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História Originais - Capítulo 22


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Capítulo 22 - Capitulo 22


Fanfic / Fanfiction Originais - Capítulo 22 - Capitulo 22

Puta merda elevada à enésima potência.

Uma simples criança havia desarmado quinze homens e provavelmente teria feito muito mais se o Archer não o tivesse derrubado com um tranquilizante. Para ser honesta, não fazia ideia do que eu tinha acabado de ver nem o que o garoto era, porém a Lauren me parecera bastante assustada. Fui tomada por um súbito pânico. Será que o menino havia feito algo com ela?

Afastei-me da parede e corri até ela.

— Você está bem?

Lauren passou os dedos pelo cabelo e anuiu.

— Alguém precisa levar essas duas de volta para os alojamentos — disse o sargento Dasher, inspirando fundo e, em seguida, dando outra série de ordens. Archer se aproximou da gente.

— Espera. — passei um braço em volta da Lauren, me recusando a sair dali. — O que foi isso ?

— Não tenho tempo para explicações. — Dasher estreitou os olhos. — Leve-as de volta para os alojamentos, Archer.

Fui tomada por uma raiva súbita, amarga e potente.

— Arrume tempo.

Dasher virou a cabeça em minha direção, e fuzilei-o com os olhos. Atraída pela troca, Lauren fixou a atenção no sargento. Senti os músculos sob minha mão tencionarem.

— Aquele garoto não é um Luxen nem um híbrido — disse ela. — Acho que vocês nos devem uma resposta direta.

— Ele é o que nós chamamos de original — respondeu Nancy, aproximando-se por trás do sargento. — Como um novo começo: a origem de uma espécie perfeita.

Abri a boca para replicar, mas a fechei de novo. A origem de uma espécie perfeita? Senti como se tivesse mergulhado de cabeça num filme de ficção científica bem ruim, exceto que era tudo real. 

— Vá em frente, sargento. Deixe as explicações comigo. — Nancy projetou ligeiramente o queixo, enquanto Dasher a observava com incredulidade. — Quero um relatório completo de como e por que ocorreram dois incidentes com os originais em menos de vinte e quatro horas.

Dasher soltou o ar com força pelo nariz.

— Sim, senhora.

Fiquei meio chocada ao vê-lo bater os calcanhares e se virar para ir cumprir as ordens, mas isso confirmava minha suspeita de que era a Nancy quem comandava o show.

Ela estendeu a mão em direção a uma das portas fechadas.

— Venham, vamos sentar.

Com o braço ainda em torno da Lauren, nós a seguimos até uma pequena sala com uma mesa redonda e cinco cadeiras. Sempre uma sombra, Archer veio se juntar a nós, mas se postou ao lado da porta enquanto a gente se sentava.

Lauren apoiou um dos cotovelos na mesa, a outra mão em minha perna e se debruçou sobre o tampo, os olhos brilhantes fixos na Nancy.

— Certo. Então aquele garoto é um original. Mas o que isso significa exatamente?

Nancy se recostou na cadeira e cruzou as pernas.

— Não estávamos preparados para compartilhar essa informação com vocês ainda, mas levando em consideração o que as duas testemunharam não temos escolha. Às vezes as coisas não saem como planejadas, e precisamos nos adaptar.

— Verdade — retruquei, apoiando a mão sobre a da Lauren. Ela virou a palma para cima e entrelaçou os dedos com os meus, mantendo nossas mãos sobre a minha perna.

— O Projeto Originais é a maior realização do Daedalus — começou Nancy com um olhar determinado. — Ironicamente, ele teve início com um acidente ocorrido há mais de quarenta anos. A princípio, foi só um, mas hoje em dia existem mais de cem. Como eu disse antes, de vez em quando o que a gente planeja não acontece. Como consequência, temos que nos adaptar.

Olhei de relance para a Lauren. Ela parecia tão atônita e impaciente quanto eu, que, para piorar, ainda estava com uma sensação de enjoo no fundo do estômago. De alguma forma, tinha certeza de que o que quer que estivéssemos prestes a escutar ia dar um nó em nossas mentes.

— Quarenta anos atrás, tínhamos em nossa companhia uma Luxen e uma híbrida que ela havia transformado. Tal como vocês,as duas eram jovens e estavam apaixonadas. — ela repuxou o lábio superior numa espécie de sorrisinho indulgente. — Elas podiam se ver à vontade e, em determinado momento durante a estadia delas aqui, a hibrida ficou grávida.

