1. Spirit Fanfics >
  2. Os Bastidores de Saint Seiya >
  3. Propostas

História Os Bastidores de Saint Seiya - Capítulo 3


Escrita por: LuaPrateada

Capítulo 3 - Propostas


Quando foi avisado de todas as armadilhas que a carreira artística reservava, Hyoga não acreditou por completo. Entretanto, ateve-se a uma advertência em especial: a batalha de egos com seus colegas de trabalho. Em pouco tempo, o russo descobriu que seu agente tinha razão e que sua carreira de ator teria grandes obstáculos. Já estava conformado com isso, pelo menos até aquele momento.

 

Não eram poucas as pessoas que invejavam seu trabalho, menosprezavam seu esforço e julgavam seu caráter. O que o loiro jamais esperava era que Ikki estivesse entre elas. Então, quando o moreno cuspiu aquelas palavras e simplesmente virou-lhe as costas, Hyoga quis ir atrás dele. Não era homem de meias verdades e, de qualquer forma, tinha todo o direito de resposta naquele caso.

 

Infelizmente, o braço de Takeshi, seu agente, impediu Hyoga de seguir atrás de Ikki para prosseguir com a discussão que já chamava a atenção da equipe presente. Irritado, o loiro tentou então seguir para seu camarim, mas foi novamente impedido.

 

– Você tem três entrevistas exclusivas marcadas, Hyoga. Dê o seu melhor sorriso e mantenha os nervos sob controle, por favor. – disse o homem, enquanto puxava o ator pelo braço até uma salinha onde uma repórter e um cinegrafista aguardavam.

 

Ossos do ofício. Mesmo contra sua vontade, Hyoga colocou um sorriso automático no rosto e deu as entrevistas, esforçando-se para ser simpático com todos com quem conversava. Sua mente estava longe e a quietude não passava de um sonho distante e muito esperado, mas o loiro mantinha o sorriso e continuava falando sobre seus trabalhos, planos, prêmios e tudo o mais que perguntassem sobre sua vida profissional.

 

Depois de quase uma hora, Hyoga sentiu-se aliviado por finalmente poder ir para seu camarim. Já estava sonhando com os poucos minutos solitários que conseguiria, quando abriu a porta e se decepcionou completamente. Dentro de seu confortável camarim estavam a maquiadora Mary, o cabeleireiro Kiba e um rapaz desconhecido, que mantinha um sorriso bobo no rosto.

 

– Hyoga, esse é o Mika, seu novo assistente. Ele vai estar com você durante todo o tempo, para garantir que você obtenha tudo de que precisar. – Takeshi apontou o jovem desconhecido, que fez uma mesura exagerada e sorriu ainda mais.

 

– Eu não preciso de um mordomo, Takeshi.

 

– Ele não é um mordomo, é um assistente. Todas as grandes estrelas têm um, Hyoga. Você não pode ficar para trás.

 

– Takeshi, se eu quiser um copo d’água, esse cara vai buscar pra mim. Se isso não é um mordomo, eu não sei o que… – o loiro não conseguiu prosseguir, já que Mika estendia um copo d’água para ele. – Não, isso foi só um exemplo. Eu não quero água! E também não quero um mordomo!

 

– Hyoga, mesmo que ele esteja aqui apenas para marcar presença, nós iremos mantê-lo. Ele é seu funcionário agora, use-o ou não, faça o que bem entender. Agora vá se arrumar, o coquetel já começou e você está atrasado.

 

Resignado, o ator russo se sentou na confortável cadeira e permitiu que Mary retocasse sua maquiagem, enquanto Kiba alinhava novamente seus cabelos. “Ossos do ofício”, o loiro repetia em sua mente, “São apenas os ossos do ofício…”.

 

*************************************************************************************

 

O local estava lotado. Havia pessoas da imprensa ali, atores que participaram da primeira parte da série, aqueles que estrelariam a segunda, atores sem qualquer ligação com o programa, gente importante de diversas áreas... Enfim, era um acontecimento.

 

Ikki chegou ao local quando este já se via bastante cheio. Preferiu assim porque, devido à grande quantidade de pessoas famosas circulando e atraindo os flashes das câmeras, poderia passar quase despercebido.

 

Ao menos, achou que seria assim. Mas tinha se enganado.

 

Nem bem tinha colocado o pé no galpão, e já se viu como sendo o centro das atenções. Muitos flashes e vozes falando consigo ao mesmo tempo, de forma que mal conseguia processar o que lhe diziam.

 

O diretor tinha lhe dito que a confusão causada por ele e por Hyoga na coletiva estava sendo já reparada. O agente de Hyoga arranjara algumas entrevistas nas quais o loiro pôde se mostrar simpático e a figura carismática que o público desejava ver, apagando a imagem negativa que ficara da coletiva. E Ikki precisava ser igualmente simpático nesse coquetel. Dessa maneira, conseguiriam diminuir os efeitos negativos que haviam ficado.

 

Agora, com a cabeça mais fria, reconhecia que tinha ultrapassado os limites. Porém, era difícil se recriminar.

 

Por que Hyoga tinha de ser daquele jeito...?

 

– Ikki, Ikki! - um repórter gritava, enquanto o moreno passava pelo tapete vermelho que levava à parte privada do coquetel - Tem alguma coisa a dizer a respeito de Hyoga?

 

– Ikki, aqui! - outra jornalista, que estava se engalfinhando para conseguir se aproximar do cordão de isolamento que separava a imprensa do tapete vermelho, por onde passavam os artistas, gritou tentando obter a atenção do ator - Hyoga o chamou de 'homem das cavernas' na coletiva! Algum comentário a fazer?

 

– Ikki, por que seu relacionamento com seus colegas de elenco, em especial Hyoga, é tão difícil? O problema está com eles ou com você? - um terceiro, que nem conseguiu ver quem era devido aos flashes, indagou, em meio às tantas vozes que tentavam chamar sua atenção, mas da qual conseguia apenas distinguir e compreender uma pergunta ou outra - Não tem medo de que eles se unam para exigir sua retirada da série?

 

Nesse momento, Ikki parou. Estava passando reto pela imprensa, ignorando os vários microfones apontados em sua direção enquanto caminhava, pois o diretor lhe dizia que, se não sentisse qualquer inclinação para ser simpático, que ignorasse. Se não podia dizer boas palavras, então que se calasse, e era o que estava fazendo até então.

 

Mas, nesse instante, voltou-se para os que aguardavam ansiosamente por sua atenção. Muito sério, e diante do silêncio cheio de expectativa que se fez, ele disse:

 

– Por que não se preocupam em cuidar mais da vida de vocês? - indagou com a voz tranquila, quase serena, sem o tom provocativo e usual. E então, voltou a seguir seu caminho, até sair da parte onde ficava a imprensa e o coquetel ocorria de fato.

 

O local em que o coquetel acontecia era um galpão que ficava próximo aos estúdios de gravações. O local tinha sido escolhido por ser amplo o bastante, não só para abarcar todas as pessoas convidadas, mas também porque, desse modo, pudera ser decorado como o cenário principal em que a segunda parte seria gravada: Asgard.

 

Dessa maneira, as cores que predominavam no ambiente eram tons de azul, branco e prateado. Havia verdadeiras montanhas feitas de algum material que simulava a neve, muitas esculturas de gelo representando deuses nórdicos espalhavam-se pelo lugar, fora os locais no galpão que reproduziam literalmente cenas de batalhas épicas, transportando os presentes a épocas às quais a segunda parte da série fariam referência. Tudo era de muito bom gosto, sofisticado, luxuoso. Entretanto, nada disso parecia interessar tanto a Ikki.

 

Estava lá para cumprir seu papel. Era um dos atores do elenco, não podia faltar ao evento.

 

Contudo, uma coisa era cumprir seu papel devidamente; outra, bem diferente, era demonstrar se divertir com isso.

 

E foi assim, pensativo, taciturno, que adentrou o local onde, pelo menos, não era mais tão assediado. As pessoas que passavam por ele e o cumprimentavam estavam já acostumadas ou preparadas para receber um breve resmungo como resposta. Assim, o moreno começou a caminhar devagar, com as mãos nos bolsos de sua elegante calça preta, observando o local.

 

Ora, a quem queria enganar? Sabia muito bem o que procurava.

 

Ou melhor, "quem" procurava. E, como quem procura acha...

