História Orate - Capítulo 8


Escrita por:

Postado
Categorias Mucc, The GazettE
Personagens Aoi, Kai, Personagens Originais, Reita, Ruki, Tatsurou, Uruha
Tags Aoiha, Dark Content, Fanatismo Religioso, Psicológico, Reituki, Serial Killer
Visualizações 41
Palavras 5.057
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Mistério, Romance e Novela, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Canibalismo, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá, olá! Como estão, galero?
Bem, pra não dizer que eu tô saturada, eu vim deixar esse capítulo aqui logo. Os personagens vão começar a aparecer e vocês vão começar a conhecê-los melhor, então, vão com tudo que haverão tretas. Tretas, tretas!
Obrigada aos que ainda acompanham e boa leitura! :)

Capítulo 8 - Bruxa de Endor


Fanfic / Fanfiction Orate - Capítulo 8 - Bruxa de Endor

Takanori balançava as pernas no ar, para frente e para trás, os cotovelos apoiados no colchão abaixo de si, os punhos servindo de apoio para o queixo enquanto os olhos passavam rapidamente pelas folhas do livro aberto à sua frente. Há poucas semanas havia o ganho de Akira. Ao fundo, Nine Inch Nails começava a cantar sobre a droga perfeita. O livro era de William Gibson, Idoru. Não sabia nada sobre ficção científica ou o gênero cyberpunk, mas estava achando interessante imaginar aquele universo inventado por outra pessoa em sua cabeça. Todo o cenário futurista de hologramas, roupas descoladas, carros que voam e seguem um fluxo no ar; robôs que andam pelas ruas como pessoas reais.

Quiçá o mais interessante de se ler livros fosse aquilo: a capacidade de conseguir imaginar o universo que outra pessoa criou, do seu próprio modo, entretanto. Takanori gostava daquilo; dos universos que criava em sua mente a partir das visões transcritas por terceiros ― da sensação de medo quando Stephen King redigia sobre um palhaço num bueiro; a sensação de adrenalina quando Dan Brown falava sobre um professor correndo contra o tempo no Vaticano, para impedir que antimatéria explodisse; ou o drama e a angústia de Barbara, no livro de Mendal W. Johnson, sobre crianças e clubes infantis nada ingênuos.

A xícara de café estava logo ao seu lado, no chão, a centímetros de distância, a bebida esfriando a medida que submergia naquela obsessão doentia pelas palavras que surgiam, pelo enredo que se desenrolava de maneira bonita aos seus olhos. Porém, não era apenas aquilo que estava fazendo. Seu cérebro captava o que julgava necessário durante a leitura, não era necessário armazenar tudo dentro da cabeça, e parte da sua atenção não estava apenas na música que tocava ao fundo, baixo, mas também no noticiário que estava sendo repassado na televisão de vinte polegadas em cima de um caixote de madeira que havia pintado de branco.

A reportagem, na verdade, era uma gravação que havia feito ― compulsivamente ― de todos os noticiários que falaram sobre os últimos assassinatos relacionados ao Corvo. Aquele havia se tornado o seu mais novo hobbie. A reportagem da BBC que passava naquele momento era de duas semanas atrás, quando tudo ainda estava fresco e, ainda, não havia sido esquecido pela mídia.

 

Após autópsia feita pela polícia, foi identificado que o veneno utilizado para matar William Twinbrook, de quarenta e dois anos, foi uma quantidade letal de Beladona. Aparentemente o veneno foi misturado em uma dose de uísque e servido ao homem em um bar local conhecido como Letarglia. A polícia seguiu em direção ao estabelecimento para investigar os responsáveis pelo bar e reunir provas que pudessem ligar algum dos funcionários ao crime, porém, nada foi encontrado e as investigações parecem ter esfriado, em ocorrência da ausência de provas e informações sobre o paradeiro do assassino. As suspeitas ainda apontam que o provável responsável, foi o serial killer conhecido como Corvo.

