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História Orfeu e Eurídice - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Lira e aliança


Jotaro...

Jotaro...!

Jotaro!

Levantou-se rapidamente, com sua respiração pesada e dor de cabeça. Tudo ao seu redor era preto, não enxergava absolutamente nada e nem ouvia coisa alguma.

— Kakyoin!

Apalpou o chão atrás de si, procurando pelo corpo dele. Procurou ao redor, e até chamou por seu nome, mas ele não estava mais lá.

— Kujo! — uma voz estrondosa ressoou por aquele vazio, uma que não conhecia.

Quando estava prestes a explodir e encher a tal voz de perguntas, foi interrompido.

— Silêncio! Você está aqui para ouvir. Não tenho muito tempo, então apenas me escute.

O jovem não respondeu.

— Ótimo. Ouça, eu estive observando-vos há algum tempo, até mesmo antes de se conhecerem e...

— Incrível, um outro louco à espreita.

— Não entenda errado, garoto. Eu sou um ser além da sua compreensão e estou aqui apenas como um mensageiro. — disse aquele que sempre se manifestava como o vento.

— Tch, e o que que você quer, então? Onde está o Kakyoin?!

— Você desmaiou, Kujo, aqui nós estamos dentro da tua mente, você pode considerar isso um sonho. — sentiu a aura misteriosa se aproximar, ainda que não a enxergasse. — O corpo dele ainda está no mesmo lugar, porém não mais a alma, como já sabe...

— E então? — mantinha o tom duro, escondendo a dor que sentia ao lembrar daquilo.

— Eu estou aqui para te dar uma segunda chance, Kujo. Então, por favor, abaixe seu tom.

Segunda... chance?

— Como assim?

— Ele está no reino de Hades, no reino dos mortos e, sendo breve, você ainda tem chance de trazê-lo de volta. Porém é dele que estamos falando, meu jovem, não é tão simples convencer Hades de algo.

Jotaro sentiu seu corpo paralisar e seus olhos arderem mais uma vez.

— Eu não ligo. Se eu... — fechou os punhos com força. — Se eu puder tê-lo de novo em meus braços... Eu não me importo de enfrentar quem quer que seja. E mesmo que eu morra... eu vou estar com ele, então será uma vitória.

Ouviu a figura arquejar em espanto com suas palavras e o silêncio se instalou por alguns segundos, antes do ser quebrá-lo ao limpar a garganta e falar:

— Ótimo. Eu posso ajudá-lo a chegar lá, mas apenas até o rio Estige. Depois dali, você estará por conta própria. Você vai encontrar um barqueiro de nome Caronte, sei que encontrará uma forma de atravessar o rio.

E, ao abrir os olhos, estava à margem de um rio. Era um ambiente sombrio, com uma névoa densa e um cheiro forte e terrível. Não queria acreditar que Kakyoin foi obrigado a passar por isso e que, talvez, estivesse sofrendo coisa pior nesse momento.

À margem do rio acinzentado, avistou o tal barco que ouviu de... Oh, pelo jeito ele conseguiu enrolar o Kujo e nem mesmo se identificara.

— Maldito...

Não tinha tempo para desperdiçar com isso, precisava continuar sua viagem. Considerando as palavras da Voz, como o chamaria, esse tal barqueiro não vai ser tão simples de se convencer.

Caminhou em passos incertos até a figura, a névoa densa não o permitia enxergar apropriadamente o chão abaixo de si.

— Ei, o que você cobra para me levar ao outro lado?

Jotaro sabia que dinheiro ou qualquer outra coisa de seu mundo não deveria ter o menor valor ali, e que oferecê-las só o faria parecer idiota. A figura coberta por um longo e desgastado manto preto soltou uma risada de escárnio, movimentando os dedos esqueléticos sobre o remo.

— Eu não quero nada seu, garoto. Eu não transporto vivos em meu barco, volte para casa. — respondeu com sua voz grave e distorcida.

Estalou a língua, apertando os olhos. Não tinha como ameaçar ou espancar um ser sobrenatural, no mínimo não teria efeito algum e, mesmo que o nocauteasse, não saberia o caminho. Então... como?

Ao tentar levantar o braço, sentiu um peso extra sobre ele. Olhou, e viu ali sua lira.