Ai, Jesus.

— Não percebemos nada a princípio, não até a barriga dela começar a crescer. Entendam, naquela época não tínhamos o hábito de testar os hormônios relativos à gravidez. E, pelo que descobrimos no decorrer dos anos, a concepção entre os Luxen é extremamente difícil, de modo que sequer cogitamos a hipótese de que um deles poderia vir a engravidar um humano, híbrido ou não.

— É verdade? — perguntei a Lauren. Fazer bebês não era algo sobre o qual costumávamos conversar. — Os Luxen têm dificuldade em engravidar?

Lauren trincou o maxilar.

— É, mas até onde sei não podemos engravidar humanos. É como esperar um filhote de um cachorro com um gato.

Eca. Fiz uma careta.

— Bela analogia.

Lauren soltou uma risadinha presunçosa.

— Ela tem razão — confirmou Nancy. — Os Luxen não podem procriar com humanos, em geral, nem com híbridos, mas quando a mutação ocorre de maneira perfeita e completa em nível celular, e quando existe um desejo verdadeiro, isso pode acontecer.

Por algum motivo, senti um súbito calor subir por minha nuca. Falar sobre bebês com a Nancy era muito pior do que conversar sobre sexo com a minha mãe, o que já tinha sido ruim o bastante, algo que me deixara com vontade de socar a mim mesma.

— Quando descobrimos que a híbrida estava grávida, nossa equipe ficou dividida, sem saber se devíamos ou não interromper a gravidez. Isso pode soar insensível — comentou ela ao perceber o modo como a Lauren enrijeceu. — Mas vocês precisam entender que não sabíamos o que essa gravidez poderia acarretar, nem como seria a criança. Não fazíamos a menor ideia de com o que estávamos lidando, mas felizmente o aborto foi vetado, de modo que tivemos a oportunidade de analisar essa ocorrência.

— Então... então elas tiveram o bebê? — perguntei.

Nancy fez que sim.

— Foi uma gravidez normal pelos padrões humanos... entre oito e nove meses. O bebê foi apenas um pouquinho prematuro.

— Para um Luxen, a gravidez dura cerca de um ano — informou Lauren. Encolhi-me ao imaginar que era um tempo demasiadamente longo para ficar carregando trigêmeos. — Mas, como eu disse, elas não engravidam com facilidade.

— Quando a criança nasceu, não havia nada de extraordinário em sua aparência, exceto pelos olhos. Eles eram violeta, uma cor extremamente rara entre os humanos, com um círculo escuro e irregular em torno das írises. Os exames de sangue comprovaram que o DNA do bebê era um misto de Luxen e humano, porém diferente do DNA de um híbrido. Só depois que a criança começou a crescer foi que percebemos o que isso significava.

Eu não fazia a menor ideia do que poderia ser.

Nancy abriu um ligeiro sorriso, um sorriso genuíno, como o de uma criança na manhã de Natal.

— A taxa de crescimento era normal, igual a de uma criança humana. Ele, porém, logo mostrou sinais de uma inteligência singular, aprendendo a falar muito antes do esperado. Os testes indicaram que seu QI estava acima de duzentos, o que é raríssimo. Apenas um por cento da população possui um QI acima de cento e quarenta. E isso não foi tudo.

Lembrei que a Lauren tinha me dito que os Luxen amadureciam mais rápido do que os humanos, não na aparência física, mas na capacidade intelectual e social, o que me parecera duvidoso, levando em consideração o modo como ela agia às vezes.

Ela me lançou um olhar demorado, como se soubesse o que eu estava pensando. Apertei-lhe a mão.

— O que você quer dizer com isso não foi tudo? — eu perguntei, virando-me de volta para a Nancy.

— Bem, na verdade, essas experiências parecem não possuir limites, é um aprendizado contínuo. Cada criança, cada geração, apresenta habilidades diferentes. — um ligeiro brilho iluminou seus olhos enquanto ela falava. — A primeira criança era capaz de fazer algo que nenhum híbrido jamais conseguiu. Ela podia curar.

Recostei-me na cadeira, piscando repetidas vezes.

— Mas... eu achava que apenas os Luxen conseguiam fazer isso.

— Nós também, até conhecermos o Ro. Demos esse nome a ele em homenagem ao primeiro faraó egípcio documentado, que se acreditava ser um mito.

