1. Spirit Fanfics >
  2. Origamis (Lee Taeyong) >
  3. The end

História Origamis (Lee Taeyong) - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Antes de tudo, sejam muito bem vindos♡ Para quem já está familiarizado com o meu perfil, imagino que não vão demorar a ligar os pontos e ver a importância desse texto, para a compreensão de um outro já postado. Para quem não, a preocupação não é necessária, creio eu. Esquematizei para que a leitura fosse possível e prazerosa (eu intento) ainda assim.

"Origami" é o spin off (que ao mesmo tempo não é spin off) de "008 - Musa".
Meu objetivo central é esclarecer aqui questões que ficaram em aberto (propositalmente) na primeira parte... que na verdade é a segunda. Vocês vão entender, com o tempo.

(Eu espero.)

Por fim, gostaria de sugerir algo. É costume meu ouvir músicas enquanto escrevo, e por consequência cada texto acaba tendo parte da influência da letra sobre mim. Então, a quem interessar e poder, ouçam Mood - Marteen ft. Taeyong; é um pop teen com a vibe perfeita para esse primeiro momento. Aceitar quem somos, as mudanças e as cicatrizes do nosso passado como forma de crescimento é uma das mensagens que pretendo transmitir com minha escrita.

Boa leitura à todos♡.

Magá~

~~~~✴~~~~

Capítulo 1 - The end


Fanfic / Fanfiction Origamis (Lee Taeyong) - Capítulo 1 - The end



- Só mais uma vez, ouviu? - ela me pergunta, sua voz doce e melodiosa não permitindo que ela imponha o devido tom autoritário à sua fala. Concordo com um meneio de cabeça, minha mente focada demais naquilo que ela está prestes a fazer, para conseguir processar algo tão desnecessário quanto palavras. Parece ser o bastante para ela. Que sorri. O sorriso que tanto amo. - Preste bastante atenção, eu só vou fazer mais essa vez. - reforça o alerta, seu olhar se desviando do meu, embora ela não precise, necessariamente, baixar os olhos para acertar. Suas mãos são precisas.

Mais do que precisas. Elas são impecáveis. Disponho de toda a minha atenção nesse momento, toda a minha concentração é dela nesse instante. Mas meus olhos parecem lentos demais para acompanhar, enquanto a delicada folha de papel de seda é dobrada e achatada por seus dedos finos. Pouco a pouco, enquanto se embaralham as sinapses em meu cérebro, a antes singela folhinha vai adquirindo nova forma. Um apertão aqui. Uma quina ali. E, voilá!

- É um cisne! - exclamo, em minha euforia desmedida. Mais uma vez, ela apenas sorri. Eu já disse o quanto amo o sorriso dela?

- É. É sim, Tae. - ela concorda. Me encara. Bem no fundo dos olhos,como ela sempre faz. É uma das poucas pessoas que faz isso. Meu terapeuta diz que é porque às vezes meus olhos parecem grandes demais. E isso assusta as pessoas. Mas, é claro... Ele não disse isso para mim. Ele só conversa com a minha mãe. Para mim, sobram apenas as perguntas. Chatas e infinitas perguntas. "Você está bem?" , "Como se sente hoje?" , "Você parece chateado, aconteceu algo?". Ele não quer realmente saber sobre mim. Eu sei. Mas ele não sabe que eu sei. É divertido. - Você ainda não pegou, não é? - é uma pergunta retórica. Ela sabe que não. Mas, ainda assim, me sinto um pouco constrangido ao assentir. Ela não me julga. Na verdade, ela não diz nada. Por um período que me parece muito longo. O bastante para eu concluir, mais uma vez naquela semana, o quanto gostaria de ser mais esperto. Mas, mais uma vez, ela não diz nada. Suspira, seus dedos sendo delicados ao repousar a delicada composição sobre a mesa. Onde ela fará companhia aos seus similares. Uns quinze ou vinte. Ou mais. - Tudo bem. Você vai aprender.

- Você acha? - não consigo deixar de perguntar. Eu sei que pode parecer chato, mas eu realmente não tenho certeza. Não ter certeza é horrível.

- É claro que vai! Quando chegarmos na casa da vovó, vou pedir a ela alguns papéis de carta. Faço mais alguns para você. - anuncia. E então se levanta, nessa suavidade de bailarina que ela sempre teve e que combina tanto com ela. Bate as mãos nas pernas da calça jeans, embora não haja sujeira nenhuma da qual ela precise se livrar. Ao contrário de mim.

Estou coberto de tinta. Sou praticamente uma aquarela ambulante, desapareço em meio aos tons de verde, amarelo e azul que me banham, dos pés à cabeça. Me pergunto quando foi que passamos da pintura às dobraduras. Não encontro. Às vezes tenho esses lapsos de memória. Minha médica diz que são normais. Correção. Minha médica diz à mamãe que eles são normais. Alguma coisa sobre meu cérebro ser um pouco mais lento e menos consistente no quesito separar as lembranças. Não sei ao certo. E nem me importo. Só quero me levantar, também, me perder num banho quente e colocar uma roupa mais quente - é a estação das chuvas agora, e o frio faz meus dedos ficarem mais enrugados que o normal. Normal...

- Okay... eu ajudo você. - ela suspira, mais uma vez, aproximando-se para me ajudar com as dezenas de pilhas de papéis que tenho no colo. Como ela percebeu que preciso de ajuda? Não sei. Deve ser esse tal instinto feminino... esse sexto sentido do qual ela vive falando. Minha irmã está sempre falando. Ela é falante. Ela é normal. Eu que sou esquisito. - Prontinho! - anuncia, sorridente, colocando os papéis sobre a mesinha, de um jeito que eles não amassem sua nova coleção de cisnes de papel. Meus cisnes de papel, me corrijo. Sei que, se eu pedir com jeitinho, ela me deixa ficar com eles. Quem sabe os olhando mais de perto... desmanchando alguns... eu não consiga fazê-los, também. Uma nova habilidade não me faria mal. Ainda que uma pequena. Não sou a pessoa mais coordenada, física e mentalmente, que conheço. Mas aí já entra o fato de que eu não conheço muitas pessoas. Elas não costumam se aproximar o bastante para que eu as conheça. É. Algo a ver com o fato de eu ser esquisito. De novo. - Por que você não vai lá em cima e toma um banho? - ela me questiona, bloqueando a tela de seu celular e o guardando no bolso do jeans, mais uma vez. Ignoro o fato de que mal a vi pegá-lo e uso esse tempo para lhe dizer que era exatamente isso o que estava pensando em fazer. E é então que ela resolve fazer jus a mais um de seus hábitos - apertar minhas bochechas.

