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História Originais - Capítulo 14


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Capítulo 14 - Capitulo 14


Fanfic / Fanfiction Originais - Capítulo 14 - Capitulo 14

Minhas pernas doíam enquanto eu seguia ­mancando atrás do Archer para a sala de treinamento. Quem eu teria que ­enfrentar hoje? A Mo? O cara com um moicano? Ou a ­garota de lindos cabelos ruivos? Não fazia diferença. Eu ia ­levar uma surra. A única coisa certa era que eles não ­permitiriam que os outros híbridos me matassem. Eu era valiosa demais.

Archer diminuiu o passo, deixando que o alcançasse. Ele não tinha dito nada desde que saíra da minha cela na véspera, mas já estava acostumada com o silêncio. No entanto, não conseguia entender qual era a dele. Archer não parecia apoiar o que o Daedalus estava fazendo, mas jamais dissera nada abertamente. Talvez para ele isso fosse apenas um emprego.

Paramos diante das portas que eu passara a odiar. Quando elas se abriram, inspirei fundo e entrei. Não fazia sentido protelar o inevitável.

O sargento Dasher nos aguardava lá dentro, vestido com o mesmo uniforme de sempre, desde que o vira pela primeira vez. Imaginei se ele por acaso teria um estoque interminável deles. Caso contrário, devia gastar uma fortuna com lavagem a seco.

Esse era o tipo de coisa imbecil em que eu pensava antes de virar um gigantesco saco de pancadas.

Dasher me olhou de cima a baixo. Pela rápida espiadela no espelho embaçado do banheiro, eu sabia que estava com uma aparência belíssima. Do lado direito do rosto, tanto minha bochecha quanto meu olho estavam inchados, com um tom feioso de roxo. O lábio inferior encontrava-se ­partido. E o resto do corpo ostentava uma miríade de hematomas.

Ele balançou a cabeça e deu um passo para o lado, a fim de permitir que o dr. Roth fizesse um rápido checkup. O médico tirou minha pressão, auscultou meus pulmões e, em seguida, verificou meus olhos com uma caneta de luz.

— Ela me parece um pouco pior — comentou ele, metendo o estetoscópio por baixo do jaleco. — Mas vai poder participar do teste.

— Seria legal se ela realmente participasse — resmungou um dos sujeitos sentados diante dos monitores. — E não ficasse apenas parada ali.

Fuzilei-o com os olhos, mas antes mesmo que eu pudesse abrir a boca, o sargento disse:

— Hoje vai ser diferente.

Cruzei os braços e o encarei.

— Não vai, não. Não vou lutar contra eles.

Ele ergueu o queixo ligeiramente.

— Talvez a gente tenha te introduzido ao teste de forma incorreta.

— Jesus! — repliquei, sorrindo comigo mesma ao vê-lo estreitar os olhos. — Qual parte foi incorreta?

— Não queremos que você lute apenas por lutar, Camila. Queremos ter certeza de que a sua mutação é viável. Já percebi que não está disposta a machucar outro híbrido sem motivo.

Um fiapo de esperança se acendeu dentro de mim, como um broto frágil despontando do solo. Talvez firmar o pé e acumular todos aqueles hematomas tivesse significado alguma coisa. Um pequeno passo, que provavelmente não significava nada para eles, mas muito para mim.

— Mas precisamos testar seus poderes sob grande estresse. — ele fez sinal para os caras diante dos monitores, e minha esperança desceu pelo ralo. A porta se abriu. — Acho que você vai aceitar melhor o teste de hoje.

Ó céus, eu não queria passar por aquela porta, mas me forcei a botar um pé na frente do outro, recusando-me a mostrar qualquer sinal de fraqueza.

A porta se fechou às minhas costas. Fiquei parada, olhando para a ­outra e aguardando, sentindo uma série de nós se formar em meu estômago. De que forma eles poderiam tornar isso mais aceitável? Não havia nada que eles pudessem...

Nesse instante, a outra porta se abriu e Serena entrou.

Abafei uma risada seca e amarga ao vê-la entrar tranquilamente no aposento, mal prestando atenção à porta que se fechou logo atrás. De repente, a declaração do Dasher sobre o teste ser mais aceitável fez sentido.

Serena franziu o cenho ao parar diante de mim.

— Você está com uma cara péssima.