 

Takanori pegou a xícara de café, bebericando enquanto virava a página do livro e olhava de relance para a televisão. Havia sido utilizado veneno. Nas duas primeiras mortes o Corvo havia usado as mãos, havia matado suas vítimas com algo metálico e as desfigurado. O responsável pelo assassinato de William não era o Corvo, mas sim outra pessoa que ele não fazia a mínima ideia de quem poderia ser. Revirou os olhos, suspirando frustrado antes de esticar-se no colchão e pegar o controle remoto antigo, desligando a televisão e mergulhando o cubículo em um parcial silêncio. Nine Inch Nails continuava tocando em volume baixo falando agora sobre cada dia ser exatamente o mesmo.

Takanori mordeu o lábio inferior, fitando as páginas abertas à sua frente como se elas fossem uma corda que iria disparar um gatilho na sua direção caso as virasse. Sentia-se pequeno e a cada instante que continuava pensando sobre o caso do Corvo, sentia-se diminuindo, diminuindo e diminuindo. Sua lógica não estava contribuindo consigo. Queria um rastro, qualquer que fosse, mas as notícias e a polícia pararam de comentar sobre aquele caso que deixou de ser quente para se tornar morno; era uma questão de tempo até que esfriasse completamente. Sendo assim, talvez, o Corvo fosse atacar novamente.

Sua próxima vítima talvez fosse alguém do Letarglia novamente. Um cliente, um funcionário. Qualquer pessoa que estivesse ligada àquele bar, à rede oculta que ele possuía, estava sujeita a passar pelas garras de ferro do Corvo. Isso assustava Takanori pois, apesar de não estar na pequena lista sangrenta de padrão de vítimas, Akira trabalhava lá e poderia estar sujeito a ser o próximo. Aquilo o assustava, fazia seu coração dar um solavanco e o estômago embrulhar. O instinto de proteção brotando dentro de si quando sentou-se, marcando a página onde havia parado a leitura com uma dobra na ponta superior.

Não vestia calças, apenas uma blusa grande do Bart Simpson e uma cueca box cinza, deixando as pernas roliças e pálidas a mostra. Apoiou as mãos no colchão, ouvindo algum casal começando a discutir no prédio ao lado, um gato miando, cachorros latindo muito distantes e portas batendo. Estava voltando ao mundo real. Os males e desvantagens de se morar na região periférica de uma cidade grande eram aqueles; sempre haveria alguém discutindo, o risco de ser assaltado caso deixasse a porta destrancada era grande, as pessoas sempre o olhariam dos pés a cabeça e sempre haveria algum maníaco, ou maníaca, que iria estar espreitando para dentro da sua casa. Janela com janela dava nisso ― uma imunda e absurda invasão de privacidade.

Mas não era hora de se preocupar com o homem gordo de bigode como Nietzsche que morava na janela que ficava ao lado do seu quarto, não, aquele era o momento de se preocupar com a segurança de Akira que, manso e cabeça baixa, estava em uma zona de risco. Queria poder tirá-lo de lá, queria poder fazer com que ele fosse liberto das garras do Letarglia. Mas Akira era cria de Gerard, já ele era cria da antiga cabeça do Letarglia; a Enfermeira. Por isso tinha alguns privilégios, por isso que ele vivia onde e da maneira que queria. Nem Ruth, nem Jeremiah ou o próprio demônio do Gerard podiam apontar os dedos para o caminho que ele deveria seguir.

Takanori havia se tornado um filho do mundo, só que muito excêntrico. E era justamente isso, toda a sua excentricidade e complexidade, que faziam com que as pessoas cochichassem entre si, que o respeitassem como se fosse uma aberração que poderia os cortar as tripas apenas com um simples olhar. Mas não, eles não sabiam toda a verdade por de trás de toda aquela personalidade excêntrica; por de trás de todo o olhar maquiado e das calças de listras branco e preto.