Amo minha irmã. Mas detesto quando ela faz isso. Faz eu me sentir mais novo do que realmente sou. Não que treze-quase-quatorze seja lá uma idade muito avançada. Mas você entende o que eu quero dizer. Eu acho.

- Meu irmãozinho esperto. É claro que estava! - ela ri, finalmente soltando meu rosto, a essa altura dolorido. E continua rindo, enquanto eu massageio o local afetado com uma expressão sofrida no rosto. Taehee uma vez me disse que tenho dotes de ator. Eu desconfio que ela estivesse apenas adulando meu ego. Ela está sempre adulando meu ego. - Agora vai. Vamos, que Youngho estará aqui em breve e você sabe que ele detesta atrasos.

Youngho é o namorado chato da minha irmã. Ele me causa calafrios.  Não por ser mau nem nada. Youngho é até legal. O problema é que ele não liga muito pra mim. Bem, isso não seria exatamente um problema, se eu já estivesse acostumado. A parte ruim é justamente que eu não estou. Mas ele não tem exatamente culpa nisso. Ou talvez tenha. Ainda não decidi. Vou ter tempo para isso, nas próximas duas horas que vamos passar confinados dentro da lata de sardinha que é o carro da Taehee. Eu. Taehee. Youngho. Argh!

- Tudo bem. - dou de ombros, desistindo de qualquer embate maluco que possa vir a ter com ela. Dou-lhe as costas, caminhando a passos curtos e rápidos para fora da sala. Nunca fui de correr. Mas também não sou fã de andar devagar. É fácil para mim cair nos extremos. Alguma coisa sobre meu senso de equilíbrio e... quer saber? Ninguém está interessado nisso. Nem eu, na verdade. Saber ou não disso não vai influenciar em muita coisa. Eu sei. Vou continuar caindo.

Subo os degraus da escada, um a um e com cuidado extra nos últimos, minha mão firme no corrimão, rumo ao segundo andar. A casa dos meus pais não é bem uma mansão, mas, hey, é grande o bastante para precisarmos de escadas em quase todos os cômodos. Estranho? Talvez. Para mim não. Mas deve ser porque eu passei a minha vida toda (treze-quase-quatorze) por aqui. Então, já devo ter me habituado a essa infinidade de lances, degraus, subir e descer que é preciso fazer por aqui. No começo, meus médicos haviam se preocupado se seria bom ou não para mim, essa quantidade de esforço físico para ir de um ínfimo ponto ao outro. Mas, depois, haviam deixado para lá a ideia de se manifestar. Se por uma avalição clínica ou pela análise da carranca de minha mãe diante da possibilidade de ter de mudar-se para uma casa menor por causa da incapacidade de seu filho caçula, nunca saberemos. E talvez eu esteja melhor assim.

Talvez o amor dela tenha se esgotado todo logo de uma vez, quando a Taehee nasceu. Não fui uma gravidez planejada. Ela não estava preparada para ter que dividir as atenções entre nós. E quando eu nasci, bingo! Já não havia uma gotinha sequer na qual ela pudesse se apoiar. Eles acabaram sendo surpreendidos com a minha existência não programada, primeiro. E, claro, depois da minha existência ainda tinha o meu adicional. Não só eu era seu bilhete premiado, como um bilhete premiado que não poderia ser abortado. Não, não. Uma interrupção seria demais para o pobre organismo debilitado de mamãe. Ela precisaria me aturar.

Me aturar.

Ela me atura até hoje.

Mas mesmo com todas as evidências do contrário, as vezes eu continuo me iludindo.

Penso que é bom para mim, pensar que, ainda que nas mais obscuras profundezas de seu coração vazio, minha mãe tenha pelo menos um pouquinho de afeto por mim.

Afinal, é isso o que as mães fazem, certo? Amam os filhos.

Ao menos as mães normais.

Mães normais tem filhos normais. Eu já tinha escutado algo parecido em algum lugar. Eu só não conseguia me lembrar se tinha sido da boca dela... ou de qualquer outra pessoa. Fazia alguma diferença?

Não fez. Por bastante tempo. Até agorinha há pouco, quando me lembrei disso, ao menos.

É... confuso...

O vidro do boxe desliza, sem oferecer muita resistência à pouca força que emprego sobre sua maçaneta. A porta deslizando calmamente por seu trilho, deixando sair não somente o vapor que se acumulara do lado de dentro, mas a mim próprio. Tenho o cuidado de não tropeçar nos meus próprios pés, ou nos meus próprios chinelos, ou mesmo no próprio chão, enquanto, perigosamente e contrariando todas as normas de saúde e segurança, guio a mim mesmo para o lado de fora do banheiro - e, não. Não há nenhuma olhadela final no espelho. Não preciso saber como estou hoje. Eu já imagino. Despenteado e de cara amassada seriam bons começos.

Nunca fui muito fã de espelhos. E, desde aquele pequeno incidente para cá, me tornei ainda mais arisco a eles. Não preciso me lembrar que ela existe. Não mesmo.

E, ah, droga. Acabei de me lembrar...

Suspiro, conformado com minha pequena derrota, escorregando pela porta de comunicação do banheiro para meu quarto. Encaro as peças previamente selecionadas sobre a colcha macia e fofinha que recobre minha cama. Meu quarto é simples, se comparado ao que outros garotos em uma posição como a minha iram requerer. Tenho uma cama grande. Um guarda roupa bom o bastante para suportar minhas roupas e eventuais tralhas que eu decida jogar por lá. Uma escrivaninha, onde guardo meus materiais de desenho. Um criado mudo, com um abajur e um despertador. Duas prateleiras sobre a cama. Com mais livros do que aquelas pobres coitadas poderiam suportar em sete vidas úteis. E uma janela.

