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História Opostos - Capítulo 39


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Capítulo 39 - End.


Fanfic / Fanfiction Opostos - Capítulo 39 - End.

Onze meses depois...

Brilhantes raios de sol penetravam através da janela do quarto de nossa casa na base das Flatirons. Ainda estávamos em outubro, porém uma precoce nevasca já encobrira os picos das montanhas de branco.

O Colorado era realmente muito bonito, ar fresco e árvores por todos os lados. Ele me fazia lembrar minha antiga casa, porém com acesso a muito mais coisas.

Como, por exemplo, um Starbucks.

O qual havia reaberto dois meses antes, bem a tempo de relançar um clássico do outono, o Pumpkin Spice Latte, um sinal seguro de que a humanidade voltaria a prosperar. Os humanos eram provavelmente as criaturas mais resilientes e teimosas de todos os universos.

Algo que os Luxen invasores restantes, os que tinham conseguido escapar dos Arum, haviam aprendido rapidinho. Poucos dias após a batalha, enquanto nosso grupo continuava reunido no norte da Virginia tentando decidir como e para onde iríamos, o restante dos invasores havia partido.

Tinha sido como um Dia D, só que ao inverso.

Por todo o planeta, feixes de luz haviam acendido o céu durante algumas horas. Tinha sido uma visão e tanto, tal como quando eles haviam chegado. Algo que eu jamais esqueceria.

No entanto, todos sabíamos que alguns Luxen talvez tivessem permanecido na Terra. Tampouco podíamos impedir os que haviam partido de retornar. Talvez um dia eles fizessem isso, mas se eu havia aprendido alguma coisa nestes dois últimos anos é que não dava para viver o futuro presa ao passado.

Não era fácil.

Não se passava um dia sem que eu pensasse na minha mãe. Tal como acontecera com meu pai, a dor foi diminuindo aos poucos. Havia, porém, dias em que algo acontecia ou que eu me sentia entediada ou simplesmente com vontade de falar com ela, e nessas horas chegava a pegar o telefone, só para me dar conta de que ela não iria atender. Ela nunca mais iria atender.

Esses dias eram difíceis, repletos de lágrimas e raiva. Sentia vontade de poder ressuscitar o Ethan só para lhe dar uma surra e matá-lo de novo. O ódio, a sensação de impotência e, Deus, a dor tornavam-se quase sufocantes às vezes. Se não fosse a Lauren e os meus amigos, minha nova família, esses momentos seriam insuportáveis.

Olhei de relance por cima do ombro.

 Lauren estava recostada na cabeceira de nossa cama king-size  grande o bastante para acomodar metade da minha turma de economia. Estava com os braços cruzados atrás da cabeça e uma das pernas dobradas. Ela deu uma piscadinha. O gesto, que na maioria das pessoas pareceria um tanto canalhas, nela era sexy.

— Tá gostando da paisagem?

Nem me dignei a dar uma resposta. Em vez disso, virei para o computador, meus dedos pairando acima do teclado do botão de enter, para ser mais precisa. Meu coração batia tão acelerado quanto no dia em que a Lauren e eu tínhamos enviado nossos formulários de matrícula, o dia em que a Universidade do Colorado havia finalmente reaberto as portas e retomado as aulas.

Tinha sido um momento e tanto.

 Ainda me parecia algo extraordinário.

Nós duas estávamos fazendo uma coisa que eu jamais imaginara que fôssemos conseguir. Frequentar uma faculdade me parecera um sonho impossível, mas se tornara realidade. Éramos universitárias tanto a Lauren quanto eu.

Nenhuma de nós escolhera um curso definitivo ainda. Não tínhamos ideia do que queríamos fazer, o que não era um problema. Acabaríamos descobrindo.

— Manda logo — disse Lauren, a voz mais próxima do que eu esperava, o que me fez dar um pulo. Sua risada soprou alguns fiapos soltos do meu cabelo em torno das têmporas. Ela deu um puxão no meu rabo de cavalo, forçando minha cabeça para trás. Em seguida, me beijou com suavidade, quase me fazendo esquecer o que eu pretendia fazer. Lauren, então, ergueu a cabeça e me fitou com um sorriso. — Você tem andado obcecada com isso nas últimas semanas. Manda logo.

Mordi o lábio, o gosto dela ainda em minha boca.