 

Viu Hyoga cercado de um monte de pessoas importantes, mas para as quais Ikki não dava a mínima. Viu como ele sorria aquele sorriso que parecia tão perfeito, tão pensado, tão racionalmente criado para esses momentos. E sabia quão artificial era aquele sorriso, porque já vira Hyoga sorrir antes, naturalmente. Não para si, claro... mas, de todo modo, sabia que aquele era o Hyoga-artista-célebre, um personagem criado pelo loiro e que possivelmente fosse mais artificial que o personagem cavaleiro Hyoga de Cisne, que o russo interpretava na série. Bufou. Não gostava de vê-lo assim.

 

Definitivamente, não tinha suspirado alto o bastante a ponto de Hyoga ouvi-lo. Aliás, considerando o barulho, as vozes das pessoas, a música... seria impossível que ele o ouvisse, ainda mais à distância em que se encontravam. Mesmo assim, o loiro olhou na sua direção naquele momento. E Ikki não soube o que fazer naquele instante. Com um olhar, e provavelmente sem que soubesse, esse russo sempre o desarmava. Deveria ir até ele agora? Havia pensado em pedir desculpas ao loiro. Não só porque o diretor tinha dito que o fizesse, mas porque sentia que devia. Mas seria agora um bom momento? Ele parecia tão entretido.

 

Não; era melhor não. Não agora. Deu as costas para Hyoga e foi buscar algo no bar, para beber.

 

Para Hyoga, a situação não poderia estar mais desesperadora. Era tanta gente, tanta atenção indesejada que ele já não conseguia raciocinar direito. Isso sem contar o seu “mordomo” grudado nele como um carrapato, atento a todas as suas palavras, como se pudesse ser acionado a qualquer momento.

 

Exausto, o loiro massageou seu pescoço enquanto ria de uma piada sem-graça feita por um dos executivos em torno dele.

 

Por fim, já não pôde suportar a dor em sua cabeça e resolveu correr atrás de seus minutos de paz.

 

– Mika, pode me trazer um drink? – disse da forma mais gentil que conseguiu.

 

– Agora mesmo, senhor Yukida. Algum em especial?

 

– Eu quero uma caipiríssima. – o loiro já havia provado tal bebida em uma de suas viagens ao Brasil e sabia muito bem que não seria facilmente obtida ali. – E, por favor, quero os cubos de gelo feitos com água de coco. – acrescentou, sabendo que tinha escolhido a melhor forma para se livrar de seu assistente.

 

Assim que Mika saiu, o loiro pediu licença aos executivos e começou a caminhar pelo galpão, em busca de um lugar onde pudesse ficar sozinho. Teve dificuldades em se desvencilhar das pessoas presentes, já que era um dos mais assediados naquele coquetel. Depois de perder quase uma hora nessa simples tarefa, Hyoga encontrou sua salvação. Num momento de distração de todos, esgueirou-se para trás de um dos painéis do cenário e se sentou ali, bem quietinho, torcendo para que demorasse ao menos cinco minutos até que alguém desse por sua falta.

 

Todas aquelas pessoas já estavam incomodando Ikki mais do que ele era capaz de suportar. Sempre tinha sido assim e desconfiava que continuaria sendo por um bom tempo. Felizmente, a primeira parte da série tinha lhe ajudado a aprender a lidar com a fama não requisitada, encontrando sempre meios de se refugiar. Ikki tinha se tornado especialista em fugir de locais lotados de curiosos que gostavam assediar a si e aos seus colegas. Por isso, depois de uma boa investigada por todo aquele imenso galpão, encontrou um lugar que parecia ideal para fugir de toda aquela gente. Assim, disfarçadamente, entrou atrás de um painel que servia de cenário de alguma batalha épica. Tão logo entrou, soltou um profundo suspiro de alívio, imaginando que lá, estivesse sozinho.

 

– Oi, Ikki. Parece que tivemos a mesma ideia, não?

 

Hyoga já estava ali há algum tempo. Provavelmente alguém já estava a sua procura, o burburinho de que havia desaparecido deveria estar correndo solto pelo galpão, mas era impressionante como um curto espaço de tempo sozinho com seus pensamentos era revigorante.

 

Ikki olhou para o lado e viu Hyoga ali, sentando em um pequeno banco encostado à parede.

 

– O que está fazendo aqui, Yukida? - seu tom de voz foi mais ríspido do que gostaria. Provavelmente, porque tinha sido pego de surpresa - Não deveria estar lá fora, falando com toda essa gente importante que não para de te bajular?

 

– Na verdade, eu estou fugindo dessa gente importante que não para de me bajular. - o loiro soltou um suspiro. - Eu não estava conseguindo pensar, entende? Às vezes, é coisa demais pra aguentar e eu só... - Hyoga olhou para o moreno. - Eu precisava pensar. Mas não espero que você entenda isso. O lugar é todo seu... - Hyoga se levantou e pôs-se a sair de trás do painel.

 

– Espera aí. - avançou um passo e segurou Hyoga pelo braço - Você chegou primeiro e tem o direito de estar aqui. Lá fora está insuportável, mesmo. - na voz de Ikki, era quase perceptível um tom conciliatório - Você precisa pensar e quer ficar sozinho. Pode deixar que eu saio.

 

– Quer saber? Por que nós dois não ficamos? Eu fico aqui no meu cantinho e você fica no seu. Não é qualquer dia que dá pra encontrar um esconderijo como esse, não deveríamos desperdiçar a oportunidade. - Hyoga se sentou novamente e sorriu discretamente. - Senta aí, prometo que você não vai nem notar a minha presença insuportável...

 

Ikki permaneceu de pé, apenas usando a parede como apoio. Ficou calado e, de certa forma, agradecido. Não queria ter de sair, porque lá fora estava realmente insuportável...

 

E porque a presença de Hyoga ali não era ruim. Ficou assim, calado, por alguns segundos, olhando demoradamente para seus pés, com as mãos enfiadas nos bolsos. Finalmente, pareceu criar coragem para dizer algo que sabia necessário e agora parecia um bom momento. - Me desculpe por mais cedo. - falou sem desviar os olhos dos sapatos pretos que calçava.

 

Ver Ikki Amamiya se desculpar foi um tanto desconcertante para o loiro. Entretanto, Hyoga viu ali a chance de se defender, exatamente como queria antes. - Você pode pensar o que quiser de mim, pode até dizer qualquer coisa que venha a sua mente... Mas não me vire as costas quando chega o momento de eu me explicar. - o loiro encarou o moreno e esperou que ele o olhasse de volta. - Eu desculpo você, de qualquer forma. Não sou o idiota que você pensa, boa parte das minhas ações foram milimetricamente decididas por outras pessoas, então... Dê-me um desconto, certo? Eu não sou tão mal assim.

 

Ikki ficou olhando para o russo como se analisasse o que ele dizia e se sua postura era condizente com o que falava: - Eu não vou te dar desconto nenhum. - proferiu subitamente, mas sem se exaltar - Você fala como se fosse uma grande vítima, Hyoga. Mas não é. Tudo isso é consequência do caminho que você quis seguir. Ninguém te obrigou a nada disso. - falava mais tranquilamente, apesar das palavras duras - Eu me sentiria mal por você se estivesse passando necessidades, se estivesse seriamente doente, se estivesse sendo humilhado, se sua vida fosse realmente uma droga. Mas como ela pode ser ruim, se todos te idolatram? Seja sincero, Yukida. Você não sabia que isso fazia parte da vida que escolhia? Não sabia que tudo isso fazia parte do pacote?

 

– Sim, eu sabia. Mas sempre imaginei que teria o controle de tudo, não me via em situações como essa. Quando me disseram que eu tinha talento para essa carreira, eu resolvi não desperdiçá-lo; mal sabia eu que meu talento é o último quesito a ser analisado por esses bajuladores. O meu rosto e o retorno financeiro que ele representa são muito mais importantes para eles... - o russo suspirou com o fim de seu desabafo.

 

Ikki sorriu, mas de escárnio. - Você tem muita pena de si mesmo, Yukida. - balançou a cabeça, e voltou os olhos escuros para o russo, encarando-o firmemente - Coitado de você, não é mesmo? Tão bonito, com esses cabelos loiros e sedosos, com esses olhos da cor do céus, com esse sotaque russo... - quis ser irônico, mas, por algum motivo, seu tom de voz entregava mais do que gostaria - Eu volto a dizer que tudo isso é escolha sua. Eu não me afundei nessa vida. Assim que a série terminou, segui meu caminho. Então é tudo uma questão de escolha.