Acho que me esqueci de mencionar que amo o sol. Eu amo o sol. Pronto. Está feito.

Me desfaço da toalha, sendo ágil o bastante para me vestir sem ter um ataque de tosse e espirros pela mudança brusca de temperatura corporal. Se eu puder dar um conselho a vocês, não tenham sinusite. É horrível.

Com o cuidado todo possível em meio a pressa, puxo para baixo a barra do moletom azul, meu olhar correndo uma e outra vez pelo que posso enxergar da peça, fazendo os últimos ajustes em meu corpo. Como se era de esperar, ficou um pouco apertado. Sou um tanto mais alto do que a maioria dos garotos da minha idade, mas nunca vi grandes problemas nisso. Não, até agora.

E é com a pontinha de tristeza pela constatação de que terei de abdicar em breve do meu moletom preferido que desço as escadas, arriscando pular alguns degraus conforme as vozes chegam até mim. A mais grave delas é, sem dúvida, Youngho.

- Ele ainda não está pronto? - questiona, enquanto ainda estou a uns bons metros de distância. Parece impaciente. Bem, um pouco mais do que de costume. Acho que é o mal de se trabalhar em um escritório: você acaba ficando meio paranóico com horários. - Você disse que saíriamos às três, Hee... - minha irmã, até então oculta no meu campo de visão, surge, uma expressão divertida em seu rosto mais do que lindo.

- Eu sei, John... mas relaxe... ele só se atrasou alguns minutos... - suspira, audivelmente, aproximando-se do namorado para ajeitar algum fio imaginário em sua jaqueta caramelo claro. Reviro os olhos, decidindo que essa é a minha deixa para entrar em cena, antes que os dois decidam ir aos beijos bem ali, na minha frente. Julguem-me, mas não me sinto confortável quando as pessoas começam a se agarrar na minha frente. Fala sério! É horrível. Me afasto da escada, da qual nem sequer tinha percebido que chegara à base, pigarreando uma e outra vez até que eles me notem. E, quando o fazem, vejam só! Eles continuam próximos. Argh...

- Olha ele aí! Finalmente! - anuncia desnecessariamente Seo. Contenho a vontade de lhe dar uma retórica mal educada, mordendo parte da língua para me segurar. Aigoo... como ele consegue ser tão desnecessário às vezes. Felizmente, o silêncio é quebrado, embora não seja por mim.

- Deixe-o em paz, Johnny. - ela o repreende, acertando as costas de sua mão com um tapa leve demais para o meu gosto. Mas que não deixa de ser satisfatório. - Está tudo bem? - pergunta. Taehee e sua obsessão em me ver sempre bem. Concordo, mais uma vez com um meneio de cabeça, não me sentindo estável o bastante para me expressar em palavras. - Muito bem. Nossas malas já estão no carro. Podemos ir. - anuncia, com um sorriso bonito demais para pertencer a essa dimensão tão vazia. Concordo, mais uma vez, embora ninguém tenha pedido um posicionamento meu.

Embora eu não diga, por dentro, aqui dentro, me sinto quase extasiado. Estamos indo ver a minha avó. Depois de Taehee, creio ser ela a pessoa mais importante desse mundo todinho para mim. A outra única pessoa que liga, ao menos um pouquinho, para a minha permanência ou não neste plano. Parece drama? Para os outros, talvez. Não sei. Nunca fui um bom analisador de perspectivas. Mas para mim não. Não parece besteira. Porque são os fatos.

E é o fato de estar indo ver a minha segunda-primeira pessoa preferida no mundo todinho que faz nascer esse sorriso que agora sustento no rosto. Ela o nota. E sorri também. Algo relacionado aos meus sorrisos serem pouco frequentes. Mas ela diz que, mesmo assim, são bonitos. Talvez eu deva sorrir mais, para deixá-la feliz. Mais uma coisa na qual pensar, durante as próximas duas horas.

Sustentando o sorriso, me movo, meus olhos alternando entre suas costas e o chão abaixo de mim enquanto saltito, mais feliz do que pensei que poderia estar, em plena sexta feira, desviando de uma ou outra almofada largada no chão. É quando percebo os origamis esquecidos sobre a mesinha de centro. Significa que as domésticas ainda não vieram fazer a limpeza. Se tivessem vindo, eles não estariam aqui, agora. Me recordo, num instante, da minha intenção de pedir a Hee que me presenteasse com eles. E, me recordando de sua promessa de me fazer novos, quando chegarmos ao nosso destino, abandono a ideia de lhe dirigir as quatro palavrinhas. Seis. Incluindo as mágicas.

Mas não abandono a ideia súbita que me passa pela mente.

Encarando a mesa, madeira simples abarrotada de materiais artísticos, uns meus, outros tantos dela, não penso duas vezes. Encho os bolsos do casaco com as folhas sobressalentes de papel de seda. Ela não vai se importar. Já roubamos coisas um do outro vezes o bastante para que a frase "o que é meu é seu" faça mais do que sentido em nossa relação de irmãos.

- Tae! Vamos! - ela me chama. Percebo que não os vi sair. Respondo num murmúrio baixo, que eu sei que ela não ouviria nunca, meio segundo antes de ir atrás deles.

