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História Os Cinco Predadores - Capítulo 1


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Capítulo 1 - A Transformação


Hoje está fazendo um dia realmente bonito. Acordei agora, mas o sol já bate na janela com força, me convidando a levantar sem muita preguiça. Sem pressa faço todo meu ritual de higiene matinal e desço para fazer comer alguma coisa. Droga, o pó de café já está acabando, preciso ir no mercado essa semana. Acabo de fazer e me sento para tomar o café. Aproveito para mandar mensagem para o Rodrigo, meu namorado, perguntando o que faremos hoje. Costumamos ter programação para todos os finais de semana. Enquanto espero a resposta, Freya, minha gata, sobe na mesa para me pedir carinho.

- Já falei que mesa não é lugar de gato – minha mãe entra na cozinha ainda de pijama, com aquele mau humor matinal que é tão característico – Sai daí, bola de pelo. Bom dia, filha.

Me desculpo com a Freya, e a coloco no chão, delicadamente.

- Você viu que horas seu irmão chegou essa noite?

- Sim, acho que era umas 4 e meia. Ele ainda está dormindo. – Não preciso contar que ele chegou da festa com os amigos bem bêbado.

O Caio, além de ser meu irmão, é um dos meus melhores amigos. Desde pequenos temos o costume de nos acobertar e cuidar um do outro. Minha mãe dá um grunhido como resposta, e mergulha na sua xícara de café em silêncio.

Quando meu celular apita, vejo que é uma mensagem do Rodrigo perguntando se eu gostaria de ir ao cinema no final da tarde. Tem um filme que ele está com vontade de ver há algum tempo. Respondo rapidamente confirmando, e levanto para me arrumar. Tenho o hábito de ir no parque ao lado de casa todos os dias, correr um pouco e normalmente me sento para meditar embaixo de uma grande árvore. Sempre me senti muito conectada com a natureza, era uma daquelas crianças que colecionam pedras, enchem o quarto com galhos e flores coletadas de qualquer jardim bonito. As vezes, quando estou meditando, sinto como se ela estivesse tentando falar comigo, alcançar algo dentro da minha mente. Ou então, sou só mais uma dessas doidas que abraçam árvores. Vai saber.

Já coloquei minha legging, uma camiseta confortável e meu tênis de corrida, pronta para sair. Dou um beijo na bochecha da minha mãe, dizendo que volto em poucas horas.

Ao sair, o vento balança meu cabelo preso em rabo de cavalo alto, e eu respiro profundamente, sentindo revigorar os pulmões. Coloco uma música alegre nos fones de ouvido, e deixo a canção embalar o ritmo dos meus passos enquanto corro. Tudo parece tão tranquilo, no lugar certo. As pessoas batem papo sorridentes na entrada dos comércios, outros passeiam com seus cachorros que abanam os rabos felizes. Apesar dos fones de ouvido, ouço muita música ao meu redor. Dos carros que passam, das lojas. Só não me concentro nelas, e sigo a corrida. Parece que a luz do sol contagiou os corações de todo mundo.

Depois de todo o percurso rotineiro, vou até o meu lugar secreto de meditação. A árvore é um grande jequitibá-rosa, que imagino ter mais de 30 metros de altura, e fica tão cercada por outras árvores menores que se tornou um dos lugares mais sossegados do parque. É perfeito. Me sento à sua sombra, com as costas apoiadas no tronco, e tiro os sapatos para ficar mais confortável. Quando meus pés tocam a terra, sinto a familiaridade desse toque. Fecho os olhos e relaxo meus músculos completamente, focada apenas em silenciar a mente. Os outros sentidos começam a trabalhar instantaneamente para compensar a falta da visão. A sensação da terra nos pés, a grama fazendo cócegas na minha pele. No começo, eu sempre me distraía, pensando que eram formigas ou aranhas, mas com o tempo aprendi a diferenciar, e esse contato se tornou reconfortante, estável. O cheiro da terra invade minhas narinas, misturado com o aroma das flores desabrochando (afinal, estamos no auge da primavera). Esse cheiro tão comum, mas tão único, sempre causa aquela sensação boa, como a que sentimos quando acaba de chover, e tudo fica com cheiro de terra molhada. Na boca, sinto um gosto meio cítrico, bem de leve. Provavelmente meu cérebro tentando causar reações. Meus ouvidos se aguçam também. Onde antes eu só ouvia o canto dos pássaros, agora ouço leves risadas mais ao longe, crianças gritando enquanto brincam, algumas buzinas de carro, latidos de cachorro. Meditar é sempre assim, elevar todos os sentidos ao máximo, para que a mente finalmente abrace todos, e se acalme.

