve os olhos fixos em mim. — Mal posso esperar.

Senti como se estivesse com excesso de oxigênio no cérebro enquanto o sangue disparava por todos os membros. Tonta, apenas assenti com um menear de cabeça e me virei de volta para o quadro-negro. A expressão da Lesa dizia que ela havia escutado a conversa.

Minhas bochechas queimaram ao vê-la erguer as sobrancelhas de maneira sugestiva. Ai, Deus do céu...

Depois da aula de trigonometria, o resto da manhã se arrastou. O cosmos parecia estar contra mim, como se soubesse que eu estava vibrando de energia e empolgação. Ainda assim, estava um pouquinho nervosa. Quem não estaria? Se realmente conseguíssemos ficar um tempo sozinhas sem interrupções e as coisas se encaixassem nos seus devidos lugares...

As coisas se encaixassem nos seus devidos lugares?

Abafei uma risadinha...

Serena ergueu os olhos do livro de biologia, o cenho franzido.

— Que foi?

— Nada. — eu ri. — Absolutamente nada.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— A Lauren te avisou que o Matthew vai ter uma reunião com os pais de um dos alunos depois da aula?

Ri de novo, e ela me fitou com uma cara estranha.

— Avisou.

Serena continuou me encarando por mais alguns instantes e, então, soltou a caneta. Sem que eu esperasse, estendeu o braço e tirou um fio de linha agarrado em meu cabelo. Afastei a cabeça com um movimento brusco ao mesmo tempo que ela puxava a mão de volta, o que deixou meu nariz num ângulo perfeito para sentir o cheiro em seu pulso.

O perfume fresco e cítrico desencadeou uma sensação estranha e desconfortável dentro de mim. Tipo como quando você faz algo idiota e está prestes a encarar uma humilhação pública. Minha pele ficou toda arrepiada.

Uma lembrança ameaçou vir à tona. Aquele cheiro... eu já o sentira antes.

— Está tudo bem? — perguntou ela.

Inclinei a cabeça ligeiramente de lado como se dessa forma pudesse apurar meu olfato. De onde eu conhecia aquele perfume? Com certeza já o sentira antes na própria Serena. Sem dúvida era uma daquelas colônias caras, só que tinha algo mais.

Tal como quando você escuta a voz de um ator, mas não vê o rosto dele. A resposta estava na ponta da língua, e eu não conseguia me livrar dessa sensação irritante.

Por que esse perfume me parecia tão dolorosamente familiar? O rosto da Lauren pipocou em minha mente, mas não era isso. Ela tinha um perfume de natureza, de vento e vida ao ar livre. Um aroma que permanecia um tempão mesmo depois que ela ia embora, nas minhas roupas, no travesseiro...

O travesseiro...

Meu coração engasgou e pulou uma batida. Quase despenquei da cadeira quando a ficha finalmente caiu. Fui tomada por um profundo choque, rapidamente substituído por uma raiva tão feroz que fez com que me contraísse de maneira involuntária.

Não podia continuar sentada ali. Não conseguia respirar.

Uma descarga de estática crepitou por baixo da minha camiseta. Os pelos do meu corpo se arrepiaram. Um cheiro de ozônio queimado impregnou o ar. Diante da turma, Matthew ergueu os olhos. O olhar recaiu primeiro sobre o Christopher, claro, porque se alguém estava prestes a perder a cabeça, esse alguém provavelmente seria ele. Christopher, porém, também estava correndo os olhos ao redor da sala, procurando a origem da crescente estática no ar.

Ela estava vindo de mim.

Eu ia explodir.

Recobrando-me, fechei o livro e o meti na bolsa. Sem perder tempo, levantei, as pernas bambas. 

Minha pele zumbia, com sorte, numa frequência baixa. Uma violenta explosão de energia se espalhou por meu corpo. Só me sentira assim uma vez, quando a Serena...

Passei pelo Matthew, incapaz de tentar responder à sua expressão preocupada, e ignorei os olhares curiosos. Afastei-me o mais depressa possível da sala, respirando fundo para me acalmar. Os armários do corredor pareciam um borrão de cinza. As conversas soavam abafadas e extremamente distantes.

Para onde eu estava indo? O que ia fazer? Procurar a Lauren estava fora de questão. Com tudo o que vinha acontecendo nos últimos tempos, isso era a última coisa que a gente precisava.

Continuei andando, os dedos fechados com força em volta da alça da bolsa. Sentia... sentia como se fosse vomitar. A raiva e o enjoo digladiavam-se dentro de mim. Segui para o banheiro feminino no final do corredor.

— Camila! Você está bem? Espera!

O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés, mas continuei andando.

Serena me alcançou e me pegou pelo braço.

— Camila...

— Me larga! — soltei o braço com um safanão, horrorizada... simplesmente horrorizada. — Não me toque!

Ela me encarou com uma expressão dura e zangada.

— Qual é o problema?

Uma sensação terrível, nauseante, fincou as garras afiadas em minhas entranhas.

— Eu sei, Serena. Eu sei.

— Sabe o quê? — ela pareceu confusa. — Camila, seus olhos estão começando a brilhar. Você precisa se acalmar.

Fiz menção de avançar nela, mas me detive. Estava perto demais de perder a cabeça.