- Tem certeza de que não quer que o nosso motorista os leve, Hee? A previsão do tempo para hoje diz que o clima ficará terrível... - a voz apertada de minha mãe denuncia sua presença ali, antes que eu tenha o mínimo vislumbre dela. Seu tom é o preocupado raro e verdadeiro que nunca a ouvi dirigir a mim. Na verdade, uma vez só. Quando meu médico insinuou que eu acabaria ficando deprimido, se continuasse contido naquela bolha particular chamada ensino doméstico. Sempre quis saber porquê as pessoas achavam tão estranho que eu nunca houvesse saído de casa por um intervalo maior do que três dias seguidos. E, com "as pessoas", quero justamente dizer meus médicos. O que havia de errado nisso? Eu sempre fiz o estilo caseiro. Aliás, me fizeram assim. Mamãe nunca gostou de me expor. A sugestão médica quase a fez surtar. Mas, feliz ou infelizmente, ela me pareceu satisfeita o bastante no instante em que fiz questão de dizer que preferia continuar meus estudos em casa. Nunca fiz muita questão de estar no meio de muita gente, mesmo. Muitos seres humanos num mesmo ambiente tendem a torná-lo caótico. Devia ser por isso que aquele comichão na minha nuca, tão característico de meus momentos de aflição, devia estar ainda presente. Mesmo depois de todo o trabalho de Taehee para me tranquilizar naquela manhã, seus origamis e sorrisos perfeitos, eu continuava um tanto desconfortável com a ideia de entrar naquele carro. Embora quisesse muito ver a minha avó. Devia ser só o nervosismo. Ou a ansiedade. Ou os dois. - Não gosto da ideia de você ir dirigindo... O trajeto é longo demais, querida. - "querida". Eu acharia engraçado, se pudesse. Eu posso?

- Está tudo bem, mãe. - ela a tranquiliza. Percebi em sua voz sua impaciência. Ela está impaciente. Eu também estou. Agora somos dois ansiosos. - Johnny estará conosco. Vamos revezar o volante. Fazer algumas paradas. Vamos ficar bem. Eu e o Tae. - ela faz questão de me incluir. Não que nossa mãe esteja realmente ligando. Veja só. Ela só percebeu a minha presença agora. E seu olhar para mim é totalmente diferente daquele ofertado a minha irmã. É frio. Doentio. De repente, eu não quero mais estar aqui. Me encolho dentro do moletom quase apertado. Puxo o capuz para que cubra parte do meu rosto. Talvez assim eu me torne um pouco mais imude à indiferença dela. De repente, passar uns dias na casa da vovó, ainda que sejam poucos, me parece uma dádiva da qual não posso esperar para participar. Qualquer coisa para não ficar aqui, mais um segundo...

- Está bem. Você é quem sabe. - suspira, voltando a assumir o tom distante e nem um pouco caloroso que lhe é característico. Em silêncio, assisto ela se despedir de Taehee, um abraço apertado que dura três segundos inteiros. Na sequência, ela cumprimenta Youngho, um acenar de cabeça breve, mas contendo a mensagem central. "Leve-a e traga-a em segurança, ou eu esfolo você." Ou algo nessa linha.

E, por último, a mim.

Ela me deixa por último.

Eu deveria não me sentir surpreso?

- Cuide-se. - duas palavras. Ditas com tamanha falta de preocupação que sinto vontade de não lhe responder, por pura mal criação. Mas não é a hora. Nem o momento. Engulo meu "Cuide-se." tomando cuidado para não me engasgar com ele, enquanto forço o "Você também" para que venha. Ela sorri. Não é um sorriso bom. É o sorriso que diz "Eu não preciso disso, moleque."

Como ela também não precisava de mim. Nem de cada um dos meus múltiplos problemas.

No curto trajeto dos degraus da frente da casa até o volvo prata ano 2017 de Taehee, me pego pensando que também não eu precisava. Eu não quis isso. Tanto quanto ela não quis. Não me lembro de ter pedido para nascer. Não lembro. Mas me lembro de ter pedido que ela gostasse de mim. Não me amar. Mas gostar. Ao menos o mínimo do que eu gostava dela. Teria como eu não amar a minha mãe? Me era inconcebível. Ao menos nos primeiros anos. Mas, conforme seu silêncio foi sendo, pouco a pouco, substituído pelas palavras vazias, eu senti morrer, também aos pouquinhos, a maior parte do que tenho aqui dentro de mim. Entendi a equação fundamental. Meu coração não foi feito para amar. O de ninguém foi. É apenas mais um órgão útil, com uma função útil. Bombear sangue. A responsabilidade pelo que sinto, essa eu jogo sobre essa droga fragilizada que eu chamo de consciência.

Consciência... consciência...

Por que me fizeste assim? Tão... influenciável? Queria poder não sentir nada. Queria poder disfarçar o que sinto. Queria poder sentir menos. Mas então, eu seria como ela?

Não. Isso não.

Prefiro continuar influenciável.

- Está tudo bem, Yongie? - a voz dela, a doce e maravilhosa voz dela interrompe meus pensamentos. Quero agradecê-la por interrompê-los. Mas não encontro minha voz para isso. Nem para lhe responder. E mais uma vez recorro ao quieto e sempre educado acenar de cabeça. Ela não parece se satisfazer com isso. Me encara. Seus olhos se estreitam, eu posso vê-los pelo espelho retrovisor. Os olhos dela são grandes, também, embora não tanto quanto os meus. Ela também é meio fora do padrão. Como eu sou. Eu amo isso na minha irmã. As pequenas coisas que nos tornam iguais em sermos diferentes. Mas seu olhar é demais para mim, agora. Me esquivo, devotando minha atenção à janela, às árvores que passam por nós, conforme nos afastamos da área residencial restrita de nosso condomínio.

É incrível pensar como nós praticamente moramos em outra dimensão. Longe de todos. Longe de tudo. Parecemos algum tipo de espécie endêmica. Qualquer parente que queira nos visitar terá de encarar horas e horas de esquenta-banco para nos achar. Isso é bom. A parte ruim é justamente quando nós precisamos sair.

Não me admira que Johnny fique sempre um pouco mal humorado quando vem nos ver. Ou devolver a minha irmã, no final de uma dessas tardes de sábado "só deles".

Não gosto nem de pensar o que fazem o dia inteiro nesses dias.

E, antes que eu perceba, estamos fora. Estamos no mundo. As casas antes poucas começam a se multiplicar em nosso campo de visão, surgindo umas após as outras, compondo uma paisagem em constante transformação, colorida demais, agitada demais para o meu córtex cerebral sossegadinho. Decido que é hora de parar de fitar a janela, e perceber aquilo que me rodeia.