 

– Por que você voltou? Sempre faz questão de deixar bem claro o quanto detesta a fama e a mim. Então... Por que voltar a fazer parte disso? - o loiro externou sua curiosidade.

 

Estreitou os olhos na direção de Hyoga, como quem parece querer entender como ele tinha sido capaz de fazer uma pergunta tão certeira, tão repentinamente. Engoliu em seco - Eu não odeio a série. E não... detesto você, Hyoga. - desviou o olhar para a parte de trás do painel que os encobria - Pode não parecer, mas eu gostei de ter participado da série. Gostei do carinho dos fãs e achei que, até por consideração, seria interessante regressar. - sua voz tinha um tom neutro e quase gentil, mas logo voltou à rispidez habitual - Se até você voltou para a série, não faria sentido que eu emperrasse tudo, certo? Porque eles disseram que só voltariam a gravar se nós cinco, mais a Saori, embarcássemos no projeto. E eu não gosto de ser estraga-prazeres, apesar do que você pensa de mim.

 

O loiro sorriu e fechou os olhos, apoiando sua cabeça no painel. - Não te acho um estraga-prazeres. Entretanto, começo a acreditar que você sofre de rabugice crônica.

 

– E você sofre de egocentrismo crônico. - revidou antes mesmo de pensar no que dizer. Era impressionante como sempre queria dizer algo, mas, nessas horas, o contrário parecia deixar sua boca sem que pudesse impedir.

 

Hyoga riu um pouco mais e resolveu não retrucar. Se assim permitisse, ficaria discutindo com Ikki até o raiar do dia e ele não estava com paciência para tanto. - O que você fez durante esse tempo longe? - perguntou.

 

– Eu me mudei para uma cidade bem pequena, interiorana. - sua voz ganhou um tom mais suave. No fundo, gostou de Hyoga ter mudado o rumo da conversa, já que ele também queria isso, mas não conseguia agir de acordo - Eu sei; bem diferente de todos vocês, não é mesmo? Enquanto todos se mudaram para grandes centros, atrás de vidas mais badaladas, eu fui me esconder, como o bicho-do-mato que sou. - sorriu de canto e olhou jovialmente para Hyoga - Eu sei que é assim que vocês me chamam. E nem ligo; sou mesmo. - deu de ombros, num tom de voz tranquilo e algo divertido - Lá, poucas pessoas me conhecem. Há muita gente mais velha, que vive num ritmo menos alucinante. Os mais jovens sabem quem eu sou, mas até eles têm um trato diferente comigo. Eles vêm conversar, em vez de chorar e gritar, como os fãs que vemos por aqui. Enfim, voltei ao que sempre soube fazer de melhor: à marcenaria. - finalizou e analisou a figura do loiro, como se quisesse ler seus pensamentos - E você? Quero dizer, sei bem o que tem feito, porque a mídia anuncia sua vida o tempo inteiro... Mas tem coisas que eles exageram, outras que inventam... Como tem sido sua rotina?

 

– Bem louca, na verdade. Mas, como você disse, sabe muito bem o que tenho feito, já que a mídia não me deixa em paz. Nesses três anos, eu tenho filmado muito... Emendei um filme no outro, estou sempre fazendo viagens em função de pré-estreias e todas essas coisas que você sabe muito bem. Eu basicamente me dediquei ao trabalho de ator e não tive muito tempo para mim. Foi uma decisão brilhante, se analisarmos pelo lado financeiro; porém, se observarmos a minha vida pessoal, veremos que não foi uma atitude tão inteligente assim. Outro dia, um amigo me ligou e perguntou se podíamos nos encontrar para matar as saudades. Eu tive que perguntar ao meu agente se haveria essa possibilidade, já que é ele quem cuida da minha agenda... Isso foi meio desconcertante, confesso. Até porque... - o loiro parou subitamente o desabafo, perguntando-se porque estava revelando tudo aquilo a Ikki. - desculpe, você só estava perguntando o que eu fiz durante esses anos e eu já estou tentando te amolar com um assunto tão pessoal.

 

– Eu estava mais interessado era nessa parte mesmo. - tentou um sorriso amigável - Como eu disse e você bem enfatizou, a mídia deixa todo mundo a par da sua agenda de trabalhos. Eu sei muito bem que você tem engatado um filme atrás do outro, afinal, vi todos... O que eu queria era saber mesmo como você vive no meio disso. - pensou na melhor forma de perguntar, mas optou por ser direto, mesmo. Nunca tinha sido de rodeios - Quem é esse amigo? Alguém que eu conheço?

 

– Conhece, sim. É o Camus. Somos muito amigos, como você sabe, mas ultimamente mal temos tempo para nos falarmos... - o loiro correu as mãos por seus cabelos e pensou que deveria ter pegado uma bebida antes de sumir, já que sua garganta estava começando a secar. - Quer dizer que você viu os meus filmes? - Hyoga não evitou um sorriso surpreso.

 

Percebeu que tinha se entregado um pouco mais do que devia e bufou; odiava quando era pego em flagrante - É, eu vi. Acompanho, como posso, o trabalho de todos vocês. - achou melhor mudar o foco da conversa - O Camus, é? Quer dizer que vocês ainda mantêm contato? - riu, talvez de nervosismo, com um pensamento que preferiu afugentar - Vocês ficaram mesmo próximos depois das gravações das dozes casas, não é? - olhava de relance para o loiro, tentava fugir com os olhos, mas sempre regressava a ele. Viu como ele mexeu nos próprios cabelos, sempre tão bonitos e sedosos. E lembrou-se de que já teve, desde há muito tempo, vontade de poder tocar neles...

 

– Fiz amizade com todos - enfatizou a palavra "todos" e olhou diretamente para Ikki. - mas fiquei mais próximo de Camus, sim. Mantemos contato, na medida do possível, mas... É bem difícil fazer isso com a agenda sempre lotada.

 

– Certo; então você fez amizade com "todos"- usou o mesmo tom que Hyoga havia empregado -, mas eu não ouço por aí que você fica saindo com "todos" os seus antigos colegas de elenco. Eu, por exemplo, nunca nem ao menos vi você durante esses anos. Então, o Camus deve ter sido mesmo um amigo especial.

 

Hyoga riu, como se houvesse algo muito divertido nas palavras de Ikki. - Tem certeza que não tem nenhum tablóide te pagando para descobrir a natureza da minha relação com o Camus?

 

– Por quê? Tem alguma coisa para se descobrir? - perguntou rápido, talvez mais rápido do que o indicado para parecer curiosidade natural. Aliás, o próprio tom de voz traía Ikki nessa conversa que ele, decididamente, sentia que não tinha sob controle, como estava acostumado a ver acontecer.

 

– Não, não há nada para descobrir... Somos amigos, apenas isso. - o loiro russo sorriu novamente. - E o Shaka, hein? Qual é a natureza da sua relação com ele? Agora que eu já te respondi tenho o direito de perguntar também, não é?

 

– Ah. Necessidades básicas, nada de mais. A gente se pegou na época das gravações. - respondeu de forma natural, sem qualquer pudor - Quer dizer então que você e Camus realmente só são amigos? E nunca rolou nada mesmo? - voltou a indagar, sem se preocupar se parecia insistente.

 

– Você trata isso com tanta naturalidade que chega a assustar. - o loiro olhou o outro por um momento, demonstrando uma leve desconfiança. - Promete que não vai sair contando por aí?

 

– E por acaso, você já me viu fazendo fofoca por aí, Yukida? - respondeu sério, mas não gostou nada do comentário. Então havia algo ali.

 

– Está bem. - o loiro suspirou. - Eu e Camus... Nós... Ok, ficamos juntos algumas vezes, tentamos até engatar algo mais sério, mas não rolou. Depois disso, tivemos um certo estranhamento, mas depois que nos acertamos nossa amizade ficou ainda mais forte. Então, apesar de não ter sido sempre assim, realmente somos apenas bons amigos.

 

– Ah... então você curte homens. - falou com malícia, e não saberia dizer se havia sido porque queria ou porque foi o tom de voz escolhido a esmo para disfarçar algo mais - Você sempre foi tão discreto e sempre negou tão enfaticamente ter tido qualquer relação com o Camus, ou com o Shun... - falava com um sorriso de escárnio no rosto. Mas não era de propósito que sorria assim. Ou era? Era sua forma de esconder. Era uma forma de defesa.

