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História Os Bastidores de Saint Seiya - Capítulo 2


Escrita por: LuaPrateada

Capítulo 2 - O retorno dos astros


O céu estava cinzento naquela quarta feira. Completamente coberto por nuvens que indicavam uma chuva iminente, o sol ainda não havia dado o ar de sua graça naquela fria manhã. Isso seria, para muitos, um ótimo pretexto para perder um pouco mais de tempo na cama, curtindo o calorzinho proveniente das cobertas e uma boa bebida quente; mas esse não era o caso das pessoas paradas ante os portões do estúdio Thoei. Elas estavam ali por uma razão especial e, justamente por isso, ignoravam o frio, o tempo feio, a fome e qualquer outro empecilho que as impedissem de ver seus ídolos de volta ao trabalho, depois de três anos de infindáveis reprises.

Quando a limusine da última e atrasadíssima estrela apareceu, cruzando com cuidado o perímetro formado pelos seguranças do estúdio, a multidão foi ao delírio. Alexei Hyoga Yukida, o ilustre ator e uma das maiores dúvidas quanto ao retorno do show não pareceu se assustar diante do assédio, provavelmente acostumado a ver gente chorando, enlouquecendo e gritando ao tê-lo tão próximo. O loiro de cabelos compridos não estava tão bem humorado quanto gostaria, mas um cutucão de seu sisudo agente bastou para que ele baixasse um pouco a janela do veículo e começasse a distribuir autógrafos, sem retirar os óculos escuros e com um sorriso levemente forçado em seu rosto; não por antipatia, coisa que passava longe de sua personalidade, mas por cansaço.

Hyoga demorou exatos dez minutos para conseguir entrar no pequeno complexo Thoei; teria gastado muito mais tempo, não fosse pelos seguranças que afastaram as pessoas mais histéricas de perto do carro. Quando chegou ao estúdio A, produtores, maquiadores, cabeleireiros, figurinistas e todo o pessoal do staff saltaram em sua frente, falando rápido e ao mesmo tempo, deixando o loiro bastante atordoado, tanto que não conseguiu cumprimentar o restante dos atores que, a essa altura, já deviam pensar coisas pavorosas dele e seu estrelismo involuntário.

– Ah, não! Isso é uma espinha?! Não te ensinei a cuidar direito dessa pele, garoto? – Mary, a maquiadora favorita de Hyoga se manifestou enquanto retirava os óculos dele e passava algo para preparar sua pele para a infinidade de produtos que aplicaria a seguir.

– Eu…

O loiro ia responder, mas, ao longe, ouviu o diretor discutindo com seu agente, reclamando do atraso de quase uma hora.

– O voo…

Falou um pouco mais alto, tentando se fazer ouvir pelo diretor, mas foi novamente cortado.

– Hyoga! Você emagreceu?! Merda! A armadura não vai ficar boa… – um dos assistentes de figurino comentou. – Luigi, chama alguém pra ajustar a armadura nele! – gritou o rapaz, enquanto apalpava o corpo de Hyoga como quem mexe num manequim de loja.

E foi assim que, sem conseguir proferir qualquer palavra, o ator loiro foi arrastado às pressas até seu camarim, incapaz de lutar contra aquele bando escandaloso que não permitiu que ele sequer cumprimentasse seus colegas de trabalho, embora tenha lançado um olhar amigável para todos eles e, de relance, visto alguns nem tão amistosos assim, como o de Ikki Amamiya, que parecia estar aguardando há um bom tempo.

De fato, Ikki já estava por lá há um bom tempo. Possivelmente, de todos os outros atores, era o que tinha chegado primeiro. Mas não o fizera por querer ser o primeiro a recepcionarem, ou qualquer coisa do gênero. Na verdade, o moreno tinha feito questão de chegar bem cedo para justamente evitar a aglomeração que, sabia ele, iria se formar à medida que os outros fossem chegando. Assim, veio em seu próprio carro e chegou aos estúdios na véspera do dia em que os eventos que marcavam o retorno da série se dariam. Dessa maneira, teve tempo para se habituar ao ambiente mais uma vez, no seu ritmo, sem ser obrigado a correr de um lado para o outro, como via acontecer agora com Hyoga.

Por ter sido o primeiro a chegar, era o que já estava pronto há mais tempo. Os outros terminavam de se preparar, de modo que pôde manter-se observando, sem ser incomodado. Ou, melhor dizendo, sendo o menos incomodado do grupo, já que, de quando em quando, alguém vinha lhe perguntar se já tinha recebido todas as informações sobre como proceder na entrevista, ou se não precisava retocar a maquiagem, ou se poderia experimentar a armadura mais uma vez. Mas, a todos esses inconvenientes, dirigia um olhar sério de quem não está a fim de responder e era deixado em paz. Por esse motivo, acabavam tendo de falar com seu agente, que apesar de se ver sobrecarregado pelo fato de Ikki não querer ajudá-lo com essas coisas, aceitava o mau-humor típico do rapaz, já que o acordo entre eles previa essas situações. E o moreno agia exatamente como tinha alegado que faria, antes de assinar o contrato para regressar à série. Então o pobre agente não podia reclamar.