— Espera um pouco. Vocês escolheram o nome dele? E quanto as mães? — perguntei.

Ela deu de ombros, mas com apenas um, e essa foi toda a resposta que obtivemos.

— O poder que Ro tinha de curar a si mesmo e aos outros era semelhante ao de um Luxen, obviamente herdado do pai. No decorrer de sua infância, descobrimos que ele era capaz de se comunicar telepaticamente não somente com Luxen e híbridos, mas também com humanos. Além disso, ele era imune à mistura de ônix com diamantes. Possuía também a força e a velocidade dos Luxen, porém mais aprimorados. E, tal como nossos amigos alienígenas, ele podia invocar a Fonte com a mesma facilidade. Sua capacidade de solucionar problemas e desenvolver estratégias em tão tenra idade era incomparável. A única coisa que nem ele nem os outros originais são capazes de fazer é mudar a aparência. Ro era o espécime perfeito.

Levei alguns momentos para digerir tudo o que ela estava dizendo, e quando finalmente consegui uma coisa chamou mais a minha atenção do que todo o resto. Uma pequena palavra, porém, demasiadamente poderosa.

— Onde ele está agora?

Parte do brilho em seus olhos se apagou.

— Ro não está mais conosco.

O que explicava o uso do verbo no pretérito.

— O que aconteceu com ele?

— Ele morreu, pura e simplesmente. Mas Ro não foi o único. Vários outros nasceram, e pudemos aprender como a concepção era possível. — Nancy começou a falar rápido, empolgada. — O fator mais interessante é que a concepção pode ocorrer entre qualquer Luxen e híbrida cuja mutação tenha transcorrido com sucesso.

Lauren se recostou na cadeira e soltou a mão da minha. Em seguida, franziu o cenho com desconfiança.

— Quer dizer que o Daedalus encontrou um bando de Luxen e ­híbridos cheios de amor pra dar e dispostos a participar dessa experiência enquanto estavam aqui? Porque isso me parece um pouco estranho. Esse lugar não é dos mais românticos. Não contribui muito para criar o clima.

Senti o estômago revirar ao perceber aonde a Lauren queria ­chegar com aquela pergunta, e o ar da sala tornou-se estagnado. Havia um ­motivo para a Nancy estar sendo tão aberta com a gente. Afinal, segundo o dr. Roth, Lauren e eu éramos "espécimes perfeitas", uma Luxen e uma híbrida cuja mutação transcorrera em nível celular.

O olhar da agente tornou-se subitamente frio.

— Você ficaria surpresa em saber o que duas pessoas apaixonadas são capazes de fazer quando arrumam alguns momentos de privacidade. E, para ser sincera, o negócio só leva alguns instantes mesmo.

De repente, o fato de compartilharmos um banheiro fez sentido. Será que a Nancy esperava que eu e a Lauren cedêssemos à nossa luxúria animal e começássemos a fazer bebezinhos Lauren?

Pai do céu, quando ela confirmou, achei que ia vomitar.

— Afinal, nós não impedimos vocês de passarem alguns momentos sozinhas, impedimos? — seu sorriso me deixou oficialmente assustada. — As duas são jovens e estão super apaixonadas. Tenho certeza de que farão bom uso de seu tempo livre mais cedo ou mais tarde.

O sargento Dasher não havia mencionado nada disso durante seu belo discurso sobre proteger o mundo contra uma invasão alienígena ou encontrar a cura para várias doenças. Mas, por outro lado, como ele próprio dissera, o Daedalus possuía várias facetas.

Lauren abriu a boca, sem dúvida para dizer algo que me deixaria com vontade de chutá-la, mas eu a interrompi.

— Acho difícil de acreditar que vocês encontraram tantas pessoas dispostas a... bem, você sabe.

— Em alguns casos, a gravidez foi totalmente acidental. Em outros, nós auxiliamos o processo.

Inspirei fundo, mas o ar ficou preso em meus pulmões.

— Vocês auxiliaram o processo?

— Não é o que você está pensando. — ela riu, um som esganiçado, destruidor de nervos. — Tivemos alguns voluntários no decorrer dos anos, Luxen e híbridos que entendiam o verdadeiro propósito do Daedalus. Em outros casos, recorremos à fertilização in vitro .

Um bolo de fel me subiu à garganta, o que não era nada bom levando em consideração que eu estava com a boca aberta. O risco de acabar vomitando ali mesmo era enorme.