 

– O mundo do showbiz está cheio de gays, mas nem todos são corajosos como você, Ikki. Quando eu revelei minha sexualidade ao meu agente, sabe o que ele me disse? Que eu tinha talento, beleza e carisma suficientes para me tornar um dos maiores galãs, seja do cinema ou da TV; mas que isso jamais aconteceria se as pessoas soubessem que eu sou gay. Meninas não sonham com galãs que não curtem meninas, entendeu? Elas querem fantasiar com a possibilidade de estar em meus braços, ou algo assim... Basicamente, eu não venderia tão bem, caso fosse abertamente gay... Tenho meus motivos para ser tão discreto a respeito.

 

– Eu não sou corajoso. Simplesmente não dou a mínima para o que dizem. E, sinceramente, nem sei o que dizem a meu respeito... Não fico acompanhando o que falam, porque sei que não vou gostar do que vão dizer. É a tarefa deles, não? Mentir, exagerar, essas coisas? Tudo pra chamar a atenção? Então, o melhor é ignorar. - sorriu divertido para o loiro, como se acabasse de lhe ocorrer algo - Mas quer um conselho? Seu agente quer tanto que você faça sucesso e essas coisas... bom, eu não sei, pode ser apenas suposição precipitada da minha parte, mas... Já me fotografaram com homens e mulheres e, até onde eu fiquei sabendo, ganhei fama de garanhão com isso. No final, curtir homens e mulheres me fez ficar até em destaque. Mas a vida é sua; quem sou eu para te dizer como agir, não é? - coçou a cabeça, pensativo - E... então, você e Camus são só amigos. Mas agora que eu sei que você curte caras, tem algum que você esteja vendo no momento?

 

– Não, nenhum. Por quê? - Hyoga fitou o moreno com uma curiosidade genuína em seu olhar.

 

– Bom, eu... - passou a mão pela nuca, um pouco nervoso - Sei lá. Quer sair qualquer dia desses? - perguntou sem olhar para o loiro; os olhos fixos em algum ponto invisível da parede ao lado - É que eu estou meio perdido; estou morando fora e voltar para essa bagunça me deixou meio perdido. Ainda não me acostumei. Estou meio perdido. - repetiu 3 vezes. Que idiota! Não era para ter saído assim!

 

Hyoga demorou alguns segundos para assimilar o que tinha ouvido. Se fizesse uma lista de todas as pessoas que poderiam convidá-lo para sair algum dia, Ikki jamais seria citado. Entretanto, para a surpresa do loiro, era exatamente o que o moreno estava fazendo nesse momento, de um jeito desajeitado e, porque não, adorável. - Sair? - o russo sussurrou para si mesmo, ainda pensando se aquilo não se tratava de uma mera brincadeira do outro. - Claro, por que não? Eu adoraria! - respondeu, por fim.

 

– É? - Ikki olhou para o loiro, parecendo incrédulo. Pelo visto, nem ele esperava por essa resposta - Ah, legal. - coçou a cabeça, meio sem saber o que fazer agora. Sim, havia sido impulsivo, sabia bem disso. Na verdade, isso era parte dele; nenhuma grande novidade até aí. Porém, dessa vez, tinha extrapolado até para os seus próprios parâmetros. Mas compreendia; havia três anos que se cobrava por ter perdido todas aquelas outras chances, quando ainda gravavam a primeira parte do show. Recriminou-se por ver que, à medida que os anos passavam, essa chance só parecia se distanciar. Com o retorno do programa, novas chances apareciam. Não queria desperdiçá-las, apesar de já ter metido os pés pelas mãos desde que se reencontraram. E agora, sem querer, parecia tão simples. Era tão estranho e até mesmo surreal, que ficou sem ação - Ahn... você vai ter que pedir permissão para o seu agente?

 

O semblante de Hyoga ficou sério. Era difícil relembrar que não tinha totalmente as rédeas de sua vida. - Não é exatamente uma permissão. Eu só preciso checar com ele quando terei uma noite livre... Tudo bem pra você?

 

– Tudo bem. - respondeu sem conseguir esconder que isso estava longe de estar realmente bem - E... o que você vai querer fazer? - voltou a olhar para seus sapatos pretos. Não estava, decididamente, acostumado a convidar pessoas para saírem. Principalmente, porque não tinha interesse em ninguém a ponto de querer chamar alguém para um encontro. E, quando necessitava de alguma companhia para satisfazer desejos urgentes, nunca lhe faltava quem o convidasse.

 

– Surpreenda-me. - o loiro sorriu e, antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Mika surgiu com um copo de caipiríssima nas mãos e a aparência bastante cansada.

 

– Senhor. - o assessor estendeu a bebida para o loiro e percebeu imediatamente o ar surpreso do mesmo por ter sido encontrado ali. - Seiya o viu entrar aqui, senhor. - explicou. - Devo dizer, também, que seu agente está a sua procura. Eu não disse a ele onde o senhor estava, mas não posso garantir que seu amigo Seiya tenha a mesma consideração.

 

Um tanto desapontado com o fim de seu momento de paz, Hyoga olhou novamente para Ikki. - Esse é o meu mordo... Assessor. - corrigiu-se - Esse é o meu novo assessor, Mika. Mika, você já deve conhecer o Ikki, não é?

 

Ikki ficou olhando para Mika, como quem ainda não conseguia entender o que ele era e, especialmente, o que estava fazendo ali - Escuta, por que não vai lá pra fora? - falou com toda a sua habitual rispidez, talvez até mais enfatizada, para que o rapazinho compreendesse que não era nem um pouco bem-vindo - Eu e ele estamos conversando. Cai fora, cara. - falou sem dar a mínima para o que o tal Mika pensaria de si.

 

– Eu já estou indo, Mika. Obrigado pela bebida, mas será que você pode me dar alguns minutos? Eu preciso conversar com o Ikki, mas não devo demorar... - o assessor, que não escondeu seu desprezo pelo intérprete do cavaleiro de Fênix, asssentiu com a cabeça e voltou a deixar os dois atores sozinhos. - Você não precisava tratá-lo tão mal, Ikki. - Hyoga repreendeu o moreno.

 

– Eu não o tratei mal. - defendeu-se, infantilmente, porque sabia que tinha destratado o tal assessor. Mas não se arrependia - Ele interrompeu a gente, estávamos no meio de uma conversa. - justificava-se com um tom um pouco exaltado e, vendo que Hyoga parecia aborrecido, respirou fundo - Eu... sinto muito. - falou num tom raríssimo de se ver nele - É que... nem deu pra gente conversar, né? E imagino que agora você não vá mais ter tempo pra falar comigo. - falou como quem não quer nada, mas com uma mísera e maldita esperança que tinha, lá no fundo, de que Hyoga talvez lhe dissesse que não precisariam parar de conversar agora.

 

– Tudo bem, eu mesmo não tenho muita moral para falar de você, já que mandei o Mika conseguir uma bebida bem difícil, apenas para me livrar dele. - o loiro olhou para o copo em sua mão e cheirou seu conteúdo. - Acha que ele cuspiria aqui dentro, só para se vingar? - riu com a própria desconfiança. Ao invés de responder a pergunta de Ikki, o loiro simplesmente voltou a se sentar, deixando claro que ficaria ali pelo menos por mais algum tempo.

 

– Não. Ele me parece um capacho submisso demais para fazer algo assim. - falou olhando na direção em que Mika saíra - Onde você arruma caras como esse, Yukida? - falou em sério tom de reprovação - Você já tem o mundo inteiro pra te bajular; ainda assim, precisou contratar um mordomo particular só pra te servir o tempo todo?

 

– Toda grande estrela tem um assessor como ele... - Hyoga repetiu as palavras de Takeshi. Achou que seria melhor dizer isso, ao invés de revelar que a decisão de contratar Mika havia partido de seu agente e, sem muitas opções, o loiro fora obrigado a aceitar.

 

– Hum. Você gosta de se comportar como uma grande estrela, hein? - virou-se para ficar de frente para o loiro - Tomara que você nunca mais tenha de voltar a ser aquele artista de rua, que ganhava para pintar retratos de transeuntes, não é mesmo? - o ar provocativo retornava. Mas que coisa! Tinha que trazer isso à tona? Por que tinha de ser tão rancoroso? E por que, só para variar, não pensava antes de falar?

 

– Eu não sou tão diferente daquele artista de rua. A minha vida só está um pouco mais atribulada, apenas isso. Vai dizer que você é o mesmo marceneiro de antigamente? - devolveu a provocação no mesmo tom.