Assim, vendo-se livre do assédio das pessoas que corriam de um lado para o outro, aproveitou para seguir até o camarim do loiro que estava com a porta escancarada, já que por estar atrasado, entrava e saía gente dali a toda hora. Entrou sem dar grandes satisfações a ninguém, escorou-se na parede, cruzou os braços e lançou um olhar zombeteiro para o loiro, que estava sentado e tendo seus cabelos penteados por três pessoas ao mesmo tempo:

- Já estavam achando que você não apareceria, Yukida.

Hyoga não gostou de ser observado naquela situação. Ou melhor, ele não gostou de ser observado por Ikki, enquanto estava numa situação constrangedora, de certa forma. O loiro sabia que seu colega havia passado pelo mesmo processo, mas havia algo no olhar e naquele sorriso sarcástico que fazia com que se sentisse mal, ou até mesmo um pouco inferior ao outro. Irritado com a postura zombeteira adotada pelo Amamiya, e também, porque não, com os puxões consideráveis que eram dados em seu cabelo, o loiro retrucou:

- Com a quantia que me pagaram pra estar aqui, só não apareceria se eu fosse louco.

Não, ele não era esnobe. Entretanto, sem qualquer armas ou argumentos para se defender do embaraçoso atraso, resolveu esfregar na cara do outro que era de extrema importância para aquela série, tanto quanto ele. Claro que teria sido mais fácil se desculpar e explicar a razão de sua demora, mas duvidava que Ikki pararia de provocá-lo se o fizesse.

– Quanta humildade. - devolveu o moreno, no mesmo instante - Eu imaginava que você fosse estar convencido, mas não tanto. - a expressão tinha ficado um pouco séria, mas a voz logo retornou ao tom sarcástico - Eu não sei como você aceitou voltar com apenas um aumento considerável do seu cachê. Por que não exigiu que mudassem o nome da série também? Não me surpreenderia se, dentre as suas exigências, estivesse também ter o seu nome como título do programa. - finalizou sem tirar os olhos do espelho, de forma que seu olhar encontrava diretamente os olhos de Hyoga.

Nesse momento, o diretor enfiou a cabeça no camarim, parecendo nervoso:

– Ainda não terminaram? Mas que coisa! A imprensa está ficando impaciente!

O diretor saiu esbravejando algo sobre não ter que aturar crises de estrelas, enquanto caminhava para o local em que a imprensa aguardava pelos atores que dariam vida, mais uma vez, aos cinco cavaleiros de Athena. Por sinal, já estava muito estressado, porque Saori tinha avisado, de última hora, que não poderia comparecer a essa coletiva. O diretor ficou irado, mas não podia brigar com a jovem atriz que, por ser quem era, podia se dar ao luxo de fazer essas coisas sem ser repreendida.

Impulsionados pelo diretor, os funcionários agilizaram ainda mais suas tarefas, ou seja, Hyoga teve os cabelos puxados com ainda mais força, a maquiagem feita às pressas e sem a menor delicadeza, entre outras coisas... Tudo sendo divertidamente observado por Ikki, que parecia apreciar cada detalhe de seu sofrimento. O loiro estava pensando no que dizer para acabar com aquela zombaria, quando uma jovem adentrou o camarim.

– Olá, eu sou a Flair. - disse ela, estendendo a mão para Hyoga.

Era bom poder associar um rosto ao nome que tanto viu nas cenas do roteiro que previamente lhe enviaram, para que já fosse se preparando para as primeiras gravações. Buscando ser simpático, Hyoga sorriu abertamente, enquanto apertava a mão da moça.

– É um prazer conhecê-la, Flair. Seja bem vinda! - disse ele, olhando para Ikki em seguida. - Vocês já se conhecem? - perguntou para o moreno.

– Já nos conhecemos, sim. - o moreno não mudou de posição desde que a moça tinha entrado - Todo mundo aqui já trocou cumprimentos, porque todo mundo chegou dentro do horário. - aproveitou para alfinetar uma vez mais - Mas era com você que ela precisava conversar mais, já que vão ter muitas cenas juntos. - abriu um sorriso de galhofa - Parece que finalmente o seu personagem vai ter uma garota com quem interagir. Convenhamos que a reputação do Cavaleiro de Cisne sempre foi controversa nesse quesito, especialmente depois daquela cena na Casa de Libra com o Shun... - sorriu de canto.

Flair, parecendo sentir o clima pesado, sorriu de volta para o loiro, acenou brevemente com a cabeça para Ikki, e retirou-se do quarto.

– O meu voo atrasou, Ikki. - foi tudo o que Hyoga disse. Apesar de manter sua expressão serena, ficou claro que o comentário sobre a sexualidade de seu personagem não foi bem recebido.

– Claro. - Ikki limitou-se em responder. Então finalmente se desencostou da parede e caminhou em direção à porta - Espero que o atraso do seu voo não sirva mais de desculpa para outras coisas. Todo mundo já está pronto para as sessões de fotos e entrevistas. - deixou claro que se referia ao estrelismo que, para ele, era o verdadeiro motivo de tudo isso. A desculpa do voo lhe soava esfarrapada – O problema é que, sem a estrela do programa, não podemos fazer nada. Por isso, se não for pedir muito, faça direito a sua parte para os outros poderem também fazer a deles.