A raiva que já fervilhava dentro de mim começou a soltar faíscas.

— E isso te surpreende? Você sabe o que eles fazem aqui.

Ela correu os dedos pelo cabelo, os olhos perscrutando meu rosto.

— Camila, tudo o que precisa fazer é invocar a Fonte. Você está tornando as coisas mais difíceis.

— Eu estou tornando as coisas...? — interrompi-me ao sentir a raiva aumentar ainda mais. A Fonte vibrou em minhas entranhas, e meus pelos se eriçaram. — Você é louca.

— Olhe só pra você. — brandiu a mão diante de mim. — Tudo o que precisava fazer era concordar com o que eles estão pedindo, e assim teria evitado tudo isso.

Dei um passo à frente, fuzilando-a com os olhos.

— Se você não tivesse nos traído, tudo isso teria sido evitado.

— Não. — um lampejo de tristeza cruzou o rosto dela. — Você teria terminado aqui de qualquer jeito.

— Não concordo.

— Você não quer concordar.

Inspirei fundo para me acalmar, mas a raiva estava me dominando. Serena fez menção de botar a mão em meu ombro, mas afastei-a com um tapa.

— Não me toque.

Ela me fitou por um momento, estreitando os olhos.

— Como eu disse antes, se quiser ficar puta com alguém, fique com a Lauren. Foi ela quem causou isso. Não eu.

Era o bastante.

Toda a raiva e frustração acumuladas me varreram por dentro como um furacão nível cinco. Meu cérebro desligou e eu ataquei sem pensar. Acertei o maxilar dela de raspão, ao mesmo tempo que a Fonte mostrava a cara. Uma bola de energia escapou de minha mão e atingiu a Serena, fazendo-a girar no próprio eixo.

Ela parou ao bater na parede e soltou uma risada de surpresa.

— Que droga, Camila. Isso dói.

A energia crepitava por minha espinha, fundindo-se com os ossos.

— Como ousa culpar a Lauren por isso? Não é culpa dela!

A surfista se virou e se recostou na parede. Com as costas da mão, limpou o fio de sangue que escorria do lábio. Um brilho estranho acendeu seus olhos, e ela, então, se afastou da parede.

— Isso é total culpa dela.

Lancei o braço à frente, liberando outra bola de energia, mas Serena se desviou, rindo ao girar com os braços abertos.

— Isso é o melhor que você tem a oferecer? — atiçou ela. — Vamos lá. Prometo que vou pegar leve, gatinha .

Perdi a cabeça ao escutar o apelido, o apelido que a Lauren me dera. Em um segundo, Serena estava em cima de mim. Pulei para o lado, ignorando a protesto doloroso dos músculos. Serena abriu o braço num arco, e uma luz branco-avermelhada crepitou. Girei no último instante, mal evitando ser atingida em cheio.

Deixei-me envolver novamente pela descarga de energia e lancei outra bola de luz, que com um arco através do aposento atingiu Serena no ombro.

Ela recuou alguns passos cambaleantes e se dobrou ao meio, apoiando as mãos nos joelhos.

— Você pode fazer melhor do que isso, gatinha.

Uma raiva cega encobriu meus olhos como um véu. Lancei-me sobre ela como um lutador de MMA e em alta velocidade. Caímos no chão num emaranhado de braços e pernas, comigo por cima. Continuei socando a surfista sem parar, sem ver onde estava atingindo, sentindo somente a dor que se espalhava pelos meus dedos ao se conectarem à carne.

Serena meteu os braços entre os meus e os abriu, tirando meu equilíbrio. Titubeei por um instante e, com um remexer dos quadris, ela rolou por cima de mim. Minhas costas bateram com força no chão e o ar escapou de meus pulmões. Continuei desferindo golpes, mirando o rosto dela, determinada a arrancar seus olhos das órbitas.

Ela capturou meus pulsos e os prendeu logo acima da minha cabeça, debruçando-se sobre mim. Havia um corte sob seu olho esquerdo, e a bochecha estava começando a inchar. Fui tomada por uma maldosa satisfação.

— Posso te perguntar uma coisa? — Serena riu, fazendo com que os riscos verdes das írises dos seus olhos cintilassem ainda mais. — Você contou a Lauren que me beijou? Aposto que não.