 

– Claro que eu sou. Literalmente. - aproveitou o ar provocativo que voltou a reinar entre eles e, com um sorriso se troça, aproximou-se um pouco mais do loiro - Eu continuo sendo tão hábil com as minhas mãos como sempre fui. E vivo muito bem a partir do que ganho com isso. Sabia?

 

– Nossa! Quem é você e o que fez com o Ikki? Há pouco tempo eu poderia jurar que você me odiava. Agora está até me cantando? - pensou um pouco, temendo ter interpretado tudo errado. - Quer dizer... Isso pareceu uma cantada, sabia? - forçou uma risada.

 

– Isso não foi uma cantada. - respondeu em um tom sério, porém enigmático - E eu nunca te disse que te odiava ou algo assim. As pessoas fazem suposições demais, Yukida. E, pelo visto, você também. - suspirou pesadamente e cruzou os braços sobre o peito, fingindo interesse em olhar ao redor - De todo jeito, não se preocupe. Não estou "cantando" você. Eu só estou te chamando pra sair, como eu poderia chamar qualquer outro. Um homem tem necessidades, sabe? Mas, se você for ficar analisando tudo demais, o que poderia ser diversão pra uma boa noitada pode começar a dar dor-de-cabeça e não é isso que estou procurando.

 

Aparentemente, o antigo Ikki estava de volta. Ofensivo e bruto, pelo menos com o loiro. Talvez, algum outro se sentisse realmente acanhado com a grosseria, mas Hyoga já não se importava tanto com isso. Já estava calejado de ser tratado daquela forma pelo moreno e, com exceção do convite para sair, sabia lidar bem com as atitudes intempestivas do outro. - Deixe-me ver se entendi: Você está a fim de transar e eu fui escolhido para suprir a sua necessidade? Quanta honra, Ikki! - riu. - Ok, você pode até não estar me cantando, mas poderia ser um pouquinho mais gentil, não acha?

 

– Eu fui gentil. Mas se você começar com esse negócio de querer entender demais o que estou fazendo ou deixando de fazer, aí fica complicado, Yukida. - bufou - Nós somos homens, então deveria ser mais fácil. Sabemos bem que temos necessidades que têm urgência de serem saciadas. E sabemos que é perfeitamente possível fazer isso sem qualquer envolvimento maior com o outro. Então, olha... se você estiver a fim de algo mais meloso e chato, então podemos cancelar nossa saída, porque isso não vai funcionar. - falou, mas repreendeu-se quase ao mesmo tempo. Não; não era isso que ele queria...

 

A vida do russo estava corrida demais para que ele se dedicasse a algo concreto, um relacionamento sério estava bem distante de suas possibilidades no momento. Porém, como o próprio Ikki havia dito, eles eram homens e possuíam suas necessidades. - Nossa saída ainda está de pé, Ikki. - declarou Hyoga, ainda sem acreditar completamente que estava marcando um encontro com Ikki e, como se não bastasse, um encontro cujo único objetivo era saciar os desejos sexuais de ambos. Quando foi que fiquei tão fácil assim? - perguntou a si mesmo.

 

– Quer beber algo comigo? Agora? - perguntou de supetão. Não sabia como responder ao fato de Hyoga ter aceitado o que ele acabava de propor, sendo que nem o próprio Ikki acreditava no que acabava de propor - Ninguém precisa saber que temos planos para algo mais, lá na frente. Somos colegas de elenco, podemos ser vistos bebendo juntos no coquetel da série em que atuamos. - a verdade é que não queria se distanciar. Não ainda. Não tinha falado direito; estava fazendo tudo errado. Quem sabe; talvez, ainda pudesse consertar - A não ser que o seu agente encha o saco e não permita. - por que foi falar do maldito agente? Não compreendia como era capaz de jogar as próprias palavras contra si mesmo.

 

– Talvez ele até goste de nos ver juntos. Pode ajudar a desfazer a impressão que deixamos na coletiva hoje. Se a imprensa vir, amenizará e muito os rumores de que não nos damos bem. - o loiro se levantou no mesmo instante. - Vamos lá?

 

Ikki seguiu com Hyoga para fora daquele reconfortante refúgio e, tão logo deixaram o painel que os encobria, o tal Mika apareceu prontamente, como se esperasse alguma ordem do loiro. O agente dele veio logo atrás, com uma expressão não muito amigável que o moreno sentiu na pele assim que ele se aproximou do loiro, mandando, para o intérprete do cavaleiro de Fênix, um rápido olhar de desprezo. - Eu e o Hyoga vamos ao bar beber alguma coisa. Vocês dois querem algo? De repente, a gente até lembra de trazer pra vocês. - Ikki respondeu no seu melhor modo de "ignorar olhares reprovadores". E sorriu com uma tremenda cara-de-pau, achando até graça da expressão confusa que se formou no rosto do mordomo do loiro.

 

– Hyoga, não acho que você deveria... - o agente começou a protestar, mas foi interrompido pelo loiro, que citou os benefícios de ser visto bebendo com Ikki. Claro que Takeshi não estava feliz com o fato, mas teve que admitir que poderia ser bom para a imagem de Hyoga ser visto na companhia do intérprete do cavaleiro de Fênix, desde que a ideia fosse vendida da forma correta. - Está bem, tem razão... - admitiu.

 

Ikki ficou visivelmente satisfeito com o modo como Hyoga conduziu a situação e quase demonstrou isso por meio de palavras. Entretanto, ao se dar conta de que Mika vinha logo atrás deles, dentro de uma formalidade que o moreno achava irritante, soltou: - Esse cara tem mesmo que ficar igual a um cachorro, te seguindo pra todo lado, Yukida? - perguntou quando finalmente já se aproximavam do bar. Estalou os dedos para chamar a atenção do barman e, com seus olhos imponentes, rápido ganhou sua atenção, em meio ao monte de pessoas que havia ali - Eu quero uma cerveja. - pediu com sua voz bastante audível - E você, loiro? - voltou a olhar para o russo, interrogativamente.

 

– Uma cerveja, também. - Hyoga olhou para Mika, parado ao seu lado. - Ele só está cumprindo sua função, que é a de estar ao meu lado o tempo todo e se certificar de que eu não estou precisando de nada. Não precisa ser tão duro com ele, Ikki. O Mika é... - não concluiu por não conseguir pensar numa palavra adequada para definir seu funcionário.

 

– ...é seu mordomo. - concluiu a fala de Hyoga por ele e então pegou as duas cervejas. Entregou uma para o loiro, com um sorriso de curiosidade - Pensei que você fosse pedir uma bebiba mais complicada e cheia dessas frescuras que o povo metido a famoso pede.

 

– Já tenho que conviver com muitas frescuras todos os dias. Você pode até não acreditar, mas eu sou um cara simples, Ikki. Opto pela simplicidade sempre que possível. - o loiro tomou um gole de sua cerveja e olhou novamente para o assistente. - Você quer beber alguma coisa, Mika? - ele ofereceu e o mordomo pareceu espantado.

 

– Não, senhor. - Mika limitou-se a dizer.

 

– Opta pela simplicidade sempre que pode? - ficou segurando sua cerveja, como se, de repente, nem tivesse mais sede - Então pede para esse cara se mandar. Pode ser? - falou, mas não como alguém que faz um pedido de fato. Ikki parecia desafiar o loiro em suas próprias palavras, como se quisesse ver se ele realmente era capaz de agir como um cara simples, conforme dizia.

 

Hyoga não se fez de rogado e aceitou prontamente o desafio, muito provavelmente porque a presença de Mika também o incomodava bastante, já que não gostava de se sentir vigiado. - Mika, pode ir embora, você está dispensado por hoje. - o assistente quis retrucar, mas o loiro não permitiu. - Seus serviços não serão mais necessários esta noite, você deve ir e descansar, Mika. Obrigado. - completou o russo. Assim que seu funcionário saiu, Hyoga olhou para Ikki e sorriu, satisfeito por ter vencido o desafio.

 

Ikki sorriu de volta e ia dizer algo positivo sobre a atitude do loiro, mas, antes que pudesse falar qualquer coisa, algumas pessoas se aproximaram dos dois, junto ao agente do russo.