— Vamos lá. — ela pegou uma caneta na minha mesa e bateu com ela na ponta do meu nariz. Afastei sua mão com um tapa, e ela riu. — A viciada em livros que vive dentro de você vai ter um orgasmo literário.

Franzi o cenho.

— Que coisa estranha de se dizer… e um tanto nojenta.

Ela deu uma risadinha presunçosa e soltou meu rabo de cavalo. Seu olhar recaiu sobre a tela do meu MacBook novinho em folha, que eu protegeria com unhas e dentes até meu último suspiro. Chegara até a lhe dar um nome: Brittany, pois tinha que ser uma garota, uma vez que ela era brilhante, vermelha e perfeita, e mesmo que não tivesse dez dedos nas mãos e nos pés, era minha bebezinha.

E eu a amava.

Inspirei fundo e flexionei os dedos. Lauren apoiou as mãos nos braços da minha cadeira e se debruçou por cima do meu ombro. O calor que emanava dela desceu por minhas costas e fez meus lábios se curvarem nos cantos.

Apertei o enter e prendi a respiração enquanto a tela recarregava e abria na página inicial de meu novo blog.

— “Camila’s Krazy Obsession” voltou com força total. — ela me deu um beijo no rosto. — Sua nerd.

Ri ao sentir parte do peso ser tirada dos meus ombros.

— Acho que o rosa e marrom combinaram bem.

Ela resmungou algum tipo de resposta ao mesmo tempo que meu sorriso ganhava proporções assustadoras. Quase comecei a bater palmas. E quase me levantei, derrubando-a no processo, para correr até nosso quarto extra, onde guardara todos os livros minhas preciosidades.

Depois que tudo se acalmara, Lauren e eu tínhamos voltado até minha casa. Archer aparecera, acompanhado da Taylor, e nós quatro havíamos empacotado tudo. Assim que decidimos tentar fincar raízes no Colorado, tínhamos enviado meus livros para lá.

Para mim, retomar o blog era um grande passo. Não se tratava de fingir que tudo estava bem ou de volta à normalidade, mas sim de agarrá-lo pelas orelhas e fazê-lo sucumbir à minha vontade. Resenhar livros era algo que eu amava e sentia uma tremenda falta. Os livros eram uma parte de mim que eu estava, enfim, recuperando, a partir de agora.

— Ei! — Lauren apontou para a tela. — Você já tem um seguidor. — ergueu uma sobrancelha escura. — A “ Irmandade Jovens Adultas ”? Hum, interessante.

 Revirei os olhos com tanta força que chegou a doer.

— Você é tão pervertida!

 Ela mordiscou minha orelha, fazendo com que eu me retorcesse na cadeira. Estendi o braço e fechei o laptop antes que começasse a seguir obsessivamente todo e qualquer blogueiro. Isso ficaria para outro dia, quando tivesse mais tempo.

Lauren recuou um passo e eu me levantei, correndo os olhos pela pilha de revistas no canto da escrivaninha, de onde vestidos de casamento me fitavam de volta, roubando de leve minha respiração.

Baixei os olhos para minha mão esquerda.

O brilhante diamante em meu dedo anular chamava bastante atenção. Às vezes, quando a luz incidia sobre ele no ângulo certo, seu brilho literalmente me botava em transe, e eu ficava a observá-lo por vários minutos.

Íamos nos casar, com direito a tudo: cerimônia, vestido branco, madrinhas e padrinhos, recepção, DJ e, o mais importante, um bolo. Dessa vez seria um casamento de verdade, com nossos verdadeiros nomes. As identidades falsas tinham ficado para trás, embora eu sentisse uma leve nostalgia ao me lembrar delas.

Mas o general Eaton tinha mantido a promessa. O PRG — Programa de Registro Alienígena — não nos afetava, e, até o momento, ninguém reconhecera a gente por conta dos vídeos do incidente em Las Vegas que tinham viralizado na internet.

O PRG era a maneira que o general e o governo tinham encontrado de manter os Luxen e originais não muito amigáveis sob rédea curta. Todos os Luxen, híbridos, originais e Arum tinham que se registrar, todos, exceto a gente. De vez em quando, me perguntava se um dia isso mudaria, o que sempre me deixava de estômago embrulhado.

 Agora que todos sabiam da existência de extraterrestres, e após as coisas terríveis que os Luxen invasores tinham feito, os alienígenas não eram muito bem… aceitos pela sociedade. Diariamente, escutávamos alguma notícia sobre um ataque a um Luxen ou colônia suspeita. Muitos Luxen inocentes tinham sido atacados nos últimos meses, e alguns até mesmo… mortos pelo simples fato de serem o que eram.

