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História Originais - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Capitulo 10


Fanfic / Fanfiction Originais - Capítulo 10 - Capitulo 10

    

A impressão era de que havia se passado uma eternidade desde que eu comera um prato de purê de batatas com bolo de carne moída no almoço. Estava inquieta demais para tentar assistir televisão. A espera silenciosa me botou andando de um lado para outro da cela. Meus nervos estavam tão à flor da pele que, cada vez que escutava o som de passos no corredor, meu coração vinha parar na boca e eu me afastava da porta.

Estava assustadiça, reagindo a todo e qualquer barulho. Sem a menor ideia de hora ou mesmo dia, sentia como se estivesse presa numa bolha de vácuo.

Enquanto passava pela centésima vez diante da cama, ponderei sobre o que eu descobrira. Algumas das pessoas estavam aqui por vontade própria tanto humanos quanto Luxen, talvez até alguns híbridos. O Daedalus estava testando o LH-11 em pacientes com câncer, mas só Deus sabia o que esse LH-11 era de verdade. Parte de mim podia aceitar isso se os Luxen estivessem realmente aqui porque queriam ajudar. Descobrir a cura para doenças letais era importante. Se eles tivessem simplesmente pedido em vez de me trancafiarem numa cela, eu teria oferecido meu sangue de bom grado.

Não conseguia deixar de pensar nas coisas que o sargento Dasher dissera. Será que havia realmente nove mil Luxen soltos pelo mundo, tramando contra a humanidade? E centenas de milhares que poderiam ­chegar à Terra a qualquer momento? Lauren havia mencionado a existência de vários outros, mas jamais dissera nada sobre sua espécie, mesmo que só um pequeno grupo, querer assumir o controle.

E se fosse verdade?

Não podia ser.

Os Luxen não eram o inimigo. Os Arum e o Daedalus é que eram. A organização podia até ter uma bela embalagem, mas estava podre por dentro. Dei um pulo ao escutar o som de passos no corredor. A porta se abriu. Archer.

— O que houve? — perguntei, imediatamente alerta.

A boina, que parecia permanentemente grudada à sua cabeça, escondia-lhe os olhos, mas seu maxilar estava trincado.

— Estou aqui para te levar até a sala de treinamento.

Archer apoiou a mão em meu ombro de novo, o que me fez pensar se ele achava que eu tentaria fugir. Eu queria, é claro, mas não era burra.

— Sala de treinamento? Por quê? — perguntei, assim que entramos no elevador.

Ele não respondeu, o que me deixou ainda mais apreensiva e irritada. O mínimo que aquelas pessoas podiam fazer era me dizer o que estava acontecendo. Tentei me desvencilhar da mão dele, mas ela permaneceu grudada em meu ombro o trajeto inteiro.

Archer era um homem de poucas palavras, o que só servia para aumentar meu nervosismo, mas não era apenas isso. Havia algo de diferente em relação a ele. Algo que eu não conseguia identificar, mas que estava ali.

Quando finalmente saímos no andar onde ficavam as salas de treinamento, meu estômago estava embrulhado. O corredor era idêntico ao da ala médica, exceto que havia muitas portas duplas. Paramos diante de uma delas, ele inseriu o código e as portas se abriram.

Serena e o sargento Dasher já estavam lá. Dasher se virou para nós com um sorriso tenso. Havia algo de diferente em sua expressão. Um quê de desespero nos olhos castanho-escuros que me inquietou. Não consegui evitar pensar no resultado do exame de sangue.

— Olá, srta. Cabello — cumprimentou ele. — Espero que tenha aproveitado o tempo para descansar.

Bem, isso não soava muito animador.

Dois homens com jalecos de laboratório estavam sentados diante de uma série de monitores. As salas exibidas nas telas pareciam acolchoadas. Meus dedos estavam dormentes, tamanha a força com que os apertava.

— Estamos prontos — disse um deles.

— O que está acontecendo? — perguntei, odiando o modo como minha voz falhou na metade da pergunta.

Serena manteve uma expressão neutra, enquanto Archer se posicionava ao lado da porta.

— Precisamos verificar a extensão dos seus poderes — explicou o sargento, posicionando-se atrás dos dois sujeitos. — Você poderá usar a Fonte dentro da sala. Sabemos, pelas nossas investigações, que você possui algum controle sobre ela, mas não sabemos até onde vai o seu poder. Híbridos cuja mutação foi bem-sucedida podem reagir tão rápido quanto um Luxen. Podem controlar a Fonte com a mesma facilidade.

Meu coração pulou uma batida.

— Qual é o objetivo disso? Por que vocês precisam saber? É óbvio que minha mutação foi um sucesso.

— Não temos tanta certeza assim, Camila.

Franzi o cenho.

— Não entendo. Você disse antes que eu era forte...