 

– Aqui está ele, senhores - Takeshi sorria de forma a se mostrar o mais simpático possível para as pessoas que o acompanhavam - Hyoga, esses são os irmãos Cromwell. Eles querem muito falar com você. - o agente do russo soube pronunciar essas palavras de uma forma que as entrelinhas saltavam à compreensão de qualquer pessoa. - Eles estão começando a escolher atores para compor o elenco do seu próximo filme. - Takeshi era, de fato, um excelente agente, que nunca parecia descansar. Os irmãos Cromwell eram o que havia de mais badalado no cinema atualmente. Os dois irmãos haviam já escrito, dirigido, produzido e lançado três filmes, que se tornaram sucesso absoluto por agradar tanto à crítica quanto ao grande público. Sua mais nova produção era ainda um segredo, como tudo que esses irmãos produziam, mas os boatos sobre a busca para se formar o elenco de um novo filme rolavam soltos e todos os bons agentes estavam tentando contatar os irmãos, que haviam adquirido um poder muito grande em pouco tempo na indústria cinematográfica.

 

Hyoga sabia muito bem que, para sobreviver no mundo do showbiz, ser simpático com todos era a atitude mais importante que um um ator como ele deveria tomar. Embora seu olhar para Takeshi tenha deixado muito claro que detestou ser abordado num momento de descanso, não transmitiu esse desagrado aos irmãos Cromwell, para os quais dedicou um enorme sorriso e um educado aperto de mãos. - Como vão? - perguntou o loiro. - Vocês já conhecem Ikki Amamiya, claro. - já que tinha de ser solícito com os irmãos Cromwell, pelo menos não deixaria Ikki totalmente ignorado na conversa.

 

– Ah, sim. Claro. - um dos irmãos respondeu, ao apertar a mão do loiro. O outro lançou um rápido olhar para Ikki, enquanto ajeitava os óculos sobre o nariz - Você é o intérprete do cavaleiro de Fênix na série, correto? - o homem não chegou a esperar uma resposta e emendou - Vocês dois não acabaram de ter uma discussão na coletiva com a imprensa?

 

– Tivemos. - Ikki respondeu sem titubear - Mas não foi nada sério. Pessoas que trabalham juntas costumam se desentender. - apesar de tudo, reconhecia que aquele deveria ser um momento importante para Hyoga, pois até ele, que vivia mais isolado, já tinha ouvido falar desses irmãos. Aliás, tinha visto os filmes deles e reconhecia que eram muito bons. Entendeu que uma chance muito boa parecia estar surgindo para o russo. E, se não tivesse entendido tudo isso sozinho, o olhar de Takeshi sobre si faria com que entendesse logo. Não gostava que olhassem para si como se estivessem lhe dando ordens, mas, dessa vez, deixaria passar - Os filmes de vocês são muito bons. - foi só o que disse para os irmãos, em uma atitude polida e então se voltou para Hyoga - Yukida, eu vou dar uma volta por aí. Depois a gente se fala. - sem esperar para ouvir o que o intérprete do cavaleiro de Cisne teria para dizer, o moreno retirou-se.

 

Os irmãos ficaram momentaneamente calados, vendo Ikki se afastar, mas então um deles, o mais velho, pronunciou-se: - Senhor Yukida, falamos com seu agente porque temos uma proposta a lhe fazer.

 

Hyoga demorou alguns segundos para processar o que o homem lhe havia dito, pois ainda estava concentrado nos passos de Ikki. - Ah, sim. - olhou para os irmãos. - Sou todo ouvidos.

 

– Bem, acho que não é preciso dizer muito sobre nosso trabalho. - o mais novo continuou - Ele, por si só, diz tudo. Sabemos que já há muitos boatos sobre o nosso próximo filme e, embora haja muita coisa errada sendo alardeada por aí, de vez em quando, acabam acertando. Por exemplo, estamos mesmo buscando os atores que deverão compor o elenco do filme que estamos terminando de escrever.

 

O mais velho tomou a palavra a partir daí: - Temos nosso próprio estilo para escrever, senhor Yukida. E, em nossos rompantes criativos, às vezes, inventamos coisas que outras pessoas podem não compreender, mas que fazem total sentido para nós. No caso atual, não podemos terminar o roteiro sem antes darmos o devido rosto aos personagens de nosso filme. Por isso, a busca. E, por isso, o sigilo total que será mantido até que nos sintamos seguros o bastante para divulgarmos o enredo de nossa próxima obra. Enfim, com tudo isso, achamos que um bom lugar para fazer o convite a um dos protagonistas seria aqui. Afinal, nessa série, há muito de incomum no modo como a história é desenvolvida. Acreditamos que seja o local ideal para encontrarmos o rosto do nosso personagem principal.

 

O caçula, mais uma vez, deu prosseguimento ao que o outro dizia, numa estranha forma simbiótica em que esses dois irmãos pareciam interagir, em que um completava as palavras e os pensamentos do outro - Obviamente, nosso filme não é uma brincadeira de crianças. Não podemos simplesmente jogar um papel tão importante nas mãos de atores despreparados.

 

O mais velho, finalizando todo aquele discurso com um sorriso que antecipava o convite que ele faria, apenas disse: - Você não é um ator despreparado, senhor Yukida. Tem talento. E natural, como já pudemos observar. - dito isso, ambos os irmãos se calaram, à espera de uma resposta ao convite implicitamente feito.

 

– Eu realmente me sinto muito honrado por ter sido lembrado, senhores. - Hyoga não mentiu, mas também não aceitou prontamente. Era racional, experiente e disputado o suficiente para não embarcar em qualquer projeto sem antes saber exatamente do que se tratava. - Podem me adiantar a temática do filme? Gosto de analisar os roteiros, antes de me envolver. - disse ele.

 

– Até poderemos, senhor Yukida. - foi o mais velho quem respondeu - Mas não ainda. Especialmente, não aqui. - olhou ao redor, com certo desprezo, como se todas aquelas pessoas tornassem o ambiente indigno de uma conversa desse porte - Estou um pouco decepcionado. Acreditávamos que poderia aceitar mais facilmente, visto que, nessa série, há muito de improviso, pois o roteiro é baseado na personalidade de seus atores... Pensávamos que o fato de buscar um ator acostumado com as inseguranças de um trabalho assim não nos daria problemas. - o mais velho lançou um significativo olhar para o mais jovem - É melhor irmos, Alex.

 

– Talvez possamos adiantar um pouco, Adam. - retorquiu o caçula, recebendo um olhar interrogativo do outro - Você sabe que certas oportunidades não podem ser desperdiçadas. - as palavras desse irmão soavam cheias de significados ocultos.

 

– Está bem. - as palavras de Alex pareceram surtir o efeito desejado e Adam olhou para Hyoga com uma mistura de desdém e apreço, formando um curioso e paradoxal olhar - É um filme medieval. A princípio, pensamos em colocá-lo como um cavaleiro. Você seria o... mocinho da história, por assim dizer. - falou e sorriu misteriosamente.

 

– Mas não se deixe enganar, senhor Yukida. - Alex acrescentou, com um sorriso que se podia dizer mais amigável - Não ficamos conhecidos por escrevermos histórias comuns...

 

– Eu sei disso. Admiro muito o trabalho de vocês. - Hyoga não conteve um sorriso quando viu o olhar desesperado de Takeshi. - Olha, não sou de encarar projetos assim, sem saber exatamente o que querem de mim. Entretanto, vou deixar meu lado racional de lado por um momento para tomar uma atitude de fã. Eu aceito participar do filme, sim. Será um prazer. Vocês já discutiram o meu cachê com o Takeshi, certo?

 

– Nós não discutimos esse tipo de coisa desse jeito. - Adam falou e então olhou para Takeshi - Entraremos em contato. - disse friamente e deu as costas aos dois, sem se despedir adequadamente.

 

O mais novo sorriu discretamente e fez um breve gesto de despedida com os olhos para Hyoga e seu agente, saindo logo em seguida, atrás do irmão.

 

O agente do russo ia dizer algo e, pela forma nervosa como olhava para o loiro, não eram coisas boas. Entretanto, foi impedido pela súbita aparição de Seiya: - Hyoga! Me diz que aqueles caras não são quem eu estou pensando! - o rapaz de cabelos castanhos tinha vindo, quase que literalmente, voando e, de tão afobado, mal conseguia falar enquanto recobrava a respiração.

 

Atrás de Seiya, mas vindo não tão desesperadamente, estava Shiryu, que se aproximou com o cenho franzido - Eram os irmãos Cromwell, Hyoga? - indagou, olhando para os dois que se afastavam sem falar com mais ninguém dali.

 

– Sim, os próprios. - o loiro voltou a beber sua cerveja. - Infelizmente, não são muito simpáticos. - reclamou, olhando para seu agente.

 

– E quem se importa se eles são simpáticos, Hyoga? - Takeshi respondeu, demonstrando sua revolta - Eles querem você como o ator principal do seu próximo filme!

