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História Os Corvos - Capítulo 3


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Notas do Autor


Oi. Como já disse. Esta história possui alguns capitulos já feitos, por isso as atualizações não demorarão.

PASSADO

Capítulo 3 - Noite de Corvos


Sentido inúmeras pontadas dolorosas no profundo de seus ossos, Wei WuXian continuou a correr. Vespas imaginárias ferroavam mil vezes por segundo suas pernas e dentro de seu pulmão começava um incêndio pior que o da Califórnia, Londres ou Roma. Claro, era uma hipérbole. Não haviam chamas laranjas que engoliam a escuridão da noite, não; somente o pulmão queimava sem fogo no centro de seu corpo. Wei WuXian dava a terceira volta ao redor da longa pista de atletísmo. Até sua cabeça estava zonza, pesada, na sua visão ele estava em uma curva eterna. Naquele dia seu treino foi intenso. Tão intenso que sua garganta ardia como se um ácido tivesse descido por ela.

Mas para ele, não podia desacelerar. Se ele não conseguisse se superar, então ele não merecia vestir aqueles tênis tampouco suar sobre o laranja da pista.

Formas distorcidas passavam aos saltos rapidamente ao seu lado. Sua cabeça voltada para a frente. Logo seu corpo esguio chegou até a marcação branca no chão e ele desacelerou gradativamente após ultrapassá-la. Mais uma semana e os treinos seriam cronometrados.

Ao se preparar para uma quarta volta, o treinador o chamou e disse:

"Calma que você não está treinando para as olimpíadas! Garoto, você não quer se matar, quer? Anda, vá tomar um banho e descanse", deu uma sequência de tapas em seu ombro e se afastou.

Mesmo contra sua vontade, Wei WuXian foi obrigado a sentar no banco pintado de azul fosco para controlar a respiração. Seu corpo estava suado por inteiro, as gotas caíam; poderia ser descrito como lágrimas de seus poros de tão abundantes. Seu peito subia, descia, subia, descia, isso inúmeras vezes.

"Um dia você ainda irá se matar!", Wen Ning jogou uma garrafa d'água para o colega, "pra quê tanto exagero?"

Wei WuXian sorriu. Com os ofegos, soou mais como  se estivesse fungando. Ele virou para o rapaz vestido com a jaqueta do clube e disse: "como acha que mantenho meu belo corpo atlético?"

"Existe muitas formas que não envolvem tortura"

"Não é uma tortura, eu gosto de correr", respondeu. Esperou a respiração se tornar menos agressiva para beber metade da garrafa, "gosto de ser o mais rápido"

Wen Ning soltou uma gargalhada, "gosta é de ser o aluno mais odiado!"

Balançou a cabeça repetidas vezes.

"Não, deixo isso para o Jiang Cheng", soltou, "e o sobrinho do diretor. A mim, a maioria ama"

"Ah, Lan Wangji, né?"

O garoto sentado no banco fez questão de confirmar com a cabeça.

"Esse mesmo. Aquele velho chato vive exibindo esse moleque como se ele fosse o melhor garoto da escola e nós uns meros mortais que nem se reencarnassemos poderíamos nos comparar a ele"

"Tecnicamente ele é", Wen Ning sentou ao lado de Wei WuXian no banco. O último bebeu a garrafa inteira fazendo Wen Ning soltar um "wow"; o rapaz pareceu ter lembrado de algo, estalou os dedos e apontou para WuXian, "Cara, você tem alguma coisa a ver com a expulsão do Wen Chao? Deu até policia!"

Sim, um dos alunos infernais, que por alguma razão estavam naquela escola, foi expulso. Wen Chao; por um motivo grave, tão grave a ponto dos alunos até evitarem mencionar.

"Não. Você sabe quem foi; Jiang Cheng, o único", Wei WuXian disse como se falasse de um exemplar de revistas pornograficas qualquer. Não dando a mínima importancia ao nome. Encolheu o ombro e apontou o rosto para Wen Ning, "Mas o caso foi sério"

"E se foi!"

"Mas o desgraçado teve o que merecia"

Depois de meia hora de conversinhas e mais conversinhas, Wei WuXian caminha até o banheiro. Estava vazio. Somente Wei WuXian sobre os azulejos esbranquiçados. Retirou seu uniforme suado e o guardou para a lavagem no local adequado.