Levantou-se e espreguiçou-se, dando poucos passos até estar de frente para a pequena televisão ao canto do pequeno quarto. Em cima desta estava o telefone, moderno com uma tela enorme cinza ― carregando infinitamente pois se esquecia de tirá-lo da tomada quando ficava o dia inteiro em casa. Pegou-o, a tela acendendo-se em uma tela de bloqueio que exibia uma foto do próprio aparelho. Odiava colocar fotos de rostos no bloqueio de tela, sendo assim, quando desbloqueou-o com poucos toques, o rosto de Akira ao lado do seu apareceu. Uma foto antiga.

Não demorou-se ali, dando mais alguns toques na tela antes de levar o telefone ao ouvido. O som característico de uma chamada sendo feita o causando euforia. Ouviu um assobio longo, seguido de mais outros que seguiam o mesmo padrão. Era o bigodudo do prédio vizinho. Precisava providenciar cortinas.

― Aki-chan? ― disse assim que a linha foi atendida por uma voz embargada. Eram cinco e meia da tarde, não era comum que ele estivesse dormindo naquele horário.

― Oi ― disse longamente, baixo.

― Por que você tá falando assim? ― Esqueceu de qualquer medo e receio que estava nutrindo pelo instinto de proteção que, agora, se direcionava a maneira como a voz de Akira estava fanha, em como ele estava falando acuado. Parecia estar doente, ou então não estava apenas adoecido. A linha estava muda, mas ouvia a respiração ruidosa do outro lado. ― Aki-chan, me diz ― gemeu angustiado.

― Ruth...

― Fica onde você está.

Dito isso, desligou.

Foi instantâneo, o sangue começara a borbulhar lentamente pelas suas veias. Ó sim, o ódio estava subindo pela sua espinha e fazendo seus poros se sobressaltarem enquanto o maldito vizinho continuava à janela, vendo suas pernas desprovidas de calça, assobiando como se fosse um pássaro. Porém, por mais que quisesse pegar uma das dezenas de armas que tinha pelos cantos da pocilga onde morava, Takanori se conteve e apenas respirou fundo, andando para fora do quarto. Em meio ao corredor pegou uma das peças de roupa que ficavam largadas por ali, vestindo-a; era sua calça de costume, listrada de preto e branco.

Odiava Ruth Millard com todas as suas forças. A mulher usava e abusava de Akira, um homem que já tinha seus trinta anos, mas que continuava com a sua maldita cabeça abaixada para quem quer que impusesse uma autoridade que não tinha. Tudo que Ruth queria que Akira fizesse, ele faria ― sem questionamentos ou resistência. Aquilo irritava Takanori em níveis absurdos. Não pelo fato de que ele não tinha reação, que deixava-se ser guiado com uma coleira no pescoço por qualquer pessoa, mas porque Ruth sempre usava-o para atingir a si. Sempre naquele jogo doentio, sempre.

O corredor do lado de fora do seu pequeno apartamento era sujo. Haviam mais dez ou treze portas adiante. O cheiro de bolor, humidade e algo podre invadia suas narinas e, caso não fosse acostumado, colocaria para fora todo o café que havia ingerido. Ouvia televisões altas, músicas diversas e pessoas conversando; tudo muito abafado pelo sangue quente que tomava conta de todo seu corpo com intensidade. Trancou a porta e em poucos segundos já estava descendo as escadarias do edifício em direção ao térreo. O elevador estava com defeito há mais de um ano e meio, e ao que tudo indicava, o sindico não estava disposto a pagar pelo concerto da geringonça.

Ao finalmente chegar no térreo, cumprimentou o porteiro que estava quase para morrer com seus setenta e tantos anos, cansado de mais de todos os moradores daquele lugar e de todos os conflitos no bairro ― e Takanori sabia que ele escondia de baixo da bancada do saguão uma espingarda que já fizera grande estrago em desavisados. Saiu do edifício em passos rápidos e decididos, contornando-o para ir em direção à garagem; lá estava a maior fonte de investimento que tinha, uma BMW S 100 RR.