A essa altura, Johnny já fez questão de ligar o rádio. E agora meus sensíveis ouvidos são obrigados a compactuar com essa bagunça de baixo, bateria e high notes que pessoas como ele chamam de música.


They told him

Don't you ever come around here

Don't wanna see your face

You better disappear


The fire's in their eyes

And their words are really clear

So beat it, just beat it


E como se apenas o som não estivesse escandaloso demais, eles ainda começam a cantar.

É demais para mim.


You better run

You better do what you can

Don't wanna see no blood

Don't be a macho man


You wanna be tough

Better do what you can

So beat it

But you wanna be bad


- Você pode abaixar isso um pouco? - peço, e mal me ouço pedindo, tamanho o volume que eles decidiram empregar a esse aparelho infeliz. Minha voz arranhada e baixa desaparece facilmente em meio a pouco harmonia de sua cantoria dessincronizada. - Johnny! Abaixe isso! Meus ouvidos estão doendo! - ouso gritar, conseguindo me sobressair ao som, meu protesto nem um pouco contente chegando aos seus ouvidos. Pelo espelho central, vejo o instante exato em que suas expressões faciais congelam, o sorriso antes presente desaparecendo por alguns segundos. Só para retornar, logo depois, carregado do típico timbre fanfarrão que eu já aprendi a associar a ele.

- Deixe de ser chato, Tae. - rebate, sufocando um risinho de escárnio. E ele permanece me encarando, enquanto sua mão se estende, alcançando o botão do volume, o girando maldosamente, intensificando o barulho bem aqui, onde estou. Onde quase todas as caixas de som estão. - Relaxa bebê, e curte a música.

Fecho a cara.

Curtir a música?

Ele não pode estar falando sério. Só pode estar brincando comigo. Só pode...

Num impulso, me volto para Hee no retrovisor. Quero dizer a ela que o repreenda. Que o diga para parar, como tantas vezes fez antes. Mas ela está rindo.

Está rindo... de mim...

E, quando ela balança a cabeça em negação, meio segundo antes de voltar a cantar a canção pavorosa com seu namoradinho, um dos meus músculos estriados cardíacos se contrai da maneira errada, lançando para meu corpo sangue que ainda não foi devidamente oxigenado. Sinto que vou ter uma síncope. Uma real. Um ataque cardíaco fulminante. Me sinto traído. Mais do que traído. Humilhado. É como se ela estivesse dizendo a ele: "Olha, tudo bem. Faça o que quiser." É demais para mim. Demais...

Desvio o olhar. Encaro a janela e me lembro que não quero encará-la. Puxo o cinto, quando o contato deste com meu pescoço repentinamente começa a me incomodar.

Mordo a parte interna da bochecha. Dói. Então eu paro.

Enfio as mãos nos bolsos do moletom, meus dedos se fechando ao redor de algo macio, mas que estala com a pressão demasiada. As folhas de papel de seda. Me sobressalto, retirando as mãos dos envelopes de tecido e, junto com elas, os maços meio amassados. A preocupação se sobrepõe à irritação em mim. Não posso crer que as amassei.

- Não... não... não... - murmuro, mais para mim mesmo do que para eles dois. E os minutos que se passam são apenas eu, a desfolhar o conjunto meio abatido de quadradinhos maleáveis. Espalho-os sobre o banco, na porção livre ao meu lado e, quando este espaço acaba, sobre meu colo; um a um, os trago para perto do rosto, forçando os olhos para avaliar os estragos provocados por mim mesmo. Estão cheios de ranhuras. - Droga... - murmuro, ainda mais audível. A música terrível acaba, e é bem no instante que leva para que a próxima comece a tocar que Taehee percebe minha movimentação atípica no banco traseiro.

- O que está fazendo, Tae? - me questiona, a curiosidade plausível em sua voz. Ela sobressalta. A pontinha de irritação que tinha antes volta a surgir. Não quero que ela fale comigo. Se não fosse por ela... se não fosse por eles... meus papéis não estariam arruinados agora.

- Me deixe em paz! - rebato, um pouco mais agressivo do que deveria soar. E me arrependo, tão logo suas sobrancelhas se unem, numa linha curva e irregular que destrói sua expressão antes serena.

- Tae... - começa ela, seu tom baixo, em nada parecido com aquele, cristalino e amigável que ela sempre usa comigo. Está séria. E essa seriedade incomum faz eu me encolher mais um pouquinho em meu lugar. Baixo o olhar, ainda meio frustrado, me sentindo um pouco culpado por ter praticamente gritado, mas sem coragem o bastante para me desculpar. Ela não prossegue. Me encara. Um segundo, dois. E então sua atenção é da estrada novamente.

- Não brigue com ele, Hee. Ele está ansioso. - é Johnny quem me defende. E eu não posso negar que estou surpreso. Ele nunca me defende em nada. Taehee também parece compartilhar dessa minha surpresa. Só que numa incredulidade maior do que a minha.

- Eu não estou brigando com ele. - responde, ríspida. Ela inspira fundo, uma e outra vez, antes de me olhar pelo espelho. - Tae...? Desculpe. - murmura, e se vê de longe o esforço que ela faz para que a frase soe o mais serena possível, depois de seu pequeno ataque de fúria. - Eu fiquei nervosa, sem motivo. Não queria ser rude com você. Você me desculpa? - e aí está. O tom brando e ameno e infinitamente carinhoso que é tão característico da minha irmã. Isso, e a sinceridade e espontaneidade que são tão incrustados a ela. E aqui está ela, mais uma vez, me lembrando porque eu uma vez pensei que seria impossível que eu me magoasse profundamente com ela. Minha irmã não é o do tipo de pessoa de quem se pode guardar rancor por muito mais que dez minutos - e isso não é nem de longe o tempo que suas palavras necessitam para fazer essa metamorfose aqui, por dentro de mim. Muito mais cedo do que o faria com qualquer outro, me vejo mais do que calmo, a irritação antes presente em meu anterior se dissolvendo como sal na água, raleando até que não reste nada se não o incômodo conforto da reconciliação após uma briga boba - a sensação de que se fez besteira, mas felizmente se foi perdoado. Ambas as partes perdoadas.