De repente, sinto aquela sensação de novo. Como se a terra estivesse tentando falar comigo. A curiosidade me toma, e eu procuro dar vazão a isso, para ver que rumo vai tomar. Aperto os olhos com mais força, procurando a fonte disso, dentro de mim. Estou tão concentrada que sinto minha cabeça vibrar, e tudo o que antes eu percebia ao meu redor vai sumindo aos poucos, como se nada mais importasse. Ainda de olhos fechados, vejo várias luzes na minha frente, como se um grande trem colorido estivesse passando do lado de fora, a toda velocidade. Tento abrir os olhos, mas não consigo, não tenho mais controle do meu corpo. O medo me toma por completo.

Sem que eu me mexa, meus braços e pernas se contraem, até que eu fique na posição fetal, e tudo que eu consigo pensar é “MEU DEUS, O QUE ESTÁ ACONTECENDO”. Como se fosse uma grande paralisia do sono, mas alguém estivesse mexendo em mim, sem que eu soubesse. Nesse momento, algo entre as minhas pernas começa a arder, bem na região íntima. Não é insuportável, mas extremamente desconfortável. Após alguns segundos, a ardência sobe para um pouco acima do meu útero, e ali fica ainda mais intensa, doendo pra valer. Novamente, ela sobe até o estomago, diminuindo um pouco, como no início. Alguns segundos. Sobe para o coração. São os meus chakras, percebo imediatamente. Os pontos de concentração de energia espiritual do meu corpo coincidem exatamente com os pontos em que a ardência para. Sobe para a garganta. Alguns segundos. Para na testa. Alguns segundos. Chega no ponto mais alto do couro cabeludo e se intensifica tanto que eu quero gritar, mas meus lábios não se mexem, minha garganta não responde. Toda a minha cabeça queima, como se estivesse em chamas, e eu não consigo me mover um milímetro. No meio de toda a dor, uma voz suave sussurra dentro da minha mente. Uma voz estranha, mas familiar. Suave como a água de um lago, mas estrondosa como a explosão de um vulcão. “Minha criança, minha pequena luz. Finalmente veio a mim”. Meu corpo todo queima, principalmente as costas nos dois pontos na parte interna das escápulas. Algo corre dentro dos meus ossos, eletrificando tudo com força. A dor é insuportável, não sei se meu corpo vai resistir a isso.

Então, desaparece. Tão de repente quanto veio, a queimação some completamente, levando as luzes do lado de fora com ela. Estou sozinha, no escuro, ainda sem conseguir me mexer, mas tremendo inteira por dentro, chorando com a tortura eu acabei de passar.

Aquela voz. O que era aquela voz? Não era humano, disso eu tenho certeza. Surpreendentemente, o medo começa a ceder, assim como todas as outras emoções. De alguma forma, estou sendo esvaziada de sentimentos e pensamentos. É bom. Não consigo me mexer, mas tudo bem. Não me lembro de porque eu queria sair daqui. Na verdade, não me lembro de quem eu sou, nem nada antes daquela voz. Só quero ficar aqui. Onde será que é aqui? Não importa muito. Está confortável. Não tem nada acima nem abaixo de mim. Só um grande nada ao redor. Nenhum vento, nenhuma sensação. Só o vazio e o silêncio. Tão calmo que eu poderia dormir. Ou será que eu já estou dormindo? Não importa, nada mais importa. Não sei quanto tempo estou aqui, e nem ligo.

