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História Orange Juice - Capítulo 7


Escrita por: e DodaOz


Notas do Autor


Quanto tempo, né OwO

Capítulo 7 - Live Your Truth


 

— Como você me faz uma coisa dessas, Rodrigo?!


 

— Ah, cara...


 

Eu dava razão a André por estar bravo, mas que a minha ideia havia dado certo era inegável. Isa foi conversar com ele no dia seguinte do meu "conselho" muito bem articulado, então ele fora naturalmente induzido a falar, o que ocasionou numa situação claramente não muito agradável.


 

— Ela ficou muito brava, eu sinceramente pensei que ela fosse voar na minha cara! — Não parou quieto nem dois segundos, andando de um lado para o outro como louco. — Eu não tiro a razão dela, mas problema é outro.


 

— O Tawan não deve estar fazendo por mal. — tentei enxergar pelo lado positivo. — Preciso conversar com ele.


 

— Não sei se vai adiantar algo... — resmungou.


 

— Vai sim. — coloquei minha mochila nas costas. — Confia no pai.


 

A essa hora o Tawan deve estar no clube de fotografia, então nem adiantava o procurar, melhor conversar com ele na hora do jantar. A partir de semestre que vem eu também vou ter alguma coisa para fazer nesse horário –, isso se eu ainda estiver nesse inferno no semestre que vem...


 

Mas por agora, o que me restava era vagabundear  – que vida difícil a minha – no caso, voltei ao mesmo lugar que costumo ficar nas horas vagas, o parquinho da escola. Era ainda mais bonito a noite, haviam apenas algumas crianças que estavam fazendo um piquenique, então estava tranquilo. Sentei-me no balanço e tirei o meu sketchbook do bolso, e logo estava imerso na idéia do desenho.


 

Ando estudando sobre, e esse lugar tem mais de duzentos anos, já passou por muitas reformas e reconstruções para ser tão conservado, isso tanto da arquitetura quanto do acervo de obras artísticas, pelo menos os alunos respeitavam isso, se fosse no Brasil acho que não tinha nenhuma que não tivesse alguma pichação. A construção teve muita influência da arquitetura austríaca – mais especificamente no palácio de Versalhes – mas foi projetada por um húngaro no século dezoito quando...


 

— Moço! — Uma menininha puxa a barra da minha calça, interrompendo minha linha de pensamento. — Ei moço!


 

— Ah? — acordei para a realidade. — Quer usar o balanço?


 

— Não. — Me estendeu dois pirulitos.


 

— Hum... obrigado? — peguei-os e ela correu de volta até seus amiguinhos.


 

Será que a regra de não aceitar doces de estranhos valia quando os estranhos eram criancinhas fofas? Que seja...


 

— Uma gracinha, né não? — reconheci a voz atrás de mim, que quase me fez cair do balanço. Levantei-me tão rápido que minha pressão deu uma leve dropada.


 

— Ycaro?! — Já faziam quase quinze dias desde a última vez que o vi, já estava concluindo que ele tinha mudado de escola.


 

— Em pessoa. Nunca viu? — sorriu. Parecia tão animado.


 

— Você sumiu! Por onde tu andou, menino?!


 

— Consegui a permissão rosa, passei duas semanas no Brasil.


 

— Podia ter avisado! Eu fiquei doido de preocupado contigo.


 

— Desculpa...


 

Respirei fundo, guardando no bolso os pirulitos e meu caderninho.


 

— Me conta como foi a viagem.


 

E ele me disse cada detalhe enquanto caminhávamos de volta para dentro da escola. Nunca o vi tão feliz quanto estava agora, havia muito tempo que ele não via a irmã, o sobrinho e os demais parentes que não moravam aqui. Fomos ao quarto dele, onde poderíamos conversar com mais calma.


 

— E você? O que ficou fazendo nesse tempo? — sentou-se no tapete.


 

— Tentando resolver uns bagulho aí... — sentei à frente dele. — E sentindo saudades de você. — Brinquei (mesmo sendo verdade...)


 

Por alguns segundos pude o ver visivelmente sem graça, então desviou o olhar.


 

— Q-que bagulhos? — mudou de assunto.