 

– Eles querem o quê??? - Seiya arregalou os olhos e, em seu tom de voz, era mais que perceptível toda a sua frustração - Mas... você? Justo você? Por quê? Eles nem ao menos vieram falar comigo! Eu... Eu pedi tanto ao meu agente que tentasse conversar com eles... - o rapaz mostrava-se completamente frustrado e chateado com a situação.

 

– Chamaram você? - o chinês, por sua vez, também demonstrava surpresa em seus olhos - Nossa, Hyoga... isso é grande. Há muitas expectativas em torno do novo projeto deles... Você sabe o quanto isso pode alavancar a sua carreira? - o intérprete do cavaleiro de Dragão falava com a voz serena, mostrando-se surpreso, mas, ao mesmo tempo, orgulhoso do amigo.

 

As palavras de Shiryu atingiram o russo em cheio. Hyoga já enfrentava uma enorme crise existencial graças à carreira que tinha atualmente; será que ele realmente queria se tornar ainda mais famoso, ainda mais rico e pressionado? Ele não sabia ao certo, mas as oportunidades continuavam surgindo e, a menos que fosse realmente abandonar tudo, ele não poderia deixar de agarrá-las. - É uma grande oportunidade, eu sei. - respondeu ele. - Vocês viram o Ikki? - perguntou o loiro, que parecia ser o único a não dar grande importância à visita dos irmãos Cromwell.

 

– Ele estava conversando com o Shun, perto do palácio Valhalla. - foi Seiya quem respondeu, ainda cabisbaixo, aludindo ao cenário que abrigaria as cenas finais da fase de Asgard do seriado.

 

Shiryu, como se percebesse que o amigo se via muito chateado, tentou animá-lo - Ei, Seiya. Quer ir lá fora um pouco, para agitarmos a imprensa que está no tapete vermelho se atropelando para conseguir algumas palavras nossas? - vendo como os olhos castanhos pareceram voltar a ter um pouco de brilho com isso, o chinês fez um gesto com a cabeça para Hyoga e saiu, levando o ator do cavaleiro de Pégaso consigo.

– Aonde você vai agora? - inquiriu o agente, antes que Hyoga pudesse fazer qualquer coisa - Precisamos começar a discutir os termos do seu novo trabalho... e também precisamos começar a divulgar que você estará no novo filme dos irmão Cromwell! Aqui é o momento ideal para isso!

 

– Eu tenho algo a fazer agora, Takeshi. Não precisamos discutir minha carreira, você já a administra bem demais sem mim... Até mais. - dizendo isso, o loiro saiu à procura de Ikki e, minutos depois, encontrou-o realmente onde Seiya havia dito. Hyoga parou ao lado de Shun, lançou um braço sobre o ombro do mais novo e sorriu para o mais velho. - Olá! - disse.

 

– Oi, Hyoga! - Shun abriu um grande sorriso ao ver o loiro a seu lado - Estávamos justamente falando de você! - disse em um tom divertido.

 

– "Você" estava falando dele, Shun. Não eu. - Ikki tratou de rapidamente corrigir o outro.

 

– Eu perguntei para o Ikki se ele sabia me dizer onde você estava e ele me respondeu que te deixou tratando de negócios. Daí, começamos a falar sobre como a sua vida é incrivelmente agitada. Não sei como dá conta! - Shun prosseguiu, ignorando o comentário do moreno.

 

– "Você" ficou falando isso, Shun. Eu fiquei calado. - Ikki fez questão de ressaltar - E não sei por que tanta admiração; você é modelo, também tem uma vida agitada. - fechou o que tinha para dizer e tomou um largo gole da cerveja.

 

– Mas nem de longe tenho uma agenda atribulada como a dele! Quem me dera... - Shun soltou um suspiro, mas depois voltou a sorrir para o amigo - E então, Hyoga? Resolveu dar um pouco da sua atenção para seus pobres amigos mortais? - brincou o mais novo.

 

– Ah, você sabe como é... Essa vida de estrela cansa bastante! - o loiro devolveu a brincadeira, mas não pareceu ser totalmente compreendido por Ikki. - Você não precisava ter saído àquela hora, Amamiya.

 

Ikki olhava sério para o loiro, com uma expressão bastante fechada. Considerou por alguns segundos o que ele disse e finalmente respondeu algo: - Eu sei quando estou sobrando, Yukida. Aqueles irmãos queriam falar com você, não comigo. Não havia por que eu ficar lá. Até porque, ao contrário da maioria que te rodeia, não faço questão de ficar perto de você, só para conseguir migalhas da sua atenção. - virou a garrafa mais uma vez, até para evitar encarar o loiro depois disso.

 

– Sabe, se você parasse de se preocupar tanto em me maltratar, você poderia conseguir muitas coisas. Você já deixou bem claro para todo mundo o que pensa de mim, eu tenho total conhecimento do quanto sou decepcionante, mas você sequer parou para pensar na oportunidade que perdeu? Aqueles homens estão procurando elenco para o filme deles; você é um ótimo ator, Ikki. E é bem bonito também. Com um pouco mais de contatos com as pessoas certas, você poderia muito bem alavancar a sua carreira!

 

– E por acaso você acha que eu estou interessado em seguir essa droga de carreira? - o tom em resposta foi mais agressivo e o olhar, que antes fugia, buscou encontrar para praticamente fuzilar o russo com seus olhos de tempestade.

 

– De quem vocês estão falando? - Shun parecia perdido e, com a pergunta, buscava se situar e tentar colocar panos quentes na situação.

 

– Dos irmãos Cromwell. Vieram até aqui só para falar com o Yukida. - disparou Ikki, no seu tom mais rude.

 

– Sério, Hyoga??? - o mais novo arregalou os olhos verdes na direção do amigo.

 

– É verdade, Shun. - o loiro assentiu, sem demonstrar que estava bastante envergonhado. - Mas não é porque eles vieram falar diretamente comigo, que não tivessem olhos para outros atores aqui, certo?

 

Ikki gargalhou alto nesse momento, chamando até a atenção das pessoas mais próximas - A quem você quer enganar, Yukida? É claro que eles só tinham olhos para você! Depois que conseguiram o que queriam, foram embora, sem falar com mais ninguém. Eu vi muito bem... - soltou o moreno, sem se dar conta de que, assim, acabava de dizer que, mesmo se afastando, não havia tirado os olhos do que se passava com o russo enquanto falava com os dois irmãos.

 

– Nossa, Hyoga... mas... o que eles queriam com você? - perguntou o jovem e Ikki, apesar do aparente desprezo, olhou para o loiro visivelmente curioso em saber qual seria essa resposta.

 

– Eles me propuseram um papel em seu novo filme. - Hyoga omitiu a informação de que seria o papel principal, já que não queria parecer presunçoso e se tornar alvo de novas alfinetadas de Ikki. - Eu aceitei. - anunciou o russo.

 

– Uau... Isso... é incrível... - a voz de Shun veio mais baixa, devido à comoção causada pela surpresa e espanto - Nossa... eu me pergunto como o Seiya vai ficar quando souber disso...

 

– Não muito bem, mas o Shiryu está dando uma força para ele. - Hyoga olhava para Ikki, esperando pelo comentário atravessado que o outro certamente daria.

 

– Então ele já está sabendo? - Shun demonstrou mais claramente sua preocupação - Você viu para onde eles foram, Hyoga? - o russo apontou para a entrada do galpão, onde ficava o tapete vermelho e toda a imprensa e, depois de se despedir apressadamente, Shun dirigiu-se para lá, deixando Ikki e Hyoga.

 

– Quer dizer que aceitou o papel? Principal ou secundário? - Ikki perguntou sem fazer rodeios.

 

O russo engoliu em seco, já que sua bebida havia acabado há algum tempo. - Principal. Ainda não sei como será o filme, mas tenho certeza de que será algo bem interessante, pelo mistério todo que estão fazendo.

 

– Sei. - Ikki respondeu, encarando continuamente os olhos claros de Hyoga - É engraçado; para quem reclamava agora há pouco do quanto essa vida é corrida e atribulada, aceitar um projeto grande como esse me parece uma atitude incoerente. Não acha? - a última pergunta veio recheada de sarcasmo.