— Você... você é absolutamente louca.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Certo. Você vai ter que me dar uma explicação melhor do que essa. Não faço ideia do que a deixou tão irritada.

Embora o corredor estivesse deserto, não era o lugar para aquele tipo de conversa. Virei e parti para a escada de emergência. A surfista me seguiu e, assim que a porta se fechou atrás da gente, voltei-me novamente para ela.

Não foi meu punho o que a acertou no meio do peito, e sim uma explosão de energia que provavelmente deu a ela a sensação de ter sido alvejada por uma arma de choque. Serena cambaleou alguns passos para trás até bater de costas na porta, a boca abrindo e fechando enquanto as pernas e braços se contraíam.

— O que... — ofegou ela. — O que foi isso?

A energia crepitou sob meus dedos. Queria acertá-la de novo.

— Você tem dormido na minha cama.

Ela se empertigou e esfregou o peito com uma das mãos. A luz suave que incidia através da janelinha no meio da escada iluminou seu rosto.

— Camila, eu...

— Não minta. Eu sei que sim. Senti o cheiro da sua colônia no meu travesseiro. — um gosto de fel me subiu à garganta e a necessidade de soltar o verbo foi incontrolável. — Como você pôde fazer uma coisa dessas? Como pôde fazer algo tão revoltante e assustador?

Um lampejo de alguma coisa cintilou nos olhos dela. Mágoa? Raiva? Não sabia e não dava a mínima. O que ela tinha feito era tão, tão errado que as pessoas em geral conseguiam um mandado de segurança para situações desse tipo.

Serena correu os dedos pelo cabelo.

— Não é o que você está pensando.

— Ah, não? — soltei uma risada curta e sem o menor humor. — Não sei o que mais poderia ser. Você entrou na minha casa e no meu quarto sem ser convidada e... deitou na cama comigo, sua filha da...

— Não é o que você está pensando! — Serena praticamente gritou, fazendo com que a Fonte dentro de mim mostrasse novamente a cara em resposta. Esperei que os professores surgissem subitamente ali na escada de emergência, mas não. — Tenho passado as noites vigiando tudo por causa do Daedalus. Simplesmente patrulho a área, tal como a Lauren e os outros Luxen.

Bufei.

— Eles não deitam na minha cama, Serena.

Ela me fitou com tamanha cara de pau que senti vontade de esbofeteá-la.

— Eu sei. Como eu disse... não foi minha intenção. Foi um acidente.

Meu queixo caiu.

— Você escorregou e caiu na minha cama? Porque não entendo como você pode acidentalmente ter terminado lá.

As bochechas dela ficaram vermelhas.

— Eu verifico toda a área em volta da casa e depois entro só para me certificar. Os híbridos podem entrar na sua casa, Camila, como você bem sabe. O Daedalus também, se quisesse.

O que ela teria feito se tivesse encontrado a Lauren comigo? De repente, a ficha caiu, deixando-me novamente enjoada.

— Quanto tempo você passa vigiando?

Ela deu de ombros.

— Umas duas horas.

O que significava que na maioria das vezes ela teria visto se a Lauren tivesse entrado comigo e, nas outras, arriscara a sorte. Parte de mim desejava que ela tivesse tentado pelo menos uma vez quando minha namorada estava lá. Serena não conseguiria andar direito por vários meses.

Havia uma boa chance de que a surfista deixasse aquela escada mancando.

Ela pareceu sentir o que eu estava pensando.

— Depois que verifiquei a sua casa, não sei... não sei bem o que aconteceu. Você estava tendo um pesadelo.

Imaginei por que razão. Talvez por ter pervertidas dormindo na cama comigo.

— Eu só queria confortá-la, só isso. — ela se recostou na parede, logo abaixo da janela, e fechou os olhos. — Acho que acabei pegando no sono.

— Isso não aconteceu só uma vez. O que não quer dizer que estaria tudo bem se tivesse sido. Está me entendendo?

— Estou. — entreabriu os olhos. — Você vai contar a Lauren?

Fiz que não. Eu podia resolver aquilo. Eu ia resolver aquilo.

— Ela te mataria num piscar de olhos, e a gente acabaria nas mãos do Daedalus.

Serena relaxou, imediatamente aliviada.

— Sinto muito, Camila, não é tão apavorante quanto...

— Não é? Tá falando sério? Não, não responda. Não quero saber. — dei um passo à frente, a voz tremendo. — Não quero saber se você estava apenas preocupada e verificando como eu estava. Não quero te ver na minha casa nunca mais, mesmo que ela esteja pegando fogo. E muito menos na minha cama. Você me beijou... —iInspirei fundo. Aquela sensação horrível estava de volta, travando minha garganta. — Não quero saber. Não se aproxime de mim mais do que o necessário. Estamos entendidas? Fique longe. E pode parar com essa coisa de vigiar, ou seja, lá o que for.

Um lampejo de mágoa cruzou seus olhos e, por um longo tempo, ela deu a impressão de que ia protestar.

— Certo.

Com o corpo inteiro tremendo, comecei a me virar para a porta, mas parei e a encarei. Serena continuava parada sob a janela, de cabeça baixa. Ela correu uma das mãos pelos cabelos.

— Se você fizer isso de novo, irei machucá-la. — a emoção bloqueou minha garganta. — Não me importam as consequências, irei machucá-la.



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