Um músculo continuava pulsando no maxilar da Lauren.

— Como assim? Quer dizer que o Daedalus atua também como Parperfeito.com para Luxen e híbridos?

Nancy a fitou de modo seco, e não consegui evitar um calafrio de revolta. Fertilização in vitro significava que tinha que haver uma híbrida para carregar o bebê. E, por mais que a Nancy afirmasse que sim, duvidava de que todas elas tivessem se voluntariado para tanto.

As pupilas da Lauren estavam começando a brilhar.

— Quantos originais vocês já criaram?

— Centenas — repetiu ela. — Os mais jovens são mantidos aqui, mas à medida que envelhecem eles são transferidos para outras localidades.

— E como vocês conseguem controlá-los? Pelo que eu vi, ninguém tem muito controle sobre o Micah.

Ela pressionou os lábios numa linha fina.

— Nós utilizamos rastreadores, o que normalmente faz com que eles permaneçam onde têm que ficar. Mas, de vez em quando, eles encontram um meio de neutralizar esses dispositivos. Os que não são controláveis são tratados de acordo.

— Tratados de acordo? — murmurei, horrorizada com a imagem que me veio à mente.

— Os originais são superiores em quase todos os aspectos. Eles são seres formidáveis, mas podem se tornar muito perigosos. Quando não conseguem ser assimilados, precisamos tomar as providências necessárias.

Minha imaginação tinha acertado na mosca.

Lauren deu um soco na mesa, fazendo com que o Archer se aproximasse, levando a mão à arma. 

— Vocês estão basicamente criando uma raça de bebês cobaias e, se eles não forem aceitáveis, então são eliminados?

— Não espero que você entenda — retrucou Nancy calmamente, levantando e se postando atrás da cadeira. Suas mãos se fecharam sobre o encosto. — Os originais são uma espécie perfeita, mas como com qualquer raça, ser ou criatura, existem aqueles que... não se encaixam. Isso acontece. Mas o lado positivo e vantajoso supera o negativo.

Fiz que não.

— O que tem de tão positivo nisso?

— Muitos dos nossos originais cresceram e foram assimilados pela ­sociedade. Nós os treinamos para que alcancem a elite do sucesso. Cada um deles é moldado desde o nascimento para assumir um determinado papel. Eles irão se tornar médicos inigualáveis, pesquisadores aptos a descobrir os segredos do desconhecido, senadores e políticos capazes de enxergar o quadro geral e promover mudanças sociais. — ela fez uma pausa e se virou para o Archer. — E alguns se tornarão soldados incomparáveis, unindo-se aos times de híbridos e humanos, criando um exército indestrutível.

Os pelos da minha nuca se eriçaram. Virei-me lentamente na cadeira e meus olhos encontraram os do Archer. Sua expressão era indecifrável.

— Você é um...?

— Archer? — chamou Nancy, sorrindo.

Ele ergueu a mão que estava posicionada sobre a arma e a levou até o olho esquerdo. Com as pontas dos dedos, removeu uma lente colorida, que revelou uma íris tão brilhante quanto uma pedra de ametista.

Suguei o ar com força.

— Santa loucura...

Lauren soltou uma maldição por entre os dentes. Agora fazia sentido por que eles haviam designado somente o Archer para vigiar a mim e a Lauren. Se ele fosse um pouquinho parecido com o Micah, conseguiria lidar com a gente com os pés nas costas.

— Uau, quer dizer que você é uma pérola rara — murmurou minha namorada.

— Sou mesmo. — os lábios do Archer se repuxaram num meio ­sorriso. — Mas isso é segredo. Não queremos que os outros oficiais ou soldados se sintam desconfortáveis perto de mim.

O que explicava por que ele havia derrubado o Micah com um dardo tranquilizante, em vez de dar uma de super-homem para cima do garoto. Minha língua coçou com milhares de perguntas, mas permaneci calada diante das implicações do quê e de quem ele era.

Lauren cruzou os braços e voltou a atenção novamente para a Nancy.

— Revelação interessante, mas tenho uma pergunta mais importante a fazer.

Ela abriu os braços de forma acolhedora.

— Vá em frente.

— Como vocês determinam quem vai gerar esses bebês?

Ó céus! Meu estômago revirou ainda mais, e me debrucei sobre a mesa, agarrando a beirada do tampo.

— Na verdade, é simples. Além da fertilização in vitro , a gente procura por Luxen e híbridas como vocês.



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