Era assustador saber que alguém que a gente via todos os dias podia se virar tão rápido contra você ao descobrir que não estava lidando com um simples humano normal. Que Deus jamais permitisse que a população em geral descobrisse como o ônix e os diamantes, ou até mesmo uma arma de choque, podiam nos afetar.

 As coisas não eram fáceis nem perfeitas, e de vez em quando o futuro parecia incerto, mas a vida não vinha mesmo embrulhada num lindo papel de presente.

Corri os dedos pelos pequenos papeizinhos multicoloridos que despontavam do topo das revistas, e que eu usara para marcar as páginas com vestidos, decorações e bolos que havia gostado.

Ainda que tivesse sido ideia dela, Lauren não era muito bom nessa coisa de planejar um casamento, mas, pelo menos, não resmungava nem reclamava quando eu pegava uma dessas grossas revistas e começava a folheá-la.

Embora ficasse perturbadoramente fascinada com as opções de cintas-ligas.

Ao erguer os olhos, percebi que ela me observava atentamente, daquele jeito que sempre me fazia sentir como se estivesse nua diante dela.

 Um leve calor se espalhou por minhas veias. Mordi o lábio e olhei de relance para o relógio na parede.

— Temos tempo — disse ela, numa voz arranhada feito uma lixa.

Arqueei uma sobrancelha e meu coração pulou uma batida.

— Tempo pra quê?

— Na-na-ni-na-não. Não banque a inocente comigo. — ela contornou a cadeira agora vazia e veio em minha direção, provocando um estremecimento bastante agradável no fundo do meu estômago. — Sei o que está pensando.

— Sabe nada. — recuei um passo e enterrei os dedos do pé no carpete.

— Sei, sim — murmurou ela, com um meio sorriso.

— Você dá ouvidos demais ao seu ego bombado e à sua mente pervertida.

Lauren ergueu as sobrancelhas escuras.

— Jura, gatinha?

 Lutando para conter a vontade de rir, assenti com um menear de cabeça e olhei mais uma vez para o relógio. Tínhamos tempo mesmo. Dei de ombros.

Aqueles olhos verdes escureceram em desafio. Fui tomada por uma súbita e profunda excitação.

— Acho que posso provar que esse não é o caso.

— Deixa pra lá.

Num piscar de olhos, Lauren estava diante de mim. Odiava que ela fizesse isso, de modo que comecei a gritar, mas ela simplesmente capturou minha boca num beijo tão ardente que meus joelhos ameaçaram ceder.

— Só preciso de dez minutinhos — disse ela numa voz grossa.

— O que aconteceu com aquela história de só precisar de dois minutos?

 Ela riu e estendeu a mão, pegando a bainha da minha camiseta e a puxando pela minha cabeça.

— Bom, o que pretendo fazer vai demorar um pouquinho mais do que isso.

Lauren tinha uma capacidade inacreditável de me despir em tempo recorde. Antes que eu desse por mim, estava parada ali, me sentindo um tanto ou quanto exposta.

Ela, então, deu um passo para trás, como se estivesse admirando seu trabalho. —

Se por acaso ainda não tiver dito… — ergueu os olhos, demorando-se em meu peito até o olhar parecer uma carícia. — Vou dizer agora. Eu te quero. Vou sempre te querer.

— Sempre? — murmurei.

 Ela se aproximou de novo, fechou as mãos em meus braços e abaixou a cabeça, traçando a curva do meu maxilar com os lábios.

— Sempre.

 Estufei o peito, me roçando nela. A sensação me acendeu da cabeça aos pés. Lauren soltou um grunhido baixo no fundo da garganta que revirou minhas entranhas. Em seguida, me beijou de novo enquanto suas mãos deslizavam pelos meus braços até se fecharem em minha cintura. Estremeci. Daquele jeito, acho que ela não precisaria nem de dois minutos.

Lauren me suspendeu e eu passei as pernas em volta dela. Sem desgrudar a boca da minha, me levou até a cama e, quando enfim minhas costas bateram no colchão, eu ofegava de tanto desejo.

— Quantos minutos a gente ainda tem? — perguntou ela, tirando a roupa.