Hyoga tinha certeza de que, dentre todos naquele estúdio inteiro, Ikki seria o único a dizer tais coisas em sua frente. - É ótimo ver que as coisas não mudaram, Amamiya. Você continua tão delicado quanto antes... - o loiro usou de todo o seu sarcasmo para retrucar, já que era a única forma de disfarçar o quanto as palavras vis de Ikki o entristeceram. Hyoga nunca gostou de ser taxado como estrela, simplesmente aproveitou a maré de sorte que surgiu em sua vida. O loiro sempre procurava se manter longe de atitudes problemáticas ou ataques de estrelismo, mas nem sempre seus esforços tinham o efeito desejado. Por muitas vezes, como agora, ele era julgado injustamente por situações que fugiam ao seu controle, como um simples atraso de um voo.

- As coisas mudaram, Yukida. Afinal, você conseguiu tudo que sempre quis, não é mesmo? - mesmo sem se esforçar, o tom ácido transparecia e, talvez, mal direcionado. Era possível que suas próprias frustrações estivessem vindo à tona, e estivesse usando Hyoga para descarregar certos sentimentos indesejados.

- Vocês ainda vão demorar muito? - Shun apareceu de repente, colocando a cabeça dentro do aposento, e lançou um olhar amigável para o loiro - Oi, Hyoga! Nem tive tempo de cumprimentar você. - adentrou o camarim e se aproximou do outro, com um sorriso no rosto - Eu percebi que você chegou quando o corre-corre aumentou. Estava todo mundo a postos te esperando. - Nesse momento, Ikki bufou, de forma reprovadora, e Shun olhou de esguelha para o moreno - Tem gente que já estressou. O Seiya, por exemplo, está quase tendo um ataque de ansiedade. Ele fica repetindo no nosso ouvido que quanto mais demora para essa coletiva começar, mais ele fica nervoso. - Shun deu uma leve risadinha - Ele diz que a pressão de ser o protagonista da série está deixando ele uma pilha de nervos...

- E eu tenho que aturar esses ataques de estrelinhas. É demais para a minha cabeça. acrescentou Ikki.

- Eu sinto muito por deixá-los esperando, Shun. Mas não tive culpa. - Hyoga repetiu pela enésima vez, fazendo questão de aumentar o tom de voz e olhar diretamente para Ikki, enquanto proferia a última frase.

- Pronto, doçura! Acabamos! - a maquiadora alertou o loiro de que ele já estava pronto para a coletiva de imprensa.

Hyoga sorriu para a equipe que o arrumou com tanto empenho e adiantou-se para a porta do camarim. - Vamos? - disse ele, dirigindo-se para Shun e Ikki.

- Vamos! Já deixaram a imprensa entrar e estão todos numa área separada, acomodados e esperando pela gente. - Shun colocou-se entre Ikki e Hyoga, como se fossem bons e velhos amigos, enquanto caminhavam para fora do camarim, em direção à área da coletiva - Estou com pena do Shiryu; deixei o coitado ouvindo o Seiya, porque eu já não estava mais aguentando a crise de nervos dele. - falou rindo divertido - Vocês estão ansiosos também? É um grande retorno. - colocou os braços por sobre os ombros dos outros dois - A mídia não tem falado de outra coisa; todos só querem saber do nosso regresso.

- Eu estou pouco ligando para o que estão falando. Só quero passar logo dessa parte para começarmos a gravar. - resmungou o moreno.

- Pelo visto, o Ikki está animado. - Shun brincou, filtrando de forma positiva o que o Ikki dizia, como usualmente estava acostumado a fazer - E você, Hyoga? Animado? Se bem que, para você, fazer parte de um grande projeto da TV nem deve soar como novidade, não é? - indagou sem usar de qualquer ironia.

- Bom, confesso que eu não tive interesse em voltar de imediato, mas acabei convencido... - Hyoga riu. - A verdade é que senti falta disso aqui, tenho um carinho especial pela série e por todos vocês. Afinal, foi aqui que tudo começou, não é?

- É, foi aqui... - Shun soltou um suspiro saudosista, olhando ao redor. Viu então que acenavam para que os três se apressassem; Seiya e Shiryu já estavam em posição e era o momento de os cinco entrarem na sala preparada para a coletiva.

- Até que enfim! Por que demoraram tanto? - Seiya perguntou, um tanto afobado, assim que os outros se juntaram a eles - Eu e o Shiryu já estávamos ficando nervosos aqui!

Shiryu apenas fez uma expressão de negativa, com um riso discreto, cumprimentando os recém-chegados com um aceno de cabeça.

Finalmente, anunciaram para a imprensa que os atores da consagrada série entrariam em cena para responder às perguntas. Com isso, foi dado a eles um sinal, de modo a indicar que entrassem em fila indiana, sendo Seiya o primeiro, Shiryu o segundo, Hyoga em terceiro - para o qual as palmas foram audivelmente mais animadas - Shun em quarto e, por último, Ikki. Sentaram-se todos em suas cadeiras, ao longo de uma comprida mesa, ficando de frente para uma série de jornalistas que se aglomeravam no local.

Hyoga sempre se sentia desconfortável em coletivas. Sentia-se acuado com tanta gente portando câmeras e microfones, sem contar os flashes que embaçavam sua visão e as pessoas com bloquinhos de papel e caneta que lhe davam verdadeiros arrepios. Não via grande dificuldade em controlar cada palavra que dizia, mas ainda assim alguns jornalistas conseguiam distorcer completamente suas falas. O loiro acomodou-se melhor na cadeira e tomou um gole da garrafinha de água em sua frente, abriu um sorriso comedido e preparou-se para as perguntas.