— Você é forte, mas nunca usou seus poderes de maneira consistente sem a presença da Luxen que a transformou. É possível que estivesse sendo alimentada pelo poder dela. Um híbrido pode parecer ter sido transformado com sucesso, mas descobrimos que quanto mais ele recorre à Fonte, mais evidente se torna a instabilidade. Precisamos testar se existe algum grau de imprevisibilidade na sua mutação.

Quando finalmente compreendi o significado daquelas palavras, senti vontade de fugir dali correndo, mas meus pés pareciam enraizados.

— Em suma, você quer ver se eu vou me autodestruir como... — como a Carissa, mas não consegui dizer o nome dela em voz alta. Ao ver que ele não confirmava nem negava, recuei um passo, tomada por uma nova onda de terror. — E se isso acontecer? Quero dizer, no que diz respeito a mim, eu sei, mas e quanto a...?

— A que te transformou? — completou ele.

Fiz que sim.

— Pode falar, srta. Cabello. Sabemos que foi a Lauren Jauregui. Não precisa continuar tentando protegê-la.

Eu jamais confirmaria.

— Sabemos que o Luxen e o humano transformado por ele ficam conectados em um nível biológico quando a mutação se estabiliza. Mas não é algo que a gente compreenda totalmente. — ele fez uma pausa e soltou um pigarro. — De qualquer forma, quando o híbrido se torna instável, a conexão é anulada.

— Anulada?

Ele assentiu.

— A conexão biológica entre os dois é rompida. Provavelmente porque, nesses casos, a mutação não foi tão profunda quanto se suspeitava. Ainda não sabemos todos os detalhes.

Fui invadida por uma profunda sensação de alívio. Não era como se eu não temesse pela minha própria vida, mas pelo menos sabia que se implodisse Lauren continuaria viva. Ainda assim, protelei, sem a menor vontade de entrar naquela sala.

— Essa é a única forma de romper a conexão?

O sargento não respondeu.

Estreitei os olhos.

— Não acha que eu tenho o direito de saber?

— Tudo a seu tempo — retrucou ele. — Ainda não é a hora.

— Acho que é uma ótima hora.

Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso, o que me deixou ainda mais irritada.

— Que foi? — perguntei, levantando as mãos. Archer se aproximou, mas o ignorei. — Acho que tenho o direito de saber tudo.

A surpresa se desfez, substituída por uma expressão de frieza.

— Ainda não é a hora.

Recusei-me a ceder e crispei as mãos.

— Não vejo hora melhor.

— Camila... — Ignorei o suave aviso do Archer, e ele se aproximou ainda mais, praticamente colando o peito em minhas costas.

— Não. Quero saber o que mais pode quebrar a conexão. Obviamente existe um modo. Também quero saber quanto tempo vocês acham que podem me manter aqui. — assim que destravei a língua, não consegui mais segurá-la. — E quanto à escola? Vocês querem um híbrido ignorante zanzando descontroladamente por aí? E quanto a minha mãe? Meus amigos? Minha vida? Meu blog? — certo, o blog era, sem dúvida, o menor dos meus problemas, mas, que inferno, era importante para mim. — Vocês roubaram a minha vida, e acham que eu vou simplesmente ficar aqui e aceitar isso? Que não devo exigir respostas? Ah, quer saber? Vão se foder!

Qualquer traço de amabilidade que pudesse haver na expressão do sargento Dasher desapareceu. Ao vê-lo me fitar, percebi que provavelmente devia ter ficado de boca fechada. Eu precisava extravasar, mas o olhar que ele me lançou foi assustador.

— Não tolero esse tipo de linguagem. E não tolero garotinhas de língua afiada que não entendem o que está acontecendo. Estamos tentando tornar tudo o mais confortável possível, mas temos nossos limites, srta. Cabello. Não ouse me questionar, nem a ninguém da minha equipe. Iremos lhe revelar mais quando acharmos que é apropriado, não antes. Entendeu?

Podia sentir cada respiração do Archer e, ao que parecia, ele havia prendido o ar, esperando pela minha resposta.

— Sim — cuspi. — Entendi.

Archer inspirou fundo.

— Ótimo — disse o sargento. — Já que estamos resolvidos, vamos prosseguir.

Um dos homens sentados diante dos monitores apertou um botão e a pequena porta que dava para a sala de treinamento se abriu. Archer me conduziu até o outro aposento e só me soltou depois que eu já estava lá dentro.

Girei nos calcanhares e, com os olhos arregalados, observei-o recuar em direção à porta. Fiz menção de pedir a ele que não me deixasse sozinha, mas Archer desviou os olhos. E, então, sumiu, fechando a porta ao sair.

Sentindo o coração martelar com força, corri os olhos pelo cômodo. Ele tinha cerca de seis metros por seis metros, com um piso de cimento e outra porta no lado oposto. As paredes não eram acolchoadas. Eu não tinha tanta sorte. Eram brancas, com algumas manchas amarronzadas. Seria aquilo... sangue seco?

Ó céus!

O medo, porém, rapidamente deu lugar a uma sensação de alerta. A descarga de poder foi leve a princípio, como se alguém estivesse roçando as pontas dos dedos pelos meus braços, mas aumentou velozmente, espalhando-se para o meu âmago.