Enquanto eu sorria, Lauren se ajeitou em cima de mim e abaixou a cabeça, as pontas do cabelo roçando meu rosto.

— Esqueci completamente de contar.

— Uau! Já? — murmurou ela de encontro à minha boca, passando um braço em torno da minha cintura e me levantando ligeiramente, de modo que nossos corpos ficaram pressionados em todos aqueles pontos maravilhosos. — Estou um pouco surpresa com minha própria habilidade.

Soltei uma sonora gargalhada, que ela capturou com um sorrisinho e um beijo. Depois disso, não houve mais espaço para risos. Lauren traçou um caminho ardente de leves beijinhos pela minha testa e foi descendo, descendo, demorando-se naquele ponto especial até me fazer perder completamente a noção de tempo e esquecer que tínhamos obrigações a cumprir.

Quando ela, enfim, ergueu a cabeça e encaixou o quadril no meu, meu corpo inteiro tremia.

— Camila, por Deus… eu te amo.

Eu jamais me cansaria de escutar aquelas palavras ou de sentir o quanto ela realmente me amava. Envolvi-a pelos ombros e comecei a beijá-la: seu rosto, seus lábios… e, quando ela perdeu o controle, perdi o meu junto.

Não sei quanto tempo durou o ato em si. Eu estava perdida numa enxurrada de emoções, mas quando consegui abrir os olhos, o rosto dela estava pressionado contra meu pescoço e sua brilhante luz dançava no teto.

Um sorriso preguiçoso e satisfeito repuxou meus lábios quando ela ergueu a cabeça e plantou um beijo em minha têmpora úmida. O simples gesto fez com que me apaixonasse de novo. Lauren, então, rolou para o lado e me apertou de encontro a si. Apoiei a cabeça em seu peito e fiquei escutando as batidas rápidas de seu coração, num compasso perfeito com o meu.

Passado um tempo, ela lançou um rápido olhar por cima do ombro e soltou uma maldição por entre os dentes.

— Temos uns dez minutos antes que eles cheguem.

— Puta merda! — Levantei num pulo, dando-lhe um tapa no peito.

 Ela riu ao me ver sair apressada da cama.

— Aonde você vai?

— Preciso tomar um banho. — soltei o rabo de cavalo e prendi o cabelo num nó no alto da cabeça. Enquanto contornava a cama, fuzilei-a com os olhos.

Seu olhar estava concentrado num ponto bem abaixo do meu rosto.

— Não precisa, não.

— Preciso, sim! — abri a porta do banheiro. — Seu cheiro está… grudado em mim!

A profunda risada me acompanhou durante o banho mais rápido da minha vida, o que foi surpreendente, visto que ela entrou no chuveiro também. Um pouco de sabonete aqui. Outro pouco ali. E pronto.

Tive apenas o tempo suficiente para pegar a sacola de presente na minha maravilhosa biblioteca e descer correndo a escada antes que a campainha tocasse.

Lauren passou flanando por mim e seguiu até a porta enquanto eu soltava a sacola rosa sobre o sofá. Ao alcançá-la, se virou para mim.

— Meu cheiro continua grudado em você.

Meu queixo caiu.

Ela abriu a porta antes que eu pudesse gritar e voltar correndo lá para cima. Tive certeza de que devia estar com uma cara engraçada, porque nossos convidados se detiveram na entrada com uma expressão de “Que porra é essa?”.

Ou então o maldito Archer tinha lido minha mente. Um lampejo divertido cintilou em seus olhos ametista.

— Talvez — disse ele de modo arrastado. Estreitei os olhos.

— Você precisa parar de fazer isso. — Taylor passou por ele, o cabelo grosso e liso balançando às suas costas como uma capa brilhante em alta definição. — Vocês sabem o que ele fez ontem?

— Será que eu devo perguntar? — murmurou Lauren.

 O soldado interveio.

— Não.

— Foi o que imaginei.

— A gente estava no Olive Garden e… a propósito, obrigada por contar a ele sobre a porção gigantesca de palitinhos de alho. Acho que já comemos lá pelo menos umas dez vezes só este mês. Daqui a pouco vou começar a cheirar como um alho ambulante. — Taylor seguiu até a espreguiçadeira, despencou nela e começou a bater os pés calçados com sapatilhas no chão.

— Gosto da sopa e da salada — comentou ele, dando de ombros e indo se sentar na poltrona.

Lauren franziu o cenho.