Ao ter sua barriga e pele pálida exposta, Wei WuXian desceu os olhos para as marcas roxas e avermelhadas em seus braços, barriga, coxas e partes da costa. Sua mão esbelta subiu até seu pescoço para avaliar os hematomas em sua clavícula, na lateral do pescoço, abaixo do queixo esculpido em mármore; a ponta dos longos dedos deslizaram por sua pele de quartzo branco e pararam nos sinais de mordida do lado de seu peito. Demorou um tempo analisando seu corpo. Nos olhos não havia nada além de um vazio momentâneo.

Mordeu o lábio inferior, sentiu uma dor aguda ao fazê-lo; um ponto arroxeado minúsculo se disfarçava no canto. Somente os mais atentos conseguiam enchergá-lo ali, miúdo e camuflado nos lábios naturalmente avermelhados de Wei WuXian.

Suspirou após puxar sua toalha branca e felpuda do armário. Fechou-o com força na esperança do som metálico das portas poderem trazê-lo de volta a realidade. Bom, de qualquer forma sua testa suada e  sua mão repousou no metal gelado do armário por alguns minutos. O ar quente saia por sua boca e embaçava bem leve a superfície da porta. Depois piscou várias vezes e caminhou até o chuveiro.

Seria poético, clichê e errado dizer que a água lavou seus problemas, ela não o fez, pois as marcas continuavam lá, impossíveis de serem lavadas com água e sabão; porém de fato a água amena descia por seus membros e cada centímetro de seu corpo relaxava pelo menos um pouco.

Suas esferas de vidro não conseguiam desgrudar da marca de mordida em seu peito. Mesmo após esfrergar o sabonete tantas vezes até ficar vermelho o desenho mais avermelhado de cada dente continuava sobre sua pele. Todo o corpo estava envolto da nuvem branca e cheirosa formada por milhares de minúsculas bolhas, assim como as manchas temporárias. O chuveiro foi ligado outra vez e os pingos de chuva artificiais desceram sobre sua pele e levaram a nuvem de espuma pelo chão.

Durante o banho, quando a consciência já está limpa —  ou mais ou menos —  parece que um novo corpo está sendo formado no processo. Ao sair do banheiro, vestido e penteado, parece que nasceu um novo ser humano.

Wei WuXian ao sair do banho não se sentia dentro de um novo corpo, mas como se seu corpo fosse somente momentaneamente restaurado. Como um carro ou um utensílio qualquer que muitas vezes volta ao conserto apenas para mais tarde ser quebrado outra vez, até estar desgastado demais que nada, nenhuma peça possa ser aproveitada, então ele é jogado fora e outro assume seu lugar. Era assim.

Sua mesma mente num corpo restaurado.

Após se vestir, pegou suas coisas, sua mochila, do armário e saiu do vestiario masculino. Ela estava mais leve que o normal.

Caramba, preciso fazer as compras do mês. Droga, deveria ter demorado menos no banheiro, certeza que vou me atrasar outra vez. Não! Drogra! Droga, que merda, hein! Wei WuXian você não lembrou do seu próprio caderno embaixo da carteira?

Infelizmente precisou voltar a sua sala de aula. No entanto, no corredor, pátio ou cantina não se encontrava nenhuma viva alma vagando. O céu estava num tom azul escuro, como o azul que banha o que no mapa se chama de Oceano. As luzes do teto de gesso ganharam um tom mórbido no corredor silencioso onde Wei WuXian caminhava, elas podiam até piscar, o som de seus sapatos soava no piso vinílico como se não pertencessem a ele.

Como demorei tanto assim no banheiro?

Assim que seu corpo ultrapassou uma porta de madeira marrom, onde lia-se biblioteca, ele ouviu um rangido arrastado vir de trás. Virou imediatamente e viu a porta ser fechada lentamente e um garoto com dois livros em mãos ficar parado em frente a ela. Era ele. Uniforme impecável, postura ereta, cabelo penteado e um rosto esculpido por Michelangelo, ou que nem ele conseguiria esculpir ou qualquer escultor clássico. Ele, Lan Wangji.

Wei WuXian oscilou entre um passo a frente e um para trás. Passou quatro segundos para decidir se era educado ou dava as costas e saía, afinal, seu caderno ainda estava desaparecido.

"Por que ainda está aqui?", o garoto mal havia virado quando a voz grave e fria de Wangji soou.