 

— O Tawan aí com fogo no cu. Ele estava meio que com a Isabelle e o André ao mesmo tempo, agora nem sei mais o que que pretende fazer.


 

— Ah...  vai dar tudo certo pra ele. Pros outros sempre dá.


 

— Oi?


 

— É que parece que eu só tenho azar nesses ‘negócio, doido. — suspirou.


 

— Será mesmo?


 

— É.


 

— Hum... sabe, eu gosto de uma pessoa.


 

— E é? — desviou o olhar brevemente, de novo. — E como ela é?


 

— É uma pessoa muito linda... e legal. Meio burrinha, talvez. — ri. — E tenho a teoria de que talvez essa pessoa goste de mim também.


 

Pensei que a essa altura ele já tivesse sacado, mas, pelo visto nunca se deve esperar o previsível dele...


 

— Que sorte. — mexeu no cabelo, um tanto inquieto. — Acho que ninguém nunca gostou de mim, na verdade, nem imagino a possibilidade de isso acontecer.


 

— Não acho que seja assim. — respondi. — Na verdade, pelo contrário, você tem praticamente tudo que alguém ia querer. É fofo, atencioso, bonito...


 

Ycaro corou fortemente ao ouvir o último adjetivo.


 

— B-besteira. — virou o rosto. — Apesar disso tudo, olha quem é que aparentemente tá vivendo um romance!


 

— Pois é... — Me aproximei e segurei seu rosto delicadamente, fazendo-o me olhar nos olhos. — Carlos Ycaro Gabryel, tu ‘é lerdo demais, doido.


 

— E-eu... — prendeu o olhar em mim, enquanto eu reparava em cada detalhe dele. Aqueles olhos castanhos tão atentos, cabelos bagunçados, boca entreaberta. Ele estava completamente corado.


 

Soltei um meio-sorriso apenas algumas frações de segundos antes de ele mesmo tomar novamente a iniciativa e ir em frente. Senti como se estivesse flutuando, como se um peso que eu estive carregando há muito tempo simplesmente fosse embora.


 

Me aproximei mais de Ycaro e envolvi meus braços por cima de seus ombros, sem quebrar o beijo. Ele segurou minha cintura delicadamente ao pararmos, me olhando fixamente, ofegante.


 

Eu ficaria com ele assim um dia inteiro...


 

— Saiko... — sussurrou. — Então sou eu...?


 

— Ainda pergunta? — rio baixo, passando minha mão por seus cabelos e parando em sua nuca.


 

— Nunca se sabe quando algo é só na brotheragem. — sorriu.


 

— Isso parece brotheragem pra você? — segurei seu queixo levemente e arrisquei outro beijo, mais breve.


 

— Eu não tenho certeza... — fez um beicinho. — Mostra de novo.


 

— Mas que pilantra... — puxei-o  pela blusa.


 

Ycaro se ergueu, com uma das mãos apoiadas na madeira da cama, ficando um pouco acima de mim. Não separamos o beijo por um segundo. Sequer durante longos minutos, nem mesmo a falta de ar nos interrompeu. Afinal, nós podíamos ignorá-la.


 

Eu queria fazer uma descrição bela e romântica desse momento, contando o quanto eu aguardei por isso e o quanto foi mágico. Bem, mágico foi, mas não uma cena de cinema daquelas fodásticas e exageradas, mas o real me soa melhor, sabe, sem precisar de uma plot trágico para chamar atenção nos trailers.


 

A intensidade do momento, como é intenso o cheiro dele, sua respiração, a vibe, o calor, e a forma de demonstrarmos que nossos sentimentos são assim, intensos. Não é uma direção de Tarantino ou um romance dos livros de Machado de Assis, é real, tudo.


 

E na realidade, eu não sei se seu papai e sua mamãe já tiveram essa conversa com você, mas quando dois adultos se amam, eles fazem... coisas de adultos que se amam. Mas, pelo ambiente escolar o qual nos encontramos (e talvez um pouco por faltar a parte do "adultos"), preferimos não seguir a partir dali, e nos separamos antes que mudássemos de ideia.


 

Também não era um roteiro de filme colegial americano...