 

– O que você faria, se tivesse toda uma equipe por trás da sua carreira; dependendo, de certa forma, do seu sucesso? O que você faria com tantos fãs e admiradores que conquistamos, Ikki? O que você faria se, antes de toda essa grandiosidade, você já tivesse passado fome várias vezes, por não ter o seu trabalho reconhecido como deveria? O que você faria em meu lugar, Ikki? Abriria mão de tudo o que conquistou? Abriria mão do seu talento?

 

Ikki odiava quando uma resposta não lhe surgia pronta, na ponta da língua. Mas, invariavelmente, Hyoga costumava conseguir esse feito. Sem ter o que dizer, o moreno apenas bufou e, como se subitamente ficar na presença do outro lhe fosse insuportável, deu as costas a ele, sem dar qualquer satisfação e caminhou a passos rápidos para o mais interessante cenário daquele coquetel, que era a floresta em que muitas cenas se dariam. Árvores de verdade haviam sido trazidas para o local e, em um espaço razoavelmente abrangente, uma parte da floresta tinha sido quase que perfeitamente reproduzida. Como quem foge de algo, Ikki se embrenhou nessa mata artificial, deixando Hyoga falando sozinho, como fizera da outra vez e ignorando o fato de o russo ter dito, com todas as letras, que não aceitava bem esse tipo de atitude.

 

– Ah, não! Você não vai fazer isso comigo de novo, Ikki! - o loiro seguiu atrás do moreno, embrenhando-se na floresta e seguindo o Amamiya de perto. - Ei! Não te ensinaram que é feio deixar as pessoas falando sozinhas? Ikki! - chamou. - Ikki!

 

Continuou caminhando e fingindo que não ouvia o loiro, mas percebeu que aquele russo era mais insistente do que imaginava. Por isso, virou-se bruscamente para Hyoga, com a expressão zangada: - Que saco, pato! E nunca te ensinaram que, às vezes, as pessoas querem ficar em paz? - falou alto e as pessoas que passavam por lá, caminhando encantadas com isso que parecia um labirinto de árvores, pararam para ouvir os dois - Ah, que merda! - bufou de novo e, outra vez, deu as costas para Hyoga, adentrando um pouco mais naquele cenário e tentando encontrar um refúgio naquelas árvores.

 

Hyoga ignorou as pessoas que os observavam e continuou seguindo o moreno. - Ikki, eu não entendo você. Há pouco tempo estava me chamando pra sair. - o loiro sussurrou. - Agora, simplesmente me vira as costas e vai embora! Você é bipolar ou algo assim?

 

Ikki continuava seguindo caminho, mas ao ouvir Hyoga chamá-lo de bipolar, estancou o passo e olhou para trás. Seus olhos pareciam destilar uma fúria mal contida, e, ao mesmo tempo, alguma coisa que não era possível saber se aumentava ou amenizava ainda mais toda essa raiva, que parecia queimar no moreno. De todo modo, era um olhar poderoso e Ikki, ficando enfim de frente para Hyoga, fixou nele esse olhar por mais alguns segundos que, quiçá, pareceram muito mais que isso a ambos. Lançou então, brevemente, um olhar que patrulhava o local onde estavam e, assegurando-se de que, naquele momento, não havia ninguém por perto, empurrou Hyoga contra uma árvore e imprensou nele um beijo que envolvia o loiro não apenas com sua boca, mas com todo seu corpo. As mãos, demandantes, aproveitaram-se do susto causado para percorrer, rápida mas eficientemente, toda a superfície possível de ser apalpada no russo naqueles instantes e, com os lábios, parecia querer sugar toda a essência de Hyoga naquele beijo tão sedento quanto avassalador. A língua, ousada, não pediu permissão; penetrou a boca do outro imponente e, luxuriosamente, se fez valer, enredando-se na língua do loiro, enquanto, com tudo isso, seu corpo forte pressionava sobre o do colega seu baixo ventre, como se desejasse assim demonstrar a potência da sua virilidade.

 

O beijo podia ter durado segundos, minutos ou horas; não importava. O efeito seria o mesmo. Entretanto, tudo não durou mais que poucos instantes e, tão brusco como se iniciou, esse beijo se partiu. Afastando-se de uma vez, Ikki deu dois passos para trás, ganhando alguma distância entre eles e então disse, com a voz baixa e rouca: - Eu não sou bipolar. O que eu quero de você não mudou.

 

Ainda inebriado com o surpreendente beijo, Hyoga não disse nada e permanecia com os olhos fechados, talvez esperando que Ikki se aproximasse novamente e o beijasse mais uma vez. Mas, como isso não aconteceu, ele se forçou a abrir os olhos e, com algum custo para firmar a voz, disse: - Eu não deveria dar o que você quer. Quem em plena consciência vai para a cama de alguém que o trata tão mal?

 

– Você está muito mal acostumado, Yukida. - Ikki já tinha pleno controle sobre sua voz - Parece que todo mundo que se aproxima de você quer sempre te agradar, não é? Só que eu não sou assim. Aliás, você deveria me agradecer. A maioria das pessoas que estão próximas de você mentem e dizem apenas o que você quer ouvir. De mim, você sempre vai poder esperar a verdade. - nesse momento, provavelmente pelo que dizia, sua voz se quebrou um pouco, por saber que isso não era inteiramente correto - Você sempre vai saber que eu não gosto do modo como age, e da forma como tenta mostrar ser. E vai também saber exatamente o que eu quero. Por exemplo: que eu quero você na minha cama. - sorriu com malícia e fez uma expressão sedutora - E, como sou sincero, pode acreditar nas minhas palavras: Você vai adorar estar na minha cama.

 

Verdade seja dita, Hyoga jamais esteve diante de alguém tão tentador. O loiro estava lutando consigo mesmo para não ser seduzido tão facilmente, mas era uma batalha perdida. Ele suspirou, resignado como estava e deu dois passos para a frente, ficando novamente bem próximo ao moreno. Ainda incomodado com as atitudes que Ikki tinha com ele, o russo acalmou a si mesmo pensando que o que ocorreria entre eles era apenas sexo e eles não precisavam se amar loucamente para fazer isso. - Eu quero. - assentiu. - Eu quero estar na sua cama.

 

– Claro que você quer. - Ikki sorriu de forma triunfante, e não fez a menor questão de esconder isso - Eu te deixo escolher quando. Mas só isso... - falou aproximando de forma provocante seu rosto do loiro, que parecia bastante entregue.

 

– Agora? - a vergonha de estar soando desesperado fez de sua voz nada mais do que um sussurro quase inaudível.

 

O moreno fez uma expressão incrédula a princípio, pois não esperava que o tão controlado intérprete do cavaleiro de Cisne pudesse perder o controle assim. Mas gostou do que ouviu e, por isso, abriu um sorriso safado: - Por mim, tudo bem. Só não acho que esse seja um lugar muito adequado. - afastou-se um pouco ao ouvir alguns passos e logo ver mais convidados transitando por lá - Eu não me importo de deixar essa festa agora, Yukida. Mas e você?

 

Hyoga não se importaria nem um pouco em deixar aquela festa, mas não poderia ignorar a dificuldade que teria em sair dali. Além de driblar os executivos do estúdio, os jornalistas e os fãs que aguardavam do lado de fora, ele teria que encontrar uma forma de dobrar seu próprio agente, que se ao menos sonhasse com o que o loiro pretendia fazer, teria um ataque cardíaco. - Não será muito fácil sair daqui, mas farei um esforço.

 

Ikki riu de leve - Eu devo admitir que estou impressionado, Yukida. - falou sem ironia ou sarcasmo, o que era raro quando conversava com Hyoga - Eu vou primeiro; até porque consigo me livrar disso tudo sem grandes dificuldades. Estou morando num apartamento que aluguei para ficar enquanto as gravações acontecerem. Vou passar no seu camarim e deixarei o endereço sobre a mesa, está bem? - a forma como falava com o loiro agora era amigável, quase suave. Talvez por que ele percebesse o repentino nervosismo no sempre tão frio ator? Fosse o que fosse, o fato é que até mesmo o sorriso que foi dirigido ao loiro agora era singelo, assim como as últimas palavras que disse: - Te espero lá.

 

Foram gastos quase noventa minutos, entre despedidas, entrevistas e desculpas esfarrapadas, até que Hyoga pudesse chegar ao apartamento de Ikki. Agora que estava parado à porta do moreno, o russo questionava suas próprias motivações, mas não encontrava resposta alguma além de sua carência, a enorme quantidade de meses sem sexo e o fato de que Ikki era um homem tentador demais para se resistir. Ainda não muito convicto, o loiro tocou a campainha.

 

Continua...

 

 

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...