Em pouco tempo já estava montado na moto que era maior que si, mas que estava na palma de suas mãos o guiando com velocidade pelas ruas inóspitas da periferia. Não preocupou-se em colocar capacete ou as vestimentas de segurança necessárias, estava com a mente focada na imagem de um Akira todo machucado e de sorriso triste de anos atrás, quando Ruth havia reconhecido que podia atingir o Matsumoto usando o louro. Era imperdoável.

♦ ♦ ♦

Empurrou a porta de funcionários ao fundo do Letarglia com as chaves da moto em mãos, dando menos de vinte passos até estar na cozinha do estabelecimento. Apenas Tatsurou, o maldito cozinheiro, estava naquele lugar, passando um esfregão pelo chão que sempre estava impecável mesmo durante o horário de pico. Tatsurou não o temia, e Takanori também não o temia, mas olharam-se com o canto dos olhos, não querendo subestimar a presença um do outro no mesmo lugar. Takanori saiu, entrando no saguão vazio do Letarglia. Ouvia vozes distantes, vindas do andar de cima, e podia sentir abaixo de seus pés que estava andando sobre a cabeça de dezenas de pessoas presas dentro de cubículos que deveriam chamar de casa.

Ele foi até a subsolo e, apenas em prostrar-se na frente da grade de ferro que fazia a segurança das escadas que levavam até lá, o acesso lhe foi concedido de prontidão. Aqueles dois seguranças eram maricas que gostavam de ficar jogando baralho enquanto ignoravam os gritos de clemência dos adolescentes e crianças que ainda não haviam se acostumado com o que estava acontecendo-lhes. Andando pelos corredores de cimento limpo, cheiro de produto químico e vento gélido, Takanori sentiu a letargia tomando seu corpo, fazendo com que apertasse as chaves com mais força na mão.

Dias de cão.

Depois de virar por muitos corredores e se distanciar de todos os sussurros que pediam por alimento ou água, ele chegou em uma área extremamente silenciosa. Aquela área era reservada aos mais velhos, aqueles que chegaram primeiro; os sobreviventes, por assim dizer. Praticamente correu por aquele extenso corredor, parando abruptamente na porta de metal que tinha um número setenta e sete transcrito em amarelo. A cor de quem estava no meio termo ― o número oito na porta de Kouyou, por exemplo, era vermelho e representava o mal comportamento e risco que ele poderia vir a ser, mas também, seu privilégio sendo o preferido de Gerard.

Bateu duas vezes, com calma, chamando baixo o nome de Akira.

Os que estavam ali a mais tempo tinham a chave de suas “casas” ― celas como as de uma prisão, frias e úmidas ― e em pouco tempo a porta rangeu em um som metálico asqueroso. A luz era precária lá dentro, mas a dos corredores sempre seria de um branco cegante e, por causa disso, foi capaz de ver perfeitamente os tons arroxeados e avermelhados que estavam no cantos dos lábios do mais novo; abaixo do olho direito; na maçã esquerda; no queixo; na sobrancelha direita.

― O que ela fez? ― questionou choroso, adentrando o pequeno quarto para segurar com gentileza o rosto do outro que sorriu triste. Como sempre fazia. Akira sempre sorria triste para si, como se aquilo fosse uma resposta boa o suficiente, como se aquilo fosse amenizar a dor que estava sentindo tomando conta do meio do seu peito. Aquele sorriso triste era como um “eu ainda estou vivo”; como ele sempre dizia quando dava os porres estranhos, como ele sempre fazia quando acordava e o olhava. ― O que ela fez? ― perguntou mais uma vez, sentindo as lágrimas rolando silenciosamente pelo canto de seus olhos.

Eram lágrimas de ódio e tristeza.

― Ela pediu que eu limpasse o escritório do Gerard pra que quando voltasse, encontrasse tudo limpo. Ela disse que eu era bom pra fazer limpeza ― disse calmo, a voz rouca e cansada. Takanori se afastou, ficando de costas para si. ― Ela pediu que eu esfregasse o chão com uma escova, porque era de madeira e poderia manchar se eu passasse um esfregão. Ela estava lá o tempo todo e, quando eu estava perto da porta, ela me pegou pelos cabelos e me arrastou pra fora. ― Encolheu-se, sentindo o corpo em estado febril. ― Ela me jogou das escadas que levam ao escritório do Gerard, disse que eu estava fazendo um serviço porco.