 

— Por que você é assim? — Estávamos deitados de lado no tapete, frente a frente, de mãos dadas. Deviam ser uma cinco e meia da tarde, já estava escurecendo.


 

— Assim como? — indaguei.

 

— Assim, ué. Tão... você. — Ele sorriu. — Ninguém nunca se importou de verdade comigo.


 

Apenas ouvi, quieto.


 

— Acho que eu já tava perdendo as ‘esperança, ’tá ligado? Tipo, eu praticamente tô largado aqui, nas últimas férias não fui pra casa, e as próximas eu vou passar aqui de novo. Ter saído e viajado essa vez foi uma excessão, meus pais nem estavam planejando me levar, eu praticamente estraguei os planos deles. Preferem me deixar em K-12 só pra não precisarem se responsabilizar ou cuidar de nada. — soltou um longo suspiro. — Eu gosto demais de você, doido. Talvez até mais do que eu deveria.


 

— Nunca é demais. — sorri.

 

Mais uma coisa brega que vou dizer, mas a gente ficou mó' cota falando umas aleatoriedades ali, simplesmente apreciando a presença um do outro. É, eu sei, diabetes. Mas é que esse abestado me deixa abestado também, deve ser contagioso.


 

— Não é tão fácil quanto parece... — Infelizmente havíamos chegado naquele assunto. — Mas eu vou conseguir. Eu te prometo.


 

— Eu sei que consegue. — acariciei sua bochecha e ele fechou os olhos. — Mas tem certeza que tu não quer nenhuma ajuda? Talvez se falarem com seus pais...


 

— Só seria mais problema pro meu lado. — suspirou, ainda de olhos fechados, parecia tão tranquilo... — Prefiro deixar quieto, não fala com ninguém não, eu resolvo.


 

Suspirei, fechando os olhos alguns segundos. Começou a chuviscar do lado de fora, pude ouvir alguns relâmpagos, provavelmente choverá forte durante a noite.


 

— Apesar de tudo, pode ter certeza que fora de K-12 vai tudo melhorar. — comentei.


 

— Ainda falta um ano e meio... — Ycaro resmungou.


 

— Ou não... — abri os olhos. — Nunca pensou em, sei lá, fugir? Tipo, eu nunca tentei, mas vai que dá pra simplesmente se teleportar ‘pra fora da escola. Ou, qualquer coisa, é só ficar invisível e sair.


 

— E não terminar os estudos? — revirou os olhos.


 

— Bem, seria uma boa desculpa pra poder ir pra outra escola se K-12 simplesmente sumisse... — soltei um riso baixo.


 

— Té doido? — Ele sorriu.


 

— Eu não. Mas ouvi dizer de algumas meninas que são...


 

Ycaro me olhou com atenção, os olhos brilhavam em curiosidade.


 

— Ó, sabe a mina que tretou com a Kelly no começo do ano? Tipo, a Kelly do fundamental, líder das Barbies. — Ycaro assentiu, continuei — Dizem que ela e o bonde tão planejando algo pro dia do baile que vai pôr fim em K-12.


 

Ycaro parou alguns segundos, como se estivesse esperando a barrinha de loading mental dele encher.


 

— E os coordenadores não fizeram nada? E se for um atentado? E se der errado? Ou pior, e se elas também têm os mesmos poderes que a gente e vão revelar? E se...


 

— Calma, doido. — sorri. — Não vai acontecer nada de ruim, pelo menos não com a gente. O resto que lute.


 

— Ah, doido, sei não...


 

— Ê ‘bixinho burro... — Apertei sua bochecha, enquanto ele manteve o mesmo olhar preocupado. — Que horas são? — perguntei. Já estava escuro.


 

— São... — Ele abriu a mão e encontrou um pequeno relógio, que sumiu segundos depois. — Sete. Você pode ficar mais. — sorriu de canto.


 

— Não tô com muita pressa não.


 

Ycaro levantou-se para fechar as janelas, pois estava começando a esfriar.


 

Aproveitando que ficarei aqui mais tempo, bisbilhotei um pouco, pegando alguns livros que estavam em cima do criado-mudo. Como esperado, em português. Haviam alguns títulos brasileiros como "Dom Casmurro" e "Iracema", outros gringos como "Harry Potter" e "Percy Jackson", indo praticamente da água para vinho no estilo literário.