Sentia cada respiração reverberar por todo o corpo. Minha pele ­estava sensível demais ao peso e à proximidade dela. O poder se ­acumulou novamente em minhas entranhas, e a sala pareceu ser subitamente envolvida num brilhante manto branco. A fúria me consumia, corroendo cada célula e comandando cada simples inspiração de ar.

O sorriso dela se ampliou.

— Como também nunca contou a ela como a gente gostava de se aconchegar...

O poder explodiu de dentro de mim. De repente, estávamos flutuando, tanto ela quanto eu, levitando a mais de um metro do chão. Meu cabelo escorria pelas minhas costas.

— Merda — murmurou Serena.

Num movimento brusco, soltei meus pulsos e soquei o peito dela com ambas as mãos. Com uma expressão de choque no rosto pálido, Serena foi arremessada de costas contra a parede. O cimento rachou e trincou como uma teia de aranha. A sala inteira tremeu com o impacto. A cabeça da Serena pendeu para a frente e ela escorregou parede abaixo. Parte de mim esperava que ela se recobrasse antes mesmo de bater no chão, mas... não foi o que aconteceu. A surfista se estatelou com um baque surdo que fez com que minha raiva evaporasse imediatamente.

Como se eu estivesse sendo suspensa por fios invisíveis subitamente cortados, aterrissei nos calcanhares e dei um passo à frente para recuperar o equilíbrio.

— Serena? — minha voz soou como um coaxar.

Ela não se moveu.

Ah, não...

Com os braços trêmulos, fiz menção de me ajoelhar, mas algo ­escuro e grosso começou a se espalhar por baixo do corpo dela. Olhei para a ­parede. O contorno da Serena ficara nitidamente impresso, uma forma ­escavada em baixo-relevo, com uns noventa centímetros de profundidade.

Ai, meu Deus, não...

Baixei os olhos lentamente. O sangue formava uma poça sob o corpo inerte e continuava se espalhando pelo piso de cimento cinza, escorrendo em direção aos meus tênis.

Recuei alguns passos, a boca aberta, mas sem emitir nenhum som. Serena não se mexeu. Não girou o corpo com um gemido para se levantar. Estava totalmente imóvel. E a pele exposta das mãos e dos braços já come­çava a empalidecer, adquirindo um tom fantasmagórico de branco que contrastava fortemente com o profundo vermelho do sangue.

Serena estava morta.

Ai, meu Deus.

O tempo pareceu retardar e, em seguida, acelerar. Se a surfista estava morta, então o Luxen que a transformara também estava, pois era assim que a coisa funcionava. Eles estavam conectados, como Lauren e eu, e se um morresse... o outro morria também.

Serena havia provocado isso de diversas formas. Eu mesma tinha prometido matá-la, porém as palavras... palavras o vento leva. As ações... essas, são outra história. E a surfista, mesmo com todas as coisas terríveis que havia feito, era um produto das circunstâncias. Ela estava apenas me provocando. Tinha matado, sim, mas não de propósito. E nos traíra para salvar o amigo.

Assim como eu tinha feito e faria de novo.

Pressionei a boca com a mão trêmula. Tudo o que dissera a ela voltou numa enxurrada. Naquele breve segundo em que tinha cedido à fúria um instante insignificante de tempo, eu havia mudado, dado um passo sem volta. Meu peito subia e descia com rapidez, ao mesmo tempo que os pulmões se comprimiam dolorosamente.

O interfone foi acionado, o zumbido inicial quebrando o silêncio tumular e me sobressaltando. A voz do sargento Dasher ecoou pela sala, mas não consegui tirar os olhos da forma sem vida da Serena.

— Perfeito — disse ele. — Você passou no teste de estresse.

Aquilo tinha passado do ponto, estar ali, tão longe da minha mãe, da Lauren e de tudo que eu conhecia, ser obrigada a fazer uma série de exames e a lutar contra outros híbridos. E agora isso? Era simplesmente demais.

Joguei a cabeça para trás e abri a boca para gritar, mas não saiu som algum. Archer entrou e, com gentileza, botou a mão em meu ombro e me conduziu para fora da sala. Dasher disse alguma coisa, soando como um pai orgulhoso, e então fui levada para um dos consultórios, onde o dr. Roth aguardava para tirar mais sangue. Eles trouxeram um Luxen para me curar. Os minutos viraram horas, mas continuei muda, totalmente anestesiada. 



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