"An…", ele deveria responder ou só ignorar? Já que aquele pirralho parado no meio do corredor era tudo o que ele menos gostava; além de ser o responsável por inúmeras vezes lançá-lo na suspensão pelo mínimo motivo. "Estava no treino, agora preciso pegar meu… caderno, que eu esqueci… na sala", respondeu e forçou um sorriso preparado para virar outra vez.

"Não há mais nada lá", falou com o rosto longe de olhar para Wei WuXian. O seu rosto e corpo era iluminado pela luz que vinha de cima, Wei WuXian deslizou os olhos do rosto do garoto até as mãos do mesmo onde parou; os livros segurados eram volumosos e não pareciam se tratar de literatura. Novamente as poucas palavras de Lan Wangji despertaram WuXian, "Se quiser, posso te entregar amanhã"

Qualquer oração proferida por Lan Wangji não possuia ondulação alguma. Como seu rosto, indiferente, frio, nêutro.

Tudo o que Wei WuXian menos precisava era de um motivo para cruzar com Lan Wangji na manhã seguinte; se seus dias já não tinham um bom começo, então ao dar de cara com uma face inexpressiva feito rocha nos primeiros minutos de aula só podia significar mal presságio para as dezesseis horas restantes.

Dualidade: aceitar e não perder mais tempo —  ganhando assim alguns minutos para chegar em casa mais cedo —, ou negar, perder minutos valiosos, mas evitar o robô humano na manhã seguinte.

O que ele fez no momento em que pensava melhor na resposta era um hábito perigoso, morder o canto do lábio inferior. Mas acabou soltando com um 'ai' silencioso. Wangji virou em sua direção, o queixo minimamente erguido, os olhos perdidos em algum lugar do corpo de Wei WuXian.

"Bom, tudo bem", respondeu. "Nos vemos amanhã então. Boa noite", acenou de leve com os dedos e se afastou.

Wangji o oberservou até perdê-lo de vista ao virar no canto do corredor.

Do lado de fora, ninguém era avistado perambulando, claro, apenas Wei WuXian numa correria até a parada de ônibus a poucos metros do portão da escola. Mesmo com o celular em mãos, enquanto aguardava o ônibus passar — de pé sob a estrutura de ferro curvado da parada —, não poderia avisar nenhum conhecido sobre as coisas que precisava fazer antes de retornar para casa. Afinal, nenhuma das pessoas que vivia sob o mesmo teto que Wei WuXian possuía um celular.

O que restava era esperar que o trânsito não atrapalhasse e que a preocupação não fosse grande demais.

Na sua lista de conversas recentes, acima da última mensagem e do lado da foto, não havia nomes e sim o número somente. O aplicativo sempre perguntava: "adicionar ou bloquear"; nunca era adicionado aos contados, mas Wei WuXian tinha por costume bloquear vários números. Quando já não era útil.

'Quero te ver outra vez', Wei WuXian leu a mensagem com um nítido desdém em seus olhos. Só em seus sonhos. Mais um número bloqueado e excluído.

'Está tudo bem com você', outra. Nessa Wei WuXian ficou dez segundos analisando suas opções. Frase genérica para uma conversa. Bloqueou, assim como outro que sempre ligava, a todo momento.

Antes que pudesse, por pura vontade, abaixar a tela do celular, um ônibus vermelho cheio de luzes parou como de costume no local. Barulhento e bufando. Wei WuXian entrou e se sentou nos fundos, num assento bem escondido. Só via as costas de três pessoas, fora o motorista. Passou boa parte do tempo com a cabeça elevada enquanto pensava.

Isso até um grupo de três meninas se sentar a sua frente. Duas delas viraram em sua direção apenas por virar e soltaram risinhos. Wei WuXian conseguia ouvir a conversa que não lhe interessava.

"Sério? Ele te pediu em namoro?"

"Sim. Foi lindo! Saímos para jantar várias vezes, ele é tão fofo e carinhoso"

"Ah, bem que meu namorado poderia ser assim, não que eu esteja reclamando, ele é bem carinhoso, mas peca no romance"

"Passamos o verão juntos. Fomos para praia e lá nos apaixonamos"

"Que fofo…"

"Não é? O amor é tão lindo"

Wei WuXian direcionou o rosto para a janela e afundou as costas no banco, seus olhos se perderam nas cenas que se desenrolavam por fora do vidro, até seu celular vibrar e outro número ser bloqueado. Do lado de fora pontos luminosos vermelhos, azuis, amarelos e brancos piscavam e apareciam no cenário noturno da cidade. Durante a viagem, vários grupinhos se reuniram em alguns assentos e começaram a conversar e sorrir.