- Tudo bem. - é o meu sussurro, meio perdido entre os acordes da música que começa a tocar em seguida. - Mas eu só te desculpo totalmente se me desculpar, também. - acrescento às pressas, conforme as primeiras linhas são cantadas e começam a encobrir os outros sons dentro do veículo. Pelo espelho, capto exatamente o momento em que seus lábios se repuxam no típico sorriso traquina, as pontinhas se curvando para cima, enrugando suas bochechas, sem, no entanto, fazer ruga alguma. Entendem o que quero dizer? E não é preciso mais nenhuma palavra para que eu entenda que ela me perdoa, como eu a ela.

Embora, sinceramente, eu não ache que haja algo realmente profundo a que se perdoar.

- Bem, agora que fizeram as pazes, pode, por favor, explicar que diabos está fazendo enchendo o carro com papel de seda? - não faço esforço algum para conter o ímpeto. Reviro os olhos. Por um segundo, havia me esquecido da presença de Johnny ali. Como posso tê-lo feito, sendo ele tão barulhento e escandaloso? Não imagino como. Apenas o fiz. Como já fiz tantas outras coisas antes. Umas por ignorância. Outras por falta da coordenação certa no tempo certo. E umas tantas somente pelo prazer da sensação de errar, e ter outra chance mais à frente.

- Estou ensinando o Taeyong a fazer cisnes de papel. - é minha irmã que responde, seus olhos fixos na estrada, o sorriso audível em sua voz. Audível, também, a descrença em Youngho na sua réplica.

- Cisnes de papel? - repete, parecendo um tanto mais abobalhado ao falar do que qualquer um julgaria estar. - Desde quando você curte origami, Taehee? - questiona ele, uma pitada maldosa de deboche e ironia em seu timbre - que ela parece somente ignorar.

- Acho interessante. Digo, como podemos fazer essas figuras tão bonitas sem um único corte nem colagem. Somente dobraduras. - ela dá de ombros, o cinto de segurança limitando seu movimento. - Sabia que é justamente isso que a palavra significa? Origami. Tae e eu gostamos. Você não? - devolve-lhe um questionamento. Não posso ver, mas posso jurar que ela arqueia uma sobrancelha aqui. Sua típica postura levemente superior, dominante. Às vezes acho que passo tempo demais observando minha irmã. Deve ser porque passo tempo demais na companhia dela. Não que eu ache isso ruim. Jamais.

Ao seu lado, Johnny estala a língua, num típico gesto de desgosto, que me irrita e me faz desgostar ainda mais dessas duas horas que passaremos aqui, enfurnados.

- Coisa de gente velha.

Gente velha. Humpf.


Just beat it, beat it

Beat it, beat it

No one wants to be defeated

Showing how funky and strong is your fight

It doesn't matter who's wrong or right

Just beat it (beat it)

Just beat it (beat it)


Acreditariam em mim se eu lhes contasse que perdi a noção do tempo? E, sim, essa é uma tentativa miserável de relatar isso sem me sentir insuficiente. Porque tenho tendência a me sentir insuficiente quando perco a noção de algo que a maioria das pessoas jamais se desatentariam. O tempo é uma delas. As pessoas estão sempre tão desesperadas por tempo. Por mais dele, especificamente. Todos parecem querer mais tempo.

Sabe aquela teoria de que quando você está se divertindo, o tempo tende a passar mais rápido? É falsa. É falsa, porque eu não estava me divertindo. E ainda assim o tempo passou rápido. Acho que o tempo não tem nada a ver com aquilo que sentimos. Porque o tempo não liga pra gente. Por que ele precisaria ligar? Somos insignificantes. Desnecessários, diante de algo tão grandioso como o tempo. Ele não precisa de nós. Nós é que precisamos dele. Não. Não precisamos. Nós ambiciamos. Ambiciar é um verbo? Agora é. Almejamos tanto o tempo e não sabemos porquê. Por que querer mais um dia? Mais um mês? Mais um ano? Porque não nos satisfazemos apenas com os segundos, ternos segundos... por que os segundos parecem tão pouco?

Temos essa mania de desmerecer o que é pequeno. Acho que é por isso que nos odiamos cada dia mais. E aproveitamos cada dia menos essa coisa louca da qual somos tão dependentes... Tempo...

- Talvez eu só precise de um pouco mais de tempo...

E antes que veja, estou sussurrando isso, para mim mesmo e não para os outros dois. Meu foco é única e exclusivamente do pedaço de papel terrivelmente marcado em minhas mãos. Perdi as contas de quantas vezes já o dobrei, somente para desfazer o resultado instantes depois. Tento me consolar, em silêncio dizendo a mim mesmo que somente busco a melhor maneira de prosseguir, mas no fundo sei que estou irremediavelmente perdido. E o papel em minhas mãos irremediavelmente arruinado, mais do que eu acreditava que estivesse, momentos antes, ao apertá-lo junto aos seus irmãos em bolso. Talvez porque agora tive tempo o bastante para executar minhas tentativas falhas e sádicas sobre ele, não somente uma, mas várias vezes; o mesmo papel, uma vez que temia sobretudo arruinar aos demais com minhas mãos pesadas e letárgicas demais para aquele trabalho tão delicado. Tive tempo. E não me pareceu tempo o bastante. O suficiente, apenas, para deixar entrarem em mim a frustração. Com um suspiro irritado, deixo de lado o papel de seda, cruzando os braços sobre o peito e afundando de maneira um pouco brusca demais no banco - o couro chiando baixinho pela minha violência produzindo um eco alto o bastante para ser notado nos bancos da frente. Em algum momento desse meu último lapso, passamos de Michael Jackson à Louis Armstrong e eu não poderia estar mais contente. Nada contra o pop, mas o jazz conseguirá sempre se sobressair, ao menos para mim. E é quase óbvio que, em meu mundinho uma única opinião me importa: a minha própria. Bem, talvez também a de minha irmã, quando ela não decide se pôr contra mim e escolher ao Ray Charles. Urgh...