— De qualquer forma — continuou Taylor. — Achei que a garçonete estava dando mole pra ele. Tipo, direto, na cara dura. Parecia até que eu não estava lá.

 Era difícil de imaginar alguém tratar a Taylor como se ela não estivesse lá.

— Pois então, o que eu fiz foi algo completamente normal — disse ela.

— Normal? — Ele soltou uma curta risada. — Ela ficou fantasiando em passar com o carro por cima da pobre coitada. Tipo, nos mínimos e sangrentos detalhes.

Taylor deu de ombros, mas com um só.

— Como eu disse, você não devia espionar os pensamentos das pessoas e depois reclamar do que vê.

— Eu não reclamei — retrucou ele, curvando-se e roçando a boca no lóbulo da orelha dela. — Se bem me lembro, eu disse que aquilo era excitante e que me deixava com vontade de…

— Certo — gritou Lauren. — Esse é exatamente o tipo de coisa que não quero imaginar.

Taylor olhou para a irmã e franziu o cenho.

— Como assim? Você acha que a gente não…

— Pode parar — avisou ela, brandindo a mão. — Sério! Eu já não gosto muito dele. Por favor não me deixe com vontade de arrebentá-lo.

— Mas eu gosto de você — replicou Archer.

Lauren o fitou com uma cara que faria com que a maioria das pessoas saísse correndo na direção oposta.

— Juro que me arrependo de sugerir que a Taylor arrumasse um lugar por aqui. Não teria feito isso se soubesse que a sugestão se estenderia a você.

— Aonde eu for — cantarolou Taylor. — Ele vai também. Somos como uma daquelas promoções: compre um, leve dois. Você tem duas opções: aceitar ou aceitar.

 Meu sorriso ficou ainda maior quando os olhos da Taylor, tão parecidos com os da irmã, encontraram os meus. Isso era outra coisa sobre a qual eu pensava bastante: os “e se”. E se a Taylor não tivesse conseguido romper o controle que os Luxen tinham sobre ela? Será que ela teria morrido na batalha ou sobrevivido? Será que teria deixado a Terra ou permanecido aqui e sido caçada?

Acho que jamais conseguiria superar se, além da minha mãe, a tivesse perdido também. E quanto a Lauren? Não queria nem pensar em como isso a afetaria. Ela ficaria arrasada, destruída. O que já quase havia acontecido quando ela se voltara contra a gente.

Taylor olhou de relance para a pequena sacola cor-de-rosa enquanto jogava o cabelo para trás.

— O que tem aí?

— Ah! — peguei a sacola. — Algo que eu encomendei.

Lauren deu de ombros quando Archer se virou para ela.

 — Também não sei o que é. Ela não me contou.

Animada com o meu achado, enfiei a mão na sacola e puxei o macacãozinho de dormir para que eles vissem.

— O que vocês acham?

Lauren franziu o cenho ao ler as palavras em letra de forma preta.

— Namorados São Melhores em Livros?

Rindo, estiquei o macacão sobre o braço da poltrona.

— Acho que o Christopher e a Beth vão gostar.

 Archer parecia meio confuso.

— Não entendi.

— O que não me surpreende — retrucou Taylor. — Achei muito fofo!

— Eu também. — dobrei a peça direitinho e a guardei de volta na sacola. — Ela vai ficar viciada em namorados literários desde jovem.

— Ela. — Archer balançou a cabeça como se não conseguisse acreditar e soltou um suspiro. — Não sei quanto tempo vou levar para me acostumar com isso.

— É melhor se acostumar logo, porque não acredito que isso vá mudar — replicou Lauren.

— Como você sabe? — o soldado deu de ombros. — Ela é uma das primeiras originais do sexo feminino. Quem sabe do que essa criança será capaz?

Christopher e Beth tinham deixado todos de queixo caído quando ela dera à luz uma menininha. A surpresa fora tanta que a primeira coisa que pensei foi na Nessie, o que me fez rir sem parar por uns 15 minutos.

— Vocês estão prontos? — perguntou Archer, já na entrada, segurando a porta aberta. — Adivinhem quem deu as caras hoje de manhã? — fez uma pausa enquanto a Lauren passava por ele. — Não, idiota, não foi o Justin Bieber e eu não estou apaixonado por ele. Como?

 Lauren riu.

— Quem? — perguntei, antes que a conversa virasse uma discussão. Ele sorriu para mim, fechou a porta e a trancou. Taylor já estava aboletada no banco do passageiro do jipe deles.