A primeira a perguntar foi uma moça risonha, baixinha e simpática, que o loiro reconheceu de outras entrevistas.

– Hyoga, havia muita expectativa para o seu retorno, não é verdade? Como é estar de volta à série que te lançou ao estrelato? Mudou muita coisa nesses três anos que se passaram?

Receber a primeira pergunta foi um pouco constrangedor, mas já era de se esperar que as coisas fossem assim. Disfarçando seu embaraço, Hyoga pensou um pouco e pôs-se a responder: - Bom, eu diria que houve uma expectativa pelo retorno da série. Não de um ou outro personagem em especial, mas de todos aqueles que trabalharam arduamente para fazer de Saint Seiya o que ela é hoje. Se, por acaso, eu não retornasse, eu faria a mesma falta que qualquer outro personagem, pois temos a mesma importância, entende? Talvez não no desenrolar da história, mas no grupo, na equipe, na força de trabalho que faz tudo isso funcionar, somos todos igualmente importantes... Eu estou amando esse retorno de Saint Seiya, pois é uma série pela qual tenho imenso carinho. É uma oportunidade incrível voltar a trabalhar com essa equipe maravilhosa e com essa história encantadora. - ele fez uma pausa, tomando outro gole d'água. - E o que mudou... Bem, acho que a minha forma de ver o mundo artístico... Talvez tenha passado o momento de deslumbramento, já que estou ainda mais focado no profissionalismo e no trabalho duro que essa indústria exige. - Hyoga olhou para cada um de seus companheiros e sorriu. - Senti falta de vocês, rapazes!

– Obrigado, Hyoga. - Seiya sorriu para o loiro e começou a falar, puxando um pouco mais da atenção para si - De fato, somos uma equipe e a série não faz, de forma alguma, alusão mais especial a esse ou àquele personagem. Tudo bem que o nome da série é Saint Seiya, trazendo meu nome, que, por sinal, é do meu personagem também, mas isso não quer dizer nada. Além disso, eu gostaria de ressaltar que estou muito feliz com...

Nesse momento, um barulho que se assemelhava a um suspiro pesado fez-se ressoar pela área de entrevistas e todos imediatamente olharam para Ikki, uma vez que o som havia partido de seu microfone. O moreno havia se esquecido momentaneamente de que existia um microfone bastante próximo de sua boca e que qualquer som, mínimo que fosse, seria audível para todos no local. Entretanto, em sua expressão, não se pôde perceber qualquer constrangimento. Ikki apenas encarou os fotógrafos e jornalistas que pareciam esperar por uma explicação, e então Shun, a seu lado, pigarreou sugestivamente, como se lhe lembrasse do que o diretor dissera a respeito do comportamento em frente à imprensa. Desse modo, Ikki bufou, uma vez mais, demonstrando não se preocupar em esconder sua má vontade com tudo aquilo, e disse: - É um prazer estar de volta. - no tom mais vazio que se pode imaginar. Então se recostou à cadeira, afastando-se do microfone, como se já tivesse feito a sua parte.

Um jornalista, aproveitando a deixa, colocou sua pergunta direcionada para Ikki:

– Sabemos que, dos cinco atores essenciais para que o programa pudesse retornar, dois foram verdadeiras incógnitas e até o último minuto não se tinha certeza de sua participação na série. Um deles, Hyoga, era uma dúvida em virtude da sua carreira de sucesso e dentro da qual já não se sabia se seria realmente interessante participar outra vez desse show. O outro era você, Ikki. Soube-se do quanto foi difícil trazerem-no de volta a Saint Seiya e há rumores que dizem ter sido uma jogada de marketing, para que assim seu nome pudesse ser tão comentado quanto o do astro Hyoga. Isso é verdade?

Ikki, que estava recostado à sua cadeira, de forma displicente, e com os braços cruzados sobre o peito, arqueou uma sobrancelha com essa pergunta. Inclinou-se então sobre a mesa e, fazendo questão de trazer o microfone para ainda mais perto de sua boca, pronunciou, em um tom ríspido, sem necessidade de gritar para soar ameaçador: - Dessa sua pergunta idiota só tem um negócio que você precisa saber. A única coisa em comum que eu e Hyoga temos é o fato de trabalharmos em uma mesma série. Meus motivos e os dele não poderiam ser mais diferentes. - finalizou, categórico.

Todos ficaram extremamente surpresos com a declaração de Ikki; flashes pipocaram de todos os cantos, tentando flagrar olhares raivosos de um integrante para o outro. Hyoga não podia estar mais revoltado; depois de semanas tentando abafar o boato de que havia uma intensa guerra de egos no elenco por sua causa, Ikki simplesmente jogou todo o seu esforço no lixo. Olhou para o moreno com uma expressão claramente reprovadora, mas logo desviou seu olhar novamente para a multidão, quando ouviu a pergunta: - Hyoga, boatos dizem que o valor de seu cachê é quatro vezes maior que o dos outros. Essa foi sua maior motivação para o retorno?

– Viemos para falar do show, não discutir valores de contratos. Minha motivação foi pessoal, não financeira. - limitou-se a dizer, sem disfarçar seu desgosto dessa vez.

– Hyoga, aqui! - chamou um homem calvo com um bloquinho de papel e caneta nas mãos. - Como é a convivência entre o elenco? O fato de ter sido mais bem sucedido em sua carreira não provoca algum desconforto entre os outros?