Takanori virou-se abruptamente na sua direção, incrédulo.

Muita coisa se passava pela sua cabeça. O livro que deixou de ler, o rádio que deixou ligado, o café que deixou para esfriar e ser um depósito para moscas pousarem, o vizinho abusado, as notícias sobre o Corvo; o Corvo em si. Agora havia aquilo, agora havia a maldita Ruth voltando a atacar Reita sem motivo algum, apenas para atiçá-lo, apenas para liberar a besta interior que habitava o corpo pequeno do Matsumoto. Odiava-a com todas as suas forças; era uma mulher medíocre, asquerosa, que não tinha o mínimo senso ou ciência. Não era como a mãe e, por mais porca que fosse, não chegava aos pés do próprio pai. Até mesmo Jeremiah conseguia ser mais asqueroso e lógico que a própria Ruth.

Todo talento que se poderia ter, para o que fosse, era consumido pela necessidade de amostrar-se, pela ansiedade em querer o reconhecimento como alguém de perigo, que deveria ser temida como se fosse um demônio. Takanori admitia que, caso fosse mais lógica, Ruth poderia ser um poço de maldade e bizarrice como a mãe um dia foi. Mas era assustada, desesperada, gananciosa e invejosa. Ela era imatura, mesmo que mais velha, mesmo que estivesse na monarquia de um império de tráfico humano ao lado do pai e do irmão. Uma mulher fresca que poderia morrer a qualquer instante se o salto quebrasse na rua errada e no momento em que Jeremiah estivesse longe de mais.

Burra e histérica.

― Ela sabe o que é um serviço de porco? Ela sabe por acaso o que é a porra de um serviço de porco, aquela garotinha assustada? ― gritou. O rosto estava quente como se estivesse perto de uma grande fogueira no verão, as bochechas estavam coradas e os olhos faiscavam de fúria. ― Seria serviço de porco se fosse ela fazendo! ― Jogou a chave da moto no chão, prendendo os fios ruivos entre os dedos. ― Como ela pode ser tão idiota a esse ponto?

― Ela quer te atingir, você sabe ― murmurou, voltando a sentar-se na cama de ferro ao canto do quarto, o colchão de molas antigo e fino. ― Ela te odeia.

― Se o problema dela é com quem eu sou e o que eu tenho em mãos, é comigo que ela tem que conversar. Você sabe qual o tamanho da covardia que ela tem dentro do corpo, usando você pra me atingir? ― Inclinou a cabeça para o lado, rindo cético. ― É incomensurável, é uma covardia tão grande que deixa bem claro o quanto de medo ela tem de ficar frente a frente comigo. Ruth é o tipo de gente tosca que atinge os mais fracos porque sabe que não chega ao nível de quem quer atingir.

― É como um bandido que não tenta assaltar a casa da moeda porque sabe ser incapaz de arquitetar um plano de mestre, um plano hollywoodiano, porque não tem uma base pra isso e material o suficiente ― murmurou, respirando fundo. ― Mas se você já sabe que ela quer acabar com você, por que nunca fez nada até agora? Não que eu me importe em ser... a ponte.

― Eu me importo com você sendo a ponte ― disse irritado, cruzando os braços. ― Eu não posso fazer nada porque se eu fizer Jeremiah vai ficar extremamente puto e ele pode tirar meu trabalho. Também não posso ficar batendo de frente com Gerard o tempo inteiro, como eu bem entender. Apesar de ser quem sou, eu reconheço meus limites, não sou tão ignorante a esse ponto.

― Você tem medo de Gerard? ― Suspendeu as sobrancelhas, incrédulo.

― Não é medo daquele velho, Aki-chan ― disse e soltou uma risada, passando a mão na testa. ― A questão é que se eu ficar batendo de frente com aquele idiota, ele vai arrumar uma maneira de chegar até mim sem usar você. Diretamente. Ele vai me matar se eu matar a filha dele, porque aquela vadia é querida, mesmo que as prostitutas dele que fiquem em cima da coxa dele como prêmios.