Archer iria dirigir.

— O Hunter. Ele veio verificar como a gente estava.

 Lauren me deu a mão e nós trocamos um olhar. Tínhamos falado com ele e a Ariana alguns meses antes. Os dois estavam planejando deixar a casa do irmão dele e seguir para o oeste.

 — Ele já se mudou?

— Já. Na verdade, não está muito longe daqui. Acho que eles foram para Boulder ou para algum lugar próximo, uma vez que a Ariana é dessa região. — Archer pescou as chaves do carro e nós retomamos a conversa assim que Lauren e eu nos acomodamos no banco de trás. — Acho que, mais cedo ou mais tarde, vocês vão receber uma visita deles.

 — Legal — murmurou Lauren.

Todos os sábados a gente ia até a casa do Christopher e da Beth. Mesmo sabendo que a neném já estivesse grandinha o bastante para sair, não achávamos que seria uma… boa ideia. A bebezinha tinha o hábito bizarro de mover coisas sem tocar nelas, fazer os olhos brilharem daquele jeito sobrenatural e, na última semana, tinha começado a levitar.

 Tipo, sair do chão mesmo.

A casa ficava situada num terreno de 4 mil metros quadrados, com uma fileira de árvores frondosas na frente proporcionando uma muito necessária privacidade. Foi o Christopher quem atendeu a campainha e nos recebeu com um sorriso. Franzi o cenho; ele parecia diferente.

Taylor estendeu o braço e bagunçou o cabelo dele.

— Esse é um corte de papai?

Ah! Era isso. O cabelo dele estava mais curto, bem batidinho dos lados e um pouco mais comprido em cima. Combinava com ele.

— Gostei — comentou Archer com um sorriso. Claro, era praticamente igual ao corte dele mesmo.

Beth apareceu na porta que dava para a sala de estar. Em seu colo estava uma bebê sorridente de lindos cachinhos escuros.

— Pedi comida chinesa — disse ela, com uma piscadinha. — Eu ia preparar uma lasanha, mas…

— Ah, comida chinesa está ótimo! — Taylor olhou para mim antes de atravessar correndo o vestíbulo para ir brincar com as bochechas da nenê.

Todos tínhamos aprendido rapidinho que a Beth não sabia sequer fritar um ovo. Pedir comida era uma opção muito melhor.

Estávamos reunidos na sala, e eu não conseguia deixar de me maravilhar com o quanto a Beth parecia diferente. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo alto, o rosto com uma aparência saudável e brilhante. Ela ainda apresentava momentos de… escuridão, quando parecia meio fora da realidade, mas estava muito, muito melhor.

Lauren botou a sacola de presente sobre a mesinha de canto, ao lado da qual havia uma montanha de brinquedos. Em meio às bonecas e aos bichinhos de pelúcia, vi um punhado de blocos de letras formando um nome.

Ashley.

Christopher e Beth terem resolvido batizá-la em homenagem à Ash tinha sido um lindo gesto, perfeito. Se não tivesse sido pelo sacrifício dela, nenhum dos três estaria aqui agora.

— Está vendo? — Christopher acompanhou meu olhar com um sorriso orgulhoso, difícil de ignorar. — Ela fez isso hoje de manhã.

 Meu queixo caiu.

— Ela soletrou o próprio nome?

— Exato. — Beth olhou de relance para o marido. — Ash estava no seu tapetinho, brincando, e, quando vimos, tinha feito isso.

Taylor se acomodou na namoradeira, ao lado do Archer, e fez um biquinho.

— Só aprendi a soletrar meu nome quando já estava, sei lá, na primeira série do fundamental, o que é muito triste, visto que meu nome tem, tipo, três letras.

Eu ri.

— Quer segurá-la um pouquinho? — perguntou Beth.

Seria grosseria dizer que não, de modo que assenti e ergui os braços sem muita confiança. Não era muito boa nesse lance de segurar bebês, mesmo que não fossem recém-nascidos e já tivessem o pescoço firme. Nunca sabia o que fazer com eles. Será que deveria niná-los? Balançá-los para cima e para baixo? E, por Deus, o que eu deveria dizer para eles?

Um segundo depois, a diminuta original estava em meus braços, me fitando com aqueles grandes olhinhos violeta. Rezei para que ela não estivesse lendo minha mente e entendesse o que eu estava pensando.