– Nos damos muito bem, na medida do possível. É claro que alguns de nós não faz tanta questão assim de ser algo além de uma espécie de 'homem das cavernas', mas posso dizer que sempre tive amigos aqui, dos quais senti saudade e estou adorando reencontrar... - o loiro respondeu sem se importar se as pessoas compreenderiam sua provocação para Ikki.

Shiryu e Shun se entreolharam e decidiram que seria importante colocar panos quentes na situação. Com um olhar, Shun pareceu dizer ao chinês que falasse qualquer coisa, mas antes que o rapaz de longos cabelos negros se manifestasse, o mesmo jornalista, que antes fizera a pergunta a Ikki, resolveu atiçar ainda mais aquela discussão, descobrindo ali manchetes excelentes para os tabloides. O jornalista ajeitou os óculos e direcionou-se a Hyoga: - Por 'homem das cavernas', está claramente se referindo a Ikki, não é mesmo? - não deu tempo de o loiro responder - Desde a primeira parte da série, Ikki nunca foi muito dado a demonstrar simpatia com quem buscasse entrevistá-lo, sendo uma figura tão hostil quanto seu personagem. É possível então afirmar que o comportamento dele, nos bastidores, é tão rude com seus colegas quanto parece ser conosco? - inquiriu, de modo a direcionar bem a resposta de Hyoga, que não teria como usar de evasivas para suavizar essas questões. Os flashes das câmeras voltaram-se para Hyoga, assim como a atenção de toda a imprensa.

– Bem... Ikki é profissional. Não se atrasa, tem sempre os textos muito bem decorados, se dedica às cenas. Quando estamos gravando, ele desempenha seu trabalho com muita competência, responsabilidade e talento. O que ele faz antes ou depois disso não é assunto meu; não tenho direito a dar palpites. - Hyoga tentou sair daquela situação da melhor forma que pôde, mas tinha certeza de que aquele jornalista não anotara nem um terço de suas palavras.

O jornalista voltou seu olhar rapidamente para Ikki, que sorria de canto, erguendo sua garrafinha de água para o alto, num gesto que parecia brindar e dizer que Hyoga estava certo, que ele concordava com aquelas palavras. Seiya então aproximou-se do microfone e pronunciou, parecendo enfadado: - Alguém aqui tem interesse em saber como vai ser a série, tem curiosidades sobre as diferenças entre a primeira parte e essa que vamos começar a gravar...?

Uma jornalista, bastante jovem, ergueu a mão animada. Seiya abriu um largo sorriso e apontou para ela, dando-lhe a vez de perguntar: - Seiya, houve tantos rumores sobre o que se passou após as gravações da primeira parte... Dizem que vocês cinco, mesmo sendo os principais, tiveram de compartilhar seu brilho com os atores que incorporaram os cavaleiros de ouro. Por causa disso, falou-se muito sobre atritos, sobre egos, sobre amizade, sobre romance, sobre inúmeras coisas e por isso, gostaríamos de perguntar. É verdade que a relação de amizade de alguns de vocês enveredou para algo mais? Por exemplo, surgiram inúmeros boatos que ligavam Hyoga a Camus...

– Nós estamos aqui para falar do nosso trabalho, não de nossa vida pessoal. - Hyoga cortou a mocinha, respondendo no lugar de Seiya. Sabia que soara um tanto ríspido, mas aquele assunto não era nem um pouco agradável.

A jornalista, parecendo não satisfeita com a resposta, prendeu os cabelos lisos e pretos atrás da orelha e prosseguiu: - Parece que o senhor continua mantendo uma posição que denota certa homofobia, não é mesmo? Desde a primeira parte, aquela controversa cena com Shun na casa de Libra fez com que perdesse a paciência em uma entrevista na qual se insinuava que você tinha um caso com Shun. Depois de arrefecidas essas questões, tornou-se comum ver você e Camus indo juntos a diversos lugares, inclusive na última cerimônia do Oscar, na qual você preferiu levar Camus em vez de uma companhia feminina. - a jornalista falava apressada, parecendo ansiosa, lendo informações em seu bloquinho à medida que formulava a pergunta - É por isso que agora, nessa segunda parte da série, parece haver uma figura feminina com a qual Hyoga de Cisne poderá ter um romance sugerido? E é por isso que você e Ikki sempre tiveram conflitos pessoais? Afinal, ao contrário de você, Ikki nunca desmentiu o suposto romance que ele tinha ou tem com o ator que viveu Shaka de Virgem... - finalizou a mocinha, respirando fundo para retomar o fôlego, enquanto esperava atenta a resposta de Hyoga.

– Eu não sou homofóbico! - Hyoga esbravejou. - Não tenho nada contra homossexuais, quero deixar isso bem claro. Mas não vejo porque é tão importante abrir minha vida pessoal para todos vocês. As pessoas com quem me relaciono não deveria ser a pauta dessa coletiva; vim aqui para falar do meu trabalho, nada mais. Por favor, gente, hoje é um dia maravilhoso. Os fãs não querem saber dessas coisas, querem falar de Saint Seiya, que é o que realmente importa aqui. - disse ele, por fim, recuperando o controle de seus nervos.

– Mas o senhor poderia esclarecer sua relação com Camus? - a mocinha insistiu, com a voz um pouco tímida.