“Mas ela não estava comigo até agora...” pensou, levantando o instrumento na altura dos olhos. “A Voz, talvez...”

Apertou os olhos para Caronte, que estava completamente alheio à sua presença.

— Espere por mim, Noriaki.

Posicionou o instrumento e deslizou os dedos sobre as cordas, projetando toda a sua dor e agonia em cada acorde que ressoava por aquela paisagem sombria. Caminhou a passos lentos em direção ao barqueiro novamente, prestando atenção em sua reação. Ele estava imóvel, e o remo tremia em sua mão.

Ainda tocando, Jotaro arriscou pôr um dos pés dentro do barco. Caronte apenas o encarou com o vazio de onde deveria estar seus olhos, revelando seu rosto esquelético desprovido de pele ou músculos, apenas ossos. O esperado do barqueiro da morte.

Em silêncio, começou a remar até o destino que o jovem pedira, hipnotizado pela música melancólica e agonizante que invadia seu corpo. Jotaro espiou por fora do transporte e, por baixo da densa névoa, jurava ter visto mãos estendidas, como se implorassem por socorro.

Depois de algum tempo, Caronte apenas parou com seus movimentos e encarou o vivo mais uma vez, como se pedisse para que saísse logo. Não foi necessário que pedisse mais uma vez, o jovem já pisava novamente no solo inconsistente, se direcionando para a grande construção não tão próxima dali. Era uma paisagem com fortes tons de vermelho, tomada por serras desreguladas que ficavam ao redor da óbvia morada de Hades.

Levou o que pareciam ser horas para passar por todos aqueles caminhos inconsistentes e de zigue-zagues, mas nunca perdera o castelo de vista.

Os portões estavam abertos e não haviam guardas ali. Jotaro estranhou, mas entrou de qualquer forma, tocando novamente sua lira, por precaução.

Cérberos invadiu sua visão, pronto para arrancar sua cabeça, mas foi paralisado pela melodia dolorosa e, tomada pela tristeza, voltou para onde veio.

Jotaro encontrou uma grande porta dupla, que provavelmente dava para a sala de Hades. Respirou fundo e vestiu o olhar mais determinado que conseguia. Posicionou as mãos sobre a madeira avermelhada e sentiu seu corpo querer vacilar, o que não permitiu que acontecesse.

Empurrou as portas com toda a sua força e estas abriram até a metade, ficando paralelas entre si. A figura majestosa em seu trono tornou a atenção para o invasor e a ciência de que um mortal invadira seu reino e conseguira chegar até ali o encheu de ira.

— O que um vivo faz aqui?! — sua expressão de ódio fazia seu rosto retorcer e se transformar numa imagem extremamente perturbadora — Vá embora, mortal! Ou eu mesmo...

— Noriaki Kakyoin — num movimento audacioso, interrompeu a divindade. —, eu o quero de volta. Foi para isso que vim.

Hades desfez seu rosto odioso e antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Jotaro tomou a lira.

“Essa é a minha melhor arma nesse lugar.”

O Kujo fechou os olhos, transmitindo toda a sua dor naquele golpe final. Não queria voltar de mãos vazias disso tudo, e não iria. Se fosse para voltar sem ele, preferia ficar logo aqui. Seu peito doía e ardia em cada corda que puxava e seus dedos começavam a calejar, mas nunca que isso iria impedi-lo de conseguir o que queria.

Uma lágrima desceu sua bochecha e seus olhos se abriram, encontrando Hades, em sua grandeza, chorando lágrimas de ferro.

“Isso.” Jotaro pensou, sentindo alguma esperança retornar.

— Deixe-o levar, Hades. — uma mulher que Jotaro não fazia ideia de onde aparecera, pediu ao deus. Ela estava aos prantos. — Por favor!

A mulher, a quem Jotaro deduziu ser Perséfone, sua esposa, implorava ao deus do submundo pela libertação da alma de Noriaki. O deus se manteve em silêncio por algum tempo, erguendo os olhos ao Kujo quando estava recomposto e era como se nada tivesse acontecido.

— Eu o deixarei ir, mas há uma coisa que quero avisá-lo, mortal insolente.

O deus se ajeitou em seu trono, inclinando o corpo para frente.