Em pouco tempo apareceram na noite as luzes de neon dos letreiros conhecidos por Wei WuXian. A enorme estrutura brilhava com todas as lâmpadas ligadas, mulheres, homens e crianças saíam com seus carrinhos cheios de sacolas pardas de papel e seguiam até seus carros no estacionamento bem cuidado e demarcado por linhas brancas.

Ao descer na parada em frente ao mercado, Wei WuXian vislumbrou um grupo de adolescentes fumando na calçada de uma loja do outro lado da rua. A fumaça omitia seus rostos, mas eram rapazes melancólicos e abatidos com bonés pretos, calças rasgadas e tênins surrados. Na camiseta o desenho de uma caveira, o simbolo de uma banda conhecida.

No mercado, comprou mais do que pensava precisar. Sem perceber, já estava pensando em prioridade de outras pessoas acima das suas. Quando estava prestes a ir ao caixa avistou a prateleira de brinquedos. Juntou um dinossouro no meio das compras e, após pagar, foi obrigado a chamar um táxi.

Pode ser que, comparada a todas as outras casas dos demais colegas, a casa de Wei WuXian era velha; mas chamá-la assim ainda era inadequado, pois de fato a estrutura era antiga, porém, mesmo abrindo as portas para outra era, todas as paredes e cada centímetro era conservado. Aquela era uma casa tradicional. Wei WuXian abriu o portão gradeado e a porta estreita da frente.

Assim que pôs os pés no piso interno, um corpo pequeno e rápido como um coelho surgiu do nada e se jogou em seus braços. A mochila caiu. As sacolas das compras estavam no chão do lado de fora esperando serem carregadas para dentro.

"Você é pesado, sabia?", Wei WuXian carregava o garotinho que não queria se soltar. "Se continuar se jogando assim em mim, um dia vai me esmagar", com uma mão Wei WuXian começou a fazer cócegas no pequeno.

Yuan sorriu e se contorceu no abraço, "você é mais pesado!", respondeu.

"Nada disso, veja como você é gordo!"

No meio da brincadeira, Yuan viu uma das marcas no pescoço de Wei WuXian e imediatamente perguntou assustado: "O que foi isso? Bateram em você? Está doendo?"

Nesse mesmo instante Wei WuXian sorriu e pôs o garoto no chão, então ergueu a gola de seu uniforme com os dedos. "Não, não é nada. Ei, Yuan, me ajude a guardar as compras, se me ajudar eu te dou um presente"

Ao ver que o outro estava bem, Yuan sorriu e começou a ajudar com as sacolas. Após tudo ser feito, e Wei WuXian presentear o garoto com o brinquedo, ele se abaixou sobre os joelhos e passou as mãos nos fios lisos e escuros da criança cheia de risos e adimiração com o novo companheiro. Após alguns segundos de observação, Wei WuXian diz:

"Ei, não fale nada sobre isto para a vovó, não vamos querer preocupá-la, né?", pediu com um sorriso.

Yuan interrompeu sua sequência de rugidos que fazia enquanto balançava o dinossauro. "Sobre as marcas?", ele franziu de leve as sobrancelhas, Wei WuXian assentiu, "como você se machucou?" 

"Eu caí", disse.

"Por que você sempre cai? Está doente?"

"Eu sou desastrado, você sabe, é por isso que eu caio o tempo inteiro", fez uma curva fina surgir em seus lábios, "não conte, estamos entendidos? É o nosso segredo"

"Tá bom. Olhe por onde anda pra não cair demais e continuar se machucando"

"Vou tentar"

Wei WuXian deixou o menino brincar despreocupado na cozinha e foi para seu quarto. A escada que levava até o andar superior era estreita e toda revestida por madeira escura. O corrimão era cilíndrico. Sem olhar ao redor, se apressou em retirar seu uniforme, escolheu no meio de suas roupas um suéter gola alta cinza e vestiu. Penteou seu cabelo ondulado como de um bom rapaz e procurou qualquer defeito aparente para disfarçá-lo. Só então, após suspirar, foi até o quarto de sua vó. Uma senhora de idade avançada que mal podia sair da cama.