 

— Mas tu lê hein, doido. — sentei em sua cama, folheando um por um. Alguns tinham dedicatórias, não as li, não tenho direito, mas todos tinham assinatura de "Sua queridíssima mãe", nessas exatas palavras, com algum desenho pequenininho do lado. Narcisista, na minha opinião, mas fofo.


 

— Nem tanto. — Ycaro riu. — A maioria li uns dois anos atrás, tipo, perdeu a graça reler os mesmos. — sentou-se ao meu lado.


 

— Entendi. — Os coloquei de volta no lugar.


 

Ao me inclinar, senti os pirulitos em meu bolso. Os peguei.


 

— Que isso aí? — Ycaro perguntou.


 

— Doce. Uma menininha lá no playground me deu. — Abri um deles e dei o outro ao Ycaro.


 

Tinha gosto de morango. Lembrava aqueles que deixavam desenho na língua. Gosto de infância. Gosto de intervalo de escola. Gosto de troco do pão que mãe mandou comprar. Gosto de lembrancinha de festa infantil. Gosto de... gosto de... de...


 

— Tão cedo e já tá me batendo sono... — Ycaro deitou-se no meu ombro.


 

— Dois... — Bocejei.


 

E não resisti.










 

Um calor crescente dominava o ambiente, como se houvesse plástico e papelão a minha volta – parece estranho, mas senti exatamente isso – me encontrei flutuando num vazio escuro. É difícil de me mexer, mas a sensação é extremamente agradável, deve ser assim que a morte deve parecer. Oh porra, será 'se eu morri?


 

Uma iluminação fraca vinda de trás de mim chamou a atenção, quando consegui me virar, vi que não estava sozinho, Ycaro estava ali, com um semblante tão confuso quanto o meu. Tinha em suas mãos um feixe de luz, quando me dei conta, fiz o mesmo.


 

— Rodrigo... — Me puxou pelo braço até ele, levemente. Segurou-se forte em mim, parecia assustado.


 

Por alguns segundos tive o impulso de o olhar nos olhos, era lindamente hipnotizante. Juntamos as mãos, e as luzes de fundiram em uma só.


 

Incrivelmente acertamos, pois feito isso, surgiu uma figura dentre a luz. Não era possível ver claramente sua aparência, mas basicamente era uma mulher negra, com dreads no cabelo e adereços dourados.


 

Lilith.


 

— Quem...


 

— Todas as suas perguntas serão respondidas em breve — o interrompeu — toda sua provação valerá a pena, assim como seu aprendizado aqui. A dor é o que gera as cicatrizes da experiência no caminho em busca da sabedoria.


 

— Só nos livra disso. — pedi. — Eu imploro!


 

— Continuem juntos, não importa quem julgue ou quem os olhe mal. O mundo é cruel, mas sua felicidade faz valer a pena enfrentá-lo. O amor sobrevive, mas vivam suas verdades.


 

A luz começou a se apagar.


 

— Lilith! Espera...! — Tentei manter a luz, mas foi tarde demais.









 

Abri os olhos de uma vez, sem aquele clássico sono pós-acordar. Pelo contrário, me senti extremamente elétrico. Já era de manhã e eu ainda estava no quarto do Ycaro, estávamos deitados desajeitadamente na cama, um de costas pro outro – praticamente.


 

— Doido... — Ele sussurrou. — Tu também ou...?


 

— Sim. — respondi no mesmo tom.


 

Houve exatos cinco segundos de pausa.


 

— 'Manero... — dissemos em uníssono.


 


Notas Finais


Esse capítulo teve uma leve inspiração em The King In The Sun, uma webcomic feita por artistas brasileiros.
Quem gostar de um romancinho boiola e/ou temáticas investigativas, super recomendo dar uma lida <3 https://tapas.io/series/The-King-in-the-Sun-PTBR


Stream em Lunchbox Friends, o single de K-12!! <3
https://www.youtube.com/watch?v=rYd92fTkg7k

betagem: @Biscuitdoce


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