— Você não deve, em hipótese alguma, olhar para ele enquanto não chegarem à luz do sol. Em hipótese alguma.

Jotaro engoliu seco com tamanha presença e capacidade de intimidação, afinal de contas, era o deus do submundo à sua frente.

— Ele ficará nas suas costas, andando aonde você for assim que sair do meu palácio. Agora, suma daqui. Já me trouxeste complicações o suficiente.

Em total silêncio, Jotaro abaixou a lira, virou de costas e saiu do grande salão. Passou por onde encontrara Cérberos e logo atravessou o grande portão escuro da construção.

Ao dar o primeiro passo para fora, ouviu também um atrás de si. Sorriu.

— Peço perdão... por não ter te protegido. — apertou a lira em mãos, sem ter certeza se Kakyoin poderia respondê-lo.

— Você sempre vai ter o meu perdão, no entanto, isso ainda não acabou.

Jotaro paralisou. A voz, aquela voz, novamente havia invadido seus ouvidos e nada poderia descrever tamanho alívio que sentiu. Começou a chorar ali mesmo, lutando contra si mesmo para não se virar ali mesmo e abraçar Noriaki com todas as suas forças.

— Vamos, Jotaro. — foi quando sentiu um toque em suas costas, porém não era um toque comum: ele se assemelhava à leves plumas deslizando pelo tecido de sua roupa. Isso o lembrou, ele ainda não estava vivo.

Recompôs-se e respondeu com um simples “certo.”

O caminho de volta parecia mais leve de se passar do que quando ia. As passagens estreitas e solos íngremes pareciam menos desafiadores quando o próprio coração parecia mais leve. Ergueu a lira em um certo momento que faziam uma caminhada plana, tocando melodias de alegria e celebração e assim o fez durante todo o caminho de volta.

Passaram novamente por Caronte, que estava à margem do rio. Ele apenas olhou para o Kujo e meneou com a cabeça, não sendo necessário hipnotizá-lo com fizera. Atravessaram o pavoroso rio e entraram no túnel que ficava não tão longe dali.

A luz do final era visível e Jotaro se alegrou mais uma vez. Ele, mais uma vez, poderia sentir seu toque, seu beijo, seu cabelo macio e sua mecha fazer cócegas em seu rosto. Ouvir a voz dele... sentir o cheiro...

Como ele sentia falta disso.

Queria de novo caminhar pela floresta com ele, vê-lo tentar conversar com os pequenos animais com aquele rosto sereno que roubara seu coração e todos seus pensamentos. Quem sabe propusesse que dividissem uma morada, para que tivesse como protegê-lo sempre e pudesse, pra sempre, ter a companhia dele. Porém...

— Ugh- — e um alto barulho de queda.

A mente de Jotaro estalou em alerta.

Kakyoin estava em perigo.

— JOTARO! NÃ...

Ele se virou.

Noriaki estava bem ali, à sua frente.

Havia sido apenas... uma queda, um simples tropeçar.

Mas já era tarde, seus dedos começaram a rachar e virar poeira.

— K-Kakyoin- — correu em sua direção, mas a poeira tomava conta do corpo do ruivo, e ele desintegrava rapidamente. Não havia mais o que fazer.

Lágrimas tomavam conta de ambos os rostos e a aparência translúcida de Noriaki o dava um traço fantasmagórico.

Tentou abraçá-lo, mas não havia mais consistência em seu corpo. O ruivo tentava agarrá-lo desesperadamente, mas era inútil. Completamente inútil.

— Eu te amo, Jotaro. Eu sempre v... — e tudo se esvaiu.

Abaixo de si havia pó, cinza, opaco, que se espalhou por todo o túnel com o vento que vinha de fora.

Sem vida no olhar, caminhou até a saída e caiu e joelhos ao sentir a grama nos próprios pés. Em uma das mãos, a lira, na outra, o anel que firmava a aliança eterna deles.

O vento soprou, frio e triste.

Soltou um grito sôfrego, rouco e melancólico.

O seu último antes de perder a consciência... e o resto de sua vida para a culpa.


Notas Finais


eu sinto que minha escrita teve um downgrade comparado com o capítulo anterior, mas eu tinha que parar de procrastinar. então eu espero que tenham gostado. até uma próxima.


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