Hyoga a olhou incrédulo. Por mais que estivesse atolado nesse mundo das celebridades há algum tempo, jamais se acostumaria a isso. - Somos grandes amigos. Próxima pergunta? - o russo olhou para todos no salão, torcendo para que alguém sensato pedisse a palavra.

Um jornalista, que devia ter por volta de quarenta anos, ergueu a mão tranquilamente, ao contrário dos outros que, um tanto afobados, tentavam ganhar a atenção de Hyoga. Talvez por isso mesmo, o loiro escolheu-o com os olhos:

– Hyoga, você tem namorada? - a pergunta foi sucinta, mas certeira, e todos os outros jornalistas pareceram aprovar a indagação. O loiro, provavelmente, esperava algo diferente desse homem que não parecia tão em busca de sensacionalismo, mas percebeu que se enganou. Possivelmente, a coletiva só seguiria um caminho menos pessoal, ou menos focado em si, se começasse a responder de forma menos evasiva.

O loiro bebeu um pouco de água, antes de responder: - Não. Eu estou sozinho no momento. Nos últimos meses, eu estive totalmente focado no meu trabalho, não tive tempo para relacionamentos.

– Com licença, mas... - Shiryu tomou a palavra, atraindo imeditamente a atenção para si - Pensei que essa coletiva fosse para falarmos sobre as novidades da série, como, por exemplo, o fato de as armaduras dos cavaleiros terem mudado bastante. Além de a história agora ser alimentada pela mitologia nórdica... - o chinês falou, pausadamente, com a voz tranquila e serena, apesar de saber que os produtores certamente o estavam maldizendo agora. Contudo, sabia que tinha feito o certo. Se algo não fosse feito agora, toda a coletiva seria desvirtuada. Se queriam que a atenção recaísse sobre o show, então era necessário revelar alguma coisa que chamasse a atenção. Para isso, nada melhor que os dois grandes segredos que a segunda parte traria: armaduras bem diferenciadas e uma história mais ligada à outra mitologia, que não a grega. Isso, certamente, surpreendeu e chamou a atenção, porque imediatamente os jornalistas explodiram em mil perguntas de uma única vez, sendo possível notar que, agora sim, estavam relacionadas ao programa.

– Programas consagrados como Saint Seiya costumam ter seguidores bem fanáticos. Vocês não têm medo de que mudanças drásticas desvirtuem a série e desagradem aos fãs? - uma ruiva de óculos lançou a pergunta, sem direcioná-la a ninguém especificamente.

Hyoga e Seiya começaram a falar ao mesmo tempo. O loiro riu da coincidência e fez uma mesura, cedendo ao amigo a oportunidade de responder.

– Não achamos que vá desagradar. A essência da série está na relação que existe entre os personagens. Nós cinco permanecemos na série, que é o que o público mais espera. A mudança dos outros personagens vem muito bem a calhar, porque dá uma renovada necessária para a série não cair na repetição. Ou seja, mantivemos o essencial, mudamos o resto. Mas é preciso que confiem em nossa equipe, que é muito capacitada. Todas as mudanças que vocês verão serviram apenas para tornar essa série um sucesso ainda maior. E, enquanto novas tramas vão se desenrolando, as pessoas continuarão a ver os cinco cavaleiros de bronze exatamente como eram, porque foi daquele jeito que cativaram o público. Quero dizer, estão mais amadurecidos, mas a essência permanece. - Seiya sorriu satisfeito por responder, enfim, a alguma pergunta.

- Seiya, dos cinco, você era o único que já era ator antes de ingressar no programa. Quase que totalmente desconhecido, mas já havia atuado, fazendo pontas aqui e ali. Na primeira parte, houve algumas dificuldades em contracenar com seus colegas, uma vez que nenhum deles antes tinha participado de algum filme ou série de TV? E agora que todos estão no mesmo nível, pois já se podem considerar atores de verdade, ficou mais fácil?

- Bem, realmente, o único que possuía experiência no ramo era eu. Mas a primeira parte foi bastante tranquila, pois sempre que meus colegas tinham alguma dúvida, eu os ajudava. - Seiya respondia com um imenso sorriso - Fora eu mesmo, acho que o único que sabia de algo do mundo cinematográfico era o Shiryu, porque já tinha trabalhado com atores antes...

- É verdade, Shiryu. - uma jornalista de longos cabelos loiros, presos em um rabo-de-cavalo, apertou os olhos verdes e apontou para o chinês o lápis que usava para anotar as coisas em seu bloquinho - Você, antes de ser descoberto como um ator em potencial, trabalhava como professor de artes marciais. Segundo sabemos, seu talento e paciência logo fizeram com que fosse recrutado para treinar atores para filmes de artes marciais em geral. Tanto que, inicialmente, você tinha sido contratado apenas como professor para os atores, mas aí descobriram seu talento e o resto é história. A partir daí, seu trabalho como ator pareceu ocupá-lo inteiramente, abandonando suas aulas. Contudo, com o término das gravações, você resolveu abrir sua própria academia de artes marciais e vinha trabalhando com isso, que sempre pareceu ser a sua paixão, desde o início. Mas e agora? Voltando a gravar, o que passa a acontecer com sua academia, os outros professores que lá trabalham, seus alunos...?