- O que foi, Tae? - ela me pergunta, e essa parece ser a milésima vez que o faz nessa minha curta existência, ao menos a parte da qual me lembro dela. E, mais uma vez, seu timbre não me decepciona - sempre sereno, escondendo sob uma e outra camada de sinceridade um tanto de preocupação, como creio que sempre acontece quando ela me faz essa pergunta. E, como sempre, me vejo a meditar um segundo aquilo que vou responder, já ciente de que não terei coragem de omitir um único detalhe. Explico-lhe brevemente minha frustração com o origami inexistente e a folha de papel de seda arruinada, apresentando-lhe meus resultados trágicos quando ela os pede - seu olhar imparcialmente analisando todo o conjunto, a obra de arte moderna, sem pé nem cabeça, totalmente desajustada. Ao fim, sorri; o brilho do orgulho ardendo em suas íris enquanto ela divide a atenção entre a estrada e a peça em minhas mãos, dando me instruções precisas sobre quais quinas puxar e quais devo desfazer e marcar novamente, sua mão se movendo mais calmamente do que nunca, tocando todos os pontos pelo reflexo no espelho - compassada o bastante para que meu cérebro lento capte todas as nuances, uma a uma.

- Faça agora. - me instrue ela, mudando a marcha quando o motor protesta, num barulho enjoado e engasgado. Encaro-a, ciente de quão relutante devo parecer para qualquer um que me veja agora. Me julgariam por ter medo de algo tão inofensivo como um origami? Mas é que para mim, essa pequena dobradura já estrapolou as barreiras de um simples capricho. Tornou-se agora um objetivo, uma pequena obsessão. Há algo em mim que me diz que não estará em paz enquanto eu não a satisfazer - enquanto não o fizer. Enquanto não o fizer...


Baixo o olhar para a folha de papel de seda entre meus dedos, a mesma de antes, mas que me parece ter, nesse instante embalado pela voz grave do solista nos auto falantes, um certo ar de nova. É como se eu nunca a tivesse visto antes. Como se fosse meu primeiro contato com uma folha de papel. Me sinto como um bebê, um recém nascido curioso, tendo seus primeiros contatos com o mundo, e com tudo que o compõe. E sinto medo. Medo de errar, de novo, de falhar com ela, sob seus olhos... Medo de me sentir insuficiente. De novo. Os medos são os mesmos, olhando por essa perspectiva - a causa deles é que eu julgo como sendo nova.

E talvez, só talvez, não seja. Porque ainda outra vez me senti como uma criança, como um bebezinho indefeso - e receio dizer, que dessa vez eu o realmente era. Pequeno e indefeso e medroso. Dessas tantas, garanto apenas que me saí um pouco mais alto. Um e sessenta e cinco. Grande coisa... grande coisa... Nunca me foram necessárias grandes coisas, as pequenas por si só já se incumbiam de me amedrontar; receios bobos, que para outros jamais se enquadrariam nessa classificação, mas que para mim já haviam nascido ali, comigo, com o mundo, com tudo - e sem precisar de nada, lá ia eu, me ver acanhado e encolhido junto a uma dessas tribulações desconfiguradas. Um cadarço que se soltava em meio a uma caminhada; uma aranha que ia se meter entre mim e o corredor que pretendia alcançar; ou o próprio corredor, escuro e macabro. Pequenas coisas com grande poder sobre mim. Assim eu classificava aquele origami mínimo, desde o mais tenro instante em que lhe pusera os olhos em cima, há tanto que não me recordava com tamanha precisão, mas que de longe poderia julgar não alcançar mesmo as míseras duas semanas. Uma pequena coisa com um grande poder sobre mim - nessa aventura em especial, o poder de me deixar inquieto, ansioso a ponto de perder noites completas de sono, que, verdade se encaixe aqui, se tornaram raras a minha pessoa.

Entende o que quero dizer, vã Consciência? Entendes? Dize, me entendes...?

Compreendes então o porque me encontro aqui, parado, embasbacado, a contemplar essa mínima folha de papel de seda... totalmente moldada em minhas mãos...? Dize-me... me compreendes...?

Compreendes isso...?

Eu consegui...?

Eu consegui...

Eu consegui.

- Eu consegui! EU CONSEGUI! EU CONSEGUI! EU CONSEGUI!

E sou eu quem está gritando? Devo ser, porque a exceção de Armstrong, o carro está em silêncio. Um silêncio concentrado que me passa despercebido, enquanto estou ocupado a cantar minha mais recente vitória, o entusiasmo com minha pequena conquista... correção, minha grande conquista... subindo por minha garganta numa enxurrada de palavras, que emboladas umas às outras vão perdendo sentido... perdendo seu sentido... o bolo em minha garganta, em contramão, vai crescendo. E é tarde que percebo, estou comemorando sozinho. Silencio-me, buscando os outros dois pares de olhos no espelho, não encontrando nenhum voltado para mim. Sinto-me desanimar, subitamente. Por que eles não me vêem? Por que não me ouvem? Não me ouvem? Não comemoram comigo... Não significa nada para eles...? Não. Recuso-me a preponderar que não liguem. Eles se importam. Se importam. Só preciso que ouçam...

- Noona! Hyung! Eu consegui! Vocês viram? Eu consegui! - e antes que pense, aqui estou eu, quebrando a invisível barreira do meu desconforto com Johnny, me movendo como posso preso pelo cinto de segurança, inclinando-me sobre seu banco, meus dedos brancos nos nós por agarrar com tamanha força o couro, numa ansiedade que retorna com a mesma força de antes, se não maior ainda. - Hyung! Johnny-Hyung! Veja! Veja! Eu consegui! Consegui fazer um cisne! Consegui! - berro aos seus ouvidos, exibindo orgulhoso minha pequena prenda, o cisne de papel de seda meio amassado revoando uma e outra vez sobre seu rosto, para que não restem dúvidas a mim de que ele o viu. E talvez tenha mesmo visto, porque finalmente se desviam seus olhos do que quer que seja que lhe manteve cativa a atenção nos últimos instantes, suas pupilas focando-se em mim, contaminando-se do mesmo brilho que ilumina as minhas, embora creio que de modo mais ralo.