Era como respirar ar puro pela primeira vez. A sensação de dormência e exaustão desapareceu, substituída por um zumbido baixo de energia no fundo do meu crânio, que foi se espalhando pelas veias até preencher o frio em minha alma.

Fechei os olhos e visualizei a Lauren. Não que com isso pudesse vê-la de verdade, mas aquela sensação me fazia lembrar dela. Enquanto a Fonte me envolvia, imaginei-me em seus braços.

Um interfone estalou e a voz do sargento Dasher ecoou pelo aposento. Ergui a cabeça.

— Precisamos testar seus poderes, Camila.

Não estava com a menor vontade de falar com o cretino, mas queria acabar logo com aquilo.

— Certo. Você quer que eu invoque a Fonte ou não?

— Você vai fazer isso, mas precisamos testar seus poderes sob estresse.

— Sob estresse? — murmurei, correndo os olhos em torno. Uma sensação incômoda brotou em meu estômago e se espalhou como erva daninha, ameaçando me sufocar. — Já estou bastante estressada.

O interfone estalou de novo.

— Não é desse tipo de estresse que estamos falando.

Antes que eu tivesse a chance de digerir as palavras dele, escutei uma batida alta que reverberou por todo o cômodo. Girei nos calcanhares.

A porta do outro lado se abriu lentamente. A primeira coisa que reparei foi num par de calças pretas de moletom idênticas às minhas e, em seguida, uma camiseta branca que encobria quadris estreitos. Ergui os olhos e soltei um ofego de surpresa.

A garota diante de mim não era uma estranha. Parecia ter sido em outra vida, mas a reconheci imediatamente. Seus cabelos louros estavam presos num rabo de cavalo, deixando à mostra um rosto bonito, ainda que marcado por hematomas e arranhões.

— Mo — falei, dando um passo à frente.

A garota que estivera na jaula ao lado da minha quando Will me capturara me fitou de volta. Tinha imaginado inúmeras vezes o que havia acontecido com ela, e acho que agora eu sabia. Esperei um pouco e repeti o nome de novo, e então a ficha caiu com uma nitidez impressionante. Sua expressão transmitia o mesmo vazio que a da Carissa quando a vira pela última vez.

Meu coração foi parar nos pés. Duvido que houvesse algo que eu pudesse fazer que a faria se lembrar de mim.

Ela entrou na sala e esperou. Segundos depois, o interfone estalou novamente e a voz do sargento Dasher se fez ouvir.

— Mo irá nos ajudar na primeira rodada de testes de estresse.

Primeira rodada? Haveria outras?

— O que ela...

Mo estendeu a mão e a Fonte crepitou sobre seus dedos. O choque me deixou petrificada até o último momento. Pulei para o lado, mas a explosão de luz branco-azulada acertou meu ombro. Uma fisgada de dor desceu pelo braço. O impacto fez com que eu girasse e quase perdesse o equilíbrio.

Confusa, levei a mão ao ombro, nem um pouco surpresa ao perceber a camiseta chamuscada.

— Que diabos foi isso? — exigi saber. — Por que...?

Ajoelhei ao ver Mo arremessar outra bola de energia. Ela passou pelo ponto exato onde eu me encontrava e explodiu contra a parede atrás de mim. Num piscar de olhos, Mo estava bem na minha frente. Tentei me levantar, mas ela deu uma joelhada que acertou meu queixo em cheio, lançando minha cabeça para trás. Caí de bunda, chocada e cega pelas estrelinhas de dor que pulsavam diante dos olhos. Mo estendeu o braço, me agarrou pelo rabo de cavalo e me suspendeu com surpreendente facilidade. Em seguida, desferiu um soco logo abaixo do meu olho. A explosão de dor fez meus ouvidos zumbirem, mas também provocou algo mais.

Ela me arrancou do estupor.

De repente, entendi do que se tratava o tal teste de estresse. A compreensão me deixou ao mesmo tempo enjoada e horrorizada. Precisava acreditar que se o Daedalus sabia tanto, então devia saber que a gente já se conhecia. Que vê-la ali, parecendo fisicamente bem melhor do que quando a vira na jaula, não apenas faria com que eu abaixasse a guarda, como também confirmaria a inutilidade de lutar contra eles.

Mas eles queriam que eu lutasse que lutasse com a Mo, utilizando a Fonte. Que maneira melhor de provocar um estresse profundo do que transformar alguém num saco de pancadas ambulante?

Mo acertou outro soco sob meu olho. E foi um golpe sério, com tudo. Um gosto metálico se espalhou por minha boca ao mesmo tempo que eu invocava a Fonte, exatamente como o sargento queria.

Mas a Mo... ela era muito mais rápida, e mais preparada.

Enquanto eu tomava a surra do século, agarrei-me ao único fiapo de esperança que ainda me restava: Lauren não seria sujeitada a isso. 

 



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