- Eu continuarei cuidando dos assuntos administrativos, mas minha ausência como professor será suprida por profissionais de extrema competência. No mais, tudo prossegue normalmente na academia. E como continuo sendo o coreógrafo das lutas, não sinto um baque tão forte por abandonar as aulas, o que é ótimo. Essa série reúne duas paixões minhas: lutar e atuar; é por isso que amo fazer parte desse show e não me canso de dizer isso.

A jornalista que havia indagado o chinês voltou a erguer a mão e Seiya permitiu que ela falasse outra vez. - Essa pergunta vale para todos. Bom, todos vocês sempre procuraram separar a vida profissional da vida pessoal. Claro que alguns de vocês são melhores em preservar sua intimidade, mas a grande questão é: Uma das razões para o sucesso de Saint Seiya, além da mistura de mitologias, astrologia e tantas outras coisas, é essa mistura de ficção e realidade com relação aos personagens. O fato de todos os personagens receberem o nome e algumas características de seus intérpretes não dá uma abertura maior para especulações sobre a vida privada de cada um? E outra coisa: quais de vocês lidam melhor com a mídia em geral?

- Bom, realmente, o grande diferencial dessa série foi a ideia criativa do seu idealizador, o Misami Karamuda. – Shun puxou a resposta para si – Como todos sabemos, ele tinha, desde o começo, uma história envolvendo mitologia grega, astrologia, entre outras coisas, na cabeça. E isso foi crucial para todo esse sucesso. Entretanto, o que Misami pensou de realmente original foi no modo como proceder; na forma como ele decidiu colocar essa história para acontecer. A ideia dele, de escolher pessoas comuns e pouco conhecidas para formarem o elenco, foi genial. E criar personagens que eram fruto da mistura de características que ele imaginava como necessárias para o personagem, ao mesmo tempo em que ele acrescentava características próprias das pessoas escolhidas para atuarem, foi mesmo um toque de gênio. A história realmente ganhou esse lado mais real e, por sinal, foi só por isso que aceitei trabalhar nesse projeto. Como sempre digo, sou modelo; não sei atuar. Minha sorte é que Misami me tranquilizou quando disse que bastaria que eu fosse eu mesmo durante as gravações e que inclusive o meu personagem, além de levar meu nome, era como eu, agia como eu. A própria história, que nem estava pronta quando os atores foram sendo escalados, apenas ganhava forma à medida que os personagens ganhavam rosto e vida, o que só poderia ocorrer depois de escolhido o elenco. Então, posso dizer duas coisas: primeiro, que eu tenho muita sorte em viver um personagem cuja história foi escrita, em grande parte, para se adequar a mim, de modo que eu não atuo, apenas ajo de acordo com minha própria personalidade. E, segundo, que sendo assim, eu acabo misturando mesmo as coisas. Eu realmente falo e trato meus colegas em cena da forma como o faço longe das câmeras. Não sei fazer diferente; até porque a situação não ajuda muito a ver diferente disso. Resumindo para lhe responder, senhorita: Se há especulações feitas a partir do que se vê ocorrendo entre nós em cena, bem... eu acredito que haja toda uma base concreta para essas deduções que se fazem. O que se vê nessa série é muito real. Não a parte fictícia, claro... mas a relação entre nós é bem aquilo lá mesmo. - sorriu gentil - Ah, e quanto a quem lida melhor com a mídia? Acho que eu e o Seiya, porque afinal, desde antes do programa ter surgido em nossas vidas, havíamos optado por profissões que nos exigiriam lidar com holofotes. Eu quis ser modelo, portanto sabia que se fosse bem sucedido, teria a mídia como parte da minha vida. O Seiya sempre quis ser ator; então obviamente os holofotes nunca foram problema para ele. Creio que o Shiryu, o Hyoga e o Ikki tiveram ou têm mais dificuldade. Afinal, o Shiryu era professor; o Hyoga, um artista de rua e o Ikki, um marceneiro...

- O Hyoga já não é mais a mesma pessoa tem tempo, Shun. - interrompeu Ikki, que havia permanecido calado até então, com uma expressão de enfado durante toda a sequência de perguntas e respostas que tinham se desenrolado até agora - Não se esqueça de que um dos motivos para terem finalizado as gravações do programa foi a dificuldade que nosso ilustre colega teve de encaixar seus horários para gravar a série com os horários para gravar uma quantidade cada vez maior de filmes que o convidavam para estrelar. Aliás, ele foi o único que conseguiu engrenar de verdade sua carreira de ator - olhou de relance para Seiya, que pareceu chateado com essa afirmação - e, consequentemente, é o mais assediado pela mídia. Por uma questão de lógica, ele é quem mais está adaptado para lidar com a imprensa. Por sinal, como ele respira essa vida de celebridade 24 horas por dia, acho que tudo isso já se tornou até essencial para ele. O Hyoga não saberia viver sem toda essa fama. - Ikki, que falava olhando para nenhum lugar em especial, basicamente com os olhos na garrafinha de água que girava nas mãos, enfim levantou seus escuros olhos azuis e os direcionou para Hyoga - Aposto que ele só faz essa cara de incomodado com tantos flashes por charme. Ele deve gostar de se fazer de difícil. - finalizou Ikki, soltando um provocativo sorriso.