"Vó?", perguntou na porta, "está tudo bem?"

Sobre a cabeceira da cama um ponto preto cheio de penas saltitava de um lado para o outro. Ao ouvir a voz de Wei WuXian vir da porta ele disse, grave e roucamente: "Certo, certo. Hrun… Esqueça", o corvo a cada dia que passava tornava aquelas palavras seu canto característico. Então fez alguns sons graves e pousou sobre os lençóis brancos onde os cabelos grisalhos se espalhavam.

Embora o corvo estivesse no quarto de sua vó, ele pertencia a Wei WuXian. Ele era fascinado pela ave, a inteligencia e capacidade desse pássaro negro deixava Wei WuXian admirado. Cada vez mais. E naquele momento a bola de penas negras repetia seu canto outra vez.

"Hum?", a cabeça da velha ergueu levemente e seus olhos estavam espremidos. Parecia estar procurando a voz do garoto, "WuXian? Por que demorou?"

"Fiz compras"

Wei WuXian pensava sobre questões aleatórias durante a noite. Quase todos os dias ele se atrasava um pouco, poucas vezes era culpa das compras ou de tarefas fundamentais fora das aulas, a maioria era culpa de Lan Wangji. Se esse garoto fosse menos certinho, Wei WuXian tinha certeza que a convivência dos dois seria pacífica, mas ficar depois da aula refletindo sobre seus erros era a pior forma de tratar alguém.

Uma vez, o professor pediu ao único aluno sério e 'incorrupitível' — tão incorrupitível quanto Robespierre, de acordo com WuXian — da sala para vigiar Wei WuXian por alguns minutos. A estátua humana de mármore estava sentada numa das cadeiras da frente, com os olhos voltados para as páginas de um livro e os ouvidos bem atentos para qualquer ruído feito por Wei WuXian.

Entre os dedos delgados e longos de WuXian um lápis subia e descia sobre a mesa. O ventilador de teto rodopiava, a sala estava silênciosa ao extremo. Com o barulho do lápis, Lan Wangji elevou os olhos das páginas amareladas até onde Wei WuXian estava sentado de maneira desleixada com o tornozelo sobre o joelho. As esferas douradas de Wangji eram profundas, penetrantes, como se agulhas geladas entrassem em cada poro.

"Posso te fazer uma pergunta?", Wei WuXian começou jogando a cabeça para trás. Ele esperava que Wangji dissesse algo como 'já está fazendo', porém ele era um rapaz educado e tal resposta não combinava com seus modos minusciosamente graduados.

"Se você deseja…", disse.

"Você não acha sua vida chata?"

"Defina chato", Lan Wangji pediu indiferente.

"Desse modo. Estudar, estudar e só estudar. Sabe, nunca te vi fazendo nada que não fosse ler e estudar. Você nem sai de casa, eu acho", Wei WuXian falou. Retirou o pé de cima do joelho e o jogou no chão. "Isso parece bem chato. Eu acho bem chato!"

Após um tempo refletindo, Lan Wangji voltou a olhar Wei WuXian outra vez, "sua vida é divertida?"

No mesmo instante Wei WuXian sorriu e repondeu: "defina divertido", Wangji estreitou de leve as sobrancelhas e abaixou o olhar para o livro, ignorando Wei WuXian, que disse "Certo, certo, esqueça isso". Suspirou. "Divertida não sei. Tudo fica chato com o tempo, mas eu acho divertido por enquanto"

Wangji o encarou por um longo tempo. Depois de espremer os lábios num movimento pouco notável e contrair o canto direito, abaixou os olhos que logo ficaram perdidos entre as letras do livro, elas se tornaram estranhamente embaralhadas em sua cabeça.

Em sua cama, deitado de lado, coberto até o pescoço, Wei WuXian recordava desse dia. Seu rosto direcionado para a janela aberta, por onde uma brisa fria adentrava, mas seus olhos não se encontravam focados em nada ali, nenhum dos móveis, e sim numa imagem inexistente que se projetou em sua mente.

O corvo sobre a cômoda grunhiu ao ver Wei WuXian se movendo de maneira estranha por baixo dos lençóis.


Notas Finais


E sim, corvos podem imitar e são muito inteligents.

Lembram do corvo misterioso do Nevermore? Rsrs
Espero que ler ajude na quarentena né. Beijinhos.


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