Porque eu estava um pouco preocupada em deixá-la cair sem querer.

Enquanto acomodava a pequena Ashley de encontro ao peito, ela fechou a mãozinha em dois dos meus dedos e apertou. Com força. Eu ri.

 — Uau! Ela aperta pra valer.

— Ela é bem forte — retrucou Christopher com um sorriso. Beth se sentou ao lado dele no sofá. — Outro dia, ela jogou o ursinho de pelúcia da sala até a cozinha.

— Caramba! — murmurou Archer.

— Ela pode vir a se tornar uma jogadora de softbol — sugeriu Taylor.

Beth soltou uma risada, supreendentemente leve e despreocupada.

— Se a força dela aumentar ainda mais, tenho medo de que arremesse alguma coisa através da parede.

— Bom, isso seria um tanto bizarro — falei para a Ashley, que deu uma daquelas risadinhas de bebê em resposta. Seu olhar se concentrou em algo acima do meu ombro. Era a Lauren que tinha se aproximado. Ela a observava com uma expressão séria e curiosa.

— Acho que ela não gosta muito de você.

Ela riu.

— Todo mundo gosta de mim.

Archer bufou.

Lauren roçou os lábios no meu rosto e passou os braços em volta da minha cintura, me abraçando enquanto eu abraçava a filha do Christopher e da Beth. Ashley estendeu um dos bracinhos e acariciou o maxilar da Lauren com seus dedinhos rechonchudos. Como sempre, parecia fascinada ao tocá-la.

 Talvez um dia eu viesse a segurar nosso próprio filho. Quem sabe? Mas isso só daqui a um bom tempo, tipo, algumas décadas, se é que algum dia aconteceria. A ideia de criar um filho ainda era absolutamente assustadora, tanto para mim quanto para a Lauren, e nós duas preferíamos que continuasse assim. Sentindo seus braços se fecharem ainda mais em torno da minha cintura, soube que seríamos felizes qualquer que fosse o caso. Mas esperava de coração que o terceiro membro de nossa família viesse a ser um cachorro ou um gato. Bebês pareciam dar muito trabalho.

Ashley voltou os olhinhos novamente para mim. Enquanto eu sorria e falava com ela com sons típicos de neném, seus pequenos lábios em forma de arco se entreabriram num grande sorriso e as pupilas escuras tornaram-se subitamente brancas feito diamantes.

— Ela é especial — murmurou Lauren.

Era mesmo.

— Mas você é mais especial ainda — cochichou ela ao pé do meu ouvido. Ri e me recostei nela.

 Ergui os olhos e os corri pelos rostos de todos que estavam ali: Taylor, Archer, Christopher e Beth. E, então, me peguei olhando novamente para aqueles olhinhos brilhantes da Ashley. Ela havia finalmente parado de acariciar o rosto da Lauren e aconchegara a cabeça debaixo do meu queixo, murmurando baixinho enquanto parecia absorver tudo como uma esponja.

Taylor e Beth começaram a conversar sobre o casamento meu casamento, ponderando sobre qual cor eu decidiria para os vestidos de madrinha. Acho que a Taylor estava rezando para que fosse rosa. Archer e Christopher estavam sentados no meio delas, parecendo profundamente confusos com a conversa. Tinha a sensação de que eu jamais iria parar de sorrir

Independentemente do quão difícil viesse a ser nosso futuro, ali estava minha família, e eu faria tudo ao meu alcance para protegê-los, mesmo que um deles estivesse, no momento, babando em minha camiseta.

Uma batida à porta me arrancou de meus devaneios. Corri os olhos pela sala até pousá-los no Archer. Ele sorria feito um idiota.

— Quem será? — perguntou Lauren. — Estamos todos aqui. Christopher se levantou.

— Não faço ideia. Vou verificar.

Continuei olhando para o Archer. Meu estômago deu uma cambalhota. É ele mesmo?

O sorriso dele se ampliou ainda mais.

Prendendo a respiração, me virei para o vestíbulo bem a tempo de ver o Christopher entrar de volta na sala. Atrás dele vinha alguém que a gente não via desde que tínhamos deixado Montana.

Luc entrou na sala com passos largos e fluidos. Puta merda, ele estava ainda mais alto do que da última vez que o vira.

— Como vocês ousam marcar uma reuniãozinha sem me convidar?