Hyoga, assim como todos os presentes, pareceu não acreditar no que tinha acabado de escutar. Os flashes voltaram a pipocar, todos olharam para o loiro com expectativa, silenciosamente exigindo uma resposta a altura. - Ikki, você ainda está por aqui? Passou tanto tempo calado que pensei que tivesse corrido pra se esconder das câmeras em algum lugar... - zombou. - Pessoal, de qualquer forma, não deem ouvidos a ele. O Ikki sabe o que é essencial pra mim tanto quanto um cavalo sabe dançar um mambo.

- Como se eu precisasse fugir de alguma coisa. Não sou covarde como você, "Pato", por isso não fico tentando esquecer ou fugir das minhas origens, por mais humildes que elas sejam. - revidou Ikki, em um tom duro e encarando o loiro. Pela primeira vez, o moreno mostrava em público o modo como apelidara Hyoga que, para ele, estava longe de ser um bom representante para um Cisne. Segundo o moreno, o loiro mal chegava a ser um Pato. - E, respondendo à sua pergunta: Sim; eu ainda estou por aqui. Mas compreendo sua surpresa, você vive tão entretido consigo mesmo, preso a esse universo em que o centro de tudo é você, que mal é capaz de notar a existência das pessoas que estão bem a seu lado. Prova disso é que você dominou essa coletiva, ofuscando aqueles que gostariam de participar dela mais ativamente. - com a cabeça, acenou nitidamente para Seiya.

- Não seja por isso, "Frango". - o loiro também utilizou a forma como apelidara Ikki nos bastidores. - Se a minha presença ofusca o brilho dos outros, faço questão de me retirar. Obrigado pela presença de todos. - Hyoga se dirigiu aos jornalistas com uma expressão séria, que não chegava a demonstrar o quanto estava irritado. Levantou-se e saiu, lançando um olhar cortante na direção de Ikki, ao passar por ele.

Ikki odiava não ser o último a ter a palavra: - Como se eu tivesse grandes interesses nisso tudo. - fez questão de dizer, em alto e bom som, essas palavras ao microfone, deixando claro que não tinha falado de si ao mencionar o fato de Hyoga ofuscar os outros. E, tão logo disse isso, levantou-se abruptamente e de forma menos controlada que Hyoga, saindo atrás dele, a passadas rápidas.

Assim, depois da saída dos atores responsáveis pelos cavaleiros de Cisne e Fênix, um grande mal-estar instaurou-se entre os que lá permaneceram e, além disso, um concerto de perguntas teve início, com as vozes dos jornalistas falando todos ao mesmo tempo. Ikki pouco se importava com isso. Assim que abandonou o cenário da coletiva, encontrou rapidamente Hyoga, que bebia mais um gole de água. Dirigiu-se até ele, falando rispidamente: - Será que você não se cansa nunca de dar esses showzinhos? Não se cansa de sempre atrair toda a atenção para você?

- Qual o seu problema, Ikki? Desde que nos vimos você não para de me atacar. O que foi que eu te fiz? - Hyoga mantinha a voz branda, enquanto erguia a mão para seu agente, pedindo com esse gesto que ele permanecesse exatamente onde estava, ou seja, longe do loiro e do intérprete do cavaleiro de Fênix.

- Quer mesmo saber? - indagou de forma rude e, percebendo que Hyoga parecia esperar que continuasse, prosseguiu - Você me incomoda profundamente, Yukida. E me incomoda por ser quem você é. - nesse momento, seu tom de voz era frio, contrastando com a forma explosiva com que viera falar com o loiro - Quando entrei para essa série, imaginei que fosse me dar bem com você, porque assim como eu, era o único que também nunca havia tido contato com esse mundo do entretenimento. Você era um artista de rua, que pintava as pessoas que passavam! Porra! Eu jurava que nos entenderíamos bem, porque tínhamos uma vida diferente da deles antes de isso tudo começar! Mas aí... Você se provou sendo pior que todos os outros. Você... - e não terminou a frase. Havia uma expressão indecifrável no rosto moreno. E, nas entrelinhas do que ele dizia, era possível notar que havia muitas coisas que ele não falava. O motivo para tanta implicância com Hyoga era real, mas não podia vir à tona, não assim. Passaria uma imagem completamente errada e precipitada. E se havia algo que Ikki sabia fazer bem, era calar quando entendia que o momento era propício. Por isso, não finalizou o que dizia. Simplesmente, deu as costas para Hyoga, sem maiores explicações, e começou a andar em direção ao seu camarim. No trajeto, lançou um olhar ameaçador ao agente que parecia seguir o loiro como um cão treinado.

Entrando nos seus aposentos, fechou a porta, recostando-se nela. Vagando seu olhar pelo quarto, pensativo como estava, acabou tendo os olhos atraídos para a arara que trazia algumas roupas penduradas. Seu olhar logo se prendeu ao elegante smoking preto. Recordou-se de que haveria um coquetel mais tarde, dando continuidade à promoção do grande evento que era o retorno de Saint Seiya. Suspirou; nem sabia se isso ainda daria certo. Ele e Hyoga meio que tinham acabado com a coletiva... Mas, de todo modo, tinha de se arrumar. Se a coisa estivesse feia, teria de ajudar a reparar. Sabia bem que o diretor exigiria isso dele. Respirando fundo, como quem se prepara para nova batalha, desencostou-se da porta e, caminhando até a arara, decidiu começar a se vestir.

Ia estar impecável nesse coquetel.

Continua...



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