Akira suspirou, deitando-se.

Não estava em condições de continuar mantendo aquela conversa, sua cabeça estava nublada e seu corpo doía; principalmente suas costas e rosto. Os hematomas ardiam, latejavam e quando falava os cantos da boca pareciam abrir vagarosamente, os cortes pequenos abriam espaço para uma ardência que não aguentava por completo. Takanori não poderia ver e nem queria que ele visse, mas por baixo da blusa preta e da calça de moletom cinza estavam hematomas roxos, grandes, que assustavam apenas de olhar. Quando se caí de uma escada, não é apenas os tapas e socos de uma mulher contra o rosto que irão causar marcas.

Apesar de estúpida, Ruth sabia como ser cruel quando queria.

O ruivo respirou fundo, procurando uma maneira dentro de si para controlar toda a raiva e ódio que estava sentindo naquele momento. Para ajudar, andou até onde o namorado estava, sentando-se à beira da cama para pegar uma de suas mãos e entrelaçar os dedos com os seus. Akira o olhou ― os olhos parecendo inchados e menores que o habitual, dando-o uma imagem verdadeiramente de sofrimento. Odiava o fato de que Akira havia sido remexido e remexido da maneira errada; que tivesse sido afetado e modificado da maneira mais doentia e errada possível. Infantilizado, talvez essa fosse ― quase ― a palavra certa a se usar.

Inclinou-se na direção do mais novo, unindo os lábios aos dele de modo carinhoso antes de se afastar. Afagou os fios descoloridos, vendo os olhos do Suzuki se fechando por breves instantes antes de se abrirem novamente. O sorriso triste voltou, assim como a ira que Takanori sentia para com Ruth.

― Já ouviu falar na Bruxa de Endor? ― questionou olhando para a parede, quase que em um transe. Akira conhecia o que estava acontecendo; um lapso de desordem, uma falta de contato com o que era real. Takanori já havia dito-lhe que aquilo era comum. ― É uma personagem bíblica.

― Não. ― Akira franziu o cenho minimamente, o máximo que conseguia por causa do ferimento.

― Saul queria pedir a ajuda dela pra alguma coisa, eu não me importei muito com os detalhes, mas acho que ele queria falar com um senhor chamado Samuel. Ele estava morto, o Samuel. Mas ela previu que ele, Saul, iria traí-la, que iria matá-la. Sabe, bruxaria é um pecado e como ela era médium, conseguiu prever o que ele faria. Saul queria enganar a Bruxa de Endor, Aki-chan. Só que ele duvidou do seu potencial.

― Ele a matou? Jogou-a na fogueira? O que ele fez? ― questionou disparado, baixinho, apenas para arrancar uma risada do mais velho que abaixou o rosto para si.

― Nunca se pode enganar uma feiticeira, Aki-chan. No fim eles comeram pão sem fermento e algum bicho gordo que ela tinha em casa. ― Sorriu. ― Não tem como se enganar aquele que é mais esperto. ― Inclinou-se na direção do mais novo, selando-lhe a testa, as bochechas e, por fim, os lábios ― Eu vou tentar resolver isso hoje. Prometo ― disse sorrindo, levantando-se em seguida.

― ♦ ―

O último andar do Letarglia era onde se localizava o escritório de Gerard e mais alguns quartos que Takanori não sabia para o que, exatamente, serviam. Ao final do extenso corredor que, diferente dos dois primeiros andares, se estendia com paredes de tampos de madeira clara e luminárias caras fixadas às mesmas, garantindo uma iluminação agradável, havia uma escada coberta por um tapete indiano que subia e subia; os degraus pelos quais Akira havia caído naquela manhã. Com o rosto transfigurado em uma carranca intimidadora, Takanori andou um pouco até chegar a terceira porta do corredor.

A maçaneta dourada reluzia quando a apertou com a mão e girou; aberta.