Meus lábios se abriram num sorriso de orelha a orelha, e eu quase, quase saí correndo para abraçá-lo. Motivos eu tinha de sobra, mas não fiz isso. Sabia que o Luc não era muito de abraços.

Taylor, porém, jamais entendera essa característica.

Ela pulou de onde estava sentada como se fosse uma mola e envolveu o Luc num de seus épicos abraços antes que ele pudesse reagir. O jovem mafioso me fitou com os olhos ligeiramente arregalados por cima do ombro dela.

Era difícil a gente se referir a ele como um amigo, mas eu gostava de pensar que sim, e meu coração doía de saudade dele. Até onde a gente sabia, a última versão do soro o Prometeu não tinha surtido o efeito desejado na Nadia. Isso é que era chato a respeito do Daedalus. De certa forma, eles tinham boas intenções, e talvez se houvessem tido mais tempo tivessem conseguido produzir um remédio que viesse realmente a erradicar a maioria das doenças humanas.

Mas nem todo mundo conseguia seu final feliz.

Quando o Luc enfim se livrou da Taylor, veio até onde Lauren e eu estávamos e parou diante de nós. Ele, porém, sequer olhou para a gente. Em vez disso, ficou analisando a Ashley como se eu estivesse segurando uma espécie nova nos braços.

O que eu realmente estava.

 Em voz baixa, perguntei:

— Como você está?

Ele deu de ombros.

— Vocês sabem, deixando a vida me levar, seguindo ao sabor da maré.

Arqueei as sobrancelhas.

 Lauren pareceu engasgar.

 — Tá falando sério?

— Tô. É que eu sou cuca fresca assim mesmo.

Sorri enquanto o observava inclinar a cabeça ligeiramente de lado.

— Os originais ainda estão com você?

Ele fez que sim e olhou enviesado para a Ashley.

— Por enquanto. Acho que está sendo bom para eles, porque, como eu disse, sou um cara tranquilo e eles estão aprendendo com o melhor.

Ninguém disse nada, porque o Luc era… bem, o Luc. Sem dúvida os jovens originais estavam melhor agora do que com a Nancy ou o Daedalus, mas o que diabos o nosso amigo mafioso poderia estar ensinando a eles?

Tinha certeza de que era melhor não saber. Tampouco queria saber quem estava cuidando das crianças enquanto ele estava aqui.

— Posso? — pediu ele, estendendo os braços.

Olhei para a Beth, que anuiu com um menear de cabeça.

 — Claro.

Luc tirou a Ashley de mim como se estivesse para lá de acostumado a segurar crianças pequenas. Em seguida, a suspendeu no ar. Ela o fitou de volta como se estivesse analisando o Luc .

— Oi — disse o jovem mafioso.

Ashley respondeu dando um tapinha no rosto dele com uma das mãos e agarrando um tufo de seus cabelos com a outra.

 — Isso significa que ela gostou de você — explicou Christopher, aproximando-se por trás da Beth e do Luc.

— Interessante — murmurou ele.

Ashley soltou uma daquelas estranhas risadinhas de bebê, fazendo Luc sorrir.

— Você é uma coisinha muito especial — declarou ele, praticamente ecoando o que a Lauren dissera um pouco antes.

Luc, ainda com a Ashley no colo, se virou para o Christopher e a Beth e os três começaram a conversar, mas não dei muita atenção. Algo sobre batatas fritas, maionese e lugares estranhos, e isso foi tudo o que precisei ouvir.

— Gatinha? — murmurou Lauren.

Virei a cabeça ligeiramente e, como sempre, fiquei extasiada, tal como acontecia desde a primeira vez que batera na porta dela e acabara com vontade de esmurrá-la. Ela era minha, toda minha tanto o lado espinhoso quanto o carinhoso, brincalhão e amoroso.

— Que foi?

 El roçou os lábios em minha orelha e cochichou uma série de palavras que me deixaram de olhos arregalados e com as bochechas queimando. Reconheci-as de imediato.

Eram as mesmas palavras que tinha escrito num bilhete e me entregara em sala de aula havia tanto tempo.

— Está disposta? — perguntou ela, os olhos verdes cintilando. — Espero que sim. Venho pensando nisso há uns dois anos. Não me desaponte, gatinha.

Meu coração começou a bater feito um tambor, e respondi com a maior sinceridade do mundo.

— Estou disposta a qualquer coisa com você, Lauren Jauregui.



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