- WOW! Tae, você realmente fez... Meus parabéns! É bonito...

E não escuto o restante, tanto porque Armstrong eleva o volume da voz rumo a mais um high note, quanto pela minha empolgação. Porque nem é preciso escavar tanto para descobrir que o reconhecimento que almejo receber nem é assim tanto o dele. É o dela. Minha tutora. Minha instrutora, ponto forte e incentivadora principal. A única a me apoiar em meus anseios loucos e despropositados, a ancorar-me em cada parada por qualquer um dos portos que antes me eram tidos como inalcançáveis, o ponto máximo jamais encontrado por minha bússola quebrada, desprovida de agulha. A única a me guiar, quando ninguém mais poderia. A única que gosta de mim, como eu sou. Como realmente sou...

Minha irmã.

- Noona! Noona! Veja! Veja: eu consegui! Consegui fazer um cisne de papel! Como você me disse para fazer, eu fiz e olha! Olha! Deu certo! - e novamente me vejo gritando, pulando sentado em meu assento, assaltando seu banco, de modo ainda mais intenso por estar mais próximo dela do que de Johnny, agitando a peça de papel diante de seus olhos para lhe chamar a atenção. Uma rusga se forma em meu rosto, ao que sua primeira reação não é pegá-lo ou parabenizar-me como eu julgava que fizesse, e sim afastar minha mão, num gesto tão suave que se não fosse o papel chiar eu não perceberia que o fez. Sinto minhas sobrancelhas se curvarem, conforme o estranhamento por seu gesto vai sendo absorvido pelos meus poros, ao mesmo passo em que retomo minhas investidas, cismado na ideia de que ela o veja. - Noona...? Noona! Veja! Eu consegui fazer...

- Tae... Tae, tira isso da minha frente. Tira da minha frente! Eu não consigo ver! - brada ela, seu timbre subindo não uma, mas três casas, cobrindo mesmo o barulho que vem das caixas de som. Sua mão se movendo e espantando a minha, num safanão menos delicado que o anterior, sua palma se chocando contra meu pulso, as unhas provocando-me um arranhão. A pontada de dor que se segue é nada, comparado ao turbilhão que estoura em minha mente. E isso nada tem a ver com o meu tão adorado cisne de papel, que tendo voado da minha mão, foi encontrar-se com o parabrisa do carro, turvo pela chuva intensa que molha o asfalto e que mal vi começar a cair. Não, o grito de pânico sufocado em minhas cordas vocais não é provocado por nada disso. Nada disso... nada mais...

Espero um instante, mas o grito não vem. Travado em minha garganta, ele junta-se fantasmagoricamente aos outros, em minha mente, em meus ouvidos, à adrenalina que dispara pelas minhas veias, queimando meu coração também paralisado. Tudo isso em um segundo. Tudo isso, e não tenho tempo nem mesmo para fechar os olhos.

Assim sendo, eles se fixam, em medo e em agonia, aos faróis que surgem em meio a neblina, e que conforme se aproximam, crescem, crescem...

Até estarem sobre mim.

Rápido demais, o impacto rouba o ar dos meus pulmões, a firmeza da carne sobre meus ossos é questionada enquanto me sinto ser prensado, como uma lata de alumínio na reciclagem, enquanto esse mesmo alumínio vai se tornando nada ao meu redor, maleável como uma folhade papel... E os papéis, minhas dúzias de papéis de seda, livres, parecem especiais o bastante para se sentirem imortais, dançando uma dança mortal no ar, rodopiando como folhas caídas no outono, instigando o ferro e o aço e a mim mesmo a ter a sua sorte, e sair incólume disso. Quase como em câmara lenta, me vejo ser atingido por uma outra dor, ou então devesse dizer dores, assim no plural. Pois a maneira como isso, essa chama, esse calor sobe da planta dos meus pés aos meus joelhos, e avança por meus quadris, minhas costas e chega aos meus braços, intensificando-se nas pontas dos meus dedos... Não. Não pode ser uma dor só. E, se o é, então é fatal. E de repente não sei o que me é mais apavorante: se ver e sentir tudo isso em câmara lenta, e poder escrutinar cada pequena nuance, sabendo que ao fim será demais para que eu possa suportar; ou que tudo isso se passe rápido demais, e eu não saiba, em meu julgamento, o que de fato aconteceu comigo.

E então é apenas um segundo.

O um segundo que preciso para que minha consciência sucumba a agonia da dor onipresente, e se compadeca de mim, privando-me primeiro da voz, segundo do tato e da visão. Deixando por último minha audição, despeço-me da existência enquanto ouço os últimos acordes de What a Wonderful World, a serenidade na voz de Luis Armstrong a me incentivar ao não sentir mais tanto medo, e apenas me deixar levar, nesse abismo cada vez mais escuro e convidativo. Um lugar sem dor, nem medo, nem ódio. Onde alguém como eu pode ser o tão sonhado apenas mais um. Um como todo mundo.


I hear babies crying, I watch them grow

They'll learn much more, than I'll never know

And I think to myself, what a wonderful world


Vejo a morte se aproximar, caminhando até mim, com o frio abraço de uma velha amiga.

E penso comigo mesmo, que essa deve ser uma maneira normal de morrer, enfim.


~~~✴~~~




Notas Finais


Espero que não estejam bagunçados demais, ou com raiva de mais de mim (realmente, espero😅)
Tudo faz parte de um processo maior, lembrem-se. E as opiniões de vocês são muito bem vindas😉
Nos vemos no dia 19. Até lá, cuidem-se♡

Magá~


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...