Lá de dentro subiu o cheiro de perfume feminino, o rádio estava ligado em alguma música popular e o som de unhas sendo lixadas fez com que Takanori sentisse um arrepio curto na nuca. Entrou e fechou a porta atrás de si, a cadeira que ficava atrás de uma mesa extensa e arrebatada de revistas de moda e fofoca virou-se lentamente na sua direção. Ruth era ruiva natural, diferente dos pais e do irmãos; tinha olhos castanho claro penetrantes e nariz afilado. Era uma moça bonita sem curvas acentuadíssimas, sendo alta e magra como uma modelo.

― Ora, ora! ― ela cantarolou. ― Já estava sentindo a sua falta, Takanori. Quanto tempo não aparece por aqui, meu anjo? Por que não se senta enquanto eu pego uma dose de café? ― Sorriu com deboche.

― Eu vim dizer pela última vez: não se aproxime do Akira com o intuito de me atingir ― disse levantando um dedo em riste, dando poucos passos até estar no meio do recinto. ― Você quer resolver algum problema comigo? Venha até mim, não use o Akira como um intermediário para me atingir emocionalmente ou psicologicamente. Eu me preocupo com ele, sempre faço questão de cuidar dele e fico triste, mas sabendo das suas intenções eu não vou me deixar abalar ao ponto de querer vir até você pra te arrebentar. Porque é isso que você quer, Ruth.

― Por que eu iria querer que você me arrebentasse, sua criança pequenina? ― debochou.

Aparentemente ela parecia confiante. Quase sempre andava esbanjando confiança. Mas transbordando daqueles olhos castanhos estava o receio; o medo da figura bestial que se materializou na sua frente. Os olhos escuros e o maxilar trincado de Takanori, de certa forma, a assustavam quando dava-se conta.

― Minha querida Ruth Millard...

― Não venha com estes deboches para cima de mim, Takanori! ― Bradou em alto e bom som, apontando o indicador em riste na direção do ruivo que levantou as mãos em rendição, com um sorriso de puro deboche nos lábios, o semblante ainda suave. ― Não é porque você tem privilégios neste lugar e nesta rede que pode se dirigir a mim da maneira que bem quiser. O meu pai pode não encostar um dedo em você, como uma promessa que continua cumprindo, mas Jeremiah pode acabar com sua raça, nanico.

Takanori levou as mãos ao peito, uma por cima da outra, fazendo sua melhor expressão de quem estava ofendido; estupefato com o que havia sido dito. Por dentro ria como uma hiena de Ruth que tinha as bochechas tomadas de um tom muito ligeiro de rosa. Ela o odiava, assim como odiava a Kouyou. A pequena Ruth odiava o fato de que Takanori estava acima de si naquela cadeia alimentar doentia, que Kouyou poderia fazer as rebeldias que quisesse e não iria ser massacrado porque seu pai, maldito Gerard, passava a mão na cabeça daquele prostituto pois o idolatrava ― praticamente uma obsessão.

Desde que a posição superior a qualquer que fosse foi jogada nas suas mãos, Takanori ainda era novo de mais, porém, consciente o suficiente para entender que poderia mover montanhas caso quisesse. Não precisava de muito esforço para fazer o que bem entendesse com Ruth caso ela, obcecada pela atenção que não mais recebia, continuasse usando Akira como uma maneira de atingi-lo.

― Estou me sentindo incomensuravelmente atingido por suas drásticas palavras ― disse com sarcasmo, soltando uma risada antes de revirar os olhos. ― É uma pena te dizer que o idiota do teu irmão não iria ter a mínima coragem de enfiar nem uma agulha no meu braço, porque sem mim, o negócio dele vai por água abaixo. Você tá entendendo? ― Inclinou a cabeça para o lado, franzindo o cenho. ― Você, seu pai ou Jeremiah não podem me atingir, existem consequências, querida.