Sinto um movimento pequeno nas minhas costas. O que é isso? Algo está atrapalhando meu descanso, eu só quero descansar. Outro movimento, um pouco mais forte, move um pouco meu ombro também. Que estranho. Agora tem algo ao meu redor. Água? Talvez. Algo toca minhas pernas, lentamente me envolvendo como uma camada extra. Se enrola nos meus braços, nos meus cabelos soltos, no meu peito e cintura, completamente nus. Olha, tem alguma coisa pendurada no meu umbigo, não faço ideia do que seja. Pensando bem, acho que sempre esteve aqui.

Minhas pálpebras tremem, como se fossem abrir. Que desconforto. Aos poucos, consigo abrir os olhos. Arde um pouco em contato com a água, mas não é nada doloroso. Tudo está tão escuro quanto antes, como se eu ainda estivesse de olhos fechados, mas meu corpo está querendo se movimentar, devagar. Primeiro a ponta dos dedos, depois as mãos e os pés. Quando tento movimentar os braços, esbarro em uma barreira rígida ao redor. Com a ponta dos dedos, exploro a textura do material. É perfeitamente lisa, sem nenhum tipo de rachadura ou qualquer oscilação. Está perfeitamente fechada ao meu redor, em todos os lados. Não há uma saída. Antes era bom, mas eu gostaria de ter um pouco mais de espaço, para esticar as pernas, os braços.

Bato com as duas mãos de leve, para ver se acontece alguma coisa. Nada. Bato um pouco mais forte e espero. Sem resposta. Talvez seja melhor eu ser um pouco mais ousada? Está ficando realmente desconfortável ficar dobrada. Dou um soco razoável na parede. Imaginei que fosse sentir alguma dor na mão, mas ela não veio. Em compensação, acho que ouvi alguma coisa do lado de fora. Foi tão fraco que pode ter sido minha imaginação, mas resolvo tentar de novo, com mais força. Definitivamente tem algo do lado de fora. Não reconheço os sons, mas alguma coisa está se movendo lá.

- Dýnami, paidí.- é o som de uma voz humana. Não faço ideia do que significa, ou qual idioma seja, mas o som dessas palavras ultrapassa a grossa barreira que me separa do exterior, e reverbera suavemente na água ao meu redor, como se me encorajasse.

Finalmente, começo a sentir os efeitos da falta de ar para respirar. Como fiquei tanto tempo fechada sem ar? Não dá pra pensar nisso agora. Preciso sair daqui. Meu pulmão começa a reclamar oxigênio, mas no meio dessa água toda, fica difícil. Ainda tem essa coisa enrolada em mim, cheia de textura, como uma alga gigante. Começo a bater na parede com força, na intenção de quebrar a barreira, mas ela é tão dura, parece ser grossa. De qualquer forma, meu punho ainda não dói, então forço cada vez mais, de acordo com o que o espaço limitado me permite. Do lado de fora, um som grave, forte começa a ganhar força. BUM, BUM, BUM. Quanto mais eu bato, mais o som aumenta em volume e em força, como se estivesse ecoando meus movimentos. Finalmente a barreira começa a rachar, e meu coração se enche de esperança. Bato com mais força ainda, usando tudo o que tenho. A agonia da falta de ar, o desconforto nos músculos, o escuro. Tudo me impulsiona para sair, meu corpo precisa desesperadamente disso. Coloco toda a força do meu ser nos punhos, e bato os dois juntos para cima, no alto da cabeça. O som externo atinge seu ápice. A luz entra no meu casulo, implacável. É um buraco pequeno, apenas do tamanho dos meus pulsos, mas é um buraco! Com uma mão de cada lado, forço mais a abertura que está bem mais frágil, e finalmente me levanto, inspirando o ar como se estivesse me afogando lá dentro.

- Kalós ílthate, kóri mou! 



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