― Eu já disse para não usar esses deboches comigo, Takanori! ― gritou, pegando o suporte de canetas e lápis, de ferro, o jogando na direção do ruivo que desviou a tempo de não ter o objeto atingindo em cheio o meio de sua testa. Sentiu-se levemente assustado, olhando com os olhos arregalados e sobrancelhas erguidas na direção da ruiva que, naquele momento, respirava descompassadamente.

Desde que Susan havia sumido aquela mulher estava naquele estado, completamente fora de si.

Era fato de que Ruth havia perdido a cabeça quando ainda era pequena, pois ser criada no meio de um comércio oculto de tráfico humano e processos para mudanças comportamentais mexia, decerto, com a plena consciência de uma pessoa quando esta crescia. Ruth era uma desvirtuada; completamente insana, só que besta demais. Bastava não estar no comando de tudo para que aquela insanidade, para que a máscara que acobertava a besta insana que aquela mulher de unhas vermelha era, aparecesse e deixasse seu rosto vermelho como um tomate ― como o sangue que verte de corpos mutilados.

Nunca chegou a machucar alguém realmente, mas Takanori não desconfiava do potencial de ninguém. E apesar de Ruth ser desequilibrada, com ela a situação não seria diferente. Takanori ria fora de si ― por dentro ―, pois ele sabia de uma verdade que os outros preferiam não acreditar. O fato de que a Enfermeira de Garras ainda estava viva, em algum lugar remoto de Londres. Ó sim, ela ainda poderia estar viva. De maneira alguma alguém seria capaz de matar uma besta como Susan. Ela havia apenas sumido, estava vivendo sua vida macabra por aí. Nunca haviam achado um corpo, afinal. Talvez fosse essa esperança que o alimentasse todos os dias, junto com suas doses exacerbadas de café.

― Pela última vez: não se aproxime do Akira.

Takanori disse por fim, virando-se em direção à porta com o intuito de sair o mais depressa possível para se encontrar novamente com o Suzuki. Ele precisava de cuidados, precisava se alimentar. Precisava de companhia acima de tudo, naquele específico momento. Pois apenas Takanori tinha noção de como a mente dele já deveria estar trabalhando de modo auto-destruidor.

Akira, Akira, Akira...

― Volte aqui, seu miserável! ― berrou a ruiva às suas costas.

Tudo havia acontecido de modo rápido de mais para seus reflexos entorpecidos pela preocupação.

Em um instante estava com a mão na maçaneta fria que reluzia, no outro já estava jogado no chão com Ruth em cima de si respirando feito um animal bestial muito enfurecido. Ela tinha em mãos um canivete extremamente pequeno, mas com uma lâmina larga e obviamente afiada erguida no ar. Aquela lâmina apontava na sua direção; Ruth segurava-o pelo colarinho da maldita blusa do filho encrenqueiro dos Simpsons; os olhos dela brilhavam em pura fúria. Havia acontecido rápido de mais, aquilo não deveria estar acontecendo.

Havia ido ali apenas para dar um recado, não para ser ameaçado diretamente de morte com uma desregulada em cima de si colocando chama pelas narinas. Porém, Takanori não sentia medo algum.

Pelo contrário. Muito descontraído ele olhou no fundo daqueles olhos, sorrindo pequeno.

― Você se cansou de ser excluída do ramo por causa da sua falta de coragem em matar alguém, não é Ruth? E me matando você sabe que vai conquistar um respeito além do que pode suportar. Admita. ― Conforme dizia, o sorriso ia aumentando. Aumentando e aumentando, de modo grotesco; perturbador, aterrorizante. A herdeira Millard pareceu vacilar por um instante, afrouxando a mão que segurava o outro. ― Mas se você quer brincar, vamos brincar, Ruth.


Notas Finais


Vocês devem estar pensando "essa garota ficou louca", e não, ainda não tô. Parece que tá tudo correndo, mas é que tudo o que tá acontecendo aqui, é por um motivo maior, BEM maior edfgbjshbgv
Gostaram galero? Às vezes eu sinto falta de leitores que comentavam :c
Enfim, cuidem do Akira, ele precisará >:D
Até a próxima